terça-feira, fevereiro 27, 2007

O administrador do condomínio

O senhor Domingos é tal e qual como imaginado, de raça pequenina, miudinha.
Sabe-se lá porquê, nasce-se com este dom de adivinhar a principal característica fisionómica de um interlocutor, através de um timbre de voz transmitido via GSM.
É uma coisa que corre na família; a Magui, por exemplo, nunca falha – ouve um gato recém-nascido a soltar os primeiros miados e, prontamente, por artes mágicas, sentencia se é um menino ou uma menina. Em 99 por cento dos casos acerta.
Não nos serve de nada, não é um talento suficientemente inebriante para fazer cabeça de cartaz de uma feira de aberrações, ou seja, não dá para ganhar a vida com isto, e depois também não é coisa que convença nenhum empregador numa entrevista para um cargo que pague mais do que o valor hora de uma empregada doméstica.
O senhor Domingos foi um erro de “casting”. Administrador do condomínio durante sete anos fugiu à obrigação de convocar reuniões, cobrar mensalidades, elaborar planos de actividades e adjudicar reparações em dois prédios anteriores a 1850 que suplicam por ajuda para não caírem aos pés da esquadra de Santa Marta.
O senhor Domingos deixou a casa toda desarrumada e agora a sindicalista deslumbrante é, também, administradora do condomínio. Onze mil euros de receitas não cobradas. Seis anos de contas por fazer. Adjudicações de suspeitas empreitadas a trolhas seus amigos.
O senhor Domingos sorriu com a sua boca pequenina, quando escapou ileso a uma moção de censura dos condóminos pela sua fraca performance à frente dos desígnios dos prédios número 84 e 86. Pensou com os botõezinhos pequeninos da sua também pequenina camisa de xadrez – desta já me safei. Não fiz a ponta de um corno, não apresentei contas, acumulei dívidas, e estes totós nem um raspanete à minha fraquinha gestão deixam na acta da reunião.
Saiu todo pimpão, o senhor Domingos. Nessa noite, ficou acordado até à uma da manhã; parecia uma criança em véspera do Carnaval.
O senhor Domingos, não quero ser má-língua, deve cheirar mal da boca. Mas o pior de tudo, é que infringiu todas as alíneas do código de conduta e de ética da Ordem dos Administradores de Condomínios. É uma vergonha para a classe. Terá que ser exterminado.
Ou então torturado com requintes de malvadez, qualquer coisa como passar à mão e com caligrafia exemplar todas as actas dos condomínios dos imóveis sitos na freguesia de Coração de Jesus. A administração de condomínios é como uma sociedade secreta, exige ainda mais fidelidade que a própria máfia. Já sei – o senhor Domingos devia ficar sentado à porta da Associação Lisbonense de Proprietários com um chapéu de burro na cabeça. Mau administrador de condomínios.
As crianças deviam escarrar à porta do senhor Domingos.

13 dias sem postar




Mas já cá venho. Porque a sindicalista deslumbrante é agora a administradora do condomínio.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

O senhor Guilhermino III - a saga continua e está quase a acabar

Senhor Guilhermino, não me quer dar o seu número que eu ligo-lhe de volta, é para não gastar mais dinheiro…

O senhor Guilhermino estremeceu – contaram-se três segundos de silêncio total –, recusou-se a desligar a chamada e gaguejou qualquer coisa como eu estou de olho na porta; se a mulher entra por aqui e me apanha agarrado ao telefone é sermão e missa cantada, não sei porque tanto se amofina o raio da mulher, quem é que paga a conta, quem é que lhe paga, aliás, as idas ao cabeleireiro? (e do outro lado do bocal, numa janela sobre a Andrade Corvo, houve também uma pausa, a mente elevou-se para até ao tecto e pôs-se a visualizar um cego de olho na porta).

Eu é que já fazia um xixizinho, raisparta o drenante com sabor a anis, mas o senhor Guilhermino não podia arriscar desligar o telefone; sabe-se lá há quanto tempo ninguém o escutava sem delongas. Então continue, senhor Guilhermino, estou aqui, sou toda ouvidos.

