segunda-feira, setembro 24, 2007

Antigamente

Antigamente, eu não sabia o que era um vereador, não sabia o que era um editor, muito menos me preocupava com as funções de um redactor principal ou com a adequada tradução para a língua inglesa de tão distinta categoria profissional da carreira jornalística, e estava longe de imaginar que existem mais freguesias do que as semanas que completam um ano da minha vida, e nunca tinha pensado que um jornal se "fecha" todos os dias (à chave?), que Benfica ainda é Lisboa, que Carnide também ainda é Lisboa, antigamente eu tinha uma cábula muito bem feita num dicionário de Latim, na página 500 e na página 1000, que me garantiu um notável oito no exame nacional.

Antigamente, eu tinha telemóveis caros de última geração que apareciam nas mãos das vedetas dos filmes de Hollywood e, hoje em dia, tenho telemóveis de quinta categoria, só que, antigamente, eu tinha contactos de amigos pelintras em telemóveis caros, e hoje guardo o contacto do Joe Berardo num telemóvel reles.

Antigamente, eu não sentia as minhas entranhas a estalar, havia só registo de uma ou outra fissura microscópica, e, então, eu conhecia os limites do meu corpo e ainda conseguia sentir dor e frio nas extremidades, e tudo se resumia ao que vestir com as calças de sarja azuis bebé, com bolinhas brancas microscópicas, compradas no primeiro dia de saldos da Zara.

Antigamente, quando as férias de verão se estendiam por três folhas do calendário dos gatinhos amorosos em pose, dentro de cestinhas de verga, eu bebia sumos de laranja com uma pinguinha verde de Pinsang Ambom, no relvado, junto ao poço e ao jardim de cactos, e assistia ao transe conjunto das flores, das palmeiras, dos choupos e dos eucaliptos que mudavam de cor e mudavam de pio ao som hipnótico que vinha lá de cima, muitos decibeis acima do permitido, escorregando directamente do génio do Philip Glass (antigamente ninguém sabia quem era o Glass), e às vezes adormecia e sonhava com as lanternas de pirilampos que ia fazer quando o sol se pusesse na Mata de todos os Medos.

Antigamente, eu sincronizava a minha respiração com a da minha avó quando procurava consolo no seu colo fofo, eu encostava o meu ouvido direito à lã grosseira da camisola de gola alta, e ainda não tinha alergias nenhumas, nem às fibras, nem ao pó, nem aos pelos de gato e dos cães, e também ainda não era alérgica à estupidez e à incompetência, eu ouvia o tum tum do coração da minha avó e sincronizava a minha respiração com a dela, e mandava o meu coração bater no mesmíssimo compasso, e sabia que havia de levar aquele momento comigo para todo o sempre (e sabia que o haveria de recordar ao espreitar a rotunda do Marquês por cima de um biombo de secretárias).

O anel que eu trago no anelar da mão direita, antigamente morava na Praça Pasteur, dentro da caixa de plástico castanha, junto ao cabide das gravatas do meu avô, e eu arranjava forças sobrenaturais quando alguém tentava apedrejar um pardal (hoje, já mato formigas sem remorsos).

Antigamente, a minha mãe recebia no Natal um envelope com cem contos, e cem contos era uma pequena fortuna, juntávamo-nos os três em rodinha, a carpete cinza rato por debaixo dos nossos pés e os olhos brilhavam a contar as notas de cinco contos de reis, e tirávamos uma nota, vestíamos os casacos e as galochas, e fazíamos a Rio de janeiro a pé, depois descíamos a Avenida da Igreja e então aí, onde se vendem trens de tachos da Silampos e carrinhos de compras para as velhinhas, comprávamos um brinquedo e uma embalagem de 25 canetas de feltro da Carioca.

Antigamente, eu zangava-me com o meu avô porque ele não deixava que os meus dedinhos dançassem na máquina bonita de escrever, e, magoada, saía de casa disparada com uma lista telefónica das Páginas Amarelas e uma caixa de madeira cheia de avelãs, eu acreditava que alguém me haveria de comprar cartuchos de frutos secos por uma moeda de 25 escudos, talvez se me esforçasse muito, eu conseguisse um envelope com cem contos de reis, talvez eu conseguisse ter a minha própria máquina de escrever.

Antigamente, os mistérios da vida não eram mais do que três: quem inventou o homem (alguém que gostava de fazer puzzles como eu, pensava eu), com que artes mágicas ou com que cola (heraldite, uhu, patex ou aquela que colava cientistas ao tecto)é que a lua estava colada no céu, e porque é que os carros ficavam tão pequeninos lá em Alcântara (antigamente, saberia eu que Alcântara era Lisboa também?), quando o Ford Cortina do meu avô Ralha me embalava ao passar o Tejo sobre o Tabuleiro Metálico.

Fazíamos a Almirante Reis a pé, do Martim Moniz ao Arreiro, antigamente rezávamos na capelinha que ficou emparedada pelo centro comercial da Mouraria, comíamos chamuças vegetarianas e comprávamos sáris, pechisbeques e bonecas de porcelana nas lojas de revenda que cheiravam a caril.

Antigamente, eu não sabia o que era um consultor de comunicação, eu não sabia o que era o sub-prime e o mercado de derivados, muito menos estava interessada em análises swot, eu não sabia que a vida me havia de levar tão longe, eu só sabia que um dia havia de morar na Almirante Reis.

quinta-feira, setembro 06, 2007

A Herança

Tenho a casa cheia de fantasmas e a absoluta certeza que descendo em linha directa do santo que desfilou de sandálias de couro pelas ruas de Goa.
São fantasmas da outra margem do Tejo, são fantasmas do outro lado do mundo, fantasmas que eu trazia nas veias e na textura da minha pele sem reparar.

(são fantasmas ultraleves)

Tenho fantasmas e mais fantasmas, e latas de Toddy mais velhas do que eu em cima da mesa de jantar, certidões de óbito, e declarações do modelo 1 do IMI (com o respectivo anexo preenchido em duplicado) junto ao sofá que quando crescer quer ser cama.
Tenho plantas de localização à escala 1/100 de imóveis onde os descendentes do santo com quem partilho um apelido se juntavam numa quinta que se estendia até ao mar, uma quinta onde trepavam canas e roseirais, e onde decerto a minha avó Isaura feriu o seu olho direito numa ferida que nunca mais sarou.
E tenho também registos prediais de pequenas ruínas de uma vila fabril, tenho visões de uma praia de areias finas onde hoje o mar bate sem espuma aos pés de chaminés industriais, mas também tenho um busto de barro do Sá Carneiro que comprei no Barreiro.
Tenho uma queixa à Ordem contra um advogado e que tem que ser redigida o quanto antes, tenho uma convocatória de assembleia de condóminos para tratar, tenho uma bicha xenófoba que ficou com o quintal que devia ser meu e que não gosta dos meus vizinhos uzebeques, sem falar que tenho o grunhido do meu avô Ralha na sala onde o meu pai morreu com ar de espanto.
Mas há pior - tenho o carcinoma do colo do útero da minha avó Isaura guardado num arquivo morto de Chelas, e a tristeza de me ter esquecido que ela também se chamava Faria antes do Xavier e do Ralha. Tenho o Manuel dos Anjos Xavier e a Maria Manuela Faria enterrados nos arquivos poeirentos da Conservatória do Registo Predial do Seixal.
Tenho um presépio minhoto que encontrei na mesma loja do achado extraordinário do busto de Sá Carneiro - e sim, acredito que lhe partissem a montra se o pusesse à vista de todos, e ainda bem que vejo sempre mais além, que nunca presto atenção ao que está à frente mas ao que foi escondido atrás do óbvio, senão não tinha um busto de barro do Sá Carneiro comprado no Barreiro -, e já tenho algum carinho pelo Barreiro, 500 quilómetros depois aprendi a gostar da terra de onde vêm as minhas feições, e enterneço-me pelo facto de a cabeça do menino Jesus do Presépio ser maior do que a da virgem Maria, e de as ovelhas terem um sorriso maroto.
Tenho o presépio montado no janelo da cozinha de Santa Marta porque preciso da fé, da esperança e da luz que inunda toda a gente no Natal (e tenho outra vez uma invasão de formigas, que respeitosamente contorna as palhinhas onde o menino está deitado).
Tenho novas ruas na cabeça, tenho outra vez quilos a mais e cabelos arrancados por um tique nervoso compulsivo.

