domingo, novembro 06, 2005

Sonhos, anjos e segundas-feiras

Regresso ao dashboard, depois de gozar quase dois dias de baixa psiquiátrica (e no café, hoje de manhã, enterro os olhos no prato onde repousam as migalhas de um queque caseiro que foi esfarelado pelo diabrete loiro e e a minha mãe, Diana, o que se passa? J'ai mal au coeur, assim, em francês, é fino falar em francês, num boteco dentro de um centro comercial moribundo da Avenida da Igreja; e depois do almoço, sentada com o gato cinzento peludo e inesperadamente pesado, na cadeira de plástico verde, milhares de bibelots com motivos felinos à minha direita, na "sala dos gatos", a sala onde passa a vida da casa bonita da minha mãe, estática, a dar festas ao gato que parece um lince, com orelhas peludas, estática a olhar para a parede cor "areia", e a minha mãe outra vez: não podes estar assim, tens que reagir. Je sais, je sais...).

Negros hábitos

Continua a ser a primeira imagem do dia, quando o telefone toca e é a Magui do outro lado, a acordar-me como um galo urbano e pós-moderno, que, apesar de continuar a levantar-se quando o sol ainda está na preguiça do levanto-me, não me levanto, só sai da capoeira para dar asas à poderosa goela, depois de papar pelo menos meia dúzia de galinhas ensonadas e não é que a minha mãe tenha vida sexual (nenhum pai tem, obviamente), não sei porque surgiu esta imagem, é da autoria dos dedos cheios de artroses (esta semana tenho que ir ao médico, doem-me mesmo muito as mãos e os dedos; acho que o blogger me arranjou uma doença nas articulações), mas eu se tivesse um galo cá em casa, obrigava-o a ser assim: vai lá tratar da tua saúde sexual e faz-me o favor de só cantares depois das nove e meia da matina. Continua a ser o quase inaudível suspiro que se solta sem ser chamado, quando já estou aos pinotes e cambalhotas nos insufláveis gelatinosos, que estão à entrada do portão arte nova enferrujado do reino dos sonhos.

Contar um sonho é proibido, mas a vós digo-vos isto: ninguém aparece nos sonhos de ninguém sem ter uma acreditação, sem estar na lista de convidados. Todas as noites, lá estamos. Juntos. Como antes. E eu sei que apareço nos seus sonhos também. Tenho pacto com o pobre demónio do estacionamento (o demónio do estacionamento, que é um demónio que não faz mal a ninguém, anda a tratar da papelada para ganhar asas e ser anjo, o que está a atrasar o processo é um requerimento que este fez para manter as vestes negras; é morceguito o desgraçado do demónio) e selei um pacto vitalício, com cuspo, com o anjo dos sonhos também.
É um anjo simpático, gorducho, tenho cunha porque sonho acordada, entre breves pestanejares. É meu amigo, este anjo, intercede por mim, tirou o meu nome do programa informático que escolhe os sonhos do mundo inteiro através de um sistema "random"; tenho sonhos customizados desde que o conheci. [o anjo seu amigo, o da música, acaba de me enviar, via internet de banda larga, uma linda do Ben que eu não conhecia; Alone, versão acústica ]. O anjo dos sonhos é um patusco, engraçou comigo, e envia-me um relatório, como o dos sms, sempre que apareço por outras bandas.
O último post do meu blog secreto era sobre o ódio às segundas-feiras (como se já não bastasse os fins-de-semana; anda toda a gente à espera destes dois dias e eu só queria eliminá-los, ao sábado, ao domingo, e se faz favor, se não fôr pedir muito, a segunda também não me faz falta; quero semanas de terça a sexta).
"Dá-me uma segunda com sabor a sexta. Não me magoes esta segunda", escrevi no final de um post semi-alucinado. Não magoou. Entregou-me em mão um convite VIP, pessoal e intransmissível, para o seu cantinho dos sonhos. A segunda veio à quarta, depois de uma multa de 90 euros, a segunda chegou-me à quarta e mais uma vez ele mandou-me passear sem me olhar nos olhos. E agora, todos os dias são fim-de-semana e segunda-feira.
E só me alegro um bocadinho quando o anjo me envia um ser alado a entregar o relatório de um sonho. E hoje, o desgraçado do mensageiro, que vinha desvairado de ansiedade para me dar a boa nova, porque ninguém me suporta ver uma sombra do que sou, vinha tão rápido e concentrado em me aliviar a dor, que se esbarrou outra vez contra a porta de vidro do nosso prédio da EUA, ficando as suas asas impressas em alta definição na superfície vidrada.
E por isso, só por isso, obriguei-me a ligar o Ibook e escrever estas linhas.

sábado, novembro 05, 2005

Os meus amigos

Para quem quiser bisbilhotar o que é um amigo clique aqui.
E aqui também.

sexta-feira, novembro 04, 2005

Imagem bonita

[Post escrito com as artroses da mão esquerda assanhadas; mamã, não sou loira, não tenho olhos azuis, mas os meus ossos saem a ti]

Não sei o que me deu para ter fé nisto. Acreditava que se escrevesse muito bem, se escrevesse a toda a hora, a um ritmo frenético, a um ritmo febril, aqui, no outro blog, em guardanapos de papel, em folhas soltas, nos blocos merdosos que o jornal compra para desenharmos gatafunhos hieroglíficos que mais ninguém entende, eu achava que bastava escrever nas paredes de minha casa, na areia molhada da praia, no pó que se acumula nas capas dos CD’s que jazem em cima das colunas da aparelhagem, ou nos pilares gigantescos do nosso prédio da Estados Unidos da América, eu acreditei que isso bastava. Escrevia: alegre, ou no meu estado natural. Escrevia. E tu nunca dirias adeus.

[Desculpem os viciados, mas não consigo escrever. A imagem era bonita e já não é mais]

quinta-feira, novembro 03, 2005

Ressaca e lição de gramática

[post modificado; a primeira versão não me satisfez plenamente e foi nas filas de trânsito que separam a Estados Unidos da Viriato que surgiram as alterações, ao ritmo da chuva enxotada com força pelos limpa pára-brisas]

Espera-se que o dia nasça claro, ou então coberto de nevoeiro.

[pedi, de madrugada, pedi à santa da minha rua, um dia que me desse tudo de mão beijada, ou então, um que me escondesse as feições por entre uma espessa camada de névoa - um dia cheio de humidade, um que me matasse os ossos e me encaracolasse o cabelo]

