E depois de escrever duas dezenas de milhar de caracteres ainda tive que levar com o choradinho desta tipa
O post foi censurado, porque o JPH e a ASL acham que eu ainda me fodo à brava com ele.
O post foi censurado, porque o JPH e a ASL acham que eu ainda me fodo à brava com ele.
Posted by Dia at 8:33 p.m. 8 comments
O Alfredo já não mora no Largo de Andaluz.
De manhã, o senhor da tasca, que sabe o meu nome, que me trata por tu, e tem umas madeixas loiras na franja, disse-me que o polícia barrigudo chamou a câmara e o Alfredo está algures no canil municipal à espera de ser transformado em sabão.
"Assassino!", gritei eu bem alto, soltando perdigotos para a cara do agente ridículo de bigodinho, que patrulha a rua por causa das obras da EPAL. "Como é que consegue dormir à noite? Não lhe pesa sequer um bocadinho a consciência? Não tem vergonha nessa cara?", continuei eu com um ataque de raiva daqueles que não sentia há muito tempo, de punhos cerrados, olhos a faíscarem. E foi essa mesma, a sua explicação: "O cão ladrava muito; estava raivoso de certeza". E eu aos berros, parecia a doida que diz que a branca foi a melhor coisa que lhe aconteceu na vida, e que na noite passada, qual candidata à junta de freguesia, cumpriu a promessa que havia feito de manhã, que iria voltar a haver água no Chafariz do largo de Andaluz, e eu não sei como ela fez, mas ele está cheio de água, e o homem da tasca a agarrar-me pelo braço, e eu com uma vontade enorme de bater no polícia gordo de cabelo grisalho ensebado, ao mesmo tempo que no meu cérebro martela "Porque é que ele não quis subir para minha casa? Porque é que se armou em vadio?", disparo: "Não há raiva em Lisboa, ò besta quadrada, foi erradicada há muito tempo". E o ridículo, perdão, o agente da autoridade, diz que me leva para a esquadra, que me prende, e eu continuo a dizer disparates, com o peito para a frente bem cheio, como quem diz: vá, prende-me lá, se és homem. E ele claro que não é. Tem medo de cães e de mulheres à beira de um ataque de nervos. Tranquei-me no Idea e chorei copiosamente, lágrimas que não corromperam o rímel à prova de água, chorei desalmadamente com o nariz a tocar no símbolo da Fiat do volante. Não sei quanto tempo lá estive, o suficiente para chegar atrasada à arruada do Carmona.
Posted by Dia at 8:07 p.m. 0 comments
Tenho pouquíssimo tempo para escrever este post - qualquer coisa como um quarto de hora. Não dá para nada, um post de jeito, um daqueles que se lêem pelo menos duas vezes, demora sempre mais do que uma hora a ser parido, com a ajuda de uns ferros e de umas ventosas.
Gostava de falar do tempo. Da falta dele, aliás.
Voltei a ter dores no estômago e insónias. A roupa está um pouco mais larga, por não ter sequer cinco minutos para emborcar uma merda qualquer hiper-calórica, e essa é a única coisa boa da campanha eleitoral, que não me deixa respirar e que me enegrece os centímetros quadrados de pele que tenho por debaixo dos olhos.
É um óptimo tónico, o excesso de trabalho. Penso nas milhares de tretas que tenho que escrever até ao final da semana, pulo de arruada em arruada, de jantar em jantar, e isto sempre com as mesmas caras (calhou-me uma comitiva de jornalistas sensaborona, sem salero nenhum) - fico num transe hipnótico semi-maquinal: trabalho-casa; casa-trabalho.
Mesmo assim, com a falta de tempo e com duas micro-cassetes para desgravar, lá arquitectei um plano maquievélico para enfrentar um dos meus demónios. Gosto de me testar, de testar os outros, sou muito competitiva, tenho a mania que sou a melhor, mas, em cinco minutos, apercebi-me que ainda não estou curada.
Devia sabê-lo. Na semana passada sonhei com um livro que li há uns bons quatro anos, do australiano Peter Carey, e sonhar em inglês, com um booker prize muito sugestivo de um par amorosos viciados (um obsessivo e outro compulsivo) é sinal de que a cura ainda vai muito longe: "Shall I tell you my idea? (...) It envolves glass - a subject close my heart", começava assim o meu sonho e acabava com esta frase: "It was then she knew he loved her".
Acordei e fui à prateleira buscar o calhamaço de 500 e tal páginas. Demorei uma horita e meia a descobrir o trecho do sonho - um capítulo essencial para toda a trama; é ali que nasce a ideia louca de construir uma catedral em vidro e transportá-la até ao fim do mundo. Li-o e desejei saber escrever como o raio do australiano que tem cara de tarado-geek. A páginas tantas, o narrador diz que não damos a devida atenção aos assuntos que estão perto demais do coração, que não os tratamos como deve de ser.
E eu continuo a pensar no outro senhor mais de três dezenas de vezes por dia; é a primeira imagem quando acordo de manhã, é a última que vejo nitidamente antes de carimbar a entrada no vale dos lençóis (os lençóis desta semana são deliciosos para dormir - algodão egípcio, cor beringela, dão muito bom dormir). E cinco minutos depois de bebericar um café fortíssimo perto da hora do almoço, sei que estou novamente agarrada, e com a sensação estranha, provavelmente injusta e descabida de que devia ser melhor tratada se estou assim tão perto.