Branco Rodrigues teve mais sorte que o senhor Guilhermino. Os pais, no final do século XIX, não o acharam amarelo, ou menos filho só porque os seus olhos nasceram sem o dom de ver.
Branco Rodrigues, leio algures no escuro da net, enquanto danço o fandango com vontade de ir mudar a água às azeitonas (que bonita expressão) e oiço a história da vida do senhor Guilhermino contada em duas horas e picos, foi o primeiro grande impulsionador da valorização dos cegos em Portugal. Em 1896 criou uma aula de leitura e de música no Asilo de Nossa Senhora da Esperança, em Castelo de Vide. Um ano depois, numa sala cedida pela Misericórdia de Lisboa, instalou outra aula de leitura.
No redondo ano de 1900, num andar da Escola Comercial Rodrigues Sampaio, cedido por Despacho Ministerial, abriu a Escola Intelectual e Profissional de Cegos, que esteve instalada em vários edifícios e acabou por transformar-se no Instituto de Cegos Branco Rodrigues, em São João do Estoril – a mesma casa com vista sobre o mar (muito relevante para quem não vê) onde o senhor Guilhermino teve que dormir o seu sono angélico, de 1927 a 1947, com as mãos coladas ao pescoço. Em 1903, os cegos do Porto também passaram a contar com a ajuda deste benemérito.

Branco Rodrigues nasceu num berço de ouro, e gastou a sua fortuna na dignificação dos cegos portugueses. É a ele, e a um generoso funcionário da Imprensa Nacional cujo nome não aparece em nenhuma das páginas pescadas pelo Google, que se deve a primeira impressão em Braille, na viragem do século XIX, descubro enquanto escrevo tudo o que o senhor Guilhermino me conta (e, não contem a ninguém, mas ainda consigo, para além de ler, escrever conteúdos totalmente distintos, mascar pastilha com destreza).

O senhor Guilhermino não conheceu Branco Rodrigues, mas chama-lhe pai. Mas em 1947, vinte anos depois de os seus verdadeiros pais o terem abandonado numa casa onde se ouvia o rugido do mar e o pouca-terra do comboio, e terem apanhado o vapor para o calor tropical do Brasil, o senhor Guilhermino era um homem feito, vinte e sete anos de idade e uma tez mais rosada, era pois hora de partir, era a hora de partir porque havia mais cegos em lista de espera para aprenderem a ler pautas sem olhos (como raio é que um cego lê uma pauta?), e o senhor Guilhermino não teve outro remédio senão sair da sua casa, sair a contragosto, com uma mala na mão e um violoncelo noutra.
E foi para a rua, a verdadeira casa dos cegos.

Então o que é que me podia esperar? Fui para a rua, fui tocar para a rua e pedir esmola. As pessoas deitavam as mãos à cabeça, diziam, não há direito, não há direito.
Foi nesses dias, anos que se seguiram que o senhor Guilhermino conheceu a sua mulher, a tal que lavava casas a escova a dois escudos por mês.
A minha mulher não era deficiente mental (?! Lá estou eu de boca aberta a ouvir o senhor Guilhermino), era atrasadinha, mas era muito humana, chorava, chorava mesmo muito, chorava pelos meus olhos que não a viam.

Eu dizia-lhe: não te preocupes. Tu és a minha máquina; eu sou o teu cérebro.

E a vida seguia assim, ela guiava-o, era os seus olhos, e ele era o seu pensamento. Os primeiros anos de casados viveram numa casinha da câmara em parte incerta e de onde foram expulsos por circunstâncias que faltaram apurar num telefonema de duas horas com uma perfeita estranha.

A coisa ficou torta numas pequeninas águas-furtadas nas Portas de Santo Antão.

Imagino sim o que é subir umas escadas estreitinhas até ao quarto andar, senhor Guilhermino. Pois, de facto, de olhos fechados nunca experimentei…

O barulho dos canos era insuportável. Sabe que os cegos ouvem coisas como os cães, coisas que mais ninguém escuta…

A vida fazia-se, fez-se sempre na rua. Certo dia, depois do 25 do 4 porque o senhor Guilhermino a meio deste vórtice temporal disse maldito 25 de Abril, por isso é que eu digo: MALDITO 25 de ABRIL (está em caps, porque a voz do senhor Guilhermino elevou-se, só se eleva, de facto, para falar mal da revolução dos cravos), Gilberto Almeida Monteiro, vestia camisa branca e ziguezagueava com o seu carro pelas ruas estreitas do Intendente.