Espera-se outra oportunidade de utilizar o pretérito mais-que-perfeito do Indicativo - um amor mais que perfeito não merecia ser conjugado em outro tempo verbal. Mas só me entram pela sala antiga, de gaioleira pombalina, verbos no pretérito imperfeito: era, sonhava, cantava, escrevia. Do pretérito perfeito, há um que badala, ensurdecendo: chorei.
Mas são todos pretéritos. Já foram, já eram. Não são mais.
Barraram-lhes o caminho abruptamente, de surpresa, montaram-lhes uma cilada quando iam a caminho de um presente feliz, e tolos, os verbos, nunca pensaram sequer no futuro, teimaram comigo que o que importava mesmo era um dia após o outro, com muita fome e com muita sede, como se o dia não acordasse na manhã seguinte. Nem com sol, nem com chuva, nem com nevoeiro.
Espera-se com todo o ser pelo castigo divino, deseja-se que o Deus do Antigo Testamento ande por cá hoje, espera-se que inflinja tanta ou mais dor a quem me fez (mais uma vez no passado) chorar com soluços (chorar com soluços é caso sério; dói nas entranhas, corta a respiração, limita os movimentos e anestesia o cérebro).
Espera-se. Espera-se pacientemente pelos dias melhores, com gargalhadas sonoras (espera-se uma comédia e uma sala de cinema escura e os vizinhos das cadeiras a mudar de lugar a meio da película, porque me rio demasiado alto e nunca páro de bater com a perna direita no chão, como se estivesse inquieta à espera de fazer uma prova oral - nunca fiz nenhuma e seria o descalabro; não sei falar, apenas escrever). Espera-se posts sobre a minha família cada vez mais minimalista e disfuncional; histórias que façam rir, e às vezes chorar, os meus leitores (384 visitas; para lá dos meus sonhos mais loucos).
Espera-se que, talvez mais logo, quando a noite cair, já se consiga descansar o corpo no sofá laranja - por enquanto, é impensável lá deixar emprestado seja o que for; foi ali que eu dei o meu melhor; foi ali que namorei meses a fio, foi ali que escrevi um amor.
Espera-se que, do outro lado, haja a decência de rasgar em mil bocadinhos uma carta escrita com letra miudinha, uma rídicula carta de amor, e já que a lua trouxe uma maré de súbita de determinação e o alarme da consciência disparou num dia que eu sonhei ser perfeito e para lá de feliz, espera-se que um x-acto risque sem piedade um CD que foi entregue por estafeta.
Espera-se tudo: que o cabelo cresça até ao rabo cada vez mais enfeitado de branco, que as unhas deixem de se partir para arranharem as costas de um amante e que as rugas se fixem no rosto com arte. Espera-se um natal feliz e uma árvore enfeitada em tons de cobre. Espera-se um sofá de outra cor, ou pelo menos espera-se uma manta para tapar o laranja que não me deu sorte. Espera-se uma cama nova, de madeira, rasteirinha ao chão, porque esta só me deu desgostos. Espera-se amigos que ainda não conheci. Espera-se pelos que conheço há décadas e que estão sempre lá para contrariar a minha bipolaridade. Espera-se um amor incondicional, um que bata à porta deste blog, que entre pela janela sem ser chamado, como o outro, o que era (pretérito imperfeito) mais que perfeito.

Espera-se tudo de bom, tudo de mal. O que não se espera é que passe amanhã, ou para a semana, como das outras vezes.

Interlúdio

As desculpas à Cordeirinha (não estava em condições para fazer um bom trabalho). Amanhã de manhã cedinho talvez se arranje na merceearia um bocadinho de inspiração à qual se junta uma boa dose de tristeza peneirada, para não fazer grumos (Depois é só pôr ao lume, brando, para engrossar).
Hoje só vos digo que pareço uma heroína chic de uma qualquer sit com norte-americana: gaja bonita, com roupas bonitas, com casa bonita, que desembuxa num Macintosh as suas desventuras.
Perdoa, cordeirita.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Elimina-se

As limpezas continuam.
Elimina-se um blog secreto, feito para um único leitor, como um fato de alfaiate
Elimina-se contactos do telemóvel.
Elimina-se uma label do Gmail e todo o seu conteúdo.
Elimina-se bookmarks dinâmicos do Firefox.
Elimina-se um contacto do Messenger e o histórico de mais de três meses de “namoro”.
Elimina-se o chip anafado do meu cérebro.

Elimina-se tudo, depressa, sem pensar, fecha-se os olhos, inspira-se fundo, como se fosse mergulhar, franze-se a testa e o nariz, tenta-se imaginar a magnitude da dor - é maior do que algum dia se imaginara -, e carrega-se na tecla, primeiro a medo e a missão é abortada (o dedo recua, cobarde, como se a tecla queimasse).
Na segunda tentativa, elimina-se um cigarro de enfiada numa casa de banho sinistra, o rabo em cima do tampo da sanita, os pés assentes no bidé e o fumo a seguir direitinho, como pulgas de circo amestradas, para os alarmes de incêndio. Esperam-se as lágrimas, enquanto o filtro do cigarro aquece, mas elas faltam ao encontro marcado, estão de greve geral, não choram mais por este indivíduo.
Na terceira e última tentativa, porque é impar e eu gosto desses números, é já com determinação, elimina-se tudo, porque assim dói menos, foi o que me disseram.

Elimina-se uma mão cheia de nada, mesmo muitos megabytes de nada.

Triste

Estou 90 euros mais pobre e de coração estilhaçado.
Até amanhã.

terça-feira, novembro 01, 2005

Feriado

Eu tive esperanças de me afiambrar ao feriado. Ganhar a 200 por cento era simpático e juntava mais uma folga à minha contabilidade (estou outra vez a acumular férias e folgas; deve haver alguma explicação, já tenho 41 dias de férias em atraso e nove folgas). Afinal não estava escalada. Menos dinheiro cai na conta do Barclays (até o banco que escolhi para me endividar até à próxima vida é burguês), menos folgas colecciono.
Foi dia de limpezas. Limpezas ao som de Bach e Chopin.
O quarto de vestir está lindo, já não tenho nenhum caixote da mudança de casa (feita em Julho) a atravancar a passagem. O quarto de vestir está arrumadinho, estou orgulhosa, sei que se aguenta assim nem uma semana, e já é muito, não vivo para a casa, vivo na casa, e um bébé de 22 meses não me permite ter a Martinha como nas revistas de decoração. Só o quarto de vestir está imaculado; o resto da casa está em pantanas - as fúrias de fada do lar têm destas coisas: tira tudo da prateleira para limpar o pó (e o negrume do pano e do balde da esfregona denunciaram logo porque é que o gigante holandês mais alérgico e reactivo que algum dia conheci, ficou afectado das vias respiratórias no outro dia; a casa estava, apesar de não aparentar, imunda), e, infelizmente, já dei por mim a perguntar: para que é que eu fui mexer no que até parecia estar arrumadito?
Tenho ainda que fazer a minha cama, tomar um banho e mais um Aspegic para a filha da mãe da enxaqueca que não me deu decanso a tarde toda, e rumar para um jantar em casa do Telescópio.
Este post foi mesmo só para picar o ponto.
Amanhã continuo a Família

segunda-feira, outubro 31, 2005

Família - um post que ganhou inesperada vida própria

O meu irmão mais velho fez 33 anos, 33 - um número mágico, e no jantar de família, no chinês que nos alimenta há mais de um quarto de século, éramos cinco - eu, a jovem Ralha, a mama siciliana-beirã, o aniversariante e a minha cunhadinha dos cabelos lindos e encaracolados.
Cinco.
A Carolina brinca com os bébés chineses de nomes próprios bem portugueses e uma bicha heterossexual (aprendi esta expressão hoje no cubículo onde os fumadores ostensivos desta redacção estão confinados a cultivar em estufa o seu cancro no pulmão; aplica-se a indivíduos do sexo masculino efeminados tipo Cláudio Ramos - um esécime não identificado que é bem capaz de ter a esposa e filha de fachada mais feias de Portugal) fica incomodada pela alegria contagiante das crianças que correm entre as mesas do restaurante, e pede silêncio na sala. Eu espanco-o com o meu olhar, gosto de fixar os meus olhos nos olhos de quem não gosto, cronometro silenciosamente, para dentro, quantos segundos levam os meus inimigos até começarem a sentir-se incomodados, violados, geralmente chegam aos dez (Qui Qui, temos que ir jogar ao sério na Bicaense, lembrei-me agora), não mais, e, cobardemente, desviam o olhar para baixo.
A bichinha nem coisa de cinco segundos aguentou, é um rapaz bem bonito. a bicha, menos um, está acompanhado de outros dois com um ar mais másculo e que se envergonharam da cena troglodita que o homem de pele de bébé e cabelos aloirados impecavelmente cortados e tratados fez, ao censurar o riso de três crianças - uma loira e duas chinesinhas (não devia ser crime, impedir uma criança de rir à gargalhada?)

Cinco. Tantos quanto os dedos das mãos que escrevem estas linhas.