Demorou 45 minutos a escrever. Estou ultra-atrasada. Mas quem me tira este blog tira-me uma das poucas alegrias.
Posted by Dia at 4:13 p.m. 0 comments
Eu não sei virar costas e deixar os loucos a falarem sozinhos.
A louca da minha rua quer conversa a toda a hora. Os comerciantes de Santa Marta proibiram-na expressamente de entrar nos seus estabelecimentos e a chinesa deu-lhe um enxerto de porrada por a ter apanhado a roubar shampôs.
Está a ressacar: "A branca é a melhor coisa que me aconteceu na vida", diz-me ela, convicta e com os lábios gretados. Há quatro dias que não se droga, porque não consegue roubar.
O pai é médico, rico, é dono do prédio do Largo de Andaluz. Às vezes prostitui-se, diz-me, enquanto vasculha numa pasta cinzenta fotografias da filha Mariana. Nessa foto a Mariana está ao colo da Mafalda, e a Mafalda tem dez quilos a mais e um grande sorriso aberto na face.
A Mariana é uma criança muito bonita, loirinha. "Às vezes pergunta à avó porque é que uns homens vestidos de preto me levam embora". Ri-se. Diz-me que não larga a droga nem pela filha, que já não há nada a fazer, muda de assunto rapidamente e diz que é cleptomaníaca, que rouba por encomenda - gosta de roubar queijos da serra que revende por cerca de 5 euros.
Está tuberculosa e tem sida. Dou-lhe dois cigarros, despeço-me e digo-lhe que não podemos voltar a falar por causa da minha filha. Ela compreende. Agradece o tabaco e deseja-me um bom dia.
Posted by Dia at 11:46 a.m. 2 comments
O Alfredo já está vadio, ganhou-lhe o gosto, pelos passeios e carros disponíveis para mijar a toda a hora do dia e da noite. Esta noite preferiu dormir na rua. Pus-lhe o remédio das pulgas no cachaço, e fiz-lhe a vontade: dorme onde quiseres, cãozito.
Melhor assim, se calhar.
Tenho a dispensa cheia de comida de cão e na carteira trago 4 comprimidos de disparasitante. Se quiseres aparecer sabes onde eu moro. Sabes mesmo. Estavas à porta, como nas noites passadas.
Até lá, és o cão do Largo de Andaluz. Todos gostam de ti. É impossível não gostar de ti.
Posted by Dia at 11:56 p.m. 1 comments
O Alfedro é o cachorro que está a morrer de tristeza.
Peculiar, esta rua onde eu moro, onde um cachorro se recusa a comer em protesto por ter sido abandonado e uma mulher chupadinha, a meio dos seus trinta anos, dentadura perfeita e branca, de nome Mafalda, veste apenas roupão de turco azul cueca entreaberto, sem mais nada por baixo e explica-me, entre lágrimas de um desepero de quem está prestes a carimbar o passaporte com da vassoura dos doidos varridos, --"Sabes, há determinados limites que nós pomos em causa a nossa sanidade mental".
É a única coisa com lógica que me diz, a Carolina está a dormir dentro do Idea, e o Alfredo vem-me cumprimentar, tento convencê-la a ir para casa, que está frio, mas ela quer tabaco, o Alfredo quer festas, e eu andei a fumar pontas de cigarros Português Suave, não tenho nicotina para a confortar e, enquanto a obrigo a fechar o roupão - "Ainda se constipa, Mafalda" -, não por mim, choca-me a magreza da mulher e o corpo cheio de nódoas negras, mas não é por mim, sinto-me até mais seguro por ter uma louca a guardar a rua, mas os vizinhos estão todos à janela a ver o espectáculo da loucura e ela mostra-me os braços, diz-me que não se droga, eu acredito e o Alfredo ao meu lado, preocupado com a Mafalda, irrequieto e eu matuto, enquanto consolo a doida: levo-te ou não para casa, Alfredo?
Andava meia triste (eu ando sempre triste, aliás, não é novidade). De vez em quando acontece algo que me abre o portão do mundo (o portão do mundo é de ferro forjado trabalhado, com pavões e libelinhas arte-nova) e me dá mais do que eu imaginava ser possível numa só vida. Mas são sempre ilusões, são ilusões bonitas, mas são isso mesmo - bolinhas de sabão irisadas que desaparecem quando as vamos a agarrar.
No final dos meus dias, tudo se resume a uma janela de um programa de chat do Bill Gates e as aventuras de um candidato autárquico, com um terrível problema na pele, pelos bairros mais miseráveis e feios da capital (hoje foi a excepção, porém. Passeámos, aquecidos por um sol que estrelou os meus ombros, entre Belém e a Expo, entre pastéis de nata, quentinhos e estaladiços, polvilhados com canela e açúcar).
E, pronto, como há muito tempo que não acontecia nada digno de registo, eis-me a debater o sentido da vida com uma louca semi-nua, ao mesmo tempo que passo a mão no pelo sedoso de um cão ruivinho, com olhos de Bambi, isto muito perto da meia-noite, instantes antes de eu me transformar em abóbora (ou vampira?).
