<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166</id><updated>2012-02-16T14:18:28.551Z</updated><category term='50.000'/><category term='contos da administração pública'/><category term='a sindicalista deslumbrante'/><category term='o senhor guilhermino'/><category term='Rapariga peculiar'/><category term='professor de filosofia'/><category term='e nada de extraordinário acontece'/><category term='Querido diário'/><category term='a vida é má e a seguir morre-se'/><title type='text'>(T)ralha</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>764</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-1399922616496117820</id><published>2011-07-19T22:21:00.001+01:00</published><updated>2011-07-19T22:21:34.835+01:00</updated><title type='text'>Doc33.docx</title><content type='html'>Numa consulta bianual de rotina, na linha de montagem de uma salinha minúscula de uma oftalmologista indiferenciada, num hospital privado qualquer nos subúrbios da cidade, a médica não perdeu mais que três minutos a espreitar por uma lente potente os meus olhos, emoldurados por gigantescas pestanas encaracoladas. &lt;br /&gt;Congratulou-se pela acuidade de ave-de-rapina que ainda traziam mais de três décadas depois de se terem expandido pela primeira vez com a claridade de um dia capicua de Julho, espantou-se depois, por breves instantes, com os mil cristais que existem nos olhos azuis da minha filha que lhe transmutam a cor com recurso a toda a paleta do arco-íris conforme os seus estados de alma.&lt;br /&gt;Voltou aos meus, castanhos da cor do mogno, iguais a tantos outros que haviam passado por ali desde o início da manhã, e deixou o alerta para a vigilância apertada em relação ao sinal de sangue que se colou à íris do meu olho, como um apêndice, há tantos anos como aqueles que trago em mim, desde aquele dia do calendário gregoriano em que um dois se colou a outro dois num ido sétimo mês. E garantiu que, fosse esse o meu desejo, um mero procedimento em ambulatório restituiria a candura ao globo ocular do meu olho direito, como uma borracha humedecida pela ponta da língua.&lt;br /&gt;Poderia ter dito à médica indiferenciada, no hospital privado qualquer do subúrbio da cidade, que partilho o sinal de sangue com a mulher de quem herdei o formato e a cor dos meus olhos, o sobrolho levantado em sinal de quem não está a gostar do rumo da conversa, o olhar grave e por vezes distante, o beicinho proeminente de quem tem sempre alguma coisa a dizer sobre todo e qualquer assunto, o corpo obscenamente arredondado em forma de pêra, o fascínio por coisas brilhantes e bonitas, e, provavelmente, sem lhe chegar aos calcanhares, qualquer coisa da genialidade desse ser maior, de seu nome Isaura.&lt;br /&gt;Poderia ter posto mais achas à fábula e dizer-lhe que apesar de ter nascido sessenta anos depois de Isaura uma coisa incrível aconteceu entre avó e neta, porque eu trouxe em mim o mesmo sinal que ela tinha tatuado no olho direito. &lt;br /&gt;E a história ganharia contornos sobrenaturais quando eu desvendasse que Isaura não nascera assim, como eu, que só se vira marcada de sangue por ter picado o globo alvo, branco como a mistura de todas as cores, nos anos 30, numa roseira no jardim de uma casa senhorial do Barreiro que o seu pai, António, teimara que um dia havia de oferecer à mãe quando veio para junto do Tejo secar bacalhau sob o olhar atento dos golfinhos que ali animavam a paisagem. Ou assim me contaram – se calhar é lenda, foi história inventada para eu poder agora estar a escrevê-la sem detalhes. A do espinho, da roseira, da Quinta das Canas, a praia de Copacabana no Barreiro.&lt;br /&gt;Mas herdei também o tom teatral do meu pai, que hoje não está comigo, apesar de fazer 59 anos. E que está aqui comigo, neste momento, ao meu lado.&lt;br /&gt;Disse: é natural que o sinal ali esteja e que seja, passo a redundância  um sinal de tudo o que havia de se passar na minha vida. Lamento, mas não há fogo algum que o queime, não há feixe de luz que o apague por magia. &lt;br /&gt;Ele está ali, no sítio onde está, nem mais abaixo, nem mais para um lado ou para o outro, para que todos os dias eu me lembre que já vi demasiado, que eu nasci porque havia de ter que ver tudo de bom e tudo de mau. &lt;br /&gt;Riu-se. Tem nome a patologia. Está descrita, disse a médica indiferenciada no hospital privado qualquer no subúrbio da cidade. Tem tratamento, acredite, o laser de que falei. É muito simples, indolor, caso queira podemos marcar ainda esta semana. &lt;br /&gt;Pois fique com a sua, e eu fico com o humor vítreo do meu olho direito intacto, e com a certeza de que tenho um sinal de sangue porque já vi demasiado. Talvez mais do que poderia aguentar. Por vezes, sinto que foi mais do que eu podia aguentar sem ter que viver com os dias com o reflexo do espelho a lembrar-me, no olho direito, que descaiu um pouco face ao esquerdo, que já vi demais.&lt;br /&gt;Seguramente, vi mais do que a maioria se poderá gabar de ter visto a vida inteira. Vi tudo aquilo que me estava destinado. Nada mais, nada menos. E não vai parar por aqui, sei-o bem.&lt;br /&gt;Por vezes, senti-me a cegar da brutalidade das coisas que já vi. &lt;br /&gt;À noite, quando tenho os olhos bem fechados, e consigo até distinguir do zumbido agudo do silêncio o lamento do frigorífico na outra ponta da casa, por vezes volto a ver o que nunca devia ter visto. O que gostava de não ter visto, e que me ensanguentou a vista como uma ferida aberta que não sara.&lt;br /&gt;Mas há também o clarão de beleza de tudo o que já me foi dado a ver. Por estes olhos.&lt;br /&gt;Mas eu já vi demais. Lamento tantas vezes o meu fado.&lt;br /&gt;E o sinal de sangue sempre ali, uma pinta encarnada perfeita fundindo-se com o castanho do meu olho direito, a lembrar-me todos os dias aquilo, tudo, que já vi. Como uma tatuagem.&lt;br /&gt;Sou constantemente perseguida por sequências de 16 a 24 fotogramas por minuto (quantos fotogramas haverá num sonho a dormir e quantos há num sonho acordado?). E se acordo a gritar pela minha mãe – e é sempre pelo nome das mães que chamamos num momento de maior aflição –, a meio da noite, torcida no sofá, é porque, até de olhos fechados, eu vejo mais do que devia e queria. Porque eu vejo até o que não me foi dado a ver, e o que me foi deliberadamente ocultado por ingénua protecção. Como um superpoder, um dom que vira maldição.&lt;br /&gt;Eu vi um revólver Smith &amp; Wesson, calibre 38, o S enrolado no W, à cabeceira de um octogenário. Vi tudo por detrás da porta e, por vezes, vejo tudo sempre a mesma, atrás da cortina de voile branco, que afasto com a mão, como quem espreita pelo buraco da fechadura. E de todas as vezes que o vejo, falho sempre, e não consigo impedir o disparo. E acordo a gritar pela minha mãe.&lt;br /&gt;Agora, mais recentemente, vejo, dia sim, dia não, árvores mortas e um mato de ervas daninhas, ruínas assombradas e um lago cheio de peixes cor-de-laranja mortos, a boiar, num recanto onde os golfões de água não chegaram a cobrir as águas – que vêem tanto como eu – de vergonha.&lt;br /&gt;Antes disso, vi o meu corpo a expulsar um filho tão amado, tão desejado, na casa de banho imunda de um qualquer hospital privado, este não no subúrbio mas sim no centro da cidade, e vi também a cegueira dos olhos brancos de um qualquer obstetra indiferenciado, quando lhe mostrei, desesperada, um papel ensanguentado com o meu filho morto, e soube que ele não veio, nem virá a ser marcado com um sinal de sangue no olho direito. &lt;br /&gt;Sorte  dele, mas não me venham dizer que há uma máquina que apaga a marca de sangue que vive e cresce no meu olho direito.&lt;br /&gt;Sexta-feira faço 33 anos, a capicua perfeita e que só será superada pelos 77, que não sei se chegarei a ver nesta terra (há cláusulas escondidas e escritas a tinta invisível a quem é dado tudo a ver por apenas dois olhos; e é bom que me habitue às regras do jogo, que podem, a qualquer altura do caminho, ser alteradas).&lt;br /&gt;Vi o meu corpo expandir-se até quase aos cem quilos, carregando no ventre estriado os meus dois filhos – e eles são a coisa mais bonita que eu já vi nesta vida. Da primeira vez que os vi, a ambos, os meus olhos – podia jurar que assim foi – não suportaram tanta beleza e choraram as lágrimas mais felizes.&lt;br /&gt;Vi-me humilhada, enxovalhada, vi pérolas deitadas a porcos imundos. Vi um destino fabuloso a escorregar-me, como pau ensebado, à frente de uma vista cansada e marcada de sangue que já viu demasiado.&lt;br /&gt; Vi a minha mãe envelhecer ao meu lado, vi-a vergar-se como um bonsai perante a adversidade – árvore que verga não parte, assim me contou ela, e é por isso que partilhamos o amor por quem morre sempre de pé. E por quem larga raízes fundas por onde passa.&lt;br /&gt;E vi como ela me defende dos demónios que nunca supôs que se atravessassem à minha frente, protegendo-me sempre, primeiro a mim e depois aos meus, dos grandes estrondos que rebentam a distâncias demasiado próximas de nós, soltando estilhaços afiados. E ela, colocando-se sempre à frente do estoiro, com o seu escudo de guerreira celta, de olhos muito azuis já turvos, de quem viu também mais do que uma vida podia ver, testa enorme, e molares pronunciados. &lt;br /&gt;E aprendi como se faz, como ela faz, porque ninguém faz como ela, porque um dia terei que fazer de embondeiro como ela sempre fez por mim, desafiando os deuses e levando os filhos em segurança ao céu, ou onde eles quisessem ir. Se for preciso, até ao Inferno. Como ela fez, como ela faz sempre que o infortúnio se atravessa à minha frente. &lt;br /&gt;E dando-me depois a mão, sempre ao meu lado, cantando comigo sem vergonha para quem quiser ouvir, quando caminhamos juntas até às portas do paraíso. E já lá estivemos bem perto, tão, tão perto. &lt;br /&gt;Vi-me envelhecer, os fios longos de cabelo tingirem-se de branco e quebrarem-se pequenas rachas na porcelana outrora fina do meu rosto. Eu vejo tudo, tudo mesmo. Pressinto o nascimento das flores e vejo-as brotar a cada segundo que passa. Vejo diariamente as minhas mãos a deformarem-se mais um pouco numa precoce herança de doença óssea da família beirã, desconfiando que já é tarde para aprender a tocar piano.&lt;br /&gt;E, todas as manhãs, vejo através do amor o que há de mais belo nesta passagem. E o sinal do meu olho direito também está lá para me lembrar.&lt;br /&gt;Acordo a contragosto, muitas vezes depois de ir atrasando a hora, em intervalos de cinco em cinco minutos, e fico ali parada, o sol a cegar, da janela, imagino os melros e os pintassilgos que não vivem lá fora e fico a olhar para o grande amor da minha vida. &lt;br /&gt;O gato Pi geralmente vai-me mordiscando a mão que lhe afaga a cabeça, e o João, a dormir como um anjo, do lado direito da minha cama, sempre colado a mim, como o meu sinal de sangue.&lt;br /&gt;Eu já vi demasiado, bem sei. &lt;br /&gt;Mas o melhor ainda está para vir.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-1399922616496117820?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/1399922616496117820/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=1399922616496117820' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/1399922616496117820'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/1399922616496117820'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2011/07/doc33docx.html' title='Doc33.docx'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-100233599324839709</id><published>2010-11-12T16:58:00.002Z</published><updated>2010-11-12T17:02:37.324Z</updated><title type='text'>the end</title><content type='html'>Um dia acordas e estás sem palavras, esgotaram-se as histórias e os teus sonhos não começam mais por era uma vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo assim, continuas a gastá-las todos os dias, saem-te da boca para fora, só que agora já não brincas com elas, não as vês como um gigante puzzle ou quebra-cabeça que vais conseguir dobrar porque és brilhante, porque sempre conseguiste ordenar o caos e dele fazer qualquer coisa dolorosamente bela. Agora, garantes serviços mínimos, e usas as tuas palavras apenas para vender empresas e produtos, e nem tudo é mau, talvez nem tudo esteja perdido, porque ainda as consegues usar diariamente – antes, elas é que te usavam a ti, aí reside a grande diferença –, e convences sempre, aqui e além, alguém um pouco mais distraído, que é mesmo assim como estás para aí a dizer (nunca é) porque tens que ganhar um salário, para pagar as tuas contas, para dar o melhor aos teus filhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(estás tão crescida, nunca achei que te saísses tão bem, apesar dos pesares)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da tua garganta continua a sair voz, e continuará sempre - mais ou menos sibilante, mais ou menos estridente ou exaltada -, apesar de há muito que dessa voz não saia música. Nada. Silêncio absoluto, apesar de a voz continuar lá e de as palavras também permanecerem por lá guardadas não sei onde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O processo é idêntico, pensas, enquanto fazes apostas sobre o que virá a seguir – as letras amontoaram-se em palavras e antes de as palavras te terem chegado num momento da maior aflição e, portanto, da maior clarividência, eram as notas, soltas, que teimavam em juntar-se à revelia e faziam comícios mesmo quando estavas de lábios cerrados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia acordas e não queres mais cantar.&lt;br /&gt;Muitos dias depois, acordas e não queres mais escrever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por muitas voltas que dês, é assim que se processa contigo. Todos os dias, sem excepção, matutas nisto – que houve uma voz que, primeiro, te sussurrava cantigas, que, depois, evoluiu para as lenga-lengas, e mais tarde que te ditava contos. E que há muito tempo que não ouves vozes, que a voz (foi sempre a mesma) se calou para sempre, partiu e não há-de voltar.&lt;br /&gt;E a ideia vai ganhando cada vez mais sentido, vai-se pondo cada mais a jeito, avançando um pouco mais junto ao precipício para onde há-de inevitavelmente cair – que não vais mais escrever tal como nunca mais cantaste. E que alguma coisa há-de surgir entretanto. Talvez.&lt;br /&gt;Enquanto esperas fazes renda. E usas as palavras apenas para ganhar a vida. Ainda ordenas o caos, mas sem a mestria de antigamente.&lt;br /&gt;E faz-se silêncio, os maxilares cerram-se por vezes com tanta força que, quando é hora de dizer vamos jantar, vamos vestir, vamos sair, até estalam junto à orelha por se terem desabituado de estar noutro estado que não o de sentinela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas faz-se silêncio absoluto, porque assim talvez oiças alguma coisa a chegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns suspiram de alívio e alvitram que estás mais sã, com os pés assentes na terra. Já não és nova. Tens o cabelo coberto de fios brancos. Há linhas que percorrem os teus olhos, o canto dos teus lábios. É tempo, portanto, de deixar ouvir vozes fantásticas que te ditam coisas, que te ensinam canções. Há contas para pagar. Há impostos a declarar. Há filhos que dependem de ti para tudo – sobretudo para dormir serenamente, com a respiração pesada, num quarto forrado com papel de parede pintado por anjos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não há sequer um pesar, um lamento, um choro miudinho enquanto molhas o cabelo no duche e, se calhar, também isso acabou, se calhar nunca mais vais chorar enquanto molhas o cabelo que já cobre todas as tuas costas.&lt;br /&gt;Um dia acordaste e simplesmente não conseguias mais escrever.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-100233599324839709?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/100233599324839709/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=100233599324839709' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/100233599324839709'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/100233599324839709'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2010/11/end.html' title='the end'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-9201381863501913015</id><published>2010-04-23T12:16:00.004+01:00</published><updated>2010-04-29T12:00:04.807+01:00</updated><title type='text'>O Inspector</title><content type='html'>Sinto muito a sua dor, começou por dizer o inspector através da ligação de telemóvel que atravessou o rio, que galgou a Baixa Pombalina, e que desceu as escadinhas do metro, abalroou a multidão até às profundezas do cais de embarque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu espero que não a sinta mesmo, que seja apenas uma frase de circunstância, Inspector. Desculpe-me se o ofendo, agradeço-lhe de qualquer forma, mas livro-o desse fardo, de querer sentir a minha dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que eu venho trabalhar todos os dias, eu obrigo-me todos os dias a vir trabalhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E fico pacientemente à espera da terceira porta da primeira carruagem no átrio do Intendente, sentido Cais do Sodré, bem atrás da linha amarela de segurança. E eu não sou a mesma desde aquele dia, eu temo nunca mais vir a ser a mesma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fico atrás da linha amarela e penso no dia em que alguém se vai atirar à linha mesmo à minha frente, estou sempre a pensar nesse dia, imagino o som do embate, os travões da carruagem a chiarem, e no silêncio que se vai fazer depois. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu agora sei que se faz silêncio, como se uma bomba tivesse estoirado mesmo ao nosso lado e só se conseguisse ouvir um zumbido agudo, apesar de as bocas se abrirem para soltar o grito, eu sei que só se ouve silêncio, no máximo só se ouve um zumbido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não sei quando esse dia vai chegar, se vai ser do outro lado do cais, se vai ser à minha frente ou um pouco mais distante, tanto faz, porque eu já vi esse dia acontecer à frente dos meus olhos; esse dia acontece todos os dias à frente dos meus olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu posso tê-los fechados, eu posso tentar entreter-me, tapar os olhos com as mãos em concha, ou esfregá-los para me livrar dessa imagem, ler o jornal, olhar para as feições das pessoas sentadas ao meu lado, por isso, acredite, inspector, não queira sentir a minha dor, porque se eu não trago o meu crochet que me anestesia, e se por algum acaso a minha mãe não consegue atender-me o telefone quando estou bem atrás da linha amarela de segurança, tudo recomeça de novo à frente dos meus olhos, e eu volto àquele dia, eu estou sempre a voltar àquele dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E naquele dia fez-se silêncio, e um breve zumbido talvez, e depois, curioso, uma única nota, eu que oiço música na minha cabeça, eu que tenho uma orquestra inteira cá dentro, e só há pouco tempo percebi que nem toda a gente tem música na cabeça, mas naquele dia, e durante tantos outros que se seguiram, eu só ouvi um dó, só um dó, martelou durante tanto tempo, só um dó, durante tantas semanas apenas um dó, e foi a primeira vez que eu não tive uma orquestra na minha cabeça, diga-me, por isso, que não sente a minha dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu continuo a fazer piadas parvas, inspector, eu continuo a fingir que a minha pele é de couro grosso, inquebrável, mas eu assino o meu nome sempre com um travo a sangue, inspector, eu estou espalhada pelo chão, em pequenos estilhaços, e não quero que ninguém se atreva a apanhá-los, eu não quero que os meus filhos me vejam, que o meu marido me abrace, porque fui eu que os arrastei a todos para uma casa assombrada; eu temo não por mim, mas por eles, temo para onde os vou arrastar da próxima vez, e eu lamento ter que o arrastar também a si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fui à lista telefónica. É coisa dos tempos de jornalista ainda, parece que não perco os tiques de jornalista nunca, que isso também nunca vai passar. Nada de Internet, nas Páginas Amarelas há mesmo de tudo, passeamos o indicador de cima para baixo e há notícias a cada folhinha com a gramagem de papel de Bíblia. Disquei o seu número, sem qualquer esperança, eu disquei o seu número como quem disca uma linha de apoio ou de valor acrescentado à procura de consolo ou ajuda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca esperei que me ligasse de volta. E agora não sei bem o que pretendo de si. Não esperava que me ligasse e agora estou no metro, e essa é a fase mais difícil do dia, quando estou no metro, recomeça tudo outra vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minto. Eu sei o que quero de si. Queria que me dissesse o que sabe, Inspector, que me inventasse uma história, de tantas que já viu, de tantas que foi obrigado a ver. Eu não estava lá, e preciso que me diga o que viu, Inspector, que me leia os seus relatórios em voz alta, provavelmente quero que me mostre as fotos e o processo inteiro. Talvez assim eu consiga acordar todos os dias sem ter a cama coberta de pólvora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sonho todos os dias com aquela manhã, inspector, como se tivesse estado atrás da porta, ou do voile transparente das cortinas a assistir a tudo. Vejo todos os detalhes, a moldura e a foto da minha filha recém-nascida ao colo do tio, o candelabro com os anjinhos e a vela vermelha, as gravuras das aves em cima da cabeceira, o retrato da minha avó ao lado da janela, a bandeira da Suíça e a chaminé do Barreiro a assistirem a tudo e, tal como eu, sem poderem soltar um grito, pedir socorro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pergunto-me também se a cama estaria feita com os lençóis às florinhas que eu tanto gostava, a última vez que eu fui ao quarto fiz a cama com os lençóis às florinhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O inspector ficou em silêncio. A este ponto, a carruagem seguia dentro do túnel e guinchava talvez em protesto pelo pedido que havia sido feito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não posso ajudá-la, disse. Lamento, não posso mesmo, ninguém saberá nunca o que se passou, não consigo ajudá-la, perdoe, mas é sempre assim, levo demasiados anos nesta profissão para saber que é assim, não é possível saber exactamente o que se passou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cabeceira da cama sabe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O retrato da senhora morena pendurado ao lado da janela sabe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém mais saberá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É tão triste quanto isto, ninguém saberá, e eu fiz o meu trabalho, fi-lo bem, acredite, mas as coisas são mesmo assim - não seria justo dizer-lhe o contrário. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a sua cabeça há-de voltar a ouvir música, acredito que sim, é apenas uma questão de tempo, talvez não seja já amanhã, mas há-de voltar a ouvir música, talvez ao início um pouco fora de tom, talvez não consiga a afinação perfeita nunca mais, mas, juro-lhe, à medida que o tempo passa torna-se quase suportável, há-de voltar a ouvir música, isso lhe garanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E desculpe-me que o volte a dizer. Mas sinto muito a sua dor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-9201381863501913015?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/9201381863501913015/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=9201381863501913015' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/9201381863501913015'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/9201381863501913015'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2010/04/o-inspector.html' title='O Inspector'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-7216905154730462311</id><published>2010-02-25T22:25:00.001Z</published><updated>2010-02-26T15:10:32.307Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='e nada de extraordinário acontece'/><title type='text'>O fiscalista (Capítulo I)</title><content type='html'>Com os olhos esbugalhados, parados na manete das mudanças, quem sabe se tentando hipnotizá-la, o fiscalista, espalmado de perfil como um egípcio, pele enrugada e borrifada de manchas castanhas, longos pelos cinzentos escuros encaracolados, espetados em riste para fora do nariz e das orelhas, declarou não gostar de pessoas que olham para o chão enquanto andam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque é que o fiscalista estava dentro do carro, quente da viagem, no lugar do condutor, olhos presos na manete das mudanças, não vem ao caso. E o que esta declaração de interesses tinha a ver com a entrega do IRS do defunto, com a habilitação de herdeiros, eu não sei, não consigo explicar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, deixei de tentar arranjar explicações, cansei-me, estou mesmo muito cansada.  Perdi noites a fio a tentar tecê-las por entre metros de renda, agulha dois presa entre o polegar e o indicador, aprendi a fazer renda sozinha aos 30 anos, num momento de maior aflição, e compreendi nessa altura porque passa a minha mãe todas as noites a tricotar explicações, a exigir à agulha e à lã que façam aquilo que têm a fazer, a ordenar o caos de todas as linhas que se emaranham aos nossos pés ao longo da vida, um labirinto diabólico muitas vezes sem saída.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha mãe que quando eu era pequenina me pedia para eu segurar as meadas de lã com os pulsos, e que gingasse à vontade as minhas longas tranças para que da meada se fizesse novelo, a minha mãe que sempre me chamou de lolita, que sempre disse à boca cheia que eu tinha nascido com o cu virado para a lua, a minha mãe que sofre por tudo o que já me aconteceu, quisera ela que Deus não tivesse tão grandes planos para mim, que a vida passasse serena como uma meada de lã sem nós cegos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu acreditei que uma torrente de pontos altos, pontos altos duplos, correntinhas - e para fechar um ponto baixíssimo -, achei mesmo que o meu pulso haveria de puxar tantas laçadas, tecer tantos pontos altos, pontos altos duplos, correntinhas, fechando tudo com ponto baixíssimo - pega-se na agulha como se pega numa caneta e se começa a escrever, fazer renda é apenas outra forma de ordenar o mundo, de o pôr a rodar direitinho sobre o seu eixo -, eu à espera de uma epifania, de uma reconstrução perfeita de todos os eventos que me trouxeram até aqui, a este momento preciso, e nada: nenhuma explicação a sair-me dos dedos, o pulso dorido, os dedos em sangue e nada, só mesmo renda ao meu colo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Permaneci nas viagens de metro, paralisada, a fixar o meu reflexo e o reflexo dos outros no vidro da carruagem, à espera que o mundo, visto ao contrário dentro de um túnel escuro, me devolvesse todas as respostas aos porquês que esvoaçam esganiçados por cima de mim. Mas em vão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo em vão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há livro nenhum da biblioteca que herdei que me possa ajudar, de nada me valem os arquivos poeirentos, as gavetas invioladas há mais décadas do que aquelas que eu levo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu entrei na casa que culpo por tudo o que aconteceu, passei o sensor pendurado no porta-chaves e desarmei o alarme, mas todas as sinetas tocavam estridentes dentro de mim, diziam-me para fugir dali, rápido e a bom passo, para nunca mais olhar para trás. Esquecer a mata dos medos, esquecer que ela existe, nunca mais trilhar a estrada de terra batida, apagar todas as memórias, o ford cortina, o citroen visa, esquecer os duelos de espada em noites de luar, as lanternas de pirilampos, os nenúfares e as carpas coloridas, a ponte e o lago, as azedas, os malmequeres azuis e as roseiras bravas, esquecer a Santa que falhou em proteger-nos a todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma casa são só paredes feitas de tijolos, cimento, estuque, mas ela disse-me bem alto para eu ouvir: vai-te embora e não voltes. Ela disse-me isso em tom amigo, mas eu entrei ali, eu tinha que entrar ali, na casa onde ninguém foi feliz, e disse-lhe: tu agora és minha e, por isso, eu estou à espera que me contes tudo o que se passou, rebobina e põe no play, não é um pedido, é uma ordem, é o mínimo que me podes fazer. E, sem respostas - eu que até sei tão bem falar com as casas -, passei ao ataque, e cheia de medo, mas decidida, abri todas as portas, escancarei todas as janelas, remexi todas as gavetas; eu pensei, eu acreditei que a casa me daria todas as respostas se eu perdesse um pouco do meu tempo a ouvir o que ela tinha para nos dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ela respondeu com silêncio, ela leva 41 anos de silêncio e teve que assistir, muda, a tudo o que aconteceu, nunca poderia contar-me o segredo, não sabe como, e eu não sei o que me passou pela cabeça de pensar que a casa me poderia ajudar, que seria a única a poder ajudar-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo permanecerá, para sempre, em silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Engulo espinhos, mastigo pedras que me ajudem a aceitar resignada o que se passou, não sei o que se passou, não consigo desemaranhar esta meada, tudo o que se passou: o mundo gira e gira e não se cansa de rodopiar apenas porque sim, e no meio de tantas voltas sem tino, há demasiadas coisas a caírem e a estilhaçarem-se no chão, no mesmo chão para o qual as pessoas de bem não devem olhar enquanto andam, porque o fiscalista não gosta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quer ele goste, quer não, eu ando de olhos cravados no chão porque, por vezes, ele falta-me por debaixo dos pés, porque há tapetes invisíveis que alguém puxa às escondidas para eu cair sem amparo. Há alguém que gosta de me ver ferida de morte, e há outro alguém que sabe que eu me hei-de levantar outra vez, e outra vez. Por vezes, há um campo minado no chão e eu sigo descalça, olhos cravados no chão, à espera que as pedras me ensinem por onde devo ir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As folhas são verdes porque sim, e começam a pespontar no tímido anúncio da primavera mesmo que por dentro corra um dilúvio de lágrimas que não consegui chorar, e cresça um pântano de dúvidas a caminho dos meus pés, que tornam o meu andar mais pesado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As unhas dos meus pés encravam porque sim, nasceram assim e hão-de crescer ainda um pouco no meu caixão, porque não aprenderam a fazê-lo de outra forma. Ranjo os dentes porque sim, porque a ponta da língua descansa no cantinho do incisivo lateral direito desde há muito tempo e diverte-se a fazer um pequeno estalido que me alivia as dores que sobem até à porta da minha boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As orquídeas não floriram este ano. O primeiro sinal que tudo seria como foi, porque sim, só porque sim, sem nenhuma explicação, sem nenhum aviso, sem que ninguém o pudesse evitar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No último mês, o mundo como eu sempre o conhecera deixou de existir. Porque sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao terceiro dia do ano, a casa onde ninguém foi feliz acordou pela última vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque sim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-7216905154730462311?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/7216905154730462311/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=7216905154730462311' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7216905154730462311'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7216905154730462311'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2010/02/o-fiscalista-capitulo-i.html' title='O fiscalista (Capítulo I)'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-7950438197052047362</id><published>2009-11-06T13:12:00.003Z</published><updated>2009-11-06T19:19:57.220Z</updated><title type='text'>O dia</title><content type='html'>Aquele foi o dia da minha vida, de toda a minha vida, disse-me, grave, narinas hirtas e cana do nariz perfeitamente delineada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parecia, aliás, que se preparava para debitar um discurso de Estado, com honras de abertura do telejornal das oito: inspirou fundo para ganhar fôlego ou coragem, só que nos olhos azulões já se instalara confortavelmente uma fonte de comoção, os olhos prestes a escorregarem num dilúvio, e tudo isto invertido num pedaço de espelho - olhos molhados, nariz delineado, e pose grave reflectidos no grande retrovisor do táxi, e eu sem conseguir deixar de reparar no desodorizante automóvel de pinheiro, a bambolear numa dança absurda que em nada se adequava ao momento de grande revelação que se seguiria dentro de instantes, ou talvez sim, mas tomara que eu não me tivesse demorado tanto no pequeno pinheiro de cartão embebido em aroma baunilhado, porque, a meu ver, não acrescentou nada à história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um dia, menina, muito provavelmente ainda não teve o dia decisivo de toda a sua vida - talvez esteja enganado, penso, sem abrir a boca, porque o palco agora não é meu -, mas há um dia em que as peças todas do puzzle emaranhado que se foi espalhando por todo o lado - sem esperança de se encontrar a peça que o gato levou para brincar, que o bebé meteu na boca aflito dos dentes, o conjunto todo de peças que aparentemente não encaixavam umas nas outras -, há um dia em que tudo se encadeia, pim, pim, pim, zás e, nesse momento - digo-lhe isto com a mesma certeza de que é impossível manter os olhos abertos quando se espirra -, a mandíbula descai um bocadinho e o olhar eleva-se para o céu, e por breves momentos, penso que nem um segundo chega a passar, rebobinamos tudo para trás, todas as pequenas coisas vêm ao cimo como bolinhas de esferovite numa taça de água, e damos por nós, maquinais, magistrais a arrumar tudo no sítio certo para que possamos seguir em frente, e percebemos tudo, o porquê de tudo, por exemplo, eu percebo já porque é que escolhi há instantes cortar para a Columbano Bordalo Pinheiro, em vez de ter seguido para a Estrada de Benfica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tudo isto começou porque o taxista estranhou o meu pedido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inclinou os olhos para a direita, espreitou o comprido retrovisor com espelho olho de peixe colado a um canto, para ajudar aos ângulos mortos - mas quem raio é esta gaja?  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saio de um hotel de cinco estrelas da cidade, e peço para me deixar ao Intendente. Mas quem raio é esta gaja?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Explico-lhe que a minha vida é mesmo assim, repleta de donos do mundo e de putas esqueléticas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que fui eu que escolhi ser assim, e que todos me vão ensinando, pela estrada fora, coisas preciosas, se bem que as putas me dêem melhores histórias, que pelas putas eu vejo melhor, entendo tudo um pouco melhor. Os donos do mundo são, no fundo, criaturas bem mais tristes que as putas, vejo-os bem, topo-os bem, e talvez seja por isso, talvez seja essa a única razão porque os donos do mundo me importam. No fundo, são tão vítimas do destino, das circunstâncias, tal e qual como as escanzeladas prostitutas do Intendente. Têm mais uns metros quadrados para foder, em lençóis macios e camas que não rangem, cobrem-se com tecidos infinitamente mais quentes e mais frescos consoante as estações do ano, mas apanham a mesma chuva que todos nós, peidam-se tanto quanto todos nós - as trinta e muitas vezes ao dia que o canal de cabo me garante que todos os humanóides descarregam a cada 24 horas -, mas ao fim do dia, acredito que se sintam bem mais vazios que as putas do Intendente. É mesmo por isso que eu amo os donos do mundo, que os estimo como ninguém, e eles gostam tanto de mim como as putas que vou alimentando aos Anjos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem raio é esta gaja?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma pessoa também tem os seus dias maus, diz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das putas e dos hotéis de cinco estrelas para dias maus e para os dias que mudam uma vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia da minha vida começou num dia mau, apanho em Entrecampos um mal-encarado que nem bom dia me diz, e quase não se dá ao trabalho de descolar os lábios para me dizer para o largar no Rato. E eu vou, e como estou num dia mau também não quero conversas, mas faço o caminho todo a pensar noutras paragens, não vejo a estrada, vejo a cara do meu menino, vejo a cara da minha mulher a chorar, vejo a minha casa, estreita, escura, num beco de Alfama, ao lusco-fusco das seis e meia da manhã quando bato a porta atrás de mim para pegar num dia de mais 14 horas que haveria de ser o dia da minha vida, mas eu ainda não sei isso, vejo a roupa da vizinha do primeiro andar a secar no estendal, quase a tocar na minha cabeça e consigo cheirar ainda o aroma do Omo nas minhas narinas, em vez da colónia do mal-encarado que transporto no banco de trás, mas não vejo os outros carros, o traço contínuo, definitivamente não vejo o sinal vermelho que passei por estar nesta cegueira repleta de imagens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o mal-encarado, então, abre a boca pela primeira vez. E sai-lhe lá de dentro uma voz que eu nem podia supor que tivesse, entrou mudo e estava com esperança que saísse calado, mas não, um homem está num dia mau e é verdade que passa um sinal vermelho, mas não devia levar com aquele estrilho: ele gritou-me, gritou-me, perdigotos a fazerem a chamada para o salto em altura e em comprimento também, chamou-me tudo o que possa imaginar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu calado. Eu gosto de falar mas não em dias maus; eu calado a aguentar tudo, a tentar ver a estrada e não a taberna ainda vazia logo pela manhã, eu ainda com o gosto na boca do garoto que tomei pela madrugada e que é a única coisa que me forra o estômago, eu a fazer o maior esforço da minha vida para o deixar no Rato e prosseguir com a minha vida e continuar a enfrentar mais um dia mau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paro o carro no sítio que me ordenara entre dentes, quando quisera o destino que apanhasse o mal-encarado em Entrecampos, desligo o taxímetro e digo-lhe: não é nada, e as minhas desculpas pelo sinal vermelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E volta a provar que tem um vozeirão, ó homem não pode ser, eu tenho que pagar, e eu calado - já lhe disse que não falo muito quando estou num dia mau? -, sabe, eu não estava dentro deste carro, eu estava ao lado do meu menino no quarto estreito que não é mais do que um corredor sem janela, eu estava aos pés da cama do meu menino com a minha mulher a chorar baixinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele instante, começou o dia da minha vida, não sei o que me deu, comecei a chorar como uma criança, abracei-me ao volante e chorei, chorei ao ritmo dos quatro-piscas, para que o mal-encarado parasse de falar, para que se calasse de vez e saísse do carro para me deixasse seguir o meu caminho. Sabe que deixei de ter vergonha de chorar, uma treta que os homens não choram, se eu não tivesse chorado, o meu filho estaria morto, eu chorei e o puzzle começou todo a encaixar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passo o dia todo a olhar para a frente e raramente vejo quem me entra para o banco de trás. Por vezes, sinto-me um cavalo, um burro de carga é mais o que eu sou, porque não há nobreza na praça, mas para o caso não interessa essa parte, o que quero dizer-lhe é que nem vejo quem carrego e, de há uns anos para cá, para não dar em doido, passei a reparar nas vozes, concentro-me nelas em vez de me fixar na cor dos cabelos, no feitio das sobrancelhas ou na cor dos olhos. E deixe-me que lhe diga que há pessoas com vozes horrorosas, a menina tem uma bonita voz, um bocadinho sibilante, mas não deixa de ser uma bonita voz. E é incrível como a voz daquele homem foi mudando de Entrecampos até ao Rato: um murmúrio, primeiro, entre dentes, depois da minha infracção, a boca toda aberta expondo, suponho, dois ou três dentes chumbados e a ausência de um molar e, no fim, já era a voz de um salvador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guardou então a carteira, percebeu que não conseguiria pagar-me a corrida, pediu-me desculpas, se o podia ajudar. Não, não podia, ninguém podia ajudar, mas já que me tinha esfrangalhado a chorar à frente de um desconhecido mal-encarado, mais valia contar a história toda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu menino está a morrer, está a morrer e não podemos fazer nada, mandaram-nos para casa, sem esperança, um tumor na cabeça, temos seis meses, o meu menino tem seis meses de dor pela frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escondi os olhos à frente das palmas molhadas das minhas mãos, deu-me para a vergonha, e a certa altura e deixei escorregar a mão direita para a manete das mudanças porque me apetecia fugir dali para fora. Lá de trás, o mal-encarado esticou a mão e abanou um rectângulo de cartão. Passe no meu consultório daqui a duas horas. Traga o seu menino e a sua mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Li e reli aquele pedaço de papel. Director de Oncologia.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Toda a gente tem um dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu foi aquele. Mas não pense que foi assim tão fácil e que a história acaba aqui. Duas horas depois lá estava eu, o meu menino embrulhado num cobertor, a minha mulher com a cara deformada pelo desgosto. Mas ainda conseguíamos sorrir, à frente do meu menino, a gente tentava sorrir. E connosco levámos exames, o processo, ressonâncias e tac's, levámos tudo ao mal-encarado que me berrara duas horas antes, algures entre o Saldanha e o Marquês, pior do que um agente da BT.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda a gente tem um dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este foi o dia em que tudo poderia ter mudado. Em que tudo mudou. Mas podia ter mudado para um lado ou para o outro. Há um dia, só há um dia destes em toda a nossa vida. Talvez esteja para breve o seu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mal-encarado voltou a falar entre-dentes e eu antecipei o pior. Confirmou a sentença de morte do meu menino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ando sempre com uma pistola no carro. Aqui do meu lado esquerdo, para não estar tão à mão, para não ser tão fácil puxar do gatilho. Eu saí do consultório, era ali na 5 de Outubro, o chão estava pintalgado de lilás, os jacarandás carregados de florinhas, e o vento a arrancá-las provocando uma chuva de pingos grossos lilases, e eu então uivei bem alto, eu uivei e a minha mulher chorava em silêncio com o meu menino ao colo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abri a porta do carro e corri ao lado esquerdo do carro para acabar com tudo mesmo ali, rápido e indolor, mas a pistola não estava lá, eu não sei como é que a pistola não estava lá, e nesse instante recebo um telefonema do mal-encarado, e eu ainda estava a uivar agora por raiva de a pistola não estar no sítio certo - guardara-a esse dia no guarda-luvas -, e ele pede-me para estar pela manhã no Santa Maria. Para me preparar para a maior provação da minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu menino vive, curou-se, está totalmente curado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aquele foi o dia da minha vida. De toda a minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desligou o taxímetro porque chegámos ao Intendente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixe estar, não é nada, não a posso deixar pagar esta corrida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-7950438197052047362?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/7950438197052047362/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=7950438197052047362' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7950438197052047362'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7950438197052047362'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2009/11/o-dia.html' title='O dia'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-4447553785753728033</id><published>2009-09-15T13:12:00.001+01:00</published><updated>2009-09-15T13:21:05.468+01:00</updated><title type='text'>Rua dos Anjos</title><content type='html'>Eu sou uma boa pessoa.&lt;br /&gt;Não tenho medo, nem vergonha de o dizer. Porque razão haveria de ter – não me vou transformar em pó, nem a terra há-de tremer se eu admitir aqui, onde apenas me visita quem procura por uma criança que nasceu com as mãos coladas, que sou uma boa pessoa, escrito mesmo assim, desta forma precisa, muito diferente de escrever até sou uma boa pessoa, sem falsas modéstias, deixando cair o até, que não estaria lá a fazer nada, com toda a presunção, sem nenhuma hesitação, de peito aberto e olhos fixados, algures entre a linha do horizonte e o início do céu - eu sou uma boa pessoa. &lt;br /&gt;Não sei de que me vale isto.&lt;br /&gt;De que me vale ser uma boa pessoa, de agarrar na mão fria da velha que vê no António as bochechas do seu menino que já morreu. Lembro-me de estar no Parque de Viseu, ainda sem saber quase nada, a não saber nada a não ser a arte de dar às pernas com toda a força, inclinando ao mesmo tempo o corpo para trás e para a frente, e o segredo de fechar os olhos e sentir a música do vento na cara com a trança a voar para os lados quando o baloiço quase chegava ao céu, lembro-me da minha cabeça no colo da minha mãe, saia crepe de seda branca, ela maquinal a fazer cortinas de crochet, e eu horas nisto, a examinar as mãos da minha mãe, e depois a olhar para as minhas, que não conheciam mais do que os lápis caran d’ache da minha avó, quase hipnotizada pelo movimento da mão direita, do fio que saía do saco de plástico e se transformava em renda, e eu a dizer-lhe, junto ao lago, mamã, as minhas mãos não têm estrelas como as tuas, e as estrelas eram o craquilhado junto dos nós dos dedos, e eu pego na mão gelada da velha, agora molhada de lágrimas, e vejo que ela já não tem estrelas nas mãos.&lt;br /&gt;Perco tempo, demoro-me, oiço todos, a chaga da perna do homem sujo que me guarda todos os dias o melhor lugar da rua, porque a senhora fala com a gente como se fôssemos gente e não bichos. E percorro as memórias de tanta gente que nem sei o nome, analiso fotos a preto-e-branco, de papel já amarelecido, cantos dobrados, memórias guardadas em sacos de plástico, aproprio-me de tudo o que posso, sou um saco sem fim, uma manta de retalhos de um pequeno resumo da vida dos outros.&lt;br /&gt;Apenas esta certeza, que de nada me vale, que se, por um momento, o mundo fosse governado pelas empregadas de limpeza curvadas e pelos porteiros anafados, pelas putas esqueléticas e arrumadores imundos, pelas caixas de supermercado demasiado maquilhadas e pelas tendinites das empregadas de mesa, pelas velhas de luto, com as saias a cheirarem discretamente a urina, se o mundo fosse do elo mais fraco, eu seria grande, intocável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sou uma boa pessoa e temo a Deus, imagino a sua ira em jeito de maremoto, nem tanto quando falho, acima de tudo quando nem tento. &lt;br /&gt;A minha puta favorita chama-me um anjo. A minha puta favorita chama-me um anjo nos Anjos e isso tem que pesar. &lt;br /&gt;Eu vivo nos Anjos. Vivo há um ano nos Anjos, na avenida do Almirante que deu um tiro nos cornos ao pensar que falhara, e eu não o censuro, penso que faria o mesmo, não para ganhar nome de rua maldita, mas faria o mesmo ao pensar que falhara em tudo, por isso nem tento, melhor assim, mas a ira de Deus sempre aqui ao meu lado, em crescendo, e eu digo a mim própria, eu sou uma boa pessoa, eu pelo menos tento ser uma boa pessoa, isso tem que contar, e fico quietinha no meu canto, que ninguém me bula, porque eu trago em mim os filhos das mães que já morreram, as dores ciáticas, eu trago em mim a fome da minha puta favorita que me chama um anjo apenas porque lhe dou comida de quando em quando, sempre que a encontro  – menina, obrigada, muito obrigada, mas de certeza que não lhe vai fazer falta para o bebé; e ela é tão magra, tão magra e o António sorri para um rosto cadavérico que toda a avenida maldita ignora, e ela diz-me que o dia se iluminou porque somos os dois anjos estacionados na Rua dos Anjos.&lt;br /&gt;E depois disto, demoro outra meia-hora a chegar a casa, porque me demoro, paro, escuto e olho, não porque venha um comboio a caminho mas porque há demasiadas almas que me escolhem, e me detêm, e eu deixo-me ficar, entretanto, o senhor Hussein há-de rezar a Alá por todos nós, há-de oeferecer-me um quilo de borrego que eu não sei nem vou cozinhar, mas sou tão boa pessoa, falo com doutores e com mendigos, falo com os velhos e as crianças vêem ter todas comigo, falo com todos os credos, com todas as raças, domino uma qualquer linguagem universal, ou isso ou tenho um tê na testa, e sou tão engraçada, falo de uma forma tão diferente das outras pessoas, mas  chego a casa e desligo o telefone ou deixo-o a tocar em surdina, passo o dia todo em silêncio sem pensar nas questões maiores da vida, não posso, não consigo, respiro, como e bebo, dou de comer, dou de beber e basta; mas mesmo assim, assombrada por todos os demónios, enterneço-me com a nossa determinação em vivermos nos Anjos, como se isso nos bastasse, como se ali soubéssemos, de certeza, que nenhum mal nos pode acontecer.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-4447553785753728033?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/4447553785753728033/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=4447553785753728033' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4447553785753728033'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4447553785753728033'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2009/09/rua-dos-anjos.html' title='Rua dos Anjos'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-7597805245304038837</id><published>2008-12-17T22:06:00.005Z</published><updated>2009-02-16T16:27:40.836Z</updated><title type='text'>António</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_ORPMKnMoXRg/SUl41WvK6KI/AAAAAAAAAIw/vE_NbaeiEdU/s1600-h/DSC_6164.JPG"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer; width: 400px; height: 268px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_ORPMKnMoXRg/SUl41WvK6KI/AAAAAAAAAIw/vE_NbaeiEdU/s400/DSC_6164.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5280884896100444322" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Os dias que se seguiram amanheceram com uma luz quase perfeita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As manhãs todas apareceram-me como se trazidas pelos olhos do &lt;a href="http://a-manh-ser.blogspot.com/"&gt;David&lt;/a&gt; que vê o mundo como ele é, ao lusco-fusco; há sempre sombra na luz que o David vê, e essa é a verdade mais antiga de todas, da qual nunca duvidei: que a luz precede a sombra e que se lhe sucede a seguir, interminavelmente; que nenhuma existe sem a outra, mesmo nos dias mais claros de todos, e os dias que se seguiram eram de uma luz que não feria ninguém, uma luz que fazia dançar as partículas de pó à minha frente e, se quisesse, poderia até nunca ter fechado os olhos naqueles dias; e nas manhãs todas parecia-me ouvir um estalido pequeno, o pequeno estalido que os ouvidos mais atentos conseguem escutar no momento imediatamente anterior à caixa de música arrancar o primeiro acorde ao rolo dentado onde estão gravadas, a relevo, as mais bonitas melodias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dias que se seguiram chegaram-me, também, embaciados por um bafo qualquer, quente, vindo de dentro para fora de mim. E, aparentemente, apesar do ressoar de um longínquo eco, que não nos faria nunca esquecer os dias mais tristes de todos, parecia que, um a seguir ao outro, todos os sonhos voltavam a emergir, violentamente, respingando com uma esperança esmagadora os dias que nos chegavam, banhados com uma luz cada vez mais perfeita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dias que se seguiram souberam também à primeira golfada de ar depois de se ter desejado com todo o ser, com toda a força, deixar de respirar, e havia, por isso, neles, também algo de água: todos os sons pareciam abafados por ela, os mais agudos e os mais graves não eram mais do que um sussurro, e nós rodopiávamos, leves, em manobras impossíveis dentro dela – piruetas, cambalhotas, e escarpávamos até às suas profundezas, para desenterrar todos os sonhos, até os mais velhos, os que foram quase esquecidos, e eles vinham à tona sem sequer lhes tocarmos, e nem nos lembrávamos sequer que ali os tínhamos mergulhado porque havíamos desejado deixar de respirar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por mais tempo que ali estivéssemos, que ali decidíssemos ter estado, as mãos nunca se haveriam de ter engilhado, o ar nunca nos haveria de faltar; ali não eram só os sons que se deixavam abafar por entre líquenes: tudo era morno e a luz, como eu já disse, era quase perfeita; era clara e sombria quando assim era preciso, e aquele sítio, para onde fomos arrastados nos dias que se seguiram, dava-nos tudo, e os sonhos pareciam mesmo saídos dali, de um lago de águas paradas e turvas, que os guardou em segredo, em paz, longe de todos, longe de tudo, e nós sorríamos entre golfões, tufos de lentilhas-de-água e emaranhados de raízes de nenúfares, afastávamo-los a todos como se afasta uma madeixa de cabelo que teima pousar à frente da cara, e banhávamo-nos com aquela luz quase perfeita que nos chegou nos dias que se seguiram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, foi o mais fácil, não foi preciso qualquer esforço, tudo corria de feição, como devia ter sido, como teria sido escrito da primeira vez, e a nossa missão era simples, trazermos os sonhos à deriva e, para grande surpresa de todos, eles estavam intactos, nenhum se esfarelou, nenhum se esborratou pelos dias tristes que agora acreditávamos ter enterrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os sonhos pareciam ter sido sonhados a noite passada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podíamos até contá-los como uma história de encantar, pudéramos tê-los cantado como uma canção de embalar que se entoa, ao fim da noite, à cabeceira de uma criança que ainda não tem medo do escuro; eles voltaram como se os tivéssemos acabado de sonhar, como se ainda trouxéssemos a cara enrugada dos lençóis brancos onde pousámos o corpo durante dias que não foram mais do que noites; e os sonhos traziam em si as metáforas mais bonitas, todas as promessas, os melhores augúrios, e nós éramos heróis em todos os capítulos - a nossa força e coragem enterrava todos os monstros, todo o mal e toda a dor; éramos portadores de toda a esperança do mundo e da justiça também; sabíamos isso, tínhamos acabado de acordar e os sonhos, os nossos sonhos, afinal, não tinham ido a lado nenhum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para o meu filho António, que é o sonho mais bonito, é a luz, depois do pesadelo mais cruel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para o João – até ao infinito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(E para a minha amiga Hermínia, para o meu amigo David, que nunca deixariam que me faltasse o ar, mesmo que eu desistisse de respirar)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-7597805245304038837?