Eu tinha-a visto quando entrámos.
Vinha ainda quase cega pela visão de uma pessoa do meu sangue, que é mais que irmão, é quase metade de mim, a chorar num elevador velho de madeira de um prédio de dez andares, abraçado com força ao meu peito, a dizer-me ao ouvido "não há saída", mas apesar de transtornada, pálida, e vestida dos pés à cabeça de preto, tenho memória de elefante, memória à prova de bala, e se bem que nunca me dei ao trabalho de reter o nome dela, olho-lhe para a tromba cínica e sei que mora com os pais e com a irmã mais nova no rés-do-chão em frente à escola onde aprendi a ler e a escrever, a sala cinco, que tinha um quadro preto e amanteigado de ardósia, e no estrado uma velhinha de cabelos cinzentos chumbo que pintava os olhos de sombra verde-velha, a senhora professora Gertrudes Maria.
Eu lembrava-me ainda dela dela, vi-a e accionei o "search files" do meu cérebro assim que abri a porta asquerosa de alumínio do restaurante - e o Hua Sheng já não tem o a tela electrónica, junto à mesa redonda do fundo, com cascatas de água e vegetação luxuriante; agora tem um plasma que passa filmes chineses legendados com bonitos caracteres, e às vezes também põem o Festival da Canção lá do sítio -, bastou um segundo, aquela é a ex-namorada do Elvis, o Elvis que se chamava Nuno, que vestia blusão de cabedal preto e no cabelo empolava, com gel, uma poupa à rei do Rock, o Elvis que era o guitarrista da minha banda, da banda que ensaiava no Ramiro José.
Eu não lhe disse boa noite, na mesa não está o Elvis, mas está um tipo do mesmo género, é estranho como o miúdo que me convidou a cantar a Vaca de Fogo nas escadaria do Liceu, que me chama "Madredeusa", o tipo é mais feio que o Elvis, provavelmente menos talentoso, o Nuno Elvis não era da minha turma, estava na área de Economia e eu tinha escolhido Música, mas o Elvis soube que eu cantava bem e, num intervalo, num corredor do Rainha, convidou-me para ser vocalista de uma banda.
E eu aceitei. O Gonçalo era o mais talentoso de todos nós, tocava Bach, na guitarra clássica. Pediu-me para eu aprender o Bad Wisdom da Suzanne Vega, era um betinho, um tótó, um nerd, nunca mais o vi, mora ao pé do Santo António, quase que aposto que é economista do Banco de Portugal, não sei como é que ele gostava tanto daquela música que ainda hoje, nos dias mais difíceis, trauteio:

Mother, the doctor knows something is wrong
Cause my body has strange information
He's looked in my eyes and knows I'm not a child
But he doesn't dare ask the right question

Mother, my friends are no longer my friends
And the games we once played have no meaning
I've gone serious and shy and they can't figure why
So they've left me to my own daydreaming

Mother, you've taught me the laws are so fine
If I'm good that I will be protected
I've fallen through the crack and there's no getting back
And I'll never trust whoever gets elected

Mother, your eyes have gone suddenly cold
And it wasn't what I was expecting
Once I did think that I'd find comfort there
And instead you've gone hard and suspecting

Mother, I'm cut at the root like a weed
Cause there's no one to hear my small story
Just like a woman who walks in the street
I will pay for my life with my body

What price to pay
For bad wisdom
Too young to know
Too much too soon
Bad wisdom

O teclista, o Carlos, chegou mais tarde (havia um outro guitarrista, mas não me lembro do seu nome; sei que namorava com a Paula, que lia a matéria dos livros nas aulas como a Manuela MouraGuedes lê o noticiário da TVI, a Paula tinha sido minha colega de secretária nas aulas de Ciências Naturais do professor Palma Borges, nos barracões pré-fabricados de madeira da Preparatória Gago Coutinho, mas não me lembro do nome do rapaz, que tinha uns lindos olhos verdes e morava no Bairro de São Miguel), foi humilhado num concerto no Ramiro José pela actual estrela da música pimba, Romana (na altura chamava-se Carla), ela puxou-o para o palco e cantou: "Tu és um amor, tu és um anjo. E melhor que tu eu não arranjo".
No meu primeiro concerto, para angariar dinheiro para um velhote que tinha um cancro pesado e uma reforma leve, ninguém da minha família foi assistir. Neste, que era também para operar uma criançinha, esteve lá o Leonardo, o Manuel Ricardo, o "tontinho" e o Valdemar. A Magui penso que não foi, achava que eu estava grávida porque não me vinha o período há mais de seis meses, quando, na realidade, a menstruação só tinha desaparecido porque eu deixei de comer carne e peixe, aliás, deixei de comer ponto; ficava-me bem dizer que era por convicção, mas não foi, lá em casa passaram-se momentos maus, sem dinheiro pasta de dentes ou os livros da escola.

A moça faz avaliações nutricionais (será a Herbalife?), tinha dentes de mentirosa mas já não tem - eu também tinha dentes encavalitados e já não tenho -, não faço ideia como se chama, mas ela demora-se na conversa, insinua que eu tenho uns quilos a perder, quer saber o que foi feito de mim, sabe o meu nome, vê-se que é vendedora, que é das boas até, mas assim que abri a porta de alumínio do restaurante e vi as cadeiras de pau rosa trabalhadas, alinhadas, com almofadas de veludo encarnado imperial, olhei para ela, alta, espadaúda, na mesa um tipo troglodita com gorro na cabeça, e esta imagem esteve comigo o tempo todo do jantar de aniversário do meu irmão mais velho: tu és aquela que eu apanhei a fazer um broche junto à casa do lixo de um prédio da Estados Unidos da América.

Amanhã continuo o post sobre a família.

sábado, outubro 29, 2005

Santa Marta

Quando iamos em procissão àquele restaurante, descíamos a rua de São Sebastião da Pedreira, eu em bicos dos pés por causa dos stilletos bicudos que se prendiam na calçada esventrada pelos automóveis que a ocupam e nas juntas do macadame da estrada, remendado aqui e acolá com alcatrão, iamos a esse restaurante quando era uma honrada jornalista semi-freak de Economia, que dizia caralhadas apenas na redacção, mas também já tinha fama de dormir com alguns assessores do Governo, iamos lá quando nem sonhava poder vir a ser emprateleirada -

nunca na vida pensei que me empacotassem o computador, as pastas, as agendas, a caneca onde coloco as canetas, os piaçabas que ganhei no Festival do Cano, não achei que fosse possível fazerem-me isso quando estivesse a completar o oitavo mês de uma gravidez de risco, juro que pensei que isso nunca pudesse vir a acontecer, tive que vir à redacção ver com os meus próprios olhos, abri o guarda-roupa e escolhi um vestido de veludo verde esmeralda, 25 quilos a mais, uma barriga descida, contracções fininhas às quais já me tinha habitaudo desde o quinto mês de gestação, cheguei cá e a Isabel tinha arrumado tudo com amor, em três ou quatro caixotes da empresa "Transportes Urbanos", tinha arrumado tudo porque a minha secretária ia ser ocupada por outra pessoa, uma pessoa que tinha um telefone fixo portátil; eu juro que não acreditei, franzi o sobrolho, semi-cerrei os olhos como que num esforço míope de tentar focar a realidade desfocada pelas diopetrias e permaneci de boca aberta, não consegui fechar a boca de espanto, o meu telemóvel tinha tocado um dia antes, ligaram-me de um outro jornal a dizer-me que tinha sido expulsa da Economia, mas eu não acreditei, tive que vestir o vestido bonito da Benetton, calçar umas botas castanhas de cunha de sete centímetros, sei que entrançei o cabelo e usei uma sombra nos olhos irisada, verde pavão; não, não era possível fazerem-me isso, porque eu sempre fui esforçada e dedicada, desde os 18 anos, a esta entidade patronal -,