Confortei a louca, trouxe o cão para casa.
No dia em que eu vos contei, pela primeira vez, a triste história do Alfredo, de ele estar lá em baixo a definhar decepção e melancolia, o cãozito estava mais para lá do que para cá, deitado sem reacção no meio da estrada, com moscas-abutres a avisarem que por ali andava a morte.
"Não te deixo morrer à minha porta", pensava eu enquanto fazia um esforço enorme para levantar o alfredo-vegetal e colocá-lo dentro da bagageira do Idea. O vizinho taberneiro ajudou e todos concordámos que o Alfredo é um lindo cão. Todos concordámos, eu, o taberneiro e os três espectadores da esplanada, que ele só se pode chamar Alfredo (pronuncia-se com sotaque mafioso siciliano)
Decidi levar o cão moribundo ao veterinário. Mas ele ressuscitou, apenas por alguém se ter negado a deixá-lo ali no asfalto, ao Deus dará.
O Alfredo acordou de um coma nessa manhã e pela primeira vez aceitou comida, um quilo de carne picada que a Magui comprou e comeu, também, umas bolachas Maria que eu tinha no carro.
O Alfredo já não comia há muito tempo. Estava em greve de fome. Nesse dia, o Alfredo subiu à Martinha (nunca imaginei que no seu estado de debilidade conseguisse escalar os quatro andares a pique) - um vizinho deixou a porta aberta e ele seguiu-me o rasto até cá acima. Esteve pouco mais de cinco minutos e acho que gostou.
Desde então, tem vindo todos os dias cá acima. Devora latas de salsichas, esvazia-me a dispensa e o congelador. Se eu lhe levo a comida lá abaixo, olha-me com tristeza e suspira. Só come lá em cima, na Martinha. Depois deita-se no hall e dorme uma soneca. Custa-me levá-lo de novo para a rua, depois de lhe servir o jantar.
Mas a tal da dona Prudência, que me tem chateado os cornos todas as noites, adverte: Ralha, não tens vida para ter um cão. As gatas não aguentaram e eram duas. Se tivesses passarocos, decerto se afogariam nos bebouros, de tristeza e solidão; os hamsters teriam ataques cardíacos de tanto correrem na roda com o stress; os peixes suicidar-se-iam saltando para fora do aquário - a puta da Prudência diz-me isto ao ouvido e eu fico triste e desconsolada: "Será que ninguém me atura mesmo?"
O Alfredo está a dormir na sala de jantar e é mesmo um cão muito bonito. Esta noite dorme cá. Vamos lá ver como se porta.
(Portou-se muito bem. A Carolina acordou, viu o "ão ão" no mesmo sítio em que o deixei quando escrevi aquelas linhas e deu-lhe muitos beijinhos na foçinheira - carinhos que ele retribuiu com umas lambidelas que a fizeram rir à gargalhada. Combinei com o Alfredo que vou ser, por enquanto, sua dona em "time-sharing", a Martinha aceitou ser o abrigo nocturno de um cão bonito até eu tomar uma decisão definitiva - a Martinha já tinha servido de asilo nocturno, há coisa de dois meses e picos, e diz que nasceu para ser uma instituição particular de segurança social)
Posted by Dia at 12:45 a.m. 2 comments
E esta é a foto da noite do Comício (sou a musa dos dois fotógrafos oficiais da campanha), à entrada do Coliseu, com a Broadway aos meus pés!
Posted by Dia at 7:00 p.m. 2 comments
Inauguro aqui um espaço exclusivamente dedicado às deliciosas pérolas que oiço por esta Lisboa fora, de fervorosos apoiantes e de munícipes anónimos que não perdem uma oportunidade de dar um passou bem e um beijinho repenicado ao candidato que farejo como cão da GNR até ao dia 9 de Outubro.
A frase não é de hoje, mas é linda, ouvi-a numa arruada em Campolide, durante esta semana que finda:
"Eu sabia que era o professor; eu tenho uma memória muito fotogénica".
O comício acabou por ser um espectáculo, não pelos discursos políticos, mas sim porque eu e a minha Qui Qui estivemos juntas no Coliseu dos Recreios em trabalho (ela a representar um órgão de comunicação social rival do meu pasquim, mas ninguém reparou).
Apanhei o muito falado táxi 854 da Retalis - o táxi-poeta, um velhote que fala em rimas de pé quebrado (a certa altura já não há pachorra para o homem e para as suas lenga-lengas; é uma espécie de rap saloio, o discurso do senhor) e que adora presentear os seus passageiros com catitas adivinhas (também elas em quadra). Não me tentou impingir o seu livro de poesia naïf (tive pena).
Amanhã vamos ao Sporting em campanha. Vai haver, decerto, grande material para a recém criada secção da "frase do dia"
Posted by Dia at 6:15 p.m. 0 comments
Está um dia bonito lá fora. Sei disto porque fui à rua, há cinco horas atrás, entregar a filha ao progenitor e beber a bica na tasca cá da rua.
