sexta-feira, abril 23, 2010

O Inspector

Sinto muito a sua dor, começou por dizer o inspector através da ligação de telemóvel que atravessou o rio, que galgou a Baixa Pombalina, e que desceu as escadinhas do metro, abalroou a multidão até às profundezas do cais de embarque.

Eu espero que não a sinta mesmo, que seja apenas uma frase de circunstância, Inspector. Desculpe-me se o ofendo, agradeço-lhe de qualquer forma, mas livro-o desse fardo, de querer sentir a minha dor.

É que eu venho trabalhar todos os dias, eu obrigo-me todos os dias a vir trabalhar.

E fico pacientemente à espera da terceira porta da primeira carruagem no átrio do Intendente, sentido Cais do Sodré, bem atrás da linha amarela de segurança. E eu não sou a mesma desde aquele dia, eu temo nunca mais vir a ser a mesma.

Eu fico atrás da linha amarela e penso no dia em que alguém se vai atirar à linha mesmo à minha frente, estou sempre a pensar nesse dia, imagino o som do embate, os travões da carruagem a chiarem, e no silêncio que se vai fazer depois.

Eu agora sei que se faz silêncio, como se uma bomba tivesse estoirado mesmo ao nosso lado e só se conseguisse ouvir um zumbido agudo, apesar de as bocas se abrirem para soltar o grito, eu sei que só se ouve silêncio, no máximo só se ouve um zumbido.

Eu não sei quando esse dia vai chegar, se vai ser do outro lado do cais, se vai ser à minha frente ou um pouco mais distante, tanto faz, porque eu já vi esse dia acontecer à frente dos meus olhos; esse dia acontece todos os dias à frente dos meus olhos.

Eu posso tê-los fechados, eu posso tentar entreter-me, tapar os olhos com as mãos em concha, ou esfregá-los para me livrar dessa imagem, ler o jornal, olhar para as feições das pessoas sentadas ao meu lado, por isso, acredite, inspector, não queira sentir a minha dor, porque se eu não trago o meu crochet que me anestesia, e se por algum acaso a minha mãe não consegue atender-me o telefone quando estou bem atrás da linha amarela de segurança, tudo recomeça de novo à frente dos meus olhos, e eu volto àquele dia, eu estou sempre a voltar àquele dia.

E naquele dia fez-se silêncio, e um breve zumbido talvez, e depois, curioso, uma única nota, eu que oiço música na minha cabeça, eu que tenho uma orquestra inteira cá dentro, e só há pouco tempo percebi que nem toda a gente tem música na cabeça, mas naquele dia, e durante tantos outros que se seguiram, eu só ouvi um dó, só um dó, martelou durante tanto tempo, só um dó, durante tantas semanas apenas um dó, e foi a primeira vez que eu não tive uma orquestra na minha cabeça, diga-me, por isso, que não sente a minha dor.

Eu continuo a fazer piadas parvas, inspector, eu continuo a fingir que a minha pele é de couro grosso, inquebrável, mas eu assino o meu nome sempre com um travo a sangue, inspector, eu estou espalhada pelo chão, em pequenos estilhaços, e não quero que ninguém se atreva a apanhá-los, eu não quero que os meus filhos me vejam, que o meu marido me abrace, porque fui eu que os arrastei a todos para uma casa assombrada; eu temo não por mim, mas por eles, temo para onde os vou arrastar da próxima vez, e eu lamento ter que o arrastar também a si.

Eu fui à lista telefónica. É coisa dos tempos de jornalista ainda, parece que não perco os tiques de jornalista nunca, que isso também nunca vai passar. Nada de Internet, nas Páginas Amarelas há mesmo de tudo, passeamos o indicador de cima para baixo e há notícias a cada folhinha com a gramagem de papel de Bíblia. Disquei o seu número, sem qualquer esperança, eu disquei o seu número como quem disca uma linha de apoio ou de valor acrescentado à procura de consolo ou ajuda.

Nunca esperei que me ligasse de volta. E agora não sei bem o que pretendo de si. Não esperava que me ligasse e agora estou no metro, e essa é a fase mais difícil do dia, quando estou no metro, recomeça tudo outra vez.

Minto. Eu sei o que quero de si. Queria que me dissesse o que sabe, Inspector, que me inventasse uma história, de tantas que já viu, de tantas que foi obrigado a ver. Eu não estava lá, e preciso que me diga o que viu, Inspector, que me leia os seus relatórios em voz alta, provavelmente quero que me mostre as fotos e o processo inteiro. Talvez assim eu consiga acordar todos os dias sem ter a cama coberta de pólvora.

Eu sonho todos os dias com aquela manhã, inspector, como se tivesse estado atrás da porta, ou do voile transparente das cortinas a assistir a tudo. Vejo todos os detalhes, a moldura e a foto da minha filha recém-nascida ao colo do tio, o candelabro com os anjinhos e a vela vermelha, as gravuras das aves em cima da cabeceira, o retrato da minha avó ao lado da janela, a bandeira da Suíça e a chaminé do Barreiro a assistirem a tudo e, tal como eu, sem poderem soltar um grito, pedir socorro.

E pergunto-me também se a cama estaria feita com os lençóis às florinhas que eu tanto gostava, a última vez que eu fui ao quarto fiz a cama com os lençóis às florinhas.

O inspector ficou em silêncio. A este ponto, a carruagem seguia dentro do túnel e guinchava talvez em protesto pelo pedido que havia sido feito.

Eu não posso ajudá-la, disse. Lamento, não posso mesmo, ninguém saberá nunca o que se passou, não consigo ajudá-la, perdoe, mas é sempre assim, levo demasiados anos nesta profissão para saber que é assim, não é possível saber exactamente o que se passou.

A cabeceira da cama sabe.

O retrato da senhora morena pendurado ao lado da janela sabe.

Ninguém mais saberá.

É tão triste quanto isto, ninguém saberá, e eu fiz o meu trabalho, fi-lo bem, acredite, mas as coisas são mesmo assim - não seria justo dizer-lhe o contrário.

E a sua cabeça há-de voltar a ouvir música, acredito que sim, é apenas uma questão de tempo, talvez não seja já amanhã, mas há-de voltar a ouvir música, talvez ao início um pouco fora de tom, talvez não consiga a afinação perfeita nunca mais, mas, juro-lhe, à medida que o tempo passa torna-se quase suportável, há-de voltar a ouvir música, isso lhe garanto.

E desculpe-me que o volte a dizer. Mas sinto muito a sua dor.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

O fiscalista (Capítulo I)

Com os olhos esbugalhados, parados na manete das mudanças, quem sabe se tentando hipnotizá-la, o fiscalista, espalmado de perfil como um egípcio, pele enrugada e borrifada de manchas castanhas, longos pelos cinzentos escuros encaracolados, espetados em riste para fora do nariz e das orelhas, declarou não gostar de pessoas que olham para o chão enquanto andam.

Porque é que o fiscalista estava dentro do carro, quente da viagem, no lugar do condutor, olhos presos na manete das mudanças, não vem ao caso. E o que esta declaração de interesses tinha a ver com a entrega do IRS do defunto, com a habilitação de herdeiros, eu não sei, não consigo explicar.

Aliás, deixei de tentar arranjar explicações, cansei-me, estou mesmo muito cansada. Perdi noites a fio a tentar tecê-las por entre metros de renda, agulha dois presa entre o polegar e o indicador, aprendi a fazer renda sozinha aos 30 anos, num momento de maior aflição, e compreendi nessa altura porque passa a minha mãe todas as noites a tricotar explicações, a exigir à agulha e à lã que façam aquilo que têm a fazer, a ordenar o caos de todas as linhas que se emaranham aos nossos pés ao longo da vida, um labirinto diabólico muitas vezes sem saída.

A minha mãe que quando eu era pequenina me pedia para eu segurar as meadas de lã com os pulsos, e que gingasse à vontade as minhas longas tranças para que da meada se fizesse novelo, a minha mãe que sempre me chamou de lolita, que sempre disse à boca cheia que eu tinha nascido com o cu virado para a lua, a minha mãe que sofre por tudo o que já me aconteceu, quisera ela que Deus não tivesse tão grandes planos para mim, que a vida passasse serena como uma meada de lã sem nós cegos.

E eu acreditei que uma torrente de pontos altos, pontos altos duplos, correntinhas - e para fechar um ponto baixíssimo -, achei mesmo que o meu pulso haveria de puxar tantas laçadas, tecer tantos pontos altos, pontos altos duplos, correntinhas, fechando tudo com ponto baixíssimo - pega-se na agulha como se pega numa caneta e se começa a escrever, fazer renda é apenas outra forma de ordenar o mundo, de o pôr a rodar direitinho sobre o seu eixo -, eu à espera de uma epifania, de uma reconstrução perfeita de todos os eventos que me trouxeram até aqui, a este momento preciso, e nada: nenhuma explicação a sair-me dos dedos, o pulso dorido, os dedos em sangue e nada, só mesmo renda ao meu colo.

Permaneci nas viagens de metro, paralisada, a fixar o meu reflexo e o reflexo dos outros no vidro da carruagem, à espera que o mundo, visto ao contrário dentro de um túnel escuro, me devolvesse todas as respostas aos porquês que esvoaçam esganiçados por cima de mim. Mas em vão.

Tudo em vão.

Não há livro nenhum da biblioteca que herdei que me possa ajudar, de nada me valem os arquivos poeirentos, as gavetas invioladas há mais décadas do que aquelas que eu levo.

Eu entrei na casa que culpo por tudo o que aconteceu, passei o sensor pendurado no porta-chaves e desarmei o alarme, mas todas as sinetas tocavam estridentes dentro de mim, diziam-me para fugir dali, rápido e a bom passo, para nunca mais olhar para trás. Esquecer a mata dos medos, esquecer que ela existe, nunca mais trilhar a estrada de terra batida, apagar todas as memórias, o ford cortina, o citroen visa, esquecer os duelos de espada em noites de luar, as lanternas de pirilampos, os nenúfares e as carpas coloridas, a ponte e o lago, as azedas, os malmequeres azuis e as roseiras bravas, esquecer a Santa que falhou em proteger-nos a todos.

Uma casa são só paredes feitas de tijolos, cimento, estuque, mas ela disse-me bem alto para eu ouvir: vai-te embora e não voltes. Ela disse-me isso em tom amigo, mas eu entrei ali, eu tinha que entrar ali, na casa onde ninguém foi feliz, e disse-lhe: tu agora és minha e, por isso, eu estou à espera que me contes tudo o que se passou, rebobina e põe no play, não é um pedido, é uma ordem, é o mínimo que me podes fazer. E, sem respostas - eu que até sei tão bem falar com as casas -, passei ao ataque, e cheia de medo, mas decidida, abri todas as portas, escancarei todas as janelas, remexi todas as gavetas; eu pensei, eu acreditei que a casa me daria todas as respostas se eu perdesse um pouco do meu tempo a ouvir o que ela tinha para nos dizer.