mas quando ainda nem sonhava ser mãe, quando os animais ainda falavam e ocupavam cargos de chefia, iamos àquele restaurante quase todas as semanas e eu não sonhava que iria viver nesse prédio, quatro andares acima.
E quando passava por baixo do túnel escuro do Metro e entrava na Rua de Santa Marta, pensava sempre, quem será esta Santa que dá abrigo à divisão de Trânsito da PSP?. E sempre que estava a deliciar o meu paladar com o bacalhau à braz ou com as lulas grelhadas com bacon - nunca experimentei outro petisco no meu vizinho restaurante -, resmungava para dentro: "Quando chegares ao jornal googaliza a Santa Marta".
Nunca googalizei, entre telefonemas e conversas no messenger, varria-se-me o meu fervor pela santinha (e sempre que vou ao Robalo ponho uma flor na Sant'ana que a avó Zá mandou eregir, porque sei que a mãe de Maria está sempre a olhar por mim, porque tu tens uma cunha com a Sant'ana; talvez por isso eu não tenha perdido a Carolina, quero acreditar que foi por isso, que vocês olham por mim numa nuvem bonita qualquer).
Achei a minha casa, a velhota Martinha, no início do Verão do ano passado, no site da Remax. Andava já cansada de ver espeluncas, com divisões bafientas sem janelas, pelas quais pediam os valores mais exorbitantes. Vi casas na Graça, vi em Santa Catarina, Bairro Alto, Ajuda, sei lá quantas vi. A que mais gostei era no Beato, dois pisos, vista para o Tejo, tectos trabalhados e lembro-me que a recusei porque era um quarto andar sem elevador: "Eu tenho um bébe, as compras e tal". O facto de custar 30 mil contos também ajudou, sejamos claros.
A Martinha estava habitável, mas um bocadinho escavacada, duas infiltrações nas paredes da actual sala de jantar e quarto da Carolina. Uma casa de banho horrível, uma alcatifa inenarrável. Mas eu gostei desta menina centenária, entrei no hall e disse ao mediador, o senhor José Manuel, "Acho que é esta". E disse isto apesar de ser um quarto andar sem elevador e de as escadas parecerem ter sido visitadas por um terramato ou por uma guerra civil. Não pensei no estacionamento, nem no trânsito, a Marta enfeitiçou-me logo e eu sei que ninguém acreditou que ela pudesse ficar bonita - lembro-me do olhar de terror da Mónica e do Mário quando a viram pela primeira vez.
E assim que a minha mãe reservou a Martinha com um cheque de 500 euros, voltei a pensar: "Agora é que tenho que saber quem é o raio da santa!"
Estávamos em Julho de 2004. Ontem, finalmente, googalizei a senhora. Googalizei porque passei na ex-papelaria Expresso, que agora se chama Portal da Amestista e vende artigos esotéricos. Não me é fácil ver a mutação transgénica da papelaria que marca todo o meu imaginário infantil - Dona Fátina, preciso de um lápis HB, pincel nº 5 da Pelikan, uma caixa de guaches, um estojo de canetas de feltro da Molin, um transferirdor, e um bloco de papel cavalinho. Mamã, posso levar uns lápis de cor aguarela da Caran d'Ache também?
Agora a Dona Fátima dá cursos de Reiki, lê as cartas, solta os búzios, vende velas e incensos, imagens de santos, mézinhas, cristais e o diabo a sete. Mas a recém-convertida mística também não sabia quem era a Santa Marta, afiançou-me que era muito bom prenúncio e ainda me pediu o número da porta, para ver nos seus conhecimentos de numeralogia se era auspiciosa a minha morada. E era. Sugeriu-me, depois, uma série de consultas em sites esotéricos da Internet.
Mas o meu Deus é o Google. E em menos de dois segundos sabia, através de um site brasileiro que se dedica às biografias dos Santos, quem é a protectora do meu Lar (a águia velhinha pregada na porta, da Companhia de seguros Mundial, também protege a Martinha de dia e de noite):

"Marta, irmã de São Lazarus e Maria de Bethany é a padroeira da cozinheiras e donas de casa. Ela era a anfitriã e a dona da casa por ser a irmã mais velha. Quando Jesus se hospedava em sua casa, em Bethany, Marta era solícita e cuidava do seu bem estar. Em uma visita, recorda Lucas no seu evangelho, Marta reclamou que Maria ficava sentada ouvindo Jesus, deixando-a com todo o trabalho. Jesus respondeu em tom de brincadeira " foi Maria que escolheu a melhor parte".
Assim Marta tornou-se o protótipo da activista Cristã e Maria o símbolo da vida contemplativa. Marta foi a única que foi procurar Jesus, quando Lázaro morreu. A tradição diz que, para aqueles que diziam que já era tarde e que Lázaro já estava morto, Marta retrucou energicamente "que não tinha a menor importância e que Jesus iria cura-lo". E, de facto, quando Jesus chegou, Lázaro já estava enterrado e seu corpo já apresentava sinais de putrefação, mas Marta não se abalou, e com enorme fé, pediu a Jesus para curá-lo e este foi o maior dos milagres de Jesus.

Mais ainda: Ela disse a Jesus que acreditava que o Senhor Pai daria a ele o que pedisse. Em resposta àquela fé inabalável, ela foi a primeira a ouvir de Jesus a sua mais profunda revelação. Quando Marta disse que ela acreditava que seu irmão iria se levantar de novo, Jesus disse a Marta: "Eu sou a ressurreição e a vida, aquele que crê em mim viverá mesmo que ele morra, e todos que vivem e crêem em mim, nunca morrerão."

"Voce acredita nisto ?" perguntou Jesus a Marta, e ela respondeu: "Sim meu Senhor, eu acredito que Voce é o Messias e o Filho de Deus."
A tradição diz ainda que Marta foi com Maria e Lázaro para a França, servindo de missionária em Provence.

SMartha1

Santa Marta é a padroeira das donas de casa e protectora das falsas preocupações e superstições. Isto no Brasil, significaria proteção contra mau olhado, inveja, pragas, bruxarias, descarrego e outras superstições, para as quais ela oferece um escudo impenetrável.

A dona Fátima estava certa na sua premonição: não podia estar mais bem protegida. E que linda Santa me calhou na rifa.

sexta-feira, outubro 28, 2005

Efémera

[Desculpem qualquer coisa, mas é que eu às vezes tenho que trabalhar e, já vos disse uma vez, os posts deste quintal demoram, em média, uma hora e meia a ser paridos, o meu poder de síntese só funciona quando estou a escrever notícias. Para os mais viciados, a boa notícia: estou de plantão no fim-de-semana, por isso, a escrita ficará em dia, entre amanhã e depois -isto se a dona Inspiração andar entre Picoas e o Marquês de Pombal]

Está quase a fazer um ano que nos conhecemos, atiro eu da cozinha para a sala, viro a cabeça para a direita, dou uma olhadela de soslaio, vejo umas pernas enormes no laranja do sofá e uma loira aos gritinhos histéricos e gargalhadas a dizer "Mais". E nisto, esmago as limas com uma colher de gelado, misturando-as com duas colheres de açúcar mascavado.
Sabes que pensei nisso hoje, diz ele, acho que já com a loira às cavalitas, enquanto se divertem a abrir os armários da cozinha.
Fecho os olhos, guardo aquele momento no meu chip de memória vitalícia. Enternece-me. Faz-me quase dizer como a loira: "Mais!", mas abro os olhos e contenho-me.
Hoje não escrevo o teu nome. Já andam cansados, os leitores, de um nome esquisito, estrangeiro, de um rapaz de nacionalidade norte-europeia.
Eu não me canso de ti.