Esta é a minha herança.

terça-feira, agosto 21, 2007

VII


Cedo, o mundo voltou ao seu rodopio habitual, talvez um pouco mais fora de eixo do que é costume, por causa da panada, mas nem mesmo assim, depois do abalo e da réplica que se seguiu, a bola anilada perdeu a mania de desenhar órbitas por cima de buracos negros.
O mundo soluçou, ou se calhar foi só um coice, ou então uma picada de um mosquito, nada demais, mesmo nada demais, nada que já não se tivesse assistido neste mundo que nunca estava velho, que nunca se cansava de girar.
As gavetas foram todas remexidas, todos os armários, mesmo os dos sapatos, onde outrora se falou com Deus, forram varridos a pente fino. E, se por acaso, algo não ficou no preciso lugar onde o tempo parou, onde eu posso sempre regressar se quiser parar com o corropio do mundo, o fantasma da minha avó Tóia já fez o favor de arrumar a casa, de pôr tudo no seu devido lugar.
Os aviões descolaram num céu um pouco mais anil, e aterraram numa terra mais cinzenta.
Uns ficaram sem palavras, outros, sem água.
Cedo, o mundo voltou ao seu rodopio habitual e nem as árvores plantadas pelo meu pai – e mesmo as palmeiras, que não são bem árvores, e eu nunca gostei de palmeiras porque ele sempre gostou mais delas do que de todos nós – deixaram de me fazer alergia e seguir com as suas vidas: deita folha, deita pólen, deita flor e depois fruto.
Eu não lancei as cinzas do meu pai pelo ar, eu nem sei o que lhes fizeram - se as soltaram às mijinhas debaixo da Ficus religiosa que tem fama de provocar epifanias a almas maiores, ou se as guardam debaixo do colchão.
Os pêndulos dos bruxos cinestésicos baloiçaram junto ao Tejo e as agulhas de bambu espetadas no cocuruto libertaram-nos de todos os conjuros e maldições. Os primos, que por acaso são irmãos, reencontraram-se numa cozinha alta, e de bancadas de mármore rosa, cobertas por folhas de jornais amarelecidas onde há tão pouco tempo eu escrevia notícias sem grande interesse.
E eu não encontrei o meu nome impresso na fonte Bodoni, a negrito, por cima das bancadas de mármore. Mas eu encontrei este blogue nessas folhas, e encontrei uma embalagem de papel Carminol, dos anos 60, que se fazia no preciso edifício onde eu, até há tão pouco tempo, escrevia notícias sem grande interesse.
O mundo, como eu disse e tenho que voltar a repetir para ver se me entendem, cedo voltou ao seu rodopio habitual.
Eu achei que o capítulo sete, o último, o que devia ser perfeito, aquele que me emudeceu por tempo demais e deixou ao abandono este canto onde as letras se enamoram e contam histórias mirabolantes e extraordinárias, que geralmente implicam uma grande dose de magia e alguns santos, teria um rumo diferente.
Eu abri caderno azul onde, há tão pouco tempo, escrevi a sinopse de cada capítulo da história de uma menina que se viu órfã de um pai que nunca teve. Lá, eu escrevi “De nenhuma forma extraordinária”, e bastava uma frase para eu saber o que queria dizer com isto. Eu acreditava que estava órfã de extraordinário, que jamais nos voltaríamos a encontrar por portas travessas.
Eu esqueci-me que o mundo cedo iria voltar ao seu corropio habitual, talvez um pouco mais fora do eixo, por causa da panada, mas nunca se esquecendo de descrever aquelas órbitas brilhantes, desenhadas pelos tropeções nos buracos negros.
Enganei-me. Todos os dias, eu encontro o meu pai de uma forma extraordinária.

quinta-feira, julho 19, 2007

VI

Mui Nobre e Sempre Leal Cidade de Lisboa.

Depois, havia esse outro mundo, em paralelo, tão ou mais inventado do que o outro, onde, afinal, os magos morrem e as pequenas feiticeiras levitam, o vereador dos espaços verdes e os outros dezasseis membros eleitos que em nada interferiram no meu destino, o Prémio Valmor da Alexandre Herculano, e todos os que lá estavam presos com os pés afundados em terreno movediço, mas com apenas três dedos acima do chão, eu via esse mundo como se estivesse sentada numa nuvem em forma de anjo, e eles lá andavam, pequenitos, atarefados de um lado para o outro, a rescindirem comissões de serviços, a preencherem com uma caligrafia banal os recibos que não têm nenhum pigmento verde, a pilha de caixotes empilhados no anguloso corredor desenhado pelo Ventura Terra, a Lena a receber das minhas mãos o papel que me chegou por milagre e que assegurava que eu não tinha dívidas à segurança social.

Mui Nobre e Sempre Leal Cidade de Lisboa, impresso em papel Canson de 140 gramas por metro quadrado, a enfiar memorandos, despachos, informações, e a lista das árvores classificadas de interesse público, a enfiar listas de contactos da autarquia de Lisboa e a proposta de colocar floreiras na Baixa, a história do cemitério dos Prazeres e sua proposta de requalificação, e eu a saber que não havia dinheiro para comprar gaóleo para os crematórios, tudo para dentro destas pastas com corvos empoleirados no mastro de uma caravela, depois de tudo se ter arquivado por si num caixote, sentada no parapeito da janela, o que vai ser de ti, prédio, a despedir-me das madeiras dos umbrais das portas, a despedir-me das traseiras dos prédios arruinados da rua que honra o presidente da câmara que mais árvores plantou em Lisboa, e o que vai ser de ti, pequena feiticeira?

Ele queria esperar 72 horas.

Quando ela disse isto, procurando, com o olhar, validação do mestre budista, apeteceu-me descer um dedo do meu pedestal e soltar uma gargalhada. O mestre budista nada disse e eu também não ri.
Parece que as almas têm que se habituar à sua provisória condição de errantes quando o corpo morre, deve ter sido isso que ela queria dizer com as 72 horas de espera, lembro-me de ele me falar disso num dia em que eu ainda tinha dentes de leite, mas não demasiado cedo para o mago me ensinar que devemos sempre pedir licença à alma grupo para colher uma flor, que não custa e é nunca é demais ter a gentileza de explicar a que propósito a estamos a arrancar da terra, desde então eu faço-o sempre, ainda hoje, aos pés da Sant’Ana, expliquei ao Deus dos Chorões que aquela flor rosa fluorescente era um presente de anos para o meu pai, mas francamente, eu lembro-me da conversa ao contrário, que ele me contou que deve ser muito triste assistirmos tempo demais à dor de quem deixamos para trás, a mim, no que diz respeito à espera, às 72 horas desde o edifício da segurança social de Ponta Delgada, o que mais me perturbou foi ele a ver-se a si próprio dentro de um frigorífico.

A mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa acordou em silêncio.
Não havia corvos, nem caravelas, nem vista para o castelo, apenas uma nesga de Tejo junto ao PER do Vale de Santo António.
O vestido abraçou-se ao corpo, os sapatos não servem de nada para quem anda três dedos acima do chão, mas enfiaram-se dentro dos pés, o Fiat foi em piloto automático até ao Alto de São João. A Mónica e a Dinah estavam lá, e as senhoras do café já se habituaram à presença de olhos inchados e vestes escuras do outro lado do balcão.
As coroas de flores de ontem estavam murchas e, por isso, nenhum coveiro me interpelou para oferecer os seus préstimos de florista a preço de saldo. Dois melros baloiçaram-se no jacarandá que ainda não estava florido, mas não cortaram o silêncio daquela prece matinal.

O Leonardo tardava, pensei que não chegava, o Fialho, a Andreia, o mestre budista, a minha mãe, a Manuela e a Marta, e a que quis esperar 72 horas sozinha a um canto. Uma Ficus Religiosa junto ao crematório, eu a pensar no gasóleo, por momentos, com um pé no outro mundo, o dos vereadores que renunciaram aos mandatos, vi o meu contrato dissolvido num gabinete dos recursos humanos, a câmara a tropeçar e a cair, e num fechar de olhos rápido, de volta ao Alto de São João, lágrimas de mãe aos pés do caixão, e lágrimas de pai, das verdadeiras, das saturadas de sódio, junto aos caracóis prateados.

Não disse nada.

Os irmãos mais velhos ousaram quebrar o silêncio, mas não falaram por mim, porque todas as palavras me foram arrancadas, tive que voltar a aprender a falar, estou a aprender de novo a escrever.

Não abri a boca, ninguém ouviu porque saiu entre dentes, mas apenas cantei esta para a viagem.

domingo, julho 15, 2007

V

Chegou, há mais de dois meses e quatro capítulos atrás, à rua da santa que vai olhando por si, e esta história, mesmo que as palavras teimem em escassear à medida que as imagens se tornam mais nítidas à luz das duas luas que já cresceram no céu, tem de ser escrita em sete capítulos, porque é a história da morte de um mago, vista pelos olhos da sua pequena feiticeira.

Por aqueles dias, os seus pés, os pés de muita gente, mas sobretudo os seus, seguiam três dedos acima do chão.

Houve um momento, e não é fácil precisar, nem na qualidade de narradora, nem na pele de personagem, a partir do qual começou a levitar rasteirinho - talvez, no breve instante em que toda a coragem do mundo se agarrou às suas mãos, que ousaram fazer o que ninguém fez, destapando a face adormecida do caixão, coberta por um naperon de naylon barato, talvez quando as mesmas mãos afagaram, sem tremuras, os caracóis prateados, ou talvez tenha sido no momento em que as lágrimas do seu octogenário avô chegaram ao chão, evaporando-se de imediato, porque aquele homem não chora.

Não foi assim desde o início da viagem - não foi ao primeiro toque do telefone, nem quando a notícia lhe chegou ao cheiro das chagas e ao som das crianças que guinchavam no recreio à hora do almoço. Junto ao edifício da segurança social de Ponta Delgada ainda os tinha bem assentes na terra; lá perto, no Jardim António Borges, estavam tão ou mais presos do que as vastas raízes da maior Ficus Macrophylla que os seus olhos irão certamente ver; carregavam com força no acelerador até ao Porto Formoso, e a custo arrastou-os pelo areal e teve que sorrir quando viu a pequena loira a correr para junto de si. Mesmo quando sobrevoavam o Atlântico, ainda os conseguia sentir.