Mas ela respondeu com silêncio, ela leva 41 anos de silêncio e teve que assistir, muda, a tudo o que aconteceu, nunca poderia contar-me o segredo, não sabe como, e eu não sei o que me passou pela cabeça de pensar que a casa me poderia ajudar, que seria a única a poder ajudar-me.

Tudo permanecerá, para sempre, em silêncio.

Engulo espinhos, mastigo pedras que me ajudem a aceitar resignada o que se passou, não sei o que se passou, não consigo desemaranhar esta meada, tudo o que se passou: o mundo gira e gira e não se cansa de rodopiar apenas porque sim, e no meio de tantas voltas sem tino, há demasiadas coisas a caírem e a estilhaçarem-se no chão, no mesmo chão para o qual as pessoas de bem não devem olhar enquanto andam, porque o fiscalista não gosta.

Mas quer ele goste, quer não, eu ando de olhos cravados no chão porque, por vezes, ele falta-me por debaixo dos pés, porque há tapetes invisíveis que alguém puxa às escondidas para eu cair sem amparo. Há alguém que gosta de me ver ferida de morte, e há outro alguém que sabe que eu me hei-de levantar outra vez, e outra vez. Por vezes, há um campo minado no chão e eu sigo descalça, olhos cravados no chão, à espera que as pedras me ensinem por onde devo ir.

As folhas são verdes porque sim, e começam a pespontar no tímido anúncio da primavera mesmo que por dentro corra um dilúvio de lágrimas que não consegui chorar, e cresça um pântano de dúvidas a caminho dos meus pés, que tornam o meu andar mais pesado.

As unhas dos meus pés encravam porque sim, nasceram assim e hão-de crescer ainda um pouco no meu caixão, porque não aprenderam a fazê-lo de outra forma. Ranjo os dentes porque sim, porque a ponta da língua descansa no cantinho do incisivo lateral direito desde há muito tempo e diverte-se a fazer um pequeno estalido que me alivia as dores que sobem até à porta da minha boca.

As orquídeas não floriram este ano. O primeiro sinal que tudo seria como foi, porque sim, só porque sim, sem nenhuma explicação, sem nenhum aviso, sem que ninguém o pudesse evitar.

No último mês, o mundo como eu sempre o conhecera deixou de existir. Porque sim.

Ao terceiro dia do ano, a casa onde ninguém foi feliz acordou pela última vez.

Porque sim.

sexta-feira, novembro 06, 2009

O dia

Aquele foi o dia da minha vida, de toda a minha vida, disse-me, grave, narinas hirtas e cana do nariz perfeitamente delineada.

Parecia, aliás, que se preparava para debitar um discurso de Estado, com honras de abertura do telejornal das oito: inspirou fundo para ganhar fôlego ou coragem, só que nos olhos azulões já se instalara confortavelmente uma fonte de comoção, os olhos prestes a escorregarem num dilúvio, e tudo isto invertido num pedaço de espelho - olhos molhados, nariz delineado, e pose grave reflectidos no grande retrovisor do táxi, e eu sem conseguir deixar de reparar no desodorizante automóvel de pinheiro, a bambolear numa dança absurda que em nada se adequava ao momento de grande revelação que se seguiria dentro de instantes, ou talvez sim, mas tomara que eu não me tivesse demorado tanto no pequeno pinheiro de cartão embebido em aroma baunilhado, porque, a meu ver, não acrescentou nada à história.

Há um dia, menina, muito provavelmente ainda não teve o dia decisivo de toda a sua vida - talvez esteja enganado, penso, sem abrir a boca, porque o palco agora não é meu -, mas há um dia em que as peças todas do puzzle emaranhado que se foi espalhando por todo o lado - sem esperança de se encontrar a peça que o gato levou para brincar, que o bebé meteu na boca aflito dos dentes, o conjunto todo de peças que aparentemente não encaixavam umas nas outras -, há um dia em que tudo se encadeia, pim, pim, pim, zás e, nesse momento - digo-lhe isto com a mesma certeza de que é impossível manter os olhos abertos quando se espirra -, a mandíbula descai um bocadinho e o olhar eleva-se para o céu, e por breves momentos, penso que nem um segundo chega a passar, rebobinamos tudo para trás, todas as pequenas coisas vêm ao cimo como bolinhas de esferovite numa taça de água, e damos por nós, maquinais, magistrais a arrumar tudo no sítio certo para que possamos seguir em frente, e percebemos tudo, o porquê de tudo, por exemplo, eu percebo já porque é que escolhi há instantes cortar para a Columbano Bordalo Pinheiro, em vez de ter seguido para a Estrada de Benfica.

E tudo isto começou porque o taxista estranhou o meu pedido.

Inclinou os olhos para a direita, espreitou o comprido retrovisor com espelho olho de peixe colado a um canto, para ajudar aos ângulos mortos - mas quem raio é esta gaja?

Saio de um hotel de cinco estrelas da cidade, e peço para me deixar ao Intendente. Mas quem raio é esta gaja?

Explico-lhe que a minha vida é mesmo assim, repleta de donos do mundo e de putas esqueléticas.

Que fui eu que escolhi ser assim, e que todos me vão ensinando, pela estrada fora, coisas preciosas, se bem que as putas me dêem melhores histórias, que pelas putas eu vejo melhor, entendo tudo um pouco melhor. Os donos do mundo são, no fundo, criaturas bem mais tristes que as putas, vejo-os bem, topo-os bem, e talvez seja por isso, talvez seja essa a única razão porque os donos do mundo me importam. No fundo, são tão vítimas do destino, das circunstâncias, tal e qual como as escanzeladas prostitutas do Intendente. Têm mais uns metros quadrados para foder, em lençóis macios e camas que não rangem, cobrem-se com tecidos infinitamente mais quentes e mais frescos consoante as estações do ano, mas apanham a mesma chuva que todos nós, peidam-se tanto quanto todos nós - as trinta e muitas vezes ao dia que o canal de cabo me garante que todos os humanóides descarregam a cada 24 horas -, mas ao fim do dia, acredito que se sintam bem mais vazios que as putas do Intendente. É mesmo por isso que eu amo os donos do mundo, que os estimo como ninguém, e eles gostam tanto de mim como as putas que vou alimentando aos Anjos.

Quem raio é esta gaja?

Uma pessoa também tem os seus dias maus, diz.

Das putas e dos hotéis de cinco estrelas para dias maus e para os dias que mudam uma vida.

O dia da minha vida começou num dia mau, apanho em Entrecampos um mal-encarado que nem bom dia me diz, e quase não se dá ao trabalho de descolar os lábios para me dizer para o largar no Rato. E eu vou, e como estou num dia mau também não quero conversas, mas faço o caminho todo a pensar noutras paragens, não vejo a estrada, vejo a cara do meu menino, vejo a cara da minha mulher a chorar, vejo a minha casa, estreita, escura, num beco de Alfama, ao lusco-fusco das seis e meia da manhã quando bato a porta atrás de mim para pegar num dia de mais 14 horas que haveria de ser o dia da minha vida, mas eu ainda não sei isso, vejo a roupa da vizinha do primeiro andar a secar no estendal, quase a tocar na minha cabeça e consigo cheirar ainda o aroma do Omo nas minhas narinas, em vez da colónia do mal-encarado que transporto no banco de trás, mas não vejo os outros carros, o traço contínuo, definitivamente não vejo o sinal vermelho que passei por estar nesta cegueira repleta de imagens.

E o mal-encarado, então, abre a boca pela primeira vez. E sai-lhe lá de dentro uma voz que eu nem podia supor que tivesse, entrou mudo e estava com esperança que saísse calado, mas não, um homem está num dia mau e é verdade que passa um sinal vermelho, mas não devia levar com aquele estrilho: ele gritou-me, gritou-me, perdigotos a fazerem a chamada para o salto em altura e em comprimento também, chamou-me tudo o que possa imaginar.

E eu calado. Eu gosto de falar mas não em dias maus; eu calado a aguentar tudo, a tentar ver a estrada e não a taberna ainda vazia logo pela manhã, eu ainda com o gosto na boca do garoto que tomei pela madrugada e que é a única coisa que me forra o estômago, eu a fazer o maior esforço da minha vida para o deixar no Rato e prosseguir com a minha vida e continuar a enfrentar mais um dia mau.

Paro o carro no sítio que me ordenara entre dentes, quando quisera o destino que apanhasse o mal-encarado em Entrecampos, desligo o taxímetro e digo-lhe: não é nada, e as minhas desculpas pelo sinal vermelho.

E volta a provar que tem um vozeirão, ó homem não pode ser, eu tenho que pagar, e eu calado - já lhe disse que não falo muito quando estou num dia mau? -, sabe, eu não estava dentro deste carro, eu estava ao lado do meu menino no quarto estreito que não é mais do que um corredor sem janela, eu estava aos pés da cama do meu menino com a minha mulher a chorar baixinho.

Naquele instante, começou o dia da minha vida, não sei o que me deu, comecei a chorar como uma criança, abracei-me ao volante e chorei, chorei ao ritmo dos quatro-piscas, para que o mal-encarado parasse de falar, para que se calasse de vez e saísse do carro para me deixasse seguir o meu caminho. Sabe que deixei de ter vergonha de chorar, uma treta que os homens não choram, se eu não tivesse chorado, o meu filho estaria morto, eu chorei e o puzzle começou todo a encaixar-se.

Passo o dia todo a olhar para a frente e raramente vejo quem me entra para o banco de trás. Por vezes, sinto-me um cavalo, um burro de carga é mais o que eu sou, porque não há nobreza na praça, mas para o caso não interessa essa parte, o que quero dizer-lhe é que nem vejo quem carrego e, de há uns anos para cá, para não dar em doido, passei a reparar nas vozes, concentro-me nelas em vez de me fixar na cor dos cabelos, no feitio das sobrancelhas ou na cor dos olhos. E deixe-me que lhe diga que há pessoas com vozes horrorosas, a menina tem uma bonita voz, um bocadinho sibilante, mas não deixa de ser uma bonita voz. E é incrível como a voz daquele homem foi mudando de Entrecampos até ao Rato: um murmúrio, primeiro, entre dentes, depois da minha infracção, a boca toda aberta expondo, suponho, dois ou três dentes chumbados e a ausência de um molar e, no fim, já era a voz de um salvador.

Guardou então a carteira, percebeu que não conseguiria pagar-me a corrida, pediu-me desculpas, se o podia ajudar. Não, não podia, ninguém podia ajudar, mas já que me tinha esfrangalhado a chorar à frente de um desconhecido mal-encarado, mais valia contar a história toda.

O meu menino está a morrer, está a morrer e não podemos fazer nada, mandaram-nos para casa, sem esperança, um tumor na cabeça, temos seis meses, o meu menino tem seis meses de dor pela frente.

