segunda-feira, dezembro 12, 2005

Link sem link

É pouco sensato linkar um blogue de um perfeito desconhecido, onde eu fui parar através de um dos meus passatempos favoritos das noites brancas de insónias - que ultimamente são cada vez mais frequentes e cada vez melhores: misturam, envolvendo cuidadosamente sem bater, o ultra-cansaço, a tristeza, o desânimo de alma, a uma tendinite tendinite aguda na mão direita -, que é ver a publicidade do Tv shop. Ah, não! Isso era antes de eu entrar para a blogosfera (eu detestava a blogosfera; este blogue não existiria senão fosse o amigo que já não é). Agora gosto de levar o cursor ao canto superior direito das páginas do universo blogspot e clicar freneticamente em "next blog" até os Pestanas me baterem à porta de Santa Marta.
O blogue em questão é recente e, pela qualidade fantástica da escrita e do estilo curto e grosso, eu diria, sem ter tirado um curso por correspondência sobre o assunto, que o seu autor, um tripeiro conservador e abstémio sexual, é um blogger à séria, daqueles ávidos de fama e reconhecimento, um blogger que decerto pediu ao Pai Natal entrar rapidamente para o top 20 do blogómetro nacional (decerto há muito blogger deste rectângulozito que quase venderia a alma ao diabo da blogosfera para destronar os primeiros lugares do blogómetro nacional, inabaláveis, liderados sempre por blogues com nomes tão sugestivos como: pitas malucas, das gatas doidas, contos eróticos, mulheres nuas de portugal e o raio que o parta).
E estes senhores bloggers, os da primeira divisão, não usam o statcounter, medem as suas audiências com um programinha feio e verde chamado site meter e deixam que o weblog lhes pape as estatísticas privadíssimas dos seus blogs e as publique num ranking (sosseguem ip's anónimos desta horta cheia de araucárias e cedros orquídeas e libelinhas: eu nunca farei tal coisa e apenas sei deste esquema de exibicionismo porque o senhor que trabalha à minha frente, e que tem um blogue que outro dia estava em 39º lugar dessa lista, por cima do contos eróticos e por debaixo das pitas nuas, me explicou).
E esses bloggers também passam a vida no technorati a ver quem é que os anda a linkar por esse mundo fora (eu só fui lá a semana passada, porque li num blog de referência nacional uma frase deste género: "quem nunca foi ao technorati ver quem anda a linkar os nossos blogues e posts?" E eu imaginei-me tímida, encolhida, pescoço encostado ao peito com vergonha, numa carteira de madeira das duas escolas oficiais onde estudei e tirei boas médias sem estudar grande coisa - escolas sem crucifixos nas paredes, mas, em vez deles, mapas das antigas colónias ultramarinas -, com um dedinho da mão direita erguido: EU! Mas agora já fui e descobri que Ourém me ama! Obrigada Ourém!!! E que graças aos esforços de muitos queridos amigos que se preocupam de facto comigo, não sou linkada por ninguém "importante" da blogosfera!)

Por isso, porque eu não quero que este blog vire livro e sou muito feliz com os meus 200 a 250 pageloads por dia e com os meus leitores de Ourém que me linkaram, este link tem que ir sem link: digitam na barra do endereço pif-paf e depois a história do blogspot. Vale a pena. É muito divertido.

Breve apontamento botânico (eu sou aquela)

