terça-feira, julho 12, 2005

Dieta II

Pequeno-almoço: Café duplo e "sande" de queijo
Almoço: Sopita de feijão verde e salada de frutas
Lanche: "sande" de fiambre
Jantar: Sopa de feijão "congo" (as coisas que a Magui inventa...)
Ceia: iogurte líquido

Ontem comi pouco e, por isso, tive uma dor de cabeça tipo carrilhão de Mafra a martelar melodias loucas e desafinadas junto ao montito de massa cinzenta que está a ditar aos meus dedos estas linhas...
Segundo a balança louca do IKEA, tenho menos um quilo, mas eu não acredito na laranjita - a parva está a gozar comigo, a dar-me esperanças infundadas que isto vai ser rápido fácil e indolor.
Nunca nada é assim. E, como o único exercício que eu faço, é subir os degraus que me levam todos os dias à porta da Martinha, vai levar uns mesitos a chegar aos 68 quilos. Este é o meu objectivo - eu sei, por experiência, depois de muitas centenas de contos gastos do Zé Maria Tallon e no outro, o "tuga", o Póvoas, que nunca serei magra, por isso, proponho-me a um objectivo bastante modesto, mas que, ainda assim, será à custa de muitas privações alimentares (o ar engorda-me).

Esta dieta está a ser mais fácil porque estou com sérias dificuldades financeiras. Ou seja, utilizando um provérbio de mau gosto para quem se está a auto-infligir com o castigo da fome, junta-se a fome e a vontade de comer.
Há tempos, deu-me uma fúria contabilística, quando o ordenado ainda assim chegava aos últimos dias do mês. Queria saber em que é que estoirava tanto dinheiro. Conclusões: fraldas, cremes para o rabo, roupa e sapatos para a Carolina e para mim, gasóleo, EMEL, tabaco, quotas do clube de serigrafia, e a maior parcela, 250 euros, era Laçinho - almoços e lanches. Nada mais, nada menos que, 250 euros. Um quarto do meu rendimento.
Tentei abdicar do carro - a experiência durou uma semana e picos e até gostei de partilhar a carruagem do Metro com tanta gente feia (escrevi imenso, numa Moleskine preta, para o sr Scented Garden, sobre o assunto dos transportes públicos e dos seus passageiros de rostos sem expressão).
Do tabaco, nem tento, só me faria engordar mais. Sapatos já não quase não compro (umas míseras sandalecas no mês passado), por isso, o corte vai para a avença mensal que eu tenho com a gerência do Laçinho.
Uma das minhas dietas com melhores resultados foi, precisamente, por necessidade.
Pode ser difícil de imaginar, mas já fomos pobres lá em casa.
Miseráveis.
Eu e o Leonardo gostamos de fazer um "gague" nos jantares de aniversário e outros encontros da família Addams, relembrando os longos meses em que esprememos uma amostra de pasta de dentes, daquelas que vêm nos "kits" das companhias aéreas - o pai de um dos nossos amigos de infância, que acredita que é Deus, trabalhava na TWA, arranjava-nos dessas pastas de dentes -, para conseguirmos manter uma certa higiene oral, porque, caros, isso era mesmo um luxo, no grau de pobreza em que (sobre)vivíamos.
Eu tinha 16 anos, estava insuportável, em plena adolescência, e deixei de comer carne e peixe. Alimentava-me a pão, água e iogurtes. Mesmo os iogurtes tive que cortar, porque, a certa altura, o cabrão do frigorífico deixou de funcionar.
Estivemos por um fio. Eu queria ir trabalhar para ajudar a minha mãe, porque ela não tinha sequer dinheiro para as matrículas, nem para os livros (fui à Costa pedir 30 contos ao meu avô, ele passou o cheque sem perguntas, isso é que doeu mais, não quis saber pelo que estávamos a passar, assinou o cheque do BCP com a sua bonita caligrafia e ficou de consciência tranquila).
Nesse ano, as minhas notas desceram a pique e o ponteiro da balança também.
Não tive menstruação durante meses e meses e a minha mãe, desesperada, a pensar que eu estava grávida, e eu com fome, com raiva, tão virgem quanto a mãe de Jesus, fiz a coisa da qual mais me arrependo na vida - descalçei a bota Doc Martens de biqueira de aço e, sentada no chão de cor de ardósia do Jardim de Inverno, fiz pontaria e mandei-a à cabeça da Magui...

Basta por hoje.
Já estou com aquela alergia marada. A alergia dos fantasmas do Natal passado.

segunda-feira, julho 11, 2005

Dieta. Mais uma vez.

Estou em dieta.
Mais uma vez.
Desde que me lembro de ser gente que estou em dieta.
Os meus distúrbios alimentares começaram bem cedo.
Quando eu era pequenina, mesmo muito pequenina, a Magui diz que eu estava ao peito a mamar quando o Zé Ralha chegou anormalmente cedo a casa, acompanhado da amante (fututa mãe dos meus irmãos) e anunciou à minha mãe que ela era uma merda na cama e que se ia embora (muitos anos depois, trocou a minha madrasta favorita, a minha mãe adoptiva, por uma ogre loira de cabelo oleoso, com a justificação que ela lhe lambia o piço - desculpem os mais púdicos, mas não há forma suave de descrever o calibre das maldades que o meu dador de esperma fez).
Eu tenho uma ideia pequena do sofrimento da Magui. Fizeram-me muito mal quando eu tinha a minha filha ao peito, acabada de nascer. Só por ela é que eu não enlouqueci. Quero acreditar que também fui eu quem salvou a Magui.
A mim, não me secou o leite pelo desgosto e pela raiva. Dia após dia, notificação do Tribunal de Menores atrás de Notificação, absorvia o impacto dos murros virtuais no estômago e seguia em frente (de noite, quando a minha filha dormia ao meu colo, eu chorava baixinho).
Mas a Magui deixou-se levar. Porque amava o estrupício do Zé Ralha. A depressão galgou pela minha mãe linda de olhos azuis acima e ninguém reparou que o seu leite secou. Nem uma gota para amostra. Parece que estive mais de uma semana sem comer. Apenas não morri porque a minha avó Zá teimava em me dar água. Foi assim a minha primeira dieta. Que me fez recuar, aos três meses de vida, ao peso com o qual nasci.

A primeira dieta que fiz de que me recordo tinha pouco mais de seis anos. A minha avó Tóia tinha morrido, os meus problemas tinham começado, e o avô Oliveira deixava-se levar pela loucura, vagueando de chinelos de couro pelo chão do hall forrado a alcatifa verde, a chamar a minha avó: - "Dia...(de Custódia)", murmurava ele baixinho.
Tinham contratado uma Dona "Pafúncia" - é o nome que a família Oliveira-Ralha chama às empregadas doméstidas -, a Isabel, pouco tempo antes de os anjos levarem a minha avó Tóia.
Era taco de pia, sem nível, tinha cara de macaco e cabelo muito encaracolado com permanente. Tinha um filho insuportável, não me lembro do nome do ser, que me ensinou, porém, uma palavra - "caraça", sinónimo de máscara de carnaval; ensinou-me esta palavra no dia em que uns homens foram buscar a cama de hospital onde a minha avó morreu e as botijas de oxigénio que lhe prolongaram a vida para lá do que teria sido desejável (o Zé deu-me, há pouco tempo, uma foto do dia em que ela morreu - eu e o Hugo, um em cada lado, a sorrirmos, eu desdentada, sem termos a mínima noção do sofrimento da nossa avó Tóia)- e, por falar em Zé, ele teve uma qualquer paixoneta pela senhora dona Pafúncia, porque a defendia com unhas e dentes, porque foi quase um terramoto quando a despediram (para o seu lugar veio a minha Teresa, a minha ama querida, que tanto amor me deu - tenho uma história para contar com a Teresa; não me posso esquecer de vo-la contar).
Eu dei por mim a acreditar que a tal Isabel macacóide me queria envenenar. Teci essa teoria da conspiração por ela me ter servido um cachorro com uma mostarda fora do prazo. Simplesmente deixei de comer. Também ninguém reparou. A roupa a cair-me pelas pernas abaixo, mas andava tudo noutro planeta.

Este post não era para ser assim.
Tinha-o imaginado com uma foto berrante da minha balança laranja do IKEA sob o meu chão preto da casa de banho, e uma prosa ao estilo do Diário da Bridget Jones, dando-vos conta do meu peso, das minhas medidas, e da quantidade de calorias que já tinha ingerido hoje.

Queria-vos contar do estranho fenómeno que eu induzo às balanças: ficam doidas, viciadas: esta laranjita dá-me um peso diferente a cada vez que lhe ponho os pés em cima (será pelo facto de ter custado 4,99 euros?). A anterior, era mais ou menos certa, e era lindíssima, mas a Carolina chamou-lhe um fanico. A primeira de todas, tinha um Homer Simpson a lavar os dentes, era muito amiga - para ela, eu pesava sempre perto de 65 quilos...

Mas o teclado deste Compaq trocou-me as voltas. Mais uma vez arrisco ser processada por difamação...

Tudo isto para dizer que estou em dieta. Por isso, vou andar de mau humor.

sexta-feira, julho 08, 2005

Dramalhão

Soneto da separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

Vinicius de Moraes


Não é um queixume, o que te quero dizer.
É um lamento, baixinho, porque parece que tudo o que eu digo te irrita.
E eu ando triste.
Finjo que não percebo, passo por distraída (coisa que não sou), contento-me com as migalhas contrariadas que raramente me dispensas, porque o breve pensamento de não ter a tua amizade dá-me falta de ar, ata um nó cego na minha garganta, enche os meus olhos de lágrimas.
É mais um dramalhão, com certeza.

quarta-feira, julho 06, 2005

Véu


arabias
Originally uploaded by dia_ralha.

E outra do Dubai. Estou a limpar os cartões SD da Leiquinha...

Foto. Para variar


maos
Originally uploaded by dia_ralha.

O Lameira queixou-se que eu escrevo posts muito compridos. Eu só sei escrever testamentos. Invejo os posts da "carneirada": são K.I.S.S - keep it simple stupid.
Não sei escrever posts KISS, apesar de um admirador secreto dizer em comment que eu sou uma kiss-specialist - eu nao sabia nada disto...
Mas ando-me a baldar às fotos. Aqui fica uma antiga, das arábias.

terça-feira, julho 05, 2005

Um texto para o Kaos sobre as grandes expectativas que eu crio

Este texto foi escrito há algum tempo, para uma pessoa muito especial, a quem eu escrevia semanalmente quando não havia blogs, uma pessoa que apelidava os meus escritos de Amelices (como no filme do Jeunet).
Eu tinha grandes expectativas em relação ao dia mágico 20/02/2002. Nada aconteceu. Tal como no fim-de-semana passado.

Era uma ideia bonita, a minha, de que lá pelo dia se ler de trás para a frente e de frente para trás, pudesse encerrar em si algo de mágico e único que mudasse, não só a minha, mas toda a a existência da humanidade. Não sei - porque a matemática não é o meu forte - quando foi a última vez que o mundo presenciou proeza idêntica, mas acho que foi há uma boa catrefada de séculos.
Não conheço ninguém - para além de mim, claro - que se tivesse lembrado de reparar ou tecer grandes considerações acerca disto e não sei se isso significa que sou louca, iluminada, ou simplesmente, alguém que não tem mais nada para fazer.
Dou demasiada importância a estes pormenores, empolo as minhas expectativas, tentando assim, dar significado e interesse à vida, mas ontem, à parte de três acidentes rodoviários graves no país - que, certamente, mudaram os destinos de muitas pessoas -, foi apenas mais um dia triste.

O céu não ficou cor-de-rosa, nem as nuvens amarelo canário. Não houve fogo de artifício de estrelas cadentes à noitinha. O admirador das tulipas brancas não escolheu o dia de ontem para se revelar e o telefone não tocou com nenhuma boa nova.

À hora mágia (20H02m) estava presa no trânsito, rumo ao jornal, fechada num Mercedes de cheiro nauseabundo a baunilha, com um motorista psicopata totalmente drogado. Quando cheguei à redacção, não tinha nenhuma promoção ou aumento em cima da mesa. Nem a tecla "C" do meu teclado Mac deu um ar da sua graça ontem. Podia, milagrosamente, ter passado a funcionar.

Nada.

Não fosse um jantar de "espantar a neura" com a minha amiga Filipa (tua conterrânea lá do fim do mundo) e teria chorado ontem.

Tu sempre que fazes uma manchete ficas assim?