Está sol e eu tenho um plano de ir para a praia, porque trabalho só pela noite a fora. Vai ser o meu primeiro comício e não tenho a rata aos pulos, confesso. Está quentinho, mas eu estou sentada de pernas cruzadas no sofá laranja, com uma mantinha da mesma cor a cobrir-me as pernas, uma mantinha gira que uma agência de publicidade me enviou como pequeno suborno para comprar uma qualquer notícia breve que eu não sei se escrevi (eu gostava muito do director criativo desta agência e, segundo sei, o tipo deu-se muito bem pela W+K).
Não mexo o cú enorme do sofá, porque estou a namorar à janela do computador. É mais forte do que eu - a vida passa lá fora e eu fico a vê-la passar. É que nesta janela eu tenho alguma importância. Lá fora não sou ninguém.
Amanhã estou mais uma vez a trabalhar, seguindo o rasto do candidadto independente, mas que segundo o líder da distrital do PSD, "tem um coração laranja" - eu já tinha bebido umas imperiais e fiquei a pensar que se calhar era melhor o Carmona ir fazer uma ecografia ao coração, que ter órgãos dessa cor deve ser uma qualquer ictrícia louca - e espero que saia algo menos obsessivo. Agora não dá.
Posted by Dia at 3:41 p.m. 1 comments
Lá me conseguiram despir - foi um fartote de riso o meu "problema matinal" na lojinha de arranjos, sita numa rua atrás da avenida de Roma e que tem um nome genial: "Expresso da meia rota" (o logótipo não faz juz ao nome).
Antes de ser uma loja de pequenos arranjos de costura, há umas boas décadas atrás, aquela lojinha era uma retrosaria linda - Retrosaria "A Moda", letreiro dos anos 50, impresso no vidro da montra com uma letra muito patusca -, cuja dona era velhinha bonita de cabelos loiros platinados, muito baixinha, óculos de ver ao peito, presos por uma corrente, e que vestia sempre uma bata azul escura.
Eu adorava aquela retrosaria, acho que foi ali que começou a minha tara por botões - eram prateleiras e prateleiras de caixas de sapatos com botões cosidos no cartão, mostruários que me fizeram as delícias durante a minha infância, botões de todos os tamanhos e feitios, todos eles caríssimos, sei disto, porque às vezes, quando lá iamos, pedia à avó Tóia para ela me comprar uma caixa de sapatos cheia de botões e ela explicava-me que não podia, porque eram muito caros, mas levava sempre uma boa meia dúzia de pequeninos, para embelezar as minhas camisas brancas (lembro-me bem de uns com cerejinhas e de outros com a Hello Kitty).
Quando a velhota morreu - tentei, em vão, durante toda a manhã, lembrar-me do nome dela -, ainda lá fui ver se me vendiam os botões para a minha colecção. Deixei um cartão por debaixo da porta com os meus contactos, mas aquilo deve ter parecido muito bizarro aos herdeiros, porque nunca me telefonaram (e era um cartão do pasquim, bonitinho, Diana Ralha, jornalista, enfim, esta profissão tem pouco glamour e reconhecimento - a minha mãe está-me sempre a dizer que para puta e mal paga mais vale ser mulher honrada e eu não lhe dou ouvidos...).
O senhor Zé Manel, que é dono de uma tasca muito tasca em frente ao King, é que engrossou a minha colecção em largos milhares de botões. O sogro tinha uma retrosaria e ele deu-me quilos de botões com o pó dos séculos que lavei, e cataloguei em caixinhas, por cor e por tamanhos.
Ali, nas traseiras da avenida de Roma, não há gente rica nem os betos que frequentam a Mexicana. Há gente velha a viver em condições precárias, tendo como única companheira a solidão; o merceeiro e o taberneiro são os centros de dia desta gente, servem-lhes a bica, levam-lhes o almoço a casa em marmitas de alumínio e as compras que a miserável reforma lhes permite adquirir (a Celestinha dizia-me há tempos que não comia quase nunca carne, porque o dinheiro não chegava, a Celestinha é o Matusalem da Gama Barros, ninguém sabe que idade ela tem, é viúva, não tem filhos nem sobrinhos e hoje deixei a Magui e a Carolina na Conde Sabugosa e tremi ao ver que está uma casa à venda no prédio da Celestinha, provavelmente morreu e antes de ter tempo para arrefer já lá estavam milhentos herdeiros, que não se lembraram dela em vida, mas para reclamar as suas quatro assoalhadas nas traseiras da Avenida de Roma refrescaram a memória - "Esta casa cheira a alho, aqui mora algum espantalho. Esta casa cheira a unto, mora aqui algum defunto", já diz um dos meus provérbios favoritos e, agora, um repto para os leitores: "Esta casa cheira a ganza, mora aqui alguma ..." - completar, enviando sugestões para a caixinha dos comentários).
Ali, onde eu nasci e cresci, ainda é uma pequena aldeia dentro da cidade anónima, todos se conhecem, todos se preocupam com o cancro da Dona Ivone ou a constipação que não passa à D. Marina. E se a Magui não passa no senhor Manel para lhe comprar as hortaliças cortadas pela madrugada, na sua horta (e não custam os balúrdios dos produtos "biológicos" do supermercado, meus amigos, sei que vai dar azo a comentários idiotas, mas os tomates do Manel são os melhores que eu já comi na vida), e não vai buscar os gladíolos e os jarros do seu jardim (para que fique em acta, as minhas flores favoritas são os jarros), o merceeiro magrinho, desdentado e de bigodes fartos, liga-lhe para o telemóvel para saber se está tudo bem.