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/7597805245304038837/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=7597805245304038837' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7597805245304038837'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7597805245304038837'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2008/12/antnio.html' title='António'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ORPMKnMoXRg/SUl41WvK6KI/AAAAAAAAAIw/vE_NbaeiEdU/s72-c/DSC_6164.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-1951795166511623210</id><published>2008-10-21T13:45:00.002+01:00</published><updated>2008-10-21T13:47:31.615+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p style="font-family: arial;font-family:arial;"  class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="PT"  style="font-size:14;"&gt;Tantas, tantas vezes me aconteceu o mesmo.&lt;br /&gt;&lt;!--[if !supportLineBreakNewLine]--&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p style="font-family: arial;font-family:arial;"  class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="PT"  style="font-size:14;"&gt;É por isso que eu digo que não sou bem a filha da minha mãe. Ela nunca se mostraria tão vulnerável, seria mais impensável do que passear pela rua em trajes menores, ela nunca se deixaria paralisar por algo que não fosse francamente aterrador, nem o maior susto da sua vida, talvez nem o seu maior desgosto a fizesse quedar-se e quebrar-se em frente a uma multidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ninguém parou, nunca ninguém parou quando tantas, tantas vezes me aconteceu o mesmo; nunca ninguém sequer abrandou, ninguém perguntou se eu precisava de ajuda, nunca ninguém estendeu a mão, ninguém olha para trás, nunca ninguém olha para trás, só para a frente, nunca ninguém saiu do piloto automático quando isto me aconteceu, tantas, tantas vezes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso é que me foi impossível continuar com a minha cómica marcha - um pé inchado atrás do outro, uma coreografia meio grotesca, barriga empinada, caminhar arrastado, bamboleante, gotinhas de suor a deslizarem pelo nariz, outras em fila de espera para andar no escorrega na minha testa.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;        &lt;p style="font-family: arial;font-family:arial;"  class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="PT"  style="font-size:14;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Eu bem que podia ter feito como todos os outros, seguido o caminho das pedras que me leva todos os dias a um sítio onde eu sou um pouco menos eu, onde definho mais um bocadinho, onde experimento o desprezo depois de um nadinha de glória, o desânimo depois da alegria, onde cada vez mais me convenço da máxima maior, que sou boa demais, que sou boa demais para isto e para quase tudo o que já fiz na vida, que anda meio mundo a enganar o outra metade, a enganar sem tão-pouco disfarçar, e a metade enganada sorri, encantada.&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Eu podia ter fingido que não era nada comigo, que tanto se dá como se me deu, como se ela fosse mendiga, como se ela fosse nojenta, como se estivesse desgrenhada, como se ela tivesse uma doença altamente contagiosa. Pior. Podia ter passado por ela como se ela fosse invisível.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p style="font-family: arial;font-family:arial;"  class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="PT"  style="font-size:14;"&gt;Mas não podia ser assim. Porque tantas, tantas vezes me aconteceu o mesmo e ninguém parou, nunca ninguém parou. E só de olhar para ela, ao longe, fiquei tão triste – tinha que parar.&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="font-family: arial;font-family:arial;"  class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="PT"  style="font-size:14;"&gt;E era apenas uma mulher bonita, muito bonita mesmo, que chorava em silêncio, sentada num banco de jardim, e uma multidão imensa passava por ali, um formigueiro que não quer saber, que nunca vai parar, porque é só uma mulher triste a chorar num banco de jardim. Ridícula.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;      &lt;p style="font-family: arial;font-family:arial;"  class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="PT"  style="font-size:14;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;A minha mão parada na perna de uma mulher que chorava sozinha num banco de jardim. Se a minha mãe me visse, ia achar que eu sou mesmo filha do meu pai. Eu agachada, com esta barriga toda, à procura do equilíbrio, entre estalidos de articulações que não nasceram para carregar o peso do mundo, que podiam carregar muito bem uma criança mas não toda o excesso de bagagem que trago em mim.&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="font-family: arial;font-family:arial;"  class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="PT"  style="font-size:14;"&gt;Em que é que a &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;posso ajudar, precisa de alguma coisa, quer que eu lhe vá buscar uma água, uma sucessão de perguntas tontas. Não valeu de muito, não valeu quase nada, foi só uma mão em cima de um joelho tapado por uma ganga preta, duas ou três frases de circunstância, atabalhoadas, eu também fiquei tão triste, como se a tristeza se passasse por um qualquer sensor de &lt;i style=""&gt;bluetooth&lt;/i&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p style="font-family: arial;font-family:arial;"  class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="PT"  style="font-size:14;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Mas a mulher sorriu, sorriu de surpresa, eu estou aqui, afinal eu estou aqui, não desapareci, terá pensado ela, e sim, eu teria gostado que, um dia uma alma qualquer tivesse parado também, oferecido um lenço de papel com sabor a alfazema, que me assegurasse que tudo ficaria bem, mesmo desconhecendo que dores de crescimento eram ali curtidas num banco de jardim.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;      &lt;p style="font-family: arial;font-family:arial;"  class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="PT"  style="font-size:14;"&gt;E a mim, certamente, ninguém me vai condecorar, nenhuma sessão solene será convocada para elogiar os meus nobres e gloriosos feitos, as minhas incríveis façanhas; não haverá centros de flores em cima da mesa de honra e no palanque, nem medalhas brilhantes com fitas de cetim para pendurar ao pescoço depois ouvir de bonitas palavras escritas por um qualquer assessor.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque isto acontece-me vezes demais, já me aconteceu vezes de mais, tantas, tantas vezes.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-1951795166511623210?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/1951795166511623210/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=1951795166511623210' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/1951795166511623210'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/1951795166511623210'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2008/10/tantas-tantas-vezes-me-aconteceu-o.html' title=''/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-2414998985244732761</id><published>2008-10-15T18:14:00.003+01:00</published><updated>2008-10-17T15:41:03.903+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p style="font-family: arial;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;Mamã, e se os números nunca acabam, porque é que nós acabamos?&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" lang="PT" &gt;&lt;br /&gt;Carolina Ralha, 4 anos, ao calor de 39 graus de febre, e com a garganta forrada a pus, no habitáculo de um Fiat Idea, parado em frente ao nº 19 da Avenida Almirante Reis.&lt;br /&gt;&lt;!--[if !supportLineBreakNewLine]--&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p style="font-family: arial;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" lang="PT" &gt;&lt;br /&gt;Bem vistas as coisas, foi a primeira marca semi-permanente que deixei no mundo, ou no estuque de uma parede.&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="font-family: arial;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" lang="PT" &gt;Tanto faz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para esta, para qualquer outra história não faz grande diferença, e nunca é muito relevante, sequer, saber de que forma é que se fez a ferida, qual foi o barulho do tombo, o tamanho e a forma da cicatriz, ou mesmo como foi e porque artes conseguimos chegar em primeiro, à frente de todos os outros; como é que conseguimos cantar mais alto, correr mais rápido, acertar em tudo o que havia para acertar, e suportámos cair nas graças do mundo, e aguentar até hoje a suportar o peso de todos os olhos pousados em cima de nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para aqui pouco importa, só é de tomar nota que este foi um dos primeiros e nem por isso raros momentos em que uma coisa qualquer se serpenteou perto de mim, demasiado perto de mim, e anunciou baixinho que eu sempre caminharia pelos mesmos caminhos dos outros, mas num passo e de jeito diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E essa certeza - e isto também não é muito relevante - só me chega agora, vinte anos depois, aparentemente só me chega agora.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p style="font-family: arial;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" lang="PT" &gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Sempre soube que esta foi a primeira marca, mas apenas se torna tudo límpido em mais um impasse, em mais uma insónia, em mais uma moinha, já se transformou num incómodo apenas, uma espécie de zumbido, uma comichão, quando essa qualquer coisa se aproxima demais, e me chega mesmo a tocar, e depois recua, claro, queima só um bocadinho, só mais uma pequena picada para me lembrar que há-de ser sempre assim - eu hei-de andar pelo mesmo caminho dos outros mas num passo e de um jeito diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, primeiro que tudo, há a festa de Natal da escola no Bairro das Estacas, na sala 7, em frente àquela em que eu aprendia a desenhar os mais belos quês de quá quá, num quadro preto muito grande e que parecia feito de manteiga de ardósia. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;      &lt;p style="font-family: arial;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" lang="PT" &gt;Na sala 7, o quadro não era negro, nem de pedra arrancada à terra, era verde, de um qualquer composto industrial, naquele quadro as letras recusavam-se a ficar tão bonitas quanto as da sala do quadro preto rugoso da sala em frente - que sorte a minha ter aprendido a desenhar as letras naquele quadro - e foi ali, numa sala que me era estranha que eu ouvi o primeiro guincho de um pau de giz, e eu nunca percebi porque é que o pau de giz partido não guincha, ou pára mesmo de trinar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os apagadores da Cisne, de desperdício de fibras têxteis compactados, eu consigo ver tudo com demasiada nitidez, talvez me possa baralhar um pouco, efabular um pouco: na carteira para cima da qual me ergueram no &lt;i style=""&gt;encore&lt;/i&gt;, as tranças da Minashri e o pullover aos losangos do Pritesh ao meu lado, comigo a cantar a lenga-lenga em francês que a minha mãe me ensinara, muito encolhida.&lt;br /&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="font-family: arial;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" lang="PT" &gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Saint Nicolas va m'apporter une poupée, une poupée, Saint Nicolas va m'apporter une poupée pour m'amuser.&lt;/span&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p style="font-family: arial;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" lang="PT" &gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Essa foi a primeira vez do conhecimento de muitas coisas importantes, do poder emudecedor do som que me sai muito afinado da garganta, foi o dia em que descobri também que o coração por vezes sai do seu poiso e se faz ouvir em surdina junto à orelha direita.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="font-family: arial;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" lang="FR" &gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Et des caramels pour les demoiselles, et des grand batons pour les vilains garçons&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;                &lt;p style="font-family: arial;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" lang="PT" &gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Foi o primeiro trago de uma coisa que a quem chamam espanto, eu espantei-me com o que acabara de acontecer: o silêncio, o medo, as palmas, e depois um rubor nas bochechas e na barriga quando tudo terminou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas este momento só foi verdadeiramente relevante para mim, eu hei-de me lembrar da minha primeira canção em frente a uma escola inteira durante toda a minha vida; só eu me lembro da festa de Natal da Escola do Bairro das Estacas na sala 7.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois há o convite à menina tímida que acabara de mudar de escola, órfã de três avós em menos de um ano. &lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Eu não falava com ninguém, eu não ria de nenhuma graça, não trazia os meus berlindes nem o meu elástico, nem fixava verdadeiramente os olhos em nada. Não saltava nem brincava no recreio, e quando chovia, eu gostava quando chovia, transferiam-nos para um pavilhão de chapa de zinco e aí eu passava o tempo à margem, nunca perdi tempo a olhar para dentro, mas sempre a olhar para fora, e esgotava o tempo em que não estava na sala de aula – o quadro já não era de ardósia, aquela já não era a sala 5 - a contar as goteiras da gigante barraca e convencida que Deus me tinha como filha adorada, porque o mestre de Judo reciclado em professor de ginástica da criançada continuava doente e, assim, não teria que admitir em frente a toda a turma que não sabia dar uma cambalhota, fazer o pino, ou rodopiar numa roda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o dia em que eu deixei a minha primeira marca semi-permanente no mundo, ou no estuque de uma parede - como disse, tanto faz -, em que este vaivém começou chega-me agora, sem aviso, mais de vinte anos depois, enquanto vos escrevo com dois cérebros e vinte dedos das mãos, foi esse o dia em que o extraordinário me bateu à porta pela primeira vez, cedo demais, cedo demais, era só uma criança de oito anos quando uma directora de um colégio privado me encomendou o meu primeiro mural, pediu-me ela, em frente a toda a escola: Podes tirar duas tardes e pintar as paredes da sala dos bebés com os desenhos tão bonitos que só tu sabes fazer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de forrar as paredes com gatos gordos de várias cores, uma maceeira, flores, e da minha assinatura junto ao rodapé de uma das paredes - foi a primeira vez que eu assinei Diana Ralha, que nome bonito que me deram -, nesse mesmo ano, como seria de esperar, tornei-me invencível e rápido viria a ser a aluna-prodígio do professor Geraldes. Com a ajuda do meu querido irmão-primo Hugo, passei da menina triste para o mais perto de uma Nadia Comaneci que algum dia fui. Até grande ginasta eu já provei que conseguia ser - Quantas vidas cabem em mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muita história poderia ter sido contada desde a última vez que eu aqui escrevi; desde a última vez que o extraordinário me tocou de raspão e voltou a deixar nódoa-negra.&lt;br /&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;A vida, a nossa vida, já não passa devagarinho entre as quatro paredes de Santa Marta. Agora, de vez em quando, conduzo um jipe do bloco de leste comunista e trago em mim uma outra, uma nova vida: tenho vinte dedos das mãos, vinte dedos dos pés, tenho dois cérebros, e cresce em mim um menino que se vai chamar António.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" lang="PT" &gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p style="font-family: arial;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" lang="PT" &gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;E porque o extraordinário já persegue o meu menino mesmo no escuro do ventre da sua estranha mãe, ou talvez porque, afinal, existe uma qualquer lei de compensação cósmica - coisas tão más não deviam acontecer a pessoas que, pelo menos, tentam não fazer mal a ninguém, só pode ter sido engano, não devia ter sido eu -, o António se calhar vai chegar ao mundo um ano depois do maior desgosto da minha vida. E está bem assim, se calhar está mesmo bem assim, eu aguento tudo, quem é que não acredita que eu aguento tudo?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="font-family: arial;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" lang="PT" &gt; A Carolina agora dorme num quarto cheio de fadas e estrelas que eu própria desenhei e depois pintei com todo o amor que me pode sair das mãos, sem me preocupar em assinar o gigante mural, como da primeira vez em que deixei a primeira marca semi-permanente no mundo.&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p style="font-family: arial;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" lang="PT" &gt;A minha filha fez-me prometer que nunca mais mudamos de casa. Muito triste, numa noite destas, mesmo muito triste, ela explicou-me que é pequenina e que por isso se vai esquecer da casa onde fomos só nós duas e mais ninguém, e onde depois fomos três, onde as paredes abriram rachas de tanto amor que por lá passou.&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p style="font-family: arial;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" lang="PT" &gt;E por isso, para que ela não se esqueça de Santa Marta, da D. Beatriz ou do Sr. Zé, do seu quarto cor-de-rosa cheio de gatos nas paredes, da parede laranja da sala, ou da cozinha vermelha, assentamos as histórias da sua memória de quatro anos num caderno muito bonito que a Teresa nos deu. Quem sabe se esta não será a sua primeira marca semi-permanente no mundo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, vivo numa casa cheia de sol, de tectos altos onde nascem flores de estuque feitas pelas mãos mágicas de alguém que conheceu as minhas paredes há mais de cem anos. Vivo na avenida maldita, digo isso aos turistas, que aquela avenida é amaldiçoada, conto sempre novas histórias, e tenho um amigo paquistanês que reza a Alá para que a garganta da Carolina a deixe em paz.&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;        &lt;p style="font-family: arial;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" lang="PT" &gt;Subo cem degraus para chegar à nossa casa, onde cabem todos os nossos amigos, toda a nossa família, todos os nossos sonhos, e há remendos mal feitos no chão de tábua corrida, há os gritos do prédio da rua de trás, mas é a casa de onde eu prometi que não saía mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sonho muitas vezes com o meu pai, lembro-me dele por tudo e por nada, vejo-o quando deixo o olhar perdido nos pequenos quadrados de mosaico azul de uma qualquer piscina, ou quando pinto fadas nas paredes com os pincéis que ele me deixou em herança.&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;E também sonho com o cheiro e com o colo da mãe do meu pai, com ela a abrir-me a asa e o cobertor da sua cama, com o cabelo muito comprido e branco, uma figura diferente daquela que eu conheci, como se ela tivesse envelhecido apenas nos meus sonhos, como se nunca tivesse morrido e vivesse nos meus sonhos, e ela a dizer-me, uma noite destas em que não dormi por causa de mais uma dor, a minha avó tapada por um cobertor estampado com o mapa mundi do século XV a dizer-me: entra, podes dormir aqui.&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="font-family: arial;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" lang="PT" &gt;E penso - eu não sou a filha do meu pai. E repenso: também não sou a filha da minha mãe, muito menos da minha mãe, essa mulher inquebrável que nunca chora a não ser pelas suas árvores e pelos jardins votados ao abandono.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="font-family: arial;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" lang="PT" &gt;Eu sou qualquer outra coisa de intermédio, mas não sou mistura de nenhum dos dois. Sou a derrota e a glória. Sou bonita e sou feia. Sou amiga e venenosa. Sou mercenária e bondosa. Sou a mão que escreve e a mão que pinta. Sou a voz que canta e a voz que defende causas invencíveis.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="font-family: arial;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" lang="PT" &gt;Sou tudo e não sou nada.&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"  style="font-size:100%;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-2414998985244732761?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/2414998985244732761/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=2414998985244732761' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/2414998985244732761'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/2414998985244732761'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2008/10/mam-e-se-os-nmeros-nunca-acabam-porque.html' title=''/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-6931156970982033541</id><published>2008-04-03T23:18:00.003+01:00</published><updated>2008-04-04T08:46:27.976+01:00</updated><title type='text'>E nada de extraordinário acontece (uma e outra vez)</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;A frase está trocada - eu quero dizer uma coisa, mas digo o seu contrário, não sei bem se é de propósito, mas faço isto a toda a hora, eu desdenho, eu provoco, e eu queixo-me à toa, trago os bolsos cheios de histórias de um cancioneiro que faz cair os queixos e esbugalhar os olhos, eu digo (como é que eu tenha a lata de dizê-lo?):&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;eu só quero uma vida simples, sem sobressaltos&lt;/span&gt;.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;E sento o rabo no sofá da casinha de bonecas da rua do Monopólio (eu vou morar para a avenida maldita, mas ela também está no tabuleiro do jogo da minha infância, sentados em cima do tapete sobre o qual o meu pai morreu, as pernas da mesa enterradas em tacinhas de água por causa das formigas pretas, e eu decido morar na avenida maldita, porque sempre tive queda para acolher as maldições de todo o mundo) – eu sento-me e não posso deixar de pensar que o meu rabo está enorme, que isso não é de hoje, mas que agora já não sei, já não reconheço que corpo é este que arrasto.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;(e quando o telefone tocou – foi quase há um ano, como é que já passou quase um ano -, junto ao recreio da escola de São Miguel, em frente ao prédio da segurança social, e o meu irmão disse, o Zé Ralha morreu, eu pensei imediatamente que ficaria com os seus olhos; lembro-me de baixar a pála do pára-sol e espreitar a medo se os meus olhos já tinham ficado grandes como bolas de cristal, e se já não eram os meus, umas amêndoas perfeitas, que viam tudo a andar à roda; e isto, todo este medo, porque há muito, muito tempo ele disse-me, na única sombra do terraço de tijoleira escaldante &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;- a glicínia ainda estava em flor-, quando a tua avó morreu - és tão parecida com a minha mãe -, ela deu-me os seus olhos, nesse dia, eu sonhei com uma tangerineira, e acordei com os olhos da minha mãe). &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Mas eu sento o rabo no sofá - e naquela casa há sonhos novos dentro do estafe de cada parede velha repintada -, e eu digo às minhas vizinhas (querendo acreditar nisto com todo o meu ser):&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Eu não preciso de mais nada. Acreditem no que vos digo, não quero glória, não posso ousar pedir seja o que for, e mereço todas as agruras; é que não posso mesmo, se ninguém me põe no meu lugar eu mesma me ponho na ordem, eu sei ser humilde, eu sei agradecer de papo cheio ou mesmo quando tudo é deserto, porque quem tudo quer, tudo perde, e porque mais vale um pássaro na mão do que dois a voar; eu tenho tudo o que pedi.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;br /&gt;Ousei pedir o impossível que se fez possível, eu tenho mais do que poderia ter sequer sonhado,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;(e tenho só quase trinta anos)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;eu tenho-o a ele, o meu grande, grande amor, aquele que arrastei para o incrível mundo do nada de extraordinário acontece.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;Bem, sei, tens toda a razão, a frase devia ser ao contrário - e tudo o que é extraordinário acontece -, eu não sei bem porque é que não escrevo tanto como antes, se é porque tenho medo de ser pobre e mal agradecida, eu não queria mais nada, não preciso de mais nada, só uma vida simples,  nas vidas simples os blogues não servem para nada,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;(escrevo isto e tenho Álvaro de Campos a sair-me da boca para fora, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;se eu casasse com a filha da minha lavadeira talvez fosse feliz&lt;/span&gt;), &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;e visto isto, percebo que não há um pingo de humildade em mim, que digo isto da boca para fora, para ver se de tanto repetir consigo decorar, mas eu quero mais, sempre mais um pouco; há meses, uma boa meia dúzia deles, eu gravei no telemóvel o número de telefone do comendador – porque raio, queres tu o número do comendador, sabe-se lá, e nada de extraordinário acontece, e agora da janela do museu que lhe é homónimo, eu tenho Picasso e Magritte ao meu dispor (e quem haveria de dizer que os Litchensteins são tão grandes), ainda agora, há tão poucas semanas, eu embrulhava os quadros da herança do meu pai, um Bual, não sei quantos Limas de Freitas, e os quadros do meu pai, e o número do Comendador guardado no meu telefone rasca.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;E zango-me, arrelio-me (Miguel, arreliar é uma das minhas palavras favoritas; e bem-haja também – era o meu avô Oliveira que as dizia sempre, Diana, não me arrelies, e Diana, bem-haja), tenho a Santa Filomena, de setas coladas ao peito a olhar para mim, e quantas vezes pensei – afinal, o meu pai não era bruxo; afinal, o meu pai nem sequer me deu os seus olhos, afinal, tudo o que me resta são prédios no Barreiro e centenas de telas embrulhadas em papel de cenário,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Mas o meu pai faz-me das suas, porque eu insisto, porque eu digo, à laia de ladainha em tom menor, e nada de extraordinário acontece, e um, dois, três, dias depois de eu perder o filho que não nasceu, aparece, sei lá vindo de onde, um fantasma monocromático ofendido com as palavras deste blogue, que abalroa a minha mãe na rua, que diz que eu sou uma galdéria, que não presto para nada, um fantasma se sumiu da vista há mais de dez anos, raios, raios, e tudo o que é extraordinário acontece, e virgem ofendida, devolve um quadro de um anjo que o meu pai em tempos pintou. E o imbecil ofendido nem percebe que me trouxe um presente do meu pai, nem percebe que foi joguete de um plano maior, que só serviu para isso, e espero que fique bem, e que tenha muitos filhinhos pela barriga da perna.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Mas não fica por aí - comovo o haitiano octogenário com o meu francês macarrónico – &lt;i style=""&gt;tu parles le francais comme une vache holandaise&lt;/i&gt;, diria o meu avô Oliveira – e convoco toda a imprensa para o seu trabalho, peço ao David o email da última voz da rádio, e digo quem sou, o que fiz (não sou nada, não posso querer ser nada, Álvaro de Campos está-me nas pontas dos dedos), que preciso da sua voz emprestada, e do outro lado do oceano, onde o ditador veste fatos-de-treino da Adidas – ele responde que me conhece muito bem, que muito estima o meu trabalho, e eu sem saber a que trabalho ele se refere.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;E se tal já não bastasse – já era demais até ao final do ano, pelo menos -, pela manhã sorrio por dentro, porque a mulher com quem falo, desde o início da semana, de orquídeas, azáleas e hibiscos, diz em francês, ao telefone, que o recém nomeado director-geral das artes, é da terra do São Francisco Xavier, que lhe deve ter herdado o apelido&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;(Eu sorrio, porque o João acha que eu sou Xavier, porque a minha família goesa descende do santo)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;E, de repente, ela desliga o telefone e em tom grave, pergunta:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;Filha, qual é mesmo o teu apelido?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;  E eu respondo, a sorrir, Xavier Ralha, isso mesmo, o apelido dos monhés, e julgavas que era só isto, nã, nã, nã, faltam as palavras mágicas, essas mesmo, as que eu digo em jeito de feitiço dos contrários – e nada de extraordinário acontece -, e já temos as duas os pelos dos braços eriçados à espera do que está para vir, quando ela me deita ao chão (preciso de fumar, preciso de fumar 3 cigarros de seguida) e revela um dos segredos mais bem guardados da família:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;O teu pai não tinha um gato chamado Leonardo?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;E, de repente, eu percebo porque, afinal, guardei o telemóvel do comendador.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-6931156970982033541?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/6931156970982033541/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=6931156970982033541' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/6931156970982033541'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/6931156970982033541'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2008/04/e-nada-de-extraordinrio-acontece-uma-e.html' title='E nada de extraordinário acontece (uma e outra vez)'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-5843468722996951906</id><published>2008-03-11T17:27:00.003Z</published><updated>2008-03-11T17:46:23.874Z</updated><title type='text'>A escada</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;De certeza, a qualquer momento, vou-me esquecer – estou nisto há dois dias –, talvez não seja ainda hoje, mas de amanhã não passa, com certeza, vou-me esquecer, é tão certo como o remoinho da minha franja arrebitar o monte de cabelo sobre a minha testa, e vou levar à boca o copo de água que antes de mim matou a sede à gerbera oferecida pelo Spa das tias, na véspera do dia da Mulher.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Mas, inexplicavelmente, deixo-o ficar, aqui, do lado esquerdo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Certamente, talvez aguente até amanhã – ando nisto há quantos dias? –, sou capaz de jurar que não vai demorar muito, semanas no máximo, vou tirar as conchas que me aquecem as orelhas com decibéis acima do que as autoridades comunitárias aconselham, &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;e esqueço os máximos do petróleo, deixo de plantar dezenas de notícias sobre o preço do alumínio, peço desculpa ao meu adorado banqueiro, e agarro no pinheirinho que enquadrei entre as escadas de incêndio e o rio Tejo, saio pela porta sem mais explicações, sento-me num degrau frio da escada que ninguém sobe, que ninguém desce, e começo a cantar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Qualquer coisa, o que me vier à cabeça – quantos gigas tem o lado direito do meu cérebro, eu acho que é do lado direito que guardo todas as músicas, mesmo em cima do olho -, às vezes, só vou lá acima para murmurar baixinho qualquer coisa pelas escadas, pego num cigarro, e vou lá acima, perguntam-me, não vais de elevador, não, não vou, não dou mais explicações, subo pelas escadas porque quero ver o Marquês e para murmurar baixinho qualquer coisa pela escada acima; só por isso é que vou lá acima.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Como é que era? Passávamos os intervalos escondidas, no breu, escondidas pelo caracol da escada, eu tinha a voz límpida, e a tua voz por vezes cheirava a mofo, tinha buracos como uma qualquer avenida de Lisboa, e a minha era constante e cristalina, nunca saía de tom, nunca hesitava, parecia tudo uma incrível magia, por vezes, espantava-me a beleza das nossas vozes juntas, tínhamos 14 anos, eu descobri a minha voz às escuras, contigo, a cada intervalo, e lá fora jogava-se à bola, e fumavam-se cigarros  junto às casas-de-banho, mas nós fugíamos, não dizíamos nada a ninguém - aquilo era o segredo mais bem guardado, era melhor do que qualquer droga -, nós dávamos as mãos e íamos cantar para as escadas que já ninguém se lembrava.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Gostava de voltar àquelas escadas. Provavelmente, ao cimo do caracol, trancados a sete-chaves, ainda estão os xilofones que me faziam rir com a minha própria descoordenação motora, decerto, coberto de pó ainda está o piano desafinado, gostava mesmo de lá voltar contigo para cantarmos músicas de quando ainda não tínhamos nascido.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;De certeza, eu sinto-me prestes a ceder, não vou aguentar muito mais &lt;a name="OLE_LINK2"&gt;&lt;/a&gt;&lt;a name="OLE_LINK1"&gt;&lt;span style=""&gt;–&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; estou assim desde que encontrei aquela foto dentro do CD da Elis, eu de cabelo muito ralinho, o maior tesouro da minha herança é aquela foto dentro do CD da Elis, o meu pai guardava-me dentro do CD da Elis, e desde que eu encontrei aquele retrato a preto-e-branco, cabelo em desalinho, a minha boca tão bem desenhada, assim a olhar para cima, todos os sonhos enterrados na covinha da bochecha direita –, já não sei quantas vezes cantei a “Saudosa Maloca”, ou as “Folhas Secas” e o “Cais” desde que encontrei aquela foto; por ora, eu só precisava de umas escadas, umas de mármore, no penúltimo andar de um prédio alto, não preciso de audiência, enquanto uns fumavam charros, enquanto outras descobriam o corpo, eu passava as tardes numa escada a cantar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Sei bem que a Natalina, do sétimo andar, abria a porta devagarinho, e ficava a escutar, sei muito bem. Na altura eu não ria alto, eu não dava nas vistas, eu era invisível – dava tudo para ser outra vez assim –, naquele tempo eu não queria escrever, eu não gostava de canetas, e nunca tinha batido os dedos sobre nenhum teclado, e eu tinha esta certeza, eu trazia esta certeza agarrada à garganta, que o que mais me fazia feliz era cantar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Na escada, sem audiência, sobretudo sem audiência, eu queria ver até onde é que eu podia chegar; eu levava o meu maço de SG Ventil e passava as tardes a cantar, matava as beatas com o sapato que também ainda não era de salto alto, eu matava as horas a cantar músicas que mais ninguém conhece, a cantar dores que ainda desconhecia, mas que adivinhava estarem à porta, eu sei que sou quem sou por causa dessas músicas que foram escritas e cantadas muito antes de eu nascer, sobretudo por elas, eu sou esta pessoa, não há palavras aqui, aqui ou noutro lugar, que me convençam do contrário, e não há nada que me faça tão feliz como quando cantava naquelas escadas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Qualquer dia, a qualquer instante, eu tinha 14 anos, eu apaixonei-me pela minha voz há mais de 14 anos, e depois fechei a boca, como se faz a um amante traidor, eu fingi que esqueci o grande amor da minha vida, não tarda, sem mais demoras – eu sinto isto desde que encontrei a foto a preto-e-branco, fechada no tesouro mais precioso da herança do meu pai -, fecho a tampa do portátil, deixo a cadeira a girar sozinha, levo o maço na mão, saio porta fora e ponho-me a cantar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Por enquanto, enquanto isso, fico por aqui, a adivinhar quando vou beber ao engano o copo de água choca que matou a sede à gerbera oferecida pelo Spa das tias, na véspera do dia da Mulher.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-5843468722996951906?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/5843468722996951906/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=5843468722996951906' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5843468722996951906'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5843468722996951906'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2008/03/escada.html' title='A escada'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-5698264755490997649</id><published>2008-02-18T23:39:00.003Z</published><updated>2008-02-18T23:53:24.813Z</updated><title type='text'>No dia seguinte</title><content type='html'>&lt;span style=";font-family:arial;font-size:100%;"  &gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;Eu penso muito nisto, e não fiques já com essa cara, com medo do que aí vem, porque eu sou absolutamente inofensiva; já fiz mal às formigas, mas apenas porque elas não se foram embora da bancada de mármore da cozinha após demoradas conversações, e depois de esgotada toda a diplomacia, ainda esperei três dias, mas em abono da verdade, e em minha defesa - raras vezes, como esta, eu saio em defesa do meu bom carácter -, que fique registado que nunca toquei numa mosca, apesar de descender de uma família de caçadores de varejeiras.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;E por isso, talvez por isso mas daí talvez não, porque a minha mãe não é do lado da família que apanha moscas qualquer uma das mãos e até de olhos fechados, ela por vezes até me diz que me falta espinha dorsal, e que não me corre sangue nas veias, porque não quero sentir ódio ou amargura porque são sentimentos que me queimam, porque quase sempre ofereço a outra face, porque me vergo, porque não enfrento o touro pelos cornos, porque levo esta vida sem subir montanhas, e o problema, o único problema é que eu penso em tudo, sobre a mais insignificante merda que se me atravessa no caminho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;A toda a hora, e não é pêra doce, não é fácil ser eu a toda a hora, e às vezes lembro-me da Tiju a confidenciar-me na assoalhada que fica imediatamente em baixo da outra onde, em tempos tão mais felizes, fazia biscoitos em forma de estrela com a minha avó - os móveis da cozinha eram laranja mas não consigo refazer a copa, tinha uma predilecção pelo armário dos tupperwares que cheirava a plástico velho, mas não consigo ver nada na copa além do sorriso e dos lábios finos da minha avó; e sei que era lá que batíamos nos tachos à janela, quando o ano velho se despedia, mas não me lembro de que cor era a copa onde fazia biscoitos e bebia copos de água com pastilhas de Cecrisina -, a Tiju a dizer-me que o meu pai em tempos lhe disse isso mesmo: que não era fácil ser ele, que por vezes, nem ele tinha paciência para si próprio. E assim, eu tenho a certeza que sou mesmo filha do meu pai, que quem sai aos seus não é de Genebra, ou como raio é o provérbio.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;Mas, descansa, eu não penso mais em ti do que penso em tudo o resto, não mais do que nas mãos da minha mãe, que estão cada vez mais torcidas como um tronco de uma árvore bonsai, não menos que nos resultados do banco de amanhã, ou nas cores dos azulejos da casa-de-banho nova que não sai do papel, e quase o mesmo do que no buço que só eu vejo reflectido do outro lado do espelho, nos olhos azuis costureira mongol que vive aos pés de Santa Marta, ou na peruca loura e despenteada da vizinha que todas as noites desce ao Andaluz para jantar com o marido gigante sempre com chapéus ascottianos enfiados na cabeça.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;Mas penso muitas vezes nisto – se ao menos eu tivesse nascido no dia seguinte, naquele que vem depois da capicua 22, talvez fosse mais parecida contigo, talvez nunca reparasse no buço que mais ninguém vê, talvez eu não comesse bolachas de chocolate para esquecer todas as frustrações, muito provavelmente eu não duvidaria que sou mais inteligente do que toda a gente que me rodeia; eu&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;podia reinar, como tu, talvez se eu tivesse nascido no dia seguinte, talvez eu escrevesse o tal livro que toda a gente me pede, se eu tivesse nascido um dia depois era leão como tu; eu penso muitas vezes nisto, que gostava de ser como tu.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;E toda a gente me fala mal de ti, leãozinho, que és um predador, um mercenário, que não olhas para trás nunca, que traças o teu destino a tira-linhas todos os dias, e que arrasas quem quer que seja que te faça desviar do plano original; que te gabas do teu sucesso, que em tempos destruíste a minha reputação – como se eu tivesse alguma -, toda a gente me diz tem cuidado, que um dia tu me vais magoar, que não tens nada de santo, que és feito de pau oco, que és incapaz de amar; ninguém percebe porque gosto tanto de ti, e mesmo assim, eu oiço todos os argumentos, entra por um ouvido e sai por outro, e eu continuo a gostar de ti, a admirar-te de muito longe, e penso muito nisto, que, se ao menos eu tivesse nascido no dia 23, talvez fosse um bocadinho mais parecida contigo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;Vejamos se nos entendemos e se eu vou directa ao assunto. Eu nunca serei porra nenhuma, só vou ser dona do meu nariz empinado, eu nunca vou ser nada, não vou escrever o tal livro, já não sei se ninguém me respeita apenas porque tenho um par de mamas, não é fácil ser eu própria, não é mesmo, questiono cada centímetro do meu corpo, cada gesto impensado; pode até não parecer, mas meço todas as palavras, não é nada fácil, por vezes também me canso de mim, porque choro demasiadas vezes atrás do portátil, porque carrego o luto por todas as coisinhas que cirandam na minha cabeça que têm que me abandonar, porque é assim a vida, mas, talvez, nunca se sabe, se eu tivesse nascido no dia seguinte, eu se calhar ia mais longe, e se assim tivesse sido, eu queria ser como tu.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;Agora falo menos, falo menos e rio menos, porque é melhor estar calada do que apenas falar sobre mim; no fundo, eu nasci um dia antes e, por isso, estou fechada sobre mim, e eu também penso tanto nisto, nem mais nem menos do que em todas as outras coisas juntas que andam aos saltos dentro da minha cabeça, quantas vezes estivemos juntos, se juntássemos todos os bocadinhos, ao longo de todos estes anos, quantas horas estivemos juntos, nem um dia estivemos juntos, e eu deposito quase tudo no amor que tu também me tens.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="text-align: justify;font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;A história é esta. Simples. A do dia seguinte.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-5698264755490997649?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/5698264755490997649/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=5698264755490997649' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5698264755490997649'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5698264755490997649'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2008/02/no-dia-seguinte.html' title='No dia seguinte'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-2919624666062250224</id><published>2008-02-12T18:25:00.001Z</published><updated>2008-02-13T11:02:37.591Z</updated><title type='text'>Quando é que se abre a porta aberta?</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;As portas estão todas fechadas, estão sempre fechadas, e quando as encontramos de outra forma, se é que as encontramos de outra forma (as portas não nasceram para estar abertas), estão escancaradas, em deboche; as portas são estridentes, elas nunca se entreabrem de soslaio, as portas nunca deixam ver o que está do outro lado por uma nesga,&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;(essa é a função das fechaduras, as fechaduras só existem para podermos espreitar o que está para lá da porta)&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;não há meio termo, nunca há meio termo, porque ensinaram-nos isto, de pequeninos - fecha a porta atrás de ti, não te esqueças de dar três voltas à chave, e não abras a porta a estranhos, nunca abras a porta.&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;E então, se é assim, se é sempre assim, quando é que se abre a porta aberta?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;As portas estão sempre fechadas, nem que seja só no trinco, é simples o seu destino, as portas só existem enquanto portas porque devem estar fechadas, cumprem pena pesada, voto de clausura, por um pecado qualquer, por uma promessa qualquer, por um segredo qualquer, por vezes, não guardam nada, não escondem nada, mas, mesmo assim, têm que estar fechadas, com correntes, prisioneiras de aloquetes para os quais nunca foi feita nenhuma chave da salvação.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Ensinam-nos isto, que quem anda à chuva molha-se, que quem brinca com o fogo faz xixi na cama, e que as portas estão sempre fechadas, têm que estar fechadas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;E então, se é assim, se sempre foi assim, quem é que se lembra de abrir a porta aberta?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;        &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;E talvez sejamos as únicas pessoas desta cidade que puderam acreditar que a porta estava encostada, apenas encostada, fomos os únicos que nos lembrámos de abrir a porta aberta – porque raio, desta vez, não levámos o pé-de-cabra, porque raio não trouxemos o alicate, o escopro e o martelo?&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;        &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;(E já pensaste quantos pares de pés passaram pela porta aberta antes de nós?)&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;E quem resisitiria a espreitar, quem não teria entrado também se ela tivesse deixado antever o que estava para lá de si - lá dentro já esperávamos a penumbra, a porta nem sempre fecha todos os segredos; lá dentro, sentia-se cá de fora, nem precisava de estar aberta para o sabermos, para adivinharmos o cheiro, uma mistura de velho com penas de pombo e pó, cá de fora eu ainda descortinava o cheiro da cera de abelha, do chão e das tralhas esquecidas -, mas quem, se não nós, se lembraria de apenas encostar a palma da mão à porta e, sem palavra mágica, sem impressão digital – todos os dias, o meu dedo abre uma porta -, ainda bem que eu acreditei que conseguia abrir a porta aberta, e que fui à frente, sem medo, e que depois pude olhar para trás, e sorrir, e dizer-vos:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Já está. A porta está aberta.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Eu juro-te, muita coisa mudou desde o último dia do ano, quando tu ficaste atrás de uma porta que eu não vou conseguir abrir apenas com a força que se acumula na ponta dos meus dedos; outros milhares de pares de pés passaram pela porta aberta, depois de lhe termos descoberto o segredo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Sabes,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;(a Carolina começa todas as frases assim, como eu, sabes?)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;O meu cão desapareceu no início do ano, não volta mais, o Pax morreu e eu ainda não consegui chorar pela falta que ele me faz.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;          &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;A D. Ilda morreu e eu fui a única a escrever no livro de condolências da Servilusa, eu fui a única a chorar, a chorar como uma criança, a chorar como quando ela me consolava na sala do papel de parede almiscarado (o Valter e a Teresa a falarem dos seus gatos, preocupados com os gatos, que estavam sozinhos há muito tempo, e eu a chorar ao lado do caixão da D. Ilda, e ainda bem que a D. Ilda me deu, era eu tão pequena, o vestido de princesa cor-de-rosa; a Teresa já nem se lembrava dele, eu escrevi sobre o vestido de princesa cor-de-rosa no livro de condolêncioas da Servilusa, mas cada um com o seu talento, a Teresa distingue o miado do gato persa em qualquer lado do mundo; a Teresa chorou pelo gato mas não pela D. Ilda, e eu não chorei ainda pelo Pax).&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;E o meu pai voltou-me a morrer outra vez, a semana passada, o meu pai voltou a morrer, quem é que podia acreditar - é tal e qual como a história da porta aberta, quantos pares de pés passaram por ela e só viram uma porta fechada, igual a tantas outras - que dois pintores partilhavam o mesmo estranho apelido e nem sem sequer eram parentes; o meu pai voltou-me a morrer esta semana, e eu ainda não fui ver o meu avô, não voltei às Finanças do Barreiro para entregar nova declaração do modelo 1 do IMI, nem passei os recibos do condomínio (ou marquei a reunião ordinária).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;E todos os dias, todos, todos os dias, desde o último dia do ano, eu lembro-me de ti,&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;eu lembro-me de ti, lembrei-me de ti,&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;(sabes, eu nunca me vou esquecer de ti)&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt; sobretudo quando abri a porta aberta.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;[post 777]&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span  lang="PT" style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-2919624666062250224?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/2919624666062250224/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=2919624666062250224' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/2919624666062250224'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/2919624666062250224'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2008/02/quando-que-se-abre-porta-aberta.html' title='Quando é que se abre a porta aberta?'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-5827788326546348731</id><published>2008-01-29T18:30:00.000Z</published><updated>2008-01-29T18:33:31.494Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='e nada de extraordinário acontece'/><title type='text'>O portageiro feliz</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;A Teresa diz que não conhece mais ninguém assim, que se dê ao trabalho, para quê, que bem há-de vir ao mundo, nenhum, nenhum mesmo, muitas vezes é assim &lt;a name="OLE_LINK2"&gt;&lt;/a&gt;&lt;a name="OLE_LINK1"&gt;&lt;span style=""&gt;–&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; é tão raro, só que há mais gente como eu, a Magui vê trevos de quadro folhas do parapeito da janela do seu segundo andar, e eu vejo histórias que me atropelam porque precisam de ser contadas, cada um com o seu fardo, cada qual com a sua sina.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Mas se nada se ganha, também não se perde coisa alguma, não custa muito, um minuto basta para que o mundo dê um soluço (e geralmente alguém tropeça nesse instante). E eu aprendi, eu sei lá bem com quem é que aprendi isto, que devo parar, para recuperar o fôlego, para esticar as pernas e imediatamente a seguir ouvir o estalido do meu joelho doente, devo impor-me uma pausa e pedir ao coração que não me saia da boca para fora, eu devo parar. E às vezes, sou travada, não sou eu que decido parar – às vezes paro para memorizar as janelas do 120 da Duque de Loulé e sou abalroada por gente com pressa de apanhar o 22 –, mas consigo congelar o curso natural das coisas, nesse instante não se ouve senão o ruído fininho do silêncio, apesar de os escapes, esses, continuam a emitir mais CO2 do que o estilete de papel que levo à boca, e que me queima os lábios, e nisto vem um ganido do violino desafinado à saída do túnel da República, e o mais incrível de tudo é o sorriso dourado, doce, eu revejo-me naquele sorriso, do homem que pede esmola à chuva por entre a fila de para-choques sujos.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;O melhor dos meus dias não tem a ver com os sapatos caros que compro quando estou triste, esvaziada, e que depois me torturam o calcanhar, mas que me fazem a coxa e a barriga da perna perfeitas, deliciosas, por vezes, não é mais do que isto, por acaso, às vezes estou atenta no instante em que coisas raras acontecem (e a minha mãe coloca mais um trevo de quatro dentro da página de algum livro da biblioteca, ao lado dos olhos atentos de vidro das bonecas com pele de porcelana), e raios me partam, às vezes até me passa pela cabeça tirar o estilete de papel, e ter lábios perfeitos, sem quimaduras.&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;A Teresa diz que não conhece mais ninguém assim. Que fale com os portageiros. Mas quem é que se vai dar ao trabalho (e eu sempre com esta – é a pior profissão do mundo), até o motor do vidro eléctrico resmunga a cada área concessionada, desce a contragosto, e o Multijet ronrona lá à frente, dou-lhe uns segundos de descanso, e é por estas e por outras, que, por mais jeito que dê, que mais jeito que viesse a dar, eu nunca vou ter colada uma caixa da Via Verde atrás do espelho retrovisor, eu estico o braço e sai pela borda fora o cartão da águia azul, entre o polegar e o indicador, isto é maquinal, não dura mais que uns segundos, mas o que é que custa – às vezes custa, quando a alma dói –, um sorriso, olá boa tarde, passou bem? (e por vezes sinto-me um operador de call center, mas nunca me sai forçado, e sorrio à espera do que está para vir).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Há dias, raros, rarefeitos, incríveis, em que o portageiro sorri também. E diz mais do que um murmúrio inaudível que deveria soar qualquer coisa como boa viagem. E quando isto acontece, continuamos a viagem, e ela é mesmo mais prazeirosa, e pisamos o tabuleiro metálico da ponte sem que nos importe o zumbido do vento que vem dos segredos do Tejo; quando assim é, seguimos um pouco mais felizes porque o portageiro também o é.