Pergunta o coleguinha da frente.
Estou, de facto, insuportável. Quero acreditar que é dos muitos cafés que já bebi hoje (estou com uns tremeliques nas mãos, tipo béri-béri) e não da alteração legislativa que apressei.
Nada de extraordinário aconteceu, Kaos. Saturday night tive o encontro surreal com a senhora assessora na Bica (vou ter que tirar o post porque ela nem dormiu esta noite a pensar que alguém descobre o texto e denuncia os seus ensinamentos no 24 Horas) e, à parte isso, nada de muito palpitante (à excepção da manchete) a registar.
Ontem descobri que fui viver para um bairro simpático, onde os vizinhos me ajudam a levar 12 litros de leite até a um quarto andar a pique sem elevador e os polícias de trânsito, que "vivem" mais abaixo, se apresentam aos moradores, num gesto de boas vindas à rua de Santa Marta.
Continuo sem gás e sem candeeiros (o jovem que se propôs a acabar com o problema anda a apagar outros fogos), mas com a bela e perigosa Internet wireless.
Sou, basicamente, uma dona de casa desesperada. Acho que nunca vou conseguir desempacotar os caixotes que atravancam a cozinha e arrumar a estante da sala.
Quarta-feira quem quiser lá passar para um copo é benvindo. Diz-me a prudência que não é sensato divulgar a morada de minha casa num blog, por isso, se quiserem saber o número da porta mandem um mail para diaba.ralha@gmail.com (será sensato divulgar a conta do gmail, dona Prudência? Não? Já está, nada a fazer...)

segunda-feira, julho 04, 2005

Inchada

Estou orgulhosa da minha manchete. Passa em todas a rádios, em todas as TV's.
Tenho o ego tal e qual como o aparelho reprodutivo masculino - depois de muito tempo murcho, esticou para proporções africanas.
Maniaco-depressiva como sou, amanhã já estou a achar que sou uma fraude. Até lá ninguém me tira a satisfação do meu "furo".

Como é que se diz?

Eu ando esquinada com a Magui, porque ela me dificulta a vida, porque anda uma velha chata como a putassa, porque ela passa o dia a ver as novelas do GNT e não mas deixa interromper por breves instantes só para espreitar a abertura do telejornal e, por isso, não devia abrir o debate cibernético etimológico e gramatical, por forma a pôr um posnto final a uma das dúvidas que mais atormenta a senhora minha mãe durante todos os santos dias. Mas sou um coração mole, não consigo ficar zangada com ela por mais de dez minutos e, então, cá vai: Como é que é mais correcto dizer-se?

A) Vou com os cães à rua

B)Vou à rua com os cães

Eu tenho uma teoria muito própria, por incrível que pareça até é lógica (é um bocado retorcida mas é lógica, no limite). Digo que é a primeira hipótese, porque a Magui só vai à rua porque tem que pôr os cães a mijar. Se, pelo contrário, fosse à rua, imaginemos que beber um café, ou comprar cigarros e levasse os cães sem a obrigação de eles esvaziarem a tripa e/ou o intestino, seria a hipótese B.

A Magui não come a minha teoria (até me espantava se ela me desse razão um dia...), e anda a matutar nisto há muito tempo.
Há demasiado tempo - enquanto esfrega os caixotes da areia dos gatos, enquanto faz comida para um batalhão (apesar de só eu jantar em casa), enquanto muda a fralda à minha filha, enquanto varre os pelos do Fiel do chão da cozinha, enquanto dá milho ao milésimo pombo bébé que salvamos de um triste destino (eu gosto de pombos, ao contrário de 99,9 por cento da população de Lisboa; não gosto das cagadelas que corroem o cinza rato metalizado do Idea, mas são um mal menor, são tão lindas as pombinhas...)
Se calhar é esta atrofia que a viciou na Ana Maria e no Louro José.
Ajudem a solucionar esta charada e, assim, pode ser que a minha mãezinha volte a ser uma intelectual espectadora diária do canal Mezzo.
Bem haja

sábado, julho 02, 2005

Martinha entra na era do wireless

A Martinha é daquelas velhotas geek, high tech, só o bilhete de identidade confirma a sua avançada idade, mas, no seu caso, nem isso: é tão velha que não existe registo do seu nascimento na câmara municipal, nem nas Finanças, na sua caderneta predial, apenas há um registo, uma data - 1901 -, ano da primeira alteração ao prédio que é a mãe da Martinha e dos seus apartamentos irmãos.
Às senhoras não se pergunta a idade, a Martinha insiste em dizer que ainda não é centenária, mas eu conto-vos um segredo: é mentira! (já vai a caminho dos duzentos, mas isto fica só entre nós).
A Martinha entrou na era do wireless, está tão vaidosa que não se atura: pior só quando lhe maquilhei a sala de laranja (cor que lhe tirou, pelo menos, meio século de cima). Pede-me a Martinha para deixar aqui os agradecimentos públicos ao senhor Abílio, que tornou possível o sonho do wireless.

Tenho que subir a rua e enfiar-me na "mina", escrever notícias.
Até

Quem me ilumina o fim-de-semana?

Sábado, dez e vinte da manhã, estou no pasquim. Nem aos dias de semana estou tão cedo na "mina" (esta tem "copywrite" do senhor Miguel Madeira).Devo estar doente.
Tenho uma grande escandaleira em mãos, se não der manchete é porque os directores devem andar loucos (mas a minha popularidade no piso de cima ainda não é a maior - a excepção vem dos amigos fotojornalistas, essas bestas, esses analfabetos, como os descrevem os reles "escribas", essa categoria infame à qual pertenço - é assim que os fotógrafos nos chamam: é uma troca de mimos deliciosa...).
Houve uma altura em que eu vivia obcecada pelas manchetes e pelas chamadas à primeira página que fazia. Tinha a contabilidade organizada, qual Técnico Oficial de Contas, acho que, na altura, era muito ambiciosa, queria ser tão boa como o Leonardo (a tara estatística só me deu jeito uma vez, quando não fui promovida e mandei para o C... um director, espetando-lhe a contabilidade do meu trabalho na cara).
Falhei redondamente o objectivo, não sou ninguém, ainda estou na letra C, a letra mais miserável da profissão, e fui desterrada na secção menos importante do pasquim. Começo a gostar da secção, porém: o "chibo" do JPH, novo coleguinha de secretária - que andou a divulgar este blog para lá do que eu desejaria (lá vou eu deixar de escrever sobre a minha vida sexual, por exemplo, mas, na verdade, também havia pouco para contar...), temos, agora, diariamente, uma média de 120 page loads, é bom, muito bom, sabe-me bem, mas o facto de eu ter controlo sobre os ip's que cá vêm ao quintal angustia-me muito (eu sei que o blog é público, que se está escarrapachado na Net é para ser lido, que são coisas da vida, mas eu chamei "puta" a uma juíza no outro dia, acho que já falei mal de colegas de profissão e gozei com a minha entidade patronal, qualquer dia têm motivos para a justa causa) -, mas, dizia eu, o JPH veio iluminar os meus dias (não é tão "loud" como eu, mas anda lá perto), com o seu humor cáustico - o outro tinha uns olhos mais bonitos que os do JP, mas só falava de carros e tinha conversas telefónicas com a mulher que não tinham graçinha nenhuma - e, depois, um ano após de ter chegado, contrafeita, a este departamento, já tenho umas fontes jeitosas, já não escrevo só sobre buracos, já não me dão só as sobras dos seniores, e, claro, tenho o chefe mais bonito do mundo.
Tenho grandes expectativas em relação a estes dois dias a quem chamam fim-de-semana. Tenho um feeling que algo de extraordinário está prestes a acontecer.
Será?
Quem me ilumina o fim-de-semana?

quinta-feira, junho 30, 2005

Canção

Toda a gente anda com o Variações debaixo da língua - culpa dos Humanos. Eu gosto dos Humanos, nunca ouvi o disco, só os telediscos que passavam na Sic Mulher - a Carolina adora o "Muda de Vida" -, tinha dois convites para o concerto de ontem, mas a minha mãe não me deixou ir (vicissitudes de se ser mãe solteira e de depender sempre da bondade da mãe para ter um bocadinho de vida social, sim, social, já nem digo afectiva, amorosa, ou coisa que o valha)
Não sei se os Humanos têm esta no CD. É um poema de Fernando Pessoa, musicado pelo Variações (quando ele morreu, lembro-me, estávamos na Costa, a avó Zá ainda viva, a tia Lena e o tio Carlos também lá estavam, lembro-me bem, tão bem, a capa do Tal & Qual, em manchete a notícia de que as autoridades sanitárias tinham queimado a ambulância em que o Variações tinha sido transportado, tinham incinerado os lençóis e desinfectado o quarto; ninguém sabia que doença estranha era aquela que o levou), é talvez das melhores coisas que se fez em Português.


Silfos ou gnomos tocam?...
Roçam nos pinheirais
Sombras e bafos leves
De ritmos musicais.

Ondulam como em voltas
De estradas não sei onde
Ou como alguém que entre árvores
Ora se mostra ou esconde.

Forma longínqua e incerta
Do que eu nunca terei...
Mal oiço e quase choro.
Por que choro não sei.

Tão tênue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste.

Mas cessa, como uma brisa
Esquece a forma aos seus ais;
E agora não há mais música
Do que a dos pinheirais.

quarta-feira, junho 29, 2005

Bug

Não percebo porque é que no post anterior o parágrafo que começa com: "As meninas" fica em letra mais pequena. Já tentei tudo. Não dá. Perdoem.

Entretanto, decidi copiar todos os meus textos do blog para um ficheiro. São muito especiais e eu não tenho nenhuma espécie de backup.

quinta-feira, junho 23, 2005

Sobre a mudança - ode à minha casa pequenina

[Este Firefox brasileiro, "baixado" por engano para as entranhas do meu ressuscitado Compaq, está a dar cabo de mim: a página de abertura do Gmail, em vez de me cumprimentar com "Welcome to Gmail, a Google approach to email", não - tenho que gramar com qualquer coisa deste género "Benvindo ao Gmail. Um email que é do jeito e a cara do Google". Aqui, no universo brasileiro, eu crio "postagens" no blogger. As tabs do Firefox são abas - acho que é este o que mais me enoja... A preguiça, porém, é muita, e desinstalar o irmão bastardo brasileiro da raposa de fogo já me valia perder uma série de "bookmarks" (lamento Maique, gostava de ser ultra- geek como tu, mas não sou: essa é a dura realidade. Percebo alguma coisa, interesso-me, mas consigo viver nesta agonia brasileira...)]

A mudança nunca mais acaba. Por oposição, o meu anjo das arábias ainda agora chegou e já se prepara para partir (relativo, o idiota do tempo...)
O meu 10º andar sobre a Estados Unidos da América está desolador. É-me extremamente dolorosa, esta mudança.
Não sei porquê.
Não fui feliz nestas duas assoalhadas minúsculas com uma vista sublime sobre a cidade nova. Fui estupidamente miserável.
Mesmo muito.
Recordo a última noite com o Pax e a Maria, os meus cães gigantes mansinhos, que eu não hesitei em abandonar à primeira dificuldade, como o pior momento destes meus 37 metros quadrados de quem me estou a despedir.

A minha mãe no hospital, com o coração quase parado, um dia triste de chuva, eu magra, a primeira vez na vida em que eu fui magra, pálida, sem cor, excepto o negrume das olheiras, uma carrinha BMW com uma senhora baixinha e anafada, vestida de vison, no banco de trás, a garantir-me que eles iam ficar bem, que eu não chorasse que eles iam ficar bem, eu sem saber se era chuva ou eram lágrimas que caíam pelas bochechas abaixo, a Maria sentada no banco de trás e o Pax sem querer entrar, e eu a procurar no bolso do casaco de pele de antílope clarinha, sarapintado pela chuva, as 50 miligramas de sertralina, sem conseguir enfrentar a realidade sem uma droga poderosa, a carrinha a avançar e eu estática, no meio do parque de estacionamento, a tentar convencer-me que eles estavam melhores sem mim, que lhes tinha encontrado um orfanato de luxo, fiquei ali, parada, não sei quanto tempo, até que a D. Assunção me veio buscar, foi à janela, não sabe porquê, viu-me ali sozinha e veio-me buscar, não perguntou nada, nem na altura, nem depois, só me abraçou e disse-me que ia rezar muito para que eu tivesse paz nas desventuras...

Mas houve mais, muito mais momentos difíceis nestas quatro paredes. E piores até. Ou diferentes.

Ainda assim, sem nunca ter sido aqui feliz, amo a minha primeira casa, não a vou esquecer, e acredito que não tenha sido sua culpa.

