Terça-feira, Julho 19, 2011

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Numa consulta bianual de rotina, na linha de montagem de uma salinha minúscula de uma oftalmologista indiferenciada, num hospital privado qualquer nos subúrbios da cidade, a médica não perdeu mais que três minutos a espreitar por uma lente potente os meus olhos, emoldurados por gigantescas pestanas encaracoladas.
Congratulou-se pela acuidade de ave-de-rapina que ainda traziam mais de três décadas depois de se terem expandido pela primeira vez com a claridade de um dia capicua de Julho, espantou-se depois, por breves instantes, com os mil cristais que existem nos olhos azuis da minha filha que lhe transmutam a cor com recurso a toda a paleta do arco-íris conforme os seus estados de alma.
Voltou aos meus, castanhos da cor do mogno, iguais a tantos outros que haviam passado por ali desde o início da manhã, e deixou o alerta para a vigilância apertada em relação ao sinal de sangue que se colou à íris do meu olho, como um apêndice, há tantos anos como aqueles que trago em mim, desde aquele dia do calendário gregoriano em que um dois se colou a outro dois num ido sétimo mês. E garantiu que, fosse esse o meu desejo, um mero procedimento em ambulatório restituiria a candura ao globo ocular do meu olho direito, como uma borracha humedecida pela ponta da língua.
Poderia ter dito à médica indiferenciada, no hospital privado qualquer do subúrbio da cidade, que partilho o sinal de sangue com a mulher de quem herdei o formato e a cor dos meus olhos, o sobrolho levantado em sinal de quem não está a gostar do rumo da conversa, o olhar grave e por vezes distante, o beicinho proeminente de quem tem sempre alguma coisa a dizer sobre todo e qualquer assunto, o corpo obscenamente arredondado em forma de pêra, o fascínio por coisas brilhantes e bonitas, e, provavelmente, sem lhe chegar aos calcanhares, qualquer coisa da genialidade desse ser maior, de seu nome Isaura.
Poderia ter posto mais achas à fábula e dizer-lhe que apesar de ter nascido sessenta anos depois de Isaura uma coisa incrível aconteceu entre avó e neta, porque eu trouxe em mim o mesmo sinal que ela tinha tatuado no olho direito.
E a história ganharia contornos sobrenaturais quando eu desvendasse que Isaura não nascera assim, como eu, que só se vira marcada de sangue por ter picado o globo alvo, branco como a mistura de todas as cores, nos anos 30, numa roseira no jardim de uma casa senhorial do Barreiro que o seu pai, António, teimara que um dia havia de oferecer à mãe quando veio para junto do Tejo secar bacalhau sob o olhar atento dos golfinhos que ali animavam a paisagem. Ou assim me contaram – se calhar é lenda, foi história inventada para eu poder agora estar a escrevê-la sem detalhes. A do espinho, da roseira, da Quinta das Canas, a praia de Copacabana no Barreiro.
Mas herdei também o tom teatral do meu pai, que hoje não está comigo, apesar de fazer 59 anos. E que está aqui comigo, neste momento, ao meu lado.
Disse: é natural que o sinal ali esteja e que seja, passo a redundância um sinal de tudo o que havia de se passar na minha vida. Lamento, mas não há fogo algum que o queime, não há feixe de luz que o apague por magia.
Ele está ali, no sítio onde está, nem mais abaixo, nem mais para um lado ou para o outro, para que todos os dias eu me lembre que já vi demasiado, que eu nasci porque havia de ter que ver tudo de bom e tudo de mau.
Riu-se. Tem nome a patologia. Está descrita, disse a médica indiferenciada no hospital privado qualquer no subúrbio da cidade. Tem tratamento, acredite, o laser de que falei. É muito simples, indolor, caso queira podemos marcar ainda esta semana.
Pois fique com a sua, e eu fico com o humor vítreo do meu olho direito intacto, e com a certeza de que tenho um sinal de sangue porque já vi demasiado. Talvez mais do que poderia aguentar. Por vezes, sinto que foi mais do que eu podia aguentar sem ter que viver com os dias com o reflexo do espelho a lembrar-me, no olho direito, que descaiu um pouco face ao esquerdo, que já vi demais.
Seguramente, vi mais do que a maioria se poderá gabar de ter visto a vida inteira. Vi tudo aquilo que me estava destinado. Nada mais, nada menos. E não vai parar por aqui, sei-o bem.
Por vezes, senti-me a cegar da brutalidade das coisas que já vi.
À noite, quando tenho os olhos bem fechados, e consigo até distinguir do zumbido agudo do silêncio o lamento do frigorífico na outra ponta da casa, por vezes volto a ver o que nunca devia ter visto. O que gostava de não ter visto, e que me ensanguentou a vista como uma ferida aberta que não sara.
Mas há também o clarão de beleza de tudo o que já me foi dado a ver. Por estes olhos.
Mas eu já vi demais. Lamento tantas vezes o meu fado.
E o sinal de sangue sempre ali, uma pinta encarnada perfeita fundindo-se com o castanho do meu olho direito, a lembrar-me todos os dias aquilo, tudo, que já vi. Como uma tatuagem.
Sou constantemente perseguida por sequências de 16 a 24 fotogramas por minuto (quantos fotogramas haverá num sonho a dormir e quantos há num sonho acordado?). E se acordo a gritar pela minha mãe – e é sempre pelo nome das mães que chamamos num momento de maior aflição –, a meio da noite, torcida no sofá, é porque, até de olhos fechados, eu vejo mais do que devia e queria. Porque eu vejo até o que não me foi dado a ver, e o que me foi deliberadamente ocultado por ingénua protecção. Como um superpoder, um dom que vira maldição.
Eu vi um revólver Smith & Wesson, calibre 38, o S enrolado no W, à cabeceira de um octogenário. Vi tudo por detrás da porta e, por vezes, vejo tudo sempre a mesma, atrás da cortina de voile branco, que afasto com a mão, como quem espreita pelo buraco da fechadura. E de todas as vezes que o vejo, falho sempre, e não consigo impedir o disparo. E acordo a gritar pela minha mãe.
Agora, mais recentemente, vejo, dia sim, dia não, árvores mortas e um mato de ervas daninhas, ruínas assombradas e um lago cheio de peixes cor-de-laranja mortos, a boiar, num recanto onde os golfões de água não chegaram a cobrir as águas – que vêem tanto como eu – de vergonha.
Antes disso, vi o meu corpo a expulsar um filho tão amado, tão desejado, na casa de banho imunda de um qualquer hospital privado, este não no subúrbio mas sim no centro da cidade, e vi também a cegueira dos olhos brancos de um qualquer obstetra indiferenciado, quando lhe mostrei, desesperada, um papel ensanguentado com o meu filho morto, e soube que ele não veio, nem virá a ser marcado com um sinal de sangue no olho direito.
Sorte dele, mas não me venham dizer que há uma máquina que apaga a marca de sangue que vive e cresce no meu olho direito.
Sexta-feira faço 33 anos, a capicua perfeita e que só será superada pelos 77, que não sei se chegarei a ver nesta terra (há cláusulas escondidas e escritas a tinta invisível a quem é dado tudo a ver por apenas dois olhos; e é bom que me habitue às regras do jogo, que podem, a qualquer altura do caminho, ser alteradas).
Vi o meu corpo expandir-se até quase aos cem quilos, carregando no ventre estriado os meus dois filhos – e eles são a coisa mais bonita que eu já vi nesta vida. Da primeira vez que os vi, a ambos, os meus olhos – podia jurar que assim foi – não suportaram tanta beleza e choraram as lágrimas mais felizes.
Vi-me humilhada, enxovalhada, vi pérolas deitadas a porcos imundos. Vi um destino fabuloso a escorregar-me, como pau ensebado, à frente de uma vista cansada e marcada de sangue que já viu demasiado.
Vi a minha mãe envelhecer ao meu lado, vi-a vergar-se como um bonsai perante a adversidade – árvore que verga não parte, assim me contou ela, e é por isso que partilhamos o amor por quem morre sempre de pé. E por quem larga raízes fundas por onde passa.
E vi como ela me defende dos demónios que nunca supôs que se atravessassem à minha frente, protegendo-me sempre, primeiro a mim e depois aos meus, dos grandes estrondos que rebentam a distâncias demasiado próximas de nós, soltando estilhaços afiados. E ela, colocando-se sempre à frente do estoiro, com o seu escudo de guerreira celta, de olhos muito azuis já turvos, de quem viu também mais do que uma vida podia ver, testa enorme, e molares pronunciados.
E aprendi como se faz, como ela faz, porque ninguém faz como ela, porque um dia terei que fazer de embondeiro como ela sempre fez por mim, desafiando os deuses e levando os filhos em segurança ao céu, ou onde eles quisessem ir. Se for preciso, até ao Inferno. Como ela fez, como ela faz sempre que o infortúnio se atravessa à minha frente.
E dando-me depois a mão, sempre ao meu lado, cantando comigo sem vergonha para quem quiser ouvir, quando caminhamos juntas até às portas do paraíso. E já lá estivemos bem perto, tão, tão perto.
Vi-me envelhecer, os fios longos de cabelo tingirem-se de branco e quebrarem-se pequenas rachas na porcelana outrora fina do meu rosto. Eu vejo tudo, tudo mesmo. Pressinto o nascimento das flores e vejo-as brotar a cada segundo que passa. Vejo diariamente as minhas mãos a deformarem-se mais um pouco numa precoce herança de doença óssea da família beirã, desconfiando que já é tarde para aprender a tocar piano.
E, todas as manhãs, vejo através do amor o que há de mais belo nesta passagem. E o sinal do meu olho direito também está lá para me lembrar.
Acordo a contragosto, muitas vezes depois de ir atrasando a hora, em intervalos de cinco em cinco minutos, e fico ali parada, o sol a cegar, da janela, imagino os melros e os pintassilgos que não vivem lá fora e fico a olhar para o grande amor da minha vida.
O gato Pi geralmente vai-me mordiscando a mão que lhe afaga a cabeça, e o João, a dormir como um anjo, do lado direito da minha cama, sempre colado a mim, como o meu sinal de sangue.
Eu já vi demasiado, bem sei.
Mas o melhor ainda está para vir.