Este conhecido marinheiro do Intendente era um homem à frente do seu tempo. Muito antes de inventarem a PlayStation e muito menos o popular joguinho Grand Theft Auto, onde se ganham pontos a atropelar as avozinhas que passeiam seus netinhos em carrinhos de bebé, já ele fazia pontaria aos ceguinhos (que ao que constava na época valiam pontos a triplicar).

Atropelou-me e ainda me chamou nomes feios. E eu também lhe chamei os mesmos nomes que ele nos chamou, ora pois, não sou de me ficar.

Cego tombado na calçada, mulher aos gritos, um carro de marinheiros divertidos com a cena rocambolesca (e uma série de pormenores que eu não consigo decifrar da minha caligrafia de há mais de um mês atrás). Não o deixem fugir que eu estou ferido, mas nisto sai do carro um outro de seu nome António Coelho, de camisa grenat (mais referências cromáticas vindas de um cego; é impressionante a memória visual deste cego de 87 anos), e ia a dar um pontapé na barriga da minha mulher, quando saem da taberna muitas prostitutas, que lhes cercaram o carro e deram murros no capot, e aí os valentes marinheiros trancaram-se lá dentro e já não eram tão valentes.

Vieram dois polícias, que viram tudo mas fizeram a vista grossa, abeiraram-se do carro, eu caído no chão, e eles com as mãos atrás das costas (impressionante as coisas que este cego viu há mais três décadas atrás), era só cagufa, porque estes marinheiros eram muito conhecidos na zona do Intendente.

O polícia mais novo já levava dinheiro na mão e o sub-chefe Barata, quando cheguei à esquadra para apresentar queixa contra os malandros, também já tinha a carteira bem recheada de notas.

O senhor Guilhermino deve aos marinheiros Gilberto Almeida Monteiro, de camisa branca, e António Coelho, de camisa grenat, um volte-face do seu destino e da sua mulher que não era deficiente mental, apenas atrasadinha.

Mas esse, só há-de ser contado no próximo episódio da saga do senhor Guilhermino (não queriam mais nada, duas horas e meia de patuá telefónico reduzido a dois posts…)

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Os pequenos salazares

Tenho melhor que fazer. Tenho, por exemplo, que contestar a multa de há dez dias atrás e convencer o Director Geral de Viação que fui autuada injustamente (o sacaninha do polícia vai levar na próxima lua cheia com o feitiço da impotência e ai de mim que dou em criminosa se descubro que viatura conduz ele, aqui na pacata rua de Santa Marta).

E eu até nem ia escrever sobre o referendo para não me chatear com os meus amigos do sim. E só o fiz porque sofro de stress pós-traumático, apesar de nunca ter interrompido a gestação de um filho meu. Sofro 15 anos depois da tarde na saleta da Paula e da descarga do autoclismo e choro descontroladamente pela minha irmã que não nasceu.

Irrita-me, sobretudo, que o post mais abaixo seja o mais comentado deste blogue, suplantando um dos mais bonitos e mais bem escritos desta horta (este).

E depois tenho o comentário do Filipe a dizer que aquele foi o primeiro texto do (T)ralha que detestou, e isto apenas, presumo, porque tenho o azar de não pensar como ele, e há ainda o telefonema do Trigo de Abreu, o desaparecido Trigo de Abreu, o muito saudoso Trigo de Abreu que, por acaso, não leu o post das três dezenas de comentários, mas que ficou pessoalmente desiludido com esta sua amiga por ela no próximo Domingo ir desenhar uma cruzinha na opção Não. Debaixo de uma chuva torrencial ouço que sou irracional por votar não, que afinal não sou tão boa pessoa como penso que sou, porque tenho o desejo mórbido de ver mulheres na cadeia.