Afinal hoje tenho Carmona, já estou meia atrasadita e tudo, nunca mais é 9 de Outubro para a minha vida voltar à merda que era.
Posted by Dia at 4:15 p.m. 6 comments
As coisas do arco da velha continuam a suceder-se. Estou desde ontem à noite a pensar como vou despir o vestido turqueza que tenho no corpo, depois de o seu fecho ter morrido e de se encontrar num rigor mortis tão petrificado, que não se mexe um milímetro para cima ou para baixo.
Quero ver se consego sair do vestido - que é um bom vestido, fica-me lindamente e ainda nem está sujo - rapidamente e se blogo qualquer coisa decente. É que hoje, parece-me, não tenho carmonisses para acompanhar e pode ser que a inspiração bata à porta.
Bem, vou ver se me ponho na alheta (little female garlic), rumo a uma daquelas lojinhas que fazem arranjos na roupa a preços bárbaros, porque o gajedo deixou de saber coser.
Até.
Posted by Dia at 9:36 a.m. 3 comments
Quando ia à Praça Pasteur "princesar-me" com as bujigangas da avó Zá, que estavam guardadas na última porta do armário do quarto verde hospital, numa caixa de plástico cor de chocolate , ela dizia-me muitas vezes que tinha um dedo que adivinhava. E eu sabia que era verdade.
E esse dedo, o mindinho - e é incrível como eu estou cada vez mais parecida com ela; o levantar da sobrancelha direita, aquele a que tu dizes que eu recorro compulsivamente, chulo literário, é igualzinho ao seu e, apesar de os meus olhos serem bem mais pequenos e mais pestanudos, temos o mesmo estrabismo leve e a mesmíssima expressão perdida no infinito -, esse dedo era mágico e sabia sempre tudo: sabia que o meu anel favorito das princesisses é este que eu uso todos os dias no anelar direito - um tronco de árvore em prata -, sabia que eu gostava de pôr cerejas nas orelhas a fingir que eram brincos (a Magui não me deixava furar as orelhas e não há brincos de mola para criança, aliás, não há brincos de mola ponto final - usaram-se, vagamente, na década de 70; chamava e chama, a Magui, aos furos nas orelhas, de mutilações tribalistas e eu não sabia o que isso era, tinha pouco mais de cinco anos, sabia lá o que era esse palavrão, mas percebia que devia ser algo mau e perverso, pensava nisto mais do que seria desejável para uma criança em idade pré-escolar, matutava, matutava mesmo muito, quase tanto como na questão de quem é que inventou o homem, e questionava-me: se é assim tão proibido e nefasto porque é que, então, ela, as avós e a maioria das mulheres portuguesas têm as orelhas furadas? E já agora, pobre mãezinha, ainda em relação às mutilações tribalistas, ainda achas que a tatuagem que eu tenho nas costas é daquelas que sai com o tempo, ou já te apercebeste, mais de três anos depois, que a libelinha impressa perto das covinhas do final das costas, vai comigo para a tumba?); o dedo adivinho sabia que o sabor dos Sugos que eu mais gostava era o de ananás, sabia de tudo, esse dedo maroto, sabia que a minha cor favorita era o roxo e da minha predilecção por saias que tivessem bolsinhos pequeninos. Sabia onde desencantar uma pantera cor-de-rosa para não desiludir uma pequenina de tranças enormes que acreditava no Pai Natal, que lhe tinha pedido apenas isso no Natal (e um Ferrari Testarossa, mas esse eu pedia sempre), e apesar de não haver panteras cor-de-rosa à venda em Portugal, o dedo desencantou-a, desencantou com a mesma facilidade com que arranjou num aniversário meu, um bébé chorão de olhos azuis e orelhas furadas (a avó Zá comprou dois brincos e furou ela própria a borracha; o bébé chorão chamava-se Ana Teresa).
As minhas avós eram mágicas, não me canso de dizer que eram doces feiticeiras e a minha avó Zá parecia mesmo uma bruxinha, com os seus cabelos meios lilases e tez muito morena.
Quando morreu, a minha avó Zá deixou os seus olhos ao meu pai (de um dia para o outro, ele ganhou o seu olhar, mas como o Zé Ralha não presta eu apoderei-me do olhar da minha avó) e deixou-me a mim esse dedo que adivinha. E as minhas mãos são muito magras e as da avó Zá eram muito gordas e sapudas, mas quando estava a pendurar molduras na parede, há duas noites atrás, reparei como estou a ficar parecida em tudo com ela (quando eu te disse, sei lá quando, que sei como vou ser quando for velha, a resposta não era "chata", chulo literário; era "igual à minha avó Zá")
Eu tenho um dedo que adivinha que me disse que os monossílabos não eram bom sinal. Hoje voltaste a ser mal educado, a deixar uma frase pendurada à janela. Eu não tive contemplações; com o dedo mindinho, o tal que adivinha e que tem ao lado o anel de prata da minha avó Zá, apaguei-te da minha lista num instante. Já nem custa.
