terça-feira, maio 31, 2005

O meu look de fodida é fodido

Tiago Luz Pedro dixit.
Quando estava a escrever o post anterior, no computador dos estagiários da fotografia, o editor dessa secção disse: "bem, rapariga, a violência com que estás a martelar esse teclado é porque deves estar mesmo fodida".
Oh yeah... Vou comer sardinhas e beber imperiais.

FODA-SE

É com todas as letras agora.
E em português - a língua inglesa fica sempre bem, mas no calão não se aplica esta lenga-lenga.
Faço um blogue, a coisa corre bem, a crítica aplaude, lanço-me para novos voos: bora lá escrever para a revista semanal do pasquim, agora que tenho a mania que sou escritora, que consigo fazer mais do que meras notícias.
Agora sim em inglês : NEVER MORE!
É melhor ficar por aqui. Por aqui não me cortam dois terços do texto.

sexta-feira, maio 27, 2005

A fome e a vontade de comer

Se o dia de hoje tivesse que ser reduzido a uma frase feita, a escolha recaíria sobre esta: junta-se a fome e a vontade de comer.
Apesar de não se terem devorado uma à outra, a fome e a vontade de comer andaram a brincar com o fogo.
Memorável, é o que vos digo.
A cor do dia é o aubergine. Do meu vestido. De um sofá antigo de veludo.

Pazes com a Leica


Dentes perfeitos

Este exercício de imenso narcisismo serve para vos anunciar as pazes com a Leica. Ainda não me habituei à ideia que tenho uma dentadura perfeita...

Um linque para o Maique

Hoje é dia de festa: o Maique não conhecia esta pérola

Mimi


E a Mimi - a mais palhaça, como a mãe

Mancha


Apresento-vos os mais recentes membros da família: Mancha (nome ainda provisório)

Minha alma canta...


... O Lourenço está quase a chegar.

quinta-feira, maio 26, 2005

Sherlock Ralha (ou a história das Drosophilas)

Hoje, o patrão está a pagar o feriado a 300 por cento, logo, estão reunidas todas as condições para um grande post.

Quando comecei a escrever estas linhas, há quatro horas atrás, ia-vos contar mais histórias de elevadores e de calças de ganga cintura descaída com banhas a mostra (hoje saí de casa com umas calças de cintura descaída e tinha as banhas todas à mostra; entrei em pânico e não sosseguei enquanto não comprei umas calças novas que me devolvessem alguma dignidade - abençoadas lojas chinesas - e escondessem aquela ridicularia).
O post chamava-se Encontros Imediatos no Hércules (o elevador velhinho da Estados Unidos), calças de cintura descaída e outras estórias.
Depois, há um bom par de valentes horas, à conversa com a minha homónima bébé no messenger, o post sofreu uma mudança abrupta: ia-vos contar, também, como um senhor arquitecto com quem privei pouco mais de uma hora, numa tarde de Domingo em que comprei três pares de sapatos e depois vim ter com o mau feitio do Maique ao pasquim (não vejo a hora de voltares a ficar mansinho outra vez, mas, pronto, estou solidária com a tua dor, a morte do "branquinho" está a ser difícil para todos nós...), de repente, se tornou uma das minhas mais importantes "musas".
Dou comigo a pensar quase que diariamente: "Hoje não escrevi nada na (T)ralha, não pode ser, Ralha, senão o KAos não tem nada para ler".
E, então, sento-me em frente ao computador, coloco os óculos pseudo-intelectuais, fecho os olhos, em sinal de concentração, abro-os, depois de se fazer luz, e escrevo. Para ele e por causa dele. E, por isso, obrigada. Porque abri caixas que há muito estavam fechadas, porque acho que não me tenho saído nada mal, porque me dá um gozo tremendo contar-vos as minhas "Amelices".

Mas tudo isto vai ter que ficar para outro dia.