Há um pequeno Salazar em cada um de nós.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

O cavalinho da chuva

Tirem o cavalinho da chuva, todos os que lêem esta gaita e que partilham o mesmo edifício com vista para a Andrade Corvo: ninguém, nem mesmo os sindicalistas deslumbrantes, legalmente protegidos no próximo biénio pelo estatuto de delegados sindicais, mas mesmo ninguém nestes milhares de metros quadrados pode respirar bem fundo – e não podem mesmo respirar fundo, porque a qualidade do ar, apesar de ninguém fumar despudoradamente como antigamente, é do piorzinho que já se viu, regrediu aos tempos de umas instalações na Quinta do Lambert cobertas de material radioctivo, metem 70 tipos onde havia 40 o que é que querem? –, ninguém pode miraculosamente deixar de roer as unhas por causa do nervoso miudinho, ou de sentir borboletas nocturnas no estômago encandeadas por um holofote de mil watts sempre que o telefone toca, não pensem que ninguém vos vai chatear porque o vosso salário é uma migalha, ou que não vos vai sair a rifa porque são caladinhos de natureza e nunca levantaram ondas; pior, não se sintam protegidos pela graça do divino espírito santo lá porque são engraçados ou porque há tempos caíram em graça; por favor, nem ousem planear o nascimento de um filho ou mesmo trocar de carro.

Olho para a esquerda e está a filha do grande engenheiro. Olho para a direita e está o britânico pago a peso de ouro de 19 quilates que decidiu que o logótipo do meu jornal passa a ser um P vermelho. E se olhar para trás lá está o meu presidente. Passam o dia fechados na sala envidraçada com a vídeo-conferência ligada.

Ninguém sabe o que tanto discutem, porque é que tanto reúnem.

A cena repete-se. E mesmo depois de se repetir 63 vezes nos últimos três meses não deixa de doer assistir às lágrimas de quem vê a dedicação de quase duas décadas de vida reduzida a um cheque do BPI.

Ninguém está a salvo.
Hoje eu soube que ninguém está a salvo.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Declaração de voto

A Célia viu-se grávida quando eu ainda só pedia três no bate-pé e passava as tardes sentadas num Morris Minor abandonado na rua 2, uma rua do Bairro de Alvalade que tem nome de poeta há muitos anos, mas que todos ainda conhecem como rua 2.
E foi dentro do Morris, eu ao volante a fingir que sabia pôr mudanças apesar de não saber qual era o pedal da embraiagem, que a Célia nos anunciou que naquela tarde ia correr como louca, ia fazer abdominais até as suas forças se esgotarem, que ia pular na sala com uma corda de ginástica até aquilo se desprender. A Célia era ginasta de alta competição e o desmancho não ia ser feito num vão de escada, iriam bastar oito horas de treino aeróbico violento.
E todas as ocupantes do Morris estavam lá, na saleta da Paula onde se faziam sessões de espiritismo numa mesa de pé-de-galo, quando o feto se soltou das entranhas da Célia. E todas ouviram o barulho do autoclismo e nunca mais falaram dessa tarde, aliás, nunca mais falaram umas com as outras, a nossa infância morreu ali, foi-se com a descarga da sanita e com a pasta ensanguentada.

Por outro lado, a prima solteirona da Ana já estava habituada. Uma vez por ano, setenta contos, e um dia deitada na cama com direito às visitas de todos os familiares mais próximos no apartamento de dois quartos no subúrbio. Era esta a receita de um encontro anual com um amante marinheiro que teimava sempre em resultar numa gravidez. E eu lá os acompanhei, lençóis de flanela, acenos de desaprovação com a cabeça, a pílula, o preservativo, porquê, e as lágrimas da outra a rolarem para a base de um rosto pálido.

O João diz-me na cama, saca dos seus conhecimentos de seminarista por entre o edredon, diz-me que os filhos que não nasceram ficam no limbo a tremer de frio para toda a eternidade. E eu penso na minha irmã com nome de fada que foi aspirada não fosse ser mongolóide ou coisa pior, e desato a chorar porque ela merecia o risco, merecia ter dezassete anos e eu nem sei se era uma menina, nunca tive coragem de perguntar.