Eu sou a mulher que anda com a cabeça sempre erguida para o céu, a que destoa com todos os outros que fixam os olhos nas pedras da calçada, sou aquela que anda à procura das árvores que dão sombra à minha cidade, sou a que suspira pelos diospiros da vizinha alentejana do segundo andar que ainda não nasceram (nem nascerão, a Magui diz que deve ter sido da seca do Verão), sou a que aguarda pacientemente pela floração lilás dos Jacarandás da Almirante Barroso, da 5 de Outubro e do Parque Eduardo VII, a que sonha o ano inteiro com o perfume das tílias da Avenida da Igreja.
Eu sou a mulher que ama a "bela sombra" da Estados Unidos da América, a árvore africana cujo nome procurei nos compêndios botânicos do Zé Ralha, a árvore de tronco monstruoso e fruto psicadélico, onde brinquei com o Hugo quando era menina.
Eu sou aquela que se emociona com os plátanos da Viriato encarniçados pelo Outono, ou com o amarelo canário das folhas que parecem leques das Ginkgos Biloba, da João Crisóstomo e da João XXI (a Magui diz que a Câmara deve ter aproveitado um saldo de Ginkgos, que hoje em dia não se vê outra coisa pela cidade).
Sou a que gosta das árvores que ninguém gosta, de chopos e eucaliptos, árvores de raízes profundas, as que roubam toda a água aos solos e à vegetação vizinha, e quando era pequenina, meio palmo de gente, convocava a família toda para o pinhal do Robalo, punha-me de pé na mesa de cimento, com uma casca do tronco de eucalipto a fingir de microfone, e dava concertos sob os olhos brilhantes da avó Zá. E as mesmas cascas de eucalipto eram depois recicladas, convertidas em bacalhaus, que fingia vender na mesma mesa de cimento como se de uma banca do mercado de Alvalade Norte se tratasse. "Há pau pau (carapau), sardinha frita", dizia eu, contou-me a Magui outro dia.
Sou a que dá duas voltas na Rotunda da Rio de Janeiro para ver os ciprestes em frente à Biarritz. Sou a que que gostava de ter uma araucária no jardim, a que sabe da lenda dos embondeiros, a que chora quando abatem uma árvore para fazer estacionamento pago da EMEL.

domingo, dezembro 11, 2005

A alegria é o que nos torna os dias úteis

É do Sérgio Godinho, infelizmente não é minha a frase, cada vez mais acredito que sou uma fraude, que apanho uma frase ali, outra acolá, que reparo num pormenor que salta da realidade como se tivesse um neon rosa para si apontado, depois colo tudo, muitas vezes com cuspo, raramente com super cola 3, e é apenas isso, é tão simples quanto isto.
Está na altura de fazer as pazes com os Sábados.
Acabou.
Agora é só de quinze em quinze dias.
As sextas também já não têm o encanto de outrora. Entrou-me um pombo em casa na manhã do último dia útil da semana (para mim, foi um dia inútil, porque não houve alegria alguma, apenas uma espécie de dor), disse-me assim: "Não estamos embrulhados, Dia". E eu defendi-me como pude, disse que estava embrulhada até à ponta dos 78 centímetros de cabelo, relembrei-lhe que quando era pequenita queria ser embrulhadora de presentes de Natal, que sou atreita a embrulhos, que os atraio-os como poucos, mas, afinal, ele não está embrulhado, e eu apenas lamento, porque seria um embrulho de luxo, de loja de delicatessen, das que vendem as minhas amadas trufas, era um embrulho com um gordo laçarote, feito com fita aramada cobre, é que eu sou mesmo boa a embrulhar, a prenda pode ser uma merda, mas o embrulho é sempre coisa que dá pena estragar, mas como diria a Magui: só perdeu quem não me amou. Azarinho do caralho (mil desculpas, anónimo que não gosta do meu vernáculo).