Agora, preciso ser feliz com vista para a Duque de Loulé.

Adeus casa.

quarta-feira, junho 22, 2005

Rapidinha para o senhor arquitecto

Kaos,
Não sei se já te apercebeste, mas estamos a desenvolver uma relação estranha e peculiar, do melhor que se faz nas sitcoms que passam no ainda grátis canal Fox da TV Cabo.
Estou sem tempo, sem tempo nenhum para dissertar sobre o assunto. Mas abro o Gmail e tenho lá o teu comment; vou ao statcounter e faço a contabilidade das tuas visitas - o teu ip e o teu firefox 1.0 já os conheço de cor - e então é-me impensável desligar a merda do Compaq sem escrever algo para para entreter os teus olhos.
Ontem, sentada na Bica, a olhar para ti, pensei com os atilhos do meu corpete beringela: "Ali está uma das pessoas que te faz escrever bem. Diz qualquer coisa inteligente. Age como uma mulher intensa."
Não saiu nada de jeito. Não saiu nada, de todo. Para a próxima talvez...
Um beijo grande
Dia

segunda-feira, junho 20, 2005

Mudança

Não estranhem a ausência de caracteres neste blog. Ando com a casa (literalmente) às costas - 48 degraus a pique até ao meu quarto andar cheio de cachet no Marquês de Pombal (festa de inauguração na próxima semana).
Hoje, porém, fui buscar o meu Lourenço das arábias ao aeroporto (foi a primeira vez que ele me deixou fazê-lo) e até me esqueci do murro no estômago de sexta-feira - a entrevista a correr e o senhor holandês aflito, com a actual namorada psicótica (uma que eu ingenuamente ajudei nos meandros do Tribunal de Família e Menores de Lisboa) a enviar-lhe sms de calibre do além, de dez em dez minutos, e eu, boa samaritana, armada em conselheira matrimonial (cada conselho sincero saiu-me do pelo, atou-me um nó cego na garganta e no coração).
Mas, quando o Miguel, nome de código Lourenço, reaparece em Lisboa tudo é menos grave e eu juro, parece impossível esta contabilidade: não dá para acreditar que ele está há dois anos e meio longe de mim.
Hoje fomos às minhas 3+1 assoalhadas do Marquês de Pombal e disse-lhe que já podia voltar. Podia morar ali comigo e com a Carolina. Abraçámo-nos, um abraço muito forte, que teve que ser interrompido, pela ciumeira da minha filha que não deixa nenhum homem tocar-me (eu era igual com a Magui e os seus namorados).
Mais do que um amigo, mais do que um namorado, mais do que um irmão, mais do que um pai para a minha filha, ali, naquele quarto com vista para a Duque de Loulé, senti-me capaz de enfrentar qualquer batalha, e pensei de mansinho que não vou ficar destroçada outra vez.
Tem uma namorada psicótica, tem aquilo que merece.

sábado, junho 18, 2005

O texto

Escrever sobre uma pessoa que amamos, ou que, outrora, sabe-se lá porquê, desejámos com todo o nosso ser, é um exercício doloroso. Fazê-lo para milhares de leitores portugueses é angustiante.
Das duas uma: ou saía uma grande merda, ou um grande texto. Não ficou mau.

Não consigo, ainda, escrever sobre o miradouro de Santa Luzia, sobre quase meia dúzia de horas de entrevista e acerto de contas pessoal. Fica o texto.


Novos Lisboetas

Um cidadão do mundo

Na passada reencarnação talvez tenha sido caixeiro viajante...
Nesta é designer.
Andries Vring nasceu, por acaso, em Leidschendam, na Holanda, há 30 anos, filho de pai holandês e mãe lisboeta. “Por acaso”, porque, com apenas seis meses de idade, atravessou meio continente e um oceano e rumou até ao Brasil e, desde então, nunca mais parou.
Primeiro foi São Paulo, depois Salvador da Bahia e, novamente, São Paulo. Levou esta vida de “saltimbanco” nos seus cinco primeiros anos de vida, dos quais pouco se recorda, à excepção de ter sido vizinho de Vinicius de Moraes e de ali ter aprendido os primeiros rudimentos da língua de Camões e também da de Shakespeare, porque frequentava uma escola americana.
Aos seis anos, em idade de ingressar no ensino primário, volta para a Holanda, para uma cidade perto de Haia. A adaptação não é fácil. Fala “vringuês” – uma mistura de três línguas, o holandês, português e inglês. “Um dia, estava na escola, entalei um dedo e não consegui explicar à professora o que me tinha acontecido. A minha mãe levou-me ao médico, preocupada, porque eu misturava as três línguas”, recorda, entre gargalhadas e com um sotaque português perfeito.
Com 13 anos volta a mudar de país. Desta vez, para Portugal. “O meu pai sempre disse que queria voltar para Portugal, onde conheceu a minha mãe, assim que se reformasse”, explica Andy. “Fomos para Alcobaça por mera coincidência, porque conhecíamos na Holanda um casal português que era de lá e os meus pais ficaram apaixonados” pela então vila.
Mais uma vez, tem que lidar com a barreira da língua: “Falava muito pouco português. Custou-me muito a habituar”, admite Vring. Mas teve sorte. Sozinho, no corredor das salas de aula, foi interpelado, em inglês, por dois garotos da sua turma, também eles recém-chegados ao país, filhos de emigrantes portugueses. Foi amizade à primeira vista. Até hoje. Passou esse primeiro ano escolar em Portugal, o oitavo, com boas notas e sem nenhuma negativa. Como prémio, os pais ofereceram-lhe uma prancha de windsurf – uma das suas grandes paixões.
Andy Vring não sabe o que respondia quando lhe perguntavam: “O que é que queres ser quando fores grande?”. Não dizia, de certeza: “Quero ser designer”. Sempre gostou de desenhar e pintar e, por isso, no nono ano, a escolha é óbvia: segue a área de arte e design. Dois anos mais tarde, decide ser escultor e muda mais uma vez de cidade. Para as Caldas da Rainha. Mas desilude-se: “não precisava de um curso superior para o que me estavam ali a ensinar...”
Vem para a capital, pela primeira vez, com o objectivo de estudar Design, na Universidade Lusófona. Por aqui fica durante quatro anos. Mas Andy Vring tem “bichos carpinteiros” a fervilhar nos genes – acaba o curso e embarca para a Holanda, desta vez para Amesterdão, onde estuda Design industrial.
“Depois, foi mais uma sucessão de coincidências: surgiu a Internet quando eu estava a trabalhar num bar que disponibilizava acesso à Net. Eu já tinha interesse por esta área e decidi arriscar”. Andy Vring apanha, então, a euforia das empresas tecnológicas (a chamada “bolha” das “dot com”). Como a oferta de profissionais é escassa e a procura elevada, trabalha como freelancer e, também, em algumas das mais prestigiadas agências de publicidade, como a Grey e Advance Interactive.
Foram seis anos que passou em Amesterdão, de 1997 a 2003. Com um nome estabelecido no mercado e um chorudo salário, volta a sentir-se insatisfeito e com a portuguesíssima saudade herdada de sua mãe a falar mais alto. Volta para Alcobaça, em 2003, um ano que apelida de “sabático”.
Tentou estabelecer-se como designer “freelance” na zona centro, tendo trabalhado com as autarquias de Tomar, Alcobaça e elaborado o primeiro videoclip da banda Gomo, com a agência M104.
Vem, no final de 2003, para Lisboa “por necessidade”, em busca de oportunidades profissionais que não encontra na região centro. Uma professora da Lusófona dá-lhe a mão e arranja-lhe emprego numa pequena agência de design, a Terra, onde trabalha até hoje na área multimédia.
Andy Vring mora na Praça Afrânio Peixoto, junto à Avenida de Roma: “um achado em Lisboa, com um jardim enorme em frente de casa e estacionamento sempre disponível a qualquer hora do dia”. “Gosto imenso de Lisboa, da sua morfologia. É uma metrópole europeia, mas, por outro lado, é muito aconchegante, tal como Amesterdão”, diz, mais uma vez sem se conseguir definir se sente mais português ou mais holandês. No seu bilhete de identidade consta a nacionalidade holandesa e o seu porte gigante denuncia à vista desarmada as suas raízes nórdicas, mas existe em Andy Vring um enorme conflito genético de duas pátrias muito distintas: “tenho uma parte de mim muito emocional, mais portuguesa, e uma outra parte mais fria, racional e calculista, que é mais holandesa; andam constantemente em choque”, nota.
“Ando sempre a saltitar. Tenho facilidade em fazer amigos, mas desapareço com a mesma rapidez”, confessa.“Conheço meio mundo e não conheço ninguém. Não tenho raízes...”, diz, sem muito orgulho do seu destino nómada.
Se Andy Vring fosse uma estação de Metropolitano seria, de certeza, a da Cidade Universitária, onde inscrito nas paredes de azulejo está a frase do filósofo Sócrates: “Não sou ateniense nem grego, mas sim, um cidadão do mundo”. Próxima estação?...

Ideias peregrinas II

O destino é assim.
Fiquei sem imigrante à última da hora e entrevistei o Vring. Sai no Domingo. Para quem quiser ver quem é o senhor.
Estou meia zonza, sem reacção. Amanhã teorizo sobre a problemática.

quinta-feira, junho 16, 2005

Ausência

si asa um tivesse
pa voa na esse distancia
si um gazela um fosse
pa corre sem nem um cansera

anton ja na bo seio
um tava ba manche
e nunca mas ausencia
ta ser nos lema

ma so na pensamento
um ta viaja sem medo
nha liberdade um te'l
e so na nha sonho

na nha sonho mieforte
um tem bo protecao
um te so bo carinho
e bo sorriso

ai solidao to'me
sima sol sozim na ceu
sol ta brilha ma ta cega
na se clarao
sem sabe pa onde lumia
pa onde bai
ai solidao e un si e un na...

Cesária Évora & Goran Bregovic, em Emir Kusturica "Underground"


Não garanto que esteja escrito em bom criolo; foi tirado do net. Mas é das músicas mais lindas de sempre.

quarta-feira, junho 15, 2005

Ideias peregrinas

O Maique acusou-me outro dia de ter ideias peregrinas. Injustamente, parece-me, mas não vale a pena ocupar o quintal com esse assunto. Armei-me em ditadora no Gmail e, por isso, como tenho a perfeita noção quando passo dos limites (e porque adoro fazer um dramazito), renunciei ao meu mandato vitalício no reino da gmailada (é para aí a décima vez que o faço, mas, como adoro o poder, acabo sempre por voltar...)
Mas, na madrugada de hoje, durante uma insónia que durou a noite toda, estava eu deslumbrada com um anúncio idiota da TV SHOP a um cinto de sauna, e a pensar em estrangeiros de sucesso podia eu entrevistar para a nova secção politicamente correcta do Local Lisboa, ao Domingo - chamada "novos lisboetas" - , quando tive a mais peregrina das ideias. Uma que me transforma numa absoluta "idiota".
E se eu entrevistasse o Andy Vring? É estrangeiro. Vive em Lisboa há pouco tempo. Tem sucesso. Destroçou-me o coração.
Estavam reunidas todas as condições para um grande texto jornalístico.
Que tal? Proponho?

terça-feira, junho 14, 2005

Histórias da noite de Santo António

A noite do padroeiro de Lisboa foi very untypical.
Não houve manjericos, o cheiro da sardinha assada não se entranhou na roupa, cabelos e pele, música pimba nem vê-la.
Foi a minha primeira vez nos Santos, na Bica, e há momentos kodak extraordinários dessa longa noite: o rei da Chamussa, o enorme Jesus, vestido de amarelo, em cima de uma mesa numa espécie de strip-tease; o Soja-man e o inacreditável interesse do Lionel (com "i") pela conservação e restauro; o jornalista da concorrência, com corte de cabelo pseudo-moderno, que, já o sol tinha nascido, nos garantia que o jogador de futebol Pedro Barbosa é Deus; as horas que passámos sentados numa mesa a falar de fotografia (é o que dá sair com fotógrafos...); ver, finalmente, o João (que saudades); o Nuno, o cromo de camisa preta e gravata bordeaux, que se esmifrou para ganhar um cigarro (há fotos deste cromo, tiradas por um fotojornalista da Capital); eu e a Mar, a fazermos xixi numas escadinhas de beco, enfim, um espactáculo de decadência muito, muito divertido.
Aquele cujo nome não deve ser pronunciado veio à baila, eu fiquei triste por alguns minutos quando o João disse, out of the blue: "Conheci o Andy Vring; não o imaginava nada assim". Apeteceu-me dizer: "Eu também não o imaginava nada assim", mas optei pelo silêncio, estive mesmo muito silenciosa e pensativa (isso foi notado pelos ilustres foto-jornalistas bébés que me acompanhavam) e cheguei a uma conclusão - da próxima vez que alguém me começar a dar trela, a enviar mails muito simpáticos até às tantas, eu ponho tudo em pratos limpos: se é para me partir o coração, por favor, não diga coisas simpáticas, não entre em minha casa, não me beije muito perto da boca...
Será pedir muito?