Escondi os olhos à frente das palmas molhadas das minhas mãos, deu-me para a vergonha, e a certa altura e deixei escorregar a mão direita para a manete das mudanças porque me apetecia fugir dali para fora. Lá de trás, o mal-encarado esticou a mão e abanou um rectângulo de cartão. Passe no meu consultório daqui a duas horas. Traga o seu menino e a sua mulher.

Li e reli aquele pedaço de papel. Director de Oncologia.

Toda a gente tem um dia.

O meu foi aquele. Mas não pense que foi assim tão fácil e que a história acaba aqui. Duas horas depois lá estava eu, o meu menino embrulhado num cobertor, a minha mulher com a cara deformada pelo desgosto. Mas ainda conseguíamos sorrir, à frente do meu menino, a gente tentava sorrir. E connosco levámos exames, o processo, ressonâncias e tac's, levámos tudo ao mal-encarado que me berrara duas horas antes, algures entre o Saldanha e o Marquês, pior do que um agente da BT.

Toda a gente tem um dia.

Este foi o dia em que tudo poderia ter mudado. Em que tudo mudou. Mas podia ter mudado para um lado ou para o outro. Há um dia, só há um dia destes em toda a nossa vida. Talvez esteja para breve o seu.

O mal-encarado voltou a falar entre-dentes e eu antecipei o pior. Confirmou a sentença de morte do meu menino.

Eu ando sempre com uma pistola no carro. Aqui do meu lado esquerdo, para não estar tão à mão, para não ser tão fácil puxar do gatilho. Eu saí do consultório, era ali na 5 de Outubro, o chão estava pintalgado de lilás, os jacarandás carregados de florinhas, e o vento a arrancá-las provocando uma chuva de pingos grossos lilases, e eu então uivei bem alto, eu uivei e a minha mulher chorava em silêncio com o meu menino ao colo.

Abri a porta do carro e corri ao lado esquerdo do carro para acabar com tudo mesmo ali, rápido e indolor, mas a pistola não estava lá, eu não sei como é que a pistola não estava lá, e nesse instante recebo um telefonema do mal-encarado, e eu ainda estava a uivar agora por raiva de a pistola não estar no sítio certo - guardara-a esse dia no guarda-luvas -, e ele pede-me para estar pela manhã no Santa Maria. Para me preparar para a maior provação da minha vida.

O meu menino vive, curou-se, está totalmente curado.

E aquele foi o dia da minha vida. De toda a minha vida.

Desligou o taxímetro porque chegámos ao Intendente.

Deixe estar, não é nada, não a posso deixar pagar esta corrida.

terça-feira, setembro 15, 2009

Rua dos Anjos

Eu sou uma boa pessoa.
Não tenho medo, nem vergonha de o dizer. Porque razão haveria de ter – não me vou transformar em pó, nem a terra há-de tremer se eu admitir aqui, onde apenas me visita quem procura por uma criança que nasceu com as mãos coladas, que sou uma boa pessoa, escrito mesmo assim, desta forma precisa, muito diferente de escrever até sou uma boa pessoa, sem falsas modéstias, deixando cair o até, que não estaria lá a fazer nada, com toda a presunção, sem nenhuma hesitação, de peito aberto e olhos fixados, algures entre a linha do horizonte e o início do céu - eu sou uma boa pessoa.
Não sei de que me vale isto.
De que me vale ser uma boa pessoa, de agarrar na mão fria da velha que vê no António as bochechas do seu menino que já morreu. Lembro-me de estar no Parque de Viseu, ainda sem saber quase nada, a não saber nada a não ser a arte de dar às pernas com toda a força, inclinando ao mesmo tempo o corpo para trás e para a frente, e o segredo de fechar os olhos e sentir a música do vento na cara com a trança a voar para os lados quando o baloiço quase chegava ao céu, lembro-me da minha cabeça no colo da minha mãe, saia crepe de seda branca, ela maquinal a fazer cortinas de crochet, e eu horas nisto, a examinar as mãos da minha mãe, e depois a olhar para as minhas, que não conheciam mais do que os lápis caran d’ache da minha avó, quase hipnotizada pelo movimento da mão direita, do fio que saía do saco de plástico e se transformava em renda, e eu a dizer-lhe, junto ao lago, mamã, as minhas mãos não têm estrelas como as tuas, e as estrelas eram o craquilhado junto dos nós dos dedos, e eu pego na mão gelada da velha, agora molhada de lágrimas, e vejo que ela já não tem estrelas nas mãos.
Perco tempo, demoro-me, oiço todos, a chaga da perna do homem sujo que me guarda todos os dias o melhor lugar da rua, porque a senhora fala com a gente como se fôssemos gente e não bichos. E percorro as memórias de tanta gente que nem sei o nome, analiso fotos a preto-e-branco, de papel já amarelecido, cantos dobrados, memórias guardadas em sacos de plástico, aproprio-me de tudo o que posso, sou um saco sem fim, uma manta de retalhos de um pequeno resumo da vida dos outros.
Apenas esta certeza, que de nada me vale, que se, por um momento, o mundo fosse governado pelas empregadas de limpeza curvadas e pelos porteiros anafados, pelas putas esqueléticas e arrumadores imundos, pelas caixas de supermercado demasiado maquilhadas e pelas tendinites das empregadas de mesa, pelas velhas de luto, com as saias a cheirarem discretamente a urina, se o mundo fosse do elo mais fraco, eu seria grande, intocável.

Eu sou uma boa pessoa e temo a Deus, imagino a sua ira em jeito de maremoto, nem tanto quando falho, acima de tudo quando nem tento.
A minha puta favorita chama-me um anjo. A minha puta favorita chama-me um anjo nos Anjos e isso tem que pesar.
Eu vivo nos Anjos. Vivo há um ano nos Anjos, na avenida do Almirante que deu um tiro nos cornos ao pensar que falhara, e eu não o censuro, penso que faria o mesmo, não para ganhar nome de rua maldita, mas faria o mesmo ao pensar que falhara em tudo, por isso nem tento, melhor assim, mas a ira de Deus sempre aqui ao meu lado, em crescendo, e eu digo a mim própria, eu sou uma boa pessoa, eu pelo menos tento ser uma boa pessoa, isso tem que contar, e fico quietinha no meu canto, que ninguém me bula, porque eu trago em mim os filhos das mães que já morreram, as dores ciáticas, eu trago em mim a fome da minha puta favorita que me chama um anjo apenas porque lhe dou comida de quando em quando, sempre que a encontro – menina, obrigada, muito obrigada, mas de certeza que não lhe vai fazer falta para o bebé; e ela é tão magra, tão magra e o António sorri para um rosto cadavérico que toda a avenida maldita ignora, e ela diz-me que o dia se iluminou porque somos os dois anjos estacionados na Rua dos Anjos.
E depois disto, demoro outra meia-hora a chegar a casa, porque me demoro, paro, escuto e olho, não porque venha um comboio a caminho mas porque há demasiadas almas que me escolhem, e me detêm, e eu deixo-me ficar, entretanto, o senhor Hussein há-de rezar a Alá por todos nós, há-de oeferecer-me um quilo de borrego que eu não sei nem vou cozinhar, mas sou tão boa pessoa, falo com doutores e com mendigos, falo com os velhos e as crianças vêem ter todas comigo, falo com todos os credos, com todas as raças, domino uma qualquer linguagem universal, ou isso ou tenho um tê na testa, e sou tão engraçada, falo de uma forma tão diferente das outras pessoas, mas chego a casa e desligo o telefone ou deixo-o a tocar em surdina, passo o dia todo em silêncio sem pensar nas questões maiores da vida, não posso, não consigo, respiro, como e bebo, dou de comer, dou de beber e basta; mas mesmo assim, assombrada por todos os demónios, enterneço-me com a nossa determinação em vivermos nos Anjos, como se isso nos bastasse, como se ali soubéssemos, de certeza, que nenhum mal nos pode acontecer.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

António


Os dias que se seguiram amanheceram com uma luz quase perfeita.

As manhãs todas apareceram-me como se trazidas pelos olhos do David que vê o mundo como ele é, ao lusco-fusco; há sempre sombra na luz que o David vê, e essa é a verdade mais antiga de todas, da qual nunca duvidei: que a luz precede a sombra e que se lhe sucede a seguir, interminavelmente; que nenhuma existe sem a outra, mesmo nos dias mais claros de todos, e os dias que se seguiram eram de uma luz que não feria ninguém, uma luz que fazia dançar as partículas de pó à minha frente e, se quisesse, poderia até nunca ter fechado os olhos naqueles dias; e nas manhãs todas parecia-me ouvir um estalido pequeno, o pequeno estalido que os ouvidos mais atentos conseguem escutar no momento imediatamente anterior à caixa de música arrancar o primeiro acorde ao rolo dentado onde estão gravadas, a relevo, as mais bonitas melodias.

Os dias que se seguiram chegaram-me, também, embaciados por um bafo qualquer, quente, vindo de dentro para fora de mim. E, aparentemente, apesar do ressoar de um longínquo eco, que não nos faria nunca esquecer os dias mais tristes de todos, parecia que, um a seguir ao outro, todos os sonhos voltavam a emergir, violentamente, respingando com uma esperança esmagadora os dias que nos chegavam, banhados com uma luz cada vez mais perfeita.

Os dias que se seguiram souberam também à primeira golfada de ar depois de se ter desejado com todo o ser, com toda a força, deixar de respirar, e havia, por isso, neles, também algo de água: todos os sons pareciam abafados por ela, os mais agudos e os mais graves não eram mais do que um sussurro, e nós rodopiávamos, leves, em manobras impossíveis dentro dela – piruetas, cambalhotas, e escarpávamos até às suas profundezas, para desenterrar todos os sonhos, até os mais velhos, os que foram quase esquecidos, e eles vinham à tona sem sequer lhes tocarmos, e nem nos lembrávamos sequer que ali os tínhamos mergulhado porque havíamos desejado deixar de respirar.

E por mais tempo que ali estivéssemos, que ali decidíssemos ter estado, as mãos nunca se haveriam de ter engilhado, o ar nunca nos haveria de faltar; ali não eram só os sons que se deixavam abafar por entre líquenes: tudo era morno e a luz, como eu já disse, era quase perfeita; era clara e sombria quando assim era preciso, e aquele sítio, para onde fomos arrastados nos dias que se seguiram, dava-nos tudo, e os sonhos pareciam mesmo saídos dali, de um lago de águas paradas e turvas, que os guardou em segredo, em paz, longe de todos, longe de tudo, e nós sorríamos entre golfões, tufos de lentilhas-de-água e emaranhados de raízes de nenúfares, afastávamo-los a todos como se afasta uma madeixa de cabelo que teima pousar à frente da cara, e banhávamo-nos com aquela luz quase perfeita que nos chegou nos dias que se seguiram.