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;No tabuleiro da Ponte sobre o Tejo, na cabine 14, tem que se pisar o Bus, seguir sempre pelo Bus, o portageiro feliz ganha a sua vida, fechado num aquário de um metro quadrado, e é mais feliz do que os escravos que me abalroam quando algo me obriga a parar, é mais feliz porque sim, sem dinheiro amealhado em horas e pestanas incineradas em frente a um monitor, sem casas espaçosas, postos de trabalho ergonómicos, sem qualquer motor de alta cilindrada estacionado na rua onde de certeza brotam trevos de quatro folhas.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Olá, boa noite, como está? (os olhos ainda marejados pelas árvores arrancadas ao solo para passar o metro da margem sul do Tejo, se calhar um suspiro por ele ser a primeira visão depois da lenha cortada para cima dos carris).&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;Há tanto tempo que não passava por aqui, está tudo bem consigo? (espreita para o banco de trás, a Carolina dorme). A menina está tão crescida. É linda…&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Ele não sabe que eu me encostei à faixa da direita de propósito, que arrisquei, um tiro no escuro (a minha mãe encontrou mais um trevo, à noite), pisei a palavra Bus durante mil metros, porque a história do portageiro feliz tinha que ser contada.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;Ele não sabe que eu acredito que ele saiba perfeitamente quem sou eu, apesar de só lhe ter esticado o cartão da águia azul três vezes na cabine 14 da Ponte sobre o Tejo.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-5827788326546348731?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/5827788326546348731/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=5827788326546348731' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5827788326546348731'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5827788326546348731'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2008/01/o-portageiro-feliz.html' title='O portageiro feliz'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-5096019445590612523</id><published>2008-01-10T18:27:00.000Z</published><updated>2008-01-10T18:30:22.059Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='e nada de extraordinário acontece'/><title type='text'>Deusdado</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://bp1.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/R4ZkE0RWRZI/AAAAAAAAAB8/5r6eUZTZjB0/s1600-h/ginkgo.JPG"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://bp1.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/R4ZkE0RWRZI/AAAAAAAAAB8/5r6eUZTZjB0/s400/ginkgo.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5153916857485772178" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;i style=""&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;Si Deus Nobiscum quis contra nos&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;, se Deus está comigo quem está contra mim,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;    &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;[Tenho quase a certeza, descambou, até pode ser que não, mas tenho quase a certeza, descambou]&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;    &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;debaixo da Ginkgo, porquê debaixo Ginkgo, logo a Ginkgo, na cama, depois do fim, sem perceber porque é que Deus nos abandonou, porque é que perdi o nosso filho debaixo da Ginkgo, porquê debaixo da Ginkgo, aquela do nosso jardim, justamente quando ela dourava o chão de Lisboa, e eu à cata da folha mais pequena sem sequer perceber que o estava a perder debaixo da copa da árvore sagrada que fazia sombra aos dinossauros à milhões de anos atrás, à procura da folha da sorte para ganharmos o Euromilhões e podermos ter a sala grande com três janelas duplas do projecto da Teresa, se ganhássemos o Euromilhões eu continuava a querer viver na Almirante Reis, com vista para o Castelo e para o Intendente, &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;    &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;[Depois de levantar os olhos do relatório da urgência, viu-me de olhos raiados, narinas muito abertas, jugular a querer rebentar no pescoço, quero deixar de respirar também, se eu pudesse ter dito alguma era quero deixar de respirar, faz barulho demais se eu respirar, 30 segundos sem respirar, deixar ribombar que já descambou e enquanto isso não respiro, maxilares cerrados, pescoço esticado, nariz empinado, pose de Estado, punho cerrado e unhas cravadas na carne dentro do bolso do casaco que tem o forro descosido, depois de me ver assim, voltou ao relatório, não para escrever que tinha descambado, só para ler, e pela primeira soube que o meu nome era Diana, Diana, repetiu Diana vezes de mais, só se lembrou que era importante saber que o meu nome era Diana antes de me dizer que o meu filho tinha descambado]&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;    &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;eu que gosto tanto das Ginkgos, e agora como vai ser a vida sem as Ginkgos douradas no Inverno, na Almirante Reis não há Ginkgos, só tílias, e lódãos, melhor assim, antes disto, um silêncio absoluto, horas, instantes, preces, todas as promessas foram feitas, a todos os Santos, foram invocados todos os Orixás, se Deus está comigo não me vai fazer isto, porque é que ele nos havia de abandonar,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;    &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;[ela está muito nervosa, pelo amor de Deus tenha cuidado a tirar-lhe o sangue, porque ela está muito nervosa, e eu muda, sem respirar, de cabeça encostada à anca da enfermeira que chorou pelo meu silêncio, pelos meus olhos raiados, pelo meu pescoço esticado, a enfermeira que prendeu no quadro de cortiça da urgência, com pionaises dourados, o desenho que a Carolina fez na sala de espera da urgência]&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;    &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;só um ganido de dor por nunca mais poder contar com as Ginkgos para nada, nunca mais vou poder gostar das Ginkgos, lamento, não é possível, e se Deus está connosco quem é que tem a ousadia de estar contra nós, fico-me pelos eucaliptos, eu sempre gostei mais de eucaliptos, e de pombos, eu estava a perder o nosso filho debaixo da Ginkgo e as pombas do &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;nosso jardim não me vieram à mão, Deus está comigo, deu-me todos os sinais, não, sinais não, são prenúncios, quando é um aviso de perigo é prenúncio, as pombas que não vieram ter comigo, e o nevoeiro gelado que caiu sobre nós, e logo a seguir a febre da Carolina, e lá em casa, sem eu saber ainda, a rosa de Inverno que perdeu todas as pétalas sem qualquer explicação,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;    &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;[mas o título do post era Esperança, e Deus está sempre comigo de mãos dadas, não há plafond de milagres por ano, pois não, há milagres sempre que é preciso, eu troco o meu cabelo por este filho, ela está muito nervosa, tirem o sangue com cuidado, não a magoem, e se ele ainda cá estiver eu troco o meu cabelo por este filho, chamo-lhe Deusdado ou Teófilo, a seringa espetada no meu braço, o torniquete de borracha e o meu braço a parecer uma perna gorda de recém-nascido, cabeça encostada à anca da enfermeira que chorava baixinho, e de repente, a Deodata, e aí sim era um sinal – estás aí, Deus? –, um sinal e não um prenúncio, a Deodata, de cabelos vermelhos até ao rabo, vermelhos sangue e a raiz do cabelo muito branca, a Deodata que fez nascer a minha primeira filha, que quando ela sufocava enredada no cordão umbilical e fazia disparar todos os alarmes da maquinaria a que eu estava ligada, colocou aqueles cabelos vermelhos ao lado da minha almofada, enquanto corria para o elevador, e cantava para mim, a Deodata a garantir-me que estava tudo bem, ia ficar tudo bem – estás aí, Deus, consegues ouvir-me?]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;na pala do sol do Idea, onde todos os dias confirmo se trago remelas coladas às pestanas, se o rímel não borrou a pálpebra, e a folha da sorte, amarela fluorescente, minúscula, em forma de borboleta, de leque, não sei, espalmada, não sei porque a trouxe, porque andava à procura dela sem perceber que estava a perder o meu filho, as Ginkgos este ano ficaram douradas fora da hora, tarde demais, tanto melhor, e no Outono os Jacarandás voltaram a florir só para mim, Deus não me abandonou, em Novembro os Jacarandás floriam de novo e eu certa que só o faziam para mim, eu a ver sinais de Deus no lilás da cinzenta 5 de Outubro, os Jacarandás a dizerem-me que só por mim me davam a esperança de um novo começo, de um recomeço.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;    &lt;/div&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;[todos os sinais, todos os prenúncios, todas as promessas, todos os santos com cera derretida ao seus pés, eu a falar com o meu pai na casa-de-banho do Hospital, eu a sangrar e a pedir-lhe para não me deixar mal, que ele sempre foi bruxo, a pedir-lhe para me deixar ficar com este filho dentro de mim, o Santo António da mãe do Stucky preso dentro da minha mão em jeito de protecção, o mundo soluçou naquela tarde, o abraço da Teresa depois do fim, os cigarros da Hermínia à porta da Maternidade, os bebés do ano a nascerem, a adolescente a chorar de dor na sala de espera, contracções de seis em seis minutos, o Leonardo ao telefone a garantir-me que a culpa não era minha, e uma lágrima a cair no linóleo, depois as lentilhas do Stucky antes das doze badaladas, a Ginkgo não podia ter feito nada, debaixo da Ginkgo, daquela, não podia ter sido debaixo daquela, se Deus está comigo, não há quem tenha a coragem de estar contra mim, porque é que ele me abandonou, deu-me todos os sinais, mas descambou.]&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-5096019445590612523?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5096019445590612523'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5096019445590612523'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2008/01/deusdado.html' title='Deusdado'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp1.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/R4ZkE0RWRZI/AAAAAAAAAB8/5r6eUZTZjB0/s72-c/ginkgo.JPG' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-5024193329421729676</id><published>2007-12-27T18:32:00.000Z</published><updated>2007-12-27T18:33:59.732Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='e nada de extraordinário acontece'/><title type='text'>Esperança</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Na casa de banho houve sempre, desde sempre, concílios familiares, epifanias, lágrimas e gargalhadas, &lt;i style=""&gt;brushings&lt;/i&gt; e borbulhas rebentadas no meio de conversas sérias, decisões para a vida, entre dúvidas metafísicas e mensagens codificadas nos desenhos a bolor do tecto por cima da banheira, nem sempre houve um espelho, mas nunca faltavam fitas de cetim guardadas no armário para as minhas tranças, outrora os azulejos eram brancos, depois começaram a cair e a Magui colou papel autocolante foleiro com gaivotas, a nossa vida, a nossa família, eu, o Leonardo, a Magui, e dúzias de gatos, encontrávamo-nos ali, pela manhã, parecíamos muitos nas manhãs de domingo – um na sanita, um na banheira, a outra a pentear as melenas ou a desenhar um risco de &lt;i style=""&gt;eyeliner&lt;/i&gt; por cima das pestanas, foi lá que o meu irmão Leonardo me queimou a bochecha esquerda com o secador de cabelo sem que nunca tenha sido castigado pelo acto vil, também foi ali que me trancaram com a gata Melissa quando a casa estava assombrada e os gatos bufavam ferozmente a seres que nenhum de nós conseguia ver, foi por cima do balde da roupa suja que eu chorei a maior parte das lágrimas da adolescência, era lá, até há muito pouco tempo que a minha mãe me secava o cabelo, cotovelo esquerdo apoiado no lavatório, rabo em cima do banco amarelo de plástico que o senhor Victor nos vendeu a preço de ruptura de &lt;i style=""&gt;stock&lt;/i&gt; quando fechou definitivamente as portas da sua loja de acessórios de casa de banho na João XXI, foi lá que, num Natal distante, linóleo cor-de-laranja com pequeno padrão de colmeia por debaixo dos nossos pés, olhos pregados ao janelo de vidro fosco junto à sanita, eu e o Leonardo jurámos ter visto a sombra do Pai Natal a colocar presentes por debaixo do pinheiro feito de escovilhões de plástico verde-garrafa.&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Já não dá para ler o futuro no bolor do tecto por cima da banheira, até porque já não há banheira, não há linóleo com colmeias por baixo dos nossos pés, algures no subúrbio, a Magui tão cansada de escolher pavimentos, sanitários, sancas, fornos e placas, mármores e granitos, olhou para aquela e disse – quero uma igual –, e eu nem ousei dizer-lhe que tinha escolhido uma casa de banho amarela, por acaso é bem gira, apesar de amarela, lavatório à moda antiga, como em Viseu, sem papel autocolante com gaivotas a segurar os azulejos, não me espanta mesmo nada que a magia tenha acontecido ali, junto à sanita, junto ao janelo de vidro fosco onde outrora eu e o Leonardo vimos a sombra do Pai Natal a deixar presentes debaixo da árvore de Natal feita de escovilhões de plástico verde-garrafa.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Não tenho um presente para ti, João.&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Não faz mal. Não tenho um presente para ti, Diana. Desculpa.&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Se o Pai Natal existisse mesmo, João, agora descíamos no elevador, aproveitávamos que a Farmácia está aberta a noite toda, arriscávamos, se calhar o Pai Natal, com sorte, até nos portámos bem, João, o Pai Natal ainda nos traz um bebé.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Não descemos à Farmácia. Com medo de mais um teste negativo em cima da mesa, da minha cara de sofrimento contido, mandíbula superior a morder o lábio e a desvendar a covinha da bochecha direita, não descemos à Farmácia, sobretudo, por vergonha, por termos uma venda suspensa há mais de quinze dias.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Com um dia de atraso, o Pai Natal chegou.&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Este blogue está grávido de seis semanas.&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;(Naquele dia, tinha que ser naquele dia, em que toda a gente tem esperança, começou a bater em mim mais um coração)&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-5024193329421729676?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/5024193329421729676/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=5024193329421729676' title='19 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5024193329421729676'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5024193329421729676'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/12/esperana.html' title='Esperança'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>19</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-7007825454407517599</id><published>2007-12-19T18:40:00.000Z</published><updated>2007-12-19T18:52:00.385Z</updated><title type='text'>Passaporte</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;A Carolina começou a escrever.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;        &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Timidamente, mesmo antes do seu quarto aniversário, começou por juntar as letras magnéticas que decoram o fiel frigorífico de marca branca em segunda-mão que resgatei por dez contos de réis de um apartamento da Lapa há sei lá quantos anos – e eu a ter que dar a mão à palmatória e a entender a tonta da minha mãe quando chorou pelo pobre caixote do lixo azul e branco que levou com tudo o que não era suficientemente bom para ser ingerido ou guardado nos armários, e que depois de trinta anos de serventia abnegada, por minha causa, por meu capricho, porque estava velho, sujo, a apodrecer, foi parar ao lixo; minimizei a coisa, até fiz um esforço para compreender o ataque de choro, repara, mamã, o céu dos caixotes do lixo, a sua grande viagem, o momento que eles esperam durante toda a sua vida, e que vida longa teve este caixote, é ir para o paraíso, para a lixeira; quantos gagues de almoço domingueiro já fiz eu com o pobre caixote do lixo, e a minha mãe ainda triste por nos termos livrado dele, e agora a perspectiva de abandonar o fiel frigorífico à mercê do seu destino, na rua estreitinha da Santa, começa a aterrorizar-me, apesar do gelo que se acumula no pequeno electrodoméstico onde cabe pouco mais do que um quilo de bifes e um pacote de verduras congeladas.&lt;o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;A primeira palavra que disse foi mamã, a primeira que escreveu foi Noddy, nada contra, não sou ciumenta, e o som da letra ípsilon ficou-lhe na cabeça a martelar, sei como é, sei tão bem como é; um mês depois, começou a desenhar letras no papel, agora procura de vez em quando o teclado do computador, gosta do til em cima do a – leia-se o chapéu em cima do triângulo –, não fomentamos o seu interesse pela escrita, a Magui outro dia ensinou-lhe o conceito de infinito, mas não fomentamos, começou a escrever sozinha – Disney é parecido com Diana, mas tem um ípsilon em vez da letra que é parecida com o um, disse ela ainda ontem enquanto brincávamos às artristas das tintas no chão, em frente ao sofá laranja –, 2-2 são zero, o infinito é um oito a dormir, e assim vemos a nossa vida em &lt;i style=""&gt;fast forward&lt;/i&gt; à frente dos nossos olhos, e tememos que ela se torne infeliz por ter descoberto cedo de mais o elixir da vida eterna.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Só precisamos de escrever, é tão simples quanto isto, o passaporte para a eternidade sai-nos das mãos, a Carolina já percebeu que sim, eu demorei tanto tempo a perceber porque escrevo, porque escrevo mesmo quando me dói o pulso doente da doença profissional que ganhei por levar esta vida a escrever.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;A Magui diz “Antes de morrer vou escrever apenas esta frase – Eu passei por aqui”, mas não basta, só voltamos a viver de novo, estejamos desfeitos em pó ou ainda em ossadas que teimam em não se desintegrar porque esta terra está cansada de mais de tudo o que se passa por cima de si, se deixarmos tudo escrito, em Viseu a casa está intacta, inviolada desde há cinquenta anos, abrimos as gavetas, abraçamo-nos às latas de Toddy que nos adocicaram a boca na infância, e encontramos a Magui, uma Magui que eu nunca conheci, a Magui antes de ser a minha mãe, a menina que era galanteada por pretendentes mais velhos que estudavam medicina em Coimbra, que serão hoje já avós, que poderiam ter sido os meus pais, ou os pais da criança que havia de vir no meu lugar, a Magui que vivia enclausurada em conventos povoados de freiras maldosas, que lhe cortavam os cabelos loiros por serem tentação demoníaca, que a largavam à noite pelos corredores, a Magui que até fazia tenção de responder aos galanteios, que escrevia as respostas às assolapadas declarações de amor e pedidos para passear de mãos dadas no Parque de Viseu, mas depois nunca chegava a entregá-las nos correios.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Se não estivesse escrito, escondido em caixas e caixinhas, perdido em Viseu, tudo já se haveria perdido no nevoeiro dos dias que tudo fazem esquecer.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Eu escrevo cábulas da memória, um dia alguém vai encontrar estes milhares e milhares de monólogos e intrigar-se, alguém se questionará – talvez a minha neta, ou bisneta, um parente afastado que partilhe o meu estranho apelido –, se terei existido mesmo ou se sou mero produto da imaginação de uma outra criatura; vivemos ao lado de pessoas que na verdade não conhecemos, deixámos de escrever, todos nós deixámos de escrever, e eu sei mais do meu avô que morre de desgosto numa ermida do outro lado da margem através de um recorte de imprensa da Ordem dos Farmacêuticos, do que por ser sua neta durante quase trinta anos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;As minhas mãos, eu escrevo com as mãos pousadas sobre o teclado, de outra forma doem-me os tendões ao fim do dia, parece que estou a ler braille, acaricio as teclas, e não olho uma única vez para baixo, para o desenho das letras, sei de cor onde elas estão, as minhas mãos hão-de deixar de existir se eu parar de escrever, porque tudo se resume às palavras – às que dissemos sem colocar a voz para que se ouvisse lá ao fundo da sala, às que hesitámos e tivemos de pigarrear um pouco antes de lançar, às que ninguém ouviu, às que atirámos como facas e que acertaram certeiras no peito de alguém, não há nada mais forte do que as palavras, com mais poder que as palavras, estas, aqui, neste sítio, não valem tanto como as que se cravam no papel; um dia, neste sítio, há-de parar tudo a um buraco negro, e o papel há-de parar ao lixo, certamente, mas continuarão para todo o sempre, enquanto o mundo for mundo, os resgatadores do passado, que compram os retratos das famílias que ninguém quis em herança, que vasculham o monte de lixo deixado à porta de prédios à espera de serem demolidos e guardam com carinho desenhos feitos pelo Francisco, ou pela Margarida; um dia, a minha filha saberá que a sua avó amou perdidamente o seu avô, a quem chamava de Mané só para se vingar do facto de ele a chamar de Guida e não Magui; descobrirá que a mãe era uma criatura ingénua que acreditava em fadas, em bruxos e em contos de encantar, que, em tempos, escreveu que algo inacreditável e extraordinário aconteceria à 50.000ª visita de um blogue, porque a faixa 50 do CD que ela ouvia incessantemente falava de um amor maior que o medo, que no equinócio da Primavera aquele que seria o seu futuro patrão mandou plantar 50.000 flores na Avenida da Liberdade, que às quatro e picos da manhã o visitante 50.000 chegou, e desde então viveram felizes para sempre.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Deixámos de escrever – há muito que deixámos de cantar, outra forma de escrita imortal –, anotar bastava, é tão simples quanto isto – até uma criança com menos de quatro anos já percebeu –, vejam só, eu tenho dois anos úteis de memórias em que sorvi o amor das minhas avós, se eu não escrever, elas morrem comigo; não foram heroínas, não estarão nunca em manuais escolares, ninguém escreverá romances sobre as suas vidas, se eu não escrever tudo o que puder sobre os dois anos de memórias conscientes que ainda trago em mim, ninguém saberá que elas passaram por aqui.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-7007825454407517599?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/7007825454407517599/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=7007825454407517599' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7007825454407517599'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7007825454407517599'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/12/passaporte.html' title='Passaporte'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-3454165697882643418</id><published>2007-11-26T17:44:00.000Z</published><updated>2007-11-26T17:46:11.356Z</updated><title type='text'>Carolina e as luzes de Natal</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://bp2.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/R0sGWXZARqI/AAAAAAAAAB0/OKzpQwAT1og/s1600-h/65562539_3347a1d8d8.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://bp2.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/R0sGWXZARqI/AAAAAAAAAB0/OKzpQwAT1og/s400/65562539_3347a1d8d8.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5137206781251962530" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt; &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi assim desde sempre - mesmo antes de as minhas cordas vocais vibrarem da boca para fora cascatas de sons cheios de nexo e significado, ou de o meu sistema nervoso central processar pouco mais do que um mundo feito da água de colónia Bien Être da minha mãe muito loira, do Âmbar e as madeiras da roupa da minha avó muito morena, e da lixívia das mãos da minha outra avó, que me embalava todas as noites no seu regaço, ao compasso do seu batimento cardíaco, sentada no sofá de napa laranja: chegava Dezembro, a porta do Ford Cortina branco do meu avô Ralha abria-se, e da Praça Pasteur seguíamos em romaria para ver o Natal nas ruas de Lisboa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pinheiro comprava-se junto à linha de comboio do Arreeiro, e debulhávamos um pacote de algodão hidrófilo pelas fagulhas, colocando bolas de vidro coloridas nos ramos. A minha avó, que quando não cheirava a lixívia, trazia consigo o aroma de roupa lavada no tanque de betão com sabão azul e branco da Clarim, tirava do porta-moedas uma nota de cinco mil escudos dobrada em quatro, e ditava que o seu destino era para comprar presentes para os meninos. No chão dos bazares da Avenida da Igreja, eu comprava um estojo de canetas da Molin, e tinha ainda dinheiro suficiente para comprar um "Meu Pequeno Ponéi" (lá em cima, na Erasmus, o meu tio Zé já teria comprado a tão desejada Barbie Cintilante, descrita ao pormenor na carta escrita ao Pai Natal).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cabelo muito branco da minha avó muito morena, sentada no banco da frente do Cortina, iluminava-se de muitas cores quando íamos ver o Natal, e quando ela olhava para o banco de trás, os seus olhos, eu não sei se eles não sorriam mais do que os meus, colados à janela esquerda do Ford Cortina, as mãos em pose de ventosa no vidro e a boca aberta de espanto, dos sinos, das estrelas e dos anjos e da alta voltagem do Natal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nascida e criada no Bairro de Alvalade, apenas uma vez ao ano eu descia com a minha avó muito morena a Avenida da Liberdade. Depois, subíamos o Chiado, voltávamos atrás para o Martim Moniz, seguíamos em frente pela Almirante Reis, torneando a João XXI, e voltávamos à Lisboa que eu conhecia, à Avenida de Roma e Avenida da Igreja, mas o Natal, as luzes mais bonitas, só as podia ver do lado de dentro do Ford Cortina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com três anos, a minha filha Carolina, nascida primeira semana de Dezembro, já domina conceitos abstractos tão complexos como cidade, país e região autónoma. Tem todos os sonhos deste mundo  e sabe que quer ser “artista das tintas” quando for grande, e que, daqui a duas semanas, assim que soprar as quatro velas do seu bolo de aniversário do Noddy e da Ursa Teresa, a vida lhe reserva feitos notáveis, como aprender a andar de bicicleta, ou ir dançar na televisão (não sei como descalço esta bota da televisão).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trauteia Mozart e Rodrigo Leão, mas sabe-se lá porquê, também vem para casa a cantar o jingle das Chiquititas, ou as canções carregadas de conotações sexuais das mini-Doce, a minha Carolina possui uma memória notável - sabe que comeu favas há um ano nos Açores, e já distingue algumas letras, nos anúncios da publicidade, entre as quais, as que compõem o nome do seu ídolo Noddy.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não é só: a morte também se aprende em pequenino, e sempre que a minha Carolina vê um pombo esmigalhado na estrada (e nesta família, gostamos de pombos e também de eucaliptos - malfadados e mal-amadas criaturas do reino animal e vegetal), diz "esta pomba está estragada", ou mais recentemente, porque já é uma pessoa em miniatura e não um bebé, diz "esta pomba está morrida".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabe que o gato Artur está no céu, ao pé da Lua (ainda hoje não gosta de ir ao consultório do Veterinário porque sabe que, no ano passado, o Artur entrou e não voltou mais para casa), de vez em quando, se a vê muito cheia no alto de um céu límpido, jura que avistou o nosso gato laranja lá em cima ao pé das estrelas.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Não pergunta pelo avô Ralha, o motivo pelo qual, supomos nós, ela quer, quando for grande, ser "artista das tintas". Apesar de não lhe termos dito que ele morreu, que ele partiu, que foi para o céu dos artistas, ou qualquer outra desculpa esfrangalhada; sabe-se lá porquê, ela sabe que ele não volta mais, mesmo que ninguém lho tenha dito ou explicado o seu súbito desaparecimento da face da terra, portanto, concentra a sua atenção e fixa os seus olhos muito azuis nos quadros que ele pintou e que nos deixou, e o seu preferido é um retrato de Fernando Pessoa, que diz ser "aquele senhor muito simpático".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No seu pequenito cérebro em constante ampliação, a Carolina sabe que a Câmara de Lisboa caiu quando estávamos de férias nos Açores (eu sosseguei-lhe o espírito aflito garantindo que a Câmara nao se tinha aleijado), e repete a lenga-lenga, sempre que lhe perguntam o que é que a mãe faz na vida: "A mamã trabalhava no Público, depois foi para a Câmara Municipal, mas a Câmara caiu (e não se aleijou), e depois foi para a casa cor-de-laranja (sede de campanha do PSD, onde confraternizou com as mais altas figuras do partido) e agora está na Cunha Vaz".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sua percepção do mundo não é muito diferente do que ele é, apesar de visto à altura de um metro e dez centímetros, e de as fadas terem sempre um papel importante em tudo o que acontece.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Um dia destes, no autocarro, zangou-se do alto dos seus três anos com um grupo de púberes estudantes de arquitectura, que desfilavam baboseiras sobre a cidade, e que apontavam e se riam para uma empena cega tapada por uma tela publicitária do Cristiano Ronaldo. Reza a lenda, contada pelo meu marido, porque não a presenciei, que pontapeou um dos jovens que anunciava que o que era bom era uma cidade cheia de arranha-céus, e que o mandou calar, porque a mamã é que trabalhava na Câmara Municipal.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;      &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Sei lá eu se é de eu lhe contar histórias sobre um grande arquitecto chamado Ventura Terra, ou um outro, o Keil do Amaral, de lhe estar sempre a apontar as casas bonitas, muito antigas como aquela onde vivemos e que é mais velhinha que o bisavô Ralha, para que ela guarde tudo, porque antes de ela chegar à idade adulta já não existirão, apenas na memória de quem as guardou.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mês do seu aniversário, dia da Padroeira de Portugal, a Carolina já sabe que entramos em romaria no Fiat Idea cinzento escuro, e que vamos ver o Natal. É sempre assim. Foi sempre assim, graças à minha avó muito morena que me morreu cedo demais. Todos os anos, eu tenho a minha avó comigo quando desço a Avenida da Liberdade e vejo o Natal pendurado nos Plátanos centenários do Boulevard da minha cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Moramos no Marquês, mas a volta é a mesma de há vinte nove anos atrás (sem o Cortina, sem a minha avó muito morena). Porque foi sempre assim.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;Descemos a Avenida da Liberdade, subimos o Chiado e, como numa Montanha Russa, voltamos a descer para ver a árvore de Natal Gigante do Terreiro do Paço (em tempos, quando a convencia a comer a sopa toda para ficar enorme como a árvore de Natal do Millenium BCP, ela assustou-se porque não queria ter uma estrela luminosa no cimo da cabeça), subimos depois o Martim Moniz, se calhar, ainda paramos na Verbena de Natal da Alameda e, com uma nota de cinco euros, temos meia hora garantida de luz, cor e música, de um carrossel à moda antiga, depois, se ainda sobrarem dois euros, trazemos um pauzinho com algodão doce cor-de-rosa, e vamos ver o resto do Natal, João XXI, Praça de Londres (antes, uma voltinha só à Praça Pasteur para eu me lembrar do Cortina e da minha avó muito morena), Avenida de Roma, Avenida da Igreja, e depois marcha-atrás para o Marquês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem, a Carolina pediu para ir ver o Natal. E saímos, chave na ignição, travão-de-mão desengatado, à procura dele pelas ruas de Lisboa, já o vimos nos Centros Comerciais, nos anúncios do Intermarché, e da Pópota e Leopoldina, mas nas ruas não o encontrámos. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;Procurámo-lo em Alvalade, e nada, seguimos pela Almirante Reis, tudo às escuras. No Rossio tínhamos que o encontrar, pensámos. Não. Timidamente lá o conseguimos vislumbrar na Rua do Ouro e no Chiado. Os olhos e as mãos da Carolina não se colaram ao vidro. Não deu pulinhos e risinhos de felicidade absurda. Pelo contrário, lançou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"A Lisboa está feia, não está, mamã?", e esta pergunta doeu-me mais do que um parto sem epidural.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se mente às crianças, não se deve mentir às crianças, está feia sim, filha - no meio, um suspiro, uma pausa, para a voz se recompor. As mães não choram pelas luzes de Natal que não se acenderam, que este ano não se vão acender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do passeio de ontem, a minha Carolina acha que o Natal não vai chegar a Lisboa. Só aos centros comerciais. Que a cidade está feia e sem magia pelo ar. Tem razão: à porta de nossa casa, em pleno Marquês de Pombal, há lixo, há folhas mortas amontoadas nas sarjetas e por debaixo das rodas dos carros estacionados, há obras, passeios esburacados, carros em segunda e terceira fila, apesar de estarmos a 20 metros da Divisão de Trânsito da PSP, e da propaganda barata da Tolerância Zero.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;Ontem, colocámos luzes de Natal no quarto da Carolina para ela não adormecer de coração murcho. Porque a cidade não tem luz, porque este ano nenhuma VW pagou as iluminações, prometemos ir à loja chinesa mais próxima e comprar luzes para as janelas da nossa casa no Marquês. Em tempos, um treinador de futebol pediu aos portugueses para colocarem a verde rúbea nas janelas, numa febre patriótica como não se via desde os tempos da ditadura. Este ano, eu peço aos lisboetas que acendam luzes pelo Natal.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Hoje, porque a minha Carolina tem todos os sonhos do mundo, porque um sorriso de uma criança vale mais do que ordenados milionários de assessores e adjuntos, vamos a Oeiras ver o Natal, onde me dizem que o espaço público ainda não morreu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Declaração de interesses - De Maio de 1997 a Março de 2007, fui Jornalista do diário Público, sete anos na secção de Economia, os últimos três na secção Local Lisboa. De Abril de 2007 a Maio de 2007, fui Assessora de Imprensa do Vereador António Prôa, responsável pelo Pelouro do Espaço Público e Espaços Verdes de Lisboa. A Carolina, essa, não percebe nada de política. Nesta foto, em 2005, fotografada por Diana Quintela, para o Diário de Notícias, junto à árvore de Natal do Millennium BCP, no Terreiro do Paço, para uma peça jornalística sobre as iluminações de Natal em Lisboa.  &lt;!--[if !supportLineBreakNewLine]--&gt;  &lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-3454165697882643418?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/3454165697882643418/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=3454165697882643418' title='16 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/3454165697882643418'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/3454165697882643418'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/11/carolina-e-as-luzes-de-natal.html' title='Carolina e as luzes de Natal'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp2.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/R0sGWXZARqI/AAAAAAAAAB0/OKzpQwAT1og/s72-c/65562539_3347a1d8d8.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>16</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-4506544774954705972</id><published>2007-11-07T18:34:00.000Z</published><updated>2007-11-08T12:46:13.123Z</updated><title type='text'>O calcanhar (uma espécie de carta para ti)</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Não julgues que já não me dói o passo, que nunca mais me vai doer o passo, às vezes esqueço-me de trazer pensos na mala, o calcanhar fica esfolado, e vou a mancar pelo caminho.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Sabes, a Sílvia já não é loira, mas até já há quem nem se lembre de que, em tempos, a Sílvia já foi loira.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;O presidente do banco fazia o seu melhor, tentava refrescar-me a memória à força, dizia, não podia ser mais gráfico – aquela jornalista ruiva que estava à minha frente –, e eu olhava para cima à espera que a nuvem desenhada no céu me revelasse o rosto da jornalista ruiva, olhava para cima como aquela outra com quem jantei debaixo de um tecto desenhado pelo Keil do Amaral, que falava, falava, tagarelava como poucos, mas não me olhava nos olhos enquanto dialogava sobre banalidades com fervor, fixava os olhos verdes no tecto, como se estivesse a falar com Deus, ou talvez com o fantasma do Keil do Amaral, eu meses depois fazia o mesmo, franzia o sobrolho e depois olhei para cima como ela, na esperança de me lembrar da ruiva (eu sempre adorei ruivos, como não me lembro de uma jornalista ruiva?), e só depois percebi – a Sílvia já não é loira; é ruiva.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Mas eu nem reparei, porque para mim, a Sílvia vai ser sempre loira. O que ninguém repara, o que provavelmente ninguém reparou, porque é uma pequena disrupção da realidade aparentemente irrelevante, coisa da moda, é que a Sílvia já não traz na mão direita o cachucho de ouro branco com uma pérola reluzente de que eu tanto gostava.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Todos mudámos, e a cor do cabelo da Sílvia é o lado menos visível e menos chocante de toda a mudança. Eu estou à direita do presidente, e à minha frente estão os meus amigos, eu não estou ao lado deles, e na sala do hotel de cinco estrelas perco a manhã a contemplar tudo o que mudou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;A maçã-de-adão do Pedro continua nos seus rodopios, aquilo fascina-me verdadeiramente como poucas coisas, a João já não tem um dente encavalitado, mas eu revejo de soslaio no rosto o mesmo sorriso de boneca de porcelana com que ela me recebeu no dia em que me ensinou a fazer as páginas da bolsa do jornal de referência. E a Sílvia já não traz no dedo um pedaço do fundo do mar. Ah, sim, já sabes desde o segundo parágrafo – é ruiva.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Não julgues que eu perdoo tudo o que me aconteceu, que compreendo e aceito o meu destino, e que não nunca mais me dói o passo, que nunca mais me vai doer o passo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Eu só queria aprender a tocar piano, era capaz de jurar que desta vez nasci só de propósito para tocar piano. Se quiseres, eu canto-te as mil canções que sei de cor, eu embalo-te baixinho até se pedires, mas só não me perguntes como é que eu sei tantas músicas de cor, porque eu não te sei explicar, não te sei explicar que tudo faz sentido para mim.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Mudamos milimetricamente todos os dias. A Sílvia já não traz o anel no dedo direito, a João já não tem o dente encavalitado, o Pedro até já é editor, a tua barba, eventualmente, sufocou-te mais um bocadinho (eu trago na cabeça que essa barba te mata lentamente; se ao menos fosse tudo tão fácil como cortar a barba). Mas não me digas que eu sou outra, lá porque estou ao lado do presidente.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Continuo a chorar baixinho sempre que um prédio vai abaixo – porque os prédios, e tu sabe-lo tão bem quanto eu, não são só prédios. Eu contei-te a história do prédio que me chamou durante dias a fio, e eu a pensar que estava louca, porque os prédios não têm voz, e quando tu partiste a janela, escondido pela glicínia, enquanto umas vacas coloridas eram licitadas no Parque das Nações por seres perturbadores que desembolsaram milhares de moedas de euro para exibirem uma vaca nos quintais das suas vivendas geminadas, sabes bem como eu tremi quando abriste a porta debaixo do caramanchão, e como eu já conhecia todos os cantos de uma assoalhada onde nunca tinha entrado.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Tu devias saber que eu sofro por cada telhado desmontado, por cada pedaço de entulho no contentor, por cada pedido de informação prévia que entra na Câmara, porque as casas não são tijolos e tabique, não são telhas e madeiras, são pedaços de nós, e sempre que uma casa morre, morre um pedaço de alguém, uma memória que vai a incinerar no Alto de São de João dentro de um caixão de pinho barato; no fundo, todos nós morremos um bocadinho também, uns mais do que os outros, sempre que a cidade muda, e a cidade, tal como nós, e sobretudo por nossa causa, não está em paz.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Eu já guardo milhares de canções em mim, eu guardo as minhas avós em mim, e agora atafulhei tudo, desarrumei a casa toda para me caber o meu pai também, eu só não sei quanto mais canções é que eu posso guardar, quantos mais telhados e fachadas eu consigo trazer em mim – por isso, não julgues que já nunca me dói o passo, como é que não me havia de doer o passo, eu trago tanta coisa em mim, e por vezes não tenho pensos na carteira, e o calcanhar fica esfolado e eu vou a mancar pelos dias fora.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;A Sílvia já não é loira, e eu, de facto, já não te envio sms esquizofrénicos, profundos, eu tenho medo dessa palavra, sinto vertigem só de a escrever, quando era pequenita chorava só de ouvir a palavra esqueleto, e profundo, e profundezas, dão-me vontade de chorar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Vê lá tu como as coisas mudam, um ex-ministro da nossa República, com quem o meu avô fez a reforma do sistema educativo no Robalo (quando as árvores do Robalo eram mais pequenas que a Carolina), repete baixinho, fracções de segundo depois, o discurso de um líder empresarial, voltou a ser criança, sem sonhar que eu reparei na brincadeira. Isto é tudo o que mudamos durante uma vida inteira.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;E eu sei de cor milhares de canções, e sei reproduzir também o momento em que gritei pela primeira vez socorro, se quiseres até te digo quando aprendi o que era jurar, ou como fiquei envergonhada, com nove anos, por não saber no último teste de português do primeiro período o que é que era imolar. Ou posso contar-te quando era muito pequenina e descobri o que era a polifonia, e dizer-te que, desde então, nunca mais ouvi a música como um todo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Dói-me o passo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Somos camadas, como as músicas. Fazemos sentido como um todo, mas eu só vejo, e só oiço as partes, os detalhes, as pequenas coisas extraordinárias – diz-me quais são as possibilidades de duas pessoas que mal se conhecem, mas que trabalham para o mesmo patrão, sonharem, ao mesmo tempo, com o bacalhau à braz do restaurante Andaluz? Como é que eu não hei-de andar enamorada pelo raríssimo extraordinário?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Eu estou sentada ao lado do presidente. Do lado direito.        Falo de obrigações hipotecárias e obrigações permutáveis, até já sei qual é a diferença entre elas, caso alguém queira saber, e tagarelo sobre turbo warrants na pausa do cigarro, mil milhões para aqui e para acolá, se bem que ainda tenho a lata de contar ao inglês com quem falo religiosamente às terças e às quintas-feiras dos milagres operados pelo fantasma da rainha D. Estefânia nos corredores do hospital pediátrico.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;Eu continuo a mesma, mesmo que já não te envie sms perturbadores, mesmo que este blogue seja actualizado numa base mensal, a que tem ressentimentos cósmicos com o destino que não se há-de cumprir, a que se diverte a decompor a melodia que toca o oboé, e que por cima dele ouve o clarinete, e que sem esforço algum ouve os ferrinhos e o quinteto de cordas, a que chora nos concertos porque não suporta a beleza da união das coisas.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: arial;"&gt;E, por vezes, não trago pensos na carteira, e levo o calcanhar esfolado pelo caminho.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-4506544774954705972?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/4506544774954705972/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=4506544774954705972' title='16 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4506544774954705972'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4506544774954705972'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/11/o-calcanhar-uma-espcie-de-carta-para-ti.html' title='O calcanhar (uma espécie de carta para ti)'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>16</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-2225696873739983253</id><published>2007-09-27T20:20:00.000+01:00</published><updated>2007-09-27T20:23:27.244+01:00</updated><title type='text'>O presépio do Barreiro</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://bp1.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/RvwDGh9lyyI/AAAAAAAAABs/q5P4S0cKx0s/s1600-h/L1090066.JPG"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://bp1.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/RvwDGh9lyyI/AAAAAAAAABs/q5P4S0cKx0s/s400/L1090066.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5114966687516838690" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://bp0.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/RvwC6R9lyxI/AAAAAAAAABk/7-BRpcQS85s/s1600-h/L1090055.JPG"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://bp0.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/RvwC6R9lyxI/AAAAAAAAABk/7-BRpcQS85s/s400/L1090055.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5114966477063441170" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-2225696873739983253?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/2225696873739983253/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=2225696873739983253' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/2225696873739983253'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/2225696873739983253'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/09/o-prespio-do-barreiro.html' title='O presépio do Barreiro'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp1.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/RvwDGh9lyyI/AAAAAAAAABs/q5P4S0cKx0s/s72-c/L1090066.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-117506124824012084</id><published>2007-09-24T10:41:00.001+01:00</published><updated>2007-09-24T12:45:59.354+01:00</updated><title type='text'>Antigamente</title><content type='html'>&lt;p  style="font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Antigamente, eu não sabia o que era um vereador, não sabia o que era um editor, muito menos me preocupava com as funções de um redactor principal ou com a adequada tradução para a língua inglesa de tão distinta categoria profissional da carreira jornalística, e estava longe de imaginar que existem mais freguesias do que as semanas que completam um ano da minha vida, e nunca tinha pensado que um jornal se "fecha" todos os dias (à chave?), que Benfica ainda é Lisboa, que Carnide também ainda é Lisboa, antigamente eu tinha uma cábula muito bem feita num dicionário de Latim, na página 500 e na página 1000, que me garantiu um notável oito no exame nacional.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p  style="font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Antigamente, eu tinha telemóveis caros de última geração que apareciam nas mãos das vedetas dos filmes de Hollywood e, hoje em dia, tenho telemóveis de quinta categoria, só que, antigamente, eu tinha contactos de amigos pelintras em telemóveis caros, e hoje guardo o contacto do Joe Berardo num telemóvel reles.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p  style="font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Antigamente, eu não sentia as minhas entranhas a estalar, havia só registo de uma ou outra fissura microscópica, e, então, eu conhecia os limites do meu corpo e ainda conseguia sentir dor e frio nas extremidades, e tudo se resumia ao que vestir com as calças de sarja azuis bebé, com bolinhas brancas microscópicas, compradas no primeiro dia de saldos da Zara.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p  style="font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Antigamente, quando as férias de verão se estendiam por três folhas do calendário dos gatinhos amorosos em pose, dentro de cestinhas de verga, eu bebia sumos de laranja com uma pinguinha verde de Pinsang Ambom, no relvado, junto ao poço e ao jardim de cactos, e assistia ao transe conjunto das flores, das palmeiras, dos choupos e dos eucaliptos que mudavam de cor e mudavam de pio ao som hipnótico que vinha lá de cima, muitos decibeis acima do permitido, escorregando directamente do génio do Philip Glass (antigamente ninguém sabia quem era o Glass), e às vezes adormecia e sonhava com as lanternas de pirilampos que ia fazer quando o sol se pusesse na Mata de todos os Medos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p  style="font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Antigamente, eu sincronizava a minha respiração com a da minha avó quando procurava consolo no seu colo fofo, eu encostava o meu ouvido direito à lã grosseira da camisola de gola alta, e ainda não tinha alergias nenhumas, nem às fibras, nem ao pó, nem aos pelos de gato e dos cães, e também ainda não era alérgica à estupidez e à incompetência, eu ouvia o &lt;i style=""&gt;tum tum&lt;/i&gt; do coração da minha avó e sincronizava a minha respiração com a dela, e mandava o meu coração bater no mesmíssimo compasso, e sabia que havia de levar aquele momento comigo para todo o sempre (e sabia que o haveria de recordar ao espreitar a rotunda do Marquês por cima de um biombo de secretárias).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p  style="font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O anel que eu trago no anelar da mão direita, antigamente morava na Praça Pasteur, dentro da caixa de plástico castanha, junto ao cabide das gravatas do meu avô, e eu arranjava forças sobrenaturais quando alguém tentava apedrejar um pardal (hoje, já mato formigas sem remorsos).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p  style="font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Antigamente, a minha mãe recebia no Natal um envelope com cem contos, e cem contos era uma pequena fortuna, juntávamo-nos os três em rodinha, a carpete cinza rato por debaixo dos nossos pés e os olhos brilhavam a contar as notas de cinco contos de reis, e tirávamos uma nota, vestíamos os casacos e as galochas, e fazíamos a Rio de janeiro a pé, depois descíamos a Avenida da Igreja e então aí, onde se vendem trens de tachos da Silampos e carrinhos de compras para as velhinhas, comprávamos um brinquedo e uma embalagem de 25 canetas de feltro da Carioca.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p  style="font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Antigamente, eu zangava-me com o meu avô porque ele não deixava que os meus dedinhos dançassem na máquina bonita de escrever, e, magoada, &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;saía de casa disparada com uma lista telefónica das Páginas Amarelas e uma caixa de madeira cheia de avelãs, eu acreditava que alguém me haveria de comprar cartuchos de frutos secos por uma moeda de 25 escudos, talvez se me esforçasse muito, eu conseguisse um envelope com cem contos de reis, talvez eu conseguisse ter a minha própria máquina de escrever.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p  style="font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Antigamente, os mistérios da vida não eram mais do que três: quem inventou o homem (alguém que gostava de fazer puzzles como eu, pensava eu), com que artes mágicas ou com que cola (heraldite, uhu, patex ou aquela que colava cientistas ao tecto)é que a lua estava colada no céu, e porque é que os carros ficavam tão pequeninos lá em Alcântara (antigamente, saberia eu que Alcântara era Lisboa também?), quando o Ford Cortina do meu avô Ralha me embalava ao passar o Tejo sobre o Tabuleiro Metálico.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Fazíamos a Almirante Reis a pé, do Martim Moniz ao Arreiro, antigamente rezávamos na capelinha que ficou emparedada pelo centro comercial da Mouraria, comíamos chamuças vegetarianas e comprávamos sáris, pechisbeques e bonecas de porcelana nas lojas de revenda que cheiravam a caril.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"  style="font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Antigamente, eu não sabia o que era um consultor de comunicação, eu não sabia o que era o sub-prime e o mercado de derivados, muito menos estava interessada em análises swot, eu não sabia que a vida me havia de levar tão longe, eu só sabia que um dia havia de morar na Almirante Reis.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"  style="font-family:arial;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-117506124824012084?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/117506124824012084/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=117506124824012084' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/117506124824012084'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/117506124824012084'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/09/antigamente_24.html' title='Antigamente'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-934099105625983277</id><published>2007-09-06T18:54:00.000+01:00</published><updated>2007-09-06T22:54:24.668+01:00</updated><title type='text'>A Herança</title><content type='html'>Tenho a casa cheia de fantasmas e a absoluta certeza que descendo em linha directa do santo que desfilou de sandálias de couro pelas ruas de Goa.&lt;br /&gt;São fantasmas da outra margem do Tejo, são fantasmas do outro lado do mundo, fantasmas que eu trazia nas veias e na textura da minha pele sem reparar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(são fantasmas ultraleves)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho fantasmas e mais fantasmas, e latas de Toddy mais velhas do que eu em cima da mesa de jantar, certidões de óbito, e declarações do modelo 1 do IMI (com o respectivo anexo preenchido em duplicado) junto ao sofá que quando crescer quer ser cama.