segunda-feira, maio 16, 2005

The day after

Tanta merda com o day after, tanta merda (ou caca de cão, para os mais pudicos), tanto impasse, tanto vai não vai e depois dá nisto...

sábado, maio 14, 2005

Sê meu guia espiritual: corta-me o cabelo

Eu disse "um dedo", à Cristina de Montalegre, e ela cortou um dedo.
Não me cobrou o suplemento escandaloso de 25 Euros para cabelos compridos e deu-me uma prenda da Kerastase para a Carolina.
A Mónica diz que eu nasci de facto com o cú virado para a lua e que me calham sempre as mais simpáticas.
André,
És e serás sempre o meu guia espiritual - não me esqueço do penteado magnífico que tu me fizeste numa noite em que o elevador do meu prédio teve mais histórias para contar e em que os inquilinos que nos pagam rendas insultuosas de 50 euros tiveram que gramar com o "Come What May", do Moulin Rouge, até ao amanhecer -, mas, quando eu digo "um dedo" tu levas cinco.
Gostei da Cristina de Montalegre (que eu pensei que era galega). Hei-de lá voltar.

sexta-feira, maio 13, 2005

Fuck!

Quando eu escrevo as barbaridades que vocês encontram neste blog, quando exorcizo os meus demónios, tenho sempre a secreta esperança que haja uma ou outra pessoa que não ponha cá os pés. Talvez, por isso, se explique a minha recente e violentíssima adicção no StatCounter - quero sempre saber quem anda por aqui, como veio cá parar e o que é que faz nos escassos minutos que dedica a este quintal.
Acabo de saber que uma das minhas musas lê com muita atenção o que eu escrevo. Como é que eu me fui esquecer das 'watch lists' e dos 'news agregators' (é isto não é, maique?)
Gaita!

Coincidências...

Tenho um visitante novo.
E de onde???
British Columbia.
Uma miúda não aguenta coincidências destas...

quinta-feira, maio 12, 2005

1237 Euros

É o meu reembolso do IRS.
Ser mãe solteira e comprar casa nem é assim um mau negócio de todo...

Ave Edgar

Edgar querido, tens um corte de cabelo que não lembra ao menino Jesus - o que até é pena, porque és muito engraçado -, mas resgataste as fotos perdidas da Carolina das entranhas mais profundas e viscosas do Toshiba e, por isso, acabo de inscrever o teu nome no "álbum do bébé" da minha loira. Nunca te esqueceremos.
E, assim, qui ça, daqui a alguns dias, conseguirei fazer as pazes com a Leica e tentar-me-ei convencer que ela não tem mau Karma (ainda não lhe chamo Leiquinha, mas também já não digo os dois nomes juntos - Leica Digilux, vem imediatamente à mãmã!!!, o que é, indiscutivelmente, muito bom sinal de tréguas), que tudo não passou de uma fatalidade.

Ave Edgar!

(Mas acho que vou comprar uma Olympus Mju Laranja, só para o caso da maldição da Leica persistir...)

Nojo

De ser portuguesa.
Os demónios que mataram a Vanessa arriscam-se a uma pena de 12 anos.
Sou cada vez mais reaccionária.
Tenho cada vez mais vontade de comprar o bilhete de avião.

quarta-feira, maio 11, 2005

Os meus pertences

Na minha vida é sempre assim - se ao dobrar da esquina houver um lugar de estacionamento, vou lá buscar os meus pertences.
Fui buscar os meus pertences e ele não os atirou pela janela, como eu tinha imaginado na minha fantasia de reencontro. Não tem pedalada.
Acabou.

