Sexta-feira, Novembro 06, 2009

O dia

Aquele foi o dia da minha vida, de toda a minha vida, disse-me, grave, narinas hirtas e cana do nariz perfeitamente delineada.

Parecia, aliás, que se preparava para debitar um discurso de Estado, com honras de abertura do telejornal das oito: inspirou fundo para ganhar fôlego ou coragem, só que nos olhos azulões já se instalara confortavelmente uma fonte de comoção, os olhos prestes a escorregarem num dilúvio, e tudo isto invertido num pedaço de espelho - olhos molhados, nariz delineado, e pose grave reflectidos no grande retrovisor do táxi, e eu sem conseguir deixar de reparar no desodorizante automóvel de pinheiro, a bambolear numa dança absurda que em nada se adequava ao momento de grande revelação que se seguiria dentro de instantes, ou talvez sim, mas tomara que eu não me tivesse demorado tanto no pequeno pinheiro de cartão embebido em aroma baunilhado, porque, a meu ver, não acrescentou nada à história.

Há um dia, menina, muito provavelmente ainda não teve o dia decisivo de toda a sua vida - talvez esteja enganado, penso, sem abrir a boca, porque o palco agora não é meu -, mas há um dia em que as peças todas do puzzle emaranhado que se foi espalhando por todo o lado - sem esperança de se encontrar a peça que o gato levou para brincar, que o bebé meteu na boca aflito dos dentes, o conjunto todo de peças que aparentemente não encaixavam umas nas outras -, há um dia em que tudo se encadeia, pim, pim, pim, zás e, nesse momento - digo-lhe isto com a mesma certeza de que é impossível manter os olhos abertos quando se espirra -, a mandíbula descai um bocadinho e o olhar eleva-se para o céu, e por breves momentos, penso que nem um segundo chega a passar, rebobinamos tudo para trás, todas as pequenas coisas vêm ao cimo como bolinhas de esferovite numa taça de água, e damos por nós, maquinais, magistrais a arrumar tudo no sítio certo para que possamos seguir em frente, e percebemos tudo, o porquê de tudo, por exemplo, eu percebo já porque é que escolhi há instantes cortar para a Columbano Bordalo Pinheiro, em vez de ter seguido para a Estrada de Benfica.

E tudo isto começou porque o taxista estranhou o meu pedido.

Inclinou os olhos para a direita, espreitou o comprido retrovisor com espelho olho de peixe colado a um canto, para ajudar aos ângulos mortos - mas quem raio é esta gaja?

Saio de um hotel de cinco estrelas da cidade, e peço para me deixar ao Intendente. Mas quem raio é esta gaja?

Explico-lhe que a minha vida é mesmo assim, repleta de donos do mundo e de putas esqueléticas.

Que fui eu que escolhi ser assim, e que todos me vão ensinando, pela estrada fora, coisas preciosas, se bem que as putas me dêem melhores histórias, que pelas putas eu vejo melhor, entendo tudo um pouco melhor. Os donos do mundo são, no fundo, criaturas bem mais tristes que as putas, vejo-os bem, topo-os bem, e talvez seja por isso, talvez seja essa a única razão porque os donos do mundo me importam. No fundo, são tão vítimas do destino, das circunstâncias, tal e qual como as escanzeladas prostitutas do Intendente. Têm mais uns metros quadrados para foder, em lençóis macios e camas que não rangem, cobrem-se com tecidos infinitamente mais quentes e mais frescos consoante as estações do ano, mas apanham a mesma chuva que todos nós, peidam-se tanto quanto todos nós - as trinta e muitas vezes ao dia que o canal de cabo me garante que todos os humanóides descarregam a cada 24 horas -, mas ao fim do dia, acredito que se sintam bem mais vazios que as putas do Intendente. É mesmo por isso que eu amo os donos do mundo, que os estimo como ninguém, e eles gostam tanto de mim como as putas que vou alimentando aos Anjos.

Quem raio é esta gaja?

Uma pessoa também tem os seus dias maus, diz.

Das putas e dos hotéis de cinco estrelas para dias maus e para os dias que mudam uma vida.

O dia da minha vida começou num dia mau, apanho em Entrecampos um mal-encarado que nem bom dia me diz, e quase não se dá ao trabalho de descolar os lábios para me dizer para o largar no Rato. E eu vou, e como estou num dia mau também não quero conversas, mas faço o caminho todo a pensar noutras paragens, não vejo a estrada, vejo a cara do meu menino, vejo a cara da minha mulher a chorar, vejo a minha casa, estreita, escura, num beco de Alfama, ao lusco-fusco das seis e meia da manhã quando bato a porta atrás de mim para pegar num dia de mais 14 horas que haveria de ser o dia da minha vida, mas eu ainda não sei isso, vejo a roupa da vizinha do primeiro andar a secar no estendal, quase a tocar na minha cabeça e consigo cheirar ainda o aroma do Omo nas minhas narinas, em vez da colónia do mal-encarado que transporto no banco de trás, mas não vejo os outros carros, o traço contínuo, definitivamente não vejo o sinal vermelho que passei por estar nesta cegueira repleta de imagens.

E o mal-encarado, então, abre a boca pela primeira vez. E sai-lhe lá de dentro uma voz que eu nem podia supor que tivesse, entrou mudo e estava com esperança que saísse calado, mas não, um homem está num dia mau e é verdade que passa um sinal vermelho, mas não devia levar com aquele estrilho: ele gritou-me, gritou-me, perdigotos a fazerem a chamada para o salto em altura e em comprimento também, chamou-me tudo o que possa imaginar.

E eu calado. Eu gosto de falar mas não em dias maus; eu calado a aguentar tudo, a tentar ver a estrada e não a taberna ainda vazia logo pela manhã, eu ainda com o gosto na boca do garoto que tomei pela madrugada e que é a única coisa que me forra o estômago, eu a fazer o maior esforço da minha vida para o deixar no Rato e prosseguir com a minha vida e continuar a enfrentar mais um dia mau.