Bocas da reacção - ou a história dos homens "coerentes" e "de grandes convicções"

Longe de mim transformar este blog num fórum de discussão política. Não gosto de política, sou totalmente apolítica, mas não posso deixar passar em branco a morte de dois combatentes anti-fascistas, o companheiro Vasco e o camarada Álvaro.
Mas, lamento, não vou aqui fazer uma ode maravilhosa de fazer chorar as pedras da calçada, a propósito da morte destas duas individualidades da esfera política portuguesa. Não vou falar da "coerência dos ideais" destes senhores, ou das suas "grandes convicções" - para isso, liguem a televisão em qualquer canal, sintonizem uma qualquer estação de rádio, desfolhem qualquer jornal.
Agora, os finados são uns santos. Só o director do meu pasquim teve a coragem de falar que se tratavam de potenciais ditadores de esquerda e, caramba, vou ter que lhe tirar o chapéu por ter tido a coragem, porque, fónix, até o Soares, que, a 6 de Novembro de 1975, celebrizou o "olhe que não, olhe que não", no ponto alto da resistência socialista ao PREC, só faloude "coerência e grandes convicções"...
Porque eram velhotes e fica sempre mal contar os podres dos defuntos, ainda mais quando eram uns velhotes tão simpáticos e frágeis.
Espero que o Pinochet e o Fidel Castro morram no mesmo dia. E aí, vamos ver as diferenças: aposto que o Fidel será, com certeza, um "homem coerente, de grandes convicções". O Pinochet, naturalmente, um assassino.

sexta-feira, junho 10, 2005

4000

A (T)ralha está de parabéns. Ontem, perto da meia noite, não se transformou em abóbora, mas recebeu a sua 4000ª visita.
O feliz contemplado foi o ip 212.113.169.90, um daqueles habitués deste blog, que eu não faço ideia quem seja, sabendo, porém, que acede através de Netcabo, tem um PC com Windows XP e Explorer 6.0.
Volte sempre. Esta casa também é sua.
E tu, Miguel, ainda em Linux, e com o Konqueror, deixa-me que te diga que hoje tive dois espanhóis. Que ficaram cerca de um minuteco. Nada, nada mau... ;)

quinta-feira, junho 09, 2005

666

É o número da besta.
Lá em casa, à semelhança do 25 de Abril - como já vos disse, é mais conhecido por 25 do 4 e por ter escrito a data já estou com urticária -, não se profere o número da besta. Por superstição - e nós somos supersticiosos, como tão bem reparou alguém que me envia "beijos apreciadores" e que, por isso, já tem direito a uma label só para si no meu gmail -, diz-se 665+1.
Taradices.
Não fiquei muito contente quando entrei no Mercedes e dei de caras com o 665+1 estampado no vidro da Covina.
Mas não era a primeira vez que apanhava aquele táxi e tinha até boas recordações suas - uma viagem num Merecedes bem limpinho e apresentável, com ar condicionado e um motorista que não exalava qualquer odor corporal repreensível e que me deixou sozinha com os meus pensamentos, é no silêncio dos táxis que me lembro de histórias para contar; essa viagem anterior do 665+1 foi boa, pasquim - museu da cidade, recordo-me bem, o Luís Magalhães a chatear-me o juízo para eu emigrar e os vaidosos pavões do Palácio Pimenta a desfilarem por entre uma vereadora municipal que eu ainda não percebi se tem alguma doença degenerativa do sistema nervoso central, ou se dá forte no álcool ou nos ansiolíticos.
Mas, ontem, depois da viagem matinal a bordo do 665+1, deparei-me com um sério e grave problema para a feitura do tal livro sobre os fogareiros.
É que eles são muitos. O chauffer do 665+1 do turno da manhã, não é o mesmo da tarde, e com certeza, o que atravessa a cidade de noite há-de ser outro. E, se calhar, às segundas, quartas e sextas estão escalados uns, e às terças, quintas, sábados e Domingos, outros.
O motorista do 665+1 de quarta-feira de manhã fazia juz ao número do Táxi da Retális: era uma besta!
Tinha uns lindos olhos azuis, mas era uma besta! Uma besta em plena crise de andropausa.
Mão na buzina a toda a hora, refilanços com qualquer carro que se pusesse à sua frente, disparates alto e em bom som, até que eu lhe dizer, com a minha pouca paciência matinal "ele não o consegue ouvir e eu não faço questão", a pular de uma faixa para a outra, grunhindo com os dentes semi-cerrados: "a fila para onde eu vou nunca anda".
Muita raiva acumulada; só me lembrava da história do outro taxista que o Miguel apanhou, que lhe apresentou a solução milagrosa para o stress (outro dia houve um que me ensinou uma dieta milagrosa) - comer pastilhas. Muitas pastilhas.
O 665+1 das quartas-feiras de manhã estava chumbado àadmissão do meu livro.
Próximo!

terça-feira, junho 07, 2005

31

A ideia não é minha, é do Madeira - fazer um blogue inteiramente dedicado aos taxistas da nossa praça.
Eu vou um pouco mais longe e digo-vos isto: era um livro dos diabos (e agora que nós, jornaleiros, temos todos a mania que somos artistas), modéstia à parte, texto Diana Ralha, fotos MMM, igual a best seller. De caras.
A primeira história desse livro seria sobre a Isilda, a telefonista da Retalis, que eu nunca vi na vida, mas que sabe o meu número de crédito de cor (é um número com 10 algarismos), que pergunta sempre pela Carolina, pelo David e pelo Gaudi (de acordo com a Isilda, somos os mais simpáticos jornalistas do país; já tu Madeira, que comunicas com as senhoras da Retalis através de monossílabos - crédito; viriato; miguel madeira -, nunca vens à baila), que me dá conselhos sentimentais e de puericultura, que estranha a minha ausência, que me envia sempre taxistas simpáticos.
A segunda história seria, seguramente, sobre a senhora do 31 - a enorme chauffeur de 54 anos, ex-técnica de higiene e segurança no trabalho, reformada há 12 anos da Inspecção Geral do Trabalho: "se aqueles gulutões dos ministros podem acumular reformas milionárias com vencimentos, porque é que eu não posso??? Além disso, está tudo muito bem feito com o meu patrão; não há risco de ser apanhada", garante-nos. Se o seu anterior empregador a apanha, a senhora do 31 está feita ao bife: é que ela trabalha 16 horas no seu táxi potente. Tudo por uma boa causa, claro está: para pagar os estudos à sua "tropa".
A senhora do 31 tem uma "tropa" exemplar. Fizeram um acordo estratégico da maior importância, a senhora do 31 e a sua tropa de quatro descendentes. Enquanto a "tropa" quiser estudar, a senhora do 31 pega no Táxi todos os dias à uma da tarde e só descola as mãos do volante às cinco da manhã.
A senhora do 31 tem dois filhos doutorados. Estudam nos Estados Unidos. A senhora do 31 é a mulher mais orgulhosa da sua prole que eu já conheci.
Porquê motorista de táxi?, pergunta o Cerejo, a caminho do Parque das Nações. Porque aos 42 anos, uma mulher, desempregada, ainda que com imenso currículo e experiência, está morta para a vida. "Um dia, depois de estar há muito tempo em casa, vi um anúncio no jornal, a pedir motoristas de Táxi e pensei: porque não? Sempre gostei muito de conduzir..."
A senhora do 31 é alucinada a conduzir. Ia a 180 Km/h e eu só pensava, olhando aterrorizada pela janela, para o separador central de betão daquela avenida/autoestrada que vai para a Expo: "São Cristóvão, protege-me que eu não levo cinto e esta mulher é louca, eu tenho uma filha para criar e se ela tem que fazer uma travagem brusca nem a alma se me escapa..."
O São Cristóvão ouviu as minhas preces, jantei com o professor Carmona, apanhei, no regresso, um motorista patusco numa van da Mercedes (lamentavelmente não me recordo do número do Táxi), com quem falei sobre as maravilhas da maternidade. O senhor da carrinha Mercedes recebeu, por milagre, depois de oito anos de tentativas inglórias, um anjinho, o Betinho. Em frente à rua Viriato, sacámos dos nossos telemóveis com máquinas fotográficas e mostrámos, embevecidos, os nossos filhos - o nosso passaporte para a eternidade.
Foi uma noite boa.
Quase não pensei no defunto.
Pena que o morto tenha vindo do além, hoje, ao início da tarde, assombrar-me o meu gmail.
Todos nós temos fantasmas no armário.

A minha nova colecção

Tristezas não pagam contas.
Eu tenho que me mentalizar que vou continuar a atrair gente estranha pela minha vida fora, há pessoas que nascem com karmas - este é o meu, não há nada a fazer.
Tant
pirre, agora, os habitués deste quintal é não podem ser penalizados por estes meus estados de melancolia prolongados. Ainda estou de luto carregado, mais conformada com a partida súbita do defunto mas, verdade seja dita, o look de viúva negra fica-me a matar.
Ontem resisti à tentação de comprar meia dúzia de pares de sapatos. O Mário, que já me conhece de gingeira, aconselhou-me, pelo messenger, a fazer terapia pelo consumo. Para me passar rapidinho a neura. Mas, como dinheiro é coisa que, hoje em dia, não abunda na minha conta bancária, fiquei por casa, a fazer os censos da sapatada (são 73).
Acabadinho de chegar do Ebay, está o primeiro elemento da minha nova tara - corsets, em inglês, corpetes, na língua de Camões. É um bocado kinky esta minha nova colecção, os atilhos e os ilhós, enfim, o Freud com certeza que explicava...

segunda-feira, junho 06, 2005

De luto

Estou de luto.
Não esperem encontrar nada de jeito por estas bandas. Até porque eu não posso falar da pessoa que morreu.
Sinto-me o ser mais desinteressante do mundo, o mais desprezível, a mais ridícula e inadaptada personagem de uma história de terceira categoria, logo, não vai sair nada digno de aqui estar.
Por isso, apaguei dois posts muito zangados que aqui tiveram a desonra de pousar durante o fim-de-semana.
Sou capaz de bem melhor que aquilo.

Estive quase uma hora para escrever estas linhas.

Estou a exagerar, certamente.

Pode ser que passe rapidinho.

Duvido.

sexta-feira, junho 03, 2005

Alea Jacta est

Uma revista linda, linda, reaccionária como o raio, que eu não tinha idade para ler quando ela existia, a K, tinha uma secção hilariante que se chamava "Traduções Selvagens". Alea Jacta Est surgia como "a lei é rápida como um jacto".
No primeiro dia dos três anos que perdi a estudar Latim (pelo menos encontrei recentemente alguém para trautear a primeira declinação - rosa, rosae), vomitámos à sirigaita da professora Maria Hedwiges, as frases feitas que sabíamos na língua de Virgilio e da sua Eneida - Et pluribus unum do Benfica, primus inter pares, dos maços do SG Ventil, Quo Vadis, do Cinema. Fiquei a saber, nesse dia, que a lei não é rápida como um jacto, mas sim que os dados estão lançados.
Esta frase latina, proferida por grandes imperadores romanos, é muito portuguesa, muito fatalista, muito ao género do pior faduncho lusitano.
Mas hoje, os dados estão mesmo lançados, por causa da lei que não foi rápida como um jacto (demorou, na realidade, 18 meses). A tal idiota do Tribunal de Menores, que já vos falei em posts anteriores, decidiu alterar o nome da minha filha.
Agora há o recurso até ao Constitucional, há a queixa contra o Estado português por descriminação sexual, mas os meus dados estão lançados há muito tempo - tenho sempre que ir à guerra. O pior é que a única coisa que sei fazer é guerrear.

quinta-feira, junho 02, 2005

O dia em que eu memorizei o teu número de telefone

Foi hoje.

Imagem da felicidade



quarta-feira, junho 01, 2005

Felicidade é...