Sexta-feira, Novembro 12, 2010

the end

Um dia acordas e estás sem palavras, esgotaram-se as histórias e os teus sonhos não começam mais por era uma vez.

Mesmo assim, continuas a gastá-las todos os dias, saem-te da boca para fora, só que agora já não brincas com elas, não as vês como um gigante puzzle ou quebra-cabeça que vais conseguir dobrar porque és brilhante, porque sempre conseguiste ordenar o caos e dele fazer qualquer coisa dolorosamente bela. Agora, garantes serviços mínimos, e usas as tuas palavras apenas para vender empresas e produtos, e nem tudo é mau, talvez nem tudo esteja perdido, porque ainda as consegues usar diariamente – antes, elas é que te usavam a ti, aí reside a grande diferença –, e convences sempre, aqui e além, alguém um pouco mais distraído, que é mesmo assim como estás para aí a dizer (nunca é) porque tens que ganhar um salário, para pagar as tuas contas, para dar o melhor aos teus filhos.

(estás tão crescida, nunca achei que te saísses tão bem, apesar dos pesares)

Da tua garganta continua a sair voz, e continuará sempre - mais ou menos sibilante, mais ou menos estridente ou exaltada -, apesar de há muito que dessa voz não saia música. Nada. Silêncio absoluto, apesar de a voz continuar lá e de as palavras também permanecerem por lá guardadas não sei onde.

O processo é idêntico, pensas, enquanto fazes apostas sobre o que virá a seguir – as letras amontoaram-se em palavras e antes de as palavras te terem chegado num momento da maior aflição e, portanto, da maior clarividência, eram as notas, soltas, que teimavam em juntar-se à revelia e faziam comícios mesmo quando estavas de lábios cerrados.

Um dia acordas e não queres mais cantar.
Muitos dias depois, acordas e não queres mais escrever.