Breve apontamento botânico

Os Jacarandás estão quase, quase em flor.
Sugiro que esperem mais uns quinze dias e visitem a Rua Almirante Barroso. É uma orgia lilás.

terça-feira, maio 10, 2005

Maniaco-depressiva Parte III

Estava a colocar a chave na fechadura da porta do prédio, ainda a suspirar, porque tu não olhas sequer por cima do sobrolho, porque te sou totalmente indiferente, estava em perfeita simbiose com os blues da chuvinha de molha-tolos que decidiu aparecer finalmente, quando surge, do meu lado esquerdo, um puto - tinha, com certeza a minha idade, mas para mim são sempre putos - a tocar à campainha do sexto andar e a interromper o meu faduncho.
"Oh não", pensei eu, largando um sonoro suspiro, "Só me faltava agora uma viagem silenciosa e desconfortável de elevador", matutei franzindo a testa.
Mas hoje, ou está tudo tarado, ou eu estou mesmo irresistível e tu é que parvo.
O velhinho elevador, que já viu muito na vida, tinha já galgado até ao terceiro piso quando o dito jovem disse: "Grande decote".
Os meus olhos abriram-se muito, baixei a cabeça, colei o queixo ao peito e confirmei a imagem mental da minha vestimenta. "Não, o decote hoje nem é nada de especial", respondi eu.
"Não, não estou a falar desse". Apontou para as rachas imorais que o meu vestido tem, que descobrem dois terços da minha coxa enorme.
"É um bocado demais, não é?", disse eu à criança.
"Qual quê? É lindíssimo", respondeu ele com uma lata que eu até me belisquei para ver se estaria a sonhar, no momento em que o elevador parou, com um sobressalto, no sexto andar.

Isto aconteceu mesmo e tu és muito parvo.

Unsexy

I can feel so unsexy for someone so beautiful
So unloved for someone so fine
I can feel so boring for someone so interesting
So ignorant for someone of sound mind

E, num estalar de dedos, tu pões-me a cantar esta canção.

Odeio-te.

Piropos e outras massagens ao ego

Hoje ao almoço, com o rio a enquadrar os franguitos assados que jaziam coradinhos e estaladiços nos nossos pratos, o psicólogo social que eu fui entrevistar e que, por sinal, é um dos publicitários mais bem sucedidos deste pedaçito de terra do Oeste da Europa, falava-me da imensa necessidade de, quando em quando, sairmos de nós próprios e vermo-nos como nos sonhos.
Pensem num sonho qualquer.
Bom, mau, não interessa.
À noite, assim que fechamos os olhos e entramos no vale profundo dos lençóis, todos nós, sem excepção - pobres, ricos, feios, bonitos, talentosos ou bestas quadradas -, somos realizadores.
Nos sonhos, a uma média de sete a oito horas por noite - mais um dia de trabalho por cima dos nossos corpos -, enquadramos planos, misturamos cenas, coordenamos figurantes e efeitos especiais.
Nos meus sonhos há sempre banda sonora e eu diria, sem modéstia nenhuma, que sou uma excelente directora de fotografia - a luz dos meus filmes nocturnos é sempre mágica, quente, em tons de sépia.
Quem sonha é o homem dos sete instrumentos naquelas horas de suposto descanso e, geralmente, não se escapa de ser, também, o protagonista das películas de algodão doce, da qual são feitos estes filmes do inconsciente.
Mas vemo-nos sempre de fora, pela lente da câmera de oito milímetros.
Eu sonho apenas alguns sonhos com os meus olhos.
Era isto que me falava o senhor Bidarra ao almoço: da imperiosa necessidade de sabermos o que é que os outros pensam de nós.
O Ricardo inaugurou uma Moleskine de folhas de 150 gramas por metro quadrado, quando esteve lá em casa a semana passada. Fez um desenho. Retratou-me.