Paro o carro no sítio que me ordenara entre dentes, quando quisera o destino que apanhasse o mal-encarado em Entrecampos, desligo o taxímetro e digo-lhe: não é nada, e as minhas desculpas pelo sinal vermelho.

E volta a provar que tem um vozeirão, ó homem não pode ser, eu tenho que pagar, e eu calado - já lhe disse que não falo muito quando estou num dia mau? -, sabe, eu não estava dentro deste carro, eu estava ao lado do meu menino no quarto estreito que não é mais do que um corredor sem janela, eu estava aos pés da cama do meu menino com a minha mulher a chorar baixinho.

Naquele instante, começou o dia da minha vida, não sei o que me deu, comecei a chorar como uma criança, abracei-me ao volante e chorei, chorei ao ritmo dos quatro-piscas, para que o mal-encarado parasse de falar, para que se calasse de vez e saísse do carro para me deixasse seguir o meu caminho. Sabe que deixei de ter vergonha de chorar, uma treta que os homens não choram, se eu não tivesse chorado, o meu filho estaria morto, eu chorei e o puzzle começou todo a encaixar-se.

Passo o dia todo a olhar para a frente e raramente vejo quem me entra para o banco de trás. Por vezes, sinto-me um cavalo, um burro de carga é mais o que eu sou, porque não há nobreza na praça, mas para o caso não interessa essa parte, o que quero dizer-lhe é que nem vejo quem carrego e, de há uns anos para cá, para não dar em doido, passei a reparar nas vozes, concentro-me nelas em vez de me fixar na cor dos cabelos, no feitio das sobrancelhas ou na cor dos olhos. E deixe-me que lhe diga que há pessoas com vozes horrorosas, a menina tem uma bonita voz, um bocadinho sibilante, mas não deixa de ser uma bonita voz. E é incrível como a voz daquele homem foi mudando de Entrecampos até ao Rato: um murmúrio, primeiro, entre dentes, depois da minha infracção, a boca toda aberta expondo, suponho, dois ou três dentes chumbados e a ausência de um molar e, no fim, já era a voz de um salvador.

Guardou então a carteira, percebeu que não conseguiria pagar-me a corrida, pediu-me desculpas, se o podia ajudar. Não, não podia, ninguém podia ajudar, mas já que me tinha esfrangalhado a chorar à frente de um desconhecido mal-encarado, mais valia contar a história toda.

O meu menino está a morrer, está a morrer e não podemos fazer nada, mandaram-nos para casa, sem esperança, um tumor na cabeça, temos seis meses, o meu menino tem seis meses de dor pela frente.

Escondi os olhos à frente das palmas molhadas das minhas mãos, deu-me para a vergonha, e a certa altura e deixei escorregar a mão direita para a manete das mudanças porque me apetecia fugir dali para fora. Lá de trás, o mal-encarado esticou a mão e abanou um rectângulo de cartão. Passe no meu consultório daqui a duas horas. Traga o seu menino e a sua mulher.

Li e reli aquele pedaço de papel. Director de Oncologia.

Toda a gente tem um dia.

O meu foi aquele. Mas não pense que foi assim tão fácil e que a história acaba aqui. Duas horas depois lá estava eu, o meu menino embrulhado num cobertor, a minha mulher com a cara deformada pelo desgosto. Mas ainda conseguíamos sorrir, à frente do meu menino, a gente tentava sorrir. E connosco levámos exames, o processo, ressonâncias e tac's, levámos tudo ao mal-encarado que me berrara duas horas antes, algures entre o Saldanha e o Marquês, pior do que um agente da BT.

Toda a gente tem um dia.

Este foi o dia em que tudo poderia ter mudado. Em que tudo mudou. Mas podia ter mudado para um lado ou para o outro. Há um dia, só há um dia destes em toda a nossa vida. Talvez esteja para breve o seu.

O mal-encarado voltou a falar entre-dentes e eu antecipei o pior. Confirmou a sentença de morte do meu menino.

Eu ando sempre com uma pistola no carro. Aqui do meu lado esquerdo, para não estar tão à mão, para não ser tão fácil puxar do gatilho. Eu saí do consultório, era ali na 5 de Outubro, o chão estava pintalgado de lilás, os jacarandás carregados de florinhas, e o vento a arrancá-las provocando uma chuva de pingos grossos lilases, e eu então uivei bem alto, eu uivei e a minha mulher chorava em silêncio com o meu menino ao colo.

Abri a porta do carro e corri ao lado esquerdo do carro para acabar com tudo mesmo ali, rápido e indolor, mas a pistola não estava lá, eu não sei como é que a pistola não estava lá, e nesse instante recebo um telefonema do mal-encarado, e eu ainda estava a uivar agora por raiva de a pistola não estar no sítio certo - guardara-a esse dia no guarda-luvas -, e ele pede-me para estar pela manhã no Santa Maria. Para me preparar para a maior provação da minha vida.

O meu menino vive, curou-se, está totalmente curado.

E aquele foi o dia da minha vida. De toda a minha vida.

Desligou o taxímetro porque chegámos ao Intendente.

Deixe estar, não é nada, não a posso deixar pagar esta corrida.