Não importa. Todos, mais cedo ou mais tarde, saberão. Talvez, a alma que toca incessantemente, sem resposta, à campainha do vizinho, já tenha vivido essa experiência, talvez o primeiro inquilino desta centenária assoalhada tenha sentido o mesmo neste mesmo lugar, junto ao banco de pedra da janela que não existe mais, sabe-se lá há quanto tempo não existe, mas que eu vejo desde o primeiro instante que aqui entrei.

Durante uns escassos segundos, ou mesmo semanas a fio, a dor cessa, passa para lá das marcas, rebenta as escalas, deixa de correr nas veias às golfadas, o ar arrefece, sou capaz de jurar que sim, que correu uma brisa, depois começou a nevar junto ao altar da Sant’Ana, uma neve fofa que caía dos choupos em pompons, e não dos céus em flocos, e depois veio a dormência, foi então que os seus pés passaram a caminhar em frente três dedos acima da calçada.

Chegou à rua da santa que vela por si e continuou a levitar, mesmo correndo riscos desnecessários, quando arriscou uma aterragem de emergência, por ter ousado abrir a porta do primeira quarto à esquerda, onde dormia, numa cama de borboletas, o vestido mágico de uma manhã de primavera.

Deitou-se a seu lado, mais tempo do que aquele que lhe pareceu, e depois foi tudo muito rápido - escorregou para dentro das quatro paredes da segunda porta à direita, só foi à rua da sua santa porque trazia no corpo a mesma roupa há um número de dias que era incapaz de contabilizar, e tirou do cabide o vestido mais bonito que lá estava.

Na manhã seguinte, também o mago iria voar no seu jardim coberto de neve.

terça-feira, junho 12, 2007

IV

Aqueles foram os dias de todas as certezas.

Numa cama de pinho, dentro do quarto da empregada, uma assoalhada desenhada à margem do regulamento geral das edificações urbanas por um arquitecto sem coração, um rectângulo estreito e comprido mais pequeno do que o hall da entrada que a empregada teria que espanar e aspirar, eu dormia ali, encolhida, esmagada pela companhia de um estrado de madeira, que, por sua vez, dormia de pé atrás da porta, um metro e oitenta de altura por sessenta centímetros, em equilíbrio encostado à parede, penso que era um estrado de cama, só agora penso nisso e, sim, era um estrado de madeira reciclado quando ninguém falava disso, e nesse pedaço de madeira, que era uma espécie de retábulo gigante, um Cristo, com o que eu me lembro de ser um Cristo, mas um Cristo com um prego espetado na cabeça que lhe chegava até às narinas, que dormia comigo no quarto da empregada. O quarto e o retábulo em tons de anil e de preto, e, por vezes, os aviões que se faziam à pista da Portela planavam tão baixinho que os vidros do quartinho da empregada estremeciam de medo, ou de susto, e eu estendida por cima do colchão de espuma, por vezes aconchegada pelos lençóis azuis-escuros com florzinhas, outras, tapada com os motivos geométricos laranja e pretos, e eu com medo do devir, com medo dos aviões que estremeciam os vidros do quarto da empregada e, também, com medo do Cristo com o prego espetado na cabeça, mas sobretudo aterrorizada com o devir, eu, toda a vida com medo do devir, a pensar se seria a empregada já que dormia no quarto que lhe estava destinado, eu com dores de barriga a avançar como se tivesse tirado dobles quando atirei os dados por cima da mesa e a franzir o sobrolho às escuras, sob o olhar atento do Cristo pregado encostado à parede, e a magicar se teria mamas grandes ou pequenas, a rever a minha vida toda à frente dos olhos, a ver os filhos, os netos, a minha mãe velhinha junto de mim, eu aterrorizada com todas as incertezas, com todas as possibilidades, com todos os caminhos e isto com apenas seis ou sete anos de idade.

Mas aqueles foram os dias de todas as certezas. E nem por um instante o devir me electrocutou as entranhas, não fez disparar o meu coração, não badalou como um carrilhão na minha cabeça; a partir daqueles dias, eu sabia que não havia certezas, e essa é a maior das certezas que poderia trazer comigo atrelada.


O Idea seguiu em piloto automático até à Vila Nova.

No Verão em que carreguei duas vidas dentro de mim, andara por ali, perdida, à procura da oficina, mas o Twingo parou antes de a encontrar, e o Zé Ralha não teve outro remédio senão o empurrar, e eu grávida dentro do carro, a capota aberta e o sol a fritar-me a moleirinha, eu a enfiar a custo a segunda e o carro sem pegar, o Zé Ralha com um ataque de asma lá atrás com a língua de fora e a grunhir, e eu a rir que nem uma perdida a assistir ao espectáculo pelo retrovisor, e uma descida, finalmente uma descida, e o meu pai a ficar pequenino pelo espelho retrovisor, e o carro finalmente a pegar, e eu estacionar o Idea e não o Twingo no mesmo sítio, em frente à Igreja, e pelo sim pelo não, a olhar pelo retrovisor à procura dos caracóis prateados do meu pai.

Não estava lá.

E fumámos um cigarro para ganhar coragem.

O primo aleijado a babar para o meu decote, e o meu octogenário avô a soluçar como uma criança que perdeu a mãe, os meus irmãos, os irmãos dos meus irmãos, as mulheres do meu pai, a que encarnou o papel de viúva, a minha querida Mónica, e eu sem medo do devir, a beijar primos cujas feições não tenho sequer ténue recordação, eu a chegar, zangada com a coberta de nylon barato a tapar o meu pai, ele merecia não menos que brocado de seda carmim, e eu com vontade de rir por causa do naperon que lhe tapava a cara, inquieta por momentos, com a certeza que não lhe teriam colocado na lapela a cruz de Cristo e em cima do seu corpo a sua espada favorita, eu com uma coragem que julgava ter-se sumido numa qualquer derrota, numa qualquer provação, eu a tirar-lhe o naperon de cima do rosto, a ter que lhe tirar o ridículo do naperon de cima do rosto, para me certificar que ele estava em paz, do lado direito, um hematoma salpicado, mas ele estava a dormir, em paz, e eu tirei da minha cabeça a imagem telefónica que o Leonardo me passou com um oceano de distância a separar-nos, que ele estava com ar de espanto, que ele não teria ido em paz, que queria mais um gole de vida, só mais um gole de vida.

Vila Nova estremeceu e nenhum dos seus pacatos habitantes sentiu o abalo. Talvez, na oficina onde a bateria do Twingo foi substituída, se tenha fundido um fusível. Estávamos lá todos, na pequena capela, cercada de árvores mortas de sede. Os filhos. Os outros filhos. As mulheres que se traíram umas às outras no passado. A família que raramente telefonava.

O morto, de facto, não se levantou do caixão e, afinal, não caímos todos caído num engenhoso ardil por si arquitectado com o intuito de nos juntar à sua volta.

Mas os fins justificam o meio.

O fenómeno sobrenatural que eu tanto pedira, que eu tanto procurara nos céus e nas árvores da ilha do arcanjo, estava ali para quem o quisesse apanhar e levar consigo para casa.

Aquilo foi separado em vida, voltou a unir-se no dia em que ele ficou para sempre a pairar num jardim sobrepovoado de palmeiras.

terça-feira, junho 05, 2007

III

É praticamente um distúrbio psicológico, um pensamento intrusivo que não me larga, que me faz acordar a meio da noite, e em Santa Marta eu não posso ir para o telhado e ver o dia a nascer por cima do mar de São Miguel. É um despertador que me assusta sempre que o fórum tsf vai a roncar em surdina nas quatro paredes do Fiat Idea, que me ultrapassa à má-fila, um segundo antes de eu bater com o polegar esquerdo na alavanca do pisca para ultrapassar uma fila compacta de carros parados pela passadeira vermelha do corredor bus.
Não me serve de nada, já não servia antes, muito menos agora, mas eu nasci três dias depois dele, e eu fui a maior de todas as vinganças e de todos os golpes que a vida lhe desferiu. Mais do que a glória que tardava e que acabou por não chegar nunca, nem na hora da morte, eu talvez seja a maior das suas cicatrizes, aquela que mais difícil foi de reduzir a cinzas no Alto de São João.
O pintor José Ralha morreu e a sua obra que anda por aí espalhada e pendurada nas paredes de tanta gente, a sua vida nem que fosse a vida que ele pintou a óleo, em tela, ou mesmo em azulejos de casa-de-banho, não valeu nada, resume-se a uma breve de 300 caracteres no Correio da Manhã e dois anúncios na página da Necrologia do líder de vendas nacional.

Eu era, eu sou a filha favorita, a mais parecida, a que traz para casa desconhecidos e não hesita em lhes chamar de imediato de amigos, a que atrai o extraordinário e todos os vagabundos, a que se enche de conhecimentos inúteis e decora o nome científico das plantas e das árvores, a que tem todos os sonhos do mundo na palma da mão, a que ainda é uma promessa, a que, de vez em quando, consegue ser sublime.

E eu fui a filha, a única filha, o tesouro que ele não pôde tocar, que apenas pôde seguir de muito longe por papel fotográfico, ou em folhas A4 desenhadas na secretária do senhor secretário de Estado do Ensino Superior a pedido da avó Zá.