(é uma gaita eu estar ainda zangada com a Leica, porque gostava de tirar uma foto ao desenho e pô-lo aqui)

Gostei do que vi. Os riscos da caneta preta desenharam uma vamp de cabelos enormes e volumosos, com um vestido comprido de corte "princesa". Os saltos altos lá estavam, enormes (este fim-de-semana comprei umas sandálias Kallisté a 10 por cento do preço no abençoado Stock Market), a pose altiva também.
Sorri e fiquei espantada com o pormenor de uma das mãos: cigarro em riste, mas em pose de cardeal, quando este estende o anel para ser beijado pelos seus súbditos.
O Ricardo vê-me de uma forma bonita. Diz que eu tenho nariz empinado (nunca tinha reparado, mas o Maique concorda) muito bonito - "Gosto desse nariz empinado" - e um sorriso Nicole Kidman.
Foi o piropo mais bonito que eu alguma vez ouvi.
"Em que é que consiste o sorriso Nicole Kidman?", perguntei eu, protegida pelo Messenger. "É absolutamente devastante; a true knock out", disse ele

Enquanto escrevia estas linhas, um colega de trabalho tímido, que tem um dedo que adivinha, veio tirar um café (trabalho lado-a-lado com a ruidosa máquina, que parece ter ataques de flatulência sempre que alguém decide beber um expresso na redacção) e, enchendo-se de coragem, perguntou: "Já alguém te disse que vens sempre bonita para o trabalho?"
"Não", respondi eu, corando de imediato.
"Mas vens; estás sempre muito bonita. Destróis o preconceito de que uma mulher ou tem boa aparência ou é inteligente. E, também, que as jornalistas parecem todas uns homens. É um serviço público que nos prestas".

Sozinha, mas maravilhosa, com o ego a transbordar, lá vou eu escrever um InfelizCidades.

segunda-feira, maio 09, 2005

Cegueira

Hoje, depois de ler as notícias, só acredito que Tu existes, porque me consola a ideia de que a menina que foi queimada numa banheira de água a ferver pela avó, que agonizou durante três dias e ainda foi queimada outra vez com um ferro de engomar em brasa porque chorava muito, ganhou asinhas de querubim no rio Douro e está no céu, numa nuvem bonita qualquer.
A menina chamava-se Vanessa, parece-se com a minha filha e Tu fazes o favor de ir rapidamente ao médico ver essas cataratas que te cegam.

Coleguinha novo

Tenho um coleguinha de secretária novo. Mais um que foi desterrado para a única secção ultra-populosa deste jornal: a secção para onde vão os jornalistas que se portaram mal...
Estou a gostar do meu companheiro de exílio.

Gafanhotos e outras musas

O meu maço de Lucky Strike em cima de uma mesa do Laçinho despoletou uma pontinha de ciúme no senhor que fuma Camel: "Agora até já fumas Lucky? Tens a certeza que não estás apaixonada pelo Madeira?"
Não, não estou. Faria sentido, de facto.
Penso nisso muitas vezes.
Não estou nada apaixonada pelo Miguel, apesar de achar bizarra a quantidade de vezes que subo ao segundo piso só para fumar um Lucky com o senhor Wood (o senhor do Camel também não gosta destas minhas visitas).
Admiro-o. Ponto final. Quero aprender todas as coisas que ele tem para ensinar (são imensas) e o facto mais extraordinário é que ele as quer ensinar e tem jeito para mestre (apesar de a paciência não ser o seu forte).
Admiro a guiquisse dele e ela contagia-me: este blogue não existiria se eu não tivesse conhecido o seu velhinho Something or Something Else e eu não estaria viciada em Statcounter se não tivesse sido ele a criar a minha conta e a instalá-lo no T(Ralha). Se os dias aqui no jornal fossem como nos sete anos em que eu e o Maique nos ignorámos, eu continuaria a utilizar o Explorer, perdendo o maravilhoso mundo do Firefox e das suas mil e uma extensões. Nem tão pouco sonharia que Safari e Camino são browsers para Mac. Desconheceria o significado de open source e se me falassem em panther, jaguar ou tiger, eu estaria convencida que alguém tinha ido ao zoológico -nunca me passaria pela cabeça que estariam a falar de versões do Mac OSx.
O Maique recorda-me outras "musas" que me inspiraram na vida, que despertaram em mim estranhos interesses - direito do Trabalho, em geral, e negociação colectiva, em particular, foram, talvez, os mais estranhos.
No final da semana passada, pedi ao Maique uma ficha de inscrição para me transformar em pequena gafanhota, como a Qui Qui e tantas outras meninas que ele guiou nessa arte das gafanhotices. Ele aceitou-me na Universidade Mikelegurra, e logo tratou de enumerar o material necessário para aprender este antigo ofício (já encontrei o Victorinox cor-de-rosa; é muito pindérico...)
Um dia, espero, ensinas-me fotografia.