Terça-feira, Setembro 15, 2009

Rua dos Anjos

Eu sou uma boa pessoa.
Não tenho medo, nem vergonha de o dizer. Porque razão haveria de ter – não me vou transformar em pó, nem a terra há-de tremer se eu admitir aqui, onde apenas me visita quem procura por uma criança que nasceu com as mãos coladas, que sou uma boa pessoa, escrito mesmo assim, desta forma precisa, muito diferente de escrever até sou uma boa pessoa, sem falsas modéstias, deixando cair o até, que não estaria lá a fazer nada, com toda a presunção, sem nenhuma hesitação, de peito aberto e olhos fixados, algures entre a linha do horizonte e o início do céu - eu sou uma boa pessoa.
Não sei de que me vale isto.
De que me vale ser uma boa pessoa, de agarrar na mão fria da velha que vê no António as bochechas do seu menino que já morreu. Lembro-me de estar no Parque de Viseu, ainda sem saber quase nada, a não saber nada a não ser a arte de dar às pernas com toda a força, inclinando ao mesmo tempo o corpo para trás e para a frente, e o segredo de fechar os olhos e sentir a música do vento na cara com a trança a voar para os lados quando o baloiço quase chegava ao céu, lembro-me da minha cabeça no colo da minha mãe, saia crepe de seda branca, ela maquinal a fazer cortinas de crochet, e eu horas nisto, a examinar as mãos da minha mãe, e depois a olhar para as minhas, que não conheciam mais do que os lápis caran d’ache da minha avó, quase hipnotizada pelo movimento da mão direita, do fio que saía do saco de plástico e se transformava em renda, e eu a dizer-lhe, junto ao lago, mamã, as minhas mãos não têm estrelas como as tuas, e as estrelas eram o craquilhado junto dos nós dos dedos, e eu pego na mão gelada da velha, agora molhada de lágrimas, e vejo que ela já não tem estrelas nas mãos.
Perco tempo, demoro-me, oiço todos, a chaga da perna do homem sujo que me guarda todos os dias o melhor lugar da rua, porque a senhora fala com a gente como se fôssemos gente e não bichos. E percorro as memórias de tanta gente que nem sei o nome, analiso fotos a preto-e-branco, de papel já amarelecido, cantos dobrados, memórias guardadas em sacos de plástico, aproprio-me de tudo o que posso, sou um saco sem fim, uma manta de retalhos de um pequeno resumo da vida dos outros.
Apenas esta certeza, que de nada me vale, que se, por um momento, o mundo fosse governado pelas empregadas de limpeza curvadas e pelos porteiros anafados, pelas putas esqueléticas e arrumadores imundos, pelas caixas de supermercado demasiado maquilhadas e pelas tendinites das empregadas de mesa, pelas velhas de luto, com as saias a cheirarem discretamente a urina, se o mundo fosse do elo mais fraco, eu seria grande, intocável.

Eu sou uma boa pessoa e temo a Deus, imagino a sua ira em jeito de maremoto, nem tanto quando falho, acima de tudo quando nem tento.
A minha puta favorita chama-me um anjo. A minha puta favorita chama-me um anjo nos Anjos e isso tem que pesar.
Eu vivo nos Anjos. Vivo há um ano nos Anjos, na avenida do Almirante que deu um tiro nos cornos ao pensar que falhara, e eu não o censuro, penso que faria o mesmo, não para ganhar nome de rua maldita, mas faria o mesmo ao pensar que falhara em tudo, por isso nem tento, melhor assim, mas a ira de Deus sempre aqui ao meu lado, em crescendo, e eu digo a mim própria, eu sou uma boa pessoa, eu pelo menos tento ser uma boa pessoa, isso tem que contar, e fico quietinha no meu canto, que ninguém me bula, porque eu trago em mim os filhos das mães que já morreram, as dores ciáticas, eu trago em mim a fome da minha puta favorita que me chama um anjo apenas porque lhe dou comida de quando em quando, sempre que a encontro – menina, obrigada, muito obrigada, mas de certeza que não lhe vai fazer falta para o bebé; e ela é tão magra, tão magra e o António sorri para um rosto cadavérico que toda a avenida maldita ignora, e ela diz-me que o dia se iluminou porque somos os dois anjos estacionados na Rua dos Anjos.
E depois disto, demoro outra meia-hora a chegar a casa, porque me demoro, paro, escuto e olho, não porque venha um comboio a caminho mas porque há demasiadas almas que me escolhem, e me detêm, e eu deixo-me ficar, entretanto, o senhor Hussein há-de rezar a Alá por todos nós, há-de oeferecer-me um quilo de borrego que eu não sei nem vou cozinhar, mas sou tão boa pessoa, falo com doutores e com mendigos, falo com os velhos e as crianças vêem ter todas comigo, falo com todos os credos, com todas as raças, domino uma qualquer linguagem universal, ou isso ou tenho um tê na testa, e sou tão engraçada, falo de uma forma tão diferente das outras pessoas, mas chego a casa e desligo o telefone ou deixo-o a tocar em surdina, passo o dia todo em silêncio sem pensar nas questões maiores da vida, não posso, não consigo, respiro, como e bebo, dou de comer, dou de beber e basta; mas mesmo assim, assombrada por todos os demónios, enterneço-me com a nossa determinação em vivermos nos Anjos, como se isso nos bastasse, como se ali soubéssemos, de certeza, que nenhum mal nos pode acontecer.

Quarta-feira, Dezembro 17, 2008

António


Os dias que se seguiram amanheceram com uma luz quase perfeita.

As manhãs todas apareceram-me como se trazidas pelos olhos do David que vê o mundo como ele é, ao lusco-fusco; há sempre sombra na luz que o David vê, e essa é a verdade mais antiga de todas, da qual nunca duvidei: que a luz precede a sombra e que se lhe sucede a seguir, interminavelmente; que nenhuma existe sem a outra, mesmo nos dias mais claros de todos, e os dias que se seguiram eram de uma luz que não feria ninguém, uma luz que fazia dançar as partículas de pó à minha frente e, se quisesse, poderia até nunca ter fechado os olhos naqueles dias; e nas manhãs todas parecia-me ouvir um estalido pequeno, o pequeno estalido que os ouvidos mais atentos conseguem escutar no momento imediatamente anterior à caixa de música arrancar o primeiro acorde ao rolo dentado onde estão gravadas, a relevo, as mais bonitas melodias.

Os dias que se seguiram chegaram-me, também, embaciados por um bafo qualquer, quente, vindo de dentro para fora de mim. E, aparentemente, apesar do ressoar de um longínquo eco, que não nos faria nunca esquecer os dias mais tristes de todos, parecia que, um a seguir ao outro, todos os sonhos voltavam a emergir, violentamente, respingando com uma esperança esmagadora os dias que nos chegavam, banhados com uma luz cada vez mais perfeita.