Num Domingo feliz que passou, no Domingo mais feliz que já se viu nos últimos 28 anos, eu cheguei atrasada ao Jardim da Estrela. Fumaram-se cigarros de enfiada junto à Basílica da Estrela, dentro de um pequeno Smart imobilizado com os quatro piscas, para que se cumprisse a tradição da noiva atrasada, um atrás do outro, para mascarar a ansiedade de uma noiva que devia ter mandado às urtigas uma tradição idiota que colide com a sua doentia demanda pela pontualidade.

Eu sabia que ele ia estar lá, à margem, longe do grande grupo que se concentrava dentro do Coreto, eu sabia que ele atravessara o Tejo apenas para dizer olá e adeus. E eu sabia, eu sempre soube que era a favorita, por isso, esperei até à última semana para anunciar que me ia casar, sabia que tudo me seria perdoado, sabia que ele viria, que aceitaria o convite tardio em jeito de artista destrambelhada que era a menina do seu pai.

Ele disse, foi a última coisa que me disse, isto persegue-me há precisamente um mês, desde que o telefone tocou junto ao asqueroso edifício propriedade da segurança social de Ponta Delgada. Ele disse, e aquilo encheu-me de uma satisfação maquiavélica, de quem ri por último ri sempre melhor, porque se eu era a favorita porque é que tantas mulheres da sua vida já tinham passado para a tela e eu não.

Ele disse: Estás tão bonita. Vou pintar-te um retrato.

quinta-feira, maio 24, 2007

II

Eu não sei porque os fazem tão feios.
Os edifícios da segurança social, digo, deve fazer parte da breve nota da pasta da tutela que acompanha o caderno de encargos dos concursos públicos: por favor, senhores arquitectos, não se esmerem, esmerdem-se, queremos feridas urbanísticas a rasgar o céu, destruam o sistema de vistas sem qualquer pudor, violem as cérceas definidas pelos PDM, aliás, nem olhem para ele, dêem-nos empenas cegas para colar telas publicitárias gigantes, aqui amamos o fel, senhores arquitectos, o fel tem mesmo tudo a ver com os desgraçados que nos vêm pedir esmola à porta, vão trabalhar malandros, e eu pensava nisto tudo enquanto saía da segurança social de Ponta Delgada e me encaminhava para o carro encarnado nipónico, cuja marca não consegui fixar (Nissan, salvo erro, 191 mil quilómetros de carro de combate rasteirinho à estrada, ideal para as curvas e contra-curvas que fazem as delícias do Fittipaldi que há em mim; a Magui sempre disse que eu ia ser um Fittipaldi de saias, ela dizia isto quando eu não tinha incisivos frontais nas gengivas e eu não sabia o que isso queria dizer, mas acabou por ser verdade).

Era a hora do recreio.
E o carro encarnado ainda não tinha 191 mil quilómetros registados no contador, mas andava lá perto. Eu sentei-me atrás do volante sem esperança de conseguir em tempo útil um comprovativo da segurança social de que não era uma malandra como os demais que ali pedem esmola. E esmagada por uma tristeza infinita eu disparei para o lugar do morto, sem coragem para fazer rodar a chave da ignição e, por isso, optei por fazer baixar o vidro e atear um cigarro Além Mar: só me apetece chorar, e aquilo soou um pouco despropositado - o fado da segurança social.

Poucos segundos passaram, as crianças continuaram a guinchar no recreio, e o telefone tocou.

Aconteceu uma coisa muito má, disse o Leonardo, que nem esperou para respirar fundo num acto involuntário de ganhar coragem, ele disse logo que a Magui estava bem.
Foi o avô, ai o avô, mas, do outro lado, o impensável foi transmitido através da tecnologia GSM. Não. Foi o Zé Ralha, ele morreu.
E como estávamos em dia de os impensáveis acontecerem em catadupa, eu senti o cheiro das chagas que abraçavam a rede metálica de protecção da escola secundária, e eu sabia que as mesmas chagas estariam a trepar pela fachada da casa do Zé Ralha, e pela escarpa junto ao eucalipto que decidiu cair no dia em que o avô teve um AVC, e eu voltei a dizer, porque assim é que era certo pela ordem natural das coisas, não estás enganado, foi o avô.
E chorei. Chorei como nunca imaginei que pudesse chorar pelo Zé Ralha, nem eu sabia que o meu avô teria que dizer vezes sem conta ao telefone, não, não fui eu que morri, foi o meu filho Zé Manel, e eu chorei magoada porque ele não se ter vindo despedir de mim, e a partir daquele instante, fiquei à espera de um sinal do meu pai, eu sempre achei que ele viria despedir-se de mim de uma qualquer forma sobrenatural ao qual nos habituou com as suas histórias de bruxos e feiticeiras, reparem, ele nunca ia morrer porque era feito de outra matéria, não lhe corria sangue nas veias, mas pós de perlimpimpim, e depois de muito chorar, e sem forças nas pernas, eu segui amparada pelo João meio cega, seguimos até a um jardim que o Zé Ralha devia ter conhecido. A única coisa extraordinária que aconteceu, mas eu não sei se foi obra do Zé, porque eu olhava para o céu e lá em cima ainda não havia ainda nuvens pintadas por si, ele contou-me há muitos anos atrás, quando estava à deriva no atlântico, sem fé de ser encontrado, sozinho, a boiar de cansaço, ele disse-me que pensou que ia morrer, e que nos viu a todos, menos ao Leonardo, a dizer adeus. Eu espero que desta vez o Leonardo tenha estado lá ao nosso lado, mas eu procurava em todo o lado o meu pai pelas ruas de Ponta Delgada e não o encontrava, até me cruzar com um bebé, uma criança de caracóis negros que olhou para uma mulher de olhos inchados que estava a ser arrastada por um homem de caracóis loiros, e essa criança olhou para aquela mulher que não sabia, que não sabe ainda porque está destroçada, e lançou uma gargalhada.

quarta-feira, maio 23, 2007

I

Chegou à rua de uma das santas que olha por si.


Na véspera, antes de tudo acontecer, já quase como um pressentimento que vinha do ronco das ondas sobre as rochas escuras de vulcão da ilha do arcanjo, pedira a todos os santos, pedira à Marta com mais força do que ao Miguel, mesmo sabendo que ele era arcanjo e que ela, ainda para mais, era uma mera santa padroeira das domésticas, mas pedira com tanta alma que até se lhe eriçaram os pelos dos braços; não devia desvendar isto aqui, mas ora que esta, que se dane, também já não ocupava um cargo de confiança política, por isso, neste momento e sabe-se lá até quando, podia voltar a escrever tudo o que os dedos muito magros lhe ordenavam, já nada do que aqui se escarrapacha corre o risco de ser pespegado em papel de má qualidade por um qualquer mal intencionado jornaleiro, sim, é verdade, um mês naquela nova profissão e conseguiu passar a odiar grande parte da classe a que pertenceu, à classe cuja caixa de abono e previdência lhe passaria a depositar a prestação social por um prazo de 13 meses; sim, a revelação, já lá vamos, com calma, nada nesta ilha se faz à pressa, e esta é coisa para fazer ribombar os tambores, pelo menos aqui, à luz de um céu estrelado, e da melodia ritmada das rãs na ribeira e de quando em quando pintalgada pela espuma das ondas; aqui, onde os ponteiros se arrastam vagarosos, passa tudo mais devagar, eu escrevo quase às escuras uma hora antes de quem me há-de ler, e estou sob influência de um anticiclone que se apaixonou por este pedaço de terra, e, se é certo que o desgosto não ficou para trás na cabine do airbus da Sata, após mais uma petrificante aterragem que lhe colou as costas às costas da cadeira, certo é que, o tempo, que aqui tem mais tempo, ou talvez a latitude da ilha do arcanjo tinham, de facto, poderes curativos, analgésicos ansiolíticos e anti-depressivos, porque chegou, não à rua da sua santa, mas à ilha do seu arcanjo, e desmaiou de overdose de emoções num sofá-cama e nada mais se lembra até o acordar, hoje de manhã, num sótão solarengo, tão desorientada que teve que se sentar uns minutos largos a balançar na cadeira de couro por baixo da janela Velux para a alma regressar a bom porto; sim, a revelação, eu não me perdi, eu sinto tudo, eu vejo todas as palavras, eu rebobino todos os filmes da minha vida neste momento, eu lembro-me de envergonhar o Leonardo na Avenida da Igreja com o Zé Ralha com purpurinas a enfeitarem-nos os cabelos, eu rio-me com a lenga-lenga arraçada de feitiço, do chamamento de táxis à Estados Unidos de América – Apareça, Apareça, Táxi sem cabeça -, eu parece que o vejo sentado na beira do Lago, a confessar-me que pedira aos gatos que povoaram o Robalo de geração espontânea, que pedira uma vida a cada um, para emprestar ao meu avô, quando um AVC o deixou mudo e com o raio da perna esquerda preguiçosa; mas, a revelação já não me apetece contar, não é de propósito, mas esta é só minha e dos meus santos, e eu pedi na véspera a todos os santos e especialmente à Marta que me protegesse de todos os males, pediria amanhã o mesmo ao senhor Santo Cristo dos Milagres, e nada, mesmo nada poderia supor que, afinal, as coisas extraordinárias não tinham cessado de me tropeçar à frente dos pés; queixava-se, queixara-me para dentro, que mais nada digno de registo lhe acontecia, por isso, abusava amiúde da label “e nada de extraordinário acontece” quase como uma prece, uma súplica, mas esqueceu-se que a este um grupo restrito de felizardos do extraordinário, por vezes também acontecem coisas extraordinariamente más; tinha mesmo que ser assim, levava muitos anos disto, já se conformara, por vezes tinha mesmo que ser assim, porque se não o universo desequilibrava-se das pontas de ballet em que dança, e não era coisa bonita de se ver, o pandemónio que era depois.