sexta-feira, maio 06, 2005

Break

Na prateleira do Dashboard está uma ode ao Maique. Por acabar. Porque, tal como lhe expliquei há pouco, no Gmail, quando escrevemos sobre alguém que nos inspira verdadeiramente, temos que deixar aboborar as palavras, cozer em lume brando para apurar o sabor da prosa.

quinta-feira, maio 05, 2005

Depois



Fotos: MMM

Antes



quarta-feira, maio 04, 2005

Pós-catarse

Catarse. É uma palavra que eu amo, mais que não seja porque foi das únicas coisas que eu ensinei ao Leonardo.
Depois da catarse de ontem - os esqueletos decidiram sair do armário, porque já estavam bafientos, cheios de mofo -, deixo-vos hoje um apontamento completamente fútil e oco: amanhã tiro o aparelho dos dentes. Espero ter, brevemente, motivos para mostrar a minha dentição perfeita.
Se não tiver, tant pirre, como dizem os personagens dos filmes do Jeunet, I will survive, como diria a agora rechunchuda (outra palavra linda) Gloria Gaynor (que actuou no Dubai, quando eu lá estive).

terça-feira, maio 03, 2005

António Ângelo Vasconcelos

Quando eu tinha 13 anos, as certezas do mundo eram todas minhas e eu sabia que queria ser pintora como o Zé Ralha.
No Verão de 1991, terminei o oitavo ano com cincos a quase tudo (só a educação física é que tinha 3 - a mancha do meu currículo escolar foi sempre esta vil disciplina, ainda hoje tenho uma fraca auto-estima por ter sido, durante anos a fio, das últimas a ser escolhida para as equipas; ninguém quer os gordinhos e as gordinhas, somos uma espécie de leprosos, mas eu nunca arranjei atestados médicos falsos a declararem uma qualquer anomalia cardíaca ou esquelética, nem sequer estava com o período todas as semanas, como muitas das minhas outras colegas que, até nem eram gordas, mas não tinham jeito para a coisa), disse adeus à escola que tem das piores reputações de Lisboa (na entrada principal da preparatória Gago Coutinho, a estátua do menino e do cão com a cabeça decapitada há décadas provoca suores frios a qualquer encarregado de educação que se preze, mas a Magui tirou-me do colégio, recusou a matrícula automática no Valsassina, porque, dizia ela, eu tinha que saber o que era o mundo real e, de facto, a Gago Coutinho e os seus barracões pré-fabricados provisórios, que se foram eternizando - ainda lá estão -, foram sempre meus amigos, não me fez mal nenhum, de facto. Se tivesse ido para o Valssassina teria conhecido o Lourenço uns anos antes, mas, provavelmente, hoje em dia, diria "tefone" e "tevisão"), e matriculei-me no Liceu Rainha D. Leonor, na área de Arte & Design.
Em 1991, a Magui já era uma activista contra a assinatura mensal da PT e o nosso telefone - era o 803346 - era meramente um objecto decorativo, mais um brinquedo para os mais de 60 gatos que habitavam a nossa casa destruírem.
Agosto já ia alto quando o meu tio Zé, que mora no mesmo prédio, um andar acima, recebe um telefonema do Liceu Rainha D. Leonor. As senhoras do PBX (sempre foi um mistério para mim, o que quer dizer esta cena do PBX), desesperadas por não conseguirem entrar em contacto comigo, decidiram telefonar para um vizinho (por acaso foi para o meu tio, teria sido mais inteligente, digo eu, ligarem para a vizinha do lado, a D. Anália, mas, se calhar, estiveram horas a fio a rir à gargalhada com o nome da senhora e tiveram medo de ligar e, por lapso, lhe chamar Orália) para requerer a minha presença urgente na secretaria.