Os dias que se seguiram souberam também à primeira golfada de ar depois de se ter desejado com todo o ser, com toda a força, deixar de respirar, e havia, por isso, neles, também algo de água: todos os sons pareciam abafados por ela, os mais agudos e os mais graves não eram mais do que um sussurro, e nós rodopiávamos, leves, em manobras impossíveis dentro dela – piruetas, cambalhotas, e escarpávamos até às suas profundezas, para desenterrar todos os sonhos, até os mais velhos, os que foram quase esquecidos, e eles vinham à tona sem sequer lhes tocarmos, e nem nos lembrávamos sequer que ali os tínhamos mergulhado porque havíamos desejado deixar de respirar.

E por mais tempo que ali estivéssemos, que ali decidíssemos ter estado, as mãos nunca se haveriam de ter engilhado, o ar nunca nos haveria de faltar; ali não eram só os sons que se deixavam abafar por entre líquenes: tudo era morno e a luz, como eu já disse, era quase perfeita; era clara e sombria quando assim era preciso, e aquele sítio, para onde fomos arrastados nos dias que se seguiram, dava-nos tudo, e os sonhos pareciam mesmo saídos dali, de um lago de águas paradas e turvas, que os guardou em segredo, em paz, longe de todos, longe de tudo, e nós sorríamos entre golfões, tufos de lentilhas-de-água e emaranhados de raízes de nenúfares, afastávamo-los a todos como se afasta uma madeixa de cabelo que teima pousar à frente da cara, e banhávamo-nos com aquela luz quase perfeita que nos chegou nos dias que se seguiram.

Depois, foi o mais fácil, não foi preciso qualquer esforço, tudo corria de feição, como devia ter sido, como teria sido escrito da primeira vez, e a nossa missão era simples, trazermos os sonhos à deriva e, para grande surpresa de todos, eles estavam intactos, nenhum se esfarelou, nenhum se esborratou pelos dias tristes que agora acreditávamos ter enterrado.

E os sonhos pareciam ter sido sonhados a noite passada.

Podíamos até contá-los como uma história de encantar, pudéramos tê-los cantado como uma canção de embalar que se entoa, ao fim da noite, à cabeceira de uma criança que ainda não tem medo do escuro; eles voltaram como se os tivéssemos acabado de sonhar, como se ainda trouxéssemos a cara enrugada dos lençóis brancos onde pousámos o corpo durante dias que não foram mais do que noites; e os sonhos traziam em si as metáforas mais bonitas, todas as promessas, os melhores augúrios, e nós éramos heróis em todos os capítulos - a nossa força e coragem enterrava todos os monstros, todo o mal e toda a dor; éramos portadores de toda a esperança do mundo e da justiça também; sabíamos isso, tínhamos acabado de acordar e os sonhos, os nossos sonhos, afinal, não tinham ido a lado nenhum.


Para o meu filho António, que é o sonho mais bonito, é a luz, depois do pesadelo mais cruel.

Para o João – até ao infinito.

(E para a minha amiga Hermínia, para o meu amigo David, que nunca deixariam que me faltasse o ar, mesmo que eu desistisse de respirar)

Terça-feira, Outubro 21, 2008

Tantas, tantas vezes me aconteceu o mesmo.

É por isso que eu digo que não sou bem a filha da minha mãe. Ela nunca se mostraria tão vulnerável, seria mais impensável do que passear pela rua em trajes menores, ela nunca se deixaria paralisar por algo que não fosse francamente aterrador, nem o maior susto da sua vida, talvez nem o seu maior desgosto a fizesse quedar-se e quebrar-se em frente a uma multidão.

E ninguém parou, nunca ninguém parou quando tantas, tantas vezes me aconteceu o mesmo; nunca ninguém sequer abrandou, ninguém perguntou se eu precisava de ajuda, nunca ninguém estendeu a mão, ninguém olha para trás, nunca ninguém olha para trás, só para a frente, nunca ninguém saiu do piloto automático quando isto me aconteceu, tantas, tantas vezes.

Por isso é que me foi impossível continuar com a minha cómica marcha - um pé inchado atrás do outro, uma coreografia meio grotesca, barriga empinada, caminhar arrastado, bamboleante, gotinhas de suor a deslizarem pelo nariz, outras em fila de espera para andar no escorrega na minha testa.


Eu bem que podia ter feito como todos os outros, seguido o caminho das pedras que me leva todos os dias a um sítio onde eu sou um pouco menos eu, onde definho mais um bocadinho, onde experimento o desprezo depois de um nadinha de glória, o desânimo depois da alegria, onde cada vez mais me convenço da máxima maior, que sou boa demais, que sou boa demais para isto e para quase tudo o que já fiz na vida, que anda meio mundo a enganar o outra metade, a enganar sem tão-pouco disfarçar, e a metade enganada sorri, encantada.

Eu podia ter fingido que não era nada comigo, que tanto se dá como se me deu, como se ela fosse mendiga, como se ela fosse nojenta, como se estivesse desgrenhada, como se ela tivesse uma doença altamente contagiosa. Pior. Podia ter passado por ela como se ela fosse invisível.

Mas não podia ser assim. Porque tantas, tantas vezes me aconteceu o mesmo e ninguém parou, nunca ninguém parou. E só de olhar para ela, ao longe, fiquei tão triste – tinha que parar.

E era apenas uma mulher bonita, muito bonita mesmo, que chorava em silêncio, sentada num banco de jardim, e uma multidão imensa passava por ali, um formigueiro que não quer saber, que nunca vai parar, porque é só uma mulher triste a chorar num banco de jardim. Ridícula.

A minha mão parada na perna de uma mulher que chorava sozinha num banco de jardim. Se a minha mãe me visse, ia achar que eu sou mesmo filha do meu pai. Eu agachada, com esta barriga toda, à procura do equilíbrio, entre estalidos de articulações que não nasceram para carregar o peso do mundo, que podiam carregar muito bem uma criança mas não toda o excesso de bagagem que trago em mim.

Em que é que a posso ajudar, precisa de alguma coisa, quer que eu lhe vá buscar uma água, uma sucessão de perguntas tontas. Não valeu de muito, não valeu quase nada, foi só uma mão em cima de um joelho tapado por uma ganga preta, duas ou três frases de circunstância, atabalhoadas, eu também fiquei tão triste, como se a tristeza se passasse por um qualquer sensor de bluetooth.