Dói-me a mão.
Estou novamente com a tala enfiada até ao antebraço, a estrangular-me a circulação, movimentos limitados, estou, novamente, em versão miss tendinite, desta vez com unhas lindas, pintadas de encarnado sangue de boi (a cor chama-se bohème, achei-a apropriada), mãos trabalhadas pela Cecília, a doce Cecília que sabe que as minhas unhas se quebram à mínima pancada, que quando viu as peles roídas soube logo que algo se passava, a Cecília que achou que eu tinha namorado novo quando lhe disse que queria umas unhas sexy, a brasuca de olhos doces e carapinha rala, que não se cansa de dizer que eu tenho as mãos mais estranhamente encantadoras que viu nos seus dez anos de esteticista (antes a Cecília era ama e contou-me, no Sábado, que teve um filho, que perdeu, não me contou como, mas eu lembrei-me como lhe deve ter custado conhecer-me na véspera de a Carolina nascer, ela fez-me manicure francesa para eu receber a minha filha com mãos bonitas e o André, o meu querido e saudoso cabeleireiro, expulso de Portugal pelo SEF, escadeou-me o cabelo), a Cecília disse: "Não esquece de arranhar ele".
Um cabeleireiro é uma espécie de psiquiatra e de confessionário. "Não há ninguém, Cecília, sabes bem que não há ninguém, olha, vou encontrar-me com uma mulher que não conheço, uma das minhas leitoras. Com uma mulher que me disse para eu ir de encarnado, para me encontrar facilmente na Praça Camões". E a Cecília ficou assustada, depois de as unhas já estarem perfeitas, esteve a arranjar as minhas mãos para uma mulher, não para um homem, mas eu disse-lhe, enquanto ela me satisfazia todos os meus caprichos depilatórios - "tira-me esses pêlos horríveis das sobrancelhas, sim, esses mesmo, aí por cima; podes tirar-me estes pequeninos dos dedos também, não podes? E ela alinha sempre em todas; eu descubro micro-penugens e ela risca-as do mapa do meu corpo -, arranjamo-nos sempre para as outras mulheres, porque os homens nem reparam. E ela ficou mais tranquila.
Resumindo, que a mão já não aguenta muito mais: o Sábado foi um dia útil. Saiu-me a sorte grande, a taluda que comprei na casa Viola, trouxe-me dois estranhos que me fizeram rir alto no Snob, e até caguei para o duplo queixo que faço quando me rio alto, e o actor bonitinho das telenovelas, que me lembra um jornalista bonitinho da praça que era meu amigo e deixou de o ser quando engravidei, olhou várias vezes para a nossa mesa para tentar perceber qual o motivo de tanta gargalhada.
Durante aquelas horas eu não pensei na casa vazia, nem na filha a dormir algures na Ameixoeira.
O fim traz sempre um princípio. "Inventamos as duas uma história nova. Sou boa em histórias novas". "Interminável", desejo eu.

O bife estava uma maravilha

Mas o melhor foi mesmo a companhia.
Amanhã, se me doer um pouco menos a mão direita, faço-vos uma ode.

sábado, dezembro 10, 2005

O meu lenço na cabeça e as minhas tranças gigantes





Este é para ti. Uma troca.
Com um e cinco anos

[percebe-se pela pose porque é que a Magui e a avó Zá teimavam que eu ia ser uma arrasa-corações]

O diospireiro da vizinha alentejana

Algo vai mal com o diospireiro da minha vizinha alentejana que me chama de amori.

Não dormi, estou outra vez tendinitosa (já tomei um Clonix, grande doida, mas pode ser que o mais eficaz pain killer que eu conheço apague outras dores enquanto me destrói o estômago), entreguei a miúda, já fumei cinco cigarros, estendi a roupa que pus a lavar às quatro e meia da manhã, e, enquanto estava nisto, enregelada, com o frio de uma manhã de céu limpo, vi o vizinho do prédio ao lado em cuecas, na sua sala belíssima e ilegal, construída onde outrora havia um quintal, e fiquei estática e preocupada, com umas peúgas rosa choc da loira na mão enferma, ao reparar que as folhas do diospireiro da vizinha alentejana já caíram, jazem no chão de tijoleira, e não há uma única bolinha encarnada pendurada nos troncos.
Ando a sonhar com aqueles diospiros desde que me mudei para esta casa.
Algo vai mal naquele quintal, onde lá ao fundo uma tangerineira está carregadinha de bolinhas laranja.
Vou ao supermercado comprar um diospiro.

Ainda Paris




[Adoro esta foto. Estava para postá-la há imenso tempo. Esta, ao contrário de quase todas as outras deste blog, não foi a Qui Qui quem tirou, foi a dona da Leica digital e deste quintal]

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Fervor - ou sempre dependi da bondade dos estranhos (e amanhã vou comer um bife ao Snob)