Por muitas voltas que dês, é assim que se processa contigo. Todos os dias, sem excepção, matutas nisto – que houve uma voz que, primeiro, te sussurrava cantigas, que, depois, evoluiu para as lenga-lengas, e mais tarde que te ditava contos. E que há muito tempo que não ouves vozes, que a voz (foi sempre a mesma) se calou para sempre, partiu e não há-de voltar.
E a ideia vai ganhando cada vez mais sentido, vai-se pondo cada mais a jeito, avançando um pouco mais junto ao precipício para onde há-de inevitavelmente cair – que não vais mais escrever tal como nunca mais cantaste. E que alguma coisa há-de surgir entretanto. Talvez.
Enquanto esperas fazes renda. E usas as palavras apenas para ganhar a vida. Ainda ordenas o caos, mas sem a mestria de antigamente.
E faz-se silêncio, os maxilares cerram-se por vezes com tanta força que, quando é hora de dizer vamos jantar, vamos vestir, vamos sair, até estalam junto à orelha por se terem desabituado de estar noutro estado que não o de sentinela.

Mas faz-se silêncio absoluto, porque assim talvez oiças alguma coisa a chegar.

Alguns suspiram de alívio e alvitram que estás mais sã, com os pés assentes na terra. Já não és nova. Tens o cabelo coberto de fios brancos. Há linhas que percorrem os teus olhos, o canto dos teus lábios. É tempo, portanto, de deixar ouvir vozes fantásticas que te ditam coisas, que te ensinam canções. Há contas para pagar. Há impostos a declarar. Há filhos que dependem de ti para tudo – sobretudo para dormir serenamente, com a respiração pesada, num quarto forrado com papel de parede pintado por anjos.

E não há sequer um pesar, um lamento, um choro miudinho enquanto molhas o cabelo no duche e, se calhar, também isso acabou, se calhar nunca mais vais chorar enquanto molhas o cabelo que já cobre todas as tuas costas.
Um dia acordaste e simplesmente não conseguias mais escrever.

Sexta-feira, Abril 23, 2010

O Inspector

Sinto muito a sua dor, começou por dizer o inspector através da ligação de telemóvel que atravessou o rio, que galgou a Baixa Pombalina, e que desceu as escadinhas do metro, abalroou a multidão até às profundezas do cais de embarque.

Eu espero que não a sinta mesmo, que seja apenas uma frase de circunstância, Inspector. Desculpe-me se o ofendo, agradeço-lhe de qualquer forma, mas livro-o desse fardo, de querer sentir a minha dor.

É que eu venho trabalhar todos os dias, eu obrigo-me todos os dias a vir trabalhar.

E fico pacientemente à espera da terceira porta da primeira carruagem no átrio do Intendente, sentido Cais do Sodré, bem atrás da linha amarela de segurança. E eu não sou a mesma desde aquele dia, eu temo nunca mais vir a ser a mesma.

Eu fico atrás da linha amarela e penso no dia em que alguém se vai atirar à linha mesmo à minha frente, estou sempre a pensar nesse dia, imagino o som do embate, os travões da carruagem a chiarem, e no silêncio que se vai fazer depois.

Eu agora sei que se faz silêncio, como se uma bomba tivesse estoirado mesmo ao nosso lado e só se conseguisse ouvir um zumbido agudo, apesar de as bocas se abrirem para soltar o grito, eu sei que só se ouve silêncio, no máximo só se ouve um zumbido.

Eu não sei quando esse dia vai chegar, se vai ser do outro lado do cais, se vai ser à minha frente ou um pouco mais distante, tanto faz, porque eu já vi esse dia acontecer à frente dos meus olhos; esse dia acontece todos os dias à frente dos meus olhos.

Eu posso tê-los fechados, eu posso tentar entreter-me, tapar os olhos com as mãos em concha, ou esfregá-los para me livrar dessa imagem, ler o jornal, olhar para as feições das pessoas sentadas ao meu lado, por isso, acredite, inspector, não queira sentir a minha dor, porque se eu não trago o meu crochet que me anestesia, e se por algum acaso a minha mãe não consegue atender-me o telefone quando estou bem atrás da linha amarela de segurança, tudo recomeça de novo à frente dos meus olhos, e eu volto àquele dia, eu estou sempre a voltar àquele dia.

E naquele dia fez-se silêncio, e um breve zumbido talvez, e depois, curioso, uma única nota, eu que oiço música na minha cabeça, eu que tenho uma orquestra inteira cá dentro, e só há pouco tempo percebi que nem toda a gente tem música na cabeça, mas naquele dia, e durante tantos outros que se seguiram, eu só ouvi um dó, só um dó, martelou durante tanto tempo, só um dó, durante tantas semanas apenas um dó, e foi a primeira vez que eu não tive uma orquestra na minha cabeça, diga-me, por isso, que não sente a minha dor.

Eu continuo a fazer piadas parvas, inspector, eu continuo a fingir que a minha pele é de couro grosso, inquebrável, mas eu assino o meu nome sempre com um travo a sangue, inspector, eu estou espalhada pelo chão, em pequenos estilhaços, e não quero que ninguém se atreva a apanhá-los, eu não quero que os meus filhos me vejam, que o meu marido me abrace, porque fui eu que os arrastei a todos para uma casa assombrada; eu temo não por mim, mas por eles, temo para onde os vou arrastar da próxima vez, e eu lamento ter que o arrastar também a si.

Eu fui à lista telefónica. É coisa dos tempos de jornalista ainda, parece que não perco os tiques de jornalista nunca, que isso também nunca vai passar. Nada de Internet, nas Páginas Amarelas há mesmo de tudo, passeamos o indicador de cima para baixo e há notícias a cada folhinha com a gramagem de papel de Bíblia. Disquei o seu número, sem qualquer esperança, eu disquei o seu número como quem disca uma linha de apoio ou de valor acrescentado à procura de consolo ou ajuda.

Nunca esperei que me ligasse de volta. E agora não sei bem o que pretendo de si. Não esperava que me ligasse e agora estou no metro, e essa é a fase mais difícil do dia, quando estou no metro, recomeça tudo outra vez.