Mas a mulher sorriu, sorriu de surpresa, eu estou aqui, afinal eu estou aqui, não desapareci, terá pensado ela, e sim, eu teria gostado que, um dia uma alma qualquer tivesse parado também, oferecido um lenço de papel com sabor a alfazema, que me assegurasse que tudo ficaria bem, mesmo desconhecendo que dores de crescimento eram ali curtidas num banco de jardim.

E a mim, certamente, ninguém me vai condecorar, nenhuma sessão solene será convocada para elogiar os meus nobres e gloriosos feitos, as minhas incríveis façanhas; não haverá centros de flores em cima da mesa de honra e no palanque, nem medalhas brilhantes com fitas de cetim para pendurar ao pescoço depois ouvir de bonitas palavras escritas por um qualquer assessor.

Porque isto acontece-me vezes demais, já me aconteceu vezes de mais, tantas, tantas vezes.

Quarta-feira, Outubro 15, 2008

Mamã, e se os números nunca acabam, porque é que nós acabamos?
Carolina Ralha, 4 anos, ao calor de 39 graus de febre, e com a garganta forrada a pus, no habitáculo de um Fiat Idea, parado em frente ao nº 19 da Avenida Almirante Reis.


Bem vistas as coisas, foi a primeira marca semi-permanente que deixei no mundo, ou no estuque de uma parede.

Tanto faz.

Para esta, para qualquer outra história não faz grande diferença, e nunca é muito relevante, sequer, saber de que forma é que se fez a ferida, qual foi o barulho do tombo, o tamanho e a forma da cicatriz, ou mesmo como foi e porque artes conseguimos chegar em primeiro, à frente de todos os outros; como é que conseguimos cantar mais alto, correr mais rápido, acertar em tudo o que havia para acertar, e suportámos cair nas graças do mundo, e aguentar até hoje a suportar o peso de todos os olhos pousados em cima de nós.

Para aqui pouco importa, só é de tomar nota que este foi um dos primeiros e nem por isso raros momentos em que uma coisa qualquer se serpenteou perto de mim, demasiado perto de mim, e anunciou baixinho que eu sempre caminharia pelos mesmos caminhos dos outros, mas num passo e de jeito diferente.

E essa certeza - e isto também não é muito relevante - só me chega agora, vinte anos depois, aparentemente só me chega agora.

Sempre soube que esta foi a primeira marca, mas apenas se torna tudo límpido em mais um impasse, em mais uma insónia, em mais uma moinha, já se transformou num incómodo apenas, uma espécie de zumbido, uma comichão, quando essa qualquer coisa se aproxima demais, e me chega mesmo a tocar, e depois recua, claro, queima só um bocadinho, só mais uma pequena picada para me lembrar que há-de ser sempre assim - eu hei-de andar pelo mesmo caminho dos outros mas num passo e de um jeito diferente.

Mas, primeiro que tudo, há a festa de Natal da escola no Bairro das Estacas, na sala 7, em frente àquela em que eu aprendia a desenhar os mais belos quês de quá quá, num quadro preto muito grande e que parecia feito de manteiga de ardósia.

Na sala 7, o quadro não era negro, nem de pedra arrancada à terra, era verde, de um qualquer composto industrial, naquele quadro as letras recusavam-se a ficar tão bonitas quanto as da sala do quadro preto rugoso da sala em frente - que sorte a minha ter aprendido a desenhar as letras naquele quadro - e foi ali, numa sala que me era estranha que eu ouvi o primeiro guincho de um pau de giz, e eu nunca percebi porque é que o pau de giz partido não guincha, ou pára mesmo de trinar.

Os apagadores da Cisne, de desperdício de fibras têxteis compactados, eu consigo ver tudo com demasiada nitidez, talvez me possa baralhar um pouco, efabular um pouco: na carteira para cima da qual me ergueram no encore, as tranças da Minashri e o pullover aos losangos do Pritesh ao meu lado, comigo a cantar a lenga-lenga em francês que a minha mãe me ensinara, muito encolhida.

Saint Nicolas va m'apporter une poupée, une poupée, Saint Nicolas va m'apporter une poupée pour m'amuser.


Essa foi a primeira vez do conhecimento de muitas coisas importantes, do poder emudecedor do som que me sai muito afinado da garganta, foi o dia em que descobri também que o coração por vezes sai do seu poiso e se faz ouvir em surdina junto à orelha direita.

Et des caramels pour les demoiselles, et des grand batons pour les vilains garçons


Foi o primeiro trago de uma coisa que a quem chamam espanto, eu espantei-me com o que acabara de acontecer: o silêncio, o medo, as palmas, e depois um rubor nas bochechas e na barriga quando tudo terminou.

Mas este momento só foi verdadeiramente relevante para mim, eu hei-de me lembrar da minha primeira canção em frente a uma escola inteira durante toda a minha vida; só eu me lembro da festa de Natal da Escola do Bairro das Estacas na sala 7.

E depois há o convite à menina tímida que acabara de mudar de escola, órfã de três avós em menos de um ano.

Eu não falava com ninguém, eu não ria de nenhuma graça, não trazia os meus berlindes nem o meu elástico, nem fixava verdadeiramente os olhos em nada. Não saltava nem brincava no recreio, e quando chovia, eu gostava quando chovia, transferiam-nos para um pavilhão de chapa de zinco e aí eu passava o tempo à margem, nunca perdi tempo a olhar para dentro, mas sempre a olhar para fora, e esgotava o tempo em que não estava na sala de aula – o quadro já não era de ardósia, aquela já não era a sala 5 - a contar as goteiras da gigante barraca e convencida que Deus me tinha como filha adorada, porque o mestre de Judo reciclado em professor de ginástica da criançada continuava doente e, assim, não teria que admitir em frente a toda a turma que não sabia dar uma cambalhota, fazer o pino, ou rodopiar numa roda.