A minha vida é uma coincidência pegada. A Mónica comentou isso por aqui e tem toda a razão. Hoje a actividade gmailistica esteve praticamente desactivada. Recebi meia dúzia de mails e uma notificação do Hi5. Uma amiga querida do pasquim tinha aderido a esta coisa que eu ainda não percebi muito bem para que é que serve e que só aderi, há cerca de seis meses, por causa do senhor que me salvou o Domingo.
Parece-me que a ideia é partilhar fotografias com os nossos amigos e conhecer os amigos dos amigos. No fundo, com os meus 11 amigos que aderiram à coisa eu estou ligada a qualquer coisa como uma centena e meia de pessoas.
Mas o senhor do Domingo, misterioso, nunca lá pôs fotografia.
Eu nunca vi o senhor que me salvou o Domingo. Falamos há muito tempo através das novas tecnologias (primeiro o ICQ, onde ele me encontrou, depois no messenger). Depois há as longas conversas internacionais ao telefone - gravei na memória a passagem de ano de 2002; passámos horas e horas ao telefone e o senhor mistério estragou-me engate com um jovem comunista, mas valeu a pena, se valeu.
Deu-me, então, para googalizar o nome do senhor. Mandei-lhe um mail a informá-lo que Sherlock Ralha ia entrar em acção.
www.google.com e vamos lá a isso - o nome do senhor com o sítio onde ele trabalha; o nome do senhor com a cidade onde ele mora. Enfim, mais de uma hora depois, e de ficar a saber que o senhor professor doutor anda a estudar uma mutação qualquer nas mosquinhas do vinagre (as drosophilas - desde muito cedo a Magui me ensinou a vantagem das drosophilas na investigação científica, porque se reproduzem a um ritmo alucinante; ela também as estudou quando estava a tirar Medicina...)

E ZÁS!

Aparece uma fotografia num site de um projecto científico financiado pela União Europeia. O senhor doutor, aquele que me salvou o Domingo, é o penúltimo da fotografia.
Não é nada como eu o tinha imaginado.
Estou em choque.
De cinco em cinco minutos abro o JPEG.
Já lhe enviei um mail a anunciar os resultados da minha investigação por conta própria. Estou à espera de confirmação.

A caixa de Pandora está aberta. Se calhar, há caixas que nunca se deviam abrir.
Nada a fazer.

quarta-feira, maio 25, 2005

Don't threaten me with love, baby. Let's just go walking in the rain

Esta frase é da autoria da minha musa musical - Lady Day.
Lamento dona Ella, mas a madame Billie fascina-me. Pela voz imperfeita e dengosa. Pela existência triste e trágica. Pela imortalidade e reconhecimento terem acontecido depois de ter sido encontrada morta, num apartamento, com 500 dólares na vagina.
Hoje estou com os blues.
Porque me apetecia dizer esta frase, mas está um dia radioso lá fora. Porque desejo mais do que tudo cantar em dueto o Potato Head Blues, do Armstrong, de preferência em cima da cama, aos pulos no colchão, de pijama, com um rolo de papel higiénico a fazer de microfone.

"Todos os teus problemas começam na tua voz", disse-me há muito tempo, o meu primeiro namorado. Era desafinado como o raio (mas no peito dos desafinados também bate um coração, diria o meu amigo Tom Jobim), mas percebia imenso de música e eu ainda sorrio quando oiço Soundgarden na rádio.

Toda a gente hoje decidiu tirar o dia para me deprimir, para perguntar porque é que eu não tenho namorado e eu ontem resolvi parcialmente o problema: adoptei duas gatinhas lindas, porque já não suporto dormir sozinha. "All by myself in the morning, toca agora o Real Player, lindo, lindo, oportuno como o diabo...
Mais do que um namorado, procuro um companheiro para duetos improvisados no chuveiro e que gaita, só me vem um nome à cabeça.
(O chuveiro que eu comprei parece mesmo um microfone e agora me lembro como fui tola, quando o empreiteiro estava a colocar a banheira e eu o adverti para fazer a coisa de forma a que coubesse lá uma torre holandesa com mais de um metro e noventa: Idiota, idiota...)