Minto. Eu sei o que quero de si. Queria que me dissesse o que sabe, Inspector, que me inventasse uma história, de tantas que já viu, de tantas que foi obrigado a ver. Eu não estava lá, e preciso que me diga o que viu, Inspector, que me leia os seus relatórios em voz alta, provavelmente quero que me mostre as fotos e o processo inteiro. Talvez assim eu consiga acordar todos os dias sem ter a cama coberta de pólvora.

Eu sonho todos os dias com aquela manhã, inspector, como se tivesse estado atrás da porta, ou do voile transparente das cortinas a assistir a tudo. Vejo todos os detalhes, a moldura e a foto da minha filha recém-nascida ao colo do tio, o candelabro com os anjinhos e a vela vermelha, as gravuras das aves em cima da cabeceira, o retrato da minha avó ao lado da janela, a bandeira da Suíça e a chaminé do Barreiro a assistirem a tudo e, tal como eu, sem poderem soltar um grito, pedir socorro.

E pergunto-me também se a cama estaria feita com os lençóis às florinhas que eu tanto gostava, a última vez que eu fui ao quarto fiz a cama com os lençóis às florinhas.

O inspector ficou em silêncio. A este ponto, a carruagem seguia dentro do túnel e guinchava talvez em protesto pelo pedido que havia sido feito.

Eu não posso ajudá-la, disse. Lamento, não posso mesmo, ninguém saberá nunca o que se passou, não consigo ajudá-la, perdoe, mas é sempre assim, levo demasiados anos nesta profissão para saber que é assim, não é possível saber exactamente o que se passou.

A cabeceira da cama sabe.

O retrato da senhora morena pendurado ao lado da janela sabe.

Ninguém mais saberá.

É tão triste quanto isto, ninguém saberá, e eu fiz o meu trabalho, fi-lo bem, acredite, mas as coisas são mesmo assim - não seria justo dizer-lhe o contrário.

E a sua cabeça há-de voltar a ouvir música, acredito que sim, é apenas uma questão de tempo, talvez não seja já amanhã, mas há-de voltar a ouvir música, talvez ao início um pouco fora de tom, talvez não consiga a afinação perfeita nunca mais, mas, juro-lhe, à medida que o tempo passa torna-se quase suportável, há-de voltar a ouvir música, isso lhe garanto.

E desculpe-me que o volte a dizer. Mas sinto muito a sua dor.

Quinta-feira, Fevereiro 25, 2010

O fiscalista (Capítulo I)

Com os olhos esbugalhados, parados na manete das mudanças, quem sabe se tentando hipnotizá-la, o fiscalista, espalmado de perfil como um egípcio, pele enrugada e borrifada de manchas castanhas, longos pelos cinzentos escuros encaracolados, espetados em riste para fora do nariz e das orelhas, declarou não gostar de pessoas que olham para o chão enquanto andam.

Porque é que o fiscalista estava dentro do carro, quente da viagem, no lugar do condutor, olhos presos na manete das mudanças, não vem ao caso. E o que esta declaração de interesses tinha a ver com a entrega do IRS do defunto, com a habilitação de herdeiros, eu não sei, não consigo explicar.

Aliás, deixei de tentar arranjar explicações, cansei-me, estou mesmo muito cansada. Perdi noites a fio a tentar tecê-las por entre metros de renda, agulha dois presa entre o polegar e o indicador, aprendi a fazer renda sozinha aos 30 anos, num momento de maior aflição, e compreendi nessa altura porque passa a minha mãe todas as noites a tricotar explicações, a exigir à agulha e à lã que façam aquilo que têm a fazer, a ordenar o caos de todas as linhas que se emaranham aos nossos pés ao longo da vida, um labirinto diabólico muitas vezes sem saída.

A minha mãe que quando eu era pequenina me pedia para eu segurar as meadas de lã com os pulsos, e que gingasse à vontade as minhas longas tranças para que da meada se fizesse novelo, a minha mãe que sempre me chamou de lolita, que sempre disse à boca cheia que eu tinha nascido com o cu virado para a lua, a minha mãe que sofre por tudo o que já me aconteceu, quisera ela que Deus não tivesse tão grandes planos para mim, que a vida passasse serena como uma meada de lã sem nós cegos.

E eu acreditei que uma torrente de pontos altos, pontos altos duplos, correntinhas - e para fechar um ponto baixíssimo -, achei mesmo que o meu pulso haveria de puxar tantas laçadas, tecer tantos pontos altos, pontos altos duplos, correntinhas, fechando tudo com ponto baixíssimo - pega-se na agulha como se pega numa caneta e se começa a escrever, fazer renda é apenas outra forma de ordenar o mundo, de o pôr a rodar direitinho sobre o seu eixo -, eu à espera de uma epifania, de uma reconstrução perfeita de todos os eventos que me trouxeram até aqui, a este momento preciso, e nada: nenhuma explicação a sair-me dos dedos, o pulso dorido, os dedos em sangue e nada, só mesmo renda ao meu colo.

Permaneci nas viagens de metro, paralisada, a fixar o meu reflexo e o reflexo dos outros no vidro da carruagem, à espera que o mundo, visto ao contrário dentro de um túnel escuro, me devolvesse todas as respostas aos porquês que esvoaçam esganiçados por cima de mim. Mas em vão.

Tudo em vão.

Não há livro nenhum da biblioteca que herdei que me possa ajudar, de nada me valem os arquivos poeirentos, as gavetas invioladas há mais décadas do que aquelas que eu levo.

Eu entrei na casa que culpo por tudo o que aconteceu, passei o sensor pendurado no porta-chaves e desarmei o alarme, mas todas as sinetas tocavam estridentes dentro de mim, diziam-me para fugir dali, rápido e a bom passo, para nunca mais olhar para trás. Esquecer a mata dos medos, esquecer que ela existe, nunca mais trilhar a estrada de terra batida, apagar todas as memórias, o ford cortina, o citroen visa, esquecer os duelos de espada em noites de luar, as lanternas de pirilampos, os nenúfares e as carpas coloridas, a ponte e o lago, as azedas, os malmequeres azuis e as roseiras bravas, esquecer a Santa que falhou em proteger-nos a todos.