&lt;br /&gt;Tenho plantas de localização à escala 1/100 de imóveis onde os descendentes do santo com quem partilho um apelido se juntavam numa quinta que se estendia até ao mar, uma quinta onde trepavam canas e roseirais, e onde decerto a minha avó Isaura feriu o seu olho direito numa ferida que nunca mais sarou.&lt;br /&gt;E tenho também registos prediais de pequenas ruínas de uma vila fabril, tenho visões de uma praia de areias finas onde hoje o mar bate sem espuma aos pés de chaminés industriais, mas também tenho um busto de barro do Sá Carneiro que comprei no Barreiro.&lt;br /&gt;Tenho uma queixa à Ordem contra um advogado e que tem que ser redigida o quanto antes, tenho uma convocatória de assembleia de condóminos para tratar, tenho uma bicha xenófoba que ficou com o quintal que devia ser meu e que não gosta dos meus vizinhos uzebeques, sem falar que tenho o grunhido do meu avô Ralha na sala onde o meu pai morreu com ar de espanto.&lt;br /&gt;Mas há pior - tenho o carcinoma do colo do útero da minha avó Isaura guardado num arquivo morto de Chelas, e a tristeza de me ter esquecido que ela também se chamava Faria antes do Xavier e do Ralha. Tenho o Manuel dos Anjos Xavier e a Maria Manuela Faria enterrados nos arquivos poeirentos da Conservatória do Registo Predial do Seixal.&lt;br /&gt;Tenho um presépio minhoto que encontrei na mesma loja do achado extraordinário do busto de Sá Carneiro - e sim, acredito que lhe partissem a montra se o pusesse à vista de todos, e ainda bem que vejo sempre mais além, que nunca presto atenção ao que está à frente mas ao que foi escondido atrás do óbvio, senão não tinha um busto de barro do Sá Carneiro comprado no Barreiro  -, e já tenho algum carinho pelo Barreiro, 500 quilómetros depois aprendi a gostar da terra de onde vêm as minhas feições, e enterneço-me pelo facto de a cabeça do menino Jesus do Presépio ser maior do que a da virgem Maria, e de as ovelhas terem um sorriso maroto.&lt;br /&gt;Tenho o presépio montado no janelo da cozinha de Santa Marta porque preciso da fé, da esperança e da luz que inunda toda a gente no Natal (e tenho outra vez uma invasão de formigas, que respeitosamente contorna as palhinhas onde o menino está deitado).&lt;br /&gt;Tenho novas ruas na cabeça, tenho outra vez quilos a mais e cabelos arrancados por um tique nervoso compulsivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta é a minha herança.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-934099105625983277?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/934099105625983277/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=934099105625983277' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/934099105625983277'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/934099105625983277'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/09/herana.html' title='A Herança'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-4449461170421101231</id><published>2007-08-21T21:52:00.000+01:00</published><updated>2007-08-21T21:55:13.477+01:00</updated><title type='text'>VII</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://bp0.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/RstRD2L4pGI/AAAAAAAAABc/3DiDTYkGm0g/s1600-h/L1080897.JPG"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://bp0.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/RstRD2L4pGI/AAAAAAAAABc/3DiDTYkGm0g/s400/L1080897.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5101260129454040162" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Cedo, o mundo voltou ao seu rodopio habitual, talvez um pouco mais fora de eixo do que é costume, por causa da panada, mas nem mesmo assim, depois do abalo e da réplica que se seguiu, a bola anilada perdeu a mania de desenhar órbitas por cima de buracos negros.&lt;br /&gt;O mundo soluçou, ou se calhar foi só um coice, ou então uma picada de um mosquito, nada demais, mesmo nada demais, nada que já não se tivesse assistido neste mundo que nunca estava velho, que nunca se cansava de girar.&lt;br /&gt;As gavetas foram todas remexidas, todos os armários, mesmo os dos sapatos, onde outrora se falou com Deus, forram varridos a pente fino. E, se por acaso, algo não ficou no preciso lugar onde o tempo parou, onde eu posso sempre regressar se quiser parar com o corropio do mundo, o fantasma da minha avó Tóia já fez o favor de arrumar a casa, de pôr tudo no seu devido lugar.&lt;br /&gt;Os aviões descolaram num céu um pouco mais anil, e aterraram numa terra mais cinzenta.&lt;br /&gt;Uns ficaram sem palavras, outros, sem água.&lt;br /&gt;Cedo, o mundo voltou ao seu rodopio habitual e nem as árvores plantadas pelo meu pai – e mesmo as palmeiras, que não são bem árvores, e eu nunca gostei de palmeiras porque ele sempre gostou mais delas do que de todos nós – deixaram de me fazer alergia e seguir com as suas vidas: deita folha, deita pólen, deita flor e depois fruto.&lt;br /&gt;Eu não lancei as cinzas do meu pai pelo ar, eu nem sei o que lhes fizeram - se as soltaram às mijinhas debaixo da Ficus religiosa que tem fama de provocar epifanias a almas maiores, ou se as guardam debaixo do colchão.&lt;br /&gt;Os pêndulos dos bruxos cinestésicos baloiçaram junto ao Tejo e as agulhas de bambu espetadas no cocuruto libertaram-nos de todos os conjuros e maldições. Os primos, que por acaso são irmãos, reencontraram-se numa cozinha alta, e de bancadas de mármore rosa, cobertas por folhas de jornais amarelecidas onde há tão pouco tempo eu escrevia notícias sem grande interesse.&lt;br /&gt;E eu não encontrei o meu nome impresso na fonte Bodoni, a negrito, por cima das bancadas de mármore. Mas eu encontrei este blogue nessas folhas, e encontrei uma embalagem de papel Carminol, dos anos 60, que se fazia no preciso edifício onde eu, até há tão pouco tempo, escrevia notícias sem grande interesse.&lt;br /&gt;O mundo, como eu disse e tenho que voltar a repetir para ver se me entendem, cedo voltou ao seu rodopio habitual.&lt;br /&gt;Eu achei que o capítulo sete, o último, o que devia ser perfeito, aquele que me emudeceu por tempo demais e deixou ao abandono este canto onde as letras se enamoram e contam histórias mirabolantes e extraordinárias, que geralmente implicam uma grande dose de magia e alguns santos, teria um rumo diferente.&lt;br /&gt;Eu abri caderno azul onde, há tão pouco tempo, escrevi a sinopse de cada capítulo da história de uma menina que se viu órfã de um pai que nunca teve. Lá, eu escrevi “De nenhuma forma extraordinária”, e bastava uma frase para eu saber o que queria dizer com isto. Eu acreditava que estava órfã de extraordinário, que jamais nos voltaríamos a encontrar por portas travessas.&lt;br /&gt;Eu esqueci-me que o mundo cedo iria voltar ao seu corropio habitual, talvez um pouco mais fora do eixo, por causa da panada, mas nunca se esquecendo de descrever aquelas órbitas brilhantes, desenhadas pelos tropeções nos buracos negros.&lt;br /&gt;Enganei-me. Todos os dias, eu encontro o meu pai de uma forma extraordinária.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-4449461170421101231?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/4449461170421101231/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=4449461170421101231' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4449461170421101231'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4449461170421101231'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/08/vii.html' title='VII'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp0.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/RstRD2L4pGI/AAAAAAAAABc/3DiDTYkGm0g/s72-c/L1080897.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-4653538014628157317</id><published>2007-07-19T21:30:00.000+01:00</published><updated>2007-07-19T21:50:03.698+01:00</updated><title type='text'>VI</title><content type='html'>Mui Nobre e Sempre Leal Cidade de Lisboa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, havia esse outro mundo, em paralelo, tão ou mais inventado do que o outro, onde, afinal, os magos morrem e as pequenas feiticeiras levitam, o vereador dos espaços verdes e os outros dezasseis membros eleitos que em nada interferiram no meu destino, o Prémio Valmor da Alexandre Herculano, e todos os que lá estavam presos com os pés afundados em terreno movediço, mas com apenas três dedos acima do chão, eu via esse mundo como se estivesse sentada numa nuvem em forma de anjo, e eles lá andavam, pequenitos, atarefados de um lado para o outro, a rescindirem comissões de serviços, a preencherem com uma caligrafia banal os recibos que não têm nenhum pigmento verde, a pilha de caixotes empilhados no anguloso corredor desenhado pelo Ventura Terra, a Lena a receber das minhas mãos o papel que me chegou por  milagre e que assegurava que eu não tinha dívidas à segurança social.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mui Nobre e Sempre Leal Cidade de Lisboa, impresso em papel Canson de 140 gramas por metro quadrado, a enfiar memorandos, despachos, informações, e a lista das árvores classificadas de interesse público, a enfiar listas de contactos da autarquia de Lisboa e a proposta de colocar floreiras na Baixa, a história do cemitério dos Prazeres e sua proposta de requalificação, e eu a saber que não havia dinheiro para comprar gaóleo para os crematórios, tudo para dentro destas pastas com corvos empoleirados no mastro de uma caravela, depois de tudo se ter arquivado por si num caixote, sentada no parapeito da janela, o que vai ser de ti, prédio, a despedir-me das madeiras dos umbrais das portas, a despedir-me das traseiras dos prédios arruinados da rua que honra o presidente da câmara que mais árvores plantou em Lisboa, e o que vai ser de ti, pequena feiticeira?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele queria esperar 72 horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ela disse isto, procurando, com o olhar, validação do mestre budista, apeteceu-me descer um dedo do meu pedestal e soltar uma gargalhada. O mestre budista nada disse e eu também não ri.&lt;br /&gt;Parece que as almas têm que se habituar à sua provisória condição de errantes quando o corpo morre, deve ter sido isso que ela queria dizer com as 72 horas de espera, lembro-me de ele me falar disso num dia em que eu ainda tinha dentes de leite, mas não demasiado cedo para o mago me ensinar que devemos sempre pedir licença à alma grupo para colher uma flor, que não custa e é nunca é demais ter a gentileza de explicar a que propósito a estamos a arrancar da terra, desde então eu faço-o sempre, ainda hoje, aos pés da Sant’Ana, expliquei ao Deus dos Chorões que aquela flor rosa fluorescente era um presente de anos para o meu pai, mas francamente, eu lembro-me da conversa ao contrário, que ele me contou que deve ser muito triste assistirmos tempo demais à dor de quem deixamos para trás, a mim, no que diz respeito à espera, às 72 horas desde o edifício da segurança social de Ponta Delgada, o que mais me perturbou foi ele a ver-se a si próprio dentro de um frigorífico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa acordou em silêncio.&lt;br /&gt;Não havia corvos, nem caravelas, nem vista para o castelo, apenas uma nesga de Tejo junto ao PER do Vale de Santo António.&lt;br /&gt;O vestido abraçou-se ao corpo, os sapatos não servem de nada para quem anda três dedos acima do chão, mas enfiaram-se dentro dos pés, o Fiat foi em piloto automático até ao Alto de São João. A Mónica e a Dinah estavam lá, e as senhoras do café já se habituaram à presença de olhos inchados e vestes escuras do outro lado do balcão.&lt;br /&gt;As coroas de flores de ontem estavam murchas e, por isso, nenhum coveiro me interpelou para oferecer os seus préstimos de florista a preço de saldo. Dois melros baloiçaram-se no jacarandá que ainda não estava florido, mas não cortaram o silêncio daquela prece matinal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Leonardo tardava, pensei que não chegava, o Fialho, a Andreia, o mestre budista, a minha mãe, a Manuela e a Marta, e a que quis esperar 72 horas sozinha a um canto. Uma Ficus Religiosa junto ao crematório, eu a pensar no gasóleo, por momentos, com um pé no outro mundo, o dos vereadores que renunciaram aos mandatos, vi o meu contrato dissolvido num gabinete dos recursos humanos, a câmara a tropeçar e a cair, e num fechar de olhos rápido, de volta ao Alto de São João, lágrimas de mãe aos pés do caixão, e lágrimas de pai, das verdadeiras, das saturadas de sódio, junto aos caracóis prateados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não disse nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os irmãos mais velhos ousaram quebrar o silêncio, mas não falaram por mim, porque todas as palavras me foram arrancadas, tive que voltar a aprender a falar, estou a aprender de novo a escrever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não abri a boca, ninguém ouviu porque saiu entre dentes, mas apenas cantei &lt;a href="http://www.panslabyrinth.com/"&gt;esta&lt;/a&gt; para a viagem.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-4653538014628157317?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/4653538014628157317/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=4653538014628157317' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4653538014628157317'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4653538014628157317'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/07/vi.html' title='VI'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-8319944648213596810</id><published>2007-07-15T00:07:00.000+01:00</published><updated>2007-07-15T00:16:00.944+01:00</updated><title type='text'>V</title><content type='html'>Chegou, há mais de dois meses e quatro capítulos atrás, à rua da santa que vai olhando por si, e esta história, mesmo que as palavras teimem em escassear à medida que as imagens se tornam mais nítidas à luz das duas luas que já cresceram no céu, tem de ser escrita em sete capítulos, porque é a história da morte de um mago, vista pelos olhos da sua pequena feiticeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por aqueles dias, os seus pés, os pés de muita gente, mas sobretudo os seus, seguiam três dedos acima do chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um momento, e não é fácil precisar, nem na qualidade de narradora, nem na pele de personagem, a partir do qual começou a levitar rasteirinho - talvez, no breve instante em que toda a coragem do mundo se agarrou às suas mãos, que ousaram fazer o que ninguém fez, destapando a face adormecida do caixão, coberta por um naperon de naylon barato, talvez quando as mesmas mãos afagaram, sem tremuras, os caracóis prateados, ou talvez tenha sido no momento em que as lágrimas do seu octogenário avô chegaram ao chão, evaporando-se de imediato, porque aquele homem não chora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi assim desde o início da viagem - não foi ao primeiro toque do telefone, nem quando a notícia lhe chegou ao cheiro das chagas e ao som das crianças que guinchavam no recreio à hora do almoço. Junto ao edifício da segurança social de Ponta Delgada ainda os tinha bem assentes na terra; lá perto, no Jardim António Borges, estavam tão ou mais presos do que as vastas raízes da maior Ficus Macrophylla que os seus olhos irão certamente ver; carregavam com força no acelerador até ao Porto Formoso, e a custo arrastou-os pelo areal e teve que sorrir quando viu a pequena loira a correr para junto de si. Mesmo quando sobrevoavam o Atlântico, ainda os conseguia sentir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não importa. Todos, mais cedo ou mais tarde, saberão. Talvez, a alma que toca incessantemente, sem resposta, à campainha do vizinho, já tenha vivido essa experiência, talvez o primeiro inquilino desta centenária assoalhada tenha sentido o mesmo neste mesmo lugar, junto ao banco de pedra da janela que não existe mais, sabe-se lá há quanto tempo não existe, mas que eu vejo desde o primeiro instante que aqui entrei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante uns escassos segundos, ou mesmo semanas a fio, a dor cessa, passa para lá das marcas, rebenta as escalas, deixa de correr nas veias às golfadas, o ar arrefece, sou capaz de jurar que sim, que correu uma brisa, depois começou a nevar junto ao altar da Sant’Ana, uma neve fofa que caía dos choupos em pompons, e não dos céus em flocos, e depois veio a dormência, foi então que os seus pés passaram a caminhar em frente três dedos acima da calçada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou à rua da santa que vela por si e continuou a levitar, mesmo correndo riscos desnecessários, quando arriscou uma aterragem de emergência, por ter ousado abrir a porta do primeira quarto à esquerda, onde dormia, numa cama de borboletas, o vestido mágico de uma manhã de primavera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitou-se a seu lado, mais tempo do que aquele que lhe pareceu, e depois foi tudo muito rápido - escorregou para dentro das quatro paredes da segunda porta à direita, só foi à rua da sua santa porque trazia no corpo a mesma roupa há um número de dias que era incapaz de contabilizar, e tirou do cabide o vestido mais bonito que lá estava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, também o mago iria voar no seu jardim coberto de neve.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-8319944648213596810?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/8319944648213596810/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=8319944648213596810' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/8319944648213596810'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/8319944648213596810'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/07/v.html' title='V'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-7932818708016677376</id><published>2007-06-12T23:42:00.000+01:00</published><updated>2007-06-12T23:44:28.301+01:00</updated><title type='text'>IV</title><content type='html'>Aqueles foram os dias de todas as certezas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa cama de pinho, dentro do quarto da empregada, uma assoalhada desenhada à margem do regulamento geral das edificações urbanas por um arquitecto sem coração, um rectângulo estreito e comprido mais pequeno do que o hall da entrada que a empregada teria que espanar e aspirar, eu dormia ali, encolhida, esmagada pela companhia de um estrado de madeira, que, por sua vez, dormia de pé atrás da porta, um metro e oitenta de altura por sessenta centímetros, em equilíbrio encostado à parede, penso que era um estrado de cama, só agora penso nisso e, sim, era um estrado de madeira reciclado quando ninguém falava disso, e nesse pedaço de madeira, que era uma espécie de retábulo gigante, um Cristo, com o que eu me lembro de ser um Cristo, mas um Cristo com um prego espetado na cabeça que lhe chegava até às narinas, que dormia comigo no quarto da empregada. O quarto e o retábulo em tons de anil e de preto, e, por vezes, os aviões que se faziam à pista da Portela planavam tão baixinho que os vidros do quartinho da empregada estremeciam de medo, ou de susto, e eu estendida por cima do colchão de espuma, por vezes aconchegada pelos lençóis azuis-escuros com florzinhas, outras, tapada com os motivos geométricos laranja e pretos, e eu com medo do devir, com medo dos aviões que estremeciam os vidros do quarto da empregada e, também, com medo do Cristo com o prego espetado na cabeça, mas sobretudo aterrorizada com o devir, eu, toda a vida com medo do devir, a pensar se seria a empregada já que dormia no quarto que lhe estava destinado, eu com dores de barriga a avançar como se tivesse tirado dobles quando atirei os dados por cima da mesa e a franzir o sobrolho às escuras, sob o olhar atento do Cristo pregado encostado à parede, e a magicar se teria mamas grandes ou pequenas, a rever a minha vida toda à frente dos olhos, a ver os filhos, os netos, a minha mãe velhinha junto de mim, eu aterrorizada com todas as incertezas, com todas as possibilidades, com todos os caminhos e isto com apenas seis ou sete anos de idade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas aqueles foram os dias de todas as certezas. E nem por um instante o devir me electrocutou as entranhas, não fez disparar o meu coração, não badalou como um carrilhão na minha cabeça; a partir daqueles dias, eu sabia que não havia certezas, e essa é a maior das certezas que poderia trazer comigo atrelada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Idea seguiu em piloto automático até à Vila Nova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Verão em que carreguei duas vidas dentro de mim, andara por ali, perdida, à procura da oficina, mas o Twingo parou antes de a encontrar, e o Zé Ralha não teve outro remédio senão o empurrar, e eu grávida dentro do carro, a capota aberta e o sol a fritar-me a moleirinha, eu a enfiar a custo a segunda e o carro sem pegar, o Zé Ralha com um ataque de asma lá atrás com a língua de fora e a grunhir, e eu a rir que nem uma perdida a assistir ao espectáculo pelo retrovisor, e uma descida, finalmente uma descida, e o meu pai a ficar pequenino pelo espelho retrovisor, e o carro finalmente a pegar, e eu estacionar o Idea e não o Twingo no mesmo sítio, em frente à Igreja, e pelo sim pelo não, a olhar pelo retrovisor à procura dos caracóis prateados do meu pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não estava lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E fumámos um cigarro para ganhar coragem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primo aleijado a babar para o meu decote, e o meu octogenário avô a soluçar como uma criança que perdeu a mãe, os meus irmãos, os irmãos dos meus irmãos, as mulheres do meu pai, a que encarnou o papel de viúva, a minha querida Mónica, e eu sem medo do devir, a beijar primos cujas feições não tenho sequer ténue recordação, eu a chegar, zangada com a coberta de nylon barato a tapar o meu pai, ele merecia não menos que brocado de seda carmim, e eu com vontade de rir por causa do naperon que lhe tapava a cara, inquieta por momentos, com a certeza que não lhe teriam colocado na lapela a cruz de Cristo e em cima do seu corpo a sua espada favorita, eu com uma coragem que julgava ter-se sumido numa qualquer derrota, numa qualquer provação, eu a tirar-lhe o naperon de cima do rosto, a ter que lhe tirar o ridículo do naperon de cima do rosto, para me certificar que ele estava em paz, do lado direito, um hematoma salpicado, mas ele estava a dormir, em paz, e eu tirei da minha cabeça a imagem telefónica que o Leonardo me passou com um oceano de distância a separar-nos, que ele estava com ar de espanto, que ele não teria ido em paz, que queria mais um gole de vida, só mais um gole de vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vila Nova estremeceu e nenhum dos seus pacatos habitantes sentiu o abalo. Talvez, na oficina onde a bateria do Twingo foi substituída, se tenha fundido um fusível. Estávamos lá todos, na pequena capela, cercada de árvores mortas de sede. Os filhos. Os outros filhos. As mulheres que se traíram umas às outras no passado. A família que raramente telefonava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O morto, de facto, não se levantou do caixão e, afinal, não caímos todos caído num engenhoso ardil por si arquitectado com o intuito de nos juntar à sua volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas os fins justificam o meio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fenómeno sobrenatural que eu tanto pedira, que eu tanto procurara nos céus e nas árvores da ilha do arcanjo, estava ali para quem o quisesse apanhar e levar consigo para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo foi separado em vida, voltou a unir-se no dia em que ele ficou para sempre a pairar num jardim sobrepovoado de palmeiras.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-7932818708016677376?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/7932818708016677376/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=7932818708016677376' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7932818708016677376'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7932818708016677376'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/06/iv.html' title='IV'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-4635287997663354003</id><published>2007-06-05T18:33:00.000+01:00</published><updated>2007-06-06T13:10:00.556+01:00</updated><title type='text'>III</title><content type='html'>É praticamente um distúrbio psicológico, um pensamento intrusivo que não me larga, que me faz acordar a meio da noite, e em Santa Marta eu não posso ir para o telhado e ver o dia a nascer por cima do mar de São Miguel. É um despertador que me assusta sempre que o fórum tsf vai a roncar em surdina nas quatro paredes do Fiat Idea, que me ultrapassa à má-fila, um segundo antes de eu bater com o polegar esquerdo na alavanca do pisca para ultrapassar uma fila compacta de carros parados pela passadeira vermelha do corredor bus.&lt;br /&gt;Não me serve de nada, já não servia antes, muito menos agora, mas eu nasci três dias depois dele, e eu fui a maior de todas as vinganças e de todos os golpes que a vida lhe desferiu. Mais do que a glória que tardava e que acabou por não chegar nunca, nem na hora da morte, eu talvez seja a maior das suas cicatrizes, aquela que mais difícil foi de reduzir a cinzas no Alto de São João.&lt;br /&gt;O pintor José Ralha morreu e a sua obra que anda por aí espalhada e pendurada nas paredes de tanta gente, a sua vida nem que fosse a vida que ele pintou a óleo, em tela, ou mesmo em azulejos de casa-de-banho, não valeu nada, resume-se a uma breve de 300 caracteres no Correio da Manhã e dois anúncios na página da Necrologia do líder de vendas nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu era, eu sou a filha favorita, a mais parecida, a que traz para casa desconhecidos e não hesita em lhes chamar de imediato de amigos, a que atrai o extraordinário e todos os vagabundos, a que se enche de conhecimentos inúteis e decora o nome científico das plantas e das árvores, a que tem todos os sonhos do mundo na palma da mão, a que ainda é uma promessa, a que, de vez em quando, consegue ser sublime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu fui a filha, a única filha, o tesouro que ele não pôde tocar, que apenas pôde seguir de muito longe por papel fotográfico, ou em folhas A4 desenhadas na secretária do senhor secretário de Estado do Ensino Superior a pedido da avó Zá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num Domingo feliz que passou, no Domingo mais feliz que já se viu nos últimos 28 anos, eu cheguei atrasada ao Jardim da Estrela. Fumaram-se cigarros de enfiada junto à Basílica da Estrela, dentro de um pequeno Smart imobilizado com os quatro piscas, para que se cumprisse a tradição da noiva atrasada, um atrás do outro, para mascarar a ansiedade de uma noiva que devia ter mandado às urtigas uma tradição idiota que colide com a sua doentia demanda pela pontualidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sabia que ele ia estar lá, à margem, longe do grande grupo que se concentrava dentro do Coreto, eu sabia que ele atravessara o Tejo apenas para dizer olá e adeus. E eu sabia, eu sempre soube que era a favorita, por isso, esperei até à última semana para anunciar que me ia casar, sabia que tudo me seria perdoado, sabia que ele viria, que aceitaria o convite tardio em jeito de artista destrambelhada que era a menina do seu pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele disse, foi a última coisa que me disse, isto persegue-me há precisamente um mês, desde que o telefone tocou junto ao asqueroso edifício propriedade da segurança social de Ponta Delgada. Ele disse, e aquilo encheu-me de uma satisfação maquiavélica, de quem ri por último ri sempre melhor, porque se eu era a favorita porque é que tantas mulheres da sua vida já tinham passado para a tela e eu não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele disse: Estás tão bonita. Vou pintar-te um retrato.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-4635287997663354003?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/4635287997663354003/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=4635287997663354003' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4635287997663354003'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4635287997663354003'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/06/iii.html' title='III'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-6981183439219539749</id><published>2007-05-24T22:52:00.000+01:00</published><updated>2007-05-25T15:33:49.665+01:00</updated><title type='text'>II</title><content type='html'>Eu não sei porque os fazem tão feios.&lt;br /&gt;Os edifícios da segurança social, digo, deve fazer parte da breve nota da pasta da tutela que acompanha o caderno de encargos dos concursos públicos: por favor, senhores arquitectos, não se esmerem, esmerdem-se, queremos feridas urbanísticas a rasgar o céu, destruam o sistema de vistas sem qualquer pudor, violem as cérceas definidas  pelos PDM, aliás, nem olhem para ele, dêem-nos empenas cegas para colar telas publicitárias gigantes, aqui amamos o fel, senhores arquitectos, o fel tem mesmo tudo a ver com os desgraçados que nos vêm pedir esmola à porta, vão trabalhar malandros, e eu pensava nisto tudo enquanto saía da segurança social de Ponta Delgada e me encaminhava para o carro encarnado nipónico, cuja marca não consegui fixar (Nissan, salvo erro, 191 mil quilómetros de carro de combate rasteirinho à estrada, ideal para as curvas e contra-curvas que fazem as delícias do Fittipaldi que há em mim; a Magui sempre disse que eu ia ser um Fittipaldi de saias, ela dizia isto quando eu não tinha incisivos frontais nas gengivas e eu não sabia o que isso queria dizer, mas acabou por ser verdade).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era a hora do recreio.&lt;br /&gt;E o carro encarnado ainda não tinha 191 mil quilómetros registados no contador, mas andava lá perto. Eu sentei-me atrás do volante sem esperança de conseguir em tempo útil um comprovativo da segurança social de que não era uma malandra como os demais que ali pedem esmola. E esmagada por uma tristeza infinita eu disparei para o lugar do morto, sem coragem para fazer rodar a chave da ignição e, por isso, optei por fazer baixar o vidro e atear um cigarro Além Mar: só me apetece chorar, e aquilo soou um pouco despropositado - o fado da segurança social.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poucos segundos passaram, as crianças continuaram a guinchar no recreio, e o telefone tocou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aconteceu uma coisa muito má, disse o Leonardo, que nem esperou para respirar fundo num acto involuntário de ganhar coragem, ele disse logo que a Magui estava bem.&lt;br /&gt;Foi o avô, ai o avô, mas, do outro lado, o impensável foi transmitido através da tecnologia GSM. Não. Foi o Zé Ralha, ele morreu.&lt;br /&gt;E como estávamos em dia de os impensáveis acontecerem em catadupa, eu senti o cheiro das chagas que abraçavam a rede metálica de protecção da escola secundária, e eu sabia que as mesmas chagas estariam a trepar pela fachada da casa do Zé Ralha, e pela escarpa junto ao eucalipto que decidiu cair no dia em que o avô teve um AVC, e eu voltei a dizer, porque assim é que era certo pela ordem natural das coisas, não estás enganado, foi o avô.&lt;br /&gt;E chorei. Chorei como nunca imaginei que pudesse chorar pelo Zé Ralha, nem eu sabia que o meu avô teria que dizer vezes sem conta ao telefone, não, não fui eu que morri, foi o meu filho Zé Manel, e eu chorei magoada porque ele não se ter vindo despedir de mim, e a partir daquele instante, fiquei à espera de um sinal do meu pai, eu sempre achei que ele viria despedir-se de mim de uma qualquer forma sobrenatural ao qual nos habituou com as suas histórias de bruxos e feiticeiras, reparem, ele nunca ia morrer porque era feito de outra matéria, não lhe corria sangue nas veias, mas pós de perlimpimpim, e depois de muito chorar, e sem forças nas pernas, eu segui amparada pelo João meio cega, seguimos até a um jardim que o Zé Ralha devia ter conhecido. A única coisa extraordinária que aconteceu, mas eu não sei se foi obra do Zé, porque eu olhava para o céu e lá em cima ainda não havia ainda nuvens pintadas por si, ele contou-me há muitos anos atrás, quando estava à deriva no atlântico, sem fé de ser encontrado, sozinho, a boiar de cansaço, ele disse-me que pensou que ia morrer, e que nos viu a todos, menos ao Leonardo, a dizer adeus. Eu espero que desta vez o Leonardo tenha estado lá ao nosso lado, mas eu procurava em todo o lado o meu pai pelas ruas de Ponta Delgada e não o encontrava, até me cruzar com um bebé, uma criança de caracóis negros que olhou para uma mulher de olhos inchados que estava a ser arrastada por um homem de caracóis loiros, e essa criança olhou para aquela mulher que não sabia, que não sabe ainda porque está destroçada, e lançou uma gargalhada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-6981183439219539749?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/6981183439219539749/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=6981183439219539749' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/6981183439219539749'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/6981183439219539749'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/05/ii.html' title='II'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-4320579305177779185</id><published>2007-05-23T00:45:00.000+01:00</published><updated>2007-05-23T00:46:28.258+01:00</updated><title type='text'>I</title><content type='html'>Chegou à rua de uma das santas que olha por si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na véspera, antes de tudo acontecer, já quase como um pressentimento que vinha do ronco das ondas sobre as rochas escuras de vulcão da ilha do arcanjo, pedira a todos os santos, pedira à Marta com mais força do que ao Miguel, mesmo sabendo que ele era arcanjo e que ela, ainda para mais, era uma mera santa padroeira das domésticas, mas pedira com tanta alma que até se lhe eriçaram os pelos dos braços; não devia desvendar isto aqui, mas ora que esta, que se dane, também já não ocupava um cargo de confiança política, por isso, neste momento e sabe-se lá até quando, podia voltar a escrever tudo o que os dedos muito magros lhe ordenavam, já nada do que aqui se escarrapacha corre o risco de ser pespegado em papel de má qualidade por um qualquer mal intencionado jornaleiro, sim, é verdade, um mês naquela nova profissão e conseguiu passar a odiar grande parte da classe a que pertenceu, à classe cuja caixa de abono e previdência lhe passaria a depositar a prestação social por um prazo de 13 meses; sim, a revelação, já lá vamos, com calma, nada nesta ilha se faz à pressa, e esta é coisa para fazer ribombar os tambores, pelo menos aqui, à luz de um céu estrelado, e da melodia ritmada das rãs na ribeira e de quando em quando pintalgada pela espuma das ondas; aqui, onde os ponteiros se arrastam vagarosos, passa tudo mais devagar, eu escrevo quase às escuras uma hora antes de quem me há-de ler, e estou sob influência de um anticiclone que se apaixonou por este pedaço de terra, e, se é certo que o desgosto não ficou para trás na cabine do airbus da Sata, após mais uma petrificante aterragem que lhe colou as costas às costas da cadeira, certo é que, o tempo, que aqui tem mais tempo, ou talvez a latitude da ilha do arcanjo tinham, de facto, poderes curativos, analgésicos ansiolíticos e anti-depressivos, porque chegou, não à rua da sua santa, mas à ilha do seu arcanjo, e desmaiou de overdose de emoções num sofá-cama e nada mais se lembra até o acordar, hoje de manhã, num sótão solarengo, tão desorientada que teve que se sentar uns minutos largos a balançar na cadeira de couro por baixo da janela Velux para a alma regressar a bom porto; sim, a revelação, eu não me perdi, eu sinto tudo, eu vejo todas as palavras, eu rebobino todos os filmes da minha vida neste momento, eu lembro-me de envergonhar o Leonardo na Avenida da Igreja com o Zé Ralha com purpurinas a enfeitarem-nos os cabelos, eu rio-me com a lenga-lenga arraçada de feitiço, do chamamento de táxis à Estados Unidos de América – Apareça, Apareça, Táxi sem cabeça -, eu parece que o vejo sentado na beira do Lago, a confessar-me que pedira aos gatos que povoaram o Robalo de geração espontânea, que pedira uma vida a cada um, para emprestar ao meu avô, quando um AVC o deixou mudo e com o raio da perna esquerda preguiçosa; mas, a revelação já não me apetece contar, não é de propósito, mas esta é só minha e dos meus santos, e eu pedi na véspera a todos os santos e especialmente à Marta que me protegesse de todos os males, pediria amanhã o mesmo ao senhor Santo Cristo dos Milagres, e nada, mesmo nada poderia supor que, afinal, as coisas extraordinárias não tinham cessado de me tropeçar à frente dos pés; queixava-se, queixara-me para dentro, que mais nada digno de registo lhe acontecia, por isso, abusava amiúde da label “e nada de extraordinário acontece” quase como uma prece, uma súplica, mas esqueceu-se que a este um grupo restrito de felizardos do extraordinário, por vezes também acontecem coisas extraordinariamente más; tinha mesmo que ser assim, levava muitos anos disto, já se conformara, por vezes tinha mesmo que ser assim, porque se não o universo desequilibrava-se das pontas de ballet em que dança, e não era coisa bonita de se ver, o pandemónio que era depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou à rua da santa que velava por si.&lt;br /&gt;E o demónio do estacionamento fez o favor de lhe guardar um lugar à porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(há-de continuar; só não se garante quando)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-4320579305177779185?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/4320579305177779185/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=4320579305177779185' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4320579305177779185'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4320579305177779185'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/05/i.html' title='I'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-6611504461522077614</id><published>2007-05-11T12:16:00.000+01:00</published><updated>2007-05-11T12:21:43.560+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='e nada de extraordinário acontece'/><title type='text'>Imagens como esta (escrito muito antes da passagem do furacão)</title><content type='html'>São imagens como esta (sem ponto final, sem reticências, sem exclamação)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dito isto, houve silêncio num carro encarnado, o qual, se a inquirissem, não seria capaz de identificar qual o construtor sul-coreano ou nipónico que tinha aberto rasgado o papel de embrulho, aberto a embalagem, seguido cuidadosamente as instruções com o dedo indicador, e montado peça a peça aquele carrito Lego de brincar para gigantes.&lt;br /&gt;São imagens como esta que o quê?&lt;br /&gt;Pois, daí o silêncio, não sabia porque tinha dito aquilo e as palavras ficaram em suspenso, baloiçando-se ao sabor de uma curva de cotovelo à sua direita.&lt;br /&gt;Já fizera menção de o dizer antes, pelas estradas ladeadas por plátanos muito antigos, cujos troncos só podiam ser abraçados por três adultos de braços bem esticados (o que mais me custa é ficar com fama de assassina de plátanos em Lisboa) e nas curvas e contra-curvas muito escuras alumiadas pelos faróis do carro encarnado, que ficaram sobressaltadas pelo rugir do motor junto às três mil e quinhentas rotações (ou assim fazia crer o ponteiro). Ou quando, ao telefone para Lisboa, confirmara que estava à beira do desemprego, e para seu consolo, única e exclusivamente para seu consolo, um milhafre se pavoneou muito perto, entre a linha do horizonte e o telhado da casa vizinha, onde gatos siameses contemplam o oceano atlântico.&lt;br /&gt;São imagens como esta, que raio de desabafo, mas o que querem, esta mereceu mais um suspiro, nesta última semana, deu-lhe para os coleccionar, e esta imagem, pelo espelho retrovisor, invertida – e isto lembra-lhe um episódio longínquo em que o professor Palma Borges, num barracão pré-fabricado na preparatória Gago Coutinho, perguntou aos alunos da turma B, do oitavo ano, porque é que as ambulâncias tinham escrito ambulância ao contrário no capô, e alma nenhuma, incluindo ela, que se acha tão intelectualmente superior, soube dar a resposta certa, está ao contrário, setor, para se ler ambulância pelo espelho retrovisor, estas coisas ainda a perseguem, mais ninguém, decerto, se lembra disto, mais ninguém decerto, ficou envergonhada para a vida por não se ter lembrado da óbvia solução à adivinha, e, provavelmente, mais ninguém se lembra que havia uma Paula qualquer coisa, que lia os manuais em voz alta nas aulas com dicção de pivot televisivo –, enquadrada num espelhinho rectangular onde já descobrira alguns cabelos brancos que ficaram por tingir, era quase sobrenatural, um enorme sol laranja a deitar-se até à manhã seguinte nas águas do mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta ilha, até as cuecas da Carolina, estendidas no quintal, me aquecem o coração.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-6611504461522077614?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/6611504461522077614/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=6611504461522077614' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/6611504461522077614'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/6611504461522077614'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/05/imagens-como-esta-escrito-muito-antes.html' title='Imagens como esta (escrito muito antes da passagem do furacão)'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-8330034713796731688</id><published>2007-05-09T17:39:00.000+01:00</published><updated>2007-05-09T17:45:13.105+01:00</updated><title type='text'>Quando eu voltar (baralha e volta a dar)</title><content type='html'>Voltei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em uma semana perdi o emprego.&lt;br /&gt;Perdi a aliança.&lt;br /&gt;Perdi o meu pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os Jacarandás ainda não estão em flor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-8330034713796731688?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/8330034713796731688/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=8330034713796731688' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/8330034713796731688'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/8330034713796731688'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/05/quando-eu-voltar-baralha-e-volta-dar.html' title='Quando eu voltar (baralha e volta a dar)'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-3672754660062557239</id><published>2007-05-04T23:01:00.000+01:00</published><updated>2007-05-04T23:02:50.143+01:00</updated><title type='text'>Quando eu voltar</title><content type='html'>Quando eu voltar, já que tenho que voltar que seja assim, não peço muito, apenas o quanto baste, como nas receitas do Pantagruel que levam o qb à frente dos condimentos do sal, da pimenta e do piri-piri – que a avenida 5 de Outubro já esteja vestida de azul, que as três centanas e meia de Jacarandás já tenham florido, e se não for pedir muito, eu gostava, eu gostava de entrar, triunfante, outra vez o quanto baste, não mais do que isso, no início da avenida, junto aos terrenos que ainda são da Bragaparques, e que caísse em cima do para-brisas cizentão do Idea, desde Entrecampos e até ao Saldanha, uma chuva de pétalas azuis (valeu a pena, nem que seja, valeu a pena pelo simples facto de eu ter em meu poder, algures num gabinete desenhado pelo Ventura Terra, uma informação da Divisão de Jardins, com o mapa dos Jacarandás de alinhamento de Lisboa, valeu a pena saber que a avenida 5 de Outubro tem 350 jacarandás).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu voltar, já que tenho que voltar, parece que não tenho outro remédio senão voltar, nada terá mudado, isso tenho a certeza, e espero que o Pedro se tenha lembrado de regar as Orquídeas e que elas tenham guardado alguns botões por abrir para quando eu chegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não muda nada, quando eu voltar. O Centro de Emprego do Conde Redondo há-de estar no mesmo sítio e, decerto, os espanhóis que fotografaram a noiva improvável no eléctrico 28 já passaram os flashes das suas férias em Lisboa no ecrã do seu televisor (não tenho ilusões, já ninguém revela, já ninguém imprime fotografias; ficaremos, no máximo, arquivados num DVD)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os meus mortos emprestados, continuarão à espera de ser pendurados nas paredes do hall e isso lembra-me, quando eu voltar, que tenho que comprar molduras douradas, barrocas, para os enquadrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A outra cinquentona, a que apareceu no Jardim da Estrela no Domingo passado, a que colocou na agenda que dois namorados que mediam o diâmetro do coreto numa noite de Fevereiro se iam casar no dia 29 de Abril de 2007, já terá escrito no Filofax um outro qualquer compromisso surreal ao qual irá aparecer de surpresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se calhar, quando eu voltar, o Miguel da Clara já terá nascido. A Magui há-de continuar a dizer, qual corvo agoirento, que tudo o que está a acontecer são sinais de que o meu casamento está condenado ao fracasso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu voltar, nem um segundo mais cedo, nem um segundo mais tarde do que o previsto, que o sol me continue a seguir como detective matreiro contratado por um marido corno. E que a conspiração cósmica e de todos os santos continue o seu curso natural, que a santa Marta vá à frente com o plano impresso em formato broad sheet e que não se esqueça de colocar, na ponta do nariz, os óculos de ver ao perto para  que se não lhe escape uma vírgula das indicações do mapa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu voltar, vou ter mesmo que voltar, fecho a porta atrás de mim. E depois abro uma janela.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-3672754660062557239?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/3672754660062557239/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=3672754660062557239' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/3672754660062557239'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/3672754660062557239'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/05/quando-eu-voltar.html' title='Quando eu voltar'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-2692042878658599225</id><published>2007-04-29T21:54:00.000+01:00</published><updated>2007-04-29T22:02:23.495+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='e nada de extraordinário acontece'/><title type='text'>Fez uma noiva linda (e um noivo penteado)</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://bp2.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/RjUHxdXWIAI/AAAAAAAAABI/TJiWpHu9kRg/s1600-h/L1070581.JPG"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://bp2.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/RjUHxdXWIAI/AAAAAAAAABI/TJiWpHu9kRg/s400/L1070581.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5058958302698151938" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Nas próximas três semanas, a meio do Oceano Atlântico, tudo sobre o casamento no Jardim da Estrela, desde o bouquet biodegradável, às lágrimas da Esquizo no hall de entrada de Santa Marta, à viagem no eléctrico 28, com os espanhóis a tirarem fotografias paa mais tarde recordar, e também a descida vertiginosa pelas escadinhas de Alfama abaixo (e eu a treinar para presidente da Junta, a distribuir beijinhos nos pátios, entre promessas de regressar em noite de Santo António para comer uma sardinha) e tantos, tantos outros momentos de uma história improvável e que eu quero interminável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três semanas, em frente à praia deserta, eu, o João, o diabrete loiro, e este computador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este blogue vai voltar a ser o que era.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS - Muito feliz. Tão feliz que até estraguei as fotos, porque quando estou assim, radiante, rio muito e vinco o duplo queixo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-2692042878658599225?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/2692042878658599225/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=2692042878658599225' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/2692042878658599225'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/2692042878658599225'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/04/fez-uma-noiva-linda-e-um-noivo-penteado.html' title='Fez uma noiva linda (e um noivo penteado)'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp2.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/RjUHxdXWIAI/AAAAAAAAABI/TJiWpHu9kRg/s72-c/L1070581.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-7817692396694813239</id><published>2007-04-23T17:05:00.000+01:00</published><updated>2007-04-23T17:06:37.017+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='e nada de extraordinário acontece'/><title type='text'>Leiria-Ralha</title><content type='html'>A noiva foi até Leiria, e Leiria pareceu-lhe menos feia, aliás, mais ou menos a meio da praça do centro histórico, onde procurava sem muita convicção uma caixa de brisas do Lis para trazer ao seu novo patrão – graxa danada, bem sei, mas o que fazer, a noiva tem destas coisas –, deliciou-se com o escafandro poisado no chão, à venda por 3500 euros numa feira de antiguidades ao ar livre, bateu no peito agradecida por mais uma imagem bizarra absorvida pelas suas retinas, e pediu até desculpa a Leiria por lhe ter chamado, há seis meses atrás, a mais feia de todas as cidades de Portugal.&lt;br /&gt;É certo que o raio do vestido da noiva estava largo pelos nove quilos que a balança perdeu sem rasto nos últimos quatro meses (afinal não era assim tão chanfrada dos cornos por começar a dieta nas vésperas do Natal), é certo que não estava como esperado, como sonhado, com a magnólia e as tirinhas cor de vinho a caírem sobre a saia rodada – as madrinhas não disseram uau, o colar decidiu que não estava para ali virado e caiu sem graça sobre o regaço, apenas o véu, antigo, comprado no Ebay, deu um ar da sua graça naquele provador de um subúrbio de Leiria, onde há seis meses atrás um arco-íris rompeu pelo céu, junto à entrada para a A1.&lt;br /&gt;A noiva foi até Leiria, e Leiria irá ficar no seu sobrenome, antes do Ralha, e só visto, nem dá para escrever o ar de espanto da funcionária da conservatória, em transe, quando o noivo lhe disse e voltou a dizer, não houvesse confusões, que ele é que ficava com o Ralha em último lugar. Leiria era uma cidade feia, não havia escafandro à venda no centro histórico que lhe valesse, nem mesmo o facto de o Leonardo, alegadamente, ter sido concebido algures em Leiria num hotel cujo colchão estava cravado de percevejos. Mas há apelidos averbados na certidão de nascimento que puseram Leiria no mapa de encruzilhadas que é a minha vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-7817692396694813239?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/7817692396694813239/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=7817692396694813239' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7817692396694813239'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7817692396694813239'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/04/leiria-ralha.html' title='Leiria-Ralha'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-5026791522371415465</id><published>2007-04-13T18:37:00.000+01:00</published><updated>2007-04-13T18:49:40.445+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='e nada de extraordinário acontece'/><title type='text'>A Maldição do Alto Minho</title><content type='html'>Quando a noite cai, o silêncio desce as escadas desenhadas pelo Ventura Terra em pezinhos de lã, e desprendem-se das paredes luminescências que me fazem pensar sobre a maldição do Alto Minho.&lt;br /&gt;As sapatas da porta 86 B da Rua de Santa Marta estão amaldiçoadas. Foram escavadas por cima das sepulturas de um cemitério índio. É tão simples quanto isto. Não pode, não arranjo outra explicação.&lt;br /&gt;Nem sempre foi assim. Oiço relatos dos vizinhos que falam de uma taberna afamada, de uma cozinheira minhota de formas roliças, de um rodopio de febras e pipis, paredes pintadas com gordura e enxurradas de copos três e finos, que fariam transbordar o desolador chafariz do Largo de Andaluz.&lt;br /&gt;O Alto Minho é um restaurante. É um restaurante simpático, irresistível pelo painel de azulejos monumental com vaquinhas e bois a puxarem uma carroça em Paredes de Coura.&lt;br /&gt;O Alto Minho está amaldiçoado, só lá vai com água benta e crucifixo. Até lá, está condenado a este fado: abre, fecha, trespassa-se, arrenda-se. O Alto Minho não aguenta mais do que um mês com o letreiro da porta a dizer “Aberto”, mesmo com a imperial a 50 cêntimos. 50 cêntimos. Nem no boteco da D. Beatriz se bebe um café com 50 cêntimos.&lt;br /&gt;É profundamente desolador. A mim entristece-me a maldição do Alto Minho.&lt;br /&gt;Os vizinhos do restaurante Andaluz, na porta 84 B, têm a casa sempre cheia. Uma refeição ronda, em média os 15 euros por pessoa, e não há quem diga aos vizinhos que o raio das azeitonas não são lá grande coisa, e que, já agora, mudavam o fornecedor do queijo que não sabe rigorosamente a nada. Mas é vê-los todas as semanas com o mesma ementa afixada na porta, é vê-los todas as semanas a abarrotar. À hora do almoço e à hora do jantar.&lt;br /&gt;Na porta ao lado, nem uma mosca se atreve a zumbir dentro das quatro paredes amaldiçoadas do Alto Minho.&lt;br /&gt;Por vezes vamos lá. Não tememos.&lt;br /&gt;Os olhares dos empregados já não têm uma réstia de esperança – devem já ter ouvido falar da maldição do Alto Minho. A lenda espalha-se de ouvido em ouvido, toda a gente a conhece de cor, como uma lenga-lenga.&lt;br /&gt;A rapariga que nos serve o jantar está, sempre, sem excepção, à beira de um ataque de nervos, deita faísca pela ponta dos dedos e aquilo enternece-me, derreto-me com o nervoso miudinho e um misto de ansiedade infantil de quem acabou de desembrulhar um presente, quando chegamos e, apesar de todas as mesas estarem vazias, pedimos para nos sentar na zona de fumadores.