Chegar a casa, estoirada, desiludida, desanimada e, num instante, os guinchinhos histéricos e o sorriso de orelha-a-orelha de uma loirita de olhos azuis e dentes de mentirosa, que me vem receber à porta de casa, apagarem tudo o que está mal no mundo, tudo o que não bate certo na minha vida.
Ponto final.

terça-feira, maio 31, 2005

O meu look de fodida é fodido

Tiago Luz Pedro dixit.
Quando estava a escrever o post anterior, no computador dos estagiários da fotografia, o editor dessa secção disse: "bem, rapariga, a violência com que estás a martelar esse teclado é porque deves estar mesmo fodida".
Oh yeah... Vou comer sardinhas e beber imperiais.

FODA-SE

É com todas as letras agora.
E em português - a língua inglesa fica sempre bem, mas no calão não se aplica esta lenga-lenga.
Faço um blogue, a coisa corre bem, a crítica aplaude, lanço-me para novos voos: bora lá escrever para a revista semanal do pasquim, agora que tenho a mania que sou escritora, que consigo fazer mais do que meras notícias.
Agora sim em inglês : NEVER MORE!
É melhor ficar por aqui. Por aqui não me cortam dois terços do texto.

sexta-feira, maio 27, 2005

A fome e a vontade de comer

Se o dia de hoje tivesse que ser reduzido a uma frase feita, a escolha recaíria sobre esta: junta-se a fome e a vontade de comer.
Apesar de não se terem devorado uma à outra, a fome e a vontade de comer andaram a brincar com o fogo.
Memorável, é o que vos digo.
A cor do dia é o aubergine. Do meu vestido. De um sofá antigo de veludo.

Pazes com a Leica


Dentes perfeitos

Este exercício de imenso narcisismo serve para vos anunciar as pazes com a Leica. Ainda não me habituei à ideia que tenho uma dentadura perfeita...

Um linque para o Maique

Hoje é dia de festa: o Maique não conhecia esta pérola

Mimi


E a Mimi - a mais palhaça, como a mãe

Mancha


Apresento-vos os mais recentes membros da família: Mancha (nome ainda provisório)

Minha alma canta...


... O Lourenço está quase a chegar.

quinta-feira, maio 26, 2005

Sherlock Ralha (ou a história das Drosophilas)

Hoje, o patrão está a pagar o feriado a 300 por cento, logo, estão reunidas todas as condições para um grande post.

Quando comecei a escrever estas linhas, há quatro horas atrás, ia-vos contar mais histórias de elevadores e de calças de ganga cintura descaída com banhas a mostra (hoje saí de casa com umas calças de cintura descaída e tinha as banhas todas à mostra; entrei em pânico e não sosseguei enquanto não comprei umas calças novas que me devolvessem alguma dignidade - abençoadas lojas chinesas - e escondessem aquela ridicularia).
O post chamava-se Encontros Imediatos no Hércules (o elevador velhinho da Estados Unidos), calças de cintura descaída e outras estórias.
Depois, há um bom par de valentes horas, à conversa com a minha homónima bébé no messenger, o post sofreu uma mudança abrupta: ia-vos contar, também, como um senhor arquitecto com quem privei pouco mais de uma hora, numa tarde de Domingo em que comprei três pares de sapatos e depois vim ter com o mau feitio do Maique ao pasquim (não vejo a hora de voltares a ficar mansinho outra vez, mas, pronto, estou solidária com a tua dor, a morte do "branquinho" está a ser difícil para todos nós...), de repente, se tornou uma das minhas mais importantes "musas".
Dou comigo a pensar quase que diariamente: "Hoje não escrevi nada na (T)ralha, não pode ser, Ralha, senão o KAos não tem nada para ler".
E, então, sento-me em frente ao computador, coloco os óculos pseudo-intelectuais, fecho os olhos, em sinal de concentração, abro-os, depois de se fazer luz, e escrevo. Para ele e por causa dele. E, por isso, obrigada. Porque abri caixas que há muito estavam fechadas, porque acho que não me tenho saído nada mal, porque me dá um gozo tremendo contar-vos as minhas "Amelices".

Mas tudo isto vai ter que ficar para outro dia.

A minha vida é uma coincidência pegada. A Mónica comentou isso por aqui e tem toda a razão. Hoje a actividade gmailistica esteve praticamente desactivada. Recebi meia dúzia de mails e uma notificação do Hi5. Uma amiga querida do pasquim tinha aderido a esta coisa que eu ainda não percebi muito bem para que é que serve e que só aderi, há cerca de seis meses, por causa do senhor que me salvou o Domingo.
Parece-me que a ideia é partilhar fotografias com os nossos amigos e conhecer os amigos dos amigos. No fundo, com os meus 11 amigos que aderiram à coisa eu estou ligada a qualquer coisa como uma centena e meia de pessoas.
Mas o senhor do Domingo, misterioso, nunca lá pôs fotografia.
Eu nunca vi o senhor que me salvou o Domingo. Falamos há muito tempo através das novas tecnologias (primeiro o ICQ, onde ele me encontrou, depois no messenger). Depois há as longas conversas internacionais ao telefone - gravei na memória a passagem de ano de 2002; passámos horas e horas ao telefone e o senhor mistério estragou-me engate com um jovem comunista, mas valeu a pena, se valeu.
Deu-me, então, para googalizar o nome do senhor. Mandei-lhe um mail a informá-lo que Sherlock Ralha ia entrar em acção.
www.google.com e vamos lá a isso - o nome do senhor com o sítio onde ele trabalha; o nome do senhor com a cidade onde ele mora. Enfim, mais de uma hora depois, e de ficar a saber que o senhor professor doutor anda a estudar uma mutação qualquer nas mosquinhas do vinagre (as drosophilas - desde muito cedo a Magui me ensinou a vantagem das drosophilas na investigação científica, porque se reproduzem a um ritmo alucinante; ela também as estudou quando estava a tirar Medicina...)

E ZÁS!

Aparece uma fotografia num site de um projecto científico financiado pela União Europeia. O senhor doutor, aquele que me salvou o Domingo, é o penúltimo da fotografia.
Não é nada como eu o tinha imaginado.
Estou em choque.
De cinco em cinco minutos abro o JPEG.
Já lhe enviei um mail a anunciar os resultados da minha investigação por conta própria. Estou à espera de confirmação.

A caixa de Pandora está aberta. Se calhar, há caixas que nunca se deviam abrir.
Nada a fazer.

quarta-feira, maio 25, 2005

Don't threaten me with love, baby. Let's just go walking in the rain

Esta frase é da autoria da minha musa musical - Lady Day.
Lamento dona Ella, mas a madame Billie fascina-me. Pela voz imperfeita e dengosa. Pela existência triste e trágica. Pela imortalidade e reconhecimento terem acontecido depois de ter sido encontrada morta, num apartamento, com 500 dólares na vagina.
Hoje estou com os blues.
Porque me apetecia dizer esta frase, mas está um dia radioso lá fora. Porque desejo mais do que tudo cantar em dueto o Potato Head Blues, do Armstrong, de preferência em cima da cama, aos pulos no colchão, de pijama, com um rolo de papel higiénico a fazer de microfone.

"Todos os teus problemas começam na tua voz", disse-me há muito tempo, o meu primeiro namorado. Era desafinado como o raio (mas no peito dos desafinados também bate um coração, diria o meu amigo Tom Jobim), mas percebia imenso de música e eu ainda sorrio quando oiço Soundgarden na rádio.

Toda a gente hoje decidiu tirar o dia para me deprimir, para perguntar porque é que eu não tenho namorado e eu ontem resolvi parcialmente o problema: adoptei duas gatinhas lindas, porque já não suporto dormir sozinha. "All by myself in the morning, toca agora o Real Player, lindo, lindo, oportuno como o diabo...
Mais do que um namorado, procuro um companheiro para duetos improvisados no chuveiro e que gaita, só me vem um nome à cabeça.
(O chuveiro que eu comprei parece mesmo um microfone e agora me lembro como fui tola, quando o empreiteiro estava a colocar a banheira e eu o adverti para fazer a coisa de forma a que coubesse lá uma torre holandesa com mais de um metro e noventa: Idiota, idiota...)

segunda-feira, maio 23, 2005

Nota da redactora

Tem havido aí umas confusões, uns telefonemas, mails e até um sms, enfim, resumindo, eu quando estou de fim-de-semana de piquete no pasquim não blogo tão bem como nos dias em que um self made man português me paga sete euros e qualquer coisa à hora e, então, cá fica a nota: o post 'save my sunday' e o post 'E se...' não são sobre a mesma musa.
As minhas fontes de inspiração são infindáveis. A musa que me salvou o Domingo - e cuja nossa amizade dava um blog autónomo da Tralha (e eu até sei como é que o chamaria: scentedgarden.blogspot.com) - diz que eu sou witty and kinky (foi ele que me ensinou estas palavras). O outro o melhor que sabe dizer é que eu não sou nenhuma Heidi Klum (é assim que se escreve?)
Um grande abraço ao meu novo coleguinha de secretária, JPH, que hoje deve ter sentido muito a minha ausência (tinhas a estagiária gira no meu lugar) e, por isso, se fartou de vir aqui à (T)ralha - the big blogger is watching you... -, com o seu browser absolutamente obsoleto (MSIE 5.0).
Um beijo (argh) ao meu fratelo (os oliveira-ralha não se beijam... achamo-lo repulsivo), que também se farta de contribuir para o engrossar das minhas estatísticas. Foste o feliz contemplado com a 3333ª visita. A tua vida vai mudar depois disto. Muda de Ice Tea e aposto como vais deixar de ter que trabalhar ao Domingo...
Acertei?
Bem, basta de disparates. Vou escrever 20 mil caracteres para o patrão.
Inté

domingo, maio 22, 2005

Save my sunday

Eu sei que prometi nunca escrever sobre ti neste blog, perdoa, mas és demasiado importante para não estares aqui.

O repto era simples: Save my sunday, dizia o subject do mail, que era curto e grosso, uma linha de texto apenas, e foi na onda do post anterior: "E se ele estiver online?"

Estavas online. Salvaste o Domingo.
A distância é enorme, eu conheço-te há quase cinco anos, mas não sei como és.

Pode alguém sentir-se tão próximo de outra pessoa apenas pela escrita?
Pode.

E se...

E se eu não tivesse entrado em piloto automático, se eu não me tivesse enganado no caminho? E se não estivesse a tocar o My Immortal no auto-rádio, teria eu entrado, por engano, no Eixo Norte Sul? E se eu me tivesse marimbado para o telefonema da Mónica? E se não me tivesse dado ao trabalho de confirmar se havia um repuxo de água na Praça de Espanha? E se não me tivesse demorado mais cinco segundos, quando estacionei o Idea, para passar um brilho nos lábios (peneirenta...)? E se o cartão magnético tivesse funcionado à primeira? E se, quando toquei no botão do elevador, ele tivesse aberto as portas, ao invés de descer até ao menos quatro? E se, já dentro do elevador, eu tivesse conseguido dizer alguma coisa de jeito?

As coincidências são como as bruxas: ninguém acredita nelas, mas que as há, há.

sexta-feira, maio 20, 2005

Escadas sinistras



Traseiras



Casa protegida



A minha sala pombalina



Mais obras de Santa Engrácia

A minha casa-de-banho laranja



Obras de Santa Engrácia...

quinta-feira, maio 19, 2005

Isaura de Jesus

Os meus mortos vieram-me visitar.

Da primeira vez que me doeu o coração - num primeiro dia de um ano da longínqua década de 80 -, uma dor tão forte que eu quase não conseguia respirar, a minha avó Zá esteve lá, no quarto dos fundos de um sexto andar na Praça Pasteur, até eu adormecer.

Quando tinha 16 anos e um pai maniaco-depressivo Brahman, de olhos muito azuis, a Isaura de Jesus feriu o olho direito com o espinho de uma rosa. Eu imagino a cena num enorme roseiral bravisco da Quinta das Canas, no Barreiro, mas não sei se se passou assim. A cicatriz, uma bolinha encarnada no branco do olho - que parecia mais branco ainda porque a Isaura de Jesus tinha uns olhos amendoados muito grandes e muito escuros -, ficou lá para sempre, como uma tatuagem.
Eu nasci com a mesma cicatriz no olho direito. Eu sou uma fotocópia da minha avó Zá.

Soube bem ser a favorita - as coisas estavam muito bem distribuídas na nossa família: a avó Tóia gostava mais do meu primo Hugo, o avô Ralha sempre se sentiu mais próximo do Leonardo, o avô Oliveira, magnânime, justo, não demonstrava de que neto gostava mais (eu arrisco que talvez fosse eu a menina dos seus olhos, mas talvez seja demasiada presunção e soberba).