Uma casa são só paredes feitas de tijolos, cimento, estuque, mas ela disse-me bem alto para eu ouvir: vai-te embora e não voltes. Ela disse-me isso em tom amigo, mas eu entrei ali, eu tinha que entrar ali, na casa onde ninguém foi feliz, e disse-lhe: tu agora és minha e, por isso, eu estou à espera que me contes tudo o que se passou, rebobina e põe no play, não é um pedido, é uma ordem, é o mínimo que me podes fazer. E, sem respostas - eu que até sei tão bem falar com as casas -, passei ao ataque, e cheia de medo, mas decidida, abri todas as portas, escancarei todas as janelas, remexi todas as gavetas; eu pensei, eu acreditei que a casa me daria todas as respostas se eu perdesse um pouco do meu tempo a ouvir o que ela tinha para nos dizer.

Mas ela respondeu com silêncio, ela leva 41 anos de silêncio e teve que assistir, muda, a tudo o que aconteceu, nunca poderia contar-me o segredo, não sabe como, e eu não sei o que me passou pela cabeça de pensar que a casa me poderia ajudar, que seria a única a poder ajudar-me.

Tudo permanecerá, para sempre, em silêncio.

Engulo espinhos, mastigo pedras que me ajudem a aceitar resignada o que se passou, não sei o que se passou, não consigo desemaranhar esta meada, tudo o que se passou: o mundo gira e gira e não se cansa de rodopiar apenas porque sim, e no meio de tantas voltas sem tino, há demasiadas coisas a caírem e a estilhaçarem-se no chão, no mesmo chão para o qual as pessoas de bem não devem olhar enquanto andam, porque o fiscalista não gosta.

Mas quer ele goste, quer não, eu ando de olhos cravados no chão porque, por vezes, ele falta-me por debaixo dos pés, porque há tapetes invisíveis que alguém puxa às escondidas para eu cair sem amparo. Há alguém que gosta de me ver ferida de morte, e há outro alguém que sabe que eu me hei-de levantar outra vez, e outra vez. Por vezes, há um campo minado no chão e eu sigo descalça, olhos cravados no chão, à espera que as pedras me ensinem por onde devo ir.

As folhas são verdes porque sim, e começam a pespontar no tímido anúncio da primavera mesmo que por dentro corra um dilúvio de lágrimas que não consegui chorar, e cresça um pântano de dúvidas a caminho dos meus pés, que tornam o meu andar mais pesado.

As unhas dos meus pés encravam porque sim, nasceram assim e hão-de crescer ainda um pouco no meu caixão, porque não aprenderam a fazê-lo de outra forma. Ranjo os dentes porque sim, porque a ponta da língua descansa no cantinho do incisivo lateral direito desde há muito tempo e diverte-se a fazer um pequeno estalido que me alivia as dores que sobem até à porta da minha boca.

As orquídeas não floriram este ano. O primeiro sinal que tudo seria como foi, porque sim, só porque sim, sem nenhuma explicação, sem nenhum aviso, sem que ninguém o pudesse evitar.

No último mês, o mundo como eu sempre o conhecera deixou de existir. Porque sim.

Ao terceiro dia do ano, a casa onde ninguém foi feliz acordou pela última vez.

Porque sim.

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

O dia

Aquele foi o dia da minha vida, de toda a minha vida, disse-me, grave, narinas hirtas e cana do nariz perfeitamente delineada.

Parecia, aliás, que se preparava para debitar um discurso de Estado, com honras de abertura do telejornal das oito: inspirou fundo para ganhar fôlego ou coragem, só que nos olhos azulões já se instalara confortavelmente uma fonte de comoção, os olhos prestes a escorregarem num dilúvio, e tudo isto invertido num pedaço de espelho - olhos molhados, nariz delineado, e pose grave reflectidos no grande retrovisor do táxi, e eu sem conseguir deixar de reparar no desodorizante automóvel de pinheiro, a bambolear numa dança absurda que em nada se adequava ao momento de grande revelação que se seguiria dentro de instantes, ou talvez sim, mas tomara que eu não me tivesse demorado tanto no pequeno pinheiro de cartão embebido em aroma baunilhado, porque, a meu ver, não acrescentou nada à história.

Há um dia, menina, muito provavelmente ainda não teve o dia decisivo de toda a sua vida - talvez esteja enganado, penso, sem abrir a boca, porque o palco agora não é meu -, mas há um dia em que as peças todas do puzzle emaranhado que se foi espalhando por todo o lado - sem esperança de se encontrar a peça que o gato levou para brincar, que o bebé meteu na boca aflito dos dentes, o conjunto todo de peças que aparentemente não encaixavam umas nas outras -, há um dia em que tudo se encadeia, pim, pim, pim, zás e, nesse momento - digo-lhe isto com a mesma certeza de que é impossível manter os olhos abertos quando se espirra -, a mandíbula descai um bocadinho e o olhar eleva-se para o céu, e por breves momentos, penso que nem um segundo chega a passar, rebobinamos tudo para trás, todas as pequenas coisas vêm ao cimo como bolinhas de esferovite numa taça de água, e damos por nós, maquinais, magistrais a arrumar tudo no sítio certo para que possamos seguir em frente, e percebemos tudo, o porquê de tudo, por exemplo, eu percebo já porque é que escolhi há instantes cortar para a Columbano Bordalo Pinheiro, em vez de ter seguido para a Estrada de Benfica.

E tudo isto começou porque o taxista estranhou o meu pedido.

Inclinou os olhos para a direita, espreitou o comprido retrovisor com espelho olho de peixe colado a um canto, para ajudar aos ângulos mortos - mas quem raio é esta gaja?

Saio de um hotel de cinco estrelas da cidade, e peço para me deixar ao Intendente. Mas quem raio é esta gaja?

Explico-lhe que a minha vida é mesmo assim, repleta de donos do mundo e de putas esqueléticas.