Nove horas sem pegar no computador, o senhor Ibook voador, o que fica bem em qualquer decoração, na sala, no quarto (fica bestialmente bem no quarto, em cima da cómoda manhosa do IKEA, em frente à jarra que tem as canas chinesas de um metro de altura), junto ao cesto dos brinquedos do quarto fluorescente da metade loira de mim (parece outro brinquedo), na cozinha bordel, em cima do tampo frio de mármore, ou mesmo na casa de banho laranja, onde chove por um foco de halogéneo (e como não tenho gajo, o empreiteiro disse há 3 semanas que vinha cá reparar o problema e é o viste-o) e na qual costumo escrever de manhã, sentada por cima do tampo da sanita, geralmente me trajes menores, enquanto a Carolina chapinha à vontade entre patos e polvos de borracha e embalagens várias de shampôs, máscaras e condicionadores para o meu interminável e delator cabelo (hoje medi-o; são 78 centímetros de comprimento, senhores, e a minha filha diz: Sim, sim, sim!, com tom orgásmico, sempre que vê o anúncio do Herbal Essences, e a mãezinha até usa o de Roma e abacate, salvo errro, mas nunca se sucedem tais ais durante o enxaguamento. "E a nós o que é que nos dão? Bananas...", e a Carolina desata aos pulos na sala dos gatos da Magui sempre que vê os macacos que dão a "punch line" final do anúncio - não liga ao Noddy, nem ao Franklyn, muito menos ao política e ecologicamente correcto Verdokas, mas é vidrada em publicidade; a primeira melodia que cantou era um jingle de pensos higiénicos da Ausónia).
Nove horas, entre Santa Marta, Guerra Junqueiro, Estados Unidos da América e o Carregado. Nove horas a escrever posts na cabeça, a agonizar por não ter um chip implantado debaixo do braço, como o que o Dr Mário enfiou pelo cachaço do Pax e da Maria a dentro, três milímetros de diamêtro debaixo da pele com todos os seus dados canídeos, não se sente ao tacto, muito menos a olho nú, ou a olho vestido com casaco de peles (sintéticas, para sermos politicamente correctos como o Verdoskas; no outro dia entrei em transe com o começo de um episódio deste desenho animado que passa no Panda, escrevi e tudo para não me esquecer, dizia assim: "O Verdoskas pensa globalmente e age localmente; achei isto perturbador, mudei logo de canal, pus na TVI que estava a dar publicidade), o chip está lá e ninguém sabe, e depois, imagino isto muitas muitas vezes: como será? Passam o cão num leitor óptico como os que há nas caixas dos supermercados e ficam logo a saber tudo sobre o animal? (o chip do Pax diz que ele é um grand danois - é mentira, é um grand danois manhoso, de terceira categoria, corpulência de gigante e pêlo de Labrador -, e vai ao pormenor de especificar que o belo animal que fui buscar há quatro anos e meio a Torres Novas, tem uma cicatriz no lábio superior, do lado direito, e isto, caros, é altruísmo, é amor aos animais, ou apenas loucura: não fiz uma mamoplastia para ter um peito 38, mas o Pax fez uma plástica ao lábio para não parecer um burro preto com lábio luperino).
E eu queria um chip destes, que guardasse todos os textos que passaram à velocidade da luz pela minha consciência (nenhum deles apareceu ainda neste post, eu começo a escrever e não sai nunca como tinha pensado, por isso mesmo é que eu preciso de um chip), posts inteiros enquanto calcorreava a A1, sentido sul-norte, a 180 quilómetros à hora, Ben Harper em volume 43, maravilhada com o espectáculo desolador da Cimpor, parada na portagem a pensar, mais uma vez: é a pior profissão do mundo, nem puta nem homem do lixo se lhe comparam, quem serão estas pessoas, os portageiros? E quando eles querem mijar, como é que fazem?
Nove horas feita barata tonta à cata de presentes de Natal, e tudo o que consegui comprar foram uns copos kitsch imoralmente caros no Depósito da Marinha Grande para mim mesma.
Nove horas a matutar na conversa de treta da manhã, nove horas a mutilar o dedo indicador e o pai de todos da mão direita, estou nervosa, estou nervosa como já não me lembrava que se pudesse estar, uma panela de pressão, ainda não me deu para chorar, estou na fase imediatamente anterior, daqui a precisamente dez horas (bateram agora as doze badaladas da meia noite; sei disto porque a vizinha do lado tem um relógio desses) entrego a minha filha pela primeira vez, durante todo um fim-de-semana, ao seu progenitor.
Estou a pagar os copos com o Visa, a começar a achar que a Magui vai ter que me substituir novamente no pagamento do cartão este mês porque este mês para além dos natais, aniversários e afins vai cair, também, o seguro contra todos os riscos do meu Idea, a achar que sou louca por comprar uns copos tão caros e surreais, estou já arrependida de os ter comprado, e quem é que me entra pelo telemóvel a dentro? Quem é que me vai por a pastar na primeira noite de liberdade/ agonia, depois de dois anos de clausura e dedicação maternal?
Uma perfeita estranha. E vamos comer um bife ao Snob. É o meu primeiro desejo.
Sempre dependi da bondade dos estranhos, como a outra, a do filme, que tinha um feitiozinho de merda, uma cinturinha de vespa e um vestido feito de cortinas - eu só tenho o feitiozinho, a cinturinha, enfim, deixa-me medir, 69 centímetros, já cá faltava, que contrastam, deixa-me ser precisa novamente, com 98 de anca, jesus, que tenho que emagrecer, e as cortinas, já disse isto à minha estranha de estimação, não vou fazer um vestido com elas, mas, daqui a dez horas entrego a miúda, enfio-me no Idea, vou passear para a bela e degradante Almirante Reis e depois subo a Morais Soares e não volto para casa enquanto não encontrar umas cortinas de renda ou de crochet que quero tingir de encarnado para pendurar no quarto.