Fico passada com mudanças de identidade corporativa das empresas. Estudei para ser vendedora da banha da cobra (publicitária, leia-se), devia achar-lhes piada.
A TMN agora é turquesa e em minúsculas. Tenho saudades do hino da Optimus e do "Onde você estiver está lá" da Telecel. Sou avessa à mudança, não se deve mudar o que está bem só porque sim, só porque há um budget para gastar e uns publicitários para alimentar.
O que é isto tem que o cú tem a ver com as calças?
A Vodafone refrescou o seu logótipo, provavelmente a reboque da onda turquesa do operador 96.Ficou mais bonito o logótipo, mas o que eu gosto mesmo é do anúncio lamechas, profundo e enorme (és tu quem compra o espaço para a Vodafone, Mónica?), sobre o sentido da vida, com as efémeras e o seu limitadíssimo prazo de validade: 24 horas.
A loira já está, finalmente, a dormir e eu lamento, já na segunda caipirinha, os amigos distantes, as gmailadas loucas, os almoços no Laçinho. "Foram efémeros", lanças tu pela sala que tem dois Macintosh portáteis ligados, terrivelmente bonitos, o teu prateado e enorme, o meu branquinho e minúsculo, ambos ligados à minha Wireless Internet.
E, na verdade, tu é que devias ter sido efémero. Partiste-me o coração, não devias ser tão meu amigo. Mas já nem me lembrava disso. Hoje reli os arquivos deste blog para me lembrar como foi que doeu tanto quando acordava todos os dias a pensar na tua cicatriz, no teu fato Hugo Boss, da tua Kangoo, dos Gudang fumados em casa de um efémero, dos teus silêncios, das tuas más educações e desprezo.
Mas quis a história recomeçar quando escreveste - era Julho, eu tenho a conversa aqui gravada -, do outro lado do mundo: "Hi, You there?". E eu estava à janela, a fumar ostensivamente, só te respondi que sim passados uns cinco minutos, isto foi depois de eu te ter entrevistado, depois de ter exorcizado todos os meus fantasmas, de te ter dado um enorme raspanete sobre regras a obedecer nas relações humanas (eu, que as esqueço tão amiúde).

Eu nunca escrevi aqui sobre aquele dia.
Tu demoraste-te e eu estive sentada, a tremer em silêncio com uma Moleskine como companhia. Estava em Alfama, fui eu quem escolheu o ponto de encontro (ainda hoje não sei bem porque é que escolhi o Castelo e Alfama, queria estar contigo num sítio bonito, mas as abéculas do Chapitô estavam encerrados), nisto, nem me lembro já como é que perceberam que eu era jornalista, masainda fui em reportagem visitar uma casa bicentenária a ameaçar ruína, com paredes de azulejos pombalinos.
Tu demoraste-te e eu vi os eléctricos 28 a passarem para cima e para baixo: uma duas, três, tantas que deixei de contar, quase 45 minutos a dar a dar com a perninha direita, a pensar como iria ser o reencontro tantos meses de silêncio e dor depois.
E foi bom, libertador, catártico (lá está uma das minhas palavras caras favoritas), disse tudo o que tinha a dizer, tu pediste desculpa entre sei lá quantos sms neuróticos da tua namorada, a tal que eu, estúpida, ainda dei conselhos judiciais grátis, e eu aceitei as desculpas, ainda te amava perdidamente, sentia-me bem ali, contigo, como se nunca me tivesses deixado de atender os meus telefonemas (eu não te ligo quando estou em crises profundas por ter 27 anos, porque ainda estou traumatizada; acho sempre que não vais atender), mas as efémeras do meu estômago não sossegavam um minuto que fosse, mais um cigarro e uma imperial, taquicárdias o tempo todo, a fotógrafa (Marilyn, mor, eu não tenho ligado, mas penso imenso em ti, chavala) chegou e apercebeu-se logo que eu só podia ser louca por ti, por isso demorou-se, pediu uma tosta mista, eu juro que não lhe disse, e os sms não paravam e pioravam a cada cinco minutos que passavam, pediste-me conselhos matrimoniais, espante-se, eu dei-tos e foram sinceros e, no fim, trouxeste-nos no Volvo que tinha montado no banco de trás uma cadeirinha de bébé. Eu disse-te: "Até daqui a um ano, então". Mas tu tens um dedo que adivinha, devolveste a provocação com um "vai ser antes disso".
E assim foi. Tudo recomeçou nessa conversa, cada um numa ponta do Atlântico, umas semanas depois de ter escrito 4.500 caracteres no jornal de referência português sobre o homem que eu obsessivamente venerava (deu-me um gozo tremendo e até no texto se topa que eu estava perdida por ti; escrito às tantas, na minha casa pequenina, no sofá azul, dezenas de cigarros depois, reli a prosa e pensei: fiz este texto para a tua mãe, para ela gostar de mim).
Nestes últimos meses, afogámos umas mágoas juntos, jantámos em excelentes restaurantes às terças-feiras, até já dormimos na mesma cama e tomámos um pequeno almoço em família, no cafezinho da João XXI que tem os melhores croissants de Lisboa.
Sempre que eu te vejo penso nisto tudo.
Andas embrulhado com ela?, perguntam-te. Então e tu e o gajo já pinaram?, perguntam-me.
A resposta é não.
Este não vai ser efémero.

Ex-Aguiarettes

[Enquanto sai e não sai o post que eu tenho ao lume - está a ficar lindo, apesar de eu estar estupidificada de alegria -, aqui fica uma foto espectacular, da jornalista e assessora - oh mor, tu eras assessora? - mais giras e simpáticas de toda a campanha eleitoral do Carmona Rodrigues]

Aguiarettes

Foto: Hermínio Clemente (com quem as más línguas também deverão dizer que eu dormi)

quinta-feira, outubro 27, 2005

Suculências

Acordo às sete e meia da manhã, é de noite, estou constipada, tenho que escrever a Carmonisse para a Pública, a merda da Netcabo está em coma, o que é que eu vou fazer se tenho tudo o que preciso para o texto no Gmail? Calma, liga para a Netcabo, ui, devido ao elevado número de chamadas não nos é possível atender neste momento. Não sou só eu, vá lá, mas com o mal dos outros posso eu bem. Tosse cavernosa, nariz entupido, vai lá beber um copito de leite, para enfiar o primeiro cigarro do dia (gracias JPH, os cigarros são aqueles que tu me deixaste na redacção, que me salvaram a tarde de stress que alguém que gosta de fechar muito cedo me causou). Abro a janela, estou de camisola e cuecas, abro a janela, está frio, as minhas floreiras estão lindas, tudo brota nesta casa (gosto tanto de ti, casa), abro a janela, estou arrepiada, com pele de galinha, as luzes do prédio em frente estão todas acesas, toda a gente normal acorda a estas horas, para mim é um suplício, é mesmo porque ontem não consegui escrever nada, porque estava tão cansada que adormeci no banho, à uma e picos da manhã, abro a janela, às escuras, e vejo a velhota da janela em frente de bata na cozinha, na janela ao lado, o vulto do filho motard, no andar de baixo, o velhote de ceroulas estende um paninho da loiça na corda, a cidade está a acordar, o cigarro está no fim, pode ser que a Netcabo já tenha despertado também.
Já estava a pé. Liga o Firefox, vai ao Gmail, duas mensagens tardias da Cordeirinha. Não sei quem ela é. Não sei como fui parar ao blog dela. Mas sou viciada nas suas íntimas suculências. Só não as pus aqui ao lado, nas "Tralhas" que eu leio, porque a queria resguardar, porque acho que ela tem um blog como o meu, demasiado íntimo, que, por isso, deve ter uma audiência controlada (as minhas audiências já saíram fora do controlo há algum tempo, todos os dias fico de boca aberta a ver as estatísticas e faço uma ginástica puxada à minha imaginação para arranjar rostos para todos os Ip's que me visitam - Ford Motors, tu és um gajo ou uma gaja?).
A Mary escreveu há poucas horas um post lindo aqui para esta amiga neurótica. Estou babadíssima de ser a sua musa e em transe por teres parado por cá pelo post do Fernando Pessoa e da "Canção" do Variações - é que eu sempre achei que ia encantá-lo com essa e foi mesmo assim, há coisa de umas horas atrás. Escrever não é o que eu faço melhor. E ele soube disso ontem, com o poema do heterónimo do Pessoa.