Mas o dia em que eu deixei a minha primeira marca semi-permanente no mundo, ou no estuque de uma parede - como disse, tanto faz -, em que este vaivém começou chega-me agora, sem aviso, mais de vinte anos depois, enquanto vos escrevo com dois cérebros e vinte dedos das mãos, foi esse o dia em que o extraordinário me bateu à porta pela primeira vez, cedo demais, cedo demais, era só uma criança de oito anos quando uma directora de um colégio privado me encomendou o meu primeiro mural, pediu-me ela, em frente a toda a escola: Podes tirar duas tardes e pintar as paredes da sala dos bebés com os desenhos tão bonitos que só tu sabes fazer?

Depois de forrar as paredes com gatos gordos de várias cores, uma maceeira, flores, e da minha assinatura junto ao rodapé de uma das paredes - foi a primeira vez que eu assinei Diana Ralha, que nome bonito que me deram -, nesse mesmo ano, como seria de esperar, tornei-me invencível e rápido viria a ser a aluna-prodígio do professor Geraldes. Com a ajuda do meu querido irmão-primo Hugo, passei da menina triste para o mais perto de uma Nadia Comaneci que algum dia fui. Até grande ginasta eu já provei que conseguia ser - Quantas vidas cabem em mim?

Muita história poderia ter sido contada desde a última vez que eu aqui escrevi; desde a última vez que o extraordinário me tocou de raspão e voltou a deixar nódoa-negra.

A vida, a nossa vida, já não passa devagarinho entre as quatro paredes de Santa Marta. Agora, de vez em quando, conduzo um jipe do bloco de leste comunista e trago em mim uma outra, uma nova vida: tenho vinte dedos das mãos, vinte dedos dos pés, tenho dois cérebros, e cresce em mim um menino que se vai chamar António.

E porque o extraordinário já persegue o meu menino mesmo no escuro do ventre da sua estranha mãe, ou talvez porque, afinal, existe uma qualquer lei de compensação cósmica - coisas tão más não deviam acontecer a pessoas que, pelo menos, tentam não fazer mal a ninguém, só pode ter sido engano, não devia ter sido eu -, o António se calhar vai chegar ao mundo um ano depois do maior desgosto da minha vida. E está bem assim, se calhar está mesmo bem assim, eu aguento tudo, quem é que não acredita que eu aguento tudo?

A Carolina agora dorme num quarto cheio de fadas e estrelas que eu própria desenhei e depois pintei com todo o amor que me pode sair das mãos, sem me preocupar em assinar o gigante mural, como da primeira vez em que deixei a primeira marca semi-permanente no mundo.

A minha filha fez-me prometer que nunca mais mudamos de casa. Muito triste, numa noite destas, mesmo muito triste, ela explicou-me que é pequenina e que por isso se vai esquecer da casa onde fomos só nós duas e mais ninguém, e onde depois fomos três, onde as paredes abriram rachas de tanto amor que por lá passou.

E por isso, para que ela não se esqueça de Santa Marta, da D. Beatriz ou do Sr. Zé, do seu quarto cor-de-rosa cheio de gatos nas paredes, da parede laranja da sala, ou da cozinha vermelha, assentamos as histórias da sua memória de quatro anos num caderno muito bonito que a Teresa nos deu. Quem sabe se esta não será a sua primeira marca semi-permanente no mundo?

Agora, vivo numa casa cheia de sol, de tectos altos onde nascem flores de estuque feitas pelas mãos mágicas de alguém que conheceu as minhas paredes há mais de cem anos. Vivo na avenida maldita, digo isso aos turistas, que aquela avenida é amaldiçoada, conto sempre novas histórias, e tenho um amigo paquistanês que reza a Alá para que a garganta da Carolina a deixe em paz.

Subo cem degraus para chegar à nossa casa, onde cabem todos os nossos amigos, toda a nossa família, todos os nossos sonhos, e há remendos mal feitos no chão de tábua corrida, há os gritos do prédio da rua de trás, mas é a casa de onde eu prometi que não saía mais.

E sonho muitas vezes com o meu pai, lembro-me dele por tudo e por nada, vejo-o quando deixo o olhar perdido nos pequenos quadrados de mosaico azul de uma qualquer piscina, ou quando pinto fadas nas paredes com os pincéis que ele me deixou em herança.

E também sonho com o cheiro e com o colo da mãe do meu pai, com ela a abrir-me a asa e o cobertor da sua cama, com o cabelo muito comprido e branco, uma figura diferente daquela que eu conheci, como se ela tivesse envelhecido apenas nos meus sonhos, como se nunca tivesse morrido e vivesse nos meus sonhos, e ela a dizer-me, uma noite destas em que não dormi por causa de mais uma dor, a minha avó tapada por um cobertor estampado com o mapa mundi do século XV a dizer-me: entra, podes dormir aqui.

E penso - eu não sou a filha do meu pai. E repenso: também não sou a filha da minha mãe, muito menos da minha mãe, essa mulher inquebrável que nunca chora a não ser pelas suas árvores e pelos jardins votados ao abandono.

Eu sou qualquer outra coisa de intermédio, mas não sou mistura de nenhum dos dois. Sou a derrota e a glória. Sou bonita e sou feia. Sou amiga e venenosa. Sou mercenária e bondosa. Sou a mão que escreve e a mão que pinta. Sou a voz que canta e a voz que defende causas invencíveis.

Sou tudo e não sou nada.

Quinta-feira, Abril 03, 2008

E nada de extraordinário acontece (uma e outra vez)

A frase está trocada - eu quero dizer uma coisa, mas digo o seu contrário, não sei bem se é de propósito, mas faço isto a toda a hora, eu desdenho, eu provoco, e eu queixo-me à toa, trago os bolsos cheios de histórias de um cancioneiro que faz cair os queixos e esbugalhar os olhos, eu digo (como é que eu tenha a lata de dizê-lo?):

eu só quero uma vida simples, sem sobressaltos.

E sento o rabo no sofá da casinha de bonecas da rua do Monopólio (eu vou morar para a avenida maldita, mas ela também está no tabuleiro do jogo da minha infância, sentados em cima do tapete sobre o qual o meu pai morreu, as pernas da mesa enterradas em tacinhas de água por causa das formigas pretas, e eu decido morar na avenida maldita, porque sempre tive queda para acolher as maldições de todo o mundo) – eu sento-me e não posso deixar de pensar que o meu rabo está enorme, que isso não é de hoje, mas que agora já não sei, já não reconheço que corpo é este que arrasto.