Enquanto escrevi este post fumei oito cigarros, pus o dedo indicador direito em carne viva de tanto o enfiar na boca e roer com o stress, falei com o meu esposo literário que me contou um lindo segredo pantanoso, e li um post do camandro sobre perús, que não posso linkar, porque é perigoso e ele agora passou também a ser incitável.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

A família





Neste aniversário, não fomos cinco no restaurante chinês.
A casa esteve cheia. E eu estou muito feliz.

quarta-feira, dezembro 07, 2005

5 x 2 + 2

Começo eu, o computador e a casa são meus.
Há dois anos, 730 dias, são 17.520 horas, deixaram-me à porta do Hospital Particular, jantámos na Lusitana, eu tenho pena de não ter uma foto aqui comigo, tem-nas a Catarina, eu era uma grávida bem bonita, fui de saltos de cunha de sete centímetros, fui toda de castanho, parece que foi ontem, deixaram-me no Particular, e eu parecia forte, o Pedro depois disse-me que sentiu orgulho na mulher que ficou nas urgências, sozinha, que ficou nas urgências do Particular, quarto 615, para parir. Foi há dois anos.
de dois em dois anos, de duas em duas mãos, de dois em dois paços e passas de passar a noite a passar palavras: (i'll miss our conversations) e se fosse uma coisa que cheirasse, como soprar 23 vezes por dia a nossa liberdade: falta de pudor. de um no outro parágrafo, soltam-se coisas pequenas ou pequeninas coisinhas de fazer sorrir, de fazer viver. depois estavam todos na rua a celebrar, do 7 ao oito passam-se próximos infinitos: coisas sem nexo e sexo no vão das escadas: assimetrias.
"começar em assimetrias e esquecer tudo o resto que está para trás."
"e o gajo quando foi à África do Sul com ela mostrou-lhe o meu blog e ela curtiu bué."
"aliás a nossa viagem de finalistas foi a Diana, o Pedro, o Miguel, a prima do Miguel, o namorado e eu. Não, nos fomos mm pq já tinhamos..."
"e quando tens 21 ou 22 anos isso é muito importante, precisas dessas coisas para cimentar uma amizade."
"vem cá ter? pá ainda vamos ter mais um então, mas ele diz que não vem só beber um capuccino. "
"imprimir esta merda e lermos os cinco ao mesmo tempo mas cada um ler a sua parte. tipo Carolina mas ao contrário. e se jogassemos outra vez ao "e se fosses?""
"tu perguntaste e a diana viu? e eu respondi que sim."
"e se essa pessoa fosse uma divisão da casa que divisão era?"
um sótão."
"se essa pessoa fosse...se essa pessoa morresse o que estaria escrito na sua pedra tumular?
é bonito!"
".... mas é complicado..."
"qui qui já te estás a esticar, era só um parágrafo...!"
(troca de pessoas, troca de respostas....bangunça total! o jogo no seu ponto!)
É meia noite e dezassete. Há pouco, quando o telefone tocou eram: 00:00. No meu telefone. O que na prática significa que afinal eram 00:03. Era para ser a 10 mãos. afinal vai passar a ser a 12... Números. Sempre gostei de números, e de riscos. Os riscos ficaram pelo caminho. De vez em quando faço uns biscates. As letras é que nunca me apaixonaram. A não ser na versão voyeur. Gosto. De ler. O que os outros escrevem. Por vezes deixo posts. Muitos anónimos. Quando sei que sabem quem sou. Gosto especialmente quando conheço os personagens. Mesmo os ficcionados. Aqueles que consigo ver. A cores. Ou em "relevo branco" como descrevia um antigo professor a cor dos sonhos.
Há 365+366+1 dias atrás eu estive lá. Naquele jantar. A deixá-la à porta. A dar-lhe um bloco para ela escrever. Porque não sou rica para lhe oferecer o i-book que ela comprou uns anos depois. Para ela escrever para a filha os seus pensamentos. e estive lá há 365+366 dias atrás e a vi. E ao bébé mais lindo do breçário. Pequenina. Perfeitinha. Linda. Com toda a vida pela frente. Com todos os sonhos por realizar. Por idealizar.
Escreve - disseram-me, enquanto arrastava o último neurónio pela viela escura dos corredores do cansaço que precedeu o último orgasmo do ano. Foi o epílogo de uma história triste. Uma noite estafada com uma ideia feliz a rematar as primeiras horas do dia seguinte. E agora?... What now, my love?
E agora, navegar. Mergulhos superficiais, para treinar a respiração e depois submergir profundo. É a sina de santa marta, estofo de um sofá cheio de pó, amarelado, um art work desactualizado.
Não há nem pode haver coerência em seis almas, doze mãos. Somos passageiros de realidades egoístas, filmes com um único protagonista, o nosso umbigo.
Noite que vaga, vagarinho. Um chegante estafado, 'miss' dry martini, o pedro-master-musician, a dupla homónima, menina quero ser e menina quero ter. Eu também, aqui ao lado. Feliz, feliz porque o Benfica ganhou.