Chegou à rua da santa que velava por si.
E o demónio do estacionamento fez o favor de lhe guardar um lugar à porta.

(há-de continuar; só não se garante quando)

sexta-feira, maio 11, 2007

Imagens como esta (escrito muito antes da passagem do furacão)

São imagens como esta (sem ponto final, sem reticências, sem exclamação)

Dito isto, houve silêncio num carro encarnado, o qual, se a inquirissem, não seria capaz de identificar qual o construtor sul-coreano ou nipónico que tinha aberto rasgado o papel de embrulho, aberto a embalagem, seguido cuidadosamente as instruções com o dedo indicador, e montado peça a peça aquele carrito Lego de brincar para gigantes.
São imagens como esta que o quê?
Pois, daí o silêncio, não sabia porque tinha dito aquilo e as palavras ficaram em suspenso, baloiçando-se ao sabor de uma curva de cotovelo à sua direita.
Já fizera menção de o dizer antes, pelas estradas ladeadas por plátanos muito antigos, cujos troncos só podiam ser abraçados por três adultos de braços bem esticados (o que mais me custa é ficar com fama de assassina de plátanos em Lisboa) e nas curvas e contra-curvas muito escuras alumiadas pelos faróis do carro encarnado, que ficaram sobressaltadas pelo rugir do motor junto às três mil e quinhentas rotações (ou assim fazia crer o ponteiro). Ou quando, ao telefone para Lisboa, confirmara que estava à beira do desemprego, e para seu consolo, única e exclusivamente para seu consolo, um milhafre se pavoneou muito perto, entre a linha do horizonte e o telhado da casa vizinha, onde gatos siameses contemplam o oceano atlântico.
São imagens como esta, que raio de desabafo, mas o que querem, esta mereceu mais um suspiro, nesta última semana, deu-lhe para os coleccionar, e esta imagem, pelo espelho retrovisor, invertida – e isto lembra-lhe um episódio longínquo em que o professor Palma Borges, num barracão pré-fabricado na preparatória Gago Coutinho, perguntou aos alunos da turma B, do oitavo ano, porque é que as ambulâncias tinham escrito ambulância ao contrário no capô, e alma nenhuma, incluindo ela, que se acha tão intelectualmente superior, soube dar a resposta certa, está ao contrário, setor, para se ler ambulância pelo espelho retrovisor, estas coisas ainda a perseguem, mais ninguém, decerto, se lembra disto, mais ninguém decerto, ficou envergonhada para a vida por não se ter lembrado da óbvia solução à adivinha, e, provavelmente, mais ninguém se lembra que havia uma Paula qualquer coisa, que lia os manuais em voz alta nas aulas com dicção de pivot televisivo –, enquadrada num espelhinho rectangular onde já descobrira alguns cabelos brancos que ficaram por tingir, era quase sobrenatural, um enorme sol laranja a deitar-se até à manhã seguinte nas águas do mar.

Nesta ilha, até as cuecas da Carolina, estendidas no quintal, me aquecem o coração.

quarta-feira, maio 09, 2007

Quando eu voltar (baralha e volta a dar)

Voltei.

Em uma semana perdi o emprego.
Perdi a aliança.
Perdi o meu pai.

Os Jacarandás ainda não estão em flor.

sexta-feira, maio 04, 2007

Quando eu voltar

Quando eu voltar, já que tenho que voltar que seja assim, não peço muito, apenas o quanto baste, como nas receitas do Pantagruel que levam o qb à frente dos condimentos do sal, da pimenta e do piri-piri – que a avenida 5 de Outubro já esteja vestida de azul, que as três centanas e meia de Jacarandás já tenham florido, e se não for pedir muito, eu gostava, eu gostava de entrar, triunfante, outra vez o quanto baste, não mais do que isso, no início da avenida, junto aos terrenos que ainda são da Bragaparques, e que caísse em cima do para-brisas cizentão do Idea, desde Entrecampos e até ao Saldanha, uma chuva de pétalas azuis (valeu a pena, nem que seja, valeu a pena pelo simples facto de eu ter em meu poder, algures num gabinete desenhado pelo Ventura Terra, uma informação da Divisão de Jardins, com o mapa dos Jacarandás de alinhamento de Lisboa, valeu a pena saber que a avenida 5 de Outubro tem 350 jacarandás).

Quando eu voltar, já que tenho que voltar, parece que não tenho outro remédio senão voltar, nada terá mudado, isso tenho a certeza, e espero que o Pedro se tenha lembrado de regar as Orquídeas e que elas tenham guardado alguns botões por abrir para quando eu chegar.

Não muda nada, quando eu voltar. O Centro de Emprego do Conde Redondo há-de estar no mesmo sítio e, decerto, os espanhóis que fotografaram a noiva improvável no eléctrico 28 já passaram os flashes das suas férias em Lisboa no ecrã do seu televisor (não tenho ilusões, já ninguém revela, já ninguém imprime fotografias; ficaremos, no máximo, arquivados num DVD)

Os meus mortos emprestados, continuarão à espera de ser pendurados nas paredes do hall e isso lembra-me, quando eu voltar, que tenho que comprar molduras douradas, barrocas, para os enquadrar.

A outra cinquentona, a que apareceu no Jardim da Estrela no Domingo passado, a que colocou na agenda que dois namorados que mediam o diâmetro do coreto numa noite de Fevereiro se iam casar no dia 29 de Abril de 2007, já terá escrito no Filofax um outro qualquer compromisso surreal ao qual irá aparecer de surpresa.

Se calhar, quando eu voltar, o Miguel da Clara já terá nascido. A Magui há-de continuar a dizer, qual corvo agoirento, que tudo o que está a acontecer são sinais de que o meu casamento está condenado ao fracasso.

Quando eu voltar, nem um segundo mais cedo, nem um segundo mais tarde do que o previsto, que o sol me continue a seguir como detective matreiro contratado por um marido corno. E que a conspiração cósmica e de todos os santos continue o seu curso natural, que a santa Marta vá à frente com o plano impresso em formato broad sheet e que não se esqueça de colocar, na ponta do nariz, os óculos de ver ao perto para que se não lhe escape uma vírgula das indicações do mapa.

Quando eu voltar, vou ter mesmo que voltar, fecho a porta atrás de mim. E depois abro uma janela.

domingo, abril 29, 2007

Fez uma noiva linda (e um noivo penteado)


Nas próximas três semanas, a meio do Oceano Atlântico, tudo sobre o casamento no Jardim da Estrela, desde o bouquet biodegradável, às lágrimas da Esquizo no hall de entrada de Santa Marta, à viagem no eléctrico 28, com os espanhóis a tirarem fotografias paa mais tarde recordar, e também a descida vertiginosa pelas escadinhas de Alfama abaixo (e eu a treinar para presidente da Junta, a distribuir beijinhos nos pátios, entre promessas de regressar em noite de Santo António para comer uma sardinha) e tantos, tantos outros momentos de uma história improvável e que eu quero interminável.

Três semanas, em frente à praia deserta, eu, o João, o diabrete loiro, e este computador.

Este blogue vai voltar a ser o que era.

PS - Muito feliz. Tão feliz que até estraguei as fotos, porque quando estou assim, radiante, rio muito e vinco o duplo queixo.

segunda-feira, abril 23, 2007

Leiria-Ralha

A noiva foi até Leiria, e Leiria pareceu-lhe menos feia, aliás, mais ou menos a meio da praça do centro histórico, onde procurava sem muita convicção uma caixa de brisas do Lis para trazer ao seu novo patrão – graxa danada, bem sei, mas o que fazer, a noiva tem destas coisas –, deliciou-se com o escafandro poisado no chão, à venda por 3500 euros numa feira de antiguidades ao ar livre, bateu no peito agradecida por mais uma imagem bizarra absorvida pelas suas retinas, e pediu até desculpa a Leiria por lhe ter chamado, há seis meses atrás, a mais feia de todas as cidades de Portugal.
É certo que o raio do vestido da noiva estava largo pelos nove quilos que a balança perdeu sem rasto nos últimos quatro meses (afinal não era assim tão chanfrada dos cornos por começar a dieta nas vésperas do Natal), é certo que não estava como esperado, como sonhado, com a magnólia e as tirinhas cor de vinho a caírem sobre a saia rodada – as madrinhas não disseram uau, o colar decidiu que não estava para ali virado e caiu sem graça sobre o regaço, apenas o véu, antigo, comprado no Ebay, deu um ar da sua graça naquele provador de um subúrbio de Leiria, onde há seis meses atrás um arco-íris rompeu pelo céu, junto à entrada para a A1.
A noiva foi até Leiria, e Leiria irá ficar no seu sobrenome, antes do Ralha, e só visto, nem dá para escrever o ar de espanto da funcionária da conservatória, em transe, quando o noivo lhe disse e voltou a dizer, não houvesse confusões, que ele é que ficava com o Ralha em último lugar. Leiria era uma cidade feia, não havia escafandro à venda no centro histórico que lhe valesse, nem mesmo o facto de o Leonardo, alegadamente, ter sido concebido algures em Leiria num hotel cujo colchão estava cravado de percevejos. Mas há apelidos averbados na certidão de nascimento que puseram Leiria no mapa de encruzilhadas que é a minha vida.