Depois, foi o mais fácil, não foi preciso qualquer esforço, tudo corria de feição, como devia ter sido, como teria sido escrito da primeira vez, e a nossa missão era simples, trazermos os sonhos à deriva e, para grande surpresa de todos, eles estavam intactos, nenhum se esfarelou, nenhum se esborratou pelos dias tristes que agora acreditávamos ter enterrado.

E os sonhos pareciam ter sido sonhados a noite passada.

Podíamos até contá-los como uma história de encantar, pudéramos tê-los cantado como uma canção de embalar que se entoa, ao fim da noite, à cabeceira de uma criança que ainda não tem medo do escuro; eles voltaram como se os tivéssemos acabado de sonhar, como se ainda trouxéssemos a cara enrugada dos lençóis brancos onde pousámos o corpo durante dias que não foram mais do que noites; e os sonhos traziam em si as metáforas mais bonitas, todas as promessas, os melhores augúrios, e nós éramos heróis em todos os capítulos - a nossa força e coragem enterrava todos os monstros, todo o mal e toda a dor; éramos portadores de toda a esperança do mundo e da justiça também; sabíamos isso, tínhamos acabado de acordar e os sonhos, os nossos sonhos, afinal, não tinham ido a lado nenhum.


Para o meu filho António, que é o sonho mais bonito, é a luz, depois do pesadelo mais cruel.

Para o João – até ao infinito.

(E para a minha amiga Hermínia, para o meu amigo David, que nunca deixariam que me faltasse o ar, mesmo que eu desistisse de respirar)

terça-feira, outubro 21, 2008

Tantas, tantas vezes me aconteceu o mesmo.

É por isso que eu digo que não sou bem a filha da minha mãe. Ela nunca se mostraria tão vulnerável, seria mais impensável do que passear pela rua em trajes menores, ela nunca se deixaria paralisar por algo que não fosse francamente aterrador, nem o maior susto da sua vida, talvez nem o seu maior desgosto a fizesse quedar-se e quebrar-se em frente a uma multidão.

E ninguém parou, nunca ninguém parou quando tantas, tantas vezes me aconteceu o mesmo; nunca ninguém sequer abrandou, ninguém perguntou se eu precisava de ajuda, nunca ninguém estendeu a mão, ninguém olha para trás, nunca ninguém olha para trás, só para a frente, nunca ninguém saiu do piloto automático quando isto me aconteceu, tantas, tantas vezes.

Por isso é que me foi impossível continuar com a minha cómica marcha - um pé inchado atrás do outro, uma coreografia meio grotesca, barriga empinada, caminhar arrastado, bamboleante, gotinhas de suor a deslizarem pelo nariz, outras em fila de espera para andar no escorrega na minha testa.


Eu bem que podia ter feito como todos os outros, seguido o caminho das pedras que me leva todos os dias a um sítio onde eu sou um pouco menos eu, onde definho mais um bocadinho, onde experimento o desprezo depois de um nadinha de glória, o desânimo depois da alegria, onde cada vez mais me convenço da máxima maior, que sou boa demais, que sou boa demais para isto e para quase tudo o que já fiz na vida, que anda meio mundo a enganar o outra metade, a enganar sem tão-pouco disfarçar, e a metade enganada sorri, encantada.

Eu podia ter fingido que não era nada comigo, que tanto se dá como se me deu, como se ela fosse mendiga, como se ela fosse nojenta, como se estivesse desgrenhada, como se ela tivesse uma doença altamente contagiosa. Pior. Podia ter passado por ela como se ela fosse invisível.

Mas não podia ser assim. Porque tantas, tantas vezes me aconteceu o mesmo e ninguém parou, nunca ninguém parou. E só de olhar para ela, ao longe, fiquei tão triste – tinha que parar.

E era apenas uma mulher bonita, muito bonita mesmo, que chorava em silêncio, sentada num banco de jardim, e uma multidão imensa passava por ali, um formigueiro que não quer saber, que nunca vai parar, porque é só uma mulher triste a chorar num banco de jardim. Ridícula.

A minha mão parada na perna de uma mulher que chorava sozinha num banco de jardim. Se a minha mãe me visse, ia achar que eu sou mesmo filha do meu pai. Eu agachada, com esta barriga toda, à procura do equilíbrio, entre estalidos de articulações que não nasceram para carregar o peso do mundo, que podiam carregar muito bem uma criança mas não toda o excesso de bagagem que trago em mim.

Em que é que a posso ajudar, precisa de alguma coisa, quer que eu lhe vá buscar uma água, uma sucessão de perguntas tontas. Não valeu de muito, não valeu quase nada, foi só uma mão em cima de um joelho tapado por uma ganga preta, duas ou três frases de circunstância, atabalhoadas, eu também fiquei tão triste, como se a tristeza se passasse por um qualquer sensor de bluetooth.

Mas a mulher sorriu, sorriu de surpresa, eu estou aqui, afinal eu estou aqui, não desapareci, terá pensado ela, e sim, eu teria gostado que, um dia uma alma qualquer tivesse parado também, oferecido um lenço de papel com sabor a alfazema, que me assegurasse que tudo ficaria bem, mesmo desconhecendo que dores de crescimento eram ali curtidas num banco de jardim.

E a mim, certamente, ninguém me vai condecorar, nenhuma sessão solene será convocada para elogiar os meus nobres e gloriosos feitos, as minhas incríveis façanhas; não haverá centros de flores em cima da mesa de honra e no palanque, nem medalhas brilhantes com fitas de cetim para pendurar ao pescoço depois ouvir de bonitas palavras escritas por um qualquer assessor.

Porque isto acontece-me vezes demais, já me aconteceu vezes de mais, tantas, tantas vezes.

quarta-feira, outubro 15, 2008

Mamã, e se os números nunca acabam, porque é que nós acabamos?
Carolina Ralha, 4 anos, ao calor de 39 graus de febre, e com a garganta forrada a pus, no habitáculo de um Fiat Idea, parado em frente ao nº 19 da Avenida Almirante Reis.


Bem vistas as coisas, foi a primeira marca semi-permanente que deixei no mundo, ou no estuque de uma parede.

Tanto faz.

Para esta, para qualquer outra história não faz grande diferença, e nunca é muito relevante, sequer, saber de que forma é que se fez a ferida, qual foi o barulho do tombo, o tamanho e a forma da cicatriz, ou mesmo como foi e porque artes conseguimos chegar em primeiro, à frente de todos os outros; como é que conseguimos cantar mais alto, correr mais rápido, acertar em tudo o que havia para acertar, e suportámos cair nas graças do mundo, e aguentar até hoje a suportar o peso de todos os olhos pousados em cima de nós.

Para aqui pouco importa, só é de tomar nota que este foi um dos primeiros e nem por isso raros momentos em que uma coisa qualquer se serpenteou perto de mim, demasiado perto de mim, e anunciou baixinho que eu sempre caminharia pelos mesmos caminhos dos outros, mas num passo e de jeito diferente.

E essa certeza - e isto também não é muito relevante - só me chega agora, vinte anos depois, aparentemente só me chega agora.

Sempre soube que esta foi a primeira marca, mas apenas se torna tudo límpido em mais um impasse, em mais uma insónia, em mais uma moinha, já se transformou num incómodo apenas, uma espécie de zumbido, uma comichão, quando essa qualquer coisa se aproxima demais, e me chega mesmo a tocar, e depois recua, claro, queima só um bocadinho, só mais uma pequena picada para me lembrar que há-de ser sempre assim - eu hei-de andar pelo mesmo caminho dos outros mas num passo e de um jeito diferente.

Mas, primeiro que tudo, há a festa de Natal da escola no Bairro das Estacas, na sala 7, em frente àquela em que eu aprendia a desenhar os mais belos quês de quá quá, num quadro preto muito grande e que parecia feito de manteiga de ardósia.

Na sala 7, o quadro não era negro, nem de pedra arrancada à terra, era verde, de um qualquer composto industrial, naquele quadro as letras recusavam-se a ficar tão bonitas quanto as da sala do quadro preto rugoso da sala em frente - que sorte a minha ter aprendido a desenhar as letras naquele quadro - e foi ali, numa sala que me era estranha que eu ouvi o primeiro guincho de um pau de giz, e eu nunca percebi porque é que o pau de giz partido não guincha, ou pára mesmo de trinar.

Os apagadores da Cisne, de desperdício de fibras têxteis compactados, eu consigo ver tudo com demasiada nitidez, talvez me possa baralhar um pouco, efabular um pouco: na carteira para cima da qual me ergueram no encore, as tranças da Minashri e o pullover aos losangos do Pritesh ao meu lado, comigo a cantar a lenga-lenga em francês que a minha mãe me ensinara, muito encolhida.

Saint Nicolas va m'apporter une poupée, une poupée, Saint Nicolas va m'apporter une poupée pour m'amuser.


Essa foi a primeira vez do conhecimento de muitas coisas importantes, do poder emudecedor do som que me sai muito afinado da garganta, foi o dia em que descobri também que o coração por vezes sai do seu poiso e se faz ouvir em surdina junto à orelha direita.

Et des caramels pour les demoiselles, et des grand batons pour les vilains garçons


Foi o primeiro trago de uma coisa que a quem chamam espanto, eu espantei-me com o que acabara de acontecer: o silêncio, o medo, as palmas, e depois um rubor nas bochechas e na barriga quando tudo terminou.

Mas este momento só foi verdadeiramente relevante para mim, eu hei-de me lembrar da minha primeira canção em frente a uma escola inteira durante toda a minha vida; só eu me lembro da festa de Natal da Escola do Bairro das Estacas na sala 7.

E depois há o convite à menina tímida que acabara de mudar de escola, órfã de três avós em menos de um ano.

Eu não falava com ninguém, eu não ria de nenhuma graça, não trazia os meus berlindes nem o meu elástico, nem fixava verdadeiramente os olhos em nada. Não saltava nem brincava no recreio, e quando chovia, eu gostava quando chovia, transferiam-nos para um pavilhão de chapa de zinco e aí eu passava o tempo à margem, nunca perdi tempo a olhar para dentro, mas sempre a olhar para fora, e esgotava o tempo em que não estava na sala de aula – o quadro já não era de ardósia, aquela já não era a sala 5 - a contar as goteiras da gigante barraca e convencida que Deus me tinha como filha adorada, porque o mestre de Judo reciclado em professor de ginástica da criançada continuava doente e, assim, não teria que admitir em frente a toda a turma que não sabia dar uma cambalhota, fazer o pino, ou rodopiar numa roda.

Mas o dia em que eu deixei a minha primeira marca semi-permanente no mundo, ou no estuque de uma parede - como disse, tanto faz -, em que este vaivém começou chega-me agora, sem aviso, mais de vinte anos depois, enquanto vos escrevo com dois cérebros e vinte dedos das mãos, foi esse o dia em que o extraordinário me bateu à porta pela primeira vez, cedo demais, cedo demais, era só uma criança de oito anos quando uma directora de um colégio privado me encomendou o meu primeiro mural, pediu-me ela, em frente a toda a escola: Podes tirar duas tardes e pintar as paredes da sala dos bebés com os desenhos tão bonitos que só tu sabes fazer?