Postado por Dia, Branco, Qui Qui, M. (a blogger que ainda não é), Mac e Telescópio.

Mais um que se anda a armar em casamenteiro

Aqui.

E o teu blog já se sindicalizou. Eu sou a sua advogada de defesa (assim como do retratos, do Rodriguez), já interpus as providências cautelares no Tribunal Administrativo da Google, vamos lutar até ao fim pela suspensão do fecho anunciado da tua música e das tuas polaroids, Ricardo. Sou o Sá Fernandes da blogosfera. Se toda a gente começa a fechar blogues eu também fecho este. E, sim, é chantagem. É uma táctica como outra qualquer.

Dia feliz, este, em que não tarda vou dar um pulinho ao café manhoso. Em que o vizinho cozinheiro me entregou um maço de tabaco, esquecido na mesa de um almoço tardio com o incitável. Em que há jantar de bloggers cá em casa. Em que passei a noite a falar de embondeiros e outras árvores nobres.

Promete. Ou não fosse dia de desafiar o destino.

Menina mimada

Tenho saudades da minha mãe me secar o cabelo.
Até há seis meses atrás, ela tratava do assunto, um pouco como aqueles gabinetes de contabilidade que preenchem o IRS aos seres que têm alergia a termos encriptados como "deduções à colecta".
Juntam-se, durante o ano inteiro, os papéis, as facturas, se forem como eu, juntam-se folhas bonitas de arvores que se vão catando do chão, ou trevos de quatro folhas que se encontram no meio da relva, junta-se pacotes de açúcar bonitos (sobretudo os da Tofa que têm azulejos das fachadas de prédios de Lisboa), tudo para dentro de uma caixa de sapatos, e quando chega a altura, entrega-se tudo, caixa incluída, aos senhores cinzentões que passam oito horas por dia sentados num cubículo e que por cerca de 35 a 50 euros até tratam de entregar a nossa obrigação fiscal na repartição de Finanças, seja ela virtual ou não (e eu sou uma gaja destas, agora é que não vou mesmo conseguir dormir, gosto de cinzento - o vestido do Tenente é cinzento, o tal -, trabalho numa espécie de cubículo com vista para um plátano e entreguei, ainda este ano, não sei quantos anos de declarações do senhor incitável e até hoje, essa alta figura da blogosfera, me deve um almoço - e eu continuo com desejos de ir ao Snob comer um bife. E apesar desta dedicação, nem falo dos milhares de cafés que lhe sirvo, nem citá-lo posso... É incrível!).
E a Magui era o homem da Regisconta do meu cabelo até eu vir morar para debaixo da Duque de Loulé. Aquela máquina. Um ritual de cerca de uma hora, eu sentava-me no banquinho amarelo da casa de banho e ela a escovava, a enrolava, esticava, às vezes a encaracolava com o Babyliss velhote que comprou nos anos 70, e eu, por mim, saía com ele de qualquer jeito, gosto de tranças, aí é que pareço mesmo monhé, mas a Magui gosta de fazer promessas à custa do meu cabelo, e por isso, levou uma vida dedicada a estes cabelos que não são lisos nem encaracolados, que são escuros, mas reflectem a encarnado.