sexta-feira, abril 13, 2007

A Maldição do Alto Minho

Quando a noite cai, o silêncio desce as escadas desenhadas pelo Ventura Terra em pezinhos de lã, e desprendem-se das paredes luminescências que me fazem pensar sobre a maldição do Alto Minho.
As sapatas da porta 86 B da Rua de Santa Marta estão amaldiçoadas. Foram escavadas por cima das sepulturas de um cemitério índio. É tão simples quanto isto. Não pode, não arranjo outra explicação.
Nem sempre foi assim. Oiço relatos dos vizinhos que falam de uma taberna afamada, de uma cozinheira minhota de formas roliças, de um rodopio de febras e pipis, paredes pintadas com gordura e enxurradas de copos três e finos, que fariam transbordar o desolador chafariz do Largo de Andaluz.
O Alto Minho é um restaurante. É um restaurante simpático, irresistível pelo painel de azulejos monumental com vaquinhas e bois a puxarem uma carroça em Paredes de Coura.
O Alto Minho está amaldiçoado, só lá vai com água benta e crucifixo. Até lá, está condenado a este fado: abre, fecha, trespassa-se, arrenda-se. O Alto Minho não aguenta mais do que um mês com o letreiro da porta a dizer “Aberto”, mesmo com a imperial a 50 cêntimos. 50 cêntimos. Nem no boteco da D. Beatriz se bebe um café com 50 cêntimos.
É profundamente desolador. A mim entristece-me a maldição do Alto Minho.
Os vizinhos do restaurante Andaluz, na porta 84 B, têm a casa sempre cheia. Uma refeição ronda, em média os 15 euros por pessoa, e não há quem diga aos vizinhos que o raio das azeitonas não são lá grande coisa, e que, já agora, mudavam o fornecedor do queijo que não sabe rigorosamente a nada. Mas é vê-los todas as semanas com o mesma ementa afixada na porta, é vê-los todas as semanas a abarrotar. À hora do almoço e à hora do jantar.
Na porta ao lado, nem uma mosca se atreve a zumbir dentro das quatro paredes amaldiçoadas do Alto Minho.
Por vezes vamos lá. Não tememos.
Os olhares dos empregados já não têm uma réstia de esperança – devem já ter ouvido falar da maldição do Alto Minho. A lenda espalha-se de ouvido em ouvido, toda a gente a conhece de cor, como uma lenga-lenga.
A rapariga que nos serve o jantar está, sempre, sem excepção, à beira de um ataque de nervos, deita faísca pela ponta dos dedos e aquilo enternece-me, derreto-me com o nervoso miudinho e um misto de ansiedade infantil de quem acabou de desembrulhar um presente, quando chegamos e, apesar de todas as mesas estarem vazias, pedimos para nos sentar na zona de fumadores.
Depois, desdobra-se em atenções dignas de restaurante de primeira categoria: serve as bebidas, por vezes não lhe corre lá muito bem, entorna um bocadinho para fora do copo, mas nós não dizemos nada, nem nos atrevemos, mesmo quando ela não entende o pedido, ou se engana, nós temos medo que ela desate a chorar de desalento, desfazemo-nos em elogios à comida, ao serviço, em jeito de consolo, em jeito de a culpa não é vossa, a culpa é da Maldição do Alto Minho, e ela lá atura a Carolina com a maior das paciências, dá-lhe todas as palhinhas que o seu capricho de diabrete loiro entende pedir.
O Alto Minho tem os melhores secretos de porco preto de Lisboa. Sopa, azeitonas, pão, manteiga, prato, bebida, sobremesa (salva de palmas para a mousse de chocolate – caseira, com raspas de chocolate branco) custa 7,5 euros.
O Alto Minho deve estar quase a fechar as suas portas. E assim vai ficar, com o placard da agência imobiliária na porta, até que algum empresário do ramo da restauração que não tenha lido a newsletter da ARESP, o reabra.

Pelo sim, pelo não, sem medo da maldição, hoje vou lá jantar.

quinta-feira, abril 05, 2007

quarta-feira, abril 04, 2007

Nasceu uma criança com as mãos coladas*

Por estes dias, encontro-me profundamente encantada pela total ausência de expressões faciais da empregada de mesa Irina.

Subo até ao terceiro andar, de elevador, depois, passo pelo chão ladrilhado a preto-e-branco e treino algumas jogadas de mestre do xadrês da minha vida,

[encurralo o rei, como um cavalo, esquivo-me da torre e preparo-me para um eminente xeque-mate, isto tudo num pulinho e a caminho dá acesso à escada estreitinha por onde trepo para a mansarda]

cheguei, e tranco-me no quarto de banho desenhado pelo arquitecto Ventura Terra,

[também ando hipnotizada com a planta deste edifício, às vezes perco-me pelos tectos altos do meu gabinete e imagino-o – vou agora ver na wikipedia a cara dele –, sentado em frente ao estirador, regra e esquadro, tês, aparos vários espalhados, frascos de vidro soprado a transbordarem manchas de tinta-da-china que poderiam inspirar testes psiquiátricos acaso alguém se desse ao trabalho de reparar nelas, o Ventura Terra a desenhar estas salas, os jardins-de-inverno, os motivos florais da fachada, o desenho arte nova do corrimão da escada, e até a casa-de-banho, penso que é um privilégio fazer xixi num prémio Valmor e fico agradecida, eternamente agradecida pela experiência]

e tento, tento muito, tento não devolver ao espelho uma careta, tento, porque me dava jeito dos diabos ter cara de autómato, gostava de saber mentir com cara de guarda nacional republicano, dava um bocadinho do meu cabelo para não ser tão transparente, cara cuspida e escarrada do que se passa cá dentro nas entranhas, tinha piada e até fazia bem à pele ser como a Irina, porque tenho 28 anos e esta cara bolachuda já está riscada a x-acto, porque me rio muito, porque me preocupo muito, porque, em tempos, chorei muito.

[há meia dúzia de anos, eu a chegar à redacção do Lambert que tinha os tectos radioactivos, a chegar para fazer as bolsas com traje escuro a preceito, muito arranjadinha, nessa noite, eu não sabia, eu apenas julgava que ia à inauguração de mais uma exposição do Zé Ralha, mas nessa noite, com aquela blusa de seda verde-seco, eu conheci a Amália e os seus dentes bamboleantes, e a Sílvia Oliveira dispara esta para o ar, que me persegue sempre que me cruzo com um bocadinho de areia que se transformou em espelho, Ela tem cara de bebé; não tem uma única ruga.]


Mas por mais que treine nas instalações sanitárias protegidas pelo Ippar não consigo, e acabo sempre por constatar que tenho um pelo da sobrancelha muito mais comprido que os outros e arruivado.

Os dias passam-se assim. Num gabinete desenhado pelo Ventura Terra. Num imóvel classificado, onde todos, ou praticamente todos, lêem as entranhas deste blogue (e eu com vontade de picotar os pulsos a cada revelação dos leitores do Tralha).

Os dias passam e eu na expectativa de ver uma expressão qualquer estampada na cara da empregada de mesa Irina.

*Nasceu, ou talvez não, algures no Brasil, numa terra chamada Itaguaí, uma criança com as mãos coladas, como se tivesse passado nove meses quietinha, a rezar no ventre materno. Esse nascimento – que não consigo confirmar porque tenho muito que fazer – vale cem visitas diárias ao Tralha, reencaminhadas pelo Google brasileiro. Diz o mito que quando os médicos cortaram a fina membrana que unia as mãos do nascituro aconteceu um milagre. De facto, o Tralha só não morreu por causa disso. Mas não sei se é obra de Deus.

** Lamento, caro leitor do Google brasileiro: Não faço ideia como se monta uma fábrica de sabões no quintal...

sexta-feira, março 23, 2007

A doutora

A doutora ficou de cabelos em pé, madeixas loiras, brancas, vermelho fogo e castanhas-escuras, um arco-íris capilar e cada cor espetada para seu lado, de costas voltadas como amantes zangados a partilharem a mesma cama. Saída de um divórcio litigioso com convenção antenupcial que cobria até a custódia do papagaio africano que se deliciara a aprender de trás para a frente a última edição do dicionário de calão da Editorial Notícias para combater a agonia dos últimos dez anos de casamento dos seus donos, a doutora vinha com pequenas gotas de suor presas nos riachos das rugas da sua testa, a bufar pelos lados da boca um fumo fininho branco, quase imperceptível à vista humana, e a desgraçada da subserviente funcionária da conservatória não podia ter escolhido pior altura para indagar, a medo, em jeito de pedido de autorização:

Podemos casar estes dois no Jardim da Estrela?

As pupilas dilataram-se e os globos oculares da doutora tiveram ganas de ir dar uma voltinha ao andar de baixo e ver outras vistas sobre a cidade. Os óculos, de meia-lua, hastes encarnadas, desceram o escorrega da cana do nariz e a sobrancelha direita da doutora esticou-se (a testa ficou sem rugas e caiu uma gota de suor em cima da secretária), e a doutora, perplexa, as suas roupas de estilista a caírem com menos graça pelo corpo de girafa abaixo:

Não é digno casar no Jardim da Estrela... Conhecem as nossas salas de casamento? Temos a rubi, a pérola, a cristal...