&lt;br /&gt;Depois, desdobra-se em atenções dignas de restaurante de primeira categoria: serve as bebidas, por vezes não lhe corre lá muito bem, entorna um bocadinho para fora do copo, mas nós não dizemos nada, nem nos atrevemos, mesmo quando ela não entende o pedido, ou se engana, nós temos medo que ela desate a chorar de desalento, desfazemo-nos em elogios à comida, ao serviço, em jeito de consolo, em jeito de a culpa não é vossa, a culpa é da Maldição do Alto Minho, e ela lá atura a Carolina com a maior das paciências, dá-lhe todas as palhinhas que o seu capricho de diabrete loiro entende pedir.&lt;br /&gt;O Alto Minho tem os melhores secretos de porco preto de Lisboa. Sopa, azeitonas, pão, manteiga, prato, bebida, sobremesa (salva de palmas para a mousse de chocolate – caseira, com raspas de chocolate branco) custa 7,5 euros.&lt;br /&gt;O Alto Minho deve estar quase a fechar as suas portas. E assim vai ficar, com o placard da agência imobiliária na porta, até que algum empresário do ramo da restauração que não tenha lido a newsletter da ARESP, o reabra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo sim, pelo não, sem medo da maldição, hoje vou lá jantar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-5026791522371415465?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/5026791522371415465/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=5026791522371415465' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5026791522371415465'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5026791522371415465'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/04/maldio-do-alto-minho.html' title='A Maldição do Alto Minho'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-8617379186412779893</id><published>2007-04-05T21:09:00.000+01:00</published><updated>2007-04-05T21:13:29.037+01:00</updated><title type='text'>À sombra da Bela Sombra</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://bp3.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/RhVYXbkD4ZI/AAAAAAAAABA/1777FpQdWzU/s1600-h/a+sombra+da+bela+sombra.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://bp3.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/RhVYXbkD4ZI/AAAAAAAAABA/1777FpQdWzU/s400/a+sombra+da+bela+sombra.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5050039716725121426" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-8617379186412779893?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/8617379186412779893/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=8617379186412779893' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/8617379186412779893'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/8617379186412779893'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/04/sombra-da-bela-sombra.html' title='À sombra da Bela Sombra'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp3.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/RhVYXbkD4ZI/AAAAAAAAABA/1777FpQdWzU/s72-c/a+sombra+da+bela+sombra.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-5451458893939239184</id><published>2007-04-04T18:16:00.000+01:00</published><updated>2007-04-04T18:34:13.748+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='e nada de extraordinário acontece'/><title type='text'>Nasceu uma criança com as mãos coladas*</title><content type='html'>Por estes dias, encontro-me profundamente encantada pela total ausência de expressões faciais da empregada de mesa Irina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subo até ao terceiro andar, de elevador, depois, passo pelo chão ladrilhado a preto-e-branco e treino algumas jogadas de mestre do xadrês da minha vida,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[encurralo o rei, como um cavalo, esquivo-me da torre e preparo-me para um eminente xeque-mate, isto tudo num pulinho e a caminho dá acesso à escada estreitinha por onde trepo para a mansarda]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;cheguei, e tranco-me no quarto de banho desenhado pelo arquitecto Ventura Terra,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[também ando hipnotizada com a planta deste edifício, às vezes perco-me pelos tectos altos do meu gabinete e imagino-o – vou agora ver na wikipedia a cara dele –, sentado em frente ao estirador, regra e esquadro, tês, aparos vários espalhados, frascos de vidro soprado a transbordarem manchas de tinta-da-china que poderiam inspirar testes psiquiátricos acaso alguém se desse ao trabalho de reparar nelas, o Ventura Terra a desenhar estas salas, os jardins-de-inverno, os motivos florais da fachada, o desenho arte nova do corrimão da escada, e até a casa-de-banho, penso que é um privilégio fazer xixi num prémio Valmor e fico agradecida, eternamente agradecida pela experiência]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e tento, tento muito, tento não devolver ao espelho uma careta, tento, porque me dava jeito dos diabos ter cara de autómato, gostava de saber mentir com cara de guarda nacional republicano, dava um bocadinho do meu cabelo para não ser tão transparente, cara cuspida e escarrada do que se passa cá dentro nas entranhas, tinha piada e até fazia bem à pele ser como a Irina, porque tenho 28 anos e esta cara bolachuda já está riscada a x-acto, porque me rio muito, porque me preocupo muito, porque, em tempos, chorei muito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[há meia dúzia de anos, eu a chegar à redacção do Lambert que tinha os tectos radioactivos, a chegar para fazer as bolsas com traje escuro a preceito, muito arranjadinha, nessa noite, eu não sabia, eu apenas julgava que ia à inauguração de mais uma exposição do Zé Ralha, mas nessa noite, com aquela blusa de seda verde-seco, eu conheci a Amália e os seus dentes bamboleantes, e a Sílvia Oliveira dispara esta para o ar, que me persegue sempre que me cruzo com um bocadinho de areia que se transformou em espelho, Ela tem cara de bebé; não tem uma única ruga.]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas por mais que treine nas instalações sanitárias protegidas pelo Ippar não consigo, e acabo sempre por constatar que tenho um pelo da sobrancelha muito mais comprido que os outros e arruivado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dias passam-se assim. Num gabinete desenhado pelo Ventura Terra. Num imóvel classificado, onde todos, ou praticamente todos, lêem as entranhas deste blogue (e eu com vontade de picotar os pulsos a cada revelação dos leitores do Tralha).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dias passam e eu na expectativa de ver uma expressão qualquer estampada na cara da empregada de mesa Irina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Nasceu, ou talvez não, algures no Brasil, numa terra chamada Itaguaí, uma criança com as mãos coladas, como se tivesse passado nove meses quietinha, a rezar no ventre materno. Esse nascimento – que não consigo confirmar porque tenho muito que fazer – vale cem visitas diárias ao Tralha, reencaminhadas pelo Google brasileiro. Diz o mito que quando os médicos cortaram a fina membrana que unia as mãos do nascituro aconteceu um milagre. De facto, o Tralha só não morreu por causa disso. Mas não sei se é obra de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;** Lamento, caro leitor do Google brasileiro: Não faço ideia como se monta uma fábrica de sabões no quintal...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-5451458893939239184?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/5451458893939239184/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=5451458893939239184' title='29 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5451458893939239184'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5451458893939239184'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/04/naceu-uma-criana-com-as-mos-coladas.html' title='Nasceu uma criança com as mãos coladas*'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>29</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-7724696890994111154</id><published>2007-03-23T16:45:00.000Z</published><updated>2007-03-23T17:33:33.955Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='contos da administração pública'/><title type='text'>A doutora</title><content type='html'>A doutora ficou de cabelos em pé, madeixas loiras, brancas, vermelho fogo e castanhas-escuras, um arco-íris capilar e cada cor espetada para seu lado, de costas voltadas como amantes zangados a partilharem a mesma cama. Saída de um divórcio litigioso com convenção antenupcial que cobria até a custódia do papagaio africano que se deliciara a aprender de trás para a frente a última edição do dicionário de calão da Editorial Notícias para combater a agonia dos últimos dez anos de casamento dos seus donos, a doutora vinha com pequenas gotas de suor presas nos riachos das rugas da sua testa, a bufar pelos lados da boca um fumo fininho branco, quase imperceptível à vista humana, e a desgraçada da subserviente funcionária da conservatória não podia ter escolhido pior altura para indagar, a medo, em jeito de pedido de autorização:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podemos casar estes dois no Jardim da Estrela?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pupilas dilataram-se e os globos oculares da doutora tiveram ganas de ir dar uma voltinha ao andar de baixo e ver outras vistas sobre a cidade. Os óculos, de meia-lua, hastes encarnadas, desceram o escorrega da cana do nariz e a sobrancelha direita da doutora esticou-se (a testa ficou sem rugas e caiu uma gota de suor em cima da secretária), e a doutora, perplexa, as suas roupas de estilista a caírem com menos graça pelo corpo de girafa abaixo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é digno casar no Jardim da Estrela... Conhecem as nossas salas de casamento? Temos a rubi, a pérola, a cristal...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia verniz para estalar e então estalou um bocadinho da unha do anelar esquerdo da noiva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Doutora, desculpe-me, a noiva a falar e maravilhada, quase paralisada com a etiqueta do inventário do computador do estado escrita à mão com tinta permanente, e o tapete de rato publicitando os serviços de uma agência funerária, qual é mesmo a diferença de casar numa tenda de uma quinta nos subúrbios que há-de ser fechada mais cedo ou mais tarde pela ASAE, ou na cabine de um avião da TAP, ou sob a areia da praia, e porque é que não é digno casar num dos mais belos jardins de Lisboa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A doutora cheia de tiques, os olhos a tremerem muito subtilmente, a funcionária atrás dela a esfregar as mãos da nervoseira, um misto de pena de já não ir casar aqueles dois no Jardim da Estrela onde, a própria, há três décadas atrás namorava escondida no Caracol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, vai ter que nos dizer onde é que na lei diz que não nos podemos casar no Jardim da Estrela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A doutora viu que não se safava com estes noivos armados em sabichões. Tentou arrasá-los com uma vitória de secretaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, então, preciso das licenças emitidas pela autarquia, para começar o processo. Têm um mês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A licença foi dura de obter. Todos os dias, 21 3912463, está lá, dona Rosinda, novamente Diana Ralha, ai mulher que me parece que já não me caso se não me sai essa licença de ocupação do espaço público... Amanhã? Está bem, eu ligo amanhã às 15h. Todos os dias a mesma coisa, a querida da Dona Rosinda, sempre a mesma resposta, depois a até nos mandou medir o perímetro do coreto, ó raios o perímetro era mesmo como, dois pi ao quadrado?, até que, quase em cima do limite legal, a bem aventurada autorização chega ao tabuleiro do fax.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tiraram a senha.&lt;br /&gt;A senha dos casamentos ainda não funciona, tem que se tirar uma que também dá para óbitos e a etiqueta do inventário escrita à mão está um pouco mais descolada e o tapete de rato da funerária continua à vista de quem é viciado na realidade. Os livros de registos já não são escritos com bonitas caligrafias a tinta permanente, mas sim, com letras muito redondinhas da funcionária de vinte e poucos anos.&lt;br /&gt;Os divórcios sucedem-se e a doutora continua a vestir uns trapinhos que não se podem compram com o salário de conservador, índice 174. Sentados, à espera da vez, ouve-se a doutora vitoriosa a falar com a funcionária com desdém: Não devem ter conseguido a tempo a licença...&lt;br /&gt;A noiva ouve, porque a noiva ouve tudo, vê tudo, mas não diz nada ao noivo. O painel luminoso chama o número que está impresso na senha verde e os noivos avançam dois passos e sentam-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surpresa (pensa a noiva), estamos aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda agora estávamos a falar de vocês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sei (pensa a noiva). Fala-se do demónio e aparecem os cornos (acabou por dizer a noiva).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está aqui a licença, conseguimos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A doutora bufa, bufa lá de longe sem se mostrar, a funcionária sorri e diz para lhe perdoarem qualquer coisinha que vai ser o seu primeiro casamento fora das salas do edifício da Fontes Pereira de Melo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O casamento está marcado para as 12h do dia 29 de Abril.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apareçam.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-7724696890994111154?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/7724696890994111154/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=7724696890994111154' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7724696890994111154'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7724696890994111154'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/03/doutora.html' title='A doutora'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-8027668224556705331</id><published>2007-03-23T11:46:00.000Z</published><updated>2007-03-23T11:49:43.846Z</updated><title type='text'>Carta de demissão (ou vou só ali aprender a tocar piano e já volto)</title><content type='html'>O raio da velha em São Félix, nós todos encostados em fila indiana junto ao muro de pedra, o Toyota Corolla estacionado na faixa de rodagem em cima da curva de cotovelo, e eu a sonhar com o gemido do portão de ferro a abrir-se, a sonhar com o alpendre da casa do meu avô Oliveira e com o pomar das laranjeiras que não via há tempo demais, e a velha que se fixou em mim e que não me largou, a cara dela craquilhada por entre um lenço preto de viuvez, agarra-me nas mãos, chama-me Magui – e eu tinha uma borbulha na testa, desculpem-me, mas eu tinha catorze anos, mas não era loira como a Magui, que me passou para o sangue os seus olhos azuis –, o raio da velha que há-de martelar-me durante muito tempo, inspeccionou bem as mãos, virou-as e revirou-as (eu já roía as peles quando estava nervosa), e diz assim muito séria, olhos nos olhos do meu tio Manuel: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela tem mãos de pianista. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vinte anos depois de me ensinar a desenhar todas as letras do alfabeto e, seguramente, os mais belos xis de Lisboa, a professora Gertrudes Maria sentada no Luanda, surpreendentemente igual a si própria, como se tivesse sido ontem que me dispensara de fazer os trabalhos de casa para todo o sempre porque me tinham morrido as duas avós, nos olhos, nos olhos muito grandes, as mesmas olheiras negras e o fiel companheiro verde-velha, pintado a pincel por cima das pálpebras e diz-me assim muito séria: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tu, sempre és pintora como o teu pai? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(o mais surpreendente deste encontro nem foi o lembrar-se, vinte anos depois, que eu queria ser pintora; o mais surpreendente foi lembrar-se que eu amava a cor roxa, que pintava céus e malmequeres roxos com lápis de cera Sino) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, escreve-se um blogue, escreve-se um blogue porque o salário não estica para lá do dia quinze, porque as escadas de um quase bicentenário quarto andar sobre a Duque de Loulé parecem uma via-sacra todos os finais de noite em que se carrega sobre o ombro direito escada acima uma menina com cabelos de ouro, essa sim, que podia ser confundida com a reencarnação da sua avó Magui, e à qual eu disse assim, sem pensar, meia anestesiada e com o ventre aberto a ser costurado pelas mãos hábeis do doutor Moniz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela tem mãos de pianista como a mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escreve-se um blogue porque a família Pestana, toda a descendência do patriarca João, é preguiçosa e, certamente, tem artroses nos joelhos ou falta de paciência para trepar os sessenta e cinco degraus podres até às assoalhadas de uma casa velha da rua de Santa Marta. E, de repente, escreve-se, escreve-se sem  parar até à tendinite, porque as noites são brancas, e matam-se a escrever num teclado branco, enquanto os dias se ganham a dedilhar num teclado preto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(e o raio da velha, outra vez, com esta coisa das teclas brancas e pretas – ela tem mãos de pianista)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, alguém que todos nós conhecemos bem, alguém de quem temos saudades e a quem eu gabava umas botas de estilo militar, esse alguém escreve (que é coisa muito mais séria do que apenas dizer da boca para fora): &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela é a melhor escritora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E porque alguém escreveu isto, a vida muda drasticamente: o raio da velha já não martela tanto, só pontualmente, quando os dias se ganham a escrever no teclado preto ao som de Chopin. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E na madrugada do dia que assinala o começo da Primavera, há trezentos e sessenta e cinco dias, os jardineiros da câmara de Lisboa atarefados a plantar cinquenta mil flores, entretidos com a empreitada entre vasinhos de ciclames e amores-perfeitos, ancinhos e pás pousados na calçada, e cumprindo o destino, nessa mesma madrugada, houve alguém que também se habituara a noites brancas, houve alguém que, perto da Estrela, atrás de um teclado de cor incerta, foi a visita cinquenta mil do tal blogue, apenas porque se escreveu, porque se espalhou que ela era a melhor escritora; e esse alguém, esse um em mil milhões, predispôs-se a ir buscar um dicionário com mais de duzentos anos debaixo de uma roseira, predispôs-se a recolher cartas de amor debaixo dessa mesma flor que ainda se lembra de haver um leão na Estrela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a vida ficou mais simples. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dona Maria continuou a vir buscar-me, ao final da tarde, um exemplar do 24horas para se rir no autocarro depois de uma jornada de trabalho de catorze horas, eu continuei a fazer obituários de prédios bonitos que todos os dias morrem nas imediações da Viriato, a fumar despudoradamente no meu posto de trabalho e a levar, por isso, com as culpas de cancros alheios.&lt;br /&gt;Contei histórias mirabolantes de mendigos de olhos azuis com sorrisos pueris aos quais o Cerejo me ordenou ir entrevistar do alto dos dez centímetros dos meus saltos altos, loucos que encontrei meses depois, com um recorte de jornal junto ao peito, com mil e quinhentos caracteres impressos a bold junto ao peito.&lt;br /&gt;Nos piores dias, fui cantar missas de Mozart no fumódromo e a Anabela chamou-me de rapariga peculiar.&lt;br /&gt;Escutei com atenção, agarrada ao auscultador do telefone, o fabuloso destino do senhor Guilhermino que nunca cheguei a publicar, e o Cerejo continuou a chamar-me “coisinha”. O Adelino disse-me, no corredor, junto à máquina do café, que eu escrevi uma coisa muito bonita e até hoje eu não faço ideia o que foi; a Teresa de Sousa deu-me conselhos de puericultura no elevador, e quando a coisa estava mesmo mesmo a rebentar, quando eu quase não conseguia respirar, entre plenários, greves e rescisões, encontrei um frasquinho de água com sabão na mala e soltei milhares de bolas irisadas ao longo da Andrade Corvo e sorri quando ouvi o nosso louco, o Afonso, a gritar: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nossa rua está linda! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(mais acima, há algum tempo, no refeitório do Pingo Doce da Tomás Ribeiro, um velhinho também se aproximou de mim com um saco cheio de carcaças e segredou: vou dar pão aos malucos, e eu fiquei muito aliviada de não ter sido presenteada com um pãozinho) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espera-se tudo a partir de hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espera-se que o cabelo me cresça até ao rabo, ou que fique todo branco aos trinta e cinco anos, como é o fado dos Ralhas. Espera-se que as Ginkgo Bilobas de Lisboa deitem daqui a vinte anos o fedor a manteiga rançosa que alguma louca vaticinou e teve o privilégio de escrever nas páginas do Público. Espera-se que o António Barreto continue a dar conta da floração dos jacarandás todos os anos em papel de jornal (e, já agora, que haja mais jacarandás em Lisboa). E eu espero mesmo esta: que o prédio da Tudor, na Fontes Pereira de Melo, não se suma na memória, e que seja resgatável apenas no arquivo municipal de fotografia, ou num texto do Público que fala de dragões e pérgulas de rosas. Quem sabe, quem poderá saber, se calhar, até se espera que alguém, um dia, sabe-se lá porquê e para quê, encontre um texto de uma jornalista com um apelido estranho, sobre um raro metal precioso chamado paladium. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(e, certamente, espera-se que a Cristina Ferreira continue a aconselhar mocitas em idade fértil a nunca se mudarem para casa dos namorados, porque, mais cedo ou mais tarde, hão-de ficar com uma mão à frente e outra atrás, que a Lurdes Ferreira enxugue, nos próximos anos, as lágrimas de adolescentes traídas pelas suas melhores amigas, que o Paulo Madeira ensine ainda muita gente a pontuar com vírgulas, que a Ana Henriques continue a vir para a redacção sem soutien, que o Cerejo se faça ouvir por toda a redacção quando está a descobrir ao telefone alguma escandaleira, que o Miguel Madeira faça mais uma tatuagem, que o David Clifford improvise serenatas à hora do fecho, que a Lena e a Sandra tenham a pachorra de ensinar alguma garota interessada a paginar as cotações da bolsa, espera-se que alguém se barrique na varanda da Viriato, que o Zé Bento Amaro continue a fazer rimas porcas, que o Tiago não tenha emenda e continue a chamar darling às suas editandas, e que o Pedro Ribeiro seja sempre facilmente contactável no aquário de vidro, com um maço de Pall Mall azul) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por enquanto, eu só espero aprender a tocar piano. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até já. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(oito caracteres; oitocentos, umas brevezitas, por cada ano que passei convosco)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-8027668224556705331?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/8027668224556705331/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=8027668224556705331' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/8027668224556705331'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/8027668224556705331'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/03/carta-de-demisso-ou-vou-s-ali-aprender.html' title='Carta de demissão (ou vou só ali aprender a tocar piano e já volto)'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-7687616515764213508</id><published>2007-03-09T21:03:00.000Z</published><updated>2007-03-10T00:35:52.211Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='contos da administração pública'/><title type='text'>O caso bicudo</title><content type='html'>[Regresso ao dashoboard depois de tantos dias a tratar amigdalites crónicas. saudades e desculpas de mau escrevedor.]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O papel de jornal serve de toalha para a tigela da água do cão (já não digo que é a forra do caixote do gato, porque somos um pais desenvolvido, com areia perfumada no Mini Preço a 70 cêntimos cada cinco quilos), ainda me lembro de estender o espesso Expresso no chão da marquise, e da alegria que era encontrar uma notícia interessante, inadvertidamente, a meio do acto de despejar um quilo de ração para cães gigantes de cu virado para a lua; serve para tanta coisa o papel do jornal, eu sei lá, para acender lareiras (as minhas notícias dão uma chama anil), é raro, mas também ainda vai dando para fazer cartuchos para as castanhas no Outono, quando se esgota o stock de páginas amarelas; serve para fazer trabalhos manuais em papier maché, apesar de o que está mesmo mesmo na berra é o feltro; enfim, o papel de jornal fica largado pelas estações do metro de Lisboa desde que chegaram os gratuitos, e quando ninguém está atento, o papel dá espectáculo também de borla e rodopia em passos meticulosamente coreografados; serve para muita coisa, sobretduo, para sujar as mãos, mas poucos, muito poucos, só uma pequena minoria, cerca de dez mil de acordo com a Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas, é que sabem a trabalheira que dá conseguir uma informação digna de ser impressa em papel de jornal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três dias. Três dias para confirmar o óbvio (tão prudente, esta jornalista; é por isso que não vai longe; é por isso que lhe faltam no currículo enraivecidos direitos de resposta e processos disciplinares).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dezenas de telefonemas para o núcleo administrativo de uma força policial de Lisboa: sim, no sábado, cerca das 15h20, um zeloso munícipe ligou para a esquadra a denunciar um roubo de azulejos arte nova da fachada de um prédio. O prédio e os azulejos são ambos arte nova. Na Estefânia. E para desconversar: Sabia que morou por lá o Fernando Pessoa? Esse mesmo, o poeta, morou por cima da leitaria, onde vivem os sem-abrigo, eu sei que é uma javardeira; no outro dia, urinavam à porta, junto à filinha da paragem do autocarro, e à noite, vimo-los de passagem, iluminados à luz de velas brancas, não vou esquecer aquela imagem, era mesmo bela, mas sim, é uma vergonha, pois é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre a mesma lenga-lenga: Confirmam? Estiveram lá realmente? O que fizeram ao ladrão de azulejos? Eu tenho fotos do ladrão em flagrante delito... Sim, foi o munícipe que as tirou; o mesmo que jura a pés juntos que lá foram... Só não me sabe dizer a matrícula do vosso carro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E do outro lado, lá para as bandas da Praça de Espanha, eu bem procuro, eu já vi em toda a parte, mas ninguém sabe nada do roubo dos azulejos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ao terceiro dia, o roubo dos azulejos não ressuscitou por entre uma pilha de processos empilhados na secretária do sub-chefe. Ao terceiro dia, o roubo foi confirmado pelo proprietário do prédio onde viveu Pessoa, que também não viu qual era o grande problema ou sacrilégio da pilhagem. Isso é notícia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a jornalista é boa jornalista, e deu-lhe naquele dia - talvez porque a sua secção tem, hoje em dia, um máximo de três páginas recortadas de publicidade e não há grande coisa para fazer - para ligar uma última vez para o sub-chefe. Era o mínimo. Para agradecer o trabalho inglório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imaginara-o perdido por entre labirintos de arquivos poeirentos, com as bochechas vermelhinhas de tanto procurar, nervoso, a enrolar a corrente do telefone pelo indicador esquerdo acima, à procura em todas as extensões de alguém que soubesse, que tivesse pelo menos ouvido falar no roubo dos azulejos; a roer as peles dos dedos aflito por não poder ajudar a jovem jornalista - a jovem jornalista adora estas coisas, deixar-se levar pela imaginação galopante que a sua mãe de olhos azuis lhe deu, mas sabe, porém, que existe uma forte probabilidade de elas só acontecerem, de facto, numa outra galáxia, num mundo muito mais divertido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o sub-chefe comoveu-se com tanta amabilidade, os seus colegas costumam ser umas bestas, disse, e ela naquele dia estava cheia de frases feitas na manga encarnada da camisola, disse, é como em tudo, há bons e há maus, mas desculpe, sra. jornalista, não lhe ter conseguido confirmar o roubo, é que andamos aqui todos às voltas com um caso bicudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele disse bicudo, e os olhos da jovem jornalista brilharam e imaginou um bigodito pontiagudo a crescer na cara do sub-chefe. Deu-lhe corda, porque, afinal, eram ainda cinco da tarde, e não havia nada de melhor para encher as duas únicas breves de 500 caracteres que restavam da edição do dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conte-me tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não estava à espera de crimes horrendos, que chegassem com honras de chamada à primeira página do papel de jornal, esperava por algo bizarro, fez figas para que ele lhe dissesse que tinham apreendido uma burra que estava à venda às seis da manhã na Feira da Ladra; já era o quanto baste para que ganhar o dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;só que era melhor do que podia ter imaginado. O caso bicudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andamos aqui às voltas, com um pittbull que está a ser disputado por dois donos. E agora eu pergunto-lhe: como é que sabemos quem é que é o dono?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ela, caladinha, não ia estragar a longa conversa telefónica com um e que tal verificar se o animal tem um chip de identificação electrónica?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Interessante... Xiii... Complicado... Conte-me mais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É como naquela história da Bíblia, mas só que não podemos cortar o cão ao meio para toda a gente ficar feliz... O pior disto tudo, senhora jornalista, é que com esta espera, sabemos lá se o animal já não foi abatido no canil? Sabe como são as regras... Três dias e depois kaput. Mas também lhe digo, ninguém abate um animal de ânimo leve; há para lá muitos funcionários com depressões...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coitados. Pois é... é um trabalho sujo, mas alguém tem que o fazer... Nem que fosse o último emprego no mundo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto mais conheço as pessoas mais gosto dos animais... É o que se costuma dizer. Por isso é que eu digo, senhora jornalista, não me canso de dizer isto: quem gosta de animais, tem que tirar fotografias, tem que pedir - a um familiar, por exemplo -, que lhe tirem uma fotografia ao lado do cão ou do gato. Não vale a pena ser só a foto do animal. Há animais parecidos... Se tivéssemos uma foto, o caso estava resolvido...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(não teve coragem, a jovem jornalista, de falar ao sub-chefe nos esquemas pérfidos da mafia dos animais de estimação que sabem o que é a foto-montagem e conhecem os milagres do photoshop. Desligou o telefone com um sorriso nos lábios e foi buscar uma menina loira à escola, lá para os lados do aeroporto)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-7687616515764213508?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/7687616515764213508/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=7687616515764213508' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7687616515764213508'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7687616515764213508'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/03/o-caso-bicudo.html' title='O caso bicudo'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-3113203230942971303</id><published>2007-02-27T13:14:00.000Z</published><updated>2007-02-27T13:21:17.316Z</updated><title type='text'>O administrador do condomínio</title><content type='html'>O senhor Domingos é tal e qual como imaginado, de raça pequenina, miudinha.&lt;br /&gt;Sabe-se lá porquê, nasce-se com este dom de adivinhar a principal característica fisionómica de um interlocutor, através de um timbre de voz transmitido via GSM.&lt;br /&gt;É uma coisa que corre na família; a Magui, por exemplo, nunca falha – ouve um gato recém-nascido a soltar os primeiros miados e, prontamente, por artes mágicas, sentencia se é um menino ou uma menina. Em 99 por cento dos casos acerta.&lt;br /&gt;Não nos serve de nada, não é um talento suficientemente inebriante para fazer cabeça de cartaz de uma feira de aberrações, ou seja, não dá para ganhar a vida com isto, e depois também não é coisa que convença nenhum empregador numa entrevista para um cargo que pague mais do que o valor hora de uma empregada doméstica.&lt;br /&gt;O senhor Domingos foi um erro de “casting”. Administrador do condomínio durante sete anos fugiu à obrigação de convocar reuniões, cobrar mensalidades, elaborar planos de actividades e adjudicar reparações em dois prédios anteriores a 1850 que suplicam por ajuda para não caírem aos pés da esquadra de Santa Marta.&lt;br /&gt;O senhor Domingos deixou a casa toda desarrumada e agora a sindicalista deslumbrante é, também, administradora do condomínio. Onze mil euros de receitas não cobradas. Seis anos de contas por fazer. Adjudicações de suspeitas empreitadas a trolhas seus amigos.&lt;br /&gt;O senhor Domingos sorriu com a sua boca pequenina, quando escapou ileso a uma moção de censura dos condóminos pela sua fraca performance à frente dos desígnios dos prédios número 84 e 86. Pensou com os botõezinhos pequeninos da sua também pequenina camisa de xadrez – desta já me safei. Não fiz a ponta de um corno, não apresentei contas, acumulei dívidas, e estes totós nem um raspanete à minha fraquinha gestão deixam na acta da reunião.&lt;br /&gt;Saiu todo pimpão, o senhor Domingos. Nessa noite, ficou acordado até à uma da manhã; parecia uma criança em véspera do Carnaval.&lt;br /&gt;O senhor Domingos, não quero ser má-língua, deve cheirar mal da boca. Mas o pior de tudo, é que infringiu todas as alíneas do código de conduta e de ética da Ordem dos Administradores de Condomínios. É uma vergonha para a classe. Terá que ser exterminado.&lt;br /&gt;Ou então torturado com requintes de malvadez, qualquer coisa como passar à mão e com caligrafia exemplar todas as actas dos condomínios dos imóveis sitos na freguesia de Coração de Jesus. A administração de condomínios é como uma sociedade secreta, exige ainda mais fidelidade que a própria máfia. Já sei – o senhor Domingos devia ficar sentado à porta da Associação Lisbonense de Proprietários com um chapéu de burro na cabeça. Mau administrador de condomínios.&lt;br /&gt;As crianças deviam escarrar à porta do senhor Domingos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-3113203230942971303?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/3113203230942971303/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=3113203230942971303' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/3113203230942971303'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/3113203230942971303'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/02/o-administrador-do-condomnio.html' title='O administrador do condomínio'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-4071847575053064508</id><published>2007-02-27T11:33:00.000Z</published><updated>2007-02-27T11:35:22.804Z</updated><title type='text'>13 dias sem postar</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://bp0.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/ReQXV6TrGSI/AAAAAAAAAAs/XOLpn_YiJJo/s1600-h/L1070301.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://bp0.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/ReQXV6TrGSI/AAAAAAAAAAs/XOLpn_YiJJo/s400/L1070301.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5036175948503521570" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://bp3.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/ReQXSqTrGRI/AAAAAAAAAAk/CpuW7Pm5WMI/s1600-h/L1070299.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://bp3.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/ReQXSqTrGRI/AAAAAAAAAAk/CpuW7Pm5WMI/s400/L1070299.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5036175892668946706" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas já cá venho. Porque a sindicalista deslumbrante é agora a administradora do condomínio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-4071847575053064508?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/4071847575053064508/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=4071847575053064508' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4071847575053064508'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4071847575053064508'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/02/13-dias-sem-postar.html' title='13 dias sem postar'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp0.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/ReQXV6TrGSI/AAAAAAAAAAs/XOLpn_YiJJo/s72-c/L1070301.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-1731493310369779678</id><published>2007-02-14T15:08:00.000Z</published><updated>2007-02-14T15:09:16.520Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='o senhor guilhermino'/><title type='text'>O senhor Guilhermino III - a saga continua e está quase a acabar</title><content type='html'>Senhor Guilhermino, não me quer dar o seu número que eu ligo-lhe de volta, é para não gastar mais dinheiro…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O senhor Guilhermino estremeceu – contaram-se três segundos de silêncio total –, recusou-se a desligar a chamada e gaguejou qualquer coisa como eu estou de olho na porta; se a mulher entra por aqui e me apanha agarrado ao telefone é sermão e missa cantada, não sei porque tanto se amofina o raio da mulher, quem é que paga a conta, quem é que lhe paga, aliás, as idas ao cabeleireiro? (e do outro lado do bocal, numa janela sobre a Andrade Corvo, houve também uma pausa, a mente elevou-se para até ao tecto e pôs-se a visualizar um cego de olho na porta).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu é que já fazia um xixizinho, raisparta o drenante com sabor a anis, mas o senhor Guilhermino não podia arriscar desligar o telefone; sabe-se lá há quanto tempo ninguém o escutava sem delongas. Então continue, senhor Guilhermino, estou aqui, sou toda ouvidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Branco Rodrigues teve mais sorte que o senhor Guilhermino. Os pais, no final do século XIX, não o acharam amarelo, ou menos filho só porque os seus olhos nasceram sem o dom de ver.&lt;br /&gt;Branco Rodrigues, leio algures no escuro da net, enquanto danço o fandango com vontade de ir mudar a água às azeitonas (que bonita expressão) e oiço a história da vida do senhor Guilhermino contada em duas horas e picos, foi o primeiro grande impulsionador da valorização dos cegos em Portugal. Em 1896 criou uma aula de leitura e de música no Asilo de Nossa Senhora da Esperança, em Castelo de Vide. Um ano depois, numa sala cedida pela Misericórdia de Lisboa, instalou outra aula de leitura.&lt;br /&gt;No redondo ano de 1900, num andar da Escola Comercial Rodrigues Sampaio, cedido por Despacho Ministerial, abriu a Escola Intelectual e Profissional de Cegos, que esteve instalada em vários edifícios e acabou por transformar-se no Instituto de Cegos Branco Rodrigues, em São João do Estoril – a mesma casa com vista sobre o mar (muito relevante para quem não vê) onde o senhor Guilhermino teve que dormir o seu sono angélico, de 1927 a 1947, com as mãos coladas ao pescoço. Em 1903, os cegos do Porto também passaram a contar com a ajuda deste benemérito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Branco Rodrigues nasceu num berço de ouro, e gastou a sua fortuna na dignificação dos cegos portugueses. É a ele, e a um generoso funcionário da Imprensa Nacional cujo nome não aparece em nenhuma das páginas pescadas pelo Google, que se deve a primeira impressão em Braille, na viragem do século XIX, descubro enquanto escrevo tudo o que o senhor Guilhermino me conta (e, não contem a ninguém, mas ainda consigo, para além de ler, escrever conteúdos totalmente distintos, mascar pastilha com destreza).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O senhor Guilhermino não conheceu Branco Rodrigues, mas chama-lhe pai. Mas em 1947, vinte anos depois de os seus verdadeiros pais o terem abandonado numa casa onde se ouvia o rugido do mar e o pouca-terra do comboio, e terem apanhado o vapor para o calor tropical do Brasil, o senhor Guilhermino era um homem feito, vinte e sete anos de idade e uma tez mais rosada, era pois hora de partir, era a hora de partir porque havia mais cegos em lista de espera para aprenderem a ler pautas sem olhos (como raio é que um cego lê uma pauta?), e o senhor Guilhermino não teve outro remédio senão sair da sua casa, sair a contragosto, com uma mala na mão e um violoncelo noutra.&lt;br /&gt;E foi para a rua, a verdadeira casa dos cegos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então o que é que me podia esperar? Fui para a rua, fui tocar para a rua e pedir esmola. As pessoas deitavam as mãos à cabeça, diziam, não há direito, não há direito.&lt;br /&gt;Foi nesses dias, anos que se seguiram que o senhor Guilhermino conheceu a sua mulher, a tal que lavava casas a escova a dois escudos por mês.&lt;br /&gt;A minha mulher não era deficiente mental (?! Lá estou eu de boca aberta a ouvir o senhor Guilhermino), era atrasadinha, mas era muito humana, chorava, chorava mesmo muito, chorava pelos meus olhos que não a viam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu dizia-lhe: não te preocupes. Tu és a minha máquina; eu sou o teu cérebro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a vida seguia assim, ela guiava-o, era os seus olhos, e ele era o seu pensamento. Os primeiros anos de casados viveram numa casinha da câmara em parte incerta e de onde foram expulsos por circunstâncias que faltaram apurar num telefonema de duas horas com uma perfeita estranha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A coisa ficou torta numas pequeninas águas-furtadas nas Portas de Santo Antão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagino sim o que é subir umas escadas estreitinhas até ao quarto andar, senhor Guilhermino. Pois, de facto, de olhos fechados nunca experimentei…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O barulho dos canos era insuportável. Sabe que os cegos ouvem coisas como os cães, coisas que mais ninguém escuta…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida fazia-se, fez-se sempre na rua. Certo dia, depois do 25 do 4 porque o senhor Guilhermino a meio deste vórtice temporal disse maldito 25 de Abril, por isso é que eu digo: MALDITO 25 de ABRIL (está em caps, porque a voz do senhor Guilhermino elevou-se, só se eleva, de facto, para falar mal da revolução dos cravos), Gilberto Almeida Monteiro, vestia camisa branca e ziguezagueava com o seu carro pelas ruas estreitas do Intendente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este conhecido marinheiro do Intendente era um homem à frente do seu tempo. Muito antes de inventarem a PlayStation e muito menos o popular joguinho Grand Theft Auto, onde se ganham pontos a atropelar as avozinhas que passeiam seus netinhos em carrinhos de bebé, já ele fazia pontaria aos ceguinhos (que ao que constava na época valiam pontos a triplicar).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atropelou-me e ainda me chamou nomes feios. E eu também lhe chamei os mesmos nomes que ele nos chamou, ora pois, não sou de me ficar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cego tombado na calçada, mulher aos gritos, um carro de marinheiros divertidos com a cena rocambolesca (e uma série de pormenores que eu não consigo decifrar da minha caligrafia de há mais de um mês atrás). Não o deixem fugir que eu estou ferido, mas nisto sai do carro um outro de seu nome António Coelho, de camisa grenat (mais referências cromáticas vindas de um cego; é impressionante a memória visual deste cego de 87 anos), e ia a dar um pontapé na barriga da minha mulher, quando saem da taberna muitas prostitutas, que lhes cercaram o carro e deram murros no capot, e aí os valentes marinheiros trancaram-se lá dentro e já não eram tão valentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vieram dois polícias, que viram tudo mas fizeram a vista grossa, abeiraram-se do carro, eu caído no chão, e eles com as mãos atrás das costas (impressionante as coisas que este cego viu há mais três décadas atrás), era só cagufa, porque estes marinheiros eram muito conhecidos na zona do Intendente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O polícia mais novo já levava dinheiro na mão e o sub-chefe Barata, quando cheguei à esquadra para apresentar queixa contra os malandros, também já tinha a carteira bem recheada de notas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O senhor Guilhermino deve aos marinheiros Gilberto Almeida Monteiro, de camisa branca, e António Coelho, de camisa grenat, um volte-face do seu destino e da sua mulher que não era deficiente mental, apenas atrasadinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas esse, só há-de ser contado no próximo episódio da saga do senhor Guilhermino (não queriam mais nada, duas horas e meia de patuá telefónico reduzido a dois posts…)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-1731493310369779678?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/1731493310369779678/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=1731493310369779678' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/1731493310369779678'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/1731493310369779678'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/02/o-senhor-guilhermino-iii-saga-continua.html' title='O senhor Guilhermino III - a saga continua e está quase a acabar'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-6123224308452446284</id><published>2007-02-08T22:42:00.000Z</published><updated>2007-02-08T19:23:19.266Z</updated><title type='text'>Os pequenos salazares</title><content type='html'>Tenho melhor que fazer. Tenho, por exemplo, que contestar a multa de há dez dias atrás e convencer o Director Geral de Viação que fui autuada injustamente (o sacaninha do polícia vai levar na próxima lua cheia com o feitiço da impotência e ai de mim que dou em criminosa se descubro que viatura conduz ele, aqui na pacata rua de Santa Marta).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu até nem ia escrever sobre o referendo para não me chatear com os meus amigos do sim. E só o fiz porque sofro de stress pós-traumático, apesar de nunca ter interrompido a gestação de um filho meu. Sofro 15 anos depois da tarde na saleta da Paula e da descarga do autoclismo e choro descontroladamente pela minha irmã que não nasceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Irrita-me, sobretudo, que o post mais abaixo seja o mais comentado deste blogue, suplantando um dos mais bonitos e mais bem escritos desta horta (&lt;a href="http://empantanas.blogspot.com/2006/01/amores-perfeitos-no-pretrito-mais-que.html"&gt;este&lt;/a&gt;).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois tenho o comentário do Filipe a dizer que aquele foi o primeiro texto do (T)ralha que detestou, e isto apenas, presumo, porque tenho o azar de não pensar como ele, e há ainda o telefonema do Trigo de Abreu, o desaparecido Trigo de Abreu, o muito saudoso Trigo de Abreu que, por acaso, não leu o post das três dezenas de comentários, mas que ficou pessoalmente desiludido com esta sua amiga por ela no próximo Domingo ir desenhar uma cruzinha na opção Não. Debaixo de uma chuva torrencial ouço que sou irracional por votar não, que afinal não sou tão boa pessoa como penso que sou, porque tenho o desejo mórbido de ver mulheres na cadeia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um pequeno Salazar em cada um de nós.&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;b&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-6123224308452446284?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/6123224308452446284/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=6123224308452446284' title='16 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/6123224308452446284'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/6123224308452446284'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/02/os-pequenos-salazares.html' title='Os pequenos salazares'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>16</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-6501362591021733899</id><published>2007-02-07T18:13:00.000Z</published><updated>2007-02-07T18:23:36.558Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='a sindicalista deslumbrante'/><title type='text'>O cavalinho da chuva</title><content type='html'>Tirem o cavalinho da chuva, todos os que lêem esta gaita e que partilham o mesmo edifício com vista para a Andrade Corvo: ninguém, nem mesmo os sindicalistas deslumbrantes, legalmente protegidos no próximo biénio pelo estatuto de delegados sindicais, mas mesmo ninguém nestes milhares de metros quadrados pode respirar bem fundo – e não podem mesmo respirar fundo, porque a qualidade do ar, apesar de ninguém fumar despudoradamente como antigamente, é do piorzinho que já se viu, regrediu aos tempos de umas instalações na Quinta do Lambert cobertas de material radioctivo, metem 70 tipos onde havia 40 o que é que querem? –, ninguém pode miraculosamente deixar de roer as unhas por causa do nervoso miudinho, ou de sentir borboletas nocturnas no estômago encandeadas por um holofote de mil &lt;span style="font-style:italic;"&gt;watts&lt;/span&gt; sempre que o telefone toca, não pensem que ninguém vos vai chatear porque o vosso salário é uma migalha, ou que não vos vai sair a rifa porque são caladinhos de natureza e nunca levantaram ondas; pior, não se sintam protegidos pela graça do divino espírito santo lá porque são engraçados ou porque há tempos caíram em graça; por favor, nem ousem planear o nascimento de um filho ou mesmo trocar de carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho para a esquerda e está a filha do grande engenheiro. Olho para a direita e está o britânico pago a peso de ouro de 19 quilates que decidiu que o logótipo do meu jornal passa a ser um P vermelho. E se olhar para trás lá está o meu presidente. Passam o dia fechados na sala envidraçada com a vídeo-conferência ligada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém sabe o que tanto discutem, porque é que tanto reúnem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cena repete-se. E mesmo depois de se repetir 63 vezes nos últimos três meses não deixa de doer assistir às lágrimas de quem vê a dedicação de quase duas décadas de vida reduzida a um cheque do BPI.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém está a salvo.&lt;br /&gt;Hoje eu soube que ninguém está a salvo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-6501362591021733899?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/6501362591021733899/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=6501362591021733899' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/6501362591021733899'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/6501362591021733899'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/02/o-cavalinho-da-chuva.html' title='O cavalinho da chuva'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-3409593435800437245</id><published>2007-02-05T20:38:00.000Z</published><updated>2007-02-08T16:57:39.088Z</updated><title type='text'>Declaração de voto</title><content type='html'>A Célia viu-se grávida quando eu ainda só pedia três no bate-pé e passava as tardes sentadas num Morris Minor abandonado na rua 2, uma rua do Bairro de Alvalade que tem nome de poeta há muitos anos, mas que todos ainda conhecem como rua 2.&lt;br /&gt;E foi dentro do Morris, eu ao volante a fingir que sabia pôr mudanças apesar de não saber qual era o pedal da embraiagem, que a Célia nos anunciou que naquela tarde ia correr como louca, ia fazer abdominais até as suas forças se esgotarem, que ia pular na sala com uma corda de ginástica até aquilo se desprender. A Célia era ginasta de alta competição e o desmancho não ia ser feito num vão de escada, iriam bastar oito horas de treino aeróbico violento.&lt;br /&gt;E todas as ocupantes do Morris estavam lá, na saleta da Paula onde se faziam sessões de espiritismo numa mesa de pé-de-galo, quando o feto se soltou das entranhas da Célia. E todas ouviram o barulho do autoclismo e nunca mais falaram dessa tarde, aliás, nunca mais falaram umas com as outras, a nossa infância morreu ali, foi-se com a descarga da sanita e com a pasta ensanguentada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, a prima solteirona da Ana já estava habituada. Uma vez por ano, setenta contos, e um dia deitada na cama com direito às visitas de todos os familiares mais próximos no apartamento de dois quartos no subúrbio. Era esta a receita de um encontro anual com um amante marinheiro que teimava sempre em resultar numa gravidez. E eu lá os acompanhei, lençóis de flanela, acenos de desaprovação com a cabeça, a pílula, o preservativo, porquê, e as lágrimas da outra a rolarem para a base de um rosto pálido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O João diz-me na cama, saca dos seus conhecimentos de seminarista por entre o edredon, diz-me que os filhos que não nasceram ficam no limbo a tremer de frio para toda a eternidade. E eu penso na minha irmã com nome de fada que foi aspirada não fosse ser mongolóide ou coisa pior, e desato a chorar porque ela merecia o risco, merecia ter dezassete anos e eu nem sei se era uma menina, nunca tive coragem de perguntar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos vinte e quatro foi a minha vez.&lt;br /&gt;Não tomava nada, não exigi latex porque estava em rota descendente de auto-destruição, tanto fazia: diariamente engolia duas tomas de sertralina, bebia, fumava e escrevia sobre o Código do Trabalho, comprava toneladas de sapatos caros e a vida era isto, ninguém me convencia que voltaria a sorrir de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por causa de um feto estive cinco meses na cama, em casa, em repouso absoluto. Perdi o meu posto de trabalho (às 37 semanas de gravidez, saí de casa, fui a Picoas e constatei que estava tudo encaixotado e que já outro jornalista dedilhava atrás da minha coluna).