As minhas desculpas

Não vai ser nesta madrugada, o post não vai nascer, ainda só tem três dedos de dilatação, e tenho uma carmonisse para escrever, tenho o meu irmão Paulinho no Messenger, a muitos quilómetros de distância deste canto junto ao Atlântico, tenho ainda que ir lavar o cabelo gigante e secá-lo com amor; não vai ser nesta madrugada porque estou muito feliz para escrever coisas "dignas" de mim (esta é uma boca para um senhor que diz que neste quintal brotam posts de primeira e de segunda categoria; eu gosto de todos os meus posts: os sérios, os cómicos, os tristes, os loucos, os curtos, os longos, os de primeira, os de segunda, os muito rascas; todos são dignos de mim; eu sou todos eles).
Perdoem, mas não dá mesmo.
Obrigada pelas 201 visitas de hoje.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Já nasceu e dizem que é lindo como a mãe

Está no berçário, aos cuidados do padrinho Vring.

andy2

andy1

É lindo!

(Fotos gentilmente cedidas pelo famoso senhor Andy Vring)

terça-feira, outubro 25, 2005

Mais uma para os admiradores do Andy Vring

O homem é bonito. O homem é simpático. O homem é meu amigo. O homem vai-me trazer, entre hoje e amanhã, um ibook lindinho. Eu e o homem vamos para Paris no final do mês que vem. O homem é, sobretudo, famoso. Em todos os recantos do planeta. Todas as semanas, ganho mais um leitor graças ao homem. Procuram-no Google. No MSN. No Altavista. No Blogger. Até no Sapo. Quando o voltarem a fazer, terão mais uma ocorrência - esta.

PS - Eu fui a maior fã do homem; fundei o clube internacional dos admiradores incondicionais do holandês voador.

segunda-feira, outubro 24, 2005

Há tanta gente infeliz

Eu não sabia que ela fumava.
Está escuro no parque de estacionamento. O candeeiro que foi plantado por causa de um artigo surreal que escrevi sobre um poste de iluminação pública derrubado há anos e anos que procurava um funcionário da câmara para relação séria, entregou a alma ao criador dos candeeiros menos de duas semanas depois de ser erguido num jardim descuidado da Avenida dos Estados Unidos da América; há um outro, nas traseiras do prédio onde estamos paradas a fumar, que dá choque eléctrico e o Fiel, o cão mais novo da Magui, é a prova de que a teoria do Pavlov não se aplica a todos os canídeos - continua a ir lá mijar apesar de levar um esticão de cada vez que alça a pata.
A cadela bobtail, ridícula, desde que foi tosquiada, desapareceu, mas ela nem se lembra que veio à rua por causa da bicha. Encontrou-me, e desde que estivemos barrigudas ao mesmo tempo, desenvolvemos uma estranha cumplicidade.
Acende o cigarro com o isqueiro laranja que um amigo que faz falta me deu há uns meses e reparo como toda ela é grande. As suas mãos fazem duas das minhas. Mede mais de 1,80m. A mulher gigante de nariz proeminente e queixo inexistente vive com um grunho. Tem um filho de um grunho. Não fala com o grunho, discute. Não dorme com o grunho, passa as noites no sofá. O grunho é verbo de encher. Não paga as contas, não paga a creche e se não é sequer uma boa foda, se a casa é tua, bem, na realidade, a casa é da minha família, mas, adiante, porque não o pões de lá para fora?
A solidão. Sempre a solidão, responde ela, sabendo que eu vou torcer o nariz e que, em seguida, talvez franza o sobrolho, abrindo depois a boca, sem hesitar, deixando sair um palavrão daqueles que a minha mãe beirã tão bem me ensinou desde pequenina, retirado do dicionário de vernáculo dos Oliveira.
Saiu um puta que o pariu.
Há tanta gente infeliz.
Ali a trinta passos, a nossa vizinha Sofia, a Sofia que parece uma modelo, a Sofia que teve boas notas na faculdade, que tirou relações internacionais, mas que não arranja emprego estável, que até já trabalhou como assistente de uma vidente, a Sofia que era dona do meu segundo gato, o Grieg, a Sofia engoliu várias caixas de ansiolíticos e tentou pela terceira vez dos seus trinta e poucos anos pôr termo à vida.
A 35 passos, não mais, no rés-do-chão dos prédios baixinhos, duas velhotas muito velhotas, espreitam-nos pelas grades, está escuro mas eu vejo-as pendurar, entre o ferro encaracolado que lhes protege as janelas, um pano da loiça muito enfarruscado, e umas cuecas de gola alta, amareladas. Ali mora a solidão e a velhice. A tristeza também bateu àquela porta.
Olho para cima, para os 60 apartamentos, distribuídos em três prédios de dez andares, meia dúzia de luzes acesas, é uma avenida fantasma, e enquanto ela me diz "É só deixar a miúda crescer mais um bocadinho", penso na luz do terceiro esquerdo, o meu tio deve estar a esvaziar a tristeza em mais uma garrafa de whiskey, no quinto esquerdo, o meu primo chora no quartinho da empregada, crente que não vai ser um arquitecto de renome, num terraço com vista para toda a cidade, um outro meu tio fuma a sua erva, rega o seu cânhamo, cumpre esse ritual há 25 anos para se esquecer que casou com uma bruxa, a essa mesma altitude, umas dezenas de metros quadrados para a direita, a porteira mais simpática e bonita de Lisboa chora pelo peito que amputou e a sua filha questiona-se se o acne que lhe mina a cara há quase uma década algum dia desaparecerá, a Dona Assunção, que mora nos prédios baixinhos, que reza por mim ao Santo António, perde-se pela casa vazia, entra no quarto do Luís e do Pedro, vazio, fica lá a dormir, agarrada ao passado.
Há tanta gente infeliz, penso eu, já a estacionar o Idea no largo das Palmeiras. Subo as escadas com a Carolina a dormir, penso na injustiça de não emagrecer uma grama apesar de carregar 15 quilos todos os dias escada acima escada abaixo, quarenta e muitos degraus com uma inclinação alucinante, abro a porta, tenho a certeza que é um bom augúrio a porta da minha casa ter um emblema velhinho da Mundial Confiança com uma águia, a ave de rapina protege a minha casa da tristeza, deito a minha filha no quarto fluorescente, acendo as luzinhas de Natal porque ela gosta de ter um pouco de luz durante a noite, dou uma arrumação rápida à sala, tiro a roupa ainda húmida do estendal, ligo o computador, só se ouve silêncio, tenho os meus discos, os meus livros como companhia, um anjo a dormir na assoalhada que fica do lado direito, sorrio porque sei que não vou discutir com ninguém.
Nesta casa não há ninguém infeliz. Agarro-me a essa certeza e faço por dormir, por domar as insónias de não poder estar com quem mais queria.

quinta-feira, outubro 20, 2005

Telefone maluco

Eram 19h45. A janela do messenger abriu-se e fez-se Dia. «Porra, não consigo acender o forno, tens fósforos?» Não tinha, mas corri ao café mais próximo para socorrer a donzela. Acendi o forno à primeira. «Ops, estava a rodar o botão errado. É melhor abrir as janelas que a casa cheira a gás.» Ok, vamos jantar.
Pitéu excelente, bacalhau com espinafres e a tal garrafa colheita de 2000. À segunda garrafa, ofereço-me para sacar a rolha. «Deixa estar, eu só não sei acender fornos». A rolha partiu-se. Acreditas na lei de Murphy?