A minha avó Zá inventou um verbo na língua portuguesa - o "princesar". Não o descobrirão, por certo, num exemplar da Porto Editora; faz parte de um compêndio de edição única que está em meu poder.

Quando chegávamos à Praça Pasteur (íamos lá com que regularidade?), o avô Ralha implorava para que não corrêssemos ou pulássemos, recordando o momento Jeunet em que a vizinha de cima, grávida de nove meses, irrompeu pelo tecto da sala. Ou melhor, quando as pernas da vizinha - a barriga travou a sua queda livre - se transformaram num estranho candelabro em movimento.
A avó Zá estava sempre sentada na sua cadeira de cabedal (no Inverno tinha os pés em cima de uma escalfeta), em frente ao bonito móvel onde estava exposta a colecção de vidros do meu bisavô Correia, às voltas com as suas traduções de fórmulas químicas. Levantava-se, baixinha, sapatos de cunha, abertos à frente, deformados pelos joanetes, cabelo totalmente branco, olhos pintados com um duo de sombras verdes da Mary Quant, perfume de madeiras da Lander e lançava: "Vamo-nos princesar!"
Os meus olhos sorriam. Esquecia as repetidas recomendações do avó Ralha de não corrermos pela casa e lá ia eu a voar até ao quarto. Abríamos a última porta do armário (as gravatas do avô Ralha estavam penduradas na porta), junto à cabeceira da cama, e ela deixava-me sempre abrir o baú onde estava o meu tesouro: uma caixa de plástico castanha escura, com tampa beige, onde a avó Zá guardava os "pechisbeques" com os quais eu me "princesava".
Colocava anéis de pedras semi-preciosas em todos os meus dedos, pérolas nas orelhas, colares, lenços na cabeça. Ficávamos horas naquilo.
Ainda hoje uso estas jóias (hoje trago no anelar da mão esquerda o anel de prata em forma de tronco), que não valem nada, mas são um dos meus maiores tesouros. Quando a Isaura de Jesus morreu, seis meses depois da avó Tóia, reclamei o meu tesouro.
Ela disse, repetidamente, quando estava a morrer, quando implorava para o meu avô terminar o seu sofrimento, mas ele só o prolongava, deitada do lado esquerdo da cama de casal do seu quarto verde, que todas as suas jóias (as verdadeiras) deveriam ser para mim. Nunca as vi. Não importa: os anéis que ela trouxe do Brasil estão comigo, o colar e a pregadeira de turquezas e zircónias também, guardadas na caixa castanha escura com tampa beige. (Gostava de ter a cadeira de cabedal, porém).
A avó Zá nasceu há 85 anos e um dia. O avô Ralha nasceu há 84 anos e um dia. Conheceram-se na faculdade - ela era melhor aluna do que ele -, casaram-se por procuração e isto sempre foi algo que me escapou: porque é que o Alberto José falhou o seu próprio casamento.
Partiu cedo demais. Teria sido ainda mais mimada do que sou, ter-me-ia amparado todos os golpes, como fez com o Zé Ralha.
A minha avó Zá esteve presente apenas nos meus primeiros quase sete anos de vida e incutiu-me o gosto pelas rosas trepadeiras braviscas e pelas lantanas, que me ensinou, desde muito cedo, que são venenosas.
Sempre que vou à Costa, deixo uma flor na Sant'ana, que tu mandaste eregir, há meio século atrás, quando o Zé Ralha nasceu, por milagre, depois de anos e anos sem conseguires ter filhos. O avô Ralha quis saber porquê, eu não lhe disse, mas é para ti, trago-te sempre no pensamento: os postais com gatinhos que enviavas para Viseu nas férias grandes, apesar de eu não saber ler, as bolachinhas que tendíamos na cozinha, os desenhos onde eu te retratava loira e ao avô Ralha com um chapéu de pasteleiro na cabeça, as pastilhas efervescentes de vitamina C com sabor a morango que nos davas sempre que iamos à Praça Pasteur.

Todos os dias, quando me olho ao espelho, vejo a minha avó Zá.

segunda-feira, maio 16, 2005

Custódia de Jesus

Depois de tu morreres, quando eu era pequenina e a Magui me fazia, todas as manhãs, à pressa, duas trançinhas simétricas, à índia, como aquelas que eu trago hoje -

tu fazia-las com mais amor: eu sentava-me no banquinho de três pernas da casa de banho,

(que eu rachei numa tarde, quando tentava agarrar já não sei o quê do armário dos remédios, e que nunca foi substituído até à tua casa, que tinha alcatifa verde relva na entrada, ficar em profundo silêncio)

à espera que tu chegasses com um alguidar com um fundinho de água, que servia para domar os meus enormes cabelos. Baixavas o tampo da sanita, sentavas-te, enorme, na tua pose de altivez. Trazias contigo um pentinho pequenino, com o qual dividias meticulosamente o cabelo ao meio e, depois de o entrançares, fazias um caracol na ponta, enrolando as madeixas à volta do teu dedo indicador e humedecendo-as com água e um bocadinho de sabão azul e branco, para ele não se desfazer; depois, o toque final: enfeitavas as trançinhas com um laçarote, daqueles que comprávamos ao metro, numa retrosaria ao lado dos Armazéns do Minho

-, eu encontrava consolo nos dias de chuva, porque, para mim, tu andavas nas limpezas da tua nuvem.

Chamavas-me abelha mestra: é incrível como me leste era eu ainda tão pequenina.

Hoje sonhei contigo, vóvó Tóia.

Estava deitada no sofá de napa alaranjado, com a cabeça em cima do teu colo, ouvia o teu coração e distraía-me a sincronizar a minha respiração com a tua.
De repente, estávamos lá em baixo, na Rua do Tarrafal, a comprar leite na UCAL e, um pouco mais à frente, a aviar hortaliças numa carroça de madeira. Mais um frame do meu sonho, e desta vez estamos na Praça de Alvalade a comer tremoços. Mais 24 imagens por segundo, e eu tenho um cartucho de papel almaço cheio de cerejas: tu ensinas-me a fazer brincos com as cerejas, já que a Magui teima em não me deixar furar as orelhas.
Estás já muito doente, na escola a professora Gertrudes Maria manda-nos ir ao canavial da Igreja de santa Joana Princesa, cortar uma cana, para fazermos marionetes em casa. O Zé vai buscar-me à escola e corta a cana e o dedo, com um canivete, mas a Magui trabalha até tarde e não tem tempo para fazer a marionete.
No dia seguinte, eu chego a casa a chorar: todas as mães fizeram a marionete para os filhos - são todas muito mal amanhadas: não passam de um pau com uma cabeça feita de uma peuga velha -, só eu é que chego de mãos a abanar.
Tu perguntas o que se passa, eu explico-te. Levantas-te da cama, prometes-me a marionete mais bonita - "vou fazer-te uma noiva" - e sentas-te em frente à Singer e ali ficas, durante horas a fio, a costurar. Abres uma gaveta da cozinha e fazes magia: transformas um pauzito nos braços da minha marionete, que forras com um retalho de tecido muito bonito, com florzinhas minúsculas cor-de-rosa, com o qual fazes, também, o vestido da noiva.
A cabeça, fazes com um collant cinzento, que enches de sumaúma. Cozes dois botões, que são os olhos, bordas uma boca com uma linha encarnada, fazes uma cabeleira com lã. O toque final: um véu de tule branco.
Eu não sei onde é que tu foste arranjar forças para fazer a minha marionete. Não sei onde encontraste, assim, do pé para a mão, o tecido das florzinhas minúsculas ou o improvável tule. Só sei que, naquele dia, fizeste magia aos olhos de uma menina de tranças enormes. A minha marionete faz ainda vincar a covinha que eu tenho na bochecha direita.
Fez 20 anos, a tua noiva. Está guardada numa caixinha para não se estragar: o collant que lhe emprestou um rosto tem uma malha enorme, os olhos estão quase descozidos, os cabelos e o véu estão enegrecidos pelo tempo. Vou visitá-la muitas vezes, mas eu não me atrevo a mexer-lhe: a cozer os botões dos olhos, ou a lavá-la num alguidarzinho como aquele que tu usavas para me fazer as tranças.
Vou guardá-la sempre.
Fazes-me mesmo muita falta, vó.

The day after

Tanta merda com o day after, tanta merda (ou caca de cão, para os mais pudicos), tanto impasse, tanto vai não vai e depois dá nisto...

sábado, maio 14, 2005

Sê meu guia espiritual: corta-me o cabelo

Eu disse "um dedo", à Cristina de Montalegre, e ela cortou um dedo.
Não me cobrou o suplemento escandaloso de 25 Euros para cabelos compridos e deu-me uma prenda da Kerastase para a Carolina.
A Mónica diz que eu nasci de facto com o cú virado para a lua e que me calham sempre as mais simpáticas.
André,
És e serás sempre o meu guia espiritual - não me esqueço do penteado magnífico que tu me fizeste numa noite em que o elevador do meu prédio teve mais histórias para contar e em que os inquilinos que nos pagam rendas insultuosas de 50 euros tiveram que gramar com o "Come What May", do Moulin Rouge, até ao amanhecer -, mas, quando eu digo "um dedo" tu levas cinco.
Gostei da Cristina de Montalegre (que eu pensei que era galega). Hei-de lá voltar.

sexta-feira, maio 13, 2005

Fuck!

Quando eu escrevo as barbaridades que vocês encontram neste blog, quando exorcizo os meus demónios, tenho sempre a secreta esperança que haja uma ou outra pessoa que não ponha cá os pés. Talvez, por isso, se explique a minha recente e violentíssima adicção no StatCounter - quero sempre saber quem anda por aqui, como veio cá parar e o que é que faz nos escassos minutos que dedica a este quintal.
Acabo de saber que uma das minhas musas lê com muita atenção o que eu escrevo. Como é que eu me fui esquecer das 'watch lists' e dos 'news agregators' (é isto não é, maique?)
Gaita!

Coincidências...

Tenho um visitante novo.
E de onde???
British Columbia.
Uma miúda não aguenta coincidências destas...

quinta-feira, maio 12, 2005

1237 Euros

É o meu reembolso do IRS.
Ser mãe solteira e comprar casa nem é assim um mau negócio de todo...

Ave Edgar

Edgar querido, tens um corte de cabelo que não lembra ao menino Jesus - o que até é pena, porque és muito engraçado -, mas resgataste as fotos perdidas da Carolina das entranhas mais profundas e viscosas do Toshiba e, por isso, acabo de inscrever o teu nome no "álbum do bébé" da minha loira. Nunca te esqueceremos.
E, assim, qui ça, daqui a alguns dias, conseguirei fazer as pazes com a Leica e tentar-me-ei convencer que ela não tem mau Karma (ainda não lhe chamo Leiquinha, mas também já não digo os dois nomes juntos - Leica Digilux, vem imediatamente à mãmã!!!, o que é, indiscutivelmente, muito bom sinal de tréguas), que tudo não passou de uma fatalidade.

Ave Edgar!

(Mas acho que vou comprar uma Olympus Mju Laranja, só para o caso da maldição da Leica persistir...)

Nojo

De ser portuguesa.
Os demónios que mataram a Vanessa arriscam-se a uma pena de 12 anos.
Sou cada vez mais reaccionária.
Tenho cada vez mais vontade de comprar o bilhete de avião.

quarta-feira, maio 11, 2005

Os meus pertences

Na minha vida é sempre assim - se ao dobrar da esquina houver um lugar de estacionamento, vou lá buscar os meus pertences.
Fui buscar os meus pertences e ele não os atirou pela janela, como eu tinha imaginado na minha fantasia de reencontro. Não tem pedalada.
Acabou.

Breve apontamento botânico

Os Jacarandás estão quase, quase em flor.
Sugiro que esperem mais uns quinze dias e visitem a Rua Almirante Barroso. É uma orgia lilás.

terça-feira, maio 10, 2005

Maniaco-depressiva Parte III

Estava a colocar a chave na fechadura da porta do prédio, ainda a suspirar, porque tu não olhas sequer por cima do sobrolho, porque te sou totalmente indiferente, estava em perfeita simbiose com os blues da chuvinha de molha-tolos que decidiu aparecer finalmente, quando surge, do meu lado esquerdo, um puto - tinha, com certeza a minha idade, mas para mim são sempre putos - a tocar à campainha do sexto andar e a interromper o meu faduncho.
"Oh não", pensei eu, largando um sonoro suspiro, "Só me faltava agora uma viagem silenciosa e desconfortável de elevador", matutei franzindo a testa.
Mas hoje, ou está tudo tarado, ou eu estou mesmo irresistível e tu é que parvo.
O velhinho elevador, que já viu muito na vida, tinha já galgado até ao terceiro piso quando o dito jovem disse: "Grande decote".
Os meus olhos abriram-se muito, baixei a cabeça, colei o queixo ao peito e confirmei a imagem mental da minha vestimenta. "Não, o decote hoje nem é nada de especial", respondi eu.
"Não, não estou a falar desse". Apontou para as rachas imorais que o meu vestido tem, que descobrem dois terços da minha coxa enorme.
"É um bocado demais, não é?", disse eu à criança.
"Qual quê? É lindíssimo", respondeu ele com uma lata que eu até me belisquei para ver se estaria a sonhar, no momento em que o elevador parou, com um sobressalto, no sexto andar.