segunda-feira, maio 23, 2005

Nota da redactora

Tem havido aí umas confusões, uns telefonemas, mails e até um sms, enfim, resumindo, eu quando estou de fim-de-semana de piquete no pasquim não blogo tão bem como nos dias em que um self made man português me paga sete euros e qualquer coisa à hora e, então, cá fica a nota: o post 'save my sunday' e o post 'E se...' não são sobre a mesma musa.
As minhas fontes de inspiração são infindáveis. A musa que me salvou o Domingo - e cuja nossa amizade dava um blog autónomo da Tralha (e eu até sei como é que o chamaria: scentedgarden.blogspot.com) - diz que eu sou witty and kinky (foi ele que me ensinou estas palavras). O outro o melhor que sabe dizer é que eu não sou nenhuma Heidi Klum (é assim que se escreve?)
Um grande abraço ao meu novo coleguinha de secretária, JPH, que hoje deve ter sentido muito a minha ausência (tinhas a estagiária gira no meu lugar) e, por isso, se fartou de vir aqui à (T)ralha - the big blogger is watching you... -, com o seu browser absolutamente obsoleto (MSIE 5.0).
Um beijo (argh) ao meu fratelo (os oliveira-ralha não se beijam... achamo-lo repulsivo), que também se farta de contribuir para o engrossar das minhas estatísticas. Foste o feliz contemplado com a 3333ª visita. A tua vida vai mudar depois disto. Muda de Ice Tea e aposto como vais deixar de ter que trabalhar ao Domingo...
Acertei?
Bem, basta de disparates. Vou escrever 20 mil caracteres para o patrão.
Inté

domingo, maio 22, 2005

Save my sunday

Eu sei que prometi nunca escrever sobre ti neste blog, perdoa, mas és demasiado importante para não estares aqui.

O repto era simples: Save my sunday, dizia o subject do mail, que era curto e grosso, uma linha de texto apenas, e foi na onda do post anterior: "E se ele estiver online?"

Estavas online. Salvaste o Domingo.
A distância é enorme, eu conheço-te há quase cinco anos, mas não sei como és.

Pode alguém sentir-se tão próximo de outra pessoa apenas pela escrita?
Pode.

E se...

E se eu não tivesse entrado em piloto automático, se eu não me tivesse enganado no caminho? E se não estivesse a tocar o My Immortal no auto-rádio, teria eu entrado, por engano, no Eixo Norte Sul? E se eu me tivesse marimbado para o telefonema da Mónica? E se não me tivesse dado ao trabalho de confirmar se havia um repuxo de água na Praça de Espanha? E se não me tivesse demorado mais cinco segundos, quando estacionei o Idea, para passar um brilho nos lábios (peneirenta...)? E se o cartão magnético tivesse funcionado à primeira? E se, quando toquei no botão do elevador, ele tivesse aberto as portas, ao invés de descer até ao menos quatro? E se, já dentro do elevador, eu tivesse conseguido dizer alguma coisa de jeito?

As coincidências são como as bruxas: ninguém acredita nelas, mas que as há, há.

sexta-feira, maio 20, 2005

Escadas sinistras



Traseiras



Casa protegida



A minha sala pombalina



Mais obras de Santa Engrácia

A minha casa-de-banho laranja



Obras de Santa Engrácia...

quinta-feira, maio 19, 2005

Isaura de Jesus

Os meus mortos vieram-me visitar.

Da primeira vez que me doeu o coração - num primeiro dia de um ano da longínqua década de 80 -, uma dor tão forte que eu quase não conseguia respirar, a minha avó Zá esteve lá, no quarto dos fundos de um sexto andar na Praça Pasteur, até eu adormecer.

Quando tinha 16 anos e um pai maniaco-depressivo Brahman, de olhos muito azuis, a Isaura de Jesus feriu o olho direito com o espinho de uma rosa. Eu imagino a cena num enorme roseiral bravisco da Quinta das Canas, no Barreiro, mas não sei se se passou assim. A cicatriz, uma bolinha encarnada no branco do olho - que parecia mais branco ainda porque a Isaura de Jesus tinha uns olhos amendoados muito grandes e muito escuros -, ficou lá para sempre, como uma tatuagem.
Eu nasci com a mesma cicatriz no olho direito. Eu sou uma fotocópia da minha avó Zá.

Soube bem ser a favorita - as coisas estavam muito bem distribuídas na nossa família: a avó Tóia gostava mais do meu primo Hugo, o avô Ralha sempre se sentiu mais próximo do Leonardo, o avô Oliveira, magnânime, justo, não demonstrava de que neto gostava mais (eu arrisco que talvez fosse eu a menina dos seus olhos, mas talvez seja demasiada presunção e soberba).