Que fui eu que escolhi ser assim, e que todos me vão ensinando, pela estrada fora, coisas preciosas, se bem que as putas me dêem melhores histórias, que pelas putas eu vejo melhor, entendo tudo um pouco melhor. Os donos do mundo são, no fundo, criaturas bem mais tristes que as putas, vejo-os bem, topo-os bem, e talvez seja por isso, talvez seja essa a única razão porque os donos do mundo me importam. No fundo, são tão vítimas do destino, das circunstâncias, tal e qual como as escanzeladas prostitutas do Intendente. Têm mais uns metros quadrados para foder, em lençóis macios e camas que não rangem, cobrem-se com tecidos infinitamente mais quentes e mais frescos consoante as estações do ano, mas apanham a mesma chuva que todos nós, peidam-se tanto quanto todos nós - as trinta e muitas vezes ao dia que o canal de cabo me garante que todos os humanóides descarregam a cada 24 horas -, mas ao fim do dia, acredito que se sintam bem mais vazios que as putas do Intendente. É mesmo por isso que eu amo os donos do mundo, que os estimo como ninguém, e eles gostam tanto de mim como as putas que vou alimentando aos Anjos.

Quem raio é esta gaja?

Uma pessoa também tem os seus dias maus, diz.

Das putas e dos hotéis de cinco estrelas para dias maus e para os dias que mudam uma vida.

O dia da minha vida começou num dia mau, apanho em Entrecampos um mal-encarado que nem bom dia me diz, e quase não se dá ao trabalho de descolar os lábios para me dizer para o largar no Rato. E eu vou, e como estou num dia mau também não quero conversas, mas faço o caminho todo a pensar noutras paragens, não vejo a estrada, vejo a cara do meu menino, vejo a cara da minha mulher a chorar, vejo a minha casa, estreita, escura, num beco de Alfama, ao lusco-fusco das seis e meia da manhã quando bato a porta atrás de mim para pegar num dia de mais 14 horas que haveria de ser o dia da minha vida, mas eu ainda não sei isso, vejo a roupa da vizinha do primeiro andar a secar no estendal, quase a tocar na minha cabeça e consigo cheirar ainda o aroma do Omo nas minhas narinas, em vez da colónia do mal-encarado que transporto no banco de trás, mas não vejo os outros carros, o traço contínuo, definitivamente não vejo o sinal vermelho que passei por estar nesta cegueira repleta de imagens.

E o mal-encarado, então, abre a boca pela primeira vez. E sai-lhe lá de dentro uma voz que eu nem podia supor que tivesse, entrou mudo e estava com esperança que saísse calado, mas não, um homem está num dia mau e é verdade que passa um sinal vermelho, mas não devia levar com aquele estrilho: ele gritou-me, gritou-me, perdigotos a fazerem a chamada para o salto em altura e em comprimento também, chamou-me tudo o que possa imaginar.

E eu calado. Eu gosto de falar mas não em dias maus; eu calado a aguentar tudo, a tentar ver a estrada e não a taberna ainda vazia logo pela manhã, eu ainda com o gosto na boca do garoto que tomei pela madrugada e que é a única coisa que me forra o estômago, eu a fazer o maior esforço da minha vida para o deixar no Rato e prosseguir com a minha vida e continuar a enfrentar mais um dia mau.

Paro o carro no sítio que me ordenara entre dentes, quando quisera o destino que apanhasse o mal-encarado em Entrecampos, desligo o taxímetro e digo-lhe: não é nada, e as minhas desculpas pelo sinal vermelho.

E volta a provar que tem um vozeirão, ó homem não pode ser, eu tenho que pagar, e eu calado - já lhe disse que não falo muito quando estou num dia mau? -, sabe, eu não estava dentro deste carro, eu estava ao lado do meu menino no quarto estreito que não é mais do que um corredor sem janela, eu estava aos pés da cama do meu menino com a minha mulher a chorar baixinho.

Naquele instante, começou o dia da minha vida, não sei o que me deu, comecei a chorar como uma criança, abracei-me ao volante e chorei, chorei ao ritmo dos quatro-piscas, para que o mal-encarado parasse de falar, para que se calasse de vez e saísse do carro para me deixasse seguir o meu caminho. Sabe que deixei de ter vergonha de chorar, uma treta que os homens não choram, se eu não tivesse chorado, o meu filho estaria morto, eu chorei e o puzzle começou todo a encaixar-se.

Passo o dia todo a olhar para a frente e raramente vejo quem me entra para o banco de trás. Por vezes, sinto-me um cavalo, um burro de carga é mais o que eu sou, porque não há nobreza na praça, mas para o caso não interessa essa parte, o que quero dizer-lhe é que nem vejo quem carrego e, de há uns anos para cá, para não dar em doido, passei a reparar nas vozes, concentro-me nelas em vez de me fixar na cor dos cabelos, no feitio das sobrancelhas ou na cor dos olhos. E deixe-me que lhe diga que há pessoas com vozes horrorosas, a menina tem uma bonita voz, um bocadinho sibilante, mas não deixa de ser uma bonita voz. E é incrível como a voz daquele homem foi mudando de Entrecampos até ao Rato: um murmúrio, primeiro, entre dentes, depois da minha infracção, a boca toda aberta expondo, suponho, dois ou três dentes chumbados e a ausência de um molar e, no fim, já era a voz de um salvador.

Guardou então a carteira, percebeu que não conseguiria pagar-me a corrida, pediu-me desculpas, se o podia ajudar. Não, não podia, ninguém podia ajudar, mas já que me tinha esfrangalhado a chorar à frente de um desconhecido mal-encarado, mais valia contar a história toda.

O meu menino está a morrer, está a morrer e não podemos fazer nada, mandaram-nos para casa, sem esperança, um tumor na cabeça, temos seis meses, o meu menino tem seis meses de dor pela frente.

Escondi os olhos à frente das palmas molhadas das minhas mãos, deu-me para a vergonha, e a certa altura e deixei escorregar a mão direita para a manete das mudanças porque me apetecia fugir dali para fora. Lá de trás, o mal-encarado esticou a mão e abanou um rectângulo de cartão. Passe no meu consultório daqui a duas horas. Traga o seu menino e a sua mulher.