Fui com a Milucha, no dia seguinte. "Não há mais vagas para arte & design. Vai ter que escolher outra coisa", anunciou uma professora de cabelo loiro platinado muito armado com laca.
Foi como se o mundo acabasse naquele instante: "Como não há vagas? Qual foi o critério? Já viu as minhas notas?". Nada do que eu aleguei a sensibilizou. O destino é assim, como a vingança, implacável.
Não era o fim do mundo. Só teria que optar por uma área, em definitivo, no décimo ano. Mas eu estava totalmente alterada:"Vai fazer perder-me um ano. Quando eu fôr uma grande artista, vai-se arrepender de me ter feito isto. Esta escola dá-se ao luxo de desperdiçar talentos", disse eu, com intenso dramatismo e soberba à professora, que começou a perceber, naquele instante, porque é que o meu apelido é Ralha.
"Então que vagas é que esta escola tem para mim?", atirei eu, mais conformada, mas com uma saliência que merecia umas boas reguadas nas mãos. "Há Economia e Saúde". "O quê?????" Mas eu lá tenho cara de quem quer ir para Economia ou Saúde???"
Passei-me outra vez, a coitada da minha ex-tia Milucha acho que nunca passou tanta vergonha na vida (mal sabia eu que, meia dúzia de anos depois, daria entrada na secção de Economia de um jornal, secção onde fui muito feliz, onde conheci o amor da minha vida e onde não precisava de escrever em blogues para me sentir útil e realizada).
"Também há música...", disse, baixinho a professora, com medo, naquela sala bafienta da secretaria, cujas paredes eram de um verde hospital.
"Ora é essa mesmo!", sentenciei eu, sem não antes rabujar: "Podia estar a fazer desenhos, a desenvolver os meus talentos artísticos, mas esta escola só me dá música. É isto mesmo."
A professora não percebeu o meu sarcasmo e decidiu vangloriar a minha escolha: "Ora, vai gostar muito. É uma professora velhinha muito querida".
Quando saímos da sala verde e começámos a descer a escadaria da entrada principal pensei: "O que é que eu fiz? Um ano com uma velhinha querida? Vou enlouquecer..." Mas eu já gostava de um bom faduncho na pré-adolescência. Aceitei os desígnios do destino e nessa tarde pus-me a ler na Bíblia a história de Job. Um ano com uma velhota querida não me impediria de ser uma grande pintora.
os horários saíram e as aulas de música eram às segundas e às quintas feiras. A turma de música tinha apenas nove macacos, cujos nomes eu já nem me recordo (estranhamente, recordo-me agora do nome elemento mais asqueroso dos nove maravilhosos, o José Carlos, tinha a cara minada de acne e um nariz que parecia um ângulo recto perfeito). Juntaram-nos, aos nove magníficos, à segunda turma de Saúde. Enquanto eles empinavam a pequena e a grande crculação, nós descobríamos Bach.
A sala de música é ao lado do ginásio do Rainha D. Leonor e por debaixo dos balneários das raparigas, num edifício separado. Era uma sala que cheirava a velha. As aulas de música começavam às 10 e acabavam ao meio-dia.
Naquela primeira segunda-feira, eu preparei-me psicologicamente para a velhinha querida. Mas ela não apereceu. Subiu as escadas um homem dos seus trinta anos, magrinho, cabelo escuro revolto (look acabado de acordar), vestido de preto.
Eu entrei em transe: "Onde é que está velhota?", pensava eu, enquanto ele andava com a sala de música às costas, a mudar secretárias de um lado para o outro, para fazer um semi-círculo de nove carteiras.
Apresentou-se: "Chamo-me António. António e não setôr. Vocês tratam-me por António, ok?"
Choque outra vez.