A Magui ensinou-me a fazer béchamel pelo telemóvel: eu na cozinha centenária, semi-bordel, pintado de encarnado sangue, ela no seu ultra-moderno laboratório culinário, três ou quatro quilómetros a separar mãe e filha, loira e morena, e aqui, por debaixo da Fontes Pereira de Melo, o Toshiba deitadinho na bancada fria de mármore, a ponte entre o lava-loiças e o forno, e entre telefonemas - "Então ponho o leite antes da farinha? Tenho que tirar os grumos do molho antes ou depois de ir ao lume?" -, e nisto, um voyeur espreitava a minha fadisse do lar por uma webcam.
E a Magui foi o meu primeiro 112: "Ai, caralho, mãmã. O forno não liga. O bacalhau cheira tão bem e agora vou ter que mandar vir uma pizza. Ai foda-se, foda-se, mamã, claro que já vi se tenho gás na botija! Faço o quê? Uma vela? Eu acho que tenho uma vela...".
Angustiada pelo facto de o primeiro jantar cem por cento da minha autoria vir a ser condenado, sumariamente, à pena de fiasco, a Magui disponibilizou de imediato um mini-forno que está em casa dela a servir de suplente. Mas o Telescópio salvou a noite sem ser preciso ir à EUA buscar um forno eléctrico (vou trazê-lo, de qualquer forma, não confio mais neste forno nojento), eu telefonei logo à Magui e admiti ser uma sofrível "self made woman". "Analfabeta!", sentenciou ela, sem mesericórdia, da mesma forma que sempre que alguém lhe diz: "Ai dona Margarida, a sua filha é mesmo uma garota bonita", ela lança: "Com esta idade são todas bonitas". Eu já lhe disse que fico fodida, que conheço muitas gajas da minha idade que são umas aventesmas, mas ela nunca concorda com as velhas.
Eu estou a ser pressionada para passar a palavra, que já vai longo o meu discurso, apenas gostaria de vos dizer que segundos antes do Telescópio chegar e ressuscitar o forno, a pequena Ralha tinha despejado no chão meio quilo de sal ao qual juntou, com cuidado e requinte, cem gramas de pimenta branca.

Diz isto alguém que se define como fada do lar e do blog. Get real.
Um homem chega a casa - ok, a tua casa - e tu recebe-lo à porta com um pano da loiça na cabeça e um avental vermelho cheio de restos de espinafre? Parecias uma bandeira portuguesa...
Tudo bem, no fundo também vibro quando joga a Selecção Nacional. Sinto-me bem neste sofá, com vista para um armário de livros. Onde senão aqui iria eu encontrar raridades tão dispersas como: «A Lei do Amor»; «Amor», «Depois do amor» e três volumes encadernados da revista «Linhas & Pontos»? És um terror, Dia.
Também gosto da música de fundo. E gosto de ver-te com um pano de loiça na cabeça, dá-te um ar afro. E das meias do Benfica. Queres um bafo do cigarro? Vou-te salvar.

Eu não acredito que tu estiveste este tempo todo e só escreveste isto!
Na aparelhagem velhota estão os Sétima Legião, esses fachos, um amor musical com décadas: "Gabriel!", grita o Rui Pregal da Cunha, que hoje é médico, o senhor cantava muito mal, melhor salvar vidas, mas o acórdeão do Gabriel perseguiu-me vários anos, cheguei a pensar comprar a casa onde ele cresceu, na Gama Barros; a mãe do Gabriel Gomes tinha um Fiat 600 azul escuro e fazia bolinhos para todos os cafés das imediações da Avenida de Roma. Eu adorava as madalenas da mãe do Gabriel Gomes, apesar de nunca ter sabido o nome daquela velhota simpática que chegava às tascas com tabuleiros cheirosos de bolinhos acabados de sair do forno.
Fui ver a casa, três assoalhadas, 25 mil contos. O preço era bom, demorei-me no quarto do senhor Gabriel, ouvi o som do seu acórdeão, mas quem me veio mostrar a casa não foi o Gabriel, foi um amigo íntimo, com pinta, mas se tivesse sido o Gabriel eu teria comprado aquela casa horrível, com uma casa de banho rosa com uma barra de laçinhos e traseiras com vista para um quintal cheio de barracões de zinco. Ainda tenho o telemóvel do Gabriel no meu telemóvel; deu-mo a Dona Paquita, a velhinha espanhola deliciosa com quem bebo café quase todos os dias, no café das velhas.
Mas o Telescópio chegou cá a casa e não disse nada disso dos panos da loiça. Disse que eu estava linda e que parecia uma virgem Maria. Ri-me alto. Pela virgem, não pelo linda.

Gabriel é o nome do arcanjo que disse à virgem Maria que estava grávida do filho de Deus. História que, aliás, está mal contada. Qual é a gaja que diz ao marido que está grávida do Espírito Santo e o tipo acredita? Já viste a probabilidade de José ser o corno mais citado dos dois últimos milénios? Incrível.
Quanto à tua virgindade, nunca pensei.

Vocês lembram-se de jogar a isto? Chamava-se, pelo menos na Avenida de Roma, o "telefone maluco". Um grupo de putos, papel e caneta eram os ingredientes. O primeiro arrancava, escrevia uma linha, dobrava o papel escondendo o que acabara de cravar no papel com uma esferográfica azul da Bic (eu sempre fui diferente; morceguinha desde pequenina: na primária, no colégio, obrigavam-nos a escrever a azul, mas eu sempre gostei mais do preto. E a tinta permanente, para desenhar letras tão lindas como as que o meu avô Oliveira imprimia nas suas folhas), deixava a descoberto as últimas palavras, passando a palavra ao seguinte. Qual era a moral do jogo? No fim, desdobrava-se o leque que resultara da ronda literária pelos jogadores e lia-se alto o resultado hilariante.
Chamem-nos burgueses, chamem o que entenderem, mas tínhamos 14 anos, acabadinhos de entrar no armário, e em vez de fumarmos ganzas, e descobrirmos a nossa sexualidade nas traseiras do Rainha, passávamos horas a jogar ao "telefone maluco" numa mesa de 12 pessoas do Luanda.

Também jogava, por esses anos. Foi na época em que uma festa de anos era tudo. Jogávamos spectrum a tarde toda, às vezes também ao telefone maluko.
Quando começavam a desaparecer os phrimeiros adultos, o jogo do quarto escuro era passaporte para curtir com a prima do aniversariante. Pais, tios e padrinhos na sala, os putos (todos até aos 12) a brincar, longe de preferência.
Volto ao anjo. Perdi a virgindade com uma miúda chamada Gabriela, numa visita de estudo de dois dias a Conímbriga. A Gabi hoje está casada, tem dois filhos e é muito gorda. Naquela altura, era um anjo.
Muitos anos depois, empantanas-te-me a realidade.

Diz-me qual é a primeira memória que tens de mim?
Jantar de anos do teu irmão, tu chegaste atrasada e parecias um furacão quando entraste. Muitos braços, muitos risos, muito gira.
E tu?

O mano faz anos hoje. 33. Já viste que estamos há uma hora e 40 minutos a escrever este post?
Eu tenho memória de elefante, lembro-me de coisas que não lembram ao menino Jesus. Até sei o que tinha vestido e tudo. 20 anitos, não mais, um jantar do número zero da Focus, - e, caralho, o jantar era na rua de Santa Marta, duzentos metros abaixo do local onde nós estamos -, estava ao lado do meu "marido", e tu por lá andavas, no outro lado da mesa, palhaço de serviço.
Telescópio? Se não chamamos a este post a "quatro mãos", o que é que chamamos?

O jogo.
Nessa noite pedi a actual mulher do teu irmão em casamento e subi a um banco para fazer um brinde. Brutal, tinha 22 anos. Mas siga, é só isso que tens para dizer? Eu a armar-me em D. Juan, a mandar aquelas provocações, subtis enough, e tu sem contestares à altura? Strange.