Li e reli aquele pedaço de papel. Director de Oncologia.

Toda a gente tem um dia.

O meu foi aquele. Mas não pense que foi assim tão fácil e que a história acaba aqui. Duas horas depois lá estava eu, o meu menino embrulhado num cobertor, a minha mulher com a cara deformada pelo desgosto. Mas ainda conseguíamos sorrir, à frente do meu menino, a gente tentava sorrir. E connosco levámos exames, o processo, ressonâncias e tac's, levámos tudo ao mal-encarado que me berrara duas horas antes, algures entre o Saldanha e o Marquês, pior do que um agente da BT.

Toda a gente tem um dia.

Este foi o dia em que tudo poderia ter mudado. Em que tudo mudou. Mas podia ter mudado para um lado ou para o outro. Há um dia, só há um dia destes em toda a nossa vida. Talvez esteja para breve o seu.

O mal-encarado voltou a falar entre-dentes e eu antecipei o pior. Confirmou a sentença de morte do meu menino.

Eu ando sempre com uma pistola no carro. Aqui do meu lado esquerdo, para não estar tão à mão, para não ser tão fácil puxar do gatilho. Eu saí do consultório, era ali na 5 de Outubro, o chão estava pintalgado de lilás, os jacarandás carregados de florinhas, e o vento a arrancá-las provocando uma chuva de pingos grossos lilases, e eu então uivei bem alto, eu uivei e a minha mulher chorava em silêncio com o meu menino ao colo.

Abri a porta do carro e corri ao lado esquerdo do carro para acabar com tudo mesmo ali, rápido e indolor, mas a pistola não estava lá, eu não sei como é que a pistola não estava lá, e nesse instante recebo um telefonema do mal-encarado, e eu ainda estava a uivar agora por raiva de a pistola não estar no sítio certo - guardara-a esse dia no guarda-luvas -, e ele pede-me para estar pela manhã no Santa Maria. Para me preparar para a maior provação da minha vida.

O meu menino vive, curou-se, está totalmente curado.

E aquele foi o dia da minha vida. De toda a minha vida.

Desligou o taxímetro porque chegámos ao Intendente.

Deixe estar, não é nada, não a posso deixar pagar esta corrida.

Terça-feira, Setembro 15, 2009

Rua dos Anjos

Eu sou uma boa pessoa.
Não tenho medo, nem vergonha de o dizer. Porque razão haveria de ter – não me vou transformar em pó, nem a terra há-de tremer se eu admitir aqui, onde apenas me visita quem procura por uma criança que nasceu com as mãos coladas, que sou uma boa pessoa, escrito mesmo assim, desta forma precisa, muito diferente de escrever até sou uma boa pessoa, sem falsas modéstias, deixando cair o até, que não estaria lá a fazer nada, com toda a presunção, sem nenhuma hesitação, de peito aberto e olhos fixados, algures entre a linha do horizonte e o início do céu - eu sou uma boa pessoa.
Não sei de que me vale isto.
De que me vale ser uma boa pessoa, de agarrar na mão fria da velha que vê no António as bochechas do seu menino que já morreu. Lembro-me de estar no Parque de Viseu, ainda sem saber quase nada, a não saber nada a não ser a arte de dar às pernas com toda a força, inclinando ao mesmo tempo o corpo para trás e para a frente, e o segredo de fechar os olhos e sentir a música do vento na cara com a trança a voar para os lados quando o baloiço quase chegava ao céu, lembro-me da minha cabeça no colo da minha mãe, saia crepe de seda branca, ela maquinal a fazer cortinas de crochet, e eu horas nisto, a examinar as mãos da minha mãe, e depois a olhar para as minhas, que não conheciam mais do que os lápis caran d’ache da minha avó, quase hipnotizada pelo movimento da mão direita, do fio que saía do saco de plástico e se transformava em renda, e eu a dizer-lhe, junto ao lago, mamã, as minhas mãos não têm estrelas como as tuas, e as estrelas eram o craquilhado junto dos nós dos dedos, e eu pego na mão gelada da velha, agora molhada de lágrimas, e vejo que ela já não tem estrelas nas mãos.
Perco tempo, demoro-me, oiço todos, a chaga da perna do homem sujo que me guarda todos os dias o melhor lugar da rua, porque a senhora fala com a gente como se fôssemos gente e não bichos. E percorro as memórias de tanta gente que nem sei o nome, analiso fotos a preto-e-branco, de papel já amarelecido, cantos dobrados, memórias guardadas em sacos de plástico, aproprio-me de tudo o que posso, sou um saco sem fim, uma manta de retalhos de um pequeno resumo da vida dos outros.
Apenas esta certeza, que de nada me vale, que se, por um momento, o mundo fosse governado pelas empregadas de limpeza curvadas e pelos porteiros anafados, pelas putas esqueléticas e arrumadores imundos, pelas caixas de supermercado demasiado maquilhadas e pelas tendinites das empregadas de mesa, pelas velhas de luto, com as saias a cheirarem discretamente a urina, se o mundo fosse do elo mais fraco, eu seria grande, intocável.