A custo, timidamente, começámos a tratá-lo por António, mas na terceira pessoa do singular. "Não, não, não. É António e é tu. Não quero cá você".
Naquela primeira aula, o António mostrou não ter os métodos pedagógicos de uma velhota querida. Estivemos a escutar o silêncio, sentados em círculo, no meio do chão. Ouvimos os ponteiros do meu Swatch Scuba, os pássaros, a nossa respiração, e eu até ouvi o bater do meu coração (tenho a certeza que a primeira arritmia que tive foi no dia em que conheci o António)
Mandou-nos comprar uma flauta Honner. Para trazer na próxima aula, quinta-feira.
Eu apaixonei-me pelo António assim que o vi.
Mas pela flauta não. Toda a gente conseguia soprar no instrumento (nada de interpretações nojentas, se faz favor), reproduzir alguma nota, menos eu. Não saía nada parecido com um dó, ou um ré. Um caso perdido, pensou o António. E eu também.
Mas esforcei-me tanto, tanto, tanto, (a minha mãe ficou sem tímpanos: trancava-me no quarto e praticava até à exaustão), que em menos de um mês era a coqueluche da turma e do António. Devorava pautas. Bach, Mozart, cantigas de Santa Maria, música medieval e tantas outras. Chegava às escadas da sala de música às oito da manhã para praticar. A aula era só às dez, mas o António vinha de Almada e, por isso, chegava sempre mais cedo. Estávamos ainda no primeiro período e ele disse-me, nas escadas, onde fumávamos cigarros juntos: "Diana, eu vou-te dar um cinco. Eu não te posso dar um seis, senão eu dava-te".
Nunca fui tão feliz na vida.
Foi o António que descobriu que eu sabia cantar (era uma melodia cantada em cânone, apenas com a palavra "tuemba", parecia magia, quando ambos descobrimos que eu tinha uma voz de anjo). Foi o António que me fez descobrir os Madredeus. Foi por causa do António que eu me aventurei a cantar, com 14 anos, para o Pedro Ayres Magalhães e que, nesse dia, disse a mim mesma, posso morrer agora (anos mais tarde, ao ouvir as variações Goldberg no Palácio de Queluz senti o mesmo), porque o PAM se emocionou, pediu-me para gravar uma demo para ele (ele tinha um banco de voz, que é um conceito lindo) e ainda hoje se lembra - referiu-o há tempos quando o Leonardo o entrevistou para o Indígena - da adolescente louca, que abriu a porta do elevador onde ele seguia (já tinha um qualquer fetiche com elevadores) para lhe cantar "A sombra".
Esta história não tem um final feliz.

Quando o final do ano lectivo se aproximou, o António perguntou-me se eu não queria ir para a Escola de Música de Almada, onde ele leccionava.
A minha mãe não deixou.
Não fui para Arte & Design no ano seguinte. Esqueci a pintura e fui para Letras - o quarto agrupamento -, que era o que me dava menos trabalho.
A única recordação que eu tinha, até hoje, do António, era uma foto, tirada no último dia de aulas, está ele em contra-luz, a arregaçar as calças nos tornozelos, e uma folha pautada de uma sebenta com o seu nome completo e a sua morada, que eu decorei há 12 anos: "António Ângelo Vasconcelos, Quinta de Santo António (e o resto não digo, não vá ele morar lá ainda)".

Mas, hoje ao almoço, duas pessoas de quem eu gosto muito magoaram-me quando me disseram que não vale a pena tentar. Que ou se tem ou não se tem.
E eu lembrei-me do António e das notas que teimavam em não sair da flauta Honner. E do "Diana, eu vou-te dar um cinco. Eu não te posso dar um seis, senão eu dava-te".
Eu não acredito em nada disso que vocês disseram.
E encontrei o António no Google. Por isso, obrigada, Dave. Obrigada, Maique.