É na minha segunda recordação que surjes com força. Para sempre. Nessa primeira, eu estava demasiado deslumbrante para te dar atenção, sei tão bem o que vestia... Estava bem mais magra, um fato cor de rato, com corpete com renda de bilros. O cabelo estava apanhado com uma "banana", alisado impecavelmente com brilhantina.
Na segunda, estávamos no BBC, a reboque de um broche amigo que estávamos a fazer ao Manuel Jesus, no jantar dos Portuguese Marketing Awards. Recordas-te? Na nossa mesa, um canastrão que era dono das clínicas de estética Persona.... Tu e a Cate tinham acabado de chegar da Polónia, também sei o que tinha vestido nessa noite, saia preta com umas flores azuis, top branco que me descobria as costas, e, lembro-me, estava muito cansada, o Código do Trabalho fazia-me olheiras. Tu fizeste a Cate chorar, acabámos a noite na rua da Rosa, num apartamento da idade da minha Martinha, com uma mala de cartão na sala a pegar fogo às primeiras horas da manhã.

As coisas foram um pouco onfire desde o início...
Há muitas histórias que não cabe aqui contar. Uns brincos esquecidos, um telefonema com anestesia, a sedução constante, o ritual de quarta-feira e um segredo para sempre.
Vamos sair daqui?

Um segredo o caralho! Apressaste-te a contar o segredo a um homónimo teu...
Podes cá dormir à vontade. Eu não tenho a depilação feita. Dormes como irmão. Aliás, este sofá faz cama.

És má.

Eu fiz caipirinhas e pipocas. Sou ou não sou uma fada do lar?

O que é me vale dizer que és?

Nada, mesmo nada. Eu estou sempre a dar-te foras.

Sim, mas eu já me vinguei uma vez, naquela de manter o ar de tough. Com que então não fizeste a depilação... É muito mais pós-moderno do que «dói-me a cabeça».

É melhor não entrares por aí, porque eu tenho em minha mão, informações que destruíriam a tua reputação. Queres que eu recorde a temática abordada num livro que me ofereceste no meu 25º aniversário, quando já estava barriguda, com a Carolina lá dentro a viver?

Truque baixo. Mas eu esquivo-me, porque mesmo que ponhas essa questão, existe ad eternum a questão de teres ficado barriguda.

Diz-me, Telescópio, algum dia julgaste que eu escrevesse assim?

Sim, já calculava. O desiquilíbrio mental não podia senão traduzir-se nisto, numa irónica câmara sobre o mundo dos afectos.

Eu preferia que o post se chamasse telefone maluco. Concordas? Não tens que concordar... O blogue é meu...

O q é q te faz pensar q vamos publicar isto?

Temos que. Eu tenho pelo menos uma centena de visitantes por dia. Tenho que os alimentar... Ficarão com azia, decerto

E eu tenho quinje, dos quais metade são gajas com quem eu já me enrolei. Topas? I rest my case.

I have no more questions, your honour. Login and publish?

Não.

Sim.

Sim.

Published by Dia and Telescópio

Fada do blog

Leitores queridos,
Este blogue é um vício, acreditem, custa-me mesmo muito, dói-me, que não tenham nada para ler - este quintal é um diário e a sua periodicidade é, preferencialmente, diária, como o nome indica, e se eu tivesse vida, vos garanto, que tinham duas edições: a da manhã e a da noite, sucessivos updates da minha vidinha. Mas estou armada em fada do lar, a fada do blog está de férias e directamente da província bateu à porta de uma casinha linda da rua de Santa Marta, a mãe de família, e às vezes sabe bem, parecer quase normal, fingir que brinco às casinhas e às familias monoparentais.

fada do blog

[Aqui, a fazer bacalhau com espinafres para o jantar de hoje; quem quiser que apareça, tenho comida a mais, como qualquer boa mãe]

E a propósito de famílias monoparentais, estou para escrever desde ontem esta história bizarra (adoro esta palavra). Estava eu no Feira Nova de Chelas, a brincar às donas de casa, carrinho com a Carolina lá dentro aos pinotes e recheado de boiões da Blédina e da Nestlé (nunca cozinhei para a minha filha; a minha mãe fá-lo melhor e quando não faz eu contribuo para o engrossar dos lucros da Milupa e da Nestlé, que andam nisto há muito mais anos nisto que eu e que, aliás, têm que distribuir dividendos pelos seus accionistas todos os anos - e a minha filha está estranhamente silenciosa; vou ver o que se passa, porque hoje já bebeu água da sanita e fez uma festa de gel duche no chão da casa de banho; afinal está só a dormir, ufff (e deixem-me ver os espinafres, que enquanto teclo isto, refogo o bacalhau numa wok e os espinafres, com muito alho, numa frigideira, ambos já estão em lume baixinho, e agora um cigarro que eu já mereço; não os encontro, que merda...) - e uma promotora da Gillette interpela-me e pergunta-me se estou interessada em levar para o meu marido as novas lâminas a pilhas, aquelas que têm o outro futebolista que eu não sei o nome nem me interessa, o que é casado com a ex-Spice, cuja graça também não é digna de ocupar uma parcela ínfima da minha mioleira.
Não fui capaz de lhe dizer que não tinha marido, caralho! Não fui, dei-lhe trela, inclusive, disse que o meu marido estava muito satisfeito com a Mach3, que fazia poucas vezes o barbeado com lâminas, que tinha uma barbinha rala, uma pele sensível, que se dava melhor com a máquina de barbear da Philips.
Porque é que eu não fui capaz de lhe dizer que não tinha marido? Gaita!
Para a senhora não ficar triste, levei umas Gilletes para as minhas pernas.
Caros, tenho que ir fazer o béchamel. Esta vida de fada do lar é uma canseira, não sei mesmo dos meus cigarros, mas, ao menos, o meu chulo literário diz que eu fico linda.

terça-feira, outubro 18, 2005

Paz

Quando tinhas menos de 50 centímetros, sossegavas quando eu cantava It's a good day for singin' a song: punha o CD da Peggy Lee às tantas da madrugada, pegava em ti ainda com medo de te partir, dava dois passos e entrava na sala de sete metros quadrados, pegava nas tuas mãos pequeninas com dedos enormes como os meus - agarrava-me a essa ideia, que as tuas mãos eram iguais às minhas, que pelo menos tinhas alguma coisa dos Ralhas -, tu fechavas a mão com muita força e ficávamos ali horas, junto do sofá azul, com almofadas laranja, iluminadas pelas resistências do aquecedor que funcionava 24 horas por dia - vieste num Inverno rigoroso e a casa de bonecas onde morámos, o 10 andar sobre a EUA, era muito frio e muito quente -, dançava e cantava para ti e, enquanto te embalava com todo o amor que podia dar a alguém - sei disto: nunca vou amar um filho como te amo a ti, Carolina -, sentia-me em paz, apesar de tudo estar a ruir ao meu redor.
Nunca te deixei chorar e, como nunca pegaste na xuxa, era o meu peito que te calava (toda a gente ralhou comigo pelo uso sistemático deste calmante; como vai ser no futuro, quando ela estiver triste? Quando tiver uma dor de barriga? Quando esfolar um joelho? Enfias-lhe uma bola de berlim pela goela abaixo?, diziam). Ainda tenho dificuldade em te ouvir a chorar, mesmo quando é birra de um mau feitio imensurável característico dos Ralhas - não são só as mãos que herdaste de mim -, mas quando a minha mama não funcionava, e era tarde, muito tarde, deitava-te de barriga para baixo no meu tronco, tu moldavas-te ao meu regaço e acalmavas num instante. Ficávamos horas assim, eu era o teu sofá e mais uma vez, assim como que por magia, estava em paz.
Hoje, depois de milhares de tropelias - a maquilhagem arruinada, uma festa de cotonettes no armário da casa de banho, depois de regares as roseiras com o leite do biberon e arruinares o Antúrio porque não te deixei rasgares uma a uma as folhas do meu livro de cabeçeira - pediste-me colo, arrumaste-te, enorme, no meu regaço e dormiste, de boca aberta, num sono profundo, pouco mais de um quarto de hora. E, apesar de tudo ter ruído, senti-me em paz.