Isto aconteceu mesmo e tu és muito parvo.

Unsexy

I can feel so unsexy for someone so beautiful
So unloved for someone so fine
I can feel so boring for someone so interesting
So ignorant for someone of sound mind

E, num estalar de dedos, tu pões-me a cantar esta canção.

Odeio-te.

Piropos e outras massagens ao ego

Hoje ao almoço, com o rio a enquadrar os franguitos assados que jaziam coradinhos e estaladiços nos nossos pratos, o psicólogo social que eu fui entrevistar e que, por sinal, é um dos publicitários mais bem sucedidos deste pedaçito de terra do Oeste da Europa, falava-me da imensa necessidade de, quando em quando, sairmos de nós próprios e vermo-nos como nos sonhos.
Pensem num sonho qualquer.
Bom, mau, não interessa.
À noite, assim que fechamos os olhos e entramos no vale profundo dos lençóis, todos nós, sem excepção - pobres, ricos, feios, bonitos, talentosos ou bestas quadradas -, somos realizadores.
Nos sonhos, a uma média de sete a oito horas por noite - mais um dia de trabalho por cima dos nossos corpos -, enquadramos planos, misturamos cenas, coordenamos figurantes e efeitos especiais.
Nos meus sonhos há sempre banda sonora e eu diria, sem modéstia nenhuma, que sou uma excelente directora de fotografia - a luz dos meus filmes nocturnos é sempre mágica, quente, em tons de sépia.
Quem sonha é o homem dos sete instrumentos naquelas horas de suposto descanso e, geralmente, não se escapa de ser, também, o protagonista das películas de algodão doce, da qual são feitos estes filmes do inconsciente.
Mas vemo-nos sempre de fora, pela lente da câmera de oito milímetros.
Eu sonho apenas alguns sonhos com os meus olhos.
Era isto que me falava o senhor Bidarra ao almoço: da imperiosa necessidade de sabermos o que é que os outros pensam de nós.
O Ricardo inaugurou uma Moleskine de folhas de 150 gramas por metro quadrado, quando esteve lá em casa a semana passada. Fez um desenho. Retratou-me.

(é uma gaita eu estar ainda zangada com a Leica, porque gostava de tirar uma foto ao desenho e pô-lo aqui)

Gostei do que vi. Os riscos da caneta preta desenharam uma vamp de cabelos enormes e volumosos, com um vestido comprido de corte "princesa". Os saltos altos lá estavam, enormes (este fim-de-semana comprei umas sandálias Kallisté a 10 por cento do preço no abençoado Stock Market), a pose altiva também.
Sorri e fiquei espantada com o pormenor de uma das mãos: cigarro em riste, mas em pose de cardeal, quando este estende o anel para ser beijado pelos seus súbditos.
O Ricardo vê-me de uma forma bonita. Diz que eu tenho nariz empinado (nunca tinha reparado, mas o Maique concorda) muito bonito - "Gosto desse nariz empinado" - e um sorriso Nicole Kidman.
Foi o piropo mais bonito que eu alguma vez ouvi.
"Em que é que consiste o sorriso Nicole Kidman?", perguntei eu, protegida pelo Messenger. "É absolutamente devastante; a true knock out", disse ele

Enquanto escrevia estas linhas, um colega de trabalho tímido, que tem um dedo que adivinha, veio tirar um café (trabalho lado-a-lado com a ruidosa máquina, que parece ter ataques de flatulência sempre que alguém decide beber um expresso na redacção) e, enchendo-se de coragem, perguntou: "Já alguém te disse que vens sempre bonita para o trabalho?"
"Não", respondi eu, corando de imediato.
"Mas vens; estás sempre muito bonita. Destróis o preconceito de que uma mulher ou tem boa aparência ou é inteligente. E, também, que as jornalistas parecem todas uns homens. É um serviço público que nos prestas".

Sozinha, mas maravilhosa, com o ego a transbordar, lá vou eu escrever um InfelizCidades.

segunda-feira, maio 09, 2005

Cegueira

Hoje, depois de ler as notícias, só acredito que Tu existes, porque me consola a ideia de que a menina que foi queimada numa banheira de água a ferver pela avó, que agonizou durante três dias e ainda foi queimada outra vez com um ferro de engomar em brasa porque chorava muito, ganhou asinhas de querubim no rio Douro e está no céu, numa nuvem bonita qualquer.
A menina chamava-se Vanessa, parece-se com a minha filha e Tu fazes o favor de ir rapidamente ao médico ver essas cataratas que te cegam.

Coleguinha novo

Tenho um coleguinha de secretária novo. Mais um que foi desterrado para a única secção ultra-populosa deste jornal: a secção para onde vão os jornalistas que se portaram mal...
Estou a gostar do meu companheiro de exílio.

Gafanhotos e outras musas

O meu maço de Lucky Strike em cima de uma mesa do Laçinho despoletou uma pontinha de ciúme no senhor que fuma Camel: "Agora até já fumas Lucky? Tens a certeza que não estás apaixonada pelo Madeira?"
Não, não estou. Faria sentido, de facto.
Penso nisso muitas vezes.
Não estou nada apaixonada pelo Miguel, apesar de achar bizarra a quantidade de vezes que subo ao segundo piso só para fumar um Lucky com o senhor Wood (o senhor do Camel também não gosta destas minhas visitas).
Admiro-o. Ponto final. Quero aprender todas as coisas que ele tem para ensinar (são imensas) e o facto mais extraordinário é que ele as quer ensinar e tem jeito para mestre (apesar de a paciência não ser o seu forte).
Admiro a guiquisse dele e ela contagia-me: este blogue não existiria se eu não tivesse conhecido o seu velhinho Something or Something Else e eu não estaria viciada em Statcounter se não tivesse sido ele a criar a minha conta e a instalá-lo no T(Ralha). Se os dias aqui no jornal fossem como nos sete anos em que eu e o Maique nos ignorámos, eu continuaria a utilizar o Explorer, perdendo o maravilhoso mundo do Firefox e das suas mil e uma extensões. Nem tão pouco sonharia que Safari e Camino são browsers para Mac. Desconheceria o significado de open source e se me falassem em panther, jaguar ou tiger, eu estaria convencida que alguém tinha ido ao zoológico -nunca me passaria pela cabeça que estariam a falar de versões do Mac OSx.
O Maique recorda-me outras "musas" que me inspiraram na vida, que despertaram em mim estranhos interesses - direito do Trabalho, em geral, e negociação colectiva, em particular, foram, talvez, os mais estranhos.
No final da semana passada, pedi ao Maique uma ficha de inscrição para me transformar em pequena gafanhota, como a Qui Qui e tantas outras meninas que ele guiou nessa arte das gafanhotices. Ele aceitou-me na Universidade Mikelegurra, e logo tratou de enumerar o material necessário para aprender este antigo ofício (já encontrei o Victorinox cor-de-rosa; é muito pindérico...)
Um dia, espero, ensinas-me fotografia.

sexta-feira, maio 06, 2005

Break

Na prateleira do Dashboard está uma ode ao Maique. Por acabar. Porque, tal como lhe expliquei há pouco, no Gmail, quando escrevemos sobre alguém que nos inspira verdadeiramente, temos que deixar aboborar as palavras, cozer em lume brando para apurar o sabor da prosa.

quinta-feira, maio 05, 2005

Depois



Fotos: MMM

Antes



quarta-feira, maio 04, 2005

Pós-catarse

Catarse. É uma palavra que eu amo, mais que não seja porque foi das únicas coisas que eu ensinei ao Leonardo.
Depois da catarse de ontem - os esqueletos decidiram sair do armário, porque já estavam bafientos, cheios de mofo -, deixo-vos hoje um apontamento completamente fútil e oco: amanhã tiro o aparelho dos dentes. Espero ter, brevemente, motivos para mostrar a minha dentição perfeita.
Se não tiver, tant pirre, como dizem os personagens dos filmes do Jeunet, I will survive, como diria a agora rechunchuda (outra palavra linda) Gloria Gaynor (que actuou no Dubai, quando eu lá estive).