A minha avó Zá inventou um verbo na língua portuguesa - o "princesar". Não o descobrirão, por certo, num exemplar da Porto Editora; faz parte de um compêndio de edição única que está em meu poder.

Quando chegávamos à Praça Pasteur (íamos lá com que regularidade?), o avô Ralha implorava para que não corrêssemos ou pulássemos, recordando o momento Jeunet em que a vizinha de cima, grávida de nove meses, irrompeu pelo tecto da sala. Ou melhor, quando as pernas da vizinha - a barriga travou a sua queda livre - se transformaram num estranho candelabro em movimento.
A avó Zá estava sempre sentada na sua cadeira de cabedal (no Inverno tinha os pés em cima de uma escalfeta), em frente ao bonito móvel onde estava exposta a colecção de vidros do meu bisavô Correia, às voltas com as suas traduções de fórmulas químicas. Levantava-se, baixinha, sapatos de cunha, abertos à frente, deformados pelos joanetes, cabelo totalmente branco, olhos pintados com um duo de sombras verdes da Mary Quant, perfume de madeiras da Lander e lançava: "Vamo-nos princesar!"
Os meus olhos sorriam. Esquecia as repetidas recomendações do avó Ralha de não corrermos pela casa e lá ia eu a voar até ao quarto. Abríamos a última porta do armário (as gravatas do avô Ralha estavam penduradas na porta), junto à cabeceira da cama, e ela deixava-me sempre abrir o baú onde estava o meu tesouro: uma caixa de plástico castanha escura, com tampa beige, onde a avó Zá guardava os "pechisbeques" com os quais eu me "princesava".
Colocava anéis de pedras semi-preciosas em todos os meus dedos, pérolas nas orelhas, colares, lenços na cabeça. Ficávamos horas naquilo.
Ainda hoje uso estas jóias (hoje trago no anelar da mão esquerda o anel de prata em forma de tronco), que não valem nada, mas são um dos meus maiores tesouros. Quando a Isaura de Jesus morreu, seis meses depois da avó Tóia, reclamei o meu tesouro.
Ela disse, repetidamente, quando estava a morrer, quando implorava para o meu avô terminar o seu sofrimento, mas ele só o prolongava, deitada do lado esquerdo da cama de casal do seu quarto verde, que todas as suas jóias (as verdadeiras) deveriam ser para mim. Nunca as vi. Não importa: os anéis que ela trouxe do Brasil estão comigo, o colar e a pregadeira de turquezas e zircónias também, guardadas na caixa castanha escura com tampa beige. (Gostava de ter a cadeira de cabedal, porém).
A avó Zá nasceu há 85 anos e um dia. O avô Ralha nasceu há 84 anos e um dia. Conheceram-se na faculdade - ela era melhor aluna do que ele -, casaram-se por procuração e isto sempre foi algo que me escapou: porque é que o Alberto José falhou o seu próprio casamento.
Partiu cedo demais. Teria sido ainda mais mimada do que sou, ter-me-ia amparado todos os golpes, como fez com o Zé Ralha.
A minha avó Zá esteve presente apenas nos meus primeiros quase sete anos de vida e incutiu-me o gosto pelas rosas trepadeiras braviscas e pelas lantanas, que me ensinou, desde muito cedo, que são venenosas.
Sempre que vou à Costa, deixo uma flor na Sant'ana, que tu mandaste eregir, há meio século atrás, quando o Zé Ralha nasceu, por milagre, depois de anos e anos sem conseguires ter filhos. O avô Ralha quis saber porquê, eu não lhe disse, mas é para ti, trago-te sempre no pensamento: os postais com gatinhos que enviavas para Viseu nas férias grandes, apesar de eu não saber ler, as bolachinhas que tendíamos na cozinha, os desenhos onde eu te retratava loira e ao avô Ralha com um chapéu de pasteleiro na cabeça, as pastilhas efervescentes de vitamina C com sabor a morango que nos davas sempre que iamos à Praça Pasteur.