(e quando o telefone tocou – foi quase há um ano, como é que já passou quase um ano -, junto ao recreio da escola de São Miguel, em frente ao prédio da segurança social, e o meu irmão disse, o Zé Ralha morreu, eu pensei imediatamente que ficaria com os seus olhos; lembro-me de baixar a pála do pára-sol e espreitar a medo se os meus olhos já tinham ficado grandes como bolas de cristal, e se já não eram os meus, umas amêndoas perfeitas, que viam tudo a andar à roda; e isto, todo este medo, porque há muito, muito tempo ele disse-me, na única sombra do terraço de tijoleira escaldante - a glicínia ainda estava em flor-, quando a tua avó morreu - és tão parecida com a minha mãe -, ela deu-me os seus olhos, nesse dia, eu sonhei com uma tangerineira, e acordei com os olhos da minha mãe).

Mas eu sento o rabo no sofá - e naquela casa há sonhos novos dentro do estafe de cada parede velha repintada -, e eu digo às minhas vizinhas (querendo acreditar nisto com todo o meu ser):

Eu não preciso de mais nada. Acreditem no que vos digo, não quero glória, não posso ousar pedir seja o que for, e mereço todas as agruras; é que não posso mesmo, se ninguém me põe no meu lugar eu mesma me ponho na ordem, eu sei ser humilde, eu sei agradecer de papo cheio ou mesmo quando tudo é deserto, porque quem tudo quer, tudo perde, e porque mais vale um pássaro na mão do que dois a voar; eu tenho tudo o que pedi.


Ousei pedir o impossível que se fez possível, eu tenho mais do que poderia ter sequer sonhado,

(e tenho só quase trinta anos)

eu tenho-o a ele, o meu grande, grande amor, aquele que arrastei para o incrível mundo do nada de extraordinário acontece.

Bem, sei, tens toda a razão, a frase devia ser ao contrário - e tudo o que é extraordinário acontece -, eu não sei bem porque é que não escrevo tanto como antes, se é porque tenho medo de ser pobre e mal agradecida, eu não queria mais nada, não preciso de mais nada, só uma vida simples, nas vidas simples os blogues não servem para nada,

(escrevo isto e tenho Álvaro de Campos a sair-me da boca para fora, se eu casasse com a filha da minha lavadeira talvez fosse feliz),

e visto isto, percebo que não há um pingo de humildade em mim, que digo isto da boca para fora, para ver se de tanto repetir consigo decorar, mas eu quero mais, sempre mais um pouco; há meses, uma boa meia dúzia deles, eu gravei no telemóvel o número de telefone do comendador – porque raio, queres tu o número do comendador, sabe-se lá, e nada de extraordinário acontece, e agora da janela do museu que lhe é homónimo, eu tenho Picasso e Magritte ao meu dispor (e quem haveria de dizer que os Litchensteins são tão grandes), ainda agora, há tão poucas semanas, eu embrulhava os quadros da herança do meu pai, um Bual, não sei quantos Limas de Freitas, e os quadros do meu pai, e o número do Comendador guardado no meu telefone rasca.

E zango-me, arrelio-me (Miguel, arreliar é uma das minhas palavras favoritas; e bem-haja também – era o meu avô Oliveira que as dizia sempre, Diana, não me arrelies, e Diana, bem-haja), tenho a Santa Filomena, de setas coladas ao peito a olhar para mim, e quantas vezes pensei – afinal, o meu pai não era bruxo; afinal, o meu pai nem sequer me deu os seus olhos, afinal, tudo o que me resta são prédios no Barreiro e centenas de telas embrulhadas em papel de cenário,

Mas o meu pai faz-me das suas, porque eu insisto, porque eu digo, à laia de ladainha em tom menor, e nada de extraordinário acontece, e um, dois, três, dias depois de eu perder o filho que não nasceu, aparece, sei lá vindo de onde, um fantasma monocromático ofendido com as palavras deste blogue, que abalroa a minha mãe na rua, que diz que eu sou uma galdéria, que não presto para nada, um fantasma se sumiu da vista há mais de dez anos, raios, raios, e tudo o que é extraordinário acontece, e virgem ofendida, devolve um quadro de um anjo que o meu pai em tempos pintou. E o imbecil ofendido nem percebe que me trouxe um presente do meu pai, nem percebe que foi joguete de um plano maior, que só serviu para isso, e espero que fique bem, e que tenha muitos filhinhos pela barriga da perna.

Mas não fica por aí - comovo o haitiano octogenário com o meu francês macarrónico – tu parles le francais comme une vache holandaise, diria o meu avô Oliveira – e convoco toda a imprensa para o seu trabalho, peço ao David o email da última voz da rádio, e digo quem sou, o que fiz (não sou nada, não posso querer ser nada, Álvaro de Campos está-me nas pontas dos dedos), que preciso da sua voz emprestada, e do outro lado do oceano, onde o ditador veste fatos-de-treino da Adidas – ele responde que me conhece muito bem, que muito estima o meu trabalho, e eu sem saber a que trabalho ele se refere.

E se tal já não bastasse – já era demais até ao final do ano, pelo menos -, pela manhã sorrio por dentro, porque a mulher com quem falo, desde o início da semana, de orquídeas, azáleas e hibiscos, diz em francês, ao telefone, que o recém nomeado director-geral das artes, é da terra do São Francisco Xavier, que lhe deve ter herdado o apelido

(Eu sorrio, porque o João acha que eu sou Xavier, porque a minha família goesa descende do santo)

E, de repente, ela desliga o telefone e em tom grave, pergunta:

Filha, qual é mesmo o teu apelido?