Depois de forrar as paredes com gatos gordos de várias cores, uma maceeira, flores, e da minha assinatura junto ao rodapé de uma das paredes - foi a primeira vez que eu assinei Diana Ralha, que nome bonito que me deram -, nesse mesmo ano, como seria de esperar, tornei-me invencível e rápido viria a ser a aluna-prodígio do professor Geraldes. Com a ajuda do meu querido irmão-primo Hugo, passei da menina triste para o mais perto de uma Nadia Comaneci que algum dia fui. Até grande ginasta eu já provei que conseguia ser - Quantas vidas cabem em mim?

Muita história poderia ter sido contada desde a última vez que eu aqui escrevi; desde a última vez que o extraordinário me tocou de raspão e voltou a deixar nódoa-negra.

A vida, a nossa vida, já não passa devagarinho entre as quatro paredes de Santa Marta. Agora, de vez em quando, conduzo um jipe do bloco de leste comunista e trago em mim uma outra, uma nova vida: tenho vinte dedos das mãos, vinte dedos dos pés, tenho dois cérebros, e cresce em mim um menino que se vai chamar António.

E porque o extraordinário já persegue o meu menino mesmo no escuro do ventre da sua estranha mãe, ou talvez porque, afinal, existe uma qualquer lei de compensação cósmica - coisas tão más não deviam acontecer a pessoas que, pelo menos, tentam não fazer mal a ninguém, só pode ter sido engano, não devia ter sido eu -, o António se calhar vai chegar ao mundo um ano depois do maior desgosto da minha vida. E está bem assim, se calhar está mesmo bem assim, eu aguento tudo, quem é que não acredita que eu aguento tudo?

A Carolina agora dorme num quarto cheio de fadas e estrelas que eu própria desenhei e depois pintei com todo o amor que me pode sair das mãos, sem me preocupar em assinar o gigante mural, como da primeira vez em que deixei a primeira marca semi-permanente no mundo.

A minha filha fez-me prometer que nunca mais mudamos de casa. Muito triste, numa noite destas, mesmo muito triste, ela explicou-me que é pequenina e que por isso se vai esquecer da casa onde fomos só nós duas e mais ninguém, e onde depois fomos três, onde as paredes abriram rachas de tanto amor que por lá passou.

E por isso, para que ela não se esqueça de Santa Marta, da D. Beatriz ou do Sr. Zé, do seu quarto cor-de-rosa cheio de gatos nas paredes, da parede laranja da sala, ou da cozinha vermelha, assentamos as histórias da sua memória de quatro anos num caderno muito bonito que a Teresa nos deu. Quem sabe se esta não será a sua primeira marca semi-permanente no mundo?

Agora, vivo numa casa cheia de sol, de tectos altos onde nascem flores de estuque feitas pelas mãos mágicas de alguém que conheceu as minhas paredes há mais de cem anos. Vivo na avenida maldita, digo isso aos turistas, que aquela avenida é amaldiçoada, conto sempre novas histórias, e tenho um amigo paquistanês que reza a Alá para que a garganta da Carolina a deixe em paz.

Subo cem degraus para chegar à nossa casa, onde cabem todos os nossos amigos, toda a nossa família, todos os nossos sonhos, e há remendos mal feitos no chão de tábua corrida, há os gritos do prédio da rua de trás, mas é a casa de onde eu prometi que não saía mais.

E sonho muitas vezes com o meu pai, lembro-me dele por tudo e por nada, vejo-o quando deixo o olhar perdido nos pequenos quadrados de mosaico azul de uma qualquer piscina, ou quando pinto fadas nas paredes com os pincéis que ele me deixou em herança.

E também sonho com o cheiro e com o colo da mãe do meu pai, com ela a abrir-me a asa e o cobertor da sua cama, com o cabelo muito comprido e branco, uma figura diferente daquela que eu conheci, como se ela tivesse envelhecido apenas nos meus sonhos, como se nunca tivesse morrido e vivesse nos meus sonhos, e ela a dizer-me, uma noite destas em que não dormi por causa de mais uma dor, a minha avó tapada por um cobertor estampado com o mapa mundi do século XV a dizer-me: entra, podes dormir aqui.

E penso - eu não sou a filha do meu pai. E repenso: também não sou a filha da minha mãe, muito menos da minha mãe, essa mulher inquebrável que nunca chora a não ser pelas suas árvores e pelos jardins votados ao abandono.

Eu sou qualquer outra coisa de intermédio, mas não sou mistura de nenhum dos dois. Sou a derrota e a glória. Sou bonita e sou feia. Sou amiga e venenosa. Sou mercenária e bondosa. Sou a mão que escreve e a mão que pinta. Sou a voz que canta e a voz que defende causas invencíveis.

Sou tudo e não sou nada.

quinta-feira, abril 03, 2008

E nada de extraordinário acontece (uma e outra vez)

A frase está trocada - eu quero dizer uma coisa, mas digo o seu contrário, não sei bem se é de propósito, mas faço isto a toda a hora, eu desdenho, eu provoco, e eu queixo-me à toa, trago os bolsos cheios de histórias de um cancioneiro que faz cair os queixos e esbugalhar os olhos, eu digo (como é que eu tenha a lata de dizê-lo?):

eu só quero uma vida simples, sem sobressaltos.

E sento o rabo no sofá da casinha de bonecas da rua do Monopólio (eu vou morar para a avenida maldita, mas ela também está no tabuleiro do jogo da minha infância, sentados em cima do tapete sobre o qual o meu pai morreu, as pernas da mesa enterradas em tacinhas de água por causa das formigas pretas, e eu decido morar na avenida maldita, porque sempre tive queda para acolher as maldições de todo o mundo) – eu sento-me e não posso deixar de pensar que o meu rabo está enorme, que isso não é de hoje, mas que agora já não sei, já não reconheço que corpo é este que arrasto.

(e quando o telefone tocou – foi quase há um ano, como é que já passou quase um ano -, junto ao recreio da escola de São Miguel, em frente ao prédio da segurança social, e o meu irmão disse, o Zé Ralha morreu, eu pensei imediatamente que ficaria com os seus olhos; lembro-me de baixar a pála do pára-sol e espreitar a medo se os meus olhos já tinham ficado grandes como bolas de cristal, e se já não eram os meus, umas amêndoas perfeitas, que viam tudo a andar à roda; e isto, todo este medo, porque há muito, muito tempo ele disse-me, na única sombra do terraço de tijoleira escaldante - a glicínia ainda estava em flor-, quando a tua avó morreu - és tão parecida com a minha mãe -, ela deu-me os seus olhos, nesse dia, eu sonhei com uma tangerineira, e acordei com os olhos da minha mãe).

Mas eu sento o rabo no sofá - e naquela casa há sonhos novos dentro do estafe de cada parede velha repintada -, e eu digo às minhas vizinhas (querendo acreditar nisto com todo o meu ser):

Eu não preciso de mais nada. Acreditem no que vos digo, não quero glória, não posso ousar pedir seja o que for, e mereço todas as agruras; é que não posso mesmo, se ninguém me põe no meu lugar eu mesma me ponho na ordem, eu sei ser humilde, eu sei agradecer de papo cheio ou mesmo quando tudo é deserto, porque quem tudo quer, tudo perde, e porque mais vale um pássaro na mão do que dois a voar; eu tenho tudo o que pedi.


Ousei pedir o impossível que se fez possível, eu tenho mais do que poderia ter sequer sonhado,

(e tenho só quase trinta anos)

eu tenho-o a ele, o meu grande, grande amor, aquele que arrastei para o incrível mundo do nada de extraordinário acontece.

Bem, sei, tens toda a razão, a frase devia ser ao contrário - e tudo o que é extraordinário acontece -, eu não sei bem porque é que não escrevo tanto como antes, se é porque tenho medo de ser pobre e mal agradecida, eu não queria mais nada, não preciso de mais nada, só uma vida simples, nas vidas simples os blogues não servem para nada,

(escrevo isto e tenho Álvaro de Campos a sair-me da boca para fora, se eu casasse com a filha da minha lavadeira talvez fosse feliz),

e visto isto, percebo que não há um pingo de humildade em mim, que digo isto da boca para fora, para ver se de tanto repetir consigo decorar, mas eu quero mais, sempre mais um pouco; há meses, uma boa meia dúzia deles, eu gravei no telemóvel o número de telefone do comendador – porque raio, queres tu o número do comendador, sabe-se lá, e nada de extraordinário acontece, e agora da janela do museu que lhe é homónimo, eu tenho Picasso e Magritte ao meu dispor (e quem haveria de dizer que os Litchensteins são tão grandes), ainda agora, há tão poucas semanas, eu embrulhava os quadros da herança do meu pai, um Bual, não sei quantos Limas de Freitas, e os quadros do meu pai, e o número do Comendador guardado no meu telefone rasca.

E zango-me, arrelio-me (Miguel, arreliar é uma das minhas palavras favoritas; e bem-haja também – era o meu avô Oliveira que as dizia sempre, Diana, não me arrelies, e Diana, bem-haja), tenho a Santa Filomena, de setas coladas ao peito a olhar para mim, e quantas vezes pensei – afinal, o meu pai não era bruxo; afinal, o meu pai nem sequer me deu os seus olhos, afinal, tudo o que me resta são prédios no Barreiro e centenas de telas embrulhadas em papel de cenário,

Mas o meu pai faz-me das suas, porque eu insisto, porque eu digo, à laia de ladainha em tom menor, e nada de extraordinário acontece, e um, dois, três, dias depois de eu perder o filho que não nasceu, aparece, sei lá vindo de onde, um fantasma monocromático ofendido com as palavras deste blogue, que abalroa a minha mãe na rua, que diz que eu sou uma galdéria, que não presto para nada, um fantasma se sumiu da vista há mais de dez anos, raios, raios, e tudo o que é extraordinário acontece, e virgem ofendida, devolve um quadro de um anjo que o meu pai em tempos pintou. E o imbecil ofendido nem percebe que me trouxe um presente do meu pai, nem percebe que foi joguete de um plano maior, que só serviu para isso, e espero que fique bem, e que tenha muitos filhinhos pela barriga da perna.

Mas não fica por aí - comovo o haitiano octogenário com o meu francês macarrónico – tu parles le francais comme une vache holandaise, diria o meu avô Oliveira – e convoco toda a imprensa para o seu trabalho, peço ao David o email da última voz da rádio, e digo quem sou, o que fiz (não sou nada, não posso querer ser nada, Álvaro de Campos está-me nas pontas dos dedos), que preciso da sua voz emprestada, e do outro lado do oceano, onde o ditador veste fatos-de-treino da Adidas – ele responde que me conhece muito bem, que muito estima o meu trabalho, e eu sem saber a que trabalho ele se refere.