Quem quiser morar em mim tem que me secar o cabelo de vez em quando. São mais de 70 centímetros. Só para avisar.

terça-feira, dezembro 06, 2005

À rasca

É como eu fico sempre que a Ana diz que esteve a ler esta horta.
E depois só me saem idiotices como esta: "Vais-te embora com um excelente corte de cabelo..." (Vá lá, não lhe disse pela enésima vez que adoro as botas altas, pretas, ao estilo militar)

Mais logo, um post sobre o Ricardo. Eu queria poupá-lo, mas ele anda a pedi-las.

The document contains no data

Fiz as três - o número que deus fez (ainda estamos zangados, leva minúscula, apesar de estar com uma cruz ao peito, entre o regaço exorbitante que o soutien de marca Wonderbra que dá para iludir o mais incauto): chão lavado, roupa passada, post escrito.
É impublicável, junta-se às dezenas de drafts do dashboard. Há-os para todos os gostos, posts em que estou de fio dental e que, por isso, não publico, por pudor, porque o fio dental não me fica bem sequer, sou mais da ala liberal da asa delta. Há os que estão por acabar - um muito bonito, sobre um estranho vírus da poesia que decide atacar o mundo ocidental, e toda a gente verseja: o povo faz rimas de pé quebrado, os Lucenas sonetos, a classe média, essa, ainda não decidi o que faz, mas tenho na cabeça um congresso de cientistas sobre a terrível praga da poesia, todo em aiku, na minha cabeça; há um outro sobre a minha filha, vários sobre o aka "chulo literário". Há os às dezenas, coxos, tristes, fechados a ganhar mofo.
E agora vou preparar a poção mágica para dormir (mana, ficarias orgulhosa, é o que te digo), deixo a porta aberta para os Pestanas entrarem rapidinho (escolhem sempre os caminhos mais difíceis e de há uns tempos para cá, andam com uma crise de identidade, é a da meia idade decerto, ou então deixaram-se apanhar pelo espírito natalacío, também pode ser isso: chegam-me pela chaminé, cheios de fuligem). E hoje que venha o Pestana que nunca traz sonhos na algibeira.

"The document contains no data" é o que aparece hoje de noite sempre que tento ver o meu blog. E já pensei nisso...dar-lhe um sumisso.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Das duas três

Ou escrevo um post que uma das minhas primeiras visitas do dia não vai gostar. Ou vou passar a ferro. Ou lavar o chão.
Vou fumar um cigarro e pensar no assunto.

Guillaume Laurant

Um leitor devidamente identificado

[é destes que eu gosto, dos que não têm caganças, dos que não se escondem atrás do "anonymous" - não é uma boca a ninguém em particular, este é um blogue plural, aceita críticas, elogios, declarações de amor ou de guerra, outro dia, um idiota veio cá parar ao quintal através de uma pesquisa da Google por colégio Valsassina e chamou-me "meu grandesíssimo cabrão" no seu comentário, porque eu escrevi que se tivesse andado naquele colégio altaneiro do monte de Chelas teria uma deficiência de dicção, que me faria dizer "tefone e tevisão". O cabrão do beto levou a mal e, de facto, o colégio da família Valsassina não lhe deu grande formação, porque é tão limitado que nem percebeu que era uma gaja - xiça e é difícil, até está ali a foto do lado direito em que o que eu mais pareço é um gajo -, de qualquer forma, a referência a este indivíduo, um anónimo, é apenas para dizer que não apaguei o seu comentário atrasado mental; prefiro que comentem anonimamente do que não comentem de todo, mas às vezes parece mesmo que ando a escrever para o boneco - estou a escrever este post e a loira está a pentear-me (a arrancar-me cabelos é mais a palavra), enquanto olha para os anúncios do intervalo do debate entre o Cavaco e o Alegre de boca aberta; quando eles estavam a falar ela não lhes prestou atenção nenhuma, escovou, escovou, e devemos tirar daqui alguns ensinamentos, as crianças é que sabem - mais vale um anúncio do Xau do que um presidente da República - acho que me vou solidarizar com o tal que não se pode citar - que merda, até quando? - e vou estrear o meu voto na abstenção; nunca votei nela, pode ser que seja desta, ou então voto no Vieira se ele arranjar as 7.500 assinaturas e não as entregar com bonequinhos do Happy Meal no Tribunal]