E eu respondo, a sorrir, Xavier Ralha, isso mesmo, o apelido dos monhés, e julgavas que era só isto, nã, nã, nã, faltam as palavras mágicas, essas mesmo, as que eu digo em jeito de feitiço dos contrários – e nada de extraordinário acontece -, e já temos as duas os pelos dos braços eriçados à espera do que está para vir, quando ela me deita ao chão (preciso de fumar, preciso de fumar 3 cigarros de seguida) e revela um dos segredos mais bem guardados da família:

O teu pai não tinha um gato chamado Leonardo?

E, de repente, eu percebo porque, afinal, guardei o telemóvel do comendador.

Terça-feira, Março 11, 2008

A escada

De certeza, a qualquer momento, vou-me esquecer – estou nisto há dois dias –, talvez não seja ainda hoje, mas de amanhã não passa, com certeza, vou-me esquecer, é tão certo como o remoinho da minha franja arrebitar o monte de cabelo sobre a minha testa, e vou levar à boca o copo de água que antes de mim matou a sede à gerbera oferecida pelo Spa das tias, na véspera do dia da Mulher.

Mas, inexplicavelmente, deixo-o ficar, aqui, do lado esquerdo.

Certamente, talvez aguente até amanhã – ando nisto há quantos dias? –, sou capaz de jurar que não vai demorar muito, semanas no máximo, vou tirar as conchas que me aquecem as orelhas com decibéis acima do que as autoridades comunitárias aconselham, e esqueço os máximos do petróleo, deixo de plantar dezenas de notícias sobre o preço do alumínio, peço desculpa ao meu adorado banqueiro, e agarro no pinheirinho que enquadrei entre as escadas de incêndio e o rio Tejo, saio pela porta sem mais explicações, sento-me num degrau frio da escada que ninguém sobe, que ninguém desce, e começo a cantar.

Qualquer coisa, o que me vier à cabeça – quantos gigas tem o lado direito do meu cérebro, eu acho que é do lado direito que guardo todas as músicas, mesmo em cima do olho -, às vezes, só vou lá acima para murmurar baixinho qualquer coisa pelas escadas, pego num cigarro, e vou lá acima, perguntam-me, não vais de elevador, não, não vou, não dou mais explicações, subo pelas escadas porque quero ver o Marquês e para murmurar baixinho qualquer coisa pela escada acima; só por isso é que vou lá acima.

Como é que era? Passávamos os intervalos escondidas, no breu, escondidas pelo caracol da escada, eu tinha a voz límpida, e a tua voz por vezes cheirava a mofo, tinha buracos como uma qualquer avenida de Lisboa, e a minha era constante e cristalina, nunca saía de tom, nunca hesitava, parecia tudo uma incrível magia, por vezes, espantava-me a beleza das nossas vozes juntas, tínhamos 14 anos, eu descobri a minha voz às escuras, contigo, a cada intervalo, e lá fora jogava-se à bola, e fumavam-se cigarros junto às casas-de-banho, mas nós fugíamos, não dizíamos nada a ninguém - aquilo era o segredo mais bem guardado, era melhor do que qualquer droga -, nós dávamos as mãos e íamos cantar para as escadas que já ninguém se lembrava.

Gostava de voltar àquelas escadas. Provavelmente, ao cimo do caracol, trancados a sete-chaves, ainda estão os xilofones que me faziam rir com a minha própria descoordenação motora, decerto, coberto de pó ainda está o piano desafinado, gostava mesmo de lá voltar contigo para cantarmos músicas de quando ainda não tínhamos nascido.

De certeza, eu sinto-me prestes a ceder, não vou aguentar muito mais estou assim desde que encontrei aquela foto dentro do CD da Elis, eu de cabelo muito ralinho, o maior tesouro da minha herança é aquela foto dentro do CD da Elis, o meu pai guardava-me dentro do CD da Elis, e desde que eu encontrei aquele retrato a preto-e-branco, cabelo em desalinho, a minha boca tão bem desenhada, assim a olhar para cima, todos os sonhos enterrados na covinha da bochecha direita –, já não sei quantas vezes cantei a “Saudosa Maloca”, ou as “Folhas Secas” e o “Cais” desde que encontrei aquela foto; por ora, eu só precisava de umas escadas, umas de mármore, no penúltimo andar de um prédio alto, não preciso de audiência, enquanto uns fumavam charros, enquanto outras descobriam o corpo, eu passava as tardes numa escada a cantar.

Sei bem que a Natalina, do sétimo andar, abria a porta devagarinho, e ficava a escutar, sei muito bem. Na altura eu não ria alto, eu não dava nas vistas, eu era invisível – dava tudo para ser outra vez assim –, naquele tempo eu não queria escrever, eu não gostava de canetas, e nunca tinha batido os dedos sobre nenhum teclado, e eu tinha esta certeza, eu trazia esta certeza agarrada à garganta, que o que mais me fazia feliz era cantar.

Na escada, sem audiência, sobretudo sem audiência, eu queria ver até onde é que eu podia chegar; eu levava o meu maço de SG Ventil e passava as tardes a cantar, matava as beatas com o sapato que também ainda não era de salto alto, eu matava as horas a cantar músicas que mais ninguém conhece, a cantar dores que ainda desconhecia, mas que adivinhava estarem à porta, eu sei que sou quem sou por causa dessas músicas que foram escritas e cantadas muito antes de eu nascer, sobretudo por elas, eu sou esta pessoa, não há palavras aqui, aqui ou noutro lugar, que me convençam do contrário, e não há nada que me faça tão feliz como quando cantava naquelas escadas.

Qualquer dia, a qualquer instante, eu tinha 14 anos, eu apaixonei-me pela minha voz há mais de 14 anos, e depois fechei a boca, como se faz a um amante traidor, eu fingi que esqueci o grande amor da minha vida, não tarda, sem mais demoras – eu sinto isto desde que encontrei a foto a preto-e-branco, fechada no tesouro mais precioso da herança do meu pai -, fecho a tampa do portátil, deixo a cadeira a girar sozinha, levo o maço na mão, saio porta fora e ponho-me a cantar.

Por enquanto, enquanto isso, fico por aqui, a adivinhar quando vou beber ao engano o copo de água choca que matou a sede à gerbera oferecida pelo Spa das tias, na véspera do dia da Mulher.