terça-feira, maio 03, 2005

António Ângelo Vasconcelos

Quando eu tinha 13 anos, as certezas do mundo eram todas minhas e eu sabia que queria ser pintora como o Zé Ralha.
No Verão de 1991, terminei o oitavo ano com cincos a quase tudo (só a educação física é que tinha 3 - a mancha do meu currículo escolar foi sempre esta vil disciplina, ainda hoje tenho uma fraca auto-estima por ter sido, durante anos a fio, das últimas a ser escolhida para as equipas; ninguém quer os gordinhos e as gordinhas, somos uma espécie de leprosos, mas eu nunca arranjei atestados médicos falsos a declararem uma qualquer anomalia cardíaca ou esquelética, nem sequer estava com o período todas as semanas, como muitas das minhas outras colegas que, até nem eram gordas, mas não tinham jeito para a coisa), disse adeus à escola que tem das piores reputações de Lisboa (na entrada principal da preparatória Gago Coutinho, a estátua do menino e do cão com a cabeça decapitada há décadas provoca suores frios a qualquer encarregado de educação que se preze, mas a Magui tirou-me do colégio, recusou a matrícula automática no Valsassina, porque, dizia ela, eu tinha que saber o que era o mundo real e, de facto, a Gago Coutinho e os seus barracões pré-fabricados provisórios, que se foram eternizando - ainda lá estão -, foram sempre meus amigos, não me fez mal nenhum, de facto. Se tivesse ido para o Valssassina teria conhecido o Lourenço uns anos antes, mas, provavelmente, hoje em dia, diria "tefone" e "tevisão"), e matriculei-me no Liceu Rainha D. Leonor, na área de Arte & Design.
Em 1991, a Magui já era uma activista contra a assinatura mensal da PT e o nosso telefone - era o 803346 - era meramente um objecto decorativo, mais um brinquedo para os mais de 60 gatos que habitavam a nossa casa destruírem.
Agosto já ia alto quando o meu tio Zé, que mora no mesmo prédio, um andar acima, recebe um telefonema do Liceu Rainha D. Leonor. As senhoras do PBX (sempre foi um mistério para mim, o que quer dizer esta cena do PBX), desesperadas por não conseguirem entrar em contacto comigo, decidiram telefonar para um vizinho (por acaso foi para o meu tio, teria sido mais inteligente, digo eu, ligarem para a vizinha do lado, a D. Anália, mas, se calhar, estiveram horas a fio a rir à gargalhada com o nome da senhora e tiveram medo de ligar e, por lapso, lhe chamar Orália) para requerer a minha presença urgente na secretaria.
Fui com a Milucha, no dia seguinte. "Não há mais vagas para arte & design. Vai ter que escolher outra coisa", anunciou uma professora de cabelo loiro platinado muito armado com laca.
Foi como se o mundo acabasse naquele instante: "Como não há vagas? Qual foi o critério? Já viu as minhas notas?". Nada do que eu aleguei a sensibilizou. O destino é assim, como a vingança, implacável.
Não era o fim do mundo. Só teria que optar por uma área, em definitivo, no décimo ano. Mas eu estava totalmente alterada:"Vai fazer perder-me um ano. Quando eu fôr uma grande artista, vai-se arrepender de me ter feito isto. Esta escola dá-se ao luxo de desperdiçar talentos", disse eu, com intenso dramatismo e soberba à professora, que começou a perceber, naquele instante, porque é que o meu apelido é Ralha.
"Então que vagas é que esta escola tem para mim?", atirei eu, mais conformada, mas com uma saliência que merecia umas boas reguadas nas mãos. "Há Economia e Saúde". "O quê?????" Mas eu lá tenho cara de quem quer ir para Economia ou Saúde???"
Passei-me outra vez, a coitada da minha ex-tia Milucha acho que nunca passou tanta vergonha na vida (mal sabia eu que, meia dúzia de anos depois, daria entrada na secção de Economia de um jornal, secção onde fui muito feliz, onde conheci o amor da minha vida e onde não precisava de escrever em blogues para me sentir útil e realizada).
"Também há música...", disse, baixinho a professora, com medo, naquela sala bafienta da secretaria, cujas paredes eram de um verde hospital.
"Ora é essa mesmo!", sentenciei eu, sem não antes rabujar: "Podia estar a fazer desenhos, a desenvolver os meus talentos artísticos, mas esta escola só me dá música. É isto mesmo."
A professora não percebeu o meu sarcasmo e decidiu vangloriar a minha escolha: "Ora, vai gostar muito. É uma professora velhinha muito querida".
Quando saímos da sala verde e começámos a descer a escadaria da entrada principal pensei: "O que é que eu fiz? Um ano com uma velhinha querida? Vou enlouquecer..." Mas eu já gostava de um bom faduncho na pré-adolescência. Aceitei os desígnios do destino e nessa tarde pus-me a ler na Bíblia a história de Job. Um ano com uma velhota querida não me impediria de ser uma grande pintora.
os horários saíram e as aulas de música eram às segundas e às quintas feiras. A turma de música tinha apenas nove macacos, cujos nomes eu já nem me recordo (estranhamente, recordo-me agora do nome elemento mais asqueroso dos nove maravilhosos, o José Carlos, tinha a cara minada de acne e um nariz que parecia um ângulo recto perfeito). Juntaram-nos, aos nove magníficos, à segunda turma de Saúde. Enquanto eles empinavam a pequena e a grande crculação, nós descobríamos Bach.
A sala de música é ao lado do ginásio do Rainha D. Leonor e por debaixo dos balneários das raparigas, num edifício separado. Era uma sala que cheirava a velha. As aulas de música começavam às 10 e acabavam ao meio-dia.
Naquela primeira segunda-feira, eu preparei-me psicologicamente para a velhinha querida. Mas ela não apereceu. Subiu as escadas um homem dos seus trinta anos, magrinho, cabelo escuro revolto (look acabado de acordar), vestido de preto.
Eu entrei em transe: "Onde é que está velhota?", pensava eu, enquanto ele andava com a sala de música às costas, a mudar secretárias de um lado para o outro, para fazer um semi-círculo de nove carteiras.
Apresentou-se: "Chamo-me António. António e não setôr. Vocês tratam-me por António, ok?"
Choque outra vez.
A custo, timidamente, começámos a tratá-lo por António, mas na terceira pessoa do singular. "Não, não, não. É António e é tu. Não quero cá você".
Naquela primeira aula, o António mostrou não ter os métodos pedagógicos de uma velhota querida. Estivemos a escutar o silêncio, sentados em círculo, no meio do chão. Ouvimos os ponteiros do meu Swatch Scuba, os pássaros, a nossa respiração, e eu até ouvi o bater do meu coração (tenho a certeza que a primeira arritmia que tive foi no dia em que conheci o António)
Mandou-nos comprar uma flauta Honner. Para trazer na próxima aula, quinta-feira.
Eu apaixonei-me pelo António assim que o vi.
Mas pela flauta não. Toda a gente conseguia soprar no instrumento (nada de interpretações nojentas, se faz favor), reproduzir alguma nota, menos eu. Não saía nada parecido com um dó, ou um ré. Um caso perdido, pensou o António. E eu também.
Mas esforcei-me tanto, tanto, tanto, (a minha mãe ficou sem tímpanos: trancava-me no quarto e praticava até à exaustão), que em menos de um mês era a coqueluche da turma e do António. Devorava pautas. Bach, Mozart, cantigas de Santa Maria, música medieval e tantas outras. Chegava às escadas da sala de música às oito da manhã para praticar. A aula era só às dez, mas o António vinha de Almada e, por isso, chegava sempre mais cedo. Estávamos ainda no primeiro período e ele disse-me, nas escadas, onde fumávamos cigarros juntos: "Diana, eu vou-te dar um cinco. Eu não te posso dar um seis, senão eu dava-te".
Nunca fui tão feliz na vida.
Foi o António que descobriu que eu sabia cantar (era uma melodia cantada em cânone, apenas com a palavra "tuemba", parecia magia, quando ambos descobrimos que eu tinha uma voz de anjo). Foi o António que me fez descobrir os Madredeus. Foi por causa do António que eu me aventurei a cantar, com 14 anos, para o Pedro Ayres Magalhães e que, nesse dia, disse a mim mesma, posso morrer agora (anos mais tarde, ao ouvir as variações Goldberg no Palácio de Queluz senti o mesmo), porque o PAM se emocionou, pediu-me para gravar uma demo para ele (ele tinha um banco de voz, que é um conceito lindo) e ainda hoje se lembra - referiu-o há tempos quando o Leonardo o entrevistou para o Indígena - da adolescente louca, que abriu a porta do elevador onde ele seguia (já tinha um qualquer fetiche com elevadores) para lhe cantar "A sombra".
Esta história não tem um final feliz.

Quando o final do ano lectivo se aproximou, o António perguntou-me se eu não queria ir para a Escola de Música de Almada, onde ele leccionava.
A minha mãe não deixou.
Não fui para Arte & Design no ano seguinte. Esqueci a pintura e fui para Letras - o quarto agrupamento -, que era o que me dava menos trabalho.
A única recordação que eu tinha, até hoje, do António, era uma foto, tirada no último dia de aulas, está ele em contra-luz, a arregaçar as calças nos tornozelos, e uma folha pautada de uma sebenta com o seu nome completo e a sua morada, que eu decorei há 12 anos: "António Ângelo Vasconcelos, Quinta de Santo António (e o resto não digo, não vá ele morar lá ainda)".

Mas, hoje ao almoço, duas pessoas de quem eu gosto muito magoaram-me quando me disseram que não vale a pena tentar. Que ou se tem ou não se tem.
E eu lembrei-me do António e das notas que teimavam em não sair da flauta Honner. E do "Diana, eu vou-te dar um cinco. Eu não te posso dar um seis, senão eu dava-te".
Eu não acredito em nada disso que vocês disseram.
E encontrei o António no Google. Por isso, obrigada, Dave. Obrigada, Maique.

Fantasma do Natal passado

De vez em quando, muito de vez em quando, dá-me a fúria das limpezas electrónicas, ponho um lenço imaginário na cabeça, muno-me da pá e vassoura binárias e decido fazer a faxina à caixa de correio do Outlook. E, então, tal como acontece, também muito de vez em quando, nos poucos dias do ano em que arrumo a minha carteira, encontro tesouros que pensava estarem perdidos para sempre.
No final da semana passada encontrei, no Outlook - o próprio Outlook estava a precisar de uma varridela: está cheio de teias de aranha, desde que o Gmail apareceu -, uma pasta escondida que se chama psicanálise. Tem lá muitas mensagens. Senti um nó cego no estômago ao ler uma das muitas dezenas de mensagens de uma amiga que perdi estupidamente, que dizia assim: "És o máximo, sabias?". Ela já não me acha o máximo, acha-me o mínimo, tento não pensar muito no assunto para não me entristecer, agarro-me com unhas e dentes à imagem do amigo que ganhei por causa dela, um amigo que estava mesmo aqui ao lado e que eu não vi.
Encontrei, também, outros dois mails, que, provavelmente, não apaguei só porque um dia os quero mostrar à Carolina, assim como há uma foto, que está escondida no Mac velhinho, que apelidei de "felicidade", há dois anos atrás. Tudo isto, para ela saber que nem sempre os pais foram amargos um com o outro.
Provavelmente, não devia reproduzir os mails aqui. Mas, o pai da minha filha não teve qualquer pudor em utilizar correspondência electrónica pessoal em Tribunal. Aqui vão e desculpem-me a piroseira. O fantasma do natal passado atacou hoje e eu tenho que fazer o exorcismo aqui na (T)ralha.

Subject: De repente, não mais do que de repente
seg 12-05-2003 16:39

Amora,
A gravidez não é um estado de graça; é mais um rodopio de ambiguidades.
No dia 23 de Março decidi acordar de um coma. Assim, de repente, não mais do que de repente, como na canção. As pessoas entram em coma - mesmo que se trate de um coma poético, como o meu - porque sofreram determinado traumatismo grave. Conheces perfeitamente porque é que, não decidindo morrer, optei por adormecer profundamente. Não foste o motivo do meu acordar - suponho que terá sido a doença da minha mãe, mas nem disso tenho a certeza -, mas foste a primeira imagem que vi assim que abri os olhos e pestanejei como há muito não fazia. Foste uma miragem lindíssima para quem estava habituada a não ver nada, a não esperar nada da vida.
És o pai do meu primeiro filho; estava escrito que serias o pai do meu filho e está muito bem assim.
Esta conversa não deveria ser por escrito. Eu sei e tu sabes que eu sou melhor a escrever do que a falar, mas não devia ser por escrito.
Não te amo. Estimo-te muito, gosto que nades nas profundezas do meu corpo, mas não te amo. Se te amasse querer-te-ia a meu lado todos os segundos do dia, ainda mais agora que estou grávida. E isso não acontece. Nem tão pouco estou com vontade de ir a baptizados e casamentos da tua família, apesar de gostar da tua mãe, dos teus irmãos e sobrinhos. Repara: há um pouco mais de oito semanas era um capote errante, uma escrava do prazer e, de repente, não mais do que de repente, estou grávida e gorda, tenho um namorado, uma sogra, cunhados e sobrinhos.
É demasiada pressão. Não estou a aguentar. Ontem, senti-me sufocada; se a tua mãe me tivesse pedido uma segunda vez o meu número de telefone, teria fugido a correr. Confesso que tive inveja da felicidade e plenitude da família feliz que ontem celebrava o baptizado dos seus filhos. E tive a certeza que nós nunca seremos assim, porque eu não quero ser assim.
Cheguei a casa e chorei angustiada por não amar o pai do meu filho, por não poder fruir da maravilhosa experiência que deve ser carregar no ventre uma feijoca de alguém que se ama. O que importa agora, porém, não sou eu nem tu: é o bébé. E mesmo esta conversa, que é importante, deixa de o ser por causa dele; só ele é que conta. Temos um pacto de honestidade. Praticamente o violava, mas queria ter a certeza destes sentimentos que agora escrevo e confesso.
Mudou muita coisa em pouco tempo - talvez seja esse o sentido do título do teu mail ("mudança") -, de repente, não mais do que de repente. O nosso filho é fruto de uma história muito bonita, quase uma história de encantar, daquelas de príncipes e princesas que acabam com "E viveram felizes para sempre". Acredito que a nossa história possa ter um final feliz. Não será, com certeza, nos moldes tradicionais. Pelo menos, por enquanto. Não sei o que os Deuses têm destinado para nós. Por alguma coisa nos uniram. Algum plano terão.


Subejct: O futuro
ter 13-05-2003 12:20

Diana;

Saí cedo da redacção, só vi o teu e-mail hoje. Fosse como fosse, escrever-te-ia entre hoje e amanhã.
Apesar de esperada, obviamente que a tua resposta é cortante. Cortante pelo conteúdo, cortante pela forma (que é tão bela). Gosto das coisas assim, gosto que sejas assim: directa, sincera, sem rodeios.
Resolvi tirar o espelho retrovisor do meu carro. Só quero olhar para a frente. Na minha dianteira, noutro carro, vai uma pessoa de quem gosto muito e que tem um autocalante que diz "cuidado, bébé a bordo". Esse bébé também é meu. Quero dar-lhe tudo. Contrariar a(s) história(s) familiar(es) -comuns- de pais que não têm uma relação saudável, que não são amigos.
Continuo a estar com a Mãe do meu filho para o que der e vier. Não quero perder uma consulta pré-Natal. Não dispenso saber de um sintoma de que o feijãozinho está a passar a gente de palmo e meio. A última coisa que pretendo é ser um Pai ausente. Quero ajudar-te no que precisares. Os moldes da relação serão inevitavelmente diferentes, mas nem por sombras apenas desejo ver-te nas consultas pré-Natal e em Dezembro.

E deixa-me dizer-te outra coisa: independentemente do bébé, sou teu amigo. Mantenho intacto o pacto de "amizade acima de tudo e depois de tudo" que fizemos um dia num belo jantar no Chapitô. O meu telefone não está disponível apenas para assuntos familiares... (leia-se, bébé).

Diana;

Só quero olhar em frente e ser construtivo. Temos um filho e esse desígnio é demasiado forte para nos perdermos em pequenas vaidades, orgulhos feridos e outras frivolidades.


NR: Mas perdemo-nos. Dois meses depois destas linhas, já estava tudo perdido.