Posted by Dia at 7:11 p.m. 4 comments
Na minha rua, para além de passeios estreitinhos esventrados pelas obras da EPAL, e de homens das obras de aspecto duvidoso e palavreado que até a mim me faz corar (é obra: hoje, às oito da matina, um mulatito dizia a um outro, de aspecto libanês: vai levar no cú, filho da puta... Nem abrir buracos tu sabes, ò paneleiro de merda! E o libanês: abrir buracos só se fosse o do teu cú, preto de merda! E trocam estes mimos, em frente aos polícias que disciplinam o trânsito e o estacionamento caótico da rua e dos "engenheiros" da EPAL que coordenam a empreitada, no equivalente ao volume 43 do meu auto-rádio e, assim, toda a vizinhança acorda com este bonito palavreado), mas, na minha rua, para além de picaretas e canos de água a brotarem da terra como que por geração espontânea, há um canito a morrer de tristeza.
Foi abandonado no Largo de Andaluz há pouco mais de uma semana e, desde então, vejo-o definhar, dia após dia. É um animal lindíssimo, entre Retriver e Setter Irlandês, enorme, e tudo me diz que foi para o olho da rua porque não se armou em raquítico e cresceu demais.
Tenho-lhe levado de tudo um pouco que existe na minha dispensa minimalista: bolos, queijo, lasanhas do Lidl, secretos de porco preto, e ele pura e simplesmente se recusa a comer seja o que for. Está em greve de fome, está triste demais, já é um esqueleto ambulante, olhos sem expressão, fica deitado o dia todo ao sol, num montinho de areia das obras da EPAL, não come, não bebe, espera os donos e a morte.
Estou a descongelar hamburgueres e a pensar no que posso fazer. Apetece-me dizer-lhe baixinho, ao ouvido peludo: "Consegues subir e descer quatro andares a pique até à Martinha? Prometes não mijar no chão envernizado? Prometes que não te passas por eu chegar tarde a casa todos os dias? E deixas a Carolina puxar-te o rabo sem retaliar?"
Não sei o que posso fazer. Neste momento, acho que o que ele precisa é de ir ao veterinário...
Posted by Dia at 10:28 a.m. 0 comments
Hoje estou muito perturbada, a minha taradisse compulsiva por efemérides só me faz mal.
O que são dois meses? Não é nada... Dá-me vontade de bater com a cabeça contra as paredes, por causa da ridicularia que é esta minha triste história de um amor literário por correspondência que não teve um final feliz de conto de fadas (já tenho quase trinta anos, sou mãe, são requisitos mais do que suficientes para ter juízo). Mas as paredes são de tabique, fragilíssimas, e eu estou a pagar a Martinha às mijinhas, em milhentas prestações até daqui a 49 anos, mais coisa menos coisa, e tenho que estimá-la - já basta o que fiz ontem na parede do hall, a tentar esconder, com molduras de retratos da minha família disfuncional, umas marcas de há dois meses e um dia atrás e, agora, a entrada parece mais um queijo suiço, do que outra coisa qualquer.
Socorri-me, então, de uma pilha de lençóis acabadinhos de sair do estendal. Como não tenho tábua de passar a ferro na Martinha (nem terei; para isso é que eu contratei a engomadoria; só passo lençóis e é quando estou à beira de um ataque de nervos, de um colapso emocional), estendi uma toalha de banho na mesa de vidro temperado que já se queixa de ter muito pouco uso nesta casa - é uma vergonha: desde que me mudei para cá ainda só fiz dois jantares - e passei, desenfreadamente, três jogos de lençóis de casal (o que é uma ridicularia também, porque é que eu tenho uma cama de casal se sou solteira e se continuo a dormir no meu pedaçinho sem ultrapassar as fronteiras para a metade direita da cama, mesmo quando tenho noites agitadas de pesadelos), à procura de alguma paz e clarividência. Nenhuma delas veio, mas os lençóis ficaram impecavelmente passados a ferro.
Amanhã sigo o rasto do "professor" a freguesias sem bairros sociais e com gente menos feia. Até que enfim... Já não posso com urbanizações no âmbito do Programa Especial de Realojamento...
Posted by Dia at 11:48 p.m. 4 comments
Há dois meses e dezassete horas atrás (and counting) alguém me disse assim: "E se eu desse uma fugida aí (...)?". É uma frase que eu tenho dificuldade em esquecer.
Dois meses depois, já não estou a fazer um destaque de duas páginas sobre os condomínios fechados de Lisboa, "subi" na vida e ando atrás do candidato social democrata à Câmara de Lisboa por onde quer que ele vá - já conheço Chelas como a palma da minha mão, e rio-me quando o senhor diz que quer chamar para ali a classe média.
Dois meses depois, tudo o que resta são momentos.
"Moments lost in time like tears in the rain", diz, prestes a morrer, o andróide Roy, interpretado pelo Rutger Hauer, no "Blade Runner" (um holandês que me fascina há muito mais tempo do que tu, Vring, desde que era pequenina e via compulsivamente o "Lady Hawk", com a Pfeiffer e o Matthew Broderic - tenho que ver se arranjo isto em DVD).