E se tal já não bastasse – já era demais até ao final do ano, pelo menos -, pela manhã sorrio por dentro, porque a mulher com quem falo, desde o início da semana, de orquídeas, azáleas e hibiscos, diz em francês, ao telefone, que o recém nomeado director-geral das artes, é da terra do São Francisco Xavier, que lhe deve ter herdado o apelido

(Eu sorrio, porque o João acha que eu sou Xavier, porque a minha família goesa descende do santo)

E, de repente, ela desliga o telefone e em tom grave, pergunta:

Filha, qual é mesmo o teu apelido?

E eu respondo, a sorrir, Xavier Ralha, isso mesmo, o apelido dos monhés, e julgavas que era só isto, nã, nã, nã, faltam as palavras mágicas, essas mesmo, as que eu digo em jeito de feitiço dos contrários – e nada de extraordinário acontece -, e já temos as duas os pelos dos braços eriçados à espera do que está para vir, quando ela me deita ao chão (preciso de fumar, preciso de fumar 3 cigarros de seguida) e revela um dos segredos mais bem guardados da família:

O teu pai não tinha um gato chamado Leonardo?

E, de repente, eu percebo porque, afinal, guardei o telemóvel do comendador.

terça-feira, março 11, 2008

A escada

De certeza, a qualquer momento, vou-me esquecer – estou nisto há dois dias –, talvez não seja ainda hoje, mas de amanhã não passa, com certeza, vou-me esquecer, é tão certo como o remoinho da minha franja arrebitar o monte de cabelo sobre a minha testa, e vou levar à boca o copo de água que antes de mim matou a sede à gerbera oferecida pelo Spa das tias, na véspera do dia da Mulher.

Mas, inexplicavelmente, deixo-o ficar, aqui, do lado esquerdo.

Certamente, talvez aguente até amanhã – ando nisto há quantos dias? –, sou capaz de jurar que não vai demorar muito, semanas no máximo, vou tirar as conchas que me aquecem as orelhas com decibéis acima do que as autoridades comunitárias aconselham, e esqueço os máximos do petróleo, deixo de plantar dezenas de notícias sobre o preço do alumínio, peço desculpa ao meu adorado banqueiro, e agarro no pinheirinho que enquadrei entre as escadas de incêndio e o rio Tejo, saio pela porta sem mais explicações, sento-me num degrau frio da escada que ninguém sobe, que ninguém desce, e começo a cantar.

Qualquer coisa, o que me vier à cabeça – quantos gigas tem o lado direito do meu cérebro, eu acho que é do lado direito que guardo todas as músicas, mesmo em cima do olho -, às vezes, só vou lá acima para murmurar baixinho qualquer coisa pelas escadas, pego num cigarro, e vou lá acima, perguntam-me, não vais de elevador, não, não vou, não dou mais explicações, subo pelas escadas porque quero ver o Marquês e para murmurar baixinho qualquer coisa pela escada acima; só por isso é que vou lá acima.

Como é que era? Passávamos os intervalos escondidas, no breu, escondidas pelo caracol da escada, eu tinha a voz límpida, e a tua voz por vezes cheirava a mofo, tinha buracos como uma qualquer avenida de Lisboa, e a minha era constante e cristalina, nunca saía de tom, nunca hesitava, parecia tudo uma incrível magia, por vezes, espantava-me a beleza das nossas vozes juntas, tínhamos 14 anos, eu descobri a minha voz às escuras, contigo, a cada intervalo, e lá fora jogava-se à bola, e fumavam-se cigarros junto às casas-de-banho, mas nós fugíamos, não dizíamos nada a ninguém - aquilo era o segredo mais bem guardado, era melhor do que qualquer droga -, nós dávamos as mãos e íamos cantar para as escadas que já ninguém se lembrava.

Gostava de voltar àquelas escadas. Provavelmente, ao cimo do caracol, trancados a sete-chaves, ainda estão os xilofones que me faziam rir com a minha própria descoordenação motora, decerto, coberto de pó ainda está o piano desafinado, gostava mesmo de lá voltar contigo para cantarmos músicas de quando ainda não tínhamos nascido.

De certeza, eu sinto-me prestes a ceder, não vou aguentar muito mais estou assim desde que encontrei aquela foto dentro do CD da Elis, eu de cabelo muito ralinho, o maior tesouro da minha herança é aquela foto dentro do CD da Elis, o meu pai guardava-me dentro do CD da Elis, e desde que eu encontrei aquele retrato a preto-e-branco, cabelo em desalinho, a minha boca tão bem desenhada, assim a olhar para cima, todos os sonhos enterrados na covinha da bochecha direita –, já não sei quantas vezes cantei a “Saudosa Maloca”, ou as “Folhas Secas” e o “Cais” desde que encontrei aquela foto; por ora, eu só precisava de umas escadas, umas de mármore, no penúltimo andar de um prédio alto, não preciso de audiência, enquanto uns fumavam charros, enquanto outras descobriam o corpo, eu passava as tardes numa escada a cantar.

Sei bem que a Natalina, do sétimo andar, abria a porta devagarinho, e ficava a escutar, sei muito bem. Na altura eu não ria alto, eu não dava nas vistas, eu era invisível – dava tudo para ser outra vez assim –, naquele tempo eu não queria escrever, eu não gostava de canetas, e nunca tinha batido os dedos sobre nenhum teclado, e eu tinha esta certeza, eu trazia esta certeza agarrada à garganta, que o que mais me fazia feliz era cantar.

Na escada, sem audiência, sobretudo sem audiência, eu queria ver até onde é que eu podia chegar; eu levava o meu maço de SG Ventil e passava as tardes a cantar, matava as beatas com o sapato que também ainda não era de salto alto, eu matava as horas a cantar músicas que mais ninguém conhece, a cantar dores que ainda desconhecia, mas que adivinhava estarem à porta, eu sei que sou quem sou por causa dessas músicas que foram escritas e cantadas muito antes de eu nascer, sobretudo por elas, eu sou esta pessoa, não há palavras aqui, aqui ou noutro lugar, que me convençam do contrário, e não há nada que me faça tão feliz como quando cantava naquelas escadas.

Qualquer dia, a qualquer instante, eu tinha 14 anos, eu apaixonei-me pela minha voz há mais de 14 anos, e depois fechei a boca, como se faz a um amante traidor, eu fingi que esqueci o grande amor da minha vida, não tarda, sem mais demoras – eu sinto isto desde que encontrei a foto a preto-e-branco, fechada no tesouro mais precioso da herança do meu pai -, fecho a tampa do portátil, deixo a cadeira a girar sozinha, levo o maço na mão, saio porta fora e ponho-me a cantar.

Por enquanto, enquanto isso, fico por aqui, a adivinhar quando vou beber ao engano o copo de água choca que matou a sede à gerbera oferecida pelo Spa das tias, na véspera do dia da Mulher.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

No dia seguinte

Eu penso muito nisto, e não fiques já com essa cara, com medo do que aí vem, porque eu sou absolutamente inofensiva; já fiz mal às formigas, mas apenas porque elas não se foram embora da bancada de mármore da cozinha após demoradas conversações, e depois de esgotada toda a diplomacia, ainda esperei três dias, mas em abono da verdade, e em minha defesa - raras vezes, como esta, eu saio em defesa do meu bom carácter -, que fique registado que nunca toquei numa mosca, apesar de descender de uma família de caçadores de varejeiras.

E por isso, talvez por isso mas daí talvez não, porque a minha mãe não é do lado da família que apanha moscas qualquer uma das mãos e até de olhos fechados, ela por vezes até me diz que me falta espinha dorsal, e que não me corre sangue nas veias, porque não quero sentir ódio ou amargura porque são sentimentos que me queimam, porque quase sempre ofereço a outra face, porque me vergo, porque não enfrento o touro pelos cornos, porque levo esta vida sem subir montanhas, e o problema, o único problema é que eu penso em tudo, sobre a mais insignificante merda que se me atravessa no caminho.

A toda a hora, e não é pêra doce, não é fácil ser eu a toda a hora, e às vezes lembro-me da Tiju a confidenciar-me na assoalhada que fica imediatamente em baixo da outra onde, em tempos tão mais felizes, fazia biscoitos em forma de estrela com a minha avó - os móveis da cozinha eram laranja mas não consigo refazer a copa, tinha uma predilecção pelo armário dos tupperwares que cheirava a plástico velho, mas não consigo ver nada na copa além do sorriso e dos lábios finos da minha avó; e sei que era lá que batíamos nos tachos à janela, quando o ano velho se despedia, mas não me lembro de que cor era a copa onde fazia biscoitos e bebia copos de água com pastilhas de Cecrisina -, a Tiju a dizer-me que o meu pai em tempos lhe disse isso mesmo: que não era fácil ser ele, que por vezes, nem ele tinha paciência para si próprio. E assim, eu tenho a certeza que sou mesmo filha do meu pai, que quem sai aos seus não é de Genebra, ou como raio é o provérbio.

Mas, descansa, eu não penso mais em ti do que penso em tudo o resto, não mais do que nas mãos da minha mãe, que estão cada vez mais torcidas como um tronco de uma árvore bonsai, não menos que nos resultados do banco de amanhã, ou nas cores dos azulejos da casa-de-banho nova que não sai do papel, e quase o mesmo do que no buço que só eu vejo reflectido do outro lado do espelho, nos olhos azuis costureira mongol que vive aos pés de Santa Marta, ou na peruca loura e despenteada da vizinha que todas as noites desce ao Andaluz para jantar com o marido gigante sempre com chapéus ascottianos enfiados na cabeça.

Mas penso muitas vezes nisto – se ao menos eu tivesse nascido no dia seguinte, naquele que vem depois da capicua 22, talvez fosse mais parecida contigo, talvez nunca reparasse no buço que mais ninguém vê, talvez eu não comesse bolachas de chocolate para esquecer todas as frustrações, muito provavelmente eu não duvidaria que sou mais inteligente do que toda a gente que me rodeia; eu podia reinar, como tu, talvez se eu tivesse nascido no dia seguinte, talvez eu escrevesse o tal livro que toda a gente me pede, se eu tivesse nascido um dia depois era leão como tu; eu penso muitas vezes nisto, que gostava de ser como tu.

E toda a gente me fala mal de ti, leãozinho, que és um predador, um mercenário, que não olhas para trás nunca, que traças o teu destino a tira-linhas todos os dias, e que arrasas quem quer que seja que te faça desviar do plano original; que te gabas do teu sucesso, que em tempos destruíste a minha reputação – como se eu tivesse alguma -, toda a gente me diz tem cuidado, que um dia tu me vais magoar, que não tens nada de santo, que és feito de pau oco, que és incapaz de amar; ninguém percebe porque gosto tanto de ti, e mesmo assim, eu oiço todos os argumentos, entra por um ouvido e sai por outro, e eu continuo a gostar de ti, a admirar-te de muito longe, e penso muito nisto, que, se ao menos eu tivesse nascido no dia 23, talvez fosse um bocadinho mais parecida contigo.