Todos os dias, quando me olho ao espelho, vejo a minha avó Zá.

segunda-feira, maio 16, 2005

Custódia de Jesus

Depois de tu morreres, quando eu era pequenina e a Magui me fazia, todas as manhãs, à pressa, duas trançinhas simétricas, à índia, como aquelas que eu trago hoje -

tu fazia-las com mais amor: eu sentava-me no banquinho de três pernas da casa de banho,

(que eu rachei numa tarde, quando tentava agarrar já não sei o quê do armário dos remédios, e que nunca foi substituído até à tua casa, que tinha alcatifa verde relva na entrada, ficar em profundo silêncio)

à espera que tu chegasses com um alguidar com um fundinho de água, que servia para domar os meus enormes cabelos. Baixavas o tampo da sanita, sentavas-te, enorme, na tua pose de altivez. Trazias contigo um pentinho pequenino, com o qual dividias meticulosamente o cabelo ao meio e, depois de o entrançares, fazias um caracol na ponta, enrolando as madeixas à volta do teu dedo indicador e humedecendo-as com água e um bocadinho de sabão azul e branco, para ele não se desfazer; depois, o toque final: enfeitavas as trançinhas com um laçarote, daqueles que comprávamos ao metro, numa retrosaria ao lado dos Armazéns do Minho

-, eu encontrava consolo nos dias de chuva, porque, para mim, tu andavas nas limpezas da tua nuvem.

Chamavas-me abelha mestra: é incrível como me leste era eu ainda tão pequenina.

Hoje sonhei contigo, vóvó Tóia.

Estava deitada no sofá de napa alaranjado, com a cabeça em cima do teu colo, ouvia o teu coração e distraía-me a sincronizar a minha respiração com a tua.
De repente, estávamos lá em baixo, na Rua do Tarrafal, a comprar leite na UCAL e, um pouco mais à frente, a aviar hortaliças numa carroça de madeira. Mais um frame do meu sonho, e desta vez estamos na Praça de Alvalade a comer tremoços. Mais 24 imagens por segundo, e eu tenho um cartucho de papel almaço cheio de cerejas: tu ensinas-me a fazer brincos com as cerejas, já que a Magui teima em não me deixar furar as orelhas.
Estás já muito doente, na escola a professora Gertrudes Maria manda-nos ir ao canavial da Igreja de santa Joana Princesa, cortar uma cana, para fazermos marionetes em casa. O Zé vai buscar-me à escola e corta a cana e o dedo, com um canivete, mas a Magui trabalha até tarde e não tem tempo para fazer a marionete.
No dia seguinte, eu chego a casa a chorar: todas as mães fizeram a marionete para os filhos - são todas muito mal amanhadas: não passam de um pau com uma cabeça feita de uma peuga velha -, só eu é que chego de mãos a abanar.
Tu perguntas o que se passa, eu explico-te. Levantas-te da cama, prometes-me a marionete mais bonita - "vou fazer-te uma noiva" - e sentas-te em frente à Singer e ali ficas, durante horas a fio, a costurar. Abres uma gaveta da cozinha e fazes magia: transformas um pauzito nos braços da minha marionete, que forras com um retalho de tecido muito bonito, com florzinhas minúsculas cor-de-rosa, com o qual fazes, também, o vestido da noiva.
A cabeça, fazes com um collant cinzento, que enches de sumaúma. Cozes dois botões, que são os olhos, bordas uma boca com uma linha encarnada, fazes uma cabeleira com lã. O toque final: um véu de tule branco.
Eu não sei onde é que tu foste arranjar forças para fazer a minha marionete. Não sei onde encontraste, assim, do pé para a mão, o tecido das florzinhas minúsculas ou o improvável tule. Só sei que, naquele dia, fizeste magia aos olhos de uma menina de tranças enormes. A minha marionete faz ainda vincar a covinha que eu tenho na bochecha direita.
Fez 20 anos, a tua noiva. Está guardada numa caixinha para não se estragar: o collant que lhe emprestou um rosto tem uma malha enorme, os olhos estão quase descozidos, os cabelos e o véu estão enegrecidos pelo tempo. Vou visitá-la muitas vezes, mas eu não me atrevo a mexer-lhe: a cozer os botões dos olhos, ou a lavá-la num alguidarzinho como aquele que tu usavas para me fazer as tranças.
Vou guardá-la sempre.
Fazes-me mesmo muita falta, vó.