&lt;br /&gt;E por duas vezes – às 24 e às 26 semanas – entrei numa urgência de obstetrícia prestes a parir, e os médicos, em Santa Maria, caso sirva de algo este detalhe, minimizaram a coisa que trazia dentro de mim, que não era viável, que o meu organismo me estava a avisar de algo que eu devia escutar e aceitar, e das duas vezes assinei um termo de responsabilidade e dei entrada numa urgência privada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu feto tem 38 mais nove meses agora. É uma menina loira de olhos azuis que herdou a mesma propensão às anginas que a mãe. Às dez semanas, eu nem tinha a certeza de quem seria o pai, mas tinha a certeza que naquele ecrã, onde fixei o olhar por dois minutos e sorri ao discernir dezenas de pontapés, estava uma vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compro menos stilettos, pois compro, o ordenado não chega ao dia 15, é verdade, ganho cabelos brancos e perco anos de vida em corredores do Tribunal de Menores e afins, oh lá lá se ganho e se perco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No sofá, cheia de febre e a dormir, está a não planeada Maria Carolina Ralha. Que eu quase perdi às 24, às 26 e às 37 semanas de gestação intra-uterina. Que me valeu uma cesariana de urgência sem anestesia e uma cicatriz no ventre [o aparelho do CTG a apitar por todo o lado, a pulsação do feto a cair dos 160  para os 60, a enfermeira Deodata a gritar chamem o doutor Moniz, a desligar os alarmes, outra a cantar-me ao ouvido uma canção do Carlos Paião, uma a rapar-me os pelos púbicos, e a minha mãe num elevador com o obstetra e eu no outro a chorar sem fazer barulho, e depois um bloco operatório de mármore rosa, o doutor Moniz com pulover de losangos, eu a dizer à Magui, não consigo respirar, e a desmaiar logo depois de ver 2,9 quilos de gente ensanguentada por cima de um lençol branco]. A Maria Carolina que, em Abril de 2003, tinha dez semanas e era do tamanho de um feijão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O (T)ralha vota não no referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez até às dez semanas de gravidez a pedido da mulher, porque acredita que cada vida é única e irrepetível e que, em concreto, aquela que dorme no sofá com uma otite e uma amigdalite agudas vale bem mais do que três pares de stilletos por mês.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-3409593435800437245?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/3409593435800437245/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=3409593435800437245' title='35 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/3409593435800437245'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/3409593435800437245'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/02/declarao-de-voto.html' title='Declaração de voto'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>35</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-1462421282187860799</id><published>2007-02-01T11:42:00.000Z</published><updated>2007-02-01T15:50:53.917Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='a sindicalista deslumbrante'/><title type='text'>O parecer e as unhas com pós de perlimpimpim</title><content type='html'>E quando a sindicalista deslumbrante pediu à sua sombra muito mais magra e muito mais loira que ele se empoleirasse no escadote centenário que veio de brinde com um apartamento pombalino em estado de semi-ruína, nada fazia prever que os astros preparavam nas seguintes 48 horas uma surpresa bem maior do que duas dezenas de vernizes de cores e feitios esquizofrénicos, guardados num baú de madeira.&lt;br /&gt;Guardados religiosamente numa pequena caixa que também esconde, lá em cima, na última prateleira, a três metros de altura, ao nível da Duque de Loulé, algum cotão de mágoas; vernizes de todas as cores, com estrelas e purpurinas, verdes, azuis, amarelos, e até uma edição especial psicadélica da Dior, que reage, ou pelo menos reagia, há cinco anos atrás, à luz negra das discotecas; duas dezenas de frasquinhos de vidro guardados na secreta esperança que um dia as unhas deixassem de se esfarelar como uma rocha de talco; escondidos no baú, fechados a sete chaves, vinte vernizes malcheirosos, dos mais caros aos das lojas dos 300, à espera que um anjo pequenito me chegasse – eu não sabia, quando os tranquei, se ia ter um anjo loiro, ou um moreno –, e dissesse assim, depois do jantar: Quero pintar as unhas para ficar uma princesa.&lt;br /&gt;A pequenota decidiu e a sindicalista deslumbrante pintou as unhas com pós de perlimpimpim. Unhas de fada, com brilhos de mil cores. E foi com unhas mágicas que a sindicalista deslumbrante se cruzou numa viagem de elevador silenciosa com o presidente do conselho de admiração.&lt;br /&gt;Ele cortou o silêncio que se ouvia num quadradinho da marca Schindler e disse: O que é que achas?&lt;br /&gt;E o que a sindicalista achava mesmo é que não o conhece de lado nenhum para o diálogo fluir na segunda pessoa do singular, e por isso cerrou os dentes quando se preparava para responder: Acho que o respeitinho é bom e eu gosto.&lt;br /&gt;Na verdade, o presidente do conselho de admiração estava à rasca porque não gostava de silêncios de elevador e, seguramente, estava-se bem marimbando para a opinião da sindicalista deslumbrante sobre umas folhas de papel  impressas a cor que vão estar nas bancas de todo o país a 12 de Fevereiro, desde que ela continue a trabalhar bem e barato e sem chatear muito, e era isso é que o fazia sorrir naquele cubículo vidrado – e o presidente do conselho de admiração tem dentinhos pequeninos, diga-se a despropósito.&lt;br /&gt;Tenho medo, disse a deslumbrante sindicalista que mais uma vez teve vontade de picotar os pulsos porque não estava mascarada de deslumbrante, estava, na realidade com o cabelo em desalinho, mas desculpou-se rapidamente a si própria, já que nada faria supor que teria encontros imediatos de terceiro degrau com o presidente do conselho de admiração, até porque ia no elevador e não nas escadas e o terceiro degrau era do outro lado, na saída de emergência.&lt;br /&gt;Tinha medo. Tinha tanto medo daquilo como de fazer um implante de silicone. É uma questão de hábito, deveria ter ela dito, teria sido a melhor resposta, e até já estava um post nesta tralha escrito sobre o assunto, rais partam que não lhe ocorreu, deve ter sido de não estar particularmente deslumbrante nessa manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O senhor H. é o Ambrósio lá de cima. Coxeando até ao novo posto de trabalho da sindicalista deslumbrante perguntou-lhe baixinho: “Então? O que é que dizia a Inspecção-geral do Trabalho?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a sindicalista deslumbrante franziu o sobrolho e não teve tempo de dizer: “Sobre o quê?”, porque o senhor H. ficou nervoso e antecipou-se com um: “Não me digas que não recebeste?”.&lt;br /&gt;A sindicalista deslumbrante gosta do senhor H. Até assumir estas lides sindicais, o contacto entre o senhor H. e a sindicalista deslumbrante era nulo, bom dia boa tarde, ah, sim, e de dois em dois anos, como manda a lei, o empregador da sindicalista deslumbrante fazia umas consultas de medicina no trabalho, e era sempre o senhor H. que as marcava, aquilo era uma fantochada, por mais que a sindicalista deslumbrante se esforçasse para chocar os médicos, eles, porém, só eram pagos para escreverem a vermelho APTO.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não tinha recebido, e nunca tinha visto o senhor H. a andar tão depressa e sem mancar. Agarrou-lhe no bocal do telefone, ligou para não sei quem, onde é que está a carta da Inspecção-geral do Trabalho, seu burro, ela já não é dessa secção há mais de três anos – e nisto, a sindicalista deslumbrante maravilhada e boquiaberta com o notável conhecimento do senhor H. relativamente ao seu percurso profissional, saberia também o seu director a mesma cronologia? –, a Diana é a presidente da Comichão de Trabalhadores, é sempre a ela que têm que ser entregues todas as cartas – e com esta de ser presidente, a sindicalista deslumbrante sorriu –, e  desligado o telefone, a carta registada apareceu como por magia no piso que fica acima do novo local de trabalho da deslumbrante defensora dos direitos dos trabalhadores.&lt;br /&gt;A sindicalista deslumbrante sentou-se numa secretária vaga da tal secção à qual não pertencia há mais de três anos. E leu. Tremiam-lhe as mãos e ela à medida que passava folhas, olhava para as unhas de fada, pintadas a pedido do anjo loiro, e pedia em segredo um milagre. Chegou à última folha, sem ler com a devida atenção as anteriores. Leu a conclusão: “sou de parecer negativo ao despedimento de fulana, por motivo de extinção de posto de trabalho.”&lt;br /&gt;A sindicalista deslumbrante chorou de alegria abraçada a uma grande repórter de olhos azuis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram os anjos que no último dia do prazo legal avisaram a sindicalista deslumbrante para chamar a Inspecção-geral de Trabalho. As tais epifanias de que ela se fartava de escrever neste blogue.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Não tinha garrafa de Veuve Clicquot para brindar. Sentou-se, no final do dia, na tasca da Dona Beatriz e bebeu um whiskey oferecido pela casa (e andava a pensar candidatar a Dona Beatriz ao concurso de melhor vizinho de Portugal no programa do Goucha na TVI). Brindou e riu com a satisfação do dever cumprido, mesmo sem saber que oito horas depois seria multada injustamente por circular na faixa do Bus, na Duque de Loulé. E ingenuamente pensou que o presidente do conselho de admiração teria mais tento na língua e que pensasse duas vezes quando lhe apetecesse dizer extinção do posto de trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era mais uma vitória, era um manguito do Zé povinho ao presidente do conselho de admiração com unhas pintadas com purpurinas de mil cores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por esse mundo fora, ainda havia muita gente que se limitava a dizer: É aquela que tem um cu grande.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-1462421282187860799?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/1462421282187860799/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=1462421282187860799' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/1462421282187860799'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/1462421282187860799'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/02/o-parecer-e-as-unhas-com-ps-de.html' title='O parecer e as unhas com pós de perlimpimpim'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-5678265968517768020</id><published>2007-01-30T17:23:00.000Z</published><updated>2007-01-30T17:25:33.498Z</updated><title type='text'>[sem] mil</title><content type='html'>Sem posts, este blogue chegou aos cem mil.&lt;br /&gt;O visitante 50 mil bisou a façanha.&lt;br /&gt;Há-de haver posts. Façanhas da sindicalista deslumbrante.&lt;br /&gt;Parabéns, (T)ralha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-5678265968517768020?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/5678265968517768020/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=5678265968517768020' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5678265968517768020'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5678265968517768020'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/01/sem-mil.html' title='[sem] mil'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-5296612003482563568</id><published>2007-01-24T15:51:00.000Z</published><updated>2007-01-24T15:52:56.005Z</updated><title type='text'>Hábito</title><content type='html'>É uma questão de hábito.&lt;br /&gt;É como lembrar-me de beber em jejum – e vinte minutos antes do almoço – a ampola laranja que queima gorduras e que sabe a capilé amargujado; é como acordar uns minutos depois das oito da manhã, ao segundo toque do despertador do Nokia azulito da saudosa lanterna (e eu continuo a recusar-me a acordar ao som do Nokia preto, o João faz-me a vontade, faz-me todas as vontades, atura todas as birras, está ao meu lado em todas as guerras, ele acerta o relógio do Nokia para as sete e quarenta e cinco, e ele toca e eu faço menu sete um um e meia cega determino que quero dormir mais quinze minutos e há de ser assim, há de continuar a ser assim, pelo menos enquanto o Nokia azul não se finar, enquanto não for lavado na máquina no bolso das calças como já aconteceu antes na história).&lt;br /&gt;Mas se calhar estes também são uns hábitos idiotas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fuma-se menos, não se fuma ainda despudoradamente, e se o cigarro se acender à revelia seguramente aqui ninguém me culpará de um qualquer cancro. Atrás de mim há uma muralha de armários cheios de pastas cobertas por um manto de pó e de cotão, à frente, a ventoinha do Cerejo, na diagonal à direita, o gabinete do chefe supremo, depois há uma sala de reuniões com videoconferência onde perdi a voz no mês de Dezembro enquanto membro eleito da comichão de trabalhadores, a janela, a única janela que vejo, a que está longe demais, mostra-me aparelhos de ar condicionado espetados nas fachadas, não há gaiolas de periquitos como em Alfama, mas há marquises e idosas a estenderem cuecas cor-de-rosa.&lt;br /&gt;Uma nesga de uma &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Livistona chinensis&lt;/span&gt; a sair de um terraço, telhas laranja brilhantes ao lado de betão e alumínio, e não vejo mais os plátanos que estão prestes a matar-me de renite daqui a mês e meio. Para quem não sabe, para quem não tem mesmo que saber, a &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Lisvistona&lt;/span&gt; é uma palmeira leque, e no fim-de-semana passado a cobertura de um prédio em Massamá ardeu, ardeu por completo, e o único ferido grave foi um polícia que se picou na perna com um ramo de palmeira, quem sabe se não seria uma &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Phoenix dactilifera&lt;/span&gt;, má sorte de um raio, nem uma queimadura para amostra, mas um arranhão de palmeira na perna a reportar, quem vai à guerra dá e leva, isto é como um bombeiro morrer afogado na albufeira, caramba, devia mas era ter estado calado, grande gozão que me saiu o médico do INEM, à frente, à minha frente, à frente da ventoinha, há televisores pequenos e uma prateleira cheia de cassetes VHS onde estão gravadas as notícias de ontem.&lt;br /&gt;É uma questão de hábito, tudo é uma questão de hábito, aposto que a jornalista que usa calças pelo tornozelo apenas o continua a fazer por hábito, não pode ser por motivos estéticos, nem pela moda, é o habito, é o monge, e eu bebo litro e meio de água com quatro colheres de sopa medidas a olho de drenante de limão, fumo menos, escrevo menos, e quase que choro quando olho para a primeira página de um jornal que há-de estar nas bancas a 12 de Fevereiro.&lt;br /&gt;É uma questão de hábito.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-5296612003482563568?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/5296612003482563568/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=5296612003482563568' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5296612003482563568'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5296612003482563568'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/01/hbito.html' title='Hábito'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-5008316131598231658</id><published>2007-01-19T15:22:00.000Z</published><updated>2007-01-19T15:24:36.669Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='o senhor guilhermino'/><title type='text'>Interlúdio</title><content type='html'>Setas.&lt;br /&gt;Há quem desenhe bolas. Outros travessões. Há ainda quem faça triângulos e outros sólidos geométricos. Não encontrei círculos.&lt;br /&gt;Esta é uma pequena amostra das folhas rascunhadas que jazem em cima das secretárias dos colegas mais próximos do meu posto de trabalho (e hoje, é o último dia em que trabalho à janela da Viriato; subi na vida, subi um piso, passo a estar bem pertinho do patrão e longe da Viriato. Lamento-o profundamente).&lt;br /&gt;Eu desenho setas. É mais forte que eu.&lt;br /&gt;Três cadernos em cima da mesa, três caligrafias diferentes a cada folha que passa, todas desenhadas pela mesma mão, mas em algumas ocasiões, a mão fez dançar a esferográfica de manhã, como numa valsa singela, noutras, rodopiou no papel com um nadinha de tensão, e então a letra inclinou-se para a direita, como num tango, e depois há uns parágrafos, praticamente imperceptíveis, em que a caligrafia teima em não caminhar direita pelas linhas azuis dos cadernos baratos; estas letras foram escritos perto da linha da morte, do fecho antecipado em duas horas por causa de um encarte publicitário, perigosamente em cima da hora de encerramento de um colégio junto à Rotunda do Aeroporto.&lt;br /&gt;Setas, setas, setas.&lt;br /&gt;Agradeço as epifanias, o sussurrar dos anjos a alertarem-me para perigos, para maldades e, por vezes, a guiarem-me às escuras até ao meu destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O senhor Guilhermino ligou o número geral. Não foi nem a Fátima nem a São que lhe atenderam a chamada, porque a Fátima e a São também se foram embora, substituídas por um gravador. Agora anda tudo doido a premir do um ao nove no teclado, geralmente desistem, mas o senhor Guilhermino deve ter premido a combinação de números que abre o cofre do tesouro – 7 - 3 - 7 – e o meu telefone, enrodilhado de fios, tocou.&lt;br /&gt;A voz era sumida, apagada, de início. O dedo indicador carregou com força numa tecla do telefone Nortel que tem desenhado uma grande coluna de audio.&lt;br /&gt;Alguém me alertou para puxar do papel e da caneta. Era, certamente, uma grande história, impublicável. Tanto pior para as publicações pagas. Ainda havia um blogue para alimentar a migalhas de serviços mínimos.&lt;br /&gt;O senhor Guilhermino ainda não tinha dito que era cego, e que as noites da sua infância tinham sido passadas com os braços cruzados ao peito, e eu não poderia sequer imaginar que os joelhos do senhor Guilhermino haviam de ser partidos por um marinheiro numa rua sombria dos Anjos. Eu não sabia nada disso, mas o papel e a caneta já estavam preparados para guardar a história do senhor Guilhermino, para gravar a sua voz sumida em letra miudinha. &lt;br /&gt;Foi no verso de um fax da câmara de Lisboa. Três páginas para três horas de monólogo telefónico. Três páginas de papel fino e brilhante, escritas com uma letra minúscula, umas vezes escritas na horizontal, como nos ensinaram na escola à força de reguadas, outras na vertical e na diagonal, porque a mão sabia à partida que a narrativa não seria linear: o senhor Guilhermino começou mais ou menos pelo início, mas logo depois foi ainda mais trás, pulou várias vezes para o presente, se não me engano conjugou verbos no futuro, recuou, andou para os lados como caranguejo. Três folhas cheias de setas, guardadas religiosamente à chave, sem as quais eu já não saberia escrever as façanhas do senhor Guilhermino.&lt;br /&gt;Andam comigo para todo o lado na mala Balenciaga. À espera do segundo capítulo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-5008316131598231658?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/5008316131598231658/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=5008316131598231658' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5008316131598231658'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5008316131598231658'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/01/interldio.html' title='Interlúdio'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-6209236073312784072</id><published>2007-01-10T16:42:00.001Z</published><updated>2007-01-19T13:35:20.086Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='o senhor guilhermino'/><title type='text'>O senhor Guilhermino I</title><content type='html'>Aparentemente, já todos tiveram que aturar o senhor Guilhermino. Mas não cuidaram de saber e muito menos de reter o nome que consta no seu assento de nascimento deste homem que nasceu em 1920, nem tão-pouco tiveram a paciência de o ouvir até ao limite de duas orelhas escaldadas e metamorfoseadas à forma do auricular de um telefone da marca Nortel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[E, entretanto, perdoem a ausência, mas houve crianças febris com amigdalites que se transformaram em otites, houve visitas surpresa de um cigano ítalo-brasileiro-irlandês no dia de aniversário do meu blogue, houve correspondência secular dos morgados de Mateus a ser revista no Ibook, e há e continuará sempre a haver corações tão secos e espalmados como os dos bacalhaus a lerem e a copiarem este blogue de fio a pavio – ai, ai, os direitos de autor –, com más intenções, com intenções cretinas, até, coisa que devia dar suspensão na Ordem dos Advogados, todo esse trabalho, um gasto supérfluo de energia para serem abatidas mais árvores (meus queridos eucaliptos, perdoem) e interpostos mais processos judiciais de má-fé, ah, sim, e há também muita estupidez à mistura, sendo que tudo isto atrasou a produção literária]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas as redacções têm um senhor Guilhermino. À parte do senhor Guilhermino, nós também temos a dona Clementina, que em 363 edições anuais impressas em papel de má qualidade, há-de nos fazer chegar pelo menos 300 cartas ao director, sim, cartas, nada de emails, mais eucaliptos abatidos, mais dividendos distribuídos à Portucel, mais um selo lambido com a língua, e no fim do ano e das três centenas de cartas, como é uma querida, a dona Clementina ainda envia uma caixa de chocolates.&lt;br /&gt;E havia também um tenente-coronel da armada que escrevia uns faxes com uma caligrafia muito bonita, mas esse estava zangado com o mundo, e com alguma empresa cotada também, se não me falha a memória.&lt;br /&gt;O Manuel Acácio, da TSF, tem senhores Guilherminos e donas Clotildes aos magotes, e eu já ouvi o caríssimo tenente-coronel através das ondas hertzianas no fórum TSF, mas o senhor Guilhermino, o meu, o que nunca ninguém teve pachorra para aturar durante duas horas e meia interrompidas por dois minutos para eu poder fazer um xixizito, é especial, deveras especial e eu descobri isso aos dois minutos de conversa e, como a conversa é como as cerejas, deixei-me estar e os meus ouvidos encheram-se de frutos vermelhos suculentos, retalhos de uma vida às cegas, que já conta com 87 primaveras apesar de o senhor Guilhermino não ter tido nunca a oportunidade e o privilégio de ver uma flor de laranjeira, ou um jacarandá em flor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É. O senhor Guilhermino nasceu cego. Amarelo e débil, acrescenta ele, o que é muito estranho, na realidade, porque o senhor Guilhermino nunca viu a cor amarela, e assim sendo, vai-se lá saber porque é que uma referência cromática se assume como facto tão relevante da sua infância, mas, se calhar, em garoto cheirou uma mimosa em flor e ficou com a ideia que o amarelo é a cor que cheira a mimosa, e a flor da mimosa cheira bem, mas o que o que é demais chateia e a mimosa em flor às vezes tresanda tanto que até faz dor de cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O senhor Guilhermino nasceu cego dos olhos, mas há cegos que vêem muito, e o senhor Guilhermino vê coisas do arco-da-velha há 87 anos, e viu-as e continua a vê-las mesmo quando está de olhos fechados, porque a si, tanto lhe faz, e Deus não dorme, como os cegos, e alguma vantagem lhes teria que dar por levarem a vida sempre às escuras.&lt;br /&gt;Infelizmente, o senhor Guilhermino teve má sorte, não por ter nascido cego, mas sim porque os seus pais sofriam de uma cegueira que é bem mais comum neste mundo e há muito tempo, uma cegueira branca e milenar.&lt;br /&gt;Os pais do senhor Guilhermino tiveram, durante toda a vida, o dom de as suas retinas reflectirem ao cérebro, através de impulsos eléctricos, as imagens de tudo o que é belo e de tudo o que é feio neste mundo, mas passaram ao lado da pessoa extraordinária que tinha uma mistura dos seus sangues e uma tez, ao que parece, um tanto ou quanto amarelada.&lt;br /&gt;O senhor Guilhermino ainda era o menino Guilhermino quando foi enxotado para uma instituição em 1927. Os pais fugiram para o Brasil com os filhos que viam o mundo a cores.&lt;br /&gt;O meu pai era maluco, fez-se um vadio e testemunha de Jeová. O senhor Guilhermino surpreende-me a cada três palavras que profere, deitado na cama, com uma voz muito apagada e rouca, sempre à cata de ver com os ouvidos se chega a senhora que trata dele, encontrada num anúncio classificado que foi publicado n’O Crime sem sucesso por mais de um ano. Não se amofine, senhor Guilhermino, ainda há pais que são vadios, ainda há pais que são malucos.&lt;br /&gt;Deixaram-me entregue àquela gente sem coração.&lt;br /&gt;Se eu estava a dormir o meu sonho angélico chegavam à camarata e destapavam-me, destapavam-nos, destapavam todos os ceguinhos. E tínhamos que dormir com as mãos cruzadas no peito, porque se eu tivesse os braços caídos, junto ao corpo, era porque estava a fazer coisas feias. Eu não sabia o que eram coisas feias. O ódio com que batiam nas crianças cegas. Precisávamos de pancada. O vigilante entrava pela aula dentro e desatava à bofetada. E a professora era ceguinha também, nada podia fazer.&lt;br /&gt;O senhor Guilhermino foi criado numa Misericórdia sem misericórdia colada ao mar em São João do Estoril, mas com mais ou menos bofetadas e lençóis destapados a meio da noite, aquela gente sem dó não embruteceu o senhor Guilhermino, que aprendeu o mais belo dos ofícios: a música.&lt;br /&gt;Não lhe valeu de muito o grau superior do Conservatório, o arco e a elegância do seu violoncelo ou dos seus dedos ágeis no marfim do piano. A vida dos cegos ganha-se na rua, mas o Salazar nunca fez mal aos ceguinhos, garante o senhor Guilhermino, que dispara contra o 25 do 4 implacável, nos contextos mais absurdos.&lt;br /&gt;A sua companheira de vida não a conheceu através de anúncio, mas andou lá perto.&lt;br /&gt;A minha mulher ganhava dois escudos a lavar casas à escova. Na terra, guardava as vacas desde os cinco anos e bebia água fresca da fonte. Veio para a cidade servir. Queres vir para a minha companhia? As mulheres dedicavam-se de alma e carinho porque precisavam, agora não precisam de nós para nada.&lt;br /&gt;As mulheres, senhor Guilhermino, precisam de se dedicar a algo ou a alguém; é esse o nosso fado, nada mudou, a conta bancária pode ter até quatro dígitos no início do mês, as contas podem até estar todas pagas, mas as mulheres precisam de se dedicar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(continua)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-6209236073312784072?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/6209236073312784072/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=6209236073312784072' title='16 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/6209236073312784072'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/6209236073312784072'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/01/o-senhor-guilhermino-i.html' title='O senhor Guilhermino I'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>16</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-7804690692717981551</id><published>2007-01-05T15:51:00.000Z</published><updated>2007-01-05T16:00:05.046Z</updated><title type='text'>Dia de blog</title><content type='html'>Faz já muito tempo, os reis magos perderam-se, há quem diga que certa noite, Belchior fumou umas coisas que não devia e viu uma constelação que nunca mais foi identificada em mais de dois mil anos de mundo, depois, como se já não fosse considerável o seu atraso para visitar o filho de Deus, entraram numa taberna e ficaram à conversa com o velho Herodes (isto lembra-me uma cantilena muito javarda, o velho Herodes já morreu, e quem se f++++ sou eu), copo 3 para aqui, copo três para acolá, e tudo perdido: só chegaram ao estábulo dia 6 de Janeiro, já o menino Jesus fazia as suas primeiras graças nas palhinhas deitado e com um cheiro de requeijão e estrume insuportável.&lt;br /&gt;Este blog nasceu há dois anos em Dia de Reis, conforme lembrou a Mary Mary tão bem num comentário lá em baixo. Eu não esqueci. Simplesmente, tenho filha doente, muito doente com a sua primeira amigdalite e a Magui instituiu que, para o ano, o Natal lá em casa é à espanhola, só se abrem os presentes no dia de Reis, sem stresses e com promoções de 70 por cento que permitem comprar mais do dobro de incenso, mirra e ouro.&lt;br /&gt;Este blogue é precioso, foi um bonito presente, eu deixo-o aqui abandonado à sua sorte e ele entra em auto-gestão; é mesmo assim que tem que ser até a pequenita ficar boa.&lt;br /&gt;E depois disso, haverá uma grande festa. Sem dúvida que haverá. Inscrições abertas, como sempre, na caixa dos comentários e no email que está por aí no lado direito em cima.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-7804690692717981551?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/7804690692717981551/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=7804690692717981551' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7804690692717981551'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7804690692717981551'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2007/01/dia-de-blog.html' title='Dia de blog'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-2917289879864011358</id><published>2006-12-28T18:05:00.000Z</published><updated>2006-12-28T18:07:29.329Z</updated><title type='text'>Sei o que fizeste no Natal passado</title><content type='html'>IP Address   213.13.127.135&lt;br /&gt;ISP   Telepac - Comunicacoes Interactivas Sa&lt;br /&gt;Visit Length   7 hours 26 mins 38 secs&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Navigation Path&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28th December 2006 10:26:48 empantanas.blogspot.com/&lt;br /&gt;papagaiomorto.blogspot.com/&lt;br /&gt;28th December 2006 15:30:06 empantanas.blogspot.com/&lt;br /&gt;papagaiomorto.blogspot.com/&lt;br /&gt;28th December 2006 15:30:47 empantanas.blogspot.com/2006/12/mensagem-de-natal.html#comments&lt;br /&gt;empantanas.blogspot.com/&lt;br /&gt;28th December 2006 17:26:36 empantanas.blogspot.com/&lt;br /&gt;papagaiomorto.blogspot.com/&lt;br /&gt;28th December 2006 17:27:58 empantanas.blogspot.com/&lt;br /&gt;No referring link&lt;br /&gt;28th December 2006 17:30:09 empantanas.blogspot.com/2006/11/o-pilinhas.html#comments&lt;br /&gt;empantanas.blogspot.com/&lt;br /&gt;28th December 2006 17:36:21 empantanas.blogspot.com/2006/11/o-pilinhas.html#comments&lt;br /&gt;empantanas.blogspot.com/&lt;br /&gt;28th December 2006 17:36:24 empantanas.blogspot.com/&lt;br /&gt;No referring link&lt;br /&gt;28th December 2006 17:40:45 empantanas.blogspot.com/&lt;br /&gt;papagaiomorto.blogspot.com/&lt;br /&gt;28th December 2006 17:40:54 empantanas.blogspot.com/2005_01_01_archive.html&lt;br /&gt;empantanas.blogspot.com/&lt;br /&gt;28th December 2006 17:41:09 empantanas.blogspot.com/2005_02_01_archive.html&lt;br /&gt;empantanas.blogspot.com/2005_01_01_archive.html&lt;br /&gt;28th December 2006 17:41:36 empantanas.blogspot.com/2006_01_01_archive.html&lt;br /&gt;empantanas.blogspot.com/2005_02_01_archive.html&lt;br /&gt;28th December 2006 17:43:32 empantanas.blogspot.com/2006_03_01_archive.html&lt;br /&gt;empantanas.blogspot.com/2006_01_01_archive.html&lt;br /&gt;28th December 2006 17:44:12 empantanas.blogspot.com/2006_02_01_archive.html&lt;br /&gt;empantanas.blogspot.com/2006_03_01_archive.html&lt;br /&gt;28th December 2006 17:44:56 empantanas.blogspot.com/2006/02/ests-cada-vez-mais-parecida-com-tua-av.html#comments&lt;br /&gt;empantanas.blogspot.com/2006_02_01_archive.html&lt;br /&gt;28th December 2006 17:45:03 empantanas.blogspot.com/2006_02_01_archive.html&lt;br /&gt;empantanas.blogspot.com/2006_03_01_archive.html&lt;br /&gt;28th December 2006 17:45:23 empantanas.blogspot.com/2006_04_01_archive.html&lt;br /&gt;empantanas.blogspot.com/2006_02_01_archive.html&lt;br /&gt;28th December 2006 17:46:12 empantanas.blogspot.com/2006_05_01_archive.html&lt;br /&gt;empantanas.blogspot.com/2006_04_01_archive.html&lt;br /&gt;28th December 2006 17:47:02 empantanas.blogspot.com/2006_06_01_archive.html&lt;br /&gt;empantanas.blogspot.com/2006_05_01_archive.html&lt;br /&gt;28th December 2006 17:52:22 empantanas.blogspot.com/2006_07_01_archive.html&lt;br /&gt;empantanas.blogspot.com/2006_06_01_archive.html&lt;br /&gt;28th December 2006 17:53:26 empantanas.blogspot.com/2006_11_01_archive.html&lt;br /&gt;empantanas.blogspot.com/2006_07_01_archive.html&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora aqui está um bacalhau seco&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-2917289879864011358?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/2917289879864011358/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=2917289879864011358' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/2917289879864011358'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/2917289879864011358'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/12/sei-o-que-fizeste-no-natal-passado.html' title='Sei o que fizeste no Natal passado'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-4667813276115847599</id><published>2006-12-26T19:40:00.000Z</published><updated>2006-12-26T19:41:46.562Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='e nada de extraordinário acontece'/><title type='text'>Maria do Céu</title><content type='html'>Maria do Céu mora nas alturas.&lt;br /&gt;Isto dos nomes tem que se lhe diga – Maria do Céu não poderia morar num rés-do-chão ou numa cave. É certo que Maria do Céu não mora no Sheraton, mas está perto dele, pelo menos. E também é verdade que Maria do céu tem mais dois pisos por cima dela e da placa de betão que é o seu tecto, mas, para efeitos da presente narrativa, decreta-se aqui que um quarto andar já não é mau, e que, com um esforço de imaginação considerável, se pode concordar com a narradora e assumir que quatro pisos já são ligeiramente próximos do céu, pelo menos se alguém se der ao trabalho de esticar um braço à janela para tentar apanhar alguma das dengosas nuvens que alcatifam o azul do horizonte.&lt;br /&gt;Maria do Céu faz tanto jus ao seu nome que tem no seu acento de nascimento como uma Anabela que, em tempos, eu via todos os dias, de madrugada, com o passe social L123 na mão, na paragem do 27 na Avenida de Roma – a Anabela era feia como uma osga, e a Maria do Céu, bem, não emana qualquer imagem celestial, aliás, e para provar que eu não sou tão boa pessoa como muitos me julgam, até há umas semanas, eu não sabia que Maria do Céu tinha essa graça, e durante uma década referi-me a ela como a olharapa.&lt;br /&gt;Deus é o melhor argumentista e a realidade bate a ficção. Depois, há uns desgraçados que têm um dom, que sugam realidade pelos poros, ou pela palhinha, que depois a digerem e vomitam algures entre o olho esquerdo e a moleirinha e, com mais uns floreados e umas destrezas técnicas na manga, é a isso se chama ficção. Estou certa que é por causa disso, e porque sei o nome de muitas árvores – há pouco, o Cerejo queria um botânico para descobrir o nome de uma espécie, para um artigo, e eu disse, sem pestanejar, Ficus Macrophylla –, que hei-de ser uma grande escritora.&lt;br /&gt;Maria do Céu passou o Natal no seu bunker, à altura de quarto piso.&lt;br /&gt;O presidente do conselho de admiração (esta é do Goiaoia e é genial) quis demonstrar que era um humanista quando se vangloriou de pulmões bem abertos e peito inchado que não despedira Maria do Céu. É graças a ele que eu sei que Maria do Céu tem esse nome no bilhete de identidade, fico-lhe agradecida, porque, até então, era a olharapa que tinha um Peugeot vermelho, e que fazia lá sabe-se bem o quê neste edifício que não é carne nem é peixe, não é novo nem é velho, e não é alto nem é baixo.&lt;br /&gt;É claro que a sensibilidade social do presidente do conselho de admiração se traduz em números. Na realidade, e tendo em conta a esperança média de vida de Maria do Céu, e o seu tom esverdeado da pele, não faltará muito para que ela vá para onde o seu nome a manda desde o seu primeiro grito. Feitas as contas, 1,5 salários de indemnização sairiam mais caro à empresa do que deixá-la estar quietinha, mas, foi uma boa tentativa, grande tentativa mesmo, essa, de tentar convencer os tontinhos de que os gestores têm coração.&lt;br /&gt;Certo é que Maria do Céu é uma funcionária exemplar:  trabalha 365 e, por vezes, 366 dias por ano. Antigamente havia uns acetatos que se chamavam fotolitos, e era Maria do Céu que os entregava em Alcântara no seu Peugeot vermelho. A banda larga matou os fotolitos, da mesma forma que a tv matou as estrelas de rádio, e a Internet anda deprimida porque ainda não matou os jornais e os livros, mas ela que se acalme e dê tempo ao tempo que ainda lá chega com mais um esforcinho.&lt;br /&gt;Mas a banda larga não matou Maria do Céu. Agora, a senhora, que leva 36 anos em cada perna arqueada, controla a impressão do pasquim, nuns barracões da Mirandela, noite a dentro, inundando as narinas de um cheirete de tinta lançada sobre papel de má qualidade. Depois, ainda os galos preguiçam aninhados com as galinhas, já a Maria do Céu ata a jornalada toda, para que quando os preguiçosos dos escribas chegam, perto da hora do almoço, não lhes falte a leitura no Lacinho ou no Fax.&lt;br /&gt;Maria do Céu tem um bunker no quarto piso. E, dentro desse cubículo, há quadros pregados nas paredes, há vasos com plantas, jarras com flores, há um iMac dos velhotes, porque Maria do Céu se recusa a converter aos PC’s, há um divã que se faz cama de solteiro num instante, prateleiras com livros e bibelots, uma televisão com um naperon de renda de nylon comprada na loja chinesa da Tomás Ribeiro, é lá que ela vive, a Maria do Céu, sozinha, foi lá que ela passou a Consoada, em paz, porque não será despedida em 2007 porque há gestores com coração de manteiga, é lá, de certeza, que o seu grande amigo, o estafeta engatatão, a vai encontrar uma bela manhã, inanimada.&lt;br /&gt;Este é um post sobre os trágicos e sobre as coisas que continuo a testemunhar num metro quadrado ao meu lado, como o homem de aspecto duvidoso que, às 20h30 do dia 24 de Dezembro, em frente ao portão do Colégio Militar, se aproximou do Idea, levantou o pára-brisas, e deixou um folheto mal amanhado de venda de cosmética Oriflame em esquema de pirâmide (podia ganhar 250 euros se arranjasse dez assessores para a Oriflame). Ou da alma que, nesse mesmo dia, e neste mesmo blogue onde pairam agora, pelo menos, um par de olhos, enfiado no edifício da Direcção Nacional da PSP de Lisboa, esperava encontrar raparigas feias fotografadas pelos namorados.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-4667813276115847599?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/4667813276115847599/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=4667813276115847599' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4667813276115847599'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4667813276115847599'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/12/maria-do-cu.html' title='Maria do Céu'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-5120979415276511432</id><published>2006-12-26T18:03:00.000Z</published><updated>2006-12-26T18:04:33.293Z</updated><title type='text'>Mensagem de Natal</title><content type='html'>Certamente já o sentiste.&lt;br /&gt;Falo da dor, da dor física que nos apanha, que paralisa todo o lado esquerdo do corpo, o lado onde bate o coração, que sufoca, que comicha até, uma coceira insuportável, miudinha, que nos chega pelo simples facto de estarmos separados por tanta terra e por tanto mar.&lt;br /&gt;Não no Natal, não só no advento, mas é no natal que tudo dói mais, que tudo alegra mais, mas por cada dor, parece-me só há 0,7 alegrias, pelo menos, comigo tem sido assim, e eu começo a acreditar que eu nasci com este nome e que ele diz tudo, resume tudo. É por estes dias últimos do calendário que a pele se eriça ao passear pela cidade iluminada e, depois... depois, tu não estás lá. Escrevem-se coisas parvas, aquela da árvore de natal foi uma idiotice, foi coisa própria do Natal e da dor, da dor de te ver tão poucas vezes, de partires mal ainda chegaste.&lt;br /&gt;Eu fujo de pensar na tua ausência.&lt;br /&gt;Penso que crescemos no momento em que não gostamos mais do natal. É o aviso de recepção, os alarmes soam por todo o lado e há sirenes que ensurdecem a ecoar pelas moléculas de oxigénio; é quando tentamos enfiar à força na mioleira que a Consoada é um dia igual aos outros e que o natal é quando um homem e uma mulher bem entenderem. Posso continuar a dizer que tenho 27 anos (não faço propositadamente; sai), mas cresci. Não gosto mais do Natal, Miguel.&lt;br /&gt;Não penses, meu querido, que o meu coração está vazio e seco. Transborda de amor. Eu nunca imaginei que pudesse voltar a rebentar pelas costuras. Está cheio do teu amor também, há-de sempre estar cheio do teu amor, assim como o da Carolina, o do João e o de tantos outros amigos que eu não tenho espaço para enumerar. É o que me salva. Eu cresci e descobri que a chave mestra, para tudo, é o amor. Por todas as coisas e, sobretudo, pelas mais pequenas. &lt;br /&gt;É essa a mensagem que te deixo este Natal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[E lamento que haja tanta gente a ler este blogue com um coração seco como um bacalhau]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-5120979415276511432?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/5120979415276511432/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=5120979415276511432' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5120979415276511432'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5120979415276511432'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/12/mensagem-de-natal.html' title='Mensagem de Natal'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-5585100921341297088</id><published>2006-12-22T13:25:00.000Z</published><updated>2006-12-22T14:41:04.112Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='a sindicalista deslumbrante'/><title type='text'>A garrafa de Veuve Clicquot</title><content type='html'>Se calhar, nunca existiu nenhum parecer jurídico de um qualquer advogado reputado neoliberal, cujo nome também nunca veio à baila. Aos poucos, a sindicalista deslumbrante perdia a sua ingenuidade e aprendia que cada cartada deste jogo traz na manga um trunfo e que a cor do seu naipe é o &lt;span style="font-style:italic;"&gt;bluff&lt;/span&gt;.&lt;br /&gt;É Natal e a sindicalista deslumbrante e &lt;span style="font-style:italic;"&gt;sus muchachos&lt;/span&gt; deram o melhor presente ao presidente do conselho de administração. Plenário para aqui, plenário para acolá, duas semanas de férias praticamente arruinadas, comunicados escrevinhados à pressa, mas que, mesmo assim, fizeram ferver o leite e saltar a tampa da panela, houve de tudo, para todos os gostos e idades: emails intimidativos na caixa de correio, bombistas suicidas nas margens do Douro, houve moções escritas a chorar, às tantas da manhã, porque até o gato morreu nas benditas férias.&lt;br /&gt;A sindicalista deslumbrante estreou a sua echarpe verde, cuidadosamente bordada por crianças paquistanesas. Disse ao presidente do conselho de administração, tinha que o dizer, também, nada a fazer, podiam vir mais emails gralhados das suas hierarquias de propósito duvidoso, podiam vir processos disciplinares, ou mesmo, um lugar longínquo no novo organigrama, mas têm um azar do caralho desta vez, é que a sindicalista deslumbrante não teme mais, entrou nesta aventura porque, olhem, foi como na faculdade, quando a sindicalista deslumbrante estudava numa escola superior muito bonita, disse um dia, estou farta desta merda, mãe, estou a desaprender, sinto-me a sufocar, e então passou a nivelar por baixo, pior era impossível, e então, tudo o que se sucedesse acima do patamar mínimo da dignidade humana era uma festa, era balões e foguetes a toda a hora, e neste caso, a jornalista deslumbrante só aceitou transformar-se em sindicalista igualmente deslumbrante, porque não tem nada, mesmo nada a perder, e foi por isso, que com os bordados das mãos pequeninas dos meninos de tez de meia de leite ao pescoço, e com um processo de cessação do contrato de trabalho por extinção do posto de trabalho a abanar e a tremer na mão direita, ela disse, teve que dizer, já que horas mais tarde, o presidente do conselho de administração estaria a brindar com uma garrafa de Veuve Clicquot Brut: “Há dias em que eu tenho vergonha de pertencer a uma empresa assim”.&lt;br /&gt;E o presidente do conselho de administração fez um &lt;span style="font-style:italic;"&gt;lifting&lt;/span&gt; imediato à testa por a ter esticado muito, e a sindicalista deslumbrante acha que o viu a encolher os ombros também e, nesse momento, achou-o parecido com o José Mourinho, mas nada, mesmo nada que ela dissesse o faria não abrir a garrafa de espumante prometida para o dia em que ele cortasse, com um aperto de mão da comichão de trabalhadores, 400 mil euros de custos fixos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-5585100921341297088?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/5585100921341297088/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=5585100921341297088' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5585100921341297088'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5585100921341297088'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/12/garrafa-de-veuve-clicquot.html' title='A garrafa de Veuve Clicquot'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-8221216006673409292</id><published>2006-12-19T19:14:00.000Z</published><updated>2006-12-19T19:15:26.674Z</updated><title type='text'>Avisito</title><content type='html'>A emissão segue amanhã.&lt;br /&gt;Sem net durante uma semana. Só fez bem à pele.&lt;br /&gt;Hasta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-8221216006673409292?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/8221216006673409292/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=8221216006673409292' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/8221216006673409292'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/8221216006673409292'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/12/avisito.html' title='Avisito'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-3653535516635845316</id><published>2006-12-12T17:08:00.000Z</published><updated>2006-12-12T17:22:24.503Z</updated><title type='text'>Para a Marta*</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://bp2.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/RX7lD5-zdcI/AAAAAAAAAAM/AnYT79PyNgk/s1600-h/3.JPG"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://bp2.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/RX7lD5-zdcI/AAAAAAAAAAM/AnYT79PyNgk/s400/3.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5007691690949178818" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Martinha,&lt;br /&gt;A Carolina está sempre a perguntar quando é que vamos andar no carrossel da Alameda com a prima Marta. Combina com o pai e com a tia e vamos todos juntos, está bem? E depois do carrossel vamos comer algodão doce cor-de rosa. Tens que dizer à Carolina que algodão doce é muito bom. A Carolina tem medo do algodão doce (e também tem medo das folhas das árvores que caem no chão no Inverno - tens que lhe dizer, como eu e o pai João dizemos todos os dias, que as folhas são bonitas e amigas, que nunca nos fariam mal).&lt;br /&gt;A Carolina gostava muito que tivesses vindo à festa de aniversário: tivemos um bolo com todos os amigos do Noddy, muitos docinhos, e dezenas de brinquedos novos para brincar. Não fiques triste - tu e a carolina vão ter muito tempo para brincar com a bonecada toda.&lt;br /&gt;Martinha, já fizeste a tua carta ao Pai Natal?&lt;br /&gt;O que é que lhe pediste?&lt;br /&gt;Sabes, eu tenho um duende meu amigo que trabalha com o Pai Natal e que, por estes tempos, nem tem tempo para dormir, tão atarefado que anda a ler as cartas de todos os meninos e a embrulhar todos os presentes que eles pedem.&lt;br /&gt;Manda um beijinho grande para a tua mana. E fica com este que te envio pelo céu, num escorrega que é um arco-íris.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espero que gostes das fotos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://bp0.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/RX7lPZ-zddI/AAAAAAAAAAU/iPt09PDS4as/s1600-h/33.JPG"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://bp0.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/RX7lPZ-zddI/AAAAAAAAAAU/iPt09PDS4as/s400/33.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5007691888517674450" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*A Marta é a mais nova das leitoras do (T)ralha. Tem quatro anos e andava a pedir à tia Marina para eu postar uma foto do bolo de aniversário da Carolina.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-3653535516635845316?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/3653535516635845316/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=3653535516635845316' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/3653535516635845316'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/3653535516635845316'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/12/para-marta.html' title='Para a Marta*'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp2.blogger.com/_ORPMKnMoXRg/RX7lD5-zdcI/AAAAAAAAAAM/AnYT79PyNgk/s72-c/3.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-2991800012441404618</id><published>2006-12-10T20:39:00.000Z</published><updated>2006-12-10T20:40:05.768Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='a sindicalista deslumbrante'/><title type='text'>O plenário</title><content type='html'>Não.&lt;br /&gt;Enganara-se.&lt;br /&gt;Não eram ainda monstrinhos, pensou o pior, pensa sempre o pior, o que é que se há-de fazer – é que está habituada, ao melhor e ao pior, um a seguir ao outro, ou mais pior do que melhor, é mesmo assim, tem que ser desta forma, ninguém pode ousar pedir o melhor e não estar à espera do reverso dessa moeda de ouro, e o melhor vale mais do que o pior, isso é uma verdade de la palisse, por isso, era quase aritmético, matemático, científico, a sindicalista deslumbrante ainda não tinha conseguido descortinado a equação, mas andava lá perto e para cada um melhor existiam, de acordo com os seus cálculos, 1,71 piores, nada a fazer, é o preço que se paga, é um preço simpático, até, que se paga.&lt;br /&gt;A sindicalista deslumbrante estava deslumbrante de corpete preto de dominatrix no primeiro plenário que convocou e que, atabalhoadamente, com o seu parceiro sindical, dirigiu.&lt;br /&gt;Não eram monstrinhos, ainda não eram, que alívio, a grande maioria não era e ninguém se apercebeu, mais de uma centena de pessoas concentrados como sardinhas enlatadas em 30 metros quadrados, ninguém deu conta de como a sindicalista deslumbrante ficou feliz que, naquele plenário, não se falasse só de trocos, de dinheirinhos, das carteirinhas de cada um. Que se falasse de pessoas, de direito ao emprego. Uma jornalista senior disse à sindicalista deslumbrante que tinha inveja dela. Tonta, a sindicalista deslumbrante pensou que ela falava da sua garra, do sangue que lhe pulsa às golfadas nas guelras, da sua coragem e inconsequência, mas não, a jornalista senior tinha inveja dos corpetes pretos de dominatrix que a sindicalista deslumbrante vestia nos plenários. Mas a sindicalista gostava de ser honesta e disse-lhe:&lt;br /&gt;Há quem ache que eu tenha um grande cú.&lt;br /&gt;Mais ou menos deslumbrante, com mais cinco ou menos cinco centímetros de anca, a sindicalista deslumbrante, com a sua equipa de inexperientes e imaturos jovens sindicalistas, conseguiu que a administração recuasse, e cada um engole como pode e consegue o ter que dar um passo atrás e o presidente do conselho de administração tentou a táctica do eu não disse nada disso, a sindicalista deslumbrante é que é muito exaltada (só lhe fica mal).&lt;br /&gt;Cada um usa os seus trunfos, mostra ou não o seu jogo, aumenta a parada ou retrai-se. Cada um tem os seus objectivos: uns têm a obsessão por uma percentagem, outros são obcecados pelas pessoas. Da sua parte, a sindicalista deslumbrante não queria louros, ou palmadinhas nas costas, não queria também abrir a sua cova, só não queria ouvir um dia destes o presidente da empresa a dizer em plenário: Estávamos à beira do precipício. Hoje, demos um passo em frente.&lt;br /&gt;Alea Jacta est.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-2991800012441404618?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/2991800012441404618/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=2991800012441404618' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/2991800012441404618'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/2991800012441404618'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/12/o-plenrio.html' title='O plenário'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-3883123814142073400</id><published>2006-12-04T23:15:00.000Z</published><updated>2006-12-04T23:17:09.298Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='a sindicalista deslumbrante'/><title type='text'>Comichão de Trabalhadores</title><content type='html'>A sindicalista deslumbrante não estava assim tão deslumbrante quando, a meio de um texto sobre projectos urbanísticos aprovados pela autarquia de Lisboa por cima do traçado da terceira travessia do Tejo e da linha de ferrovia de alta velocidade, o telefone tocou, perto da hora do jantar, e a extensão que apareceu naquele seu instrumento de trabalho de quem era quase gémea siamesa era a  do presidente do conselho de administração.&lt;br /&gt;Nada a fazer e isto que sirva de lição à sindicalista deslumbrante: eram tempos difíceis, se não fossem tempos tão bizarros, aliás, ela nunca teria sido eleita, onde é que já se viu, uma sindicalista de direita e, ainda por cima, deslumbrante, eram tempos tão conturbados que  já não restavam para amostra, sequer, ou para exposição atrás de grades com sinais evocativos para não serem alimentados, sindicalistas com patilhas e fartos bigodes, e assim sendo, a sindicalista deslumbrante acabou o texto, ainda teve tempo para sonhar acordada com uma torre miradouro da antiga fábrica dos sabões que conhecera graças aos delírios do Sá Fernandes, e teve que ir a correr para uma reunião informal e muito tardia com o presidente do conselho de administração, infelizmente, com o cabelo em desalinho e a precisar de uma lavagem urgente, que tinha sido adiada, naquele dia, por motivos imputáveis à botija de gás light da BP, que, alheia à vontade da sindicalista deslumbrante, tinha decidido ir desta para melhor, a meio do duche matinal.