Vejamos se nos entendemos e se eu vou directa ao assunto. Eu nunca serei porra nenhuma, só vou ser dona do meu nariz empinado, eu nunca vou ser nada, não vou escrever o tal livro, já não sei se ninguém me respeita apenas porque tenho um par de mamas, não é fácil ser eu própria, não é mesmo, questiono cada centímetro do meu corpo, cada gesto impensado; pode até não parecer, mas meço todas as palavras, não é nada fácil, por vezes também me canso de mim, porque choro demasiadas vezes atrás do portátil, porque carrego o luto por todas as coisinhas que cirandam na minha cabeça que têm que me abandonar, porque é assim a vida, mas, talvez, nunca se sabe, se eu tivesse nascido no dia seguinte, eu se calhar ia mais longe, e se assim tivesse sido, eu queria ser como tu.

Agora falo menos, falo menos e rio menos, porque é melhor estar calada do que apenas falar sobre mim; no fundo, eu nasci um dia antes e, por isso, estou fechada sobre mim, e eu também penso tanto nisto, nem mais nem menos do que em todas as outras coisas juntas que andam aos saltos dentro da minha cabeça, quantas vezes estivemos juntos, se juntássemos todos os bocadinhos, ao longo de todos estes anos, quantas horas estivemos juntos, nem um dia estivemos juntos, e eu deposito quase tudo no amor que tu também me tens.

A história é esta. Simples. A do dia seguinte.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Quando é que se abre a porta aberta?

As portas estão todas fechadas, estão sempre fechadas, e quando as encontramos de outra forma, se é que as encontramos de outra forma (as portas não nasceram para estar abertas), estão escancaradas, em deboche; as portas são estridentes, elas nunca se entreabrem de soslaio, as portas nunca deixam ver o que está do outro lado por uma nesga,

(essa é a função das fechaduras, as fechaduras só existem para podermos espreitar o que está para lá da porta)

não há meio termo, nunca há meio termo, porque ensinaram-nos isto, de pequeninos - fecha a porta atrás de ti, não te esqueças de dar três voltas à chave, e não abras a porta a estranhos, nunca abras a porta.

E então, se é assim, se é sempre assim, quando é que se abre a porta aberta?


As portas estão sempre fechadas, nem que seja só no trinco, é simples o seu destino, as portas só existem enquanto portas porque devem estar fechadas, cumprem pena pesada, voto de clausura, por um pecado qualquer, por uma promessa qualquer, por um segredo qualquer, por vezes, não guardam nada, não escondem nada, mas, mesmo assim, têm que estar fechadas, com correntes, prisioneiras de aloquetes para os quais nunca foi feita nenhuma chave da salvação.

Ensinam-nos isto, que quem anda à chuva molha-se, que quem brinca com o fogo faz xixi na cama, e que as portas estão sempre fechadas, têm que estar fechadas.

E então, se é assim, se sempre foi assim, quem é que se lembra de abrir a porta aberta?


E talvez sejamos as únicas pessoas desta cidade que puderam acreditar que a porta estava encostada, apenas encostada, fomos os únicos que nos lembrámos de abrir a porta aberta – porque raio, desta vez, não levámos o pé-de-cabra, porque raio não trouxemos o alicate, o escopro e o martelo?

(E já pensaste quantos pares de pés passaram pela porta aberta antes de nós?)

E quem resisitiria a espreitar, quem não teria entrado também se ela tivesse deixado antever o que estava para lá de si - lá dentro já esperávamos a penumbra, a porta nem sempre fecha todos os segredos; lá dentro, sentia-se cá de fora, nem precisava de estar aberta para o sabermos, para adivinharmos o cheiro, uma mistura de velho com penas de pombo e pó, cá de fora eu ainda descortinava o cheiro da cera de abelha, do chão e das tralhas esquecidas -, mas quem, se não nós, se lembraria de apenas encostar a palma da mão à porta e, sem palavra mágica, sem impressão digital – todos os dias, o meu dedo abre uma porta -, ainda bem que eu acreditei que conseguia abrir a porta aberta, e que fui à frente, sem medo, e que depois pude olhar para trás, e sorrir, e dizer-vos:

Já está. A porta está aberta.


Eu juro-te, muita coisa mudou desde o último dia do ano, quando tu ficaste atrás de uma porta que eu não vou conseguir abrir apenas com a força que se acumula na ponta dos meus dedos; outros milhares de pares de pés passaram pela porta aberta, depois de lhe termos descoberto o segredo.

Sabes,

(a Carolina começa todas as frases assim, como eu, sabes?)

O meu cão desapareceu no início do ano, não volta mais, o Pax morreu e eu ainda não consegui chorar pela falta que ele me faz.

A D. Ilda morreu e eu fui a única a escrever no livro de condolências da Servilusa, eu fui a única a chorar, a chorar como uma criança, a chorar como quando ela me consolava na sala do papel de parede almiscarado (o Valter e a Teresa a falarem dos seus gatos, preocupados com os gatos, que estavam sozinhos há muito tempo, e eu a chorar ao lado do caixão da D. Ilda, e ainda bem que a D. Ilda me deu, era eu tão pequena, o vestido de princesa cor-de-rosa; a Teresa já nem se lembrava dele, eu escrevi sobre o vestido de princesa cor-de-rosa no livro de condolêncioas da Servilusa, mas cada um com o seu talento, a Teresa distingue o miado do gato persa em qualquer lado do mundo; a Teresa chorou pelo gato mas não pela D. Ilda, e eu não chorei ainda pelo Pax).

E o meu pai voltou-me a morrer outra vez, a semana passada, o meu pai voltou a morrer, quem é que podia acreditar - é tal e qual como a história da porta aberta, quantos pares de pés passaram por ela e só viram uma porta fechada, igual a tantas outras - que dois pintores partilhavam o mesmo estranho apelido e nem sem sequer eram parentes; o meu pai voltou-me a morrer esta semana, e eu ainda não fui ver o meu avô, não voltei às Finanças do Barreiro para entregar nova declaração do modelo 1 do IMI, nem passei os recibos do condomínio (ou marquei a reunião ordinária).

E todos os dias, todos, todos os dias, desde o último dia do ano, eu lembro-me de ti,eu lembro-me de ti, lembrei-me de ti,

(sabes, eu nunca me vou esquecer de ti)

sobretudo quando abri a porta aberta.


[post 777]

terça-feira, janeiro 29, 2008

O portageiro feliz

A Teresa diz que não conhece mais ninguém assim, que se dê ao trabalho, para quê, que bem há-de vir ao mundo, nenhum, nenhum mesmo, muitas vezes é assim é tão raro, só que há mais gente como eu, a Magui vê trevos de quadro folhas do parapeito da janela do seu segundo andar, e eu vejo histórias que me atropelam porque precisam de ser contadas, cada um com o seu fardo, cada qual com a sua sina.

Mas se nada se ganha, também não se perde coisa alguma, não custa muito, um minuto basta para que o mundo dê um soluço (e geralmente alguém tropeça nesse instante). E eu aprendi, eu sei lá bem com quem é que aprendi isto, que devo parar, para recuperar o fôlego, para esticar as pernas e imediatamente a seguir ouvir o estalido do meu joelho doente, devo impor-me uma pausa e pedir ao coração que não me saia da boca para fora, eu devo parar. E às vezes, sou travada, não sou eu que decido parar – às vezes paro para memorizar as janelas do 120 da Duque de Loulé e sou abalroada por gente com pressa de apanhar o 22 –, mas consigo congelar o curso natural das coisas, nesse instante não se ouve senão o ruído fininho do silêncio, apesar de os escapes, esses, continuam a emitir mais CO2 do que o estilete de papel que levo à boca, e que me queima os lábios, e nisto vem um ganido do violino desafinado à saída do túnel da República, e o mais incrível de tudo é o sorriso dourado, doce, eu revejo-me naquele sorriso, do homem que pede esmola à chuva por entre a fila de para-choques sujos.

O melhor dos meus dias não tem a ver com os sapatos caros que compro quando estou triste, esvaziada, e que depois me torturam o calcanhar, mas que me fazem a coxa e a barriga da perna perfeitas, deliciosas, por vezes, não é mais do que isto, por acaso, às vezes estou atenta no instante em que coisas raras acontecem (e a minha mãe coloca mais um trevo de quatro dentro da página de algum livro da biblioteca, ao lado dos olhos atentos de vidro das bonecas com pele de porcelana), e raios me partam, às vezes até me passa pela cabeça tirar o estilete de papel, e ter lábios perfeitos, sem quimaduras.

A Teresa diz que não conhece mais ninguém assim. Que fale com os portageiros. Mas quem é que se vai dar ao trabalho (e eu sempre com esta – é a pior profissão do mundo), até o motor do vidro eléctrico resmunga a cada área concessionada, desce a contragosto, e o Multijet ronrona lá à frente, dou-lhe uns segundos de descanso, e é por estas e por outras, que, por mais jeito que dê, que mais jeito que viesse a dar, eu nunca vou ter colada uma caixa da Via Verde atrás do espelho retrovisor, eu estico o braço e sai pela borda fora o cartão da águia azul, entre o polegar e o indicador, isto é maquinal, não dura mais que uns segundos, mas o que é que custa – às vezes custa, quando a alma dói –, um sorriso, olá boa tarde, passou bem? (e por vezes sinto-me um operador de call center, mas nunca me sai forçado, e sorrio à espera do que está para vir).

Há dias, raros, rarefeitos, incríveis, em que o portageiro sorri também. E diz mais do que um murmúrio inaudível que deveria soar qualquer coisa como boa viagem. E quando isto acontece, continuamos a viagem, e ela é mesmo mais prazeirosa, e pisamos o tabuleiro metálico da ponte sem que nos importe o zumbido do vento que vem dos segredos do Tejo; quando assim é, seguimos um pouco mais felizes porque o portageiro também o é.

No tabuleiro da Ponte sobre o Tejo, na cabine 14, tem que se pisar o Bus, seguir sempre pelo Bus, o portageiro feliz ganha a sua vida, fechado num aquário de um metro quadrado, e é mais feliz do que os escravos que me abalroam quando algo me obriga a parar, é mais feliz porque sim, sem dinheiro amealhado em horas e pestanas incineradas em frente a um monitor, sem casas espaçosas, postos de trabalho ergonómicos, sem qualquer motor de alta cilindrada estacionado na rua onde de certeza brotam trevos de quatro folhas.