Os andróides Nexus 6 do Blade Runner têm dois tipo de memórias: uma artificial, introduzida pela empresa Tyrell e outra referente a tudo aquilo que, de facto, viveram. É esta última pela qual o andróide Roy chora, antes de soltar uma pomba branca pela noite. E eu também.
Posted by Dia at 7:28 p.m. 3 comments
Hoje vamos, de certeza, bater mais um record diário...
Posted by Dia at 10:11 a.m. 5 comments
Domingo.
Dispensaram-me de seguir o Carmona como cão farejador.
Ainda bem, precisava de descansar e o dia não começou da melhor forma: saltou-me um papagaio para cima e devorou-me o braço.
Foi, aliás, um fim-de-semana de marcas corporais. No sábado, ao telefone, a assessorizar, espetei uma tampa de uma caneta na mão esquerda, gritei pelo menos vinte vezes caralho e foda-se com o assessor na linha telefónica, até que uma coleguita me arrancou a tampa para espanto e horror das demais que assitiram ao espectáculo horrendo (não tenho nenhuma explicação lógica para o mistério da tampa perfuradora, as coisas estranhas sucedem-se).
A grande novidade do fim-de-semana é que a minha mãe quer lançar a sua candidatura à presidência da República. Votem na Magui e ela promete mandar todos para o caralho e arranjar um cú novo para toda a gente. Diz a senhora minha mãe que os filhos da puta lá estiveram, as mães deles também, agora estão lá os paneleiros e está na hora das mulheres honradas.
Amanhã há mais.
Posted by Dia at 11:58 a.m. 1 comments
A Qui Qui diz que passa tempo demais a pensar nas impressões corporais do ser alado que esbarrou na porta da Estados Unidos (e há uma segunda impressão corporal, também com asas, a mais de 2,5 metros de altura, que eu fotografarei assim que possível) e eu compreendo-a perfeitamente.
Não sei se é coisa das Dianas, mas também não me sai da cabeça o fenómeno quase paranormal, até porque a senhora que faz a limpeza lá no prédio (que é das melhores pessoas do mundo, acreditem) está de férias e o bicharoco ainda está lá para quem o quiser ver.
O manualdedeus estreou-se nos comments neste quintal (seja muito benvindo; este blog, assim como o seu, tem leitores mudos e com uma qualquer parilisia nas mãos que os impede de comentar o que aqui se escreve e eu nem escrevendo sobre sexo consigo encher as caixas que o Blogger disponibiliza para o efeito, mas também já me habituei à plateia silenciosa, espiolho os seus movimentos através do statcounter, comove-me, Andy, que cá tenhas vindo hoje às nove e picos da manhã), e avança com uma explicação que me agrada particularmente, a de um anjo pequenino que atravessou a matéria translúcida do vidro "como se de ar se tratasse".
Gosto de pensar que é o anjo da minha Carolina que anda sempre de vigia por aqueles lados, velando-lhe o sono, afastando os sonhos maus - ele deve ainda estar na Unidade dos Cuidados Intensivos do Hospital de São Miguel arcanjo, algures entre o céu e a terra, porque hoje ela teve muitos pesadelos -, protegendo-a de coisas que eu não vejo, que não dependem mais de mim.
"Anjo da guarda, minha companhia, guarda a minha alma de noite e de dia. Anjo da Guarda, minha companhia, não me desampares, nem de noite, nem de dia" - vocês não imaginam quantas vezes eu, descrente, repeti esta lenga-lenga, no quarto 615 do Hospital Particular de Lisboa, durante três longas madrugadas, a Carolina com horas de vida, o bébé mais bonito de toda a freguesia de São Sebastião da Pedreira, a dormir ao meu lado e eu agarrada ao anjo da guarda de prata que a minha mãe (outra descrente) trouxe para a minha filha no dia em que ela nasceu, dia em de Nossa Senhora da Conceição (faça sol e chuva não, mas choveu o dia inteiro), o anjo preso ao meu pulso com uma fitinha de cetim branca e eu a pedir-lha ajuda e paz nas desventuras.
E ando zangada com Deus, não falamos há muito, mandei cortar a assinatura, rescindi o contrato de prestação de serviços, mas, de vez em quando, sei que ele ainda olha por mim e põe, no meu caminho, anjos de carne-e-osso para me orientarem, para me protegerem, anjos que às vezes têm tatuagens, outras vezes têm mesmo cara de anjos, são perfeitos e irradiam luz (e quando estou com eles, com os que não parecem anjos e com os outros que é de caras que perderam as asas nesta reencarnação, ando sempre à procura de um rasto de penas).
Eu olho para aquele vidro, obsessivamente, e também não me parece ser possível um pombo; os pombos são singelos, não têm aquela corpulência do "desenho" no vidro. E naquele prédio não há ninguém genial (à excepção do meu irmão Leonardo), são todos velhos, mais velhos que sei lá o quê, não é obra de nenhum dos inquilinos da Magui.
Olho para as asas, lindamente impressas, reviradas, perfeitas, agradeço por não ter enlouquecido, de elas estarem lá mesmo, e aceito que não vou desvender o mistério. Seja um anjo. Agrada-me essa imagem. Se calhar os anjos não deixam penas pelo caminho. Ficam impressos nos vidros da porta da nossa casa.