&lt;br /&gt;E lá se sentaram, os dois únicos representantes dos trabalhadores que não estavam de férias ou folga, numa mesa redonda, e enquanto ela, com o seu cabelo num estado aceitável para a classe, mas totalmente repreensível para o estatuto de sindicalista deslumbrante, negociava mais quatro mil euros de indemnização para uma trabalhadora a quem tinha saído a lotaria de Natal, com uma rescisão amigável do contrato de trabalho no sapatinho, absorvia, ao mesmo tempo, tudo ao seu redor, procurava sinais de que o presidente do conselho de administração era um ser humano, e para além de anotar tudo numa agenda – o economato continuava trancado para cortar custos –, conseguia também mascar pastilha e encontrou ainda as provas que procurava: lá estava, na prateleira, junto à colecção dos Lucky Lukes, a moldura de acrílico e o retrato dos três filhos do presidente, que, sabe-se lá porquê, lhes confidenciou que a mulher tinha optado por ser mãe a tempo inteiro (e ela suspirou, sem saber se de pena, ou de inveja).&lt;br /&gt;A sindicalista deslumbrante estava nisto, a saborear a sua primeira vitória, afinal o primeiro feriado de Dezembro ainda ia ser pago a dobrar, afinal, tinha valido a pena ficar sem voz durante três dias consecutivos, as mebocaínas, os mini comícios nos fumódromos e nos corredores, a empresa já não impunha, negociava, era bom, quase se esqueceu do cabelo por lavar, de não estar tão deslumbrante quanto seria desejável, quando lhe deu uma crise de urticária.&lt;br /&gt;Era a comichão de trabalhadores.&lt;br /&gt;O monstro não era o presidente do conselho de administração, era triste, mas não era ele, apercebeu-se ela, naquele instante: ele despedira 55 colegas da sindicalista deslumbrante desde Janeiro, ela não sabia e tentava adivinhar como é que ele dormia com isso, mas naquele dia, mais três pessoas tinham assinarado um papel que resumia o seu percurso dos últimos dezoito anos de vida em troca de um cheque, e, nos corredores, os outros, os que ficaram, os eleitos, exigiam pré-avisos de greve apenas porque lhes iam retirar a merda dos pagamento dos feriados a dobrar.&lt;br /&gt;A sindicalista deslumbrante ouviu coisas do arco da velha e era aquelas pessoas que ela representava: despeçam lá quantos quiserem, mas não se atrevam a cortar-me o feriado, ouviu ela, ou, os que foram despedidos estavam mesmo a pedi-las, coisas que nem ela, sindicalista de direita ousara pensar, nos seus delírios neo-liberais. Um departamento inteiro daquela empresa ia ser extinto nos próximos meses e só se ouvia falar de greve por causa do pagamento dos feriados, era tão triste, era a natureza humana, o que é que a sindicalista deslumbrante estava à espera, mas quem é que, afinal, são os monstros?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-3883123814142073400?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/3883123814142073400/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=3883123814142073400' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/3883123814142073400'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/3883123814142073400'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/12/comicho-de-trabalhadores.html' title='Comichão de Trabalhadores'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-4329991404063397654</id><published>2006-11-27T23:07:00.000Z</published><updated>2006-11-29T17:46:03.063Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='e nada de extraordinário acontece'/><title type='text'>Alcagoitas</title><content type='html'>Parece que isto aconteceu na divisão criminal da Polícia de Segurança Pública, num barracão junto ao Tejo, onde vagueiam ainda milhares de almas de bacalhaus que ali foram salgados há décadas atrás.&lt;br /&gt;Ela lembra-se da cena algures na Praça de Londres, mas esse cenário é absolutamente impossível, porque eles não estiveram na Praça de Londres, nem nesse dia, nem em dia nenhum.&lt;br /&gt;Isto foi coisa mágica, e fiquemos, então, com a versão do barracão da PSP, e não nos banquinhos do jardim da Praça de Londres, com vista para a Igreja.&lt;br /&gt;Ela devia estar a ler o já muito ultrapassado romance de Elsa Raposo com o professor de surf - a revista já tinha uma semana e a Elsa Raposo já estava a decorar o apartamento no Parque das Nações de um amigo de longa data que se tornou amante de um dia para o outro (ainda nem o laser tinha pagado o nome do professor de surf das suas costas) -, à espera de prestar declarações a propósito de uma notícia que escrevera sobre Óbidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sua metade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pareciam gémeos siameses, onde estava um encontravam o outro, ela gostava de o ter sempre por perto, e à noite, em noites difíceis, já havia poucas noites dessas, mas de vez em quando voltavam a assombrá-la, isto foi um momento muito bonito, ela nem devia estar aqui a reproduzi-lo para a multidão silenciosa e para os brasucas ávidos de saber em que dia é que se monta a árvore de Natal (eu cá acho que é no dia 1 de Dezembro; este ano antecipei-me, mas sempre montámos a árvore no primeiro dia do último mês), ela estava com a cara enterrada na almofada, a chorar baixinho, e murmurou, dá-me a tua mão, não me largues a mão, e dormiram assim a noite toda, sim, tal e qual como siameses&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;matava a espera, brincando com os sinónimos e com as letras das palavras cruzadas, e perguntou, achou que, obviamente, ela não saberia, lançou: regionalismo algarvio ara amendoins.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela respondeu não sei (tinha a mente presa no Tallon, que apesar de ter três filhos com a Catarina Fortunato de Almeida, conseguiu anular o seu casamento), e na fracção de segundo a seguir disse alcagoitas.&lt;br /&gt;Pôs a mão à boca, bateu-lhe, na boca, não ao gémeo siamês, e ele nem podia acreditar que ela tinha encontrado a solução, sem sequer lhe ter dado uma ajuda, que era uma palavra grande que tinha um t e um g.&lt;br /&gt;A questão é que ela nunca ouviu falar em alcagoitas, até hoje, nunca tinha escrito a palavra alcagoita.&lt;br /&gt;Isto saiu-lhe da boca para fora e ela tem quase a certeza que tudo se passou na Praça de Londres.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-4329991404063397654?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/4329991404063397654/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=4329991404063397654' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4329991404063397654'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4329991404063397654'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/11/alcagoitas.html' title='Alcagoitas'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-2335394321803000442</id><published>2006-11-27T22:26:00.000Z</published><updated>2006-11-29T15:13:00.812Z</updated><title type='text'>O pilinhas</title><content type='html'>Foi um golpe baixo: ele disse, gordura é formosura, era uma provocação e ele quis magoá-la, mas ela é gorda há 28 anos, já está habituada, e faz já tanto tempo que ela convive com as suas ancas largas e com um rabo que só cabe com uma grande angular, quanto aquele em que tem um dedo que adivinha - é o mindinho da mão direita, e foi a sua avó Zá que lho passou quando morreu -, que lhe sussurou ao ouvido, no instante em que o outro lhe chamou de gorda, que o administrador da empresa onde labuta e onde vai deixar de ser paga a 200 por cento nos feriados, não estava nada à espera de uma sindicalista de direita tão deslumbrante, no seu vestido colante de malha preta, e o dedo disse-lhe que ele não se lembra dela gorda, lembra-se de alguém com algum domínio assaz assustador da legislação de trabalho portuguesa, e com lata suficiente para, na primeira reunião, lhe dizer que, se no início da carreira lhe chamavam "the union man", isso era um ímpeto de juventude que, certamente, já lhe tinha passado.&lt;br /&gt;Pois então, finalmente, o indivíduo achou o (t)ralha, e vai utilizá-lo em Tribunal para lhe tentar tirar a custódia da filha, alegando que ela é bipolar, ah, isso e porque ela não lhe corta as unhas e não lhe dá banho, que maravilha, às vezes, diverte-a, diverte-a mesmo muito, diverte-a tanto que até lhe voltou a voz que a reunião com o administrador lhe havia levado com as cheias, mas então, toma lá esta: ela podia ter-lhe respondido que constava no mercado que a sua namorada dava ares de vacalhona (estou a citar, alguém me disse) e que usava vestidos com folhos em casamentos pseudo-chiques onde não havia comida suficiente para os convidados. Mas não, utilizou o penúltimo trunfo, foi mesmo mesmo um golpe baixo, e, por isso, há-de haver alguém, neste preciso instante, que se mira escondido na casa-de-banho de um T3, com vista para a Calçada de Carriche, através de um espelhinho de aumento, daqueles de depilar as sobrancelhas. É que ela foi mesmo má, às vezes, era assustadoramente má, mas já lhe andaba para dizer isto há uns bons três anos, e era agora ou nunca: escreveu no teclado do seu novo Nokia, que já não era azul, mas sim da cor do petróleo e que, infelizmente, já não tinha a funcionalidade de lanterna, e isto, camandro, era quase escusado, era coisa que não se fazia nem ao pior inimigo, mas ela dedilhou e frase fez quase música: ela podia até ser gorda, e formosa, sim senhora (e mais segura do que algum dia esteve), mas ele tinha pilinha de chinês. Minúscula e fininha. E ele, agora, neste instante, ainda está na casa-de-banho, com a fita métrica caída no chão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-2335394321803000442?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/2335394321803000442/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=2335394321803000442' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/2335394321803000442'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/2335394321803000442'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/11/o-pilinhas.html' title='O pilinhas'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-4584598657575529112</id><published>2006-11-23T23:52:00.000Z</published><updated>2006-11-24T08:37:14.251Z</updated><title type='text'>Sanchas</title><content type='html'>Isto tem que ser dito, porque vale, certamente, 50 visitas por dia neste blogue, mais de metade do total deste canto semi-moribundo, largado à mercê das ervas daninhas: há muita gente neste mundo do Blogger e da Google (que, no fundo, são um só, mãe e filho) preocupada com ‘o dia de montar a árvore de Natal’.&lt;br /&gt;São todos brasileiros – o meu vizinho do restaurante Andaluz garantia-me há uma hora atrás, que o Juliano, que não sai detrás do balcão, e por quem a Carolina tem uma paixão assolapada que me permite ter discussões acesas com o meu noivo sobre o referendo do aborto, é brasileiro, mas é um moço muito bom, como já não se encontra, o que significa que, então, para o vizinho, todos os brasileiros, à excepção do Juliano, são uns malandros pagodeiros -, e é nesta casa que saceiam todas as suas dúvidas natalícias inquietantes. Encantada por poder ajudar tanto brasileiro em apuros.&lt;br /&gt;E, se alguém, por exemplo, se desse ao trabalho de pesquisar no Google por ‘sanchas’, este território também será uma espécie de santuário, um reservatório de conhecimentos inúteis. Ninguém sabe o que são ‘sanchas’, à excepção da &lt;a href="http://lcego.blogspot.com"&gt;Lúcia&lt;/a&gt; querida, que vive lá longe nas montanhas, e quando vou, armada em porco boletreiro farejá-las ao Mercado de Alvalade Norte, tenho que dizer que procuro 'míscaros', que são cogumelos distintos das ‘sanchas’, mas só se estivesse em Viseu é que alguém saberia o que são ‘sanchas’ e, nesta cidade, tenho que falar em código e dói-me misturar alhos com bugalhos, porque 'míscaros' é uma coisa e ‘sanchas’ é outra, completamente diferente (descobre o João, outro dia, que, na Finlândia, é um prato típico e que se colhem em Agosto – a fixar, esta informação inútil, pode valer outros três ou quatro leitores ávidos de informações idiotas que não lembram ao menino Jesus).&lt;br /&gt;E depois de pedinchar pelas ‘sanchas’, com a voz afectada de quem nasceu e cresceu no Bairro de Alvalade, já sei, já conheço, já vi este filme de trás para a frente e da frente para trás, qual vai ser a resposta da feirante: que a chuva as apodreceu, que em cinco quilos dois se aproveitam, que nem vê-las no MARL, que os cabrões dos franceses nos levam as 'sanchas' de cá para fora para prepararem pratos minimalistas, decorados com raminhos de cebolinho.&lt;br /&gt;Ainda há o Corte Inglés, temos sempre o Corte Inglés, é mesmo a última esperança, mas as 'sanchas' vêm ao cair da castanha, já não há nada a fazer, é um acto de fé inútil, um gasto de energia escusado, e isto é muito preocupante, é mesmo muito, porque no ano passado só comemos ‘sanchas’ uma vez, e este ano parecemos grávidas rabugentas com caprichos impossíveis de atender (Ambrósio, apetecia-me algo, e bardamerda para o Ferrero Rocher, eu quero ‘sanchas’, ‘sanchasssss’), e não tarda, para o ano, talvez, terei de apanhar uma low cost, e voar até Paris para buscar o raio dos cogumelos verdes cobertos de areia, para a Magui me ensinar a lavá-los e cozinhá-los com carne de porco, chouriças e toucinho.&lt;br /&gt;E isto é um pesadelo, é coisa para ataque de pânico e para respiração para dentro de um saco de papel: se a Magui morresse hoje, eu nunca mais comeria 'sanchas', da mesma forma que a Magui nunca mais comeu filhós de abóbora de forma no Natal, porque a avó Tóia não chegou a perder dez minutos e ensinar-lhe a fazer e fritar os doces de Natal (claro que, em matéria de ensinamentos, já decidi que vai ser a Dona Beatriz, do tasco aqui de baixo, que me vai ensinar a fazer rosetas de crochet, porque com a Magui é mesmo impossível, tenho a autoestima em baixo, peso quase oitenta quilos, e a educadora da minha filha mandou uma ficha a dizer que a minha loira não tem o domínio da língua portuguesa que seria desejável para a idade, portanto, não suporto a rejeição de não conseguir aprender por artes mágicas – porque ela não ensina, limita-se a executar a velocidade suprasónica à frente dos meus olhos – a fazer rosetas de crochet; e aqui para nós que ninguém nos ouve, não sei porque me dou ao trabalho: as crianças chinesas têm imenso jeito e vendem-se rosetas de todas as cores nas lojas chinesas a um euro cada dez).&lt;br /&gt;As coisas perturbadoras não param por aqui. Nem sei bem por onde começar. A Polícia Municipal de Lisboa rebocou o meu carro, que estava estacionado em frente a uma garagem abandonada e, por isso, estou 120 euros mais pobre. E, também, pela mesma razão, e porque ainda falta uma semana para o dia de São Receber, amanhã já não vou à despedida de solteira da Joana e, calma, calma que isto ainda piora, não posso comprar um vestido novo, nem ir ao cabeleireiro para chegar mais ou menos deslumbrante à boda da minha querida amiga.&lt;br /&gt;Amanhã, não sou gaja, não sou nada, se não tratar, dois anos depois do que seria previsto e lúcido, do selo de residente do Marquês de Pombal, na EMEL, lá para o lado da rua dos Douradores.&lt;br /&gt;Mas, de vez em quando, volto ao Statcounter, não tal febrilmente como nos dias em que escrevia 1,3 posts por dia, com uma extensão mínima de oito mil caracteres e, assim, descubro que sou a primeira dos links de um blogue coqueluche de esquerda (continuo a não linkar ninguém; continuo a achar que é o low profile que me impede do despedimento por justa causa), e que, noutro, de direita, também estou na molhada de blogs que para lá estão pregados com cuspo. Pela parte que me toca, os links aqui apresentados à direita estão todos ou quase todos semi-mortos, mas vossemecês não perdiam nada se dessem um pulo ao novo blogue do &lt;a href="http://arranha-ceus.blogspot.com/"&gt;Telescópio&lt;/a&gt; .&lt;br /&gt;À noite, porém, apesar de já ter ultrapassado a ‘ressaca’, e de te aprendido que mais vale viver do que escrever, continuo a sonhar com templates. Hoje sonhei com um bem branquinho, onde as palavras se encavalitavam em linhas tortas, desenhadas em Garamond.&lt;br /&gt;O mundo é um local injusto, a sério que é, e não me lembro nada de ter escrito neste quintal que corria na máquina do café que o meu chefe era 'roto', mas tenho, na outra janela, atrás desta, 250 páginas de (t)ralha para cortar para metade, são mais ou menos dois anos de abismo, e quase já não me lembrava que tinha escrito tanta merda, o preocupante é que me parece tudo mau, ou sofrível, pois parece, e para além de despedida, vou ser, também, deserdada, mas, talvez, em Garamond fique mais apresentável e com uma capa bonitita talvez venda mais do que cem exemplares.&lt;br /&gt;Corro para o meu sono de beleza. Amanhã, é bem provável, que seja ainda um dia bem pior que este. Menos mal, porém, pagam-me amanhã para escrever sobre as luzes de Natal.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-4584598657575529112?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/4584598657575529112/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=4584598657575529112' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4584598657575529112'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4584598657575529112'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/11/sanchas.html' title='Sanchas'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-2925764828820518423</id><published>2006-11-22T22:11:00.000Z</published><updated>2006-11-22T22:16:28.149Z</updated><title type='text'>Princesar</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger2/6694/1216/1600/princesar.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger2/6694/1216/400/princesar.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;É um verbo inventado por uma Ralha, a Isaura.&lt;br /&gt;Devia passar de mãe para filha, a partir de agora, passa de mãe para filha. Consiste, logicamente, no acto de embonecamento de meninas muito pindéricas, que adoram pinturas, ganchinhos, colares e brincos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-2925764828820518423?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/2925764828820518423/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=2925764828820518423' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/2925764828820518423'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/2925764828820518423'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/11/princesar.html' title='Princesar'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-5873978136876368560</id><published>2006-11-21T17:09:00.001Z</published><updated>2006-11-22T22:17:19.315Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='professor de filosofia'/><title type='text'>O professor de Filosofia (fim)</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O professor de filosofia chorou. E ninguém estava à espera disso, houve um silêncio constrangedor quando ele irrompeu em lágrimas, apertando o embrulho que eu lhe entregava, à altura do seu peito, em nome de toda a turma.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O professor de Filosofia, cujo nome não era Carlos Pedro, mas, para o efeito desta série de posts, era quanto baste e até resultava bem, ia casar-se. E os seus alunos troçavam, conjecturavam nos intervalos passados na fila do pré-pagamento da cantina para comprar a senha do almoço, ou uma bola de Berlim ainda quentinha para quebrar o jejum da manhã, quem seria a aberração que se submeteria a viver sem televisão, no meio do silêncio e dos livros do professor de Filosofia, mas no fundo, o professor de Filosofia era estimado e muito respeitado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Sabe-se lá de quem foi a ideia. Provavelmente foi minha, é bem capaz de ter sido. O professor de Filosofia foi um grande mentor, uma pessoa importante para o desenvolvimento da minha personalidade, apesar de não me conseguir recordar do nome dele. Fez-se uma vaquinha. Cada um deu o que pôde, e até as Ameixoeiras, que o odiavam, contribuíram. Não era muito dinheiro, mas deu para comprar uma caneta Parker, de tinta permanente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O professor de Filosofia não estava à espera, suponho que tenha sido a beleza do simbólico e do ridículo de uma caneta Parker azul-escura que o tenham comovido. Há-de haver muito boa gente que ainda se lembra disto, quero acreditar que não sou só eu, há-de haver muito boa gente que até se lembra do nome do professor de Filosofia e que, de vez em quando, chega a casa com um presente inesperado, só porque se lembra das lágrimas do professor espartano, cuja face, toda ela parecia que lutava contra aquela emoção enquanto eu lhe estendia o embrulho à altura do peito.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Não há mais nada a dizer sobre o professor de Filosofia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-5873978136876368560?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/5873978136876368560/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=5873978136876368560' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5873978136876368560'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5873978136876368560'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/11/o-professor-de-filosofia-fim.html' title='O professor de Filosofia (fim)'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-222626876849305065</id><published>2006-11-21T16:46:00.001Z</published><updated>2006-11-21T16:46:45.650Z</updated><title type='text'>O retrato</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Foi uma pergunta desnecessária, no fundo, o telefonema da véspera, à hora do almoço, a pedir-lhe que levasse consigo a máquina fotográfica digital fez antever o filme todo, tim tim por tim tim. A pergunta deveria ter sido outra, mas as perguntas são como as respostas, as melhores chegam sempre tarde demais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Deveria ter perguntado porquê eu, porque é que me coube a mim, que não sou nem nunca fui a favorita, a fazer-lhe o retrato, e não para que é queria ele a fotografia. O meu avô Ralha, que nunca me ralhou, vestiu-se a rigor, com o fraque, colocou ao peito todas as condecorações de mérito que o Estado português lhe deu, e concedeu-me 20 disparos, em pouco mais de dois minutos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;“É para os meus netos se lembrarem sempre de mim assim”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;É terrivelmente fotogénico, aliás, como todos os Ralhas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-222626876849305065?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/222626876849305065/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=222626876849305065' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/222626876849305065'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/222626876849305065'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/11/o-retrato.html' title='O retrato'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-274998214768308721</id><published>2006-11-14T20:27:00.000Z</published><updated>2006-11-14T22:47:10.518Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='e nada de extraordinário acontece'/><title type='text'>A Viriato irisada</title><content type='html'>Cada um descomprime como bem entende e lhe apetece, quem gosta não olha e se acham que eu tenho um pirolito a menos, pois bem, isso afecta-me tanto como um &lt;span style="font-style: italic;"&gt;stiletto&lt;/span&gt; de biqueira afiada pelo Blahnik, ou seja, nada, mesmo nada, é que a gente já sabe que faz parte do pacote, a dor e os bichanados dos outros a dizerem que devia morar na avenida do Brasil – e eu aí tenho que dar a mão à palmatória e à menina dos sete olhos, ameaças comuns da avó Tóia na minha primeira infância, e concordar com essa teoria: a Magui tem na avenida do Brasil um apartamento devoluto de seis assoalhadas, uma casa onde a mãe da Cristina se penteou durante décadas pelas mãos de um cabeleireiro chamado Florindo, e a casa tem um belo logradouro onde eu podia encaixar todos os meus amigos à volta de uma mesa rasca de plástico comprada nalguma sucursal de hipermercados do patrão, e a Carolina podia rir com todos os seus dentes de mentirosa à mostra, para a fotografia, num vaivém frenético de um baloiço, ou na vertigem da descida de um escorrega; a felicidade cabia toda naquele quintal da Avenida do Brasil -, e é claro que a Isabel soube, quando saía do táxi da Retalis, à porta do número 13, que só havia uma pessoa capaz de estar a soprar bolas de sabão da janela. Eu.&lt;br /&gt;Há quem faça de escriba o dia todo sem pensar na coitada do terceiro piso a quem tiraram o computador e o posto de trabalho. Nada disto me espanta já. Penso, repenso nos últimos dois meses, geralmente, não chego a nenhuma conclusão, e então, estendo a palma da minha mão direita amiúde para ver se adivinho quando é que me oferecem 1,5 salários para que eu deixe de me queixar na Internet, para quem quiser ler, que ganho 4,54 euros à hora e que chega ao dia 15 e eu tenho dez euros para me governar. E perco-me, também, em labirintos psicadélicos com espelhos mágicos que me emagrecem num segundo os quinze quilos que devia perder, a magicar qual será o requinte de malvadez com que me hão-de dar a notícia e dizer-me que a porta da rua é serventia da casa – adianto desde já que arrancar as unhas já não vale a pena porque, deve ser castigo divino por algum dos meus imperdoáveis pecados, e esta semana parti a três unhas praticamente a meio do sabugo (adoro esta palavra). Eu gostava que amestrassem dois &lt;span style="font-style: italic;"&gt;grand danois&lt;/span&gt; arlequins com problemas de identidade, que se julgassem São Bernardos, e que me trouxessem ao pescoço um cantil proposta lá dentro enroladita. Ou mudando a conversa da água para o vinho, ou neste caso, dos cães para os gatos, gostava que contratassem os felinos que se dizem fedorentos para fazerem um &lt;span style="font-style: italic;"&gt;stunt&lt;/span&gt; só para mim, à entrada do primeiro piso, que envolvesse a máquina do café, já agora, electroméstico laboral que eu tão bem domino. Nesse dia, se calhar nem regateio 1,7 salários por cada ano de vida, e crio o blogue (T)ralho.&lt;br /&gt;Cada um descomprime como pode.&lt;br /&gt;E quando a hora de fecho se antecipa duas horas, como se de uma directiva comunitária se tratasse para acertar todos os fusos horários dos 25, tenta-se de tudo: vasculha-se o ebay à procura de santas Martas &lt;span style="font-style: italic;"&gt;kitsch&lt;/span&gt;, recortam-se imagens &lt;span style="font-style: italic;"&gt;naifs&lt;/span&gt; dos lenços de namorados minhotos para parir um original convite de casamento, mas a mala de uma mãe é como um ovo kinder, uma surpresa, e um brinquedo (ainda não é um chocolate, mas lá havemos de chegar um dia), e acabou por salvar a tarde: quando pus a mão lá dentro e tacteei, sem medo que esta fosse engolida por um monsro, à procura de um maço de cigarros finos, acabei por encontrar um frasquinho de plástico com água e sabão, corri logo para a janela – é a dois passos, não foi grande o exercício, mas vá lá, dêem-me o esconto -, o cenário era o mesmo de todos os inícios de tarde, uma fila interminável de carros e de luzes encarnadas do pé que não sai do pedal do travão, e com um sorriso tolo na cara, que hoje me dei ao trabalho de ensopar com base e &lt;span style="font-style: italic;"&gt;blush&lt;/span&gt;, soprei. Soprei com requintes de mestre vidreiro as mais belas bolas irisadas que a Viriato já viu.&lt;br /&gt;O Afonso, que nos arruma os carros e que tem mau vinho logo ao início da tarde, lançou lá debaixo os braços aos céus e gritou com a voz já muito arrastada pelos vapores etílicos: A minha rua está tão lindaaaaa. E com os olhos erguidos ao céu encoberto, abençoou os criativos; abençoou-me a mim. O Zé, que estava na janela de cima, a dar de comer ao seu cancro de pulmão com um Ventil original, dos que vêm em maços molinhos e não em caixas de cartão, pediu-me em casamento. A Isabel estava bonita, mesmo muito, e só olhou para a varanda para confirmar que era eu a doida.&lt;br /&gt;Cada um faz o que pode, pelo menos enquanto não se deixa alhear pela realidade. A Viriato parou de sangrar naquele instante e todas as tristezas voaram para longe e rebentaram no chão, como as bolas de sabão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-274998214768308721?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/274998214768308721/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=274998214768308721' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/274998214768308721'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/274998214768308721'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/11/viriato-irisada.html' title='A Viriato irisada'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-3459515617888762021</id><published>2006-11-11T20:19:00.003Z</published><updated>2006-11-11T20:19:45.950Z</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='50.000'/><title type='text'>O vereador dos espaços verdes</title><content type='html'>Ele era o vereador dos Espaços Verdes e ela desconfiava que o til do seu apelido era uma personalização subtil para efeitos de marketing, e sempre que pensava nisto – era geralmente o Word que a punha a matutar sobre o assunto, porque insistia em não deixar que o senhor se chamasse Prôa – dava-lhe ganas de alterar o nome na carteira jornalista para Raglia, porque ela queria ser uma mama siciliana, de formas generosas e cabelos lustrosos ondulados sobre todo o comprimento das costas (para efeitos do personagem, ela queria também um rubi no anelar da mão direita e cem miligramas de silicone em cada mama).&lt;br /&gt;Era quase perturbadora esta revelação, mas ela estava convicta que ele gostava de ser o vereador dos Espaços Verdes – o restolho do bolo do poder autárquico. Mas esta assunção vinha de uma alma que escrevia sobre os passeios esburacados e sobre os jardins em desalinho na rubrica do jornal de referência, cujo nome era um trocadilho linguístico fácil mas até feliz. E ela, tal como o vereador, também gostava de ser a tipa dos mil e quinhentos caracteres do InfelizCidades. Mudara ligeiramente a cidade com mil e quinhentos caracteres paginados a duas colunas em negrito. Era o seu espaço (T)ralha, mal impresso em papel que esborratava as mãos e que, pensava ela, poderia ser lido, não pelos seus cem leitores diários do Blogger, mas sim, no limite, por 35 mil pessoas por dia – que isto, já se sabe, só o Correio da Manhã é que vende 110 mil exemplares.&lt;br /&gt;Sem saber, o vereador dos Espaços Verdes tornou-se uma peça fundamental da história extraordinária que se segue.&lt;br /&gt;Para comemorar a Primavera, e porque ainda não estava afectado pela rinite alérgica que lhe traziam os choupos, ordenou à empresa subcontratada pela autarquia, que plantasse, na véspera de dia 21 de Março, 50 mil flores na avenida que, em tempos, foi o passeio público e que, hoje em dia, apesar dos bonitos desenhos de calçada portuguesa, tinha o epíteto da mais poluída via da cidade.&lt;br /&gt;Andavam os jardineiros com o cú virado para a lua que estava quase cheia, a plantar ciclames coloridos, sob o olhar assustador do marquês e do seu leão, quando às quatro da manhã, o jardineiro chefe disse um palavrão porque só tinham trazido 49.998 vasos. Mas a aprendiz sabia que naquela noite tinham que ser mesmo cinquenta mil, por isso, dividiu dois ciclames brancos, os mais repolhudos, em quatro, e sorriu, apesar da dor nas cruzes, ao cobrir as duas últimas covas com terra húmida.&lt;br /&gt;Quarenta e seis segundos depois das quatro badaladas que os carrilhões da Basílica da Estrela entoaram, fazendo guinchar os pavões do Jardim Guerra Junqueiro, a Avenida da Liberdade estava mais bonita do que com as iluminações de Natal. Nesse segundo, um homem escreveu um ponto de exclamação no seu teclado.&lt;br /&gt;Era o leitor 50.000.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Continua. Esta história é para a minha filha Carolina. Para ela acreditar em contos de fadas)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-3459515617888762021?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/3459515617888762021/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=3459515617888762021' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/3459515617888762021'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/3459515617888762021'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/11/o-vereador-dos-espaos-verdes.html' title='O vereador dos espaços verdes'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-5462934538642533559</id><published>2006-11-07T22:50:00.000Z</published><updated>2006-11-07T23:25:44.365Z</updated><title type='text'>Árvore de Natal</title><content type='html'>Foi em Novembro, no início, depois das bruxas e do dia de todos os santos, eu sei porque nessa noite, ao luar, deitei sete gotas de cera num prato de água e a letra que me apareceu não era um P, e com a raiva, e porque eu sempre acreditei em magia, deitei a água pela janela e lamentei ter testado o nosso destino na primeira noite do penúltimo mês do último ano antes da passagem do milénio.&lt;br /&gt;Lembras-te, a nossa primeira árvore de Natal, com anjos de todas as cores, de três pelo menos, eu sei que sou exagerada, perdoa, mas havia encarnados, verdes, prateados, dourados, e também havia azuis se não estou em erro, e bolas de vidro, comprei-as num saldo no Carrefour, nessa altura eu fazia alegremente o meu enxoval, a vida era tão simples quanto isso, arrastava-me, contrariada, a um curso que desprezava, trabalhava à tarde no diário de referência, um trabalho meramente maquinal, que fazia em dezassete minutos úteis e que me rendia quarenta contos, a segunda década da minha vida tinha acabado de começar, não riscava anos na parede, e a primeira peça do enxoval que comprei foi um tabuleiro e um relógio de cozinha do Marks and Spencer e depois a Magui deu-me os lençóis que ela bordou no colégio das Doroteias no Sardão, e a árvore de Natal, em Novembro, na primeira semana de Novembro, um disparate, parecíamos crianças na véspera de Natal, a um canto de uma casa vazia, sem móveis, a nossa primeira casa, que visitávamos de semana a semana só para ver as luzes a piscar, sentados no chão às escuras, e eu não sei o que te passava pela cabeça, mas eu sonhava com uma casa no campo, uma lareira, um rebanho de filhos e de cães.&lt;br /&gt;Hoje é sete de Novembro. Provavelmente, há sete anos atrás, já estava no chão, contigo, a ver a árvore dos anjos, das bolas de vidro que fazem um barulho lindo quando caem no chão, e dos laços de fita de organza dourada que eu própria fiz.&lt;br /&gt;Precisava de fazer hoje a árvore de Natal. Sabes, acho que perdi um amigo, o amigo, aquele que está gravado no telemóvel há dez anos como alma gémea, não sei como foi, há amigos que deixamos ir em silêncio, ainda agora o telefone tocou e eu não atendo números privados, não sei que me deu, e estive a falar ao telefone com aquele, que, outrora, foi a minha alegria no trabalho, o outro Pedro - e depois há a segunda alegria no trabalho, que também é Pedro, e que eu já estou a ver o filme todo, vamo-nos falar de ano fiscal em ano fiscal, isto, pelo menos, se ele não aprender a declarar ele próprio o seu IRS pela Internet, e Deus queira que não, ou pelo menos que se faça de parvo, que finja que não sabe -, e ainda bem que já tinha feito a árvore de Natal e que o chão já estava cheio de purpurinas vermelhas que vão andar a voar, como plumas, durante meses pelas assoalhadas tortas da minha casa centenária, a minha primeira casa, porque dois amigos, ter a revelação diante dos nossos olhos, ouvidos e de todos os outros sentidos que a distância nos levou de mansinho, sem avisar, sem chatices, ou discussões, dois amigos, é uma dor que trespassa, coisa que só deixa de arder como uma boca cheia de piripiri, com uma árvore de Natal ao pé da janela.&lt;br /&gt;Quantos mais amigos vou eu perder?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-5462934538642533559?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/5462934538642533559/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=5462934538642533559' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5462934538642533559'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5462934538642533559'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/11/rvore-de-natal.html' title='Árvore de Natal'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-3924411037631860157</id><published>2006-11-06T10:12:00.000Z</published><updated>2006-11-06T10:36:11.540Z</updated><title type='text'>Emergência</title><content type='html'>Gosto de escrever Estefânea. À moda antiga.&lt;br /&gt;Era uma menina, veio de Sigmaringen&lt;span style="font-size:+1;"&gt; &lt;/span&gt;para casar com D. Pedro V, o Esperançoso, e quando cá chegou indignou-se com a javardagem que por aqui se passava, ao ver crianças e adultos coléricos amontoados indiscriminadamente nas enfermarias nauseabundas. E, então, como era pequenina e franzina, mas não era de modos, pegou no seu dote de casamento e disse ao maridinho com o seu sotaque germânico: toca lá a fazer-me o gostinho e construir um hospital pediátrico.&lt;br /&gt;A pobre Estefânea morreu pouco depois, ainda criança, não chegou a ver o seu hospital de pé.&lt;br /&gt;Eu visitei-o pela primeira vez na passada sexta-feira. Passei lá 18 horas. Não me quero armar em Jack Bauer, no genérico do 24, mas foram, talvez, as horas mais difíceis da minha vida. Foi a primeira vez, em quase três anos, que entrei numa urgência.&lt;br /&gt;Encheu-me de orgulho, a pequenina. Não chorou quando a picaram, esteve sempre muito serena. No fim, disse, aos enfermeiros so SO, "Obrigada a todos" e despediu-se da cama onde esteve a soro um dia inteiro com um "adeus caminha".&lt;br /&gt;No rápido caminho até casa, descobriu os semáforos: os meninos vermelhos, os meninos verdes, mas gosta sobretudo dos intermitentes, que ainda não decidiu se são amarelos ou cor-de-laranja. Mas, no Fiat, no semáforo do Largo do Andaluz, houve uma emergência, a minha, saí daquele pesadelo de mais de 24 horas quando ela cantou, muito pálida, com olheiras até ao queixo, roxas: "ser amigo dos animais é fácil".&lt;br /&gt;Agora, estou eu doente. É mais que justo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-3924411037631860157?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/3924411037631860157/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=3924411037631860157' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/3924411037631860157'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/3924411037631860157'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/11/emergncia.html' title='Emergência'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-6047375791406599615</id><published>2006-10-30T20:26:00.000Z</published><updated>2006-10-31T16:39:07.689Z</updated><title type='text'>Bocarras</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O Ricardo estava aflito, um erro de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;casting&lt;/span&gt;, uma brincadeira de mau gosto, nada mais, nada menos, do que um menino largado nas mãos daquele tonto, e, caramba, era um menino feio, daqueles muito inchados e roxos em que os familiares e amigos apenas conseguem esboçar um “que querido”, colados ao vidro do berçário da maternidade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Catrefadas de caracteres,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;(no jornalismo, a prosa mede-se nesta unidade. Em vez de dá-me aí 250 gramas desta merda é mais, arranja-te como quiseres, enche chouriços, mas preciso de três mil caracteres mais entrada para ontem. E, com tempo, aliás, mentira, o que me falta é mesmo inspiração e não o tempo, irei escrever neste buraco escuro onde já só pairam meia dúzia de almas resistentes, o poder de mil e quinhentos caracteres numa página par, aquela que, dizem as estatísticas, é menos lida nos jornais)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt; um trabalho sobre spreads, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;taeg's&lt;/span&gt;, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;tanb's&lt;/span&gt;, armadilhas pérfidas escondidas na banda magnética do cartão de crédito e no dinheiro fácil conseguido por telefone sem perguntas indiscretas, através do chamariz de anúncios idiotas, e ainda há pouco tempo eu era jornalista de economia, melhor, ainda há pouco tempo fiz um crédito à habitação, por isso, acabámos por comemorar seis meses de estado de graça total, com o Ricardo, no Magnólia, com tostas de presunto à frente dos narizes, no local onde, outrora, há muito tempo atrás mesmo, eu comia com o Zé Ralha, elaboradíssimos gelados durante o Inverno, na defunta cafetaria do Londres.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Uma tosta de presunto finíssima, coisa de autor, de fast food armada em slow food, cogumelos e courgettes, e eu disse-lhe, fora de brincadeiras, quase com o mesmo tom que o André lançou à mesa de um recanto escondido no Bairro Alto, que estava com vontade de um rock rural algures entre as flores e o Corvo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se eu me tornar redundante, se me passarem um cheque para a mão, já sei o que vou fazer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;E sem mais &lt;span style="font-style: italic;"&gt;suspense&lt;/span&gt; disse&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Abro uma loja de vestidos de noivas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos eles acham que sou muito cosmopolita, e que sou intensa, culta, e mais umas quantas inverdades – eu sou apenas uma rapariga que sonhava ser maquilhadora, na primeira infância, costureira, na pré-adolescência, e cantora de fado, em plena idade do armário –, mas com uma loja de vestidos de noiva, a vida levava-se como um conto de fadas, imaginem só as histórias bonitas que eu ouviria todos os dias, entre provas, saiotes, cetins e tules. Não viveria rodeada de pulhices, rasteiras, mentiras, apenas felicidade absurda todos os dias da minha semana.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Algures entre as sombras, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;batons&lt;/span&gt; e os &lt;span style="font-style: italic;"&gt;blushs&lt;/span&gt; da minha mãe, os tecidos e as máquinas de costura Singer com que me entretinha tardes a fio a fazer vestidos para a Barbie, eu quis ser voz de desenhos animados. E é sobre essa vocação que versa este &lt;span style="font-style: italic;"&gt;post&lt;/span&gt;, só que, claro, tenho que dar uma volta muito grande aobilhar grande para lá chegar (e isto lembra-me também que estou preparada para acabar a saga do Professor de Filosofia).&lt;br /&gt;Eu não sou nada, reparem bem, a ideia da loja de vestidos de noiva é capaz de ser a melhor dos últimos tempos. Sou a miúda que se vai casar, eventualmente, se o dinheiro se dignar a armar-se em papo seco e a multipilicar-se sem razão aparente, ao som de gaitas de foles no jardim da Estrela, e cujo momento alto do dia é à noite, quando me sento à mesa de jantar e pego na pinça de gelo e na pinça da salada e as transformo na família Bocarras – Bocarras júnior, a pinça de gelo, mais meiga, com uma vozinha aguda e irritante que gosta de oferecer Smarties no final de uma refeição degustada sem queixumes; e Bocarras pai, vozeirão rouco, humor negro, apetite obsessivo por pezinhos de crianças loiras, e uma antipatia nata pelo João, a quem insiste chamar de palerma.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Os Bocarras fizeram com que a Carolina voltasse a comer. São apenas pinças de gelo e da salada, que intimidam o anjo loiro a mastigar e engolir a comida, sob pena de levar uma trinca no rabo de uma pinça de salada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Como a comida já fria, sem graça, para fazer os Bocarras (ainda não como cabeças de peixe, logo, ainda não faço grandes sacrifícios enquanto mãe). Escavaco a garganta a fazer a voz do Bocarras pai, mas a temperamental pinça da salada não me faz pior do que as duas dezenas de cigarros que me ajudam a passar as horas numa redacção em pé de guerra.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;E depois, vou com o Bocarras Júnior pescar com o pacote de Smarties à despensa onde as putas das formigas atacam tudo o que está fora de tupperwares hereméticos, e cada vez tenho mais certeza que uma loja de vestidos de noiva é que era.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: 11pt;" lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-6047375791406599615?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/6047375791406599615/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=6047375791406599615' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/6047375791406599615'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/6047375791406599615'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/10/bocarras.html' title='Bocarras'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-4125695107579983787</id><published>2006-10-26T20:22:00.000+01:00</published><updated>2006-10-26T21:36:24.444+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='e nada de extraordinário acontece'/><title type='text'>Arco-íris</title><content type='html'>Talvez eu devesse contar-vos, à boleia do segundo episódio seguido de Noddy que passa na televisão bordeux, e que traz à metade loira de mim a história do arco-íris mágico do país dos brinquedos e do tesouro escondido algures atrás de uma colina onde ele nasce, sobre o céu de milagre que se decidiu abater sobre nós, sobrepondo-se ao cinzento carregado dos céus chuvosos de Leiria, quando decidimos arredar o pé da cidade que tem um estádio encarnado encostado a um castelo, com todos os sentidos embriagados e quase enternecidos pela docura e mau gosto indescritível do casal de idosos proprietário do café Sem Niveau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinais de Deus é o que é.&lt;br /&gt;Que me dizem que a escolha de um vestido de linhas simples, sem bordados, rendas ou mariquices à revelia e sem a opinião das três madrinhas, a 110 quilómetros de Lisboa, não foi um erro, uma compra por impulso, e que talvez o véu com as rendas de guipure cor de sangue sejam apenas o que falta para compor a imagem da virgem que eu gostaria de ter sido - o amor, repito, nunca é tarde demais para me auto-plagiar, até porque o joão Pedro George não é meu leitor e dificilmente me irá dissecar o blogue, o amor é directamente proporcional às golfadas de sangue que se está disposto a derramar, e era isso que o véu debruado a sangue poderia querer significar no dia em que passo de SOL para CAS no bilhete de identidade - o dia em que a minha filha voltar a ter o nome com que nasceu será igualmente solene, talvez dos melhores da minha vida, mas isso é daqui a muitos anos, quando eu já tiver o cabelo todo grisalho e, provavelmente, a tapar-me o rabo, numa espécie de promessa.&lt;br /&gt;E que o noivo, ah, que coisa tão pirosa de se escrever, melhor que isto só a minha manicure que tem uma série de unhas partidas e descuidadas - em casa de ferreiro espeto de pau, já diz a preciosa ajuda dos ditames populares -, que em 15 minutos de manicure fast food que transformam as minhas mãos, e mesmo antes de eu desembolsar 4,5 euros pelo serviço ultra-rápido e milagroso, é capaz de dizer uma média de 55 "o meu esposo", que o homem tímido de cabelos dourados e revoltos que, contra todas as superstições viu o vestido da noiva, é o homem da minha vida.&lt;br /&gt;Mas, francamente, para sabê-lo, para ter essa certeza, não precisava de um arco-íris sobre uma rotunda de acesso à autoestrada, à saída de Leiria.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-4125695107579983787?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/4125695107579983787/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=4125695107579983787' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4125695107579983787'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4125695107579983787'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/10/arco-ris.html' title='Arco-íris'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-6818346767606784448</id><published>2006-10-23T22:58:00.000+01:00</published><updated>2006-10-25T12:21:31.153+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='e nada de extraordinário acontece'/><title type='text'>Pequenos apontamentos de beleza</title><content type='html'>E no meio de tudo isto há apontamentos de uma beleza simples, da que dói, e que são da mesma matéria que o suicídio premeditado da octogenária que se chamava Maria Teresa de Jesus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(foi mesmo assim. tirou os anéis dos dedos, o fio de ouro do pescoço e em último lugar a aliança, e alinhou-os na bancada da cozinha. subiu à banqueta, tirou os pés dos chinelitos de fazenda, fez questão de os colocar perfeitos na perpendicular e só depois fez aquilo que tinha a fazer, aos primeiros pingos de chuva que lhe caíram na cara)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um telefonema ao início da manhã, a valsa de Amélie em toque monofónico a sair da mala Todds que viajou dos Emirados Árabes Unidos para o meu ombro direito há mais de três anos e nunca mais de lá saiu, tudo isto no Lidl de Alvalade, que é um Lidl mais ou menos decente, com um rácio equilibrado de gente feia por metro quadrado, o meu outro ombro, o esquerdo, eriçado, com frio, junto à arca e às salsichas alemãs refrigeradas, para ser exacta, a minha mãe a chorar, eu a pensar que tinha morrido algum gato, e ela diz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a Dona Teresa mandou-se da janela,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e nesse momento, a força é-me arrancada das pernas como num roubo por esticão, num micro-segundo vejo à minha frente o sorriso precioso da minha vizinha em frente aos iogurtes de aromas a 1,49 euros, as doze unidades, e noutro, logo a seguir, transporto-me para o futuro, para o dia em que a Magui há-de partir, muito curvadinha e velhinha, e sei que, nesse instante, as pernas não vão só ficar trémulas, vou ficar tetraplégica por alguns minutos, talvez horas, e cair estatelada no chão sem conseguir chorar ou dizer uma palavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chorar no corredor dos congelados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas porque é que ela faria isso, mamã?&lt;br /&gt;E o João a abraçar-me, e eu a tirar os packs de quatro leites de chocolate radioactivos que deixam manchas que não saem nem à força da lixívia, eu sem acreditar, a chorar com soluços, e os fregueses de Alvalade a passarem com os seus cestos do Lidl sem sequer olharem para trás, como se fosse perfeitamente curriqueiro, ordinário, comum, que alguém irrompesse em lágrimas junto à pimenta e à mostarda. E o João a chorar também, parece-me, e isto é coisa de amor gigante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, as lágrimas de crocodilo, as lágrimas de crocodilo são também belas, quem me disser o contrário não sabe do que fala, eu estive hipnotizada no lencinho de mão da carpideira réptil que sempre quis mal à minha querida vizinha, que me contou a Magui, era enfermeira. A vizinha. Não a carpideira. E as capelas da Servilusa, na Igreja hedionda de Santa Joana Princesa, onde, outrora, durante muitos, muitos anos, havia um canavial pegado à Quinta dos Lagares d’El Rei, as capelas com tapetes de arraiolos no chão e serviço de cafetaria na &lt;span style="font-style: italic;"&gt;mezanine&lt;/span&gt;, e o sermão despropositado do padre a quem não terão, certamente, dito que a defunta era uma velhinha voadora desesperada, que ninguém decide quando é a hora de morrer, belíssimo, estaria bêbedo, e a minha boca aberta de espanto, tudo perfeito, a começar na racha na parede ao meu lado, como se naquele instante tivesse havido um pequeno terramoto, e o filho da dona Teresa, no fim, a dar-me uma palmadinha no ombro e a pedir,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não chore,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e depois, logo a seguir a mim, a ir socorrer depressa a empregada, a mulata escultural de traseiro que não obedece às regras básicas da gravidade, que trouxe um enorme ramo de orquídeas com um laçarote roxo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(a dona Teresa gostou muito delas)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o pai da Isabel, a quem chamavam cachalote fora d’água na quarta classe, a Isabel que, agora sim, está disforme e parece ser minha mãe, que numa aula de olaria respondeu à pergunta&lt;br /&gt;o que é a lambugem?, com a simplesmente genial reposta, A lambugem é para lambujar o barro.&lt;br /&gt;Toma lá, que a miúda nem era nada parva e não se sintam diminuídos se não souberem o que é lambugem, eu também não vou dizer porque não sou nenhum dicionário, só que a Isabel teve um filho do mecânico da rua em idade imprópria, mas o seu pai, que surpresa incrível, é cangalheiro e eu conhecia-lhe apenas os dotes de mago com os mais pequenos, mas, afinal, até faz bastante sentido - mortos, bebés, são todos anjos, e o senhor de baixa estatura e de armações dos anos 70 tem esse fado nesta vida.&lt;br /&gt;E há um vestido de noiva, o mais simples e o mais barato de uma loja nos arredores da feia Leiria, que o Leonardo insiste que é bonita apenas porque aquele pedaço de terra onde seria bem-vindo um tsunami é teimosamente conservador. E há uma demanda pelo véu perfeito, com renda de guipure, ou veneziana. E um café de fino mau gosto, obra de autor, inenarrável, coisa para foto-reportagem detalhada, os estuques nos tectos, as pedras nas paredes, a escolha cromática, os tecidos, os bibelots, as plantas de plástico, um espaço que é um vórtice, uma outra dimensão, e que, num toque de fairplay incrível, colocou no letreiro comercial o seguinte nome de baptismo: Sem Niveau.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-6818346767606784448?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/6818346767606784448/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=6818346767606784448' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/6818346767606784448'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/6818346767606784448'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/10/pequenos-apontamentos-de-beleza.html' title='Pequenos apontamentos de beleza'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-2091192980820239713</id><published>2006-10-20T20:29:00.000+01:00</published><updated>2006-10-20T20:36:16.110+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='e nada de extraordinário acontece'/><title type='text'>Simples</title><content type='html'>Foi tão simples quanto isto, levantou-se, chovia, e era um dia bom para morrer. Chovia que Deus a dava, alguém choraria por ela assim, os céus vestir-se-iam de cinzento muito escuro e chorariam por ela durante dois dias e duas noites. Soube, na noite anterior, no boletim meteorológico, que também os ventos se levantariam por ela, rodopiando e arrancando telhados de zinco e chassis de auto-caravanas, foi tão simples que dói: olhou-se ao espelho, cabelo branco em desalinho, sobrancelhas cinzentas escuras, um buço que teimou em grudar-se debaixo do nariz e por cima da boca depois da menopausa, lavou a cara e sorriu, o dourado dos caninos de metal precioso onde fixava a esquelética reluziu como se fizesse sol junto à banheira, despediu-se da empregada, deu-lhe a folga merecida, adeus e até amanhã, fechou a porta à chave, sentou-se no sofá, ao seu lado estava o fantasma do seu companheiro de olhos azuis turquesa, e na alcatifa, o arfar do espectro do cãozito schauwzer anão que os acompanhou na entrada da terceira idade, levantou-se, tocou ao de leve, um roçagar, nas paredes que o seu marido construiu a pulso, foi à cozinha, bebeu um copo de água, deixou a porta do armário aberta, espreitou, do alto de um nono andar, o jardim enlameado e as arvorezitas que daqui a cinquenta anos serão finalmente gente e sombra, abriu a janela, não pensou em nada, não chorava, subiu à banqueta, fechou os olhos e decidiu que a vida acabava num voo rápido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este blogue está de luto carregado. Porque foi assim. Simples.