comentou o post "Às catorze horas e quarenta e três minutos", comparando a minha escrita à do Guillaume Laurant.
I wish...
E ele já está a trabalhar na adaptação ao cinema do Life of Pi, uma história de um monhé que me marcou demasiado (May you always believe the good story, escreveu o Iann Martel no exemplar que o Leonardo me emprestou, o tal que eu devorei ao pé da cascata da quintarola do meu avô, e sim, eu acredito na história boa, a de sobrevivência numa jangada tendo como companheiro um tigre de Bengala, claro que acredito nessa história).
Chega lá para 2007. Até lá, se quiserem aceitar a sugestão desta reles escriba, leiam a Vida de Pi - Booker Prize há uns três anos (não me apetece googalizar).

Dias assim

Há dias assim.
Em que o facto de não ter tido que desembolsar 90 euros de multa e reboque por estacionamento ilícito no parque reservado às viaturas da Polícia Judiciária da rua de Santa Marta - a menos de trinta metros da Divisão de Trânsito da PSP, de onde saem os reboques - não chega.
Dias em que, apesar de a loira endiabrada que divide o apartamento connosco ter dormido e deixado dormir o sono dos justos até quase ao meio dia, não se acorda nem um bocadinho mais feliz. Porque o dia começa e para trás deixa-se, nas rugas dos lençóis bordados por uma mãe loira de olhos azuis, uma noite cheia de sonhos, de sonhos que já não nos pertencem.
Há dias assim.
Em que tomamos o pequeno-almoço em família à hora em que todos almoçam, e porque estamos todos de folga, há dias em vamos pela avenida de Roma fora, inventando gagues de mau gosto, a rir a bandeiras despregadas com o "sketch" da loja do comércio injusto (onde as prateleiras estão cheias de produtos fruto de trabalho escravo; todo o material à venda, sem excepção, contém uma etiqueta com a fotografia da criança escrava agrilhoada a um poste que o produziu, com todos os seus dados bibliográficos).
Há dias assim.
Em que choramos ao saber que apagaram o nosso número de telefone. Em que ganhamos coragem e relemos finalmente este post.
Há dias assim.
E no final de um dia assim resta-nos apenas uma certeza: que na quarta tudo será melhor. Porque continua a ser dia de desafiar o destino, porque há jantar de bloggers cá em casa.

Foda-se!

Deixei o carro no parque da PJ pensando que hoje era sábado. Mais 90 euros decerto. Sabe bem começar assim a semana. Foda-se!

domingo, dezembro 04, 2005

O drama

Estou perdidamente apaixonada por um vestido do Tenente. Apaixono-me sempre pelos homens errados.
Pelos vestidos, digo.

[Post ao estilo da primeira divisão da blogosfera, onde ninguém posta nada com mais de 500 caracteres.]

sábado, dezembro 03, 2005

Este blog não é amigo do Explorer (as coisas que se descobrem num fim-de-semana de trabalho)

E eu não sabia disso.
Por engano, abri o programa surfista da Microsoft e constatei que não aparece nada do lado direito - nem o meu perfil, nem os arquivos, os meus links. Nada. Rien. Nicles.
Fervorosos leitores, vocês vêm alguma coisa do lado direito deste blog, ou é apenas uma imensa escuridão?
E eu aqui a pensar que isto deve ser coisa do divino, a fazer das suas, a mexer os cordelinhos na Google, a proteger-me do despudorado streap tease que faço neste quintal.

E agora?

Usem o Firefox. É uma versão acabadinha de sair do forno.