Eu sou uma boa pessoa e temo a Deus, imagino a sua ira em jeito de maremoto, nem tanto quando falho, acima de tudo quando nem tento.
A minha puta favorita chama-me um anjo. A minha puta favorita chama-me um anjo nos Anjos e isso tem que pesar.
Eu vivo nos Anjos. Vivo há um ano nos Anjos, na avenida do Almirante que deu um tiro nos cornos ao pensar que falhara, e eu não o censuro, penso que faria o mesmo, não para ganhar nome de rua maldita, mas faria o mesmo ao pensar que falhara em tudo, por isso nem tento, melhor assim, mas a ira de Deus sempre aqui ao meu lado, em crescendo, e eu digo a mim própria, eu sou uma boa pessoa, eu pelo menos tento ser uma boa pessoa, isso tem que contar, e fico quietinha no meu canto, que ninguém me bula, porque eu trago em mim os filhos das mães que já morreram, as dores ciáticas, eu trago em mim a fome da minha puta favorita que me chama um anjo apenas porque lhe dou comida de quando em quando, sempre que a encontro – menina, obrigada, muito obrigada, mas de certeza que não lhe vai fazer falta para o bebé; e ela é tão magra, tão magra e o António sorri para um rosto cadavérico que toda a avenida maldita ignora, e ela diz-me que o dia se iluminou porque somos os dois anjos estacionados na Rua dos Anjos.
E depois disto, demoro outra meia-hora a chegar a casa, porque me demoro, paro, escuto e olho, não porque venha um comboio a caminho mas porque há demasiadas almas que me escolhem, e me detêm, e eu deixo-me ficar, entretanto, o senhor Hussein há-de rezar a Alá por todos nós, há-de oeferecer-me um quilo de borrego que eu não sei nem vou cozinhar, mas sou tão boa pessoa, falo com doutores e com mendigos, falo com os velhos e as crianças vêem ter todas comigo, falo com todos os credos, com todas as raças, domino uma qualquer linguagem universal, ou isso ou tenho um tê na testa, e sou tão engraçada, falo de uma forma tão diferente das outras pessoas, mas chego a casa e desligo o telefone ou deixo-o a tocar em surdina, passo o dia todo em silêncio sem pensar nas questões maiores da vida, não posso, não consigo, respiro, como e bebo, dou de comer, dou de beber e basta; mas mesmo assim, assombrada por todos os demónios, enterneço-me com a nossa determinação em vivermos nos Anjos, como se isso nos bastasse, como se ali soubéssemos, de certeza, que nenhum mal nos pode acontecer.

Quarta-feira, Dezembro 17, 2008

António


Os dias que se seguiram amanheceram com uma luz quase perfeita.

As manhãs todas apareceram-me como se trazidas pelos olhos do David que vê o mundo como ele é, ao lusco-fusco; há sempre sombra na luz que o David vê, e essa é a verdade mais antiga de todas, da qual nunca duvidei: que a luz precede a sombra e que se lhe sucede a seguir, interminavelmente; que nenhuma existe sem a outra, mesmo nos dias mais claros de todos, e os dias que se seguiram eram de uma luz que não feria ninguém, uma luz que fazia dançar as partículas de pó à minha frente e, se quisesse, poderia até nunca ter fechado os olhos naqueles dias; e nas manhãs todas parecia-me ouvir um estalido pequeno, o pequeno estalido que os ouvidos mais atentos conseguem escutar no momento imediatamente anterior à caixa de música arrancar o primeiro acorde ao rolo dentado onde estão gravadas, a relevo, as mais bonitas melodias.

Os dias que se seguiram chegaram-me, também, embaciados por um bafo qualquer, quente, vindo de dentro para fora de mim. E, aparentemente, apesar do ressoar de um longínquo eco, que não nos faria nunca esquecer os dias mais tristes de todos, parecia que, um a seguir ao outro, todos os sonhos voltavam a emergir, violentamente, respingando com uma esperança esmagadora os dias que nos chegavam, banhados com uma luz cada vez mais perfeita.

Os dias que se seguiram souberam também à primeira golfada de ar depois de se ter desejado com todo o ser, com toda a força, deixar de respirar, e havia, por isso, neles, também algo de água: todos os sons pareciam abafados por ela, os mais agudos e os mais graves não eram mais do que um sussurro, e nós rodopiávamos, leves, em manobras impossíveis dentro dela – piruetas, cambalhotas, e escarpávamos até às suas profundezas, para desenterrar todos os sonhos, até os mais velhos, os que foram quase esquecidos, e eles vinham à tona sem sequer lhes tocarmos, e nem nos lembrávamos sequer que ali os tínhamos mergulhado porque havíamos desejado deixar de respirar.

E por mais tempo que ali estivéssemos, que ali decidíssemos ter estado, as mãos nunca se haveriam de ter engilhado, o ar nunca nos haveria de faltar; ali não eram só os sons que se deixavam abafar por entre líquenes: tudo era morno e a luz, como eu já disse, era quase perfeita; era clara e sombria quando assim era preciso, e aquele sítio, para onde fomos arrastados nos dias que se seguiram, dava-nos tudo, e os sonhos pareciam mesmo saídos dali, de um lago de águas paradas e turvas, que os guardou em segredo, em paz, longe de todos, longe de tudo, e nós sorríamos entre golfões, tufos de lentilhas-de-água e emaranhados de raízes de nenúfares, afastávamo-los a todos como se afasta uma madeixa de cabelo que teima pousar à frente da cara, e banhávamo-nos com aquela luz quase perfeita que nos chegou nos dias que se seguiram.

Depois, foi o mais fácil, não foi preciso qualquer esforço, tudo corria de feição, como devia ter sido, como teria sido escrito da primeira vez, e a nossa missão era simples, trazermos os sonhos à deriva e, para grande surpresa de todos, eles estavam intactos, nenhum se esfarelou, nenhum se esborratou pelos dias tristes que agora acreditávamos ter enterrado.

E os sonhos pareciam ter sido sonhados a noite passada.

Podíamos até contá-los como uma história de encantar, pudéramos tê-los cantado como uma canção de embalar que se entoa, ao fim da noite, à cabeceira de uma criança que ainda não tem medo do escuro; eles voltaram como se os tivéssemos acabado de sonhar, como se ainda trouxéssemos a cara enrugada dos lençóis brancos onde pousámos o corpo durante dias que não foram mais do que noites; e os sonhos traziam em si as metáforas mais bonitas, todas as promessas, os melhores augúrios, e nós éramos heróis em todos os capítulos - a nossa força e coragem enterrava todos os monstros, todo o mal e toda a dor; éramos portadores de toda a esperança do mundo e da justiça também; sabíamos isso, tínhamos acabado de acordar e os sonhos, os nossos sonhos, afinal, não tinham ido a lado nenhum.


Para o meu filho António, que é o sonho mais bonito, é a luz, depois do pesadelo mais cruel.

Para o João – até ao infinito.

(E para a minha amiga Hermínia, para o meu amigo David, que nunca deixariam que me faltasse o ar, mesmo que eu desistisse de respirar)