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-2091192980820239713?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/2091192980820239713/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=2091192980820239713' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/2091192980820239713'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/2091192980820239713'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/10/simples.html' title='Simples'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-1360470833540100982</id><published>2006-10-14T19:13:00.000+01:00</published><updated>2006-10-15T17:42:53.092+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Rapariga peculiar'/><title type='text'>Rapariga peculiar</title><content type='html'>Ela é uma rapariga tão peculiar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Canta Mozart no fumódromo, ao fim-de-semana, e, em dez minutos da sua hora de almoço, faz uns cartazes giros para convocar eleições para a Comissão de Trabalhadores, pior, voluntaria-se para a dita cuja CT, só que a vontade de subir para cima de um armário, pode até ser o do economato fechado a cadeado, e gritar a password do seu Compaq (é o seu calão favorito) é cada vez maior, e, sim, ela fala como um carroceiro, uma asneira feia a cada sete palavras, fala demais, é uma pena, devia aprender a estar calada, sobretudo, a calar as suas mãos muito magras, e é arrogante, por um lado, insuportável, julga que todos são uma cambada, e gostava de saber revirar os olhos (só os revira, instintivamente de prazer, disseram-lhe) e suspirar "Que gente", e por outro, por outro, é a mais doce das criaturas, entrevista os loucos desta cidade, e, parece que a esposa do patrão leu dois mil caracteres que ela publicou por descargo de consciência, ciente que nada do que escreve muda a realidade, e que o Aníbal já não vai morrer num quarto pestilento onde se passeiam ratos despudorados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizem-lhe, em tempos foram colegas de secretária, dizem-lhe, és uma rapariga tão peculiar, mas o extraordinário não é que lhe tenham batido palmas no trânsito enquanto ela cantava Mozart porque não tinha cigarros na mala e porque o demónio do estacionamento não estava acordado, nem que, atónito, com a mesmíssima melodia, um outro condutor tenha enfaixado o céu pára-choques na traseira de um veículo que seguia a sua frente. O que é verdadeiramente assombrador não é que ela cante, escreva, pinte, dance, ame, viva, erre, lute, sofra. É que tenha sido uma criança a escrever a dita cantilena.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-1360470833540100982?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/1360470833540100982/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=1360470833540100982' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/1360470833540100982'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/1360470833540100982'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/10/rapariga-peculiar.html' title='Rapariga peculiar'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-2668321940456830657</id><published>2006-10-14T18:35:00.000+01:00</published><updated>2006-10-14T18:48:43.690+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='e nada de extraordinário acontece'/><title type='text'>Salmoura</title><content type='html'>Os amigos riram-se bem alto quando ela disse que a vida lhe era madrasta e que, agora, todos os dias pareciam sextas-feiras treze, que os azares se sucediam em catadupa um atrás do outro, tanta má sorte apenas porque o patrão fechou o armário do economato à chave e ela, assim, já não podia ser feliz às custas de roubar material de escritório.&lt;br /&gt;Crise, ditaram eles, e agora já não mais podia armazenar caixas de clips na gaveta da secretária, nem levar pilhas para o comando do televisor lá de casa (infelizmente, não havia no armário pilhas para o vibrador, era à sua custa e à de pilhas alcalinas das lojas chinesas que se perdia em prazeres solitários).&lt;br /&gt;Estavam racionados, os clips, as canetas e os blocos de folhas muito finas, e ela não sabia se havia de rir ou de chorar quando o guardião do economato lhe ordenou para estender a sua mão direita em concha e lhe depositou meia dúzia de exemplares de design ordinário, muito brilhantes, contabilizados sem margem para desperdícios.&lt;br /&gt;Esta era mais uma das suas estapafúrdias interpretações da realidade e do destino, mas a melhor de todas as histórias mirabolantes, pelo menos dos últimos tempos, era a perturbação que lhe causou um episódio que aconteceu numa tasca onde a cozinheira abusava do sal e em que todos os petiscos eram servidos em salmoura.&lt;br /&gt;Naquele dia, sugerira ao senhor Zé para colocar um aviso na porta da tasca a proibir a entrada de hipertensos, mas o senhor Zé não era dado a ironias, na verdade, nem sequer ouviu o que ela disse, presumiu que fossem duas doses de febras, uma Coca-Cola e uma água do Caramulo (no final, uma das bicas seria com adoçante). É que nesse dia era dia de cozido, e em salmoura ou não, a casa estava a abarrotar, e o senhor Zé achava-se telepata, ou isso, ou leitor de lábios, como um surdo.&lt;br /&gt;Aquele casal gosta mesmo de febras, dizia o pessoal da tasca na paz do rescaldo dos almoços servidos à base de sal marinho, mas o que eles não sabiam é que nem importava se a carne era tenra, ou sola de sapato, se era saborosa ou sensaborona, o que interessava mesmo era a dose diária de cloreto de sódio que tinha que ser ingerida, sob pena de uns tremeliques e dores de cabeça durante a tarde.&lt;br /&gt;Numa mesa próxima da nossa heroína, num destes dias, em dia de cozido, um casal almoçava com o seu par de filhos. Já estavam bem aviados, pensou ela, olhando para a mais velha, uma miúda doce, agarrada ao calor do regaço da mãe, e um terrorista que teimava em fazer que faz com o hambúrguer que jazia no prato, sentado ao lado do pai. Uma mãe de cabelo curto preto e feições finas desenhadas numa pele branca e um homem com físico de segurança de discoteca, mas vestindo calções de malha. Os opostos atraem-se, lembra-se ela de pensar, sorrindo para o loiro chupado com quem decidira casar.&lt;br /&gt;E como a criança que comeu todas as batatas fritas, mas não tocou na carne picada, implorou por um arroz doce, ela reparou no casal. Arroz doce era a droga, era o melhor da vida, e injustamente a balança laranja e o metabolismo lento como um caracol proibiam-na de se deleitar com o petisco. Por isso, e só por isso, memorizou o casal com o casal de filhos, e depois não se queixe, é que assim não há espaço suficiente para armazenar datas dos aniversários dos seus amigos, mas voltando ao que interessa, todos eles, o casal e o casal de petizes,  falavam francês, se bem que o homem de porte de gigante também verbalizava num português sem sotaque.&lt;br /&gt;E isto seria apenas mais uma informação irrelevante, não tivesse o casal francês bisado na tasca da salmoura, desta vez sem o casal de filhos, e não tivesse o destino feito das suas e sentado o casal dos heróis desta história lado a lado com o casal francês.&lt;br /&gt;Nesse dia, 13, por sinal, dia de aparições de Fátima, já se adivinhava algo estranho:  não pediram febras e o senhor Zé sorriu com malícia ao gritar o pedido para a copa da cozinha. Infelizmente, a escolha do cardápio, rolos de porco à Mexicana, vinham com pouco sal, mas realmente assustador nessa curtíssima hora de almoço foi que o casal falava francês desta vez expressava-se em castelhano perfeito.&lt;br /&gt;O barulho da sala era estridente, rais'parta mais o cozido que lhe enchia a tasca pacata, era demais para um ouvido direito com uma otite aguda, e de repente, a heroína zangou-se com o seu amor, porque ele foi mau, analisado a frio, até foi bondoso como só ele sabe ser, apenas quis que ela não sofresse se o mundo não fosse o lugar menos mau que ela estava a defender que era, amuou, e conseguiu estar dez minutos sem abrir a boca, ou a abri-la apenas para entrar a carne insonsa.&lt;br /&gt;E nisto, ouviu castelhano ao seu lado direito, da boca do casal que há uma semana falava fluentemente francês. Perdeu o equilíbrio, não sabe se foi da otite, mas ouviu o zumbido que a costuma avisar que está eminente a perda de sentidos, e distintamente, no fundo de uma sinfonia desafinada que pairava naquela tasca, lá da última mesa do restaurante, como se tivesse audição suprasónica, ouviu uma jornalista a falar do cavalo Mister Ed.&lt;br /&gt;Não desmaiou e, das duas uma, ou tantas vezes se abeirou da loucura que algum dia a asa da cantarinha tinha que se partir, ou tem mesmo que se obrigar a comer comida salgada, muito salgada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-2668321940456830657?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/2668321940456830657/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=2668321940456830657' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/2668321940456830657'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/2668321940456830657'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/10/salmoura.html' title='Salmoura'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-5045457690246780680</id><published>2006-10-11T12:39:00.000+01:00</published><updated>2006-10-11T12:43:26.258+01:00</updated><title type='text'>Uma dúvida que me atormenta</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger2/6694/1216/1600/Kim%20Jong.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger2/6694/1216/400/Kim%20Jong.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;De que marca são os óculos escuros de Kim Jong-ll? &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-5045457690246780680?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/5045457690246780680/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=5045457690246780680' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5045457690246780680'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5045457690246780680'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/10/uma-dvida-que-me-atormenta.html' title='Uma dúvida que me atormenta'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-8078912283788514348</id><published>2006-10-10T20:51:00.000+01:00</published><updated>2006-10-10T20:58:47.995+01:00</updated><title type='text'>COR*</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger2/6694/1216/1600/dor%20e%20cor.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger2/6694/1216/400/dor%20e%20cor.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; Depois de um dia infernal e de uma notícia que há-de fazer rolar cabeças. E olha para a minha cara de satisfação de tramar espartalhões, mas, na verdade, o melhor momento do dia foi a resposta à secretária de&lt;br /&gt;-- E qual é o motivo do contacto?&lt;br /&gt;-- Corrupção.&lt;br /&gt;(silêncio)&lt;br /&gt;-- Peço, então, que transmita o recado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Carolina Oliveira Ralha. Tem uma sigla muito mais feliz que a da mãe.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-8078912283788514348?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/8078912283788514348/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=8078912283788514348' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/8078912283788514348'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/8078912283788514348'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/10/cor.html' title='COR*'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-3986260822535580383</id><published>2006-10-10T11:56:00.000+01:00</published><updated>2006-10-10T12:13:03.861+01:00</updated><title type='text'>E se Cavaco não vai à Liberdade, a Liberdade vai até ele</title><content type='html'>Cavaco Silva não vai visitar hoje o Bairro lisboeta que, ironicamente, foi chamado de Liberdade. Cavaco Silva não dá cavaco ao Bairro da Liberdade, mas eu aproveito para lhe dizer que, na Liberdade, há um homem, seu homónimo, ex-combatente do Ultramar, um homem tão doce como eu nunca vi, que me beijou a mão e se pôs de joelhos aos meus pés na esperança que eu lhe desse uma casa onde não tivesse que ter medo que as ratazanas lhe comessem as orelhas durante o sono, porque esta noite, Aníbal Barata dormiu num colchão que partilha com percevejos. Esse homem, senhor Presidente, na assoalhada com pouco mais de seis metros quadrados sem janela onde "vive", tem posters da Amália e també seus - são as personalidades que ele mais admira, e nem que fosse por isso, apenas por isso, o senhor deveria ir cumprimentá-lo e, já agora, se não fosse pedir muito, fazer um telefonema para que este homem deixasse de viver como um animal num esgoto (sei lá, qualquer buffet de luxo do Estado pagaria um quarto e assistência médica a Aníbal Barata).&lt;br /&gt;Se Cavaco não põe um pé na Liberdade, eu levo-lhe uma rua da Liberdade até a si, faço visita virtual a um bairro que os meus olhos não estavam preparados para ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[Este trabalho foi publicado no PÚBLICO de 29 de Janeiro. Texto: Diana Ralha Fotos: Rui Gaudêncio]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;À espera da Liberdade&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/1600/louco1.0.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/320/louco1.0.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;A última favela de Lisboa. A primeira também. Enraízada nas costas de Monsanto e aos pés do Aqueduto das Águas Livres. Com vista para o Tejo e para toda Lisboa. Irónica escolha de palavras: um milhar de lisboetas vive em condições idênticas às da Revolução Industrial num bairro chamado Liberdade. Esperam-na há mais de 50 anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Um trabalho de Diana Ralha [texto] e Rui Gaudêncio [fotos]&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há coisas que os olhos não estão preparados para ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/1600/parafern%3F%3Flia.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/320/parafern%3F%3Flia.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Um milhar de pessoas a viver na companhia de ratos, percevejos, imundice, escombros e entulho. Imagens de Fátima e fotografias de Amália espalhadas pelas paredes, numa espécie de culto, de fé inabalável. Bibelôs, muitos, cisnes, cães, gatos, de vidro ou de porcelana, apinhados em uma, no máximo de duas assoalhadas com pouco mais de cinco metros quadrados.&lt;br /&gt;Habitações que não são mais do que corredores, sem janelas, com as paredes pintadas de cores vivas e salpicadas de bolor. Divisões versáteis e minúsculas, que servem para tudo: para cozinhar, para comer e para dormir.&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/1600/sanita.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/320/sanita.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Sanitas ao lado do micro-ondas, a um canto da sala, aos pés da cama, atrás de um vão de escadas.Por vezes, não existem sequer. A substituí-las, há baldes de plástico no chão, que os seus donos mascaram de sanita, enfeitando-os com tampos de plástico. Depois de cheios despejam-se na rua, nas pias existentes nos pátios. Os lavatórios são um luxo.&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/1600/louco%20sanita.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/320/louco%20sanita.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Um milhar de pessoas, adormece e acorda todos os dias nestas condições. Liberdade. Vivem num bairro chamado Liberdade. Moram assim desde sempre. A maioria há mais de meio século, mas ainda se encontram anciões que ali criaram raízes há 80 anos, quando o mais antigo e último dos mais precários bairro de Lisboa assentou arraiais e cresceu sem freios nas costas de Monsanto, na freguesia de Campolide. Nasceram, casaram, criaram filhos e os netos na Liberdade. São escravos dela.&lt;br /&gt;Ensombrado pelo Aqueduto das Águas Livres, colado ao pacato e cobiçado Bairro da Serafina, com vista para o Tejo e com Monsanto a enquadrá-lo como uma moldura de vegetação luxuriante, o Bairro da Liberdade é “a última favela de Lisboa”. Quem o qualificou com estas palavras foi António Carmona Rodrigues, na altura candidato à presidência da Câmara Municipal de Lisboa. Não exagerou. Prometeu deitá-lo abaixo. Há coisas que os olhos não estão preparados para ver.&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/1600/santinho.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/320/santinho.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Quando se morre sai-se &lt;/span&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;pela janela num saco&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Pátio do Chafariz. Travessa Capela Velha. É apenas uma das ruas de um bairro onde toda a gente se conhece, ajuda e tem sempre as portas abertas, com as chaves na fechadura. Sem medos.&lt;br /&gt;Por fora, lembra uma aldeia, há crianças e velhos nas ruas, cheiros vários, cortinas de renda de nylon e de xadrês colorido. Nada faz adivinhar em que condições vivem os moradores do Bairro da Liberdade.&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/1600/puto%20c%20c%3F%3Fo.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/320/puto%20c%20c%3F%3Fo.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;armen Almeida, 40 anos de bairro e de vida, nunca saiu daquele pátio. Mudou da casa do pai para a do marido. Transportou os seus pertences para apenas duas portas ao lado. No seu T1, ao qual se acede por um corredor escuro e umas escadas a pique que teimam em ceder e pregar rasteiras, moram três pessoas. Tem água em casa porque fez as obras à sua conta. A sanita está ao lado do micro-ondas, numa cozinha improvisada em pouco mais de três metros quadrados.&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/1600/carmem.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/320/carmem.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Esta mulher de coração frágil, recém-operado, está inquieta. A sua sogra regressa do hospital amanhã, segunda-feira, com uma perna amputada. Carmen sabe que a idosa não mais irá sair do buraco a que ali se chama casa até ao dia em que fechar os olhos para sempre. Desabafa, enquanto desce um vão de quatro degraus com a largura de não mais de cinquenta centímetros: “Quando se morre aqui, sai-se num saco de plástico pela janela. Não se sai num caixão”.&lt;br /&gt;Voltando aos vivos. Número da porta 71 A. Aníbal Barata, olhos verdes, muito doces, voz de candura infantil imputada à demência. Um quarto. Sem janela. Um cheiro que se entranha na roupa, na pele. A porta abre-se, não abre toda, só o suficiente para entrar um corpo de lado. Não abre o suficiente porque o quarto é exíguo, a porta bate numa cama onde se acumulam pilhas de lixo, tralhas diversas. Percevejos.&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/1600/louco%20sanita.0.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/320/louco%20sanita.0.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Lá dentro, como um animal e rodeado deles, sobretudo de ratos, vive, desde 1965, um ex-combatente da guerra colonial. Serviu em Angola. Está reformado por invalidez. Enlouqueceu. Está entregue à bondade dos vizinhos e da irmã, que mora uma ou duas portas à frente. Aníbal Barata gosta de Amália, há fotografias e cartazes da fadista na orgia de parafernálias várias que colecciona no seu quarto: “Quem não gosta de Amália não é português”, diz. Gosta de Cavaco Silva também – está um exemplar da revista “Homem”, em grande destaque, aos pés da sua cama. Quase não se vê parede. Aníbal pendura espelhos, posters, demasiada informação para a retina. Ao centro, uma imagem do sagrado coração de Jesus diz, em letras garrafais: “É preciso orar”.&lt;br /&gt;Dez passos à frente. Fim de um pátio do bairro da Liberdade, onde crianças brincam com cães de raça (um pittbul, um caniche, um yorkshire terrier e um lulu da Pomerânia) e pardais chilreiam nas gaiolas pregadas às fachadas das casas. É um pátio cheio de flores e de couves, plantadas por Eva Duarte e que, afiança, já renderam duas sopas este ano.&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/1600/francisco.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/320/francisco.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;No fim do pequeno pátio, numa habitação prestes a desmoronar-se, sem telhado, sem reboco nas paredes, apenas tijolos unidos com cimento, mora Francisco Sousa. Aos 49 anos está desempregado e sem direito à prestação social do rendimento mínimo garantido. Este homem, de enormes unhas e gengivas pueris, não tem como se proteger do frio e da chuva. Não tem casa de banho ou cozinha. Sobrevive de biscates e da ajuda dos vizinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Grafitti para esconder o bolor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/1600/bolor.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/320/bolor.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Os moradores abrem, sem vergonha, as portas das suas casas. É assim em todo o bairro. O asseio é a norma. Ana Isabel mora na Liberdade há apenas três anos com o marido. São ambos muito jovens, já têm um filho com três anos, que dorme num colchão encostado à cama dos pais. São os vizinhos da frente de Francisco e recuperaram a braços uma barraca idêntica à sua. Lutam contra a humidade. Escondem-na, no quarto, com cortinas de renda, com cachecóis de clubes de futebol e posters de ídolos musicais. A humidade não se vê, mas sente-se, entranha-se nos ossos. Na sala, com pouco mais de quatro metros quadrados, desistiram, é uma luta inglória, optaram por um tromp l’oeil, camuflaram o bolor das paredes com um grafitti.&lt;br /&gt;O cenário repete-se naquele pátio, em todo o bairro.&lt;br /&gt;Existe &lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/1600/familia.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/320/familia.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;uma tentação forte de verificar, à cautela, na agenda em que ano se está. 2006,1906? Oito pessoas a morar numa habitação que tem um quarto esconso enfiado no sótão, uma sala que também é cozinha, e uma divisão sem janelas, com cerca de cinco metros quadrados, onde dormem quatro pessoas de noite. Um filho de 21 anos, e um neto pequeno a dormir ao lado dos pais e avós.&lt;br /&gt;Um quarto e uma sala. Mínimos. Não há cozinha, nem casa de banho. José Cardoso, setenta anos de boa figura, sobretudo de bom corte e boa fazenda, viveu sempre sozinho. Na companhia de imagens de Fátima e bibelôs do Benfica. “É só miséria”, desabafa, mas volta atrás, quase com vergonha do sacrilégio que a sua boca acabou de reproduzir: “Posso-me dar por contente. Há pessoas aqui no Bairro a viverem trinta vezes pior.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;qui é tudo boa gente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Todos gostam de viver no Bairro da Liberdade. Garantem que não há desacatos, insegurança, admitindo, porém, existir algum tráfico e consumo de droga no bairro. Não se encontra ninguém, que algum dia, em meio século de vida, tenha sido assaltado no bairro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/1600/l%3F%3F%20em%20baixo.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/320/l%3F%3F%20em%20baixo.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;A noite cai, a ponte 25 de Abril e o aqueduto iluminados compõem um cenário de beleza invejável e, lá em baixo, no Eixo Norte-Sul e na Avenida de Ceuta, os carros seguem em fila indiana sem supor que, ali tão perto ,há um vórtice temporal que faz recuar tempo até ao início da revolução industrial.&lt;br /&gt;Quase todos querem permanecer encostados a Monsanto e ao Aqueduto das Águas Livres, com vista para toda a cidade. Sonham há décadas viver com um pouco de dignidade, mais como pessoas e menos como animais. Muitos perderam já a esperança e também a conta das vezes em que abriram as portas das suas casas, sem vergonha, ou escondendo-a o melhor que sabem, e escutaram as promessas eleitorais, nunca cumpridas, de uma vida melhor.&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/1600/fotos%20de%20fam%3F%3Flia.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/320/fotos%20de%20fam%3F%3Flia.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Mas ainda há quem acredite. A anciã Hermínia Tasso, octogenária, tantos anos de vida como de bairro, sabe que já não vai ver o dia em que a liberdade vai chegar: “Já não vou ver. Mas fico contente por saber que vão ajudar quem precisa. As pessoas merecem, são todos boa gente, acodem-se uns aos outros”.&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/1600/Bicicleta.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6477/749/320/Bicicleta.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Com apenas dez anos, Sara Ramos, muitas sardas no nariz, acalenta este sonho: “Tenho muita gente com quem brincar, tenho tanta gente para conhecer aqui no Bairro. Só precisamos de casas melhores. Moramos em buraquinhos que até dão para viver, mas gostava mesmo era de ter um quarto só para mim”, desabafa, entre suspiros e um sorriso envergonhado, à porta de uma das muitas mercearias do bairro para onde vai brincar depois de chegar da escola.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-3986260822535580383?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/3986260822535580383/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=3986260822535580383' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/3986260822535580383'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/3986260822535580383'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/10/e-se-cavaco-no-vai-liberdade-liberdade.html' title='E se Cavaco não vai à Liberdade, a Liberdade vai até ele'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-9086249962100794444</id><published>2006-10-03T19:31:00.000+01:00</published><updated>2006-10-03T19:59:20.440+01:00</updated><title type='text'>DOR*</title><content type='html'>Eu tenho cortinados beringela nas janelas do quarto, de onde vejo uma nesga da Duque de Loulé; são reles, de polyester, translúcidos como os vestidos de cerimónia das fadas, e eu pensei, durante muito tempo, que através da escrita talvez eu pudesse contar tudo: a forma como as duas cortinas de tecido altamente inflamável (se lhes deitar fogo, elas desfaz-se numa lágrima; eu gostava de poder escrever sobre isto, também) se unem, e como dessa sobreposição se formam uns ziguezagues em tudo semelhantes ao efeito televisivo de uma camisa às riscas; o ronronar rouco do gato de 233 gramas debaixo da cama; o chocalhar do espanta-espíritos lá fora e a hera moribunda em cima da floreira de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Alegrias da Casa&lt;/span&gt; que já não têm mais força para me dar flores todas as manhãs.&lt;br /&gt;Eu pensei que tinha nascido com este nome, e que apenas por isso, grandes desígnios me esperariam pela frente, a toda a hora, sucediam-se ao longo da passadeira vermelha - que eu diria encarnada -; aliás, eu pensei que o meu destino me caía em cima da cabeça, da mesma forma que me acontecem outras coisas extrordinárias todos os dias, eu achei que era destes dedos que ia sair algo que me tornasse só um bocadinho imortal, eu pensei - aos 28 anos de idade, vejam lá - que há magia em todas as coisas inanimadas, que as árvores não são só árvores e que as casas não são só tijolos, telhas e janelas.&lt;br /&gt;Se calhar, o meu destino é roubar azulejos de fachadas de prédios que têm licenças de demolição penduradas à janela. Sou, neste momento, uma mulher sem fé, a poesia provavelmente morreu, porque o Santo Expedito não quis os meus cabelos, nem a Teresinha, junto ao altar da Basílica dos Mártires, deita uma lágrima por mim, sob o olhar atónito do cónego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Diana Oliveira Ralha&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-9086249962100794444?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/9086249962100794444/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=9086249962100794444' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/9086249962100794444'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/9086249962100794444'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/10/dor.html' title='DOR*'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-1299726040015975887</id><published>2006-10-02T12:23:00.000+01:00</published><updated>2006-10-02T12:35:02.591+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='e nada de extraordinário acontece'/><title type='text'>Banda sonora</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Já disse isto ao chefe, numa manhã em que quando ele chegou já ia eu no meu terceiro café grátis (por enquanto, aproveite-se o café enquanto ele dura, enquanto ele não tem questões de redundância para resolver no quarto piso) e quarto Davidoff fumado despudoradamente a um canto de uma redacção deserta.&lt;br /&gt;A vida devia vir com banda sonora.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Ele chegou e perguntou-me pela performance do Ipod 30 Gygas que os malucos dos meus amigos decidiram oferecer-me no dia 22 de Julho, e eu respondi-lhe: &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;span style=""&gt;   &lt;/span&gt;– Chefe, eu nunca tinha sentido a Fontes Pereira de Melo como senti esta manhã.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;E depois percebi que ele não estava a seguir o meu raciocínio e expliquei-me melhor: – É a cidade, T, a cidade dói-me menos com a banda sonora certa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Nesse dia, era Tiersen, pianinho do Good Bye Lenine e tudo pareceu perfeito: a bófia na esquina da António Augusto de Aguiar a guardar os operários que estavam armados em toupeiras dentro dos esgotos, as casas-fantasmas que só eu miro e admiro, até o Hotel Sana com a sua loja que vende galos de Barcelos e nossas senhoras de Fátima cujo manto é meteorológico (e vocês não podem imaginar o quão perfeita é a banda sonora sob a qual escrevo estas palavras, e por cima do som de anjos, e de espantas-espíritos feitos de pedacinhos de vidro, eu oiço os meus dedos a martelar, e parece mesmo que esta percussão doida faz parte da música) pareceram-me sublimes, e sou capaz de jurar que se pôs um céu de milagre quando atravessei a rua por um amaranhado de carros parados à espera, pacientes, de cehgar a sua vez de entrar na rotunda que está guardada por um leão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O Ipod estava na mala quando, pela primeira vez e descaradamente, infringi a lei, não esquecerei, já tive um termo de identidade e residência por um crime grave que não cometi, queixa do outro que me fode o juízo de três em três semanas (quem mais poderia, não é?), e tudo me diz que sou capaz de me viciar nisto como em qualquer outra droga (não me deixem entrar no casino, por favor, é um pedido).&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Ele viu-me as mãos a tremer, e até tirou uma foto das minhas bochechas rosadas, prestes a explodir, e o peito muito para fora, parecia três quilos mais magra, quase não respirava, e sussurava, os olhos nem pestanejavam e a voz saía com um tom que nunca se tinha ouvido. Na rua de baixo, o João pensava que eu já tinha ido presa. Quatro avenidas a seguir, a minha mãe de alerta máximo, prevenida de que, se calhar, teria que ir à esquadra, pagar a caução.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;O Ipod ficou na mala, não era preciso: a vida decorre em película, às vezes com uns planos e argumentos muito maus, mas desta vez, os heróis da trama estavam bem iluminados, e os diálogos, ou a falta deles, prendeu os olhos de todos à tela, naquela tarde, as vacas foram a leilão na pala do Siza e dois seres descobriram um propósito na ausência. Esta era a banda sonora.&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span lang="PT"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-1299726040015975887?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/1299726040015975887/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=1299726040015975887' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/1299726040015975887'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/1299726040015975887'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/10/banda-sonora.html' title='Banda sonora'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-4037727629341372618</id><published>2006-09-29T08:37:00.000+01:00</published><updated>2006-09-29T08:45:50.676+01:00</updated><title type='text'>Guarda-mágoas</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger2/6694/1216/1600/guarda-m%3Fgoas.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger2/6694/1216/400/guarda-m%3Fgoas.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-4037727629341372618?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/4037727629341372618/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=4037727629341372618' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4037727629341372618'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/4037727629341372618'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/09/guarda-mgoas.html' title='Guarda-mágoas'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-7265099245664305718</id><published>2006-09-28T00:51:00.000+01:00</published><updated>2006-09-28T01:21:01.557+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='e nada de extraordinário acontece'/><title type='text'>A casa de onde não chegaram a sair dragões*, nem a entrar pombos pela janela</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger2/6694/1216/1600/casa%20dos%20drag%3Fes.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger2/6694/1216/400/casa%20dos%20drag%3Fes.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;A questão é apenas esta, e à qual não vou responder, nem vou contar esta incrível história, pelo menos, enquanto o Da. não a for ver como só ele sabe ver, enquanto não ma trouxer em formato digital, para eu a poder guardar para sempre. A questão é tão somente esta: pode uma casa, uma casa, sim, é isso mesmo, são quatro paredes, e estas são de tabique, são telhas lá em cima, para que o mundo não nos caia em cima da cabela, são azulejos, portas, estuque, falo apenas de uma casa, pode uma casa pedir socorro? E, pior, pode uma casa pedir socorro em sonhos, e abrir todas as suas portas para que eu já a conhecesse, para que eu, já acordada, a acudisse?&lt;br /&gt;E só pela Lyra, eu mostro os tesouros que uma casa, sim, que uma casa, me deu. A obra de Francisco Rodrigues Madeira saiu do lixo. O senhor António deu-me uma cadeira de baloiço e duas paletas de aguarelas. Mas eu resgatei quem as usou há cem anos atrás, quem foi deixado para trás. Eu já estou habituada a ter os mortos de ninguém a fazerem-me companhia. Esta casa já pode morrer em paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não falo mais, espero as photos do Da. Para elas falarem também. Vamos fazer magia neste blogue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger2/6694/1216/1600/Francisco%20mora%20aqui.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger2/6694/1216/400/Francisco%20mora%20aqui.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger2/6694/1216/1600/sos.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger2/6694/1216/400/sos.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger2/6694/1216/1600/paleta%20de%20franscisco.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger2/6694/1216/400/paleta%20de%20franscisco.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger2/6694/1216/1600/monograma.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger2/6694/1216/400/monograma.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Alguém há-de entender o título, se acabar por sair um obituário que escrevi para o pasquim onde continuo até à data a não ser dispensável, apesar de me estar sempre a queixar que só me pagam 4,54 euros à hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;** o Beta Blogger não me deixa postar mais fotos, querida Lyra.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-7265099245664305718?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/7265099245664305718/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=7265099245664305718' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7265099245664305718'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7265099245664305718'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/09/casa-de-onde-no-chegaram-sair-drages.html' title='A casa de onde não chegaram a sair dragões*, nem a entrar pombos pela janela'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-7086893971935728853</id><published>2006-09-28T00:03:00.000+01:00</published><updated>2006-09-28T00:06:33.127+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='a vida é má e a seguir morre-se'/><title type='text'>Porque é de três em três semanas que o indivíduo me fode o juízo</title><content type='html'>Lá vamos nós para Tribunal outra vez. Veremos se desta, ele fode o juízo à juíza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(mil perdões pelo palavreado; mas qualquer malfeitoria que eu tenha feito nesta, ou noutra vida, só pode estar absolvida depois de um infeliz encontro de dois seres neste planeta que, sem qualquer explicação científica ou mesmo "isotérmica", deu um ser lindíssimo, de olhos azuis pestanudos)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-7086893971935728853?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/7086893971935728853/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=7086893971935728853' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7086893971935728853'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/7086893971935728853'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/09/porque-de-trs-em-trs-semanas-que-o.html' title='Porque é de três em três semanas que o indivíduo me fode o juízo'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-1266510938575237312</id><published>2006-09-27T20:22:00.000+01:00</published><updated>2006-09-27T20:23:26.821+01:00</updated><title type='text'>Prenúncio</title><content type='html'>O gato laranja, de duzentas e trinta gramas, que habita em Santa Marta, acaba de urinar em cima do Semanário Sol.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-1266510938575237312?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/1266510938575237312/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=1266510938575237312' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/1266510938575237312'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/1266510938575237312'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/09/prenncio.html' title='Prenúncio'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-5562404896739454638</id><published>2006-09-25T22:33:00.000+01:00</published><updated>2006-09-25T22:51:17.484+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='e nada de extraordinário acontece'/><title type='text'>Este blogue não morreu,</title><content type='html'>parece que está na moda, deixá-los ao abandono, até que as estatísticas confirmem e atestem o seu óbito (o querido &lt;a href="http://mautemponocanil.blogspot.com"&gt;FTA&lt;/a&gt; emudeceu (eu linko-o hoje, porque isto pode funcionar na blogoesfera e no Sitemeter como o choque eléctrico de um fibrilhador automático externo no peito de uma pessoa em paragem cardiorespiratória) e eu ainda choramingo, já sem falar do mano &lt;a href="http://trafuncas.blogspot.com"&gt;Trafuncas&lt;/a&gt; por quem ainda solto um pouco de baba e ranho na voltinha matinal pela blogoesfera - foram todos para o Sol? Agora é lá que se fazem os blogues???).&lt;br /&gt;Mas não, não morreu, está bom de saudinha, roliço e com rosto trigueiro, apesar de se vestir sempre de preto - é porque emagrece. e porque a cidade está cheia de pequenas mortes - e eu quero-vos contar mesmo isso: uma história de abandono. A cidade está cheia de pequenas mortes, repito o que escreveu um blogger que não ouso citar, ou então que se &lt;a href="http://estadocivil.blogspot.com"&gt;lixe&lt;/a&gt;, mais cem visitantes, menos cem visitantes, ele nem vai reparar, e é mesmo verdade, assisti hoje a uma morte anunciada e, por isso, tenho uma cadeira de baloiço de madeira no quarto e uma paleta de aguarelas dos anos 50 na chaminé da cozinha encarnada. E não é que não tenha os dedos cheios de vontade, de raiva, e de um tremelique ansioso que já não sentia há muito tempo, mas o Apple Ibook de onde escrevinhei, em tempos, sem parar, até as mais altas e pouco saudáveis horas da madrugada, está ocupado por alguém que coloca o jantar nesta casa, nos quinze dias do mês em que a minha fralência técnica me faz ganhar uma média de 0,33 cabelos brancos por dia.&lt;br /&gt;Por isso, calminha que eu já volto. (São quase onze da noite, ainda não se jantou, a pequena toma banho na assoalhada laranja, trabalhei onze horas, o fantasma do despedimento é mesmo assim, e eu já posto, não tarda, uma foto das aguarelas e da cadeira que um morto me deu.)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-5562404896739454638?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/5562404896739454638/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=5562404896739454638' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5562404896739454638'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5562404896739454638'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/09/este-blogue-no-morreu.html' title='Este blogue não morreu,'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-1097344805264478959</id><published>2006-09-22T09:48:00.000+01:00</published><updated>2006-09-22T09:49:52.711+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Querido diário'/><title type='text'>O dia começa melhor</title><content type='html'>Quando à espera no Gmail está uma orgia de comentários do &lt;a href="http://trafuncas.blogspot.com"&gt;Goiaoia&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois há o silêncio da redacção vazia - sem telefones frenéticos, sem folhas vomitadas do porta-aviões que é a fotocopiadora, fax e impressora laser, cujos segredos de funcionamento estão muito bem guardados e acessíveis apenas a quem tirou o doutoramento na Xerox - e o vinil do chão ainda muito limpo, os caixotes do lixo vazios, os cafés e os cigarros sorvidos de enfiada até que alguém chegue para eu dizer bom dia (chegou o senhor Onório com as revistas da Sonae, de como somos um grupo socialmente responsável, sustentável e blá, blá, blá; demora a dizer bom dia, o senhor Onório, e, num instante, fico com medo de não existir, de ser um sonho de outra pessoa, que acabou agora mesmo de despertar), é o cortar a fita de plástico que une a jornalada da minha secção ("estas tretas das revistas que vocês deitam logo fora", diz-me o senhro Onório zangado, e depois acrescenta "e fazem muito bem!", e afinal existo e respiro de alívio), e é mais um dia que começa e eu vou ler o 24 Horas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-1097344805264478959?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/1097344805264478959/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=1097344805264478959' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/1097344805264478959'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/1097344805264478959'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/09/o-dia-comea-melhor.html' title='O dia começa melhor'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-5903154120597360606</id><published>2006-09-20T10:48:00.000+01:00</published><updated>2006-09-20T10:49:51.722+01:00</updated><title type='text'>O que mais me custa</title><content type='html'>O que mais custa não é sair da cama, a horas que, há tão poucos dias e durante tantos anos, não convenceriam as pestanas a desenroscarem-se umas das outras, nem à custa da promessa da visão de uma das maravilhas do mundo. A rua de Santa Marta acorda mais cedo que eu, sei-o bem, e madrugar não é o que me custa, não me queixo, quase todo o mundo acorda mais cedo que eu, que moro por debaixo dos pés do marquês e do seu fiel leão amestrado.&lt;br /&gt;Durante nove meses carreguei nos olhos noites brancas, e ouvi a minha rua a despertar para mais um dia de trabalho, de alegrias e tristezas pontuais sem hora marcada nos ponteiros do relógio. A minha rua acorda quando o sol e os galos ainda preguiçam e ouvem-se vozes de todas as línguas menos daquela que eu sei decifrar. Depois há os polícias, vão e vêm, de e para a esquadra emblemática que nunca está de portas fechadas, mas fazem pouco barulho, pegam no trabalho e largam o trabalho em silêncio, não percebo bem porquê, mas honro o acordo informal entre civis e autoridades do trânsito, que permite aos residentes toda e qualquer espécie de estacionamento selvagem no perímetro da rua de Santa Marta com o Largo de Andaluz e até ao Largo das Palmeiras, segunda fila, por cima dos passeios e, com jeitinho e dois minutos de conversa com o porteiro, até nos dois lugares reservados à Judiciária, cujos agentes almoçam sanduíches na baiuca da D. Beatriz, que os chama respeitosamente de “doutores”.&lt;br /&gt;Não custa entrar às nove e sair as cinco, não custa sair da cama antes das oito da manhã, e só custa um bocadinho a poluição que se entranha na pele, logo pela manhã cedo, na Duque de Loulé, e é um pouco desagradável a poeira que me suja o cabelo das obras do túnel do Marquês, Fontes Pereira de Melo acima.&lt;br /&gt;O que me custa mesmo é não estar na redacção à hora que a Dona Maria chega para lavar as casas-de-banho deste edifício. Deixo-lhe, religiosamente, o 24 Horas em cima do teclado, com um &lt;span style="font-style:italic;"&gt;post-it&lt;/span&gt; amarelo com qualquer coisa simpática rabiscada, mas acabo por não discutir a manchete do tablóide-bíblia com mais ninguém, não tenho ninguém para falar das as parvoeiras do dia, não oiço queixas do reumático, não debito lamentos sobre os meus joelhos e isso custa, custa mesmo.&lt;br /&gt;A Dona Maria é a melhor coisa deste jornal.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/9968166-5903154120597360606?l=empantanas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://empantanas.blogspot.com/feeds/5903154120597360606/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=9968166&amp;postID=5903154120597360606' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5903154120597360606'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/9968166/posts/default/5903154120597360606'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://empantanas.blogspot.com/2006/09/o-que-mais-me-custa.html' title='O que mais me custa'/><author><name>Dia</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17648462791045818444</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-9968166.post-7645671516774176030</id><published>2006-09-17T23:56:00.000+01:00</published><updated>2006-09-17T23:59:13.962+01:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='professor de filosofia'/><title type='text'>O Professor de Filosofia VI (acho eu, já lhes perdi a conta)</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT"&gt;Previously, em O professor de Filosofia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;O Professor de Filosofia recolheu, uma a uma, as fichas de alunos já preenchidas, percorrendo como numa marcha militar, as cinco filas de carteiras&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Estragou o almoço dos alunos da Ameixoeira. Escrevam numa folha e entreguem-me a resposta a: O que é pensar?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda bem que pergunta, estava a ver que nunca mais, estranhas as coisas: faz-se tanta pergunta vã, de que marca são as tuas calças, qual é a cor desse verniz, já emagreceste quantos quilos, e esta, tão premente, ninguém a faz, certamente depois há um problema de sobreaquecimento da resistência que carbura na mioleira e é uma desgraça, é que não é fácil a resposta a esta pergunta, mas podia-se tentar, não é, e eu às vezes faço perguntas que são óbvias como esta, e depois, riem-se de mim, mas ainda assim, eu não desisto, não me conformo, mas aprendo, a cada dia que passa, a estar calada e guardar estas coisas em mim, até que me apareça alguém que sinta o mundo como eu o sinto.&lt;br /&gt;Porque é que o maestro não usa batuta, perguntei eu, aos seis anos, naquela que foi a minha primeira visita de estudo, ao Maria Matos, não para ver teatro, mas sim, para ouvir Beethoven. Riram-se. Porque é que o ar que bafejo para cima das minhas mãos, nas manhãs geladas que me cortam a respiração, mas que a trazem de volta quando saio de casa e há orvalho nas folhas do rusgo, é quente, e porque é que o mesmo ar, que sai da mesma boca, mas quando o sopro, é frio e me arrefece a sopa?&lt;br /&gt;Até hoje, ninguém me soube responder, provavelmente também não será o professor que me vai tirar esta dúvida, mas por favor não se ria de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(sem dar por isso, chamou-lhe professor. Sim, chamou-lhe, mesmo que tenha sido a tinta permanente, na folha de papel rigída da marca Ambar – só a Ambar produz papel de cem gramas por metro quadrado. Não há chamamento mais forte do que aquele que é feito por escrito. Eu chamei o senhor 50.000 por escrito, neste blogue escuro, cujo layout já precisava de um bafo quente de mudança; ao acaso, tivesse eu gritado pela janela o seu nome, teria ele vindo como veio, por debaixo de uma roseira de santa Teresinha com mais de cinco metros de altura? Pois não... por isso, muita cautela com o que se escreve, e mesmo muita, mas muita prudência com aquilo que se deseja, porque, certamente, se realizará. Professor ficou, desde aquele instante, apesar de ele ser, na altura, demasiado novo para ser professor, mas ela não sabe se foi das bexigas que lhe marcaram a cara para sempre e que lhe davam aquele ar duro, se foi do cabelo impecavelmente penteado ou do colarinho engomado. Aquele não era um &lt;i style=""&gt;setôr&lt;/i&gt;, era um professor e, da mesma forma, que ela sempre soube que algo incrível iria acontecer à 50.000ª visita deste blogue, também teve a certeza que aquele jovem professor de filosofia seria uma espécie de gurú, o seu primeiro mestre nas lides de como ser melhor, um pouco melhor a cada folha do calendário que se rasga)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Professor (repetiu a palavra, e apercebeu-se da gravidade do que havia feito – a turma toda, sobretudo as da Ameixoeira, iriam troçar, chamá-la graxista, lambe-botas e outras coisas menos aceitáveis, por este chamamento solene. Tanto pior, para eles, pensou, quando precisarem de copiar nos testes faço-lhes um manguito – coisa que ela sempre soube foi que a vingança era prato que se servia acabadinho se sair do pólo norte, e, de quando a quando, no Aki de Telheiras, ela encontra uma tal de Mónica, que pertencia a esse grupo da freguesia da Charneca que, sabe-se lá porquê, foi parar à quequíssima Alvalade, e sorri quando lhe entrega o Visa do Barclays, e tira-lhe, literalmente, as medidas, de alto a baixo, por cima do seu uniforme amarelo e boné ridículo, que lhe faz sobressair a obesidade mórbida que se instalou no seu corpinho outrora número 34), a pergunta devia ser ao contrário, penso eu – interessante, esta minha escolha de palavras, já viu? Penso eu... E o que raio é pensar, pergunta-me, e eu não lhe respondo, lamento, não me apetece.&lt;br /&gt;Estou há oito anos à espera para contar o dia em que eu deixei de pensar, entre uma garfada de açorda e o olhar perdido num feixe de projectores de iluminação da pista de tartan do estádio da FNAT (ai, perdão, não sei se leva a mal este revivalismo estado-novista, mas lá em casa não se me permitem exultações ao dia do Trabalhador – ele não levou a mal.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem saber, ela escreveu o seu primeiro &lt;i style=""&gt;post&lt;/i&gt;, numa folha pautada de cem gramas por metro quadrado, a tinta permanente sépia, mesmo antes de existir Google, muito menos Blogger.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soltou o monstro. Até aí, era a miúda que não era magra, mas também não era gorda, que não tinha os cabelos lisos, mas que não os tinha aos caracóis, era a que tinha boas notas a tudo, mas que, especialmente, tinha jeito para o desenho, seria designer, ou estilista, sempre gostou de uns trapinhos, e gostava de costurar, sim, provavelmente, seria designer de moda. As suas composições eram medianas, por vezes, pedia ao seu irmão mais velho, que sempre teve mais imaginação e melhores notas, para inventar umas histórias, é que ela nunca teve paciência para trabalhos de casa, ora são oito horas fora de casa, e ainda mais duas horas de trabalho em casa? E depois, como poderia ela questionar os dados adquiridos do mundo? Não sobraria tempo. Foi aquela pergunta, simples, que alterou tudo, que soltou o vulcão que esteve a aboburar em lume brando oito anos. Desde então, perdeu o jeito para pintar, foi-se-lhe a perspectiva, ou isso, ou vive num mundo com estranhíssimos pontos de fuga, e estranhas proporções. E há quem diga que a blogoesfera foi feita apenas para ela, para ela poder brilhar (e sempre que olha para o statcounter, e espia no technorati os bloggers de referência que a linkam sente que a sua passagem por este planeta já não foi em vão. De certa forma, cumpriu um micro-objectivo de vida e fê-lo à custa do seu trabalho, do seu talento. Isto é mesmo muito importante para ela, ser realmente boa em alguma coisa).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto marcou-me muito, ainda não o ultrapassei totalmente – da primeira vez que olhei para a lâmpada do candeeiro de mesa-de-cabeceira do meu tio Zé, e depois vi muitos feixes de luz a serpentearem-se na escuridão dos olhos fechados, também me assustei, tanto quanto desta vez em que parei de pensar, e pensei que cegara, chamei por socorro e a minha avó deu-me uma palmada no rabo e disse-me para não voltar a olhar directamente para as lâmpadas que ainda ficava cega, e eu assim fiz, e nunca mais me 