[e deixem-me partilhar esta rima linda de pé-quebrado, com a qual o JBA, me presenteou neste início de tarde: Os peidos saem do cú/ Os pombos dos pombais/ Os pombos voltam sempre/ Os peidos não voltam mais]
Posted by Dia at 5:02 p.m. 4 comments
O dia de hoje dava um filme.
De terceira categoria.
Já imagino, iluminação à portuguesa, falas mal dobradas, sem coincidirem com a a dança dos lábios dos actores - esses seriam feios, porcos e maus, com guarda roupa pobríssimo -, planos mal paridos, com os microfones a aparecerem na cena, cenários surrealistas, erros de racord a cada minuto - num plano estou de cabelo apanhado com uma banana, noutro com ele solto, encaracolado da humidade, a chegar à tatuagem -, banda sonora pavorosa - que tal Shakira? ou os DZRT? -, argumento inexistente.
O dia de hoje dava um filme, com polícias, com carros a serem rebocados, com insultos a automobilistas e peões, o título podia mesmo ser "Road rage", até tenho medo de sair do pasquim, pegar no Idea e que me caia um bloco de 16 toneladas, ou que ele não esteja no lugar ilegal onde eu o deixei, ou que tenha um papel branco da PSP no pára-brisas, ou um "piercing" amarelo na roda dianteira (marca finíssima de joalharia automóvel, EMEL - empresa merdosa de estacionamento de Lisboa).
Durante toda a semana passada, a semana dos trágicos acontecimentos, voltei a ter sorte ao estacionamento. Sete dias consecutivos a deixar o carro à porta de casa, à porta do jornal, fora das garras da famigerada empresa municipal. Esta semana, voltou o azar, mas a sorte ao amor, cadê, demónio do estacionamento?????
A inspiração está um bocadinho melhor, ontem fiquei horas deitada no chão da Martinha a olhar para o tecto, à procura de uma qualquer coisa para escrever, fiquei ali, cabelos estendidos sobre a madeira envernizada, imagem bonita, digna de filme europeu, com uma qualquer pianada do Nyman - talvez a 15, do Piano, The sacrifice -, ando a fazer contas a vida, ver se consigo viver com menos 107 euros por mês, se abdico totalmente de comprar sapatos e roupa, ou se simplesmente páro de fumar (bastava isso, sim senhora, pode mesmo ser por aí), para no lugar de um quarto de vestir a transbordar (apesar de eu me ter queixado, ainda hoje, que não tinha nada para vestir), ou de uns pulmões negros que se revelararão no próximo raio x toráxico que a minha entidade patronal me mandar fazer
(tinha 21 anos quando fiz o primeiro, e o técnico de disse-me que eu tinha uns pulmões muito bonitos. Eu achei que era um dos piores piropos que poderia ouvir em toda a minha existência; perguntou-me se eu fazia desporto de alta competição, eu ri-me alto, apontei para o diámetro monumental da minha anca e já convencida que era a pior cantada de sempre disse, sem paciência, "Acha???". Mas ele insistiu, "sabe, assim como há pessoas bonitas e feias por fora, também há pessoas feias por dentro". E hoje, uma meia dúzia de frases no meu Gmail, fez-me sentir a pior pessoa de todas, mas tenho uns pulmões bonitos, valha-nos isso, "Canta?", perguntou o técnico daquela clínica privada, e os meus dois pulmões, impressos numa chapa negra, iluminados por uma luz fluorescente, e eu: "Canto, sim". "Está tudo explicado, por isso é que tem estes pulmões belíssimos, concluiu ele),
e se eu conseguir despojar-me de todas essas futilidades de burguesinha tonta, a música que eu oiço desde sempre na minha cabeça passará a ser traduzida pelas minhas mãos. E estes dedos, que sabem de cor o teclado "qwerty", que trazem até vós o que me vai na alma, estes mesmos dedos vão fazê-lo de outra forma - passarei não a ler livros, ou notícias, mas sim pautas, colcheias, breves e semi-breves.
Tenho só que me propor a isto - eu sou boa em tudo o que quiser; e tenho a certeza que seria muito boa na música e, sobretudo, feliz.
Tenho que arranjar os 107 euros. E os outros largos milhares de euros para comprar o instrumento; mas mesmo aí não me consigo decidir: piano, sim, era a primeira opção, estou a imaginar-me a lutar com as variações Goldberg durante meses e meses a fio, a levar à loucura a vizinhança com escalas intermináveis. Mas tenho muito medo que seja tarde demais para o piano.
Guitarra, a mais fácil, a mais barata, a que me permite ir para uma estação de metro bonita e angariar fundos para pagar as aulas.
Violoncelo, um velho sonho, mas só tem piada se conhecesse um triozito de violinos para acompanhar o "baixo" da música clássica.
Acórdeão. Por estar ligado à música tradicional portuguesa e ao Tiersen. Por ser dos instrumentos mais sensuais à face da terra. Por me emocionar sempre que algum puto romeno entra numa carruagem do metro, ou quando um ceguinho arranca harmónicos na Rua Augusta.
O meu chulo literário fica assim, na minha vida, por me ter posto a tocar um instrumento.
Falta decidir qual.
O dinheiro há-de arranjar-se.
Posted by Dia at 7:03 p.m. 1 comments