Olá, boa noite, como está? (os olhos ainda marejados pelas árvores arrancadas ao solo para passar o metro da margem sul do Tejo, se calhar um suspiro por ele ser a primeira visão depois da lenha cortada para cima dos carris).

Há tanto tempo que não passava por aqui, está tudo bem consigo? (espreita para o banco de trás, a Carolina dorme). A menina está tão crescida. É linda…

Ele não sabe que eu me encostei à faixa da direita de propósito, que arrisquei, um tiro no escuro (a minha mãe encontrou mais um trevo, à noite), pisei a palavra Bus durante mil metros, porque a história do portageiro feliz tinha que ser contada.

Ele não sabe que eu acredito que ele saiba perfeitamente quem sou eu, apesar de só lhe ter esticado o cartão da águia azul três vezes na cabine 14 da Ponte sobre o Tejo.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Deusdado


Si Deus Nobiscum quis contra nos, se Deus está comigo quem está contra mim,

[Tenho quase a certeza, descambou, até pode ser que não, mas tenho quase a certeza, descambou]

debaixo da Ginkgo, porquê debaixo Ginkgo, logo a Ginkgo, na cama, depois do fim, sem perceber porque é que Deus nos abandonou, porque é que perdi o nosso filho debaixo da Ginkgo, porquê debaixo da Ginkgo, aquela do nosso jardim, justamente quando ela dourava o chão de Lisboa, e eu à cata da folha mais pequena sem sequer perceber que o estava a perder debaixo da copa da árvore sagrada que fazia sombra aos dinossauros à milhões de anos atrás, à procura da folha da sorte para ganharmos o Euromilhões e podermos ter a sala grande com três janelas duplas do projecto da Teresa, se ganhássemos o Euromilhões eu continuava a querer viver na Almirante Reis, com vista para o Castelo e para o Intendente,

[Depois de levantar os olhos do relatório da urgência, viu-me de olhos raiados, narinas muito abertas, jugular a querer rebentar no pescoço, quero deixar de respirar também, se eu pudesse ter dito alguma era quero deixar de respirar, faz barulho demais se eu respirar, 30 segundos sem respirar, deixar ribombar que já descambou e enquanto isso não respiro, maxilares cerrados, pescoço esticado, nariz empinado, pose de Estado, punho cerrado e unhas cravadas na carne dentro do bolso do casaco que tem o forro descosido, depois de me ver assim, voltou ao relatório, não para escrever que tinha descambado, só para ler, e pela primeira soube que o meu nome era Diana, Diana, repetiu Diana vezes de mais, só se lembrou que era importante saber que o meu nome era Diana antes de me dizer que o meu filho tinha descambado]

eu que gosto tanto das Ginkgos, e agora como vai ser a vida sem as Ginkgos douradas no Inverno, na Almirante Reis não há Ginkgos, só tílias, e lódãos, melhor assim, antes disto, um silêncio absoluto, horas, instantes, preces, todas as promessas foram feitas, a todos os Santos, foram invocados todos os Orixás, se Deus está comigo não me vai fazer isto, porque é que ele nos havia de abandonar,

[ela está muito nervosa, pelo amor de Deus tenha cuidado a tirar-lhe o sangue, porque ela está muito nervosa, e eu muda, sem respirar, de cabeça encostada à anca da enfermeira que chorou pelo meu silêncio, pelos meus olhos raiados, pelo meu pescoço esticado, a enfermeira que prendeu no quadro de cortiça da urgência, com pionaises dourados, o desenho que a Carolina fez na sala de espera da urgência]

só um ganido de dor por nunca mais poder contar com as Ginkgos para nada, nunca mais vou poder gostar das Ginkgos, lamento, não é possível, e se Deus está connosco quem é que tem a ousadia de estar contra nós, fico-me pelos eucaliptos, eu sempre gostei mais de eucaliptos, e de pombos, eu estava a perder o nosso filho debaixo da Ginkgo e as pombas do nosso jardim não me vieram à mão, Deus está comigo, deu-me todos os sinais, não, sinais não, são prenúncios, quando é um aviso de perigo é prenúncio, as pombas que não vieram ter comigo, e o nevoeiro gelado que caiu sobre nós, e logo a seguir a febre da Carolina, e lá em casa, sem eu saber ainda, a rosa de Inverno que perdeu todas as pétalas sem qualquer explicação,

[mas o título do post era Esperança, e Deus está sempre comigo de mãos dadas, não há plafond de milagres por ano, pois não, há milagres sempre que é preciso, eu troco o meu cabelo por este filho, ela está muito nervosa, tirem o sangue com cuidado, não a magoem, e se ele ainda cá estiver eu troco o meu cabelo por este filho, chamo-lhe Deusdado ou Teófilo, a seringa espetada no meu braço, o torniquete de borracha e o meu braço a parecer uma perna gorda de recém-nascido, cabeça encostada à anca da enfermeira que chorava baixinho, e de repente, a Deodata, e aí sim era um sinal – estás aí, Deus? –, um sinal e não um prenúncio, a Deodata, de cabelos vermelhos até ao rabo, vermelhos sangue e a raiz do cabelo muito branca, a Deodata que fez nascer a minha primeira filha, que quando ela sufocava enredada no cordão umbilical e fazia disparar todos os alarmes da maquinaria a que eu estava ligada, colocou aqueles cabelos vermelhos ao lado da minha almofada, enquanto corria para o elevador, e cantava para mim, a Deodata a garantir-me que estava tudo bem, ia ficar tudo bem – estás aí, Deus, consegues ouvir-me?]

na pala do sol do Idea, onde todos os dias confirmo se trago remelas coladas às pestanas, se o rímel não borrou a pálpebra, e a folha da sorte, amarela fluorescente, minúscula, em forma de borboleta, de leque, não sei, espalmada, não sei porque a trouxe, porque andava à procura dela sem perceber que estava a perder o meu filho, as Ginkgos este ano ficaram douradas fora da hora, tarde demais, tanto melhor, e no Outono os Jacarandás voltaram a florir só para mim, Deus não me abandonou, em Novembro os Jacarandás floriam de novo e eu certa que só o faziam para mim, eu a ver sinais de Deus no lilás da cinzenta 5 de Outubro, os Jacarandás a dizerem-me que só por mim me davam a esperança de um novo começo, de um recomeço.

[todos os sinais, todos os prenúncios, todas as promessas, todos os santos com cera derretida ao seus pés, eu a falar com o meu pai na casa-de-banho do Hospital, eu a sangrar e a pedir-lhe para não me deixar mal, que ele sempre foi bruxo, a pedir-lhe para me deixar ficar com este filho dentro de mim, o Santo António da mãe do Stucky preso dentro da minha mão em jeito de protecção, o mundo soluçou naquela tarde, o abraço da Teresa depois do fim, os cigarros da Hermínia à porta da Maternidade, os bebés do ano a nascerem, a adolescente a chorar de dor na sala de espera, contracções de seis em seis minutos, o Leonardo ao telefone a garantir-me que a culpa não era minha, e uma lágrima a cair no linóleo, depois as lentilhas do Stucky antes das doze badaladas, a Ginkgo não podia ter feito nada, debaixo da Ginkgo, daquela, não podia ter sido debaixo daquela, se Deus está comigo, não há quem tenha a coragem de estar contra mim, porque é que ele me abandonou, deu-me todos os sinais, mas descambou.]

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Esperança

Na casa de banho houve sempre, desde sempre, concílios familiares, epifanias, lágrimas e gargalhadas, brushings e borbulhas rebentadas no meio de conversas sérias, decisões para a vida, entre dúvidas metafísicas e mensagens codificadas nos desenhos a bolor do tecto por cima da banheira, nem sempre houve um espelho, mas nunca faltavam fitas de cetim guardadas no armário para as minhas tranças, outrora os azulejos eram brancos, depois começaram a cair e a Magui colou papel autocolante foleiro com gaivotas, a nossa vida, a nossa família, eu, o Leonardo, a Magui, e dúzias de gatos, encontrávamo-nos ali, pela manhã, parecíamos muitos nas manhãs de domingo – um na sanita, um na banheira, a outra a pentear as melenas ou a desenhar um risco de eyeliner por cima das pestanas, foi lá que o meu irmão Leonardo me queimou a bochecha esquerda com o secador de cabelo sem que nunca tenha sido castigado pelo acto vil, também foi ali que me trancaram com a gata Melissa quando a casa estava assombrada e os gatos bufavam ferozmente a seres que nenhum de nós conseguia ver, foi por cima do balde da roupa suja que eu chorei a maior parte das lágrimas da adolescência, era lá, até há muito pouco tempo que a minha mãe me secava o cabelo, cotovelo esquerdo apoiado no lavatório, rabo em cima do banco amarelo de plástico que o senhor Victor nos vendeu a preço de ruptura de stock quando fechou definitivamente as portas da sua loja de acessórios de casa de banho na João XXI, foi lá que, num Natal distante, linóleo cor-de-laranja com pequeno padrão de colmeia por debaixo dos nossos pés, olhos pregados ao janelo de vidro fosco junto à sanita, eu e o Leonardo jurámos ter visto a sombra do Pai Natal a colocar presentes por debaixo do pinheiro feito de escovilhões de plástico verde-garrafa.


Já não dá para ler o futuro no bolor do tecto por cima da banheira, até porque já não há banheira, não há linóleo com colmeias por baixo dos nossos pés, algures no subúrbio, a Magui tão cansada de escolher pavimentos, sanitários, sancas, fornos e placas, mármores e granitos, olhou para aquela e disse – quero uma igual –, e eu nem ousei dizer-lhe que tinha escolhido uma casa de banho amarela, por acaso é bem gira, apesar de amarela, lavatório à moda antiga, como em Viseu, sem papel autocolante com gaivotas a segurar os azulejos, não me espanta mesmo nada que a magia tenha acontecido ali, junto à sanita, junto ao janelo de vidro fosco onde outrora eu e o Leonardo vimos a sombra do Pai Natal a deixar presentes debaixo da árvore de Natal feita de escovilhões de plástico verde-garrafa.

Não tenho um presente para ti, João.

Não faz mal. Não tenho um presente para ti, Diana. Desculpa.

Se o Pai Natal existisse mesmo, João, agora descíamos no elevador, aproveitávamos que a Farmácia está aberta a noite toda, arriscávamos, se calhar o Pai Natal, com sorte, até nos portámos bem, João, o Pai Natal ainda nos traz um bebé.

Não descemos à Farmácia. Com medo de mais um teste negativo em cima da mesa, da minha cara de sofrimento contido, mandíbula superior a morder o lábio e a desvendar a covinha da bochecha direita, não descemos à Farmácia, sobretudo, por vergonha, por termos uma venda suspensa há mais de quinze dias.

Com um dia de atraso, o Pai Natal chegou.

Este blogue está grávido de seis semanas.


(Naquele dia, tinha que ser naquele dia, em que toda a gente tem esperança, começou a bater em mim mais um coração)