Não havia verniz para estalar e então estalou um bocadinho da unha do anelar esquerdo da noiva.

Perdão?

Doutora, desculpe-me, a noiva a falar e maravilhada, quase paralisada com a etiqueta do inventário do computador do estado escrita à mão com tinta permanente, e o tapete de rato publicitando os serviços de uma agência funerária, qual é mesmo a diferença de casar numa tenda de uma quinta nos subúrbios que há-de ser fechada mais cedo ou mais tarde pela ASAE, ou na cabine de um avião da TAP, ou sob a areia da praia, e porque é que não é digno casar num dos mais belos jardins de Lisboa?

A doutora cheia de tiques, os olhos a tremerem muito subtilmente, a funcionária atrás dela a esfregar as mãos da nervoseira, um misto de pena de já não ir casar aqueles dois no Jardim da Estrela onde, a própria, há três décadas atrás namorava escondida no Caracol.

Bem, vai ter que nos dizer onde é que na lei diz que não nos podemos casar no Jardim da Estrela.

A doutora viu que não se safava com estes noivos armados em sabichões. Tentou arrasá-los com uma vitória de secretaria.

Bem, então, preciso das licenças emitidas pela autarquia, para começar o processo. Têm um mês.

A licença foi dura de obter. Todos os dias, 21 3912463, está lá, dona Rosinda, novamente Diana Ralha, ai mulher que me parece que já não me caso se não me sai essa licença de ocupação do espaço público... Amanhã? Está bem, eu ligo amanhã às 15h. Todos os dias a mesma coisa, a querida da Dona Rosinda, sempre a mesma resposta, depois a até nos mandou medir o perímetro do coreto, ó raios o perímetro era mesmo como, dois pi ao quadrado?, até que, quase em cima do limite legal, a bem aventurada autorização chega ao tabuleiro do fax.

Tiraram a senha.
A senha dos casamentos ainda não funciona, tem que se tirar uma que também dá para óbitos e a etiqueta do inventário escrita à mão está um pouco mais descolada e o tapete de rato da funerária continua à vista de quem é viciado na realidade. Os livros de registos já não são escritos com bonitas caligrafias a tinta permanente, mas sim, com letras muito redondinhas da funcionária de vinte e poucos anos.
Os divórcios sucedem-se e a doutora continua a vestir uns trapinhos que não se podem compram com o salário de conservador, índice 174. Sentados, à espera da vez, ouve-se a doutora vitoriosa a falar com a funcionária com desdém: Não devem ter conseguido a tempo a licença...
A noiva ouve, porque a noiva ouve tudo, vê tudo, mas não diz nada ao noivo. O painel luminoso chama o número que está impresso na senha verde e os noivos avançam dois passos e sentam-se.

Surpresa (pensa a noiva), estamos aqui.

Ainda agora estávamos a falar de vocês.

Eu sei (pensa a noiva). Fala-se do demónio e aparecem os cornos (acabou por dizer a noiva).

Está aqui a licença, conseguimos.

A doutora bufa, bufa lá de longe sem se mostrar, a funcionária sorri e diz para lhe perdoarem qualquer coisinha que vai ser o seu primeiro casamento fora das salas do edifício da Fontes Pereira de Melo.

O casamento está marcado para as 12h do dia 29 de Abril.

Apareçam.

Carta de demissão (ou vou só ali aprender a tocar piano e já volto)

O raio da velha em São Félix, nós todos encostados em fila indiana junto ao muro de pedra, o Toyota Corolla estacionado na faixa de rodagem em cima da curva de cotovelo, e eu a sonhar com o gemido do portão de ferro a abrir-se, a sonhar com o alpendre da casa do meu avô Oliveira e com o pomar das laranjeiras que não via há tempo demais, e a velha que se fixou em mim e que não me largou, a cara dela craquilhada por entre um lenço preto de viuvez, agarra-me nas mãos, chama-me Magui – e eu tinha uma borbulha na testa, desculpem-me, mas eu tinha catorze anos, mas não era loira como a Magui, que me passou para o sangue os seus olhos azuis –, o raio da velha que há-de martelar-me durante muito tempo, inspeccionou bem as mãos, virou-as e revirou-as (eu já roía as peles quando estava nervosa), e diz assim muito séria, olhos nos olhos do meu tio Manuel:

Ela tem mãos de pianista.

Vinte anos depois de me ensinar a desenhar todas as letras do alfabeto e, seguramente, os mais belos xis de Lisboa, a professora Gertrudes Maria sentada no Luanda, surpreendentemente igual a si própria, como se tivesse sido ontem que me dispensara de fazer os trabalhos de casa para todo o sempre porque me tinham morrido as duas avós, nos olhos, nos olhos muito grandes, as mesmas olheiras negras e o fiel companheiro verde-velha, pintado a pincel por cima das pálpebras e diz-me assim muito séria:

E tu, sempre és pintora como o teu pai?

(o mais surpreendente deste encontro nem foi o lembrar-se, vinte anos depois, que eu queria ser pintora; o mais surpreendente foi lembrar-se que eu amava a cor roxa, que pintava céus e malmequeres roxos com lápis de cera Sino)

Depois, escreve-se um blogue, escreve-se um blogue porque o salário não estica para lá do dia quinze, porque as escadas de um quase bicentenário quarto andar sobre a Duque de Loulé parecem uma via-sacra todos os finais de noite em que se carrega sobre o ombro direito escada acima uma menina com cabelos de ouro, essa sim, que podia ser confundida com a reencarnação da sua avó Magui, e à qual eu disse assim, sem pensar, meia anestesiada e com o ventre aberto a ser costurado pelas mãos hábeis do doutor Moniz:

Ela tem mãos de pianista como a mãe.

Escreve-se um blogue porque a família Pestana, toda a descendência do patriarca João, é preguiçosa e, certamente, tem artroses nos joelhos ou falta de paciência para trepar os sessenta e cinco degraus podres até às assoalhadas de uma casa velha da rua de Santa Marta. E, de repente, escreve-se, escreve-se sem parar até à tendinite, porque as noites são brancas, e matam-se a escrever num teclado branco, enquanto os dias se ganham a dedilhar num teclado preto.

(e o raio da velha, outra vez, com esta coisa das teclas brancas e pretas – ela tem mãos de pianista)

De repente, alguém que todos nós conhecemos bem, alguém de quem temos saudades e a quem eu gabava umas botas de estilo militar, esse alguém escreve (que é coisa muito mais séria do que apenas dizer da boca para fora):

Ela é a melhor escritora.

E porque alguém escreveu isto, a vida muda drasticamente: o raio da velha já não martela tanto, só pontualmente, quando os dias se ganham a escrever no teclado preto ao som de Chopin.

E na madrugada do dia que assinala o começo da Primavera, há trezentos e sessenta e cinco dias, os jardineiros da câmara de Lisboa atarefados a plantar cinquenta mil flores, entretidos com a empreitada entre vasinhos de ciclames e amores-perfeitos, ancinhos e pás pousados na calçada, e cumprindo o destino, nessa mesma madrugada, houve alguém que também se habituara a noites brancas, houve alguém que, perto da Estrela, atrás de um teclado de cor incerta, foi a visita cinquenta mil do tal blogue, apenas porque se escreveu, porque se espalhou que ela era a melhor escritora; e esse alguém, esse um em mil milhões, predispôs-se a ir buscar um dicionário com mais de duzentos anos debaixo de uma roseira, predispôs-se a recolher cartas de amor debaixo dessa mesma flor que ainda se lembra de haver um leão na Estrela.

E a vida ficou mais simples.

A dona Maria continuou a vir buscar-me, ao final da tarde, um exemplar do 24horas para se rir no autocarro depois de uma jornada de trabalho de catorze horas, eu continuei a fazer obituários de prédios bonitos que todos os dias morrem nas imediações da Viriato, a fumar despudoradamente no meu posto de trabalho e a levar, por isso, com as culpas de cancros alheios.
Contei histórias mirabolantes de mendigos de olhos azuis com sorrisos pueris aos quais o Cerejo me ordenou ir entrevistar do alto dos dez centímetros dos meus saltos altos, loucos que encontrei meses depois, com um recorte de jornal junto ao peito, com mil e quinhentos caracteres impressos a bold junto ao peito.
Nos piores dias, fui cantar missas de Mozart no fumódromo e a Anabela chamou-me de rapariga peculiar.
Escutei com atenção, agarrada ao auscultador do telefone, o fabuloso destino do senhor Guilhermino que nunca cheguei a publicar, e o Cerejo continuou a chamar-me “coisinha”. O Adelino disse-me, no corredor, junto à máquina do café, que eu escrevi uma coisa muito bonita e até hoje eu não faço ideia o que foi; a Teresa de Sousa deu-me conselhos de puericultura no elevador, e quando a coisa estava mesmo mesmo a rebentar, quando eu quase não conseguia respirar, entre plenários, greves e rescisões, encontrei um frasquinho de água com sabão na mala e soltei milhares de bolas irisadas ao longo da Andrade Corvo e sorri quando ouvi o nosso louco, o Afonso, a gritar:

A nossa rua está linda!

(mais acima, há algum tempo, no refeitório do Pingo Doce da Tomás Ribeiro, um velhinho também se aproximou de mim com um saco cheio de carcaças e segredou: vou dar pão aos malucos, e eu fiquei muito aliviada de não ter sido presenteada com um pãozinho)

Espera-se tudo a partir de hoje.

Espera-se que o cabelo me cresça até ao rabo, ou que fique todo branco aos trinta e cinco anos, como é o fado dos Ralhas. Espera-se que as Ginkgo Bilobas de Lisboa deitem daqui a vinte anos o fedor a manteiga rançosa que alguma louca vaticinou e teve o privilégio de escrever nas páginas do Público. Espera-se que o António Barreto continue a dar conta da floração dos jacarandás todos os anos em papel de jornal (e, já agora, que haja mais jacarandás em Lisboa). E eu espero mesmo esta: que o prédio da Tudor, na Fontes Pereira de Melo, não se suma na memória, e que seja resgatável apenas no arquivo municipal de fotografia, ou num texto do Público que fala de dragões e pérgulas de rosas. Quem sabe, quem poderá saber, se calhar, até se espera que alguém, um dia, sabe-se lá porquê e para quê, encontre um texto de uma jornalista com um apelido estranho, sobre um raro metal precioso chamado paladium.

(e, certamente, espera-se que a Cristina Ferreira continue a aconselhar mocitas em idade fértil a nunca se mudarem para casa dos namorados, porque, mais cedo ou mais tarde, hão-de ficar com uma mão à frente e outra atrás, que a Lurdes Ferreira enxugue, nos próximos anos, as lágrimas de adolescentes traídas pelas suas melhores amigas, que o Paulo Madeira ensine ainda muita gente a pontuar com vírgulas, que a Ana Henriques continue a vir para a redacção sem soutien, que o Cerejo se faça ouvir por toda a redacção quando está a descobrir ao telefone alguma escandaleira, que o Miguel Madeira faça mais uma tatuagem, que o David Clifford improvise serenatas à hora do fecho, que a Lena e a Sandra tenham a pachorra de ensinar alguma garota interessada a paginar as cotações da bolsa, espera-se que alguém se barrique na varanda da Viriato, que o Zé Bento Amaro continue a fazer rimas porcas, que o Tiago não tenha emenda e continue a chamar darling às suas editandas, e que o Pedro Ribeiro seja sempre facilmente contactável no aquário de vidro, com um maço de Pall Mall azul)

Por enquanto, eu só espero aprender a tocar piano.

Até já.

(oito caracteres; oitocentos, umas brevezitas, por cada ano que passei convosco)

sexta-feira, março 09, 2007

O caso bicudo

[Regresso ao dashoboard depois de tantos dias a tratar amigdalites crónicas. saudades e desculpas de mau escrevedor.]


O papel de jornal serve de toalha para a tigela da água do cão (já não digo que é a forra do caixote do gato, porque somos um pais desenvolvido, com areia perfumada no Mini Preço a 70 cêntimos cada cinco quilos), ainda me lembro de estender o espesso Expresso no chão da marquise, e da alegria que era encontrar uma notícia interessante, inadvertidamente, a meio do acto de despejar um quilo de ração para cães gigantes de cu virado para a lua; serve para tanta coisa o papel do jornal, eu sei lá, para acender lareiras (as minhas notícias dão uma chama anil), é raro, mas também ainda vai dando para fazer cartuchos para as castanhas no Outono, quando se esgota o stock de páginas amarelas; serve para fazer trabalhos manuais em papier maché, apesar de o que está mesmo mesmo na berra é o feltro; enfim, o papel de jornal fica largado pelas estações do metro de Lisboa desde que chegaram os gratuitos, e quando ninguém está atento, o papel dá espectáculo também de borla e rodopia em passos meticulosamente coreografados; serve para muita coisa, sobretduo, para sujar as mãos, mas poucos, muito poucos, só uma pequena minoria, cerca de dez mil de acordo com a Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas, é que sabem a trabalheira que dá conseguir uma informação digna de ser impressa em papel de jornal.

Três dias. Três dias para confirmar o óbvio (tão prudente, esta jornalista; é por isso que não vai longe; é por isso que lhe faltam no currículo enraivecidos direitos de resposta e processos disciplinares).

Dezenas de telefonemas para o núcleo administrativo de uma força policial de Lisboa: sim, no sábado, cerca das 15h20, um zeloso munícipe ligou para a esquadra a denunciar um roubo de azulejos arte nova da fachada de um prédio. O prédio e os azulejos são ambos arte nova. Na Estefânia. E para desconversar: Sabia que morou por lá o Fernando Pessoa? Esse mesmo, o poeta, morou por cima da leitaria, onde vivem os sem-abrigo, eu sei que é uma javardeira; no outro dia, urinavam à porta, junto à filinha da paragem do autocarro, e à noite, vimo-los de passagem, iluminados à luz de velas brancas, não vou esquecer aquela imagem, era mesmo bela, mas sim, é uma vergonha, pois é.

Sempre a mesma lenga-lenga: Confirmam? Estiveram lá realmente? O que fizeram ao ladrão de azulejos? Eu tenho fotos do ladrão em flagrante delito... Sim, foi o munícipe que as tirou; o mesmo que jura a pés juntos que lá foram... Só não me sabe dizer a matrícula do vosso carro...

E do outro lado, lá para as bandas da Praça de Espanha, eu bem procuro, eu já vi em toda a parte, mas ninguém sabe nada do roubo dos azulejos.

E ao terceiro dia, o roubo dos azulejos não ressuscitou por entre uma pilha de processos empilhados na secretária do sub-chefe. Ao terceiro dia, o roubo foi confirmado pelo proprietário do prédio onde viveu Pessoa, que também não viu qual era o grande problema ou sacrilégio da pilhagem. Isso é notícia?

Mas a jornalista é boa jornalista, e deu-lhe naquele dia - talvez porque a sua secção tem, hoje em dia, um máximo de três páginas recortadas de publicidade e não há grande coisa para fazer - para ligar uma última vez para o sub-chefe. Era o mínimo. Para agradecer o trabalho inglório.

Imaginara-o perdido por entre labirintos de arquivos poeirentos, com as bochechas vermelhinhas de tanto procurar, nervoso, a enrolar a corrente do telefone pelo indicador esquerdo acima, à procura em todas as extensões de alguém que soubesse, que tivesse pelo menos ouvido falar no roubo dos azulejos; a roer as peles dos dedos aflito por não poder ajudar a jovem jornalista - a jovem jornalista adora estas coisas, deixar-se levar pela imaginação galopante que a sua mãe de olhos azuis lhe deu, mas sabe, porém, que existe uma forte probabilidade de elas só acontecerem, de facto, numa outra galáxia, num mundo muito mais divertido.

E o sub-chefe comoveu-se com tanta amabilidade, os seus colegas costumam ser umas bestas, disse, e ela naquele dia estava cheia de frases feitas na manga encarnada da camisola, disse, é como em tudo, há bons e há maus, mas desculpe, sra. jornalista, não lhe ter conseguido confirmar o roubo, é que andamos aqui todos às voltas com um caso bicudo.

Ele disse bicudo, e os olhos da jovem jornalista brilharam e imaginou um bigodito pontiagudo a crescer na cara do sub-chefe. Deu-lhe corda, porque, afinal, eram ainda cinco da tarde, e não havia nada de melhor para encher as duas únicas breves de 500 caracteres que restavam da edição do dia seguinte.

Conte-me tudo.

Não estava à espera de crimes horrendos, que chegassem com honras de chamada à primeira página do papel de jornal, esperava por algo bizarro, fez figas para que ele lhe dissesse que tinham apreendido uma burra que estava à venda às seis da manhã na Feira da Ladra; já era o quanto baste para que ganhar o dia.

só que era melhor do que podia ter imaginado. O caso bicudo.

Andamos aqui às voltas, com um pittbull que está a ser disputado por dois donos. E agora eu pergunto-lhe: como é que sabemos quem é que é o dono?

E ela, caladinha, não ia estragar a longa conversa telefónica com um e que tal verificar se o animal tem um chip de identificação electrónica?

Interessante... Xiii... Complicado... Conte-me mais...

É como naquela história da Bíblia, mas só que não podemos cortar o cão ao meio para toda a gente ficar feliz... O pior disto tudo, senhora jornalista, é que com esta espera, sabemos lá se o animal já não foi abatido no canil? Sabe como são as regras... Três dias e depois kaput. Mas também lhe digo, ninguém abate um animal de ânimo leve; há para lá muitos funcionários com depressões...

Coitados. Pois é... é um trabalho sujo, mas alguém tem que o fazer... Nem que fosse o último emprego no mundo...

Quanto mais conheço as pessoas mais gosto dos animais... É o que se costuma dizer. Por isso é que eu digo, senhora jornalista, não me canso de dizer isto: quem gosta de animais, tem que tirar fotografias, tem que pedir - a um familiar, por exemplo -, que lhe tirem uma fotografia ao lado do cão ou do gato. Não vale a pena ser só a foto do animal. Há animais parecidos... Se tivéssemos uma foto, o caso estava resolvido...

(não teve coragem, a jovem jornalista, de falar ao sub-chefe nos esquemas pérfidos da mafia dos animais de estimação que sabem o que é a foto-montagem e conhecem os milagres do photoshop. Desligou o telefone com um sorriso nos lábios e foi buscar uma menina loira à escola, lá para os lados do aeroporto)