Aos vinte e quatro foi a minha vez.
Não tomava nada, não exigi latex porque estava em rota descendente de auto-destruição, tanto fazia: diariamente engolia duas tomas de sertralina, bebia, fumava e escrevia sobre o Código do Trabalho, comprava toneladas de sapatos caros e a vida era isto, ninguém me convencia que voltaria a sorrir de novo.

Por causa de um feto estive cinco meses na cama, em casa, em repouso absoluto. Perdi o meu posto de trabalho (às 37 semanas de gravidez, saí de casa, fui a Picoas e constatei que estava tudo encaixotado e que já outro jornalista dedilhava atrás da minha coluna).
E por duas vezes – às 24 e às 26 semanas – entrei numa urgência de obstetrícia prestes a parir, e os médicos, em Santa Maria, caso sirva de algo este detalhe, minimizaram a coisa que trazia dentro de mim, que não era viável, que o meu organismo me estava a avisar de algo que eu devia escutar e aceitar, e das duas vezes assinei um termo de responsabilidade e dei entrada numa urgência privada.

O meu feto tem 38 mais nove meses agora. É uma menina loira de olhos azuis que herdou a mesma propensão às anginas que a mãe. Às dez semanas, eu nem tinha a certeza de quem seria o pai, mas tinha a certeza que naquele ecrã, onde fixei o olhar por dois minutos e sorri ao discernir dezenas de pontapés, estava uma vida.

Compro menos stilettos, pois compro, o ordenado não chega ao dia 15, é verdade, ganho cabelos brancos e perco anos de vida em corredores do Tribunal de Menores e afins, oh lá lá se ganho e se perco.

No sofá, cheia de febre e a dormir, está a não planeada Maria Carolina Ralha. Que eu quase perdi às 24, às 26 e às 37 semanas de gestação intra-uterina. Que me valeu uma cesariana de urgência sem anestesia e uma cicatriz no ventre [o aparelho do CTG a apitar por todo o lado, a pulsação do feto a cair dos 160 para os 60, a enfermeira Deodata a gritar chamem o doutor Moniz, a desligar os alarmes, outra a cantar-me ao ouvido uma canção do Carlos Paião, uma a rapar-me os pelos púbicos, e a minha mãe num elevador com o obstetra e eu no outro a chorar sem fazer barulho, e depois um bloco operatório de mármore rosa, o doutor Moniz com pulover de losangos, eu a dizer à Magui, não consigo respirar, e a desmaiar logo depois de ver 2,9 quilos de gente ensanguentada por cima de um lençol branco]. A Maria Carolina que, em Abril de 2003, tinha dez semanas e era do tamanho de um feijão.

O (T)ralha vota não no referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez até às dez semanas de gravidez a pedido da mulher, porque acredita que cada vida é única e irrepetível e que, em concreto, aquela que dorme no sofá com uma otite e uma amigdalite agudas vale bem mais do que três pares de stilletos por mês.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

O parecer e as unhas com pós de perlimpimpim

E quando a sindicalista deslumbrante pediu à sua sombra muito mais magra e muito mais loira que ele se empoleirasse no escadote centenário que veio de brinde com um apartamento pombalino em estado de semi-ruína, nada fazia prever que os astros preparavam nas seguintes 48 horas uma surpresa bem maior do que duas dezenas de vernizes de cores e feitios esquizofrénicos, guardados num baú de madeira.
Guardados religiosamente numa pequena caixa que também esconde, lá em cima, na última prateleira, a três metros de altura, ao nível da Duque de Loulé, algum cotão de mágoas; vernizes de todas as cores, com estrelas e purpurinas, verdes, azuis, amarelos, e até uma edição especial psicadélica da Dior, que reage, ou pelo menos reagia, há cinco anos atrás, à luz negra das discotecas; duas dezenas de frasquinhos de vidro guardados na secreta esperança que um dia as unhas deixassem de se esfarelar como uma rocha de talco; escondidos no baú, fechados a sete chaves, vinte vernizes malcheirosos, dos mais caros aos das lojas dos 300, à espera que um anjo pequenito me chegasse – eu não sabia, quando os tranquei, se ia ter um anjo loiro, ou um moreno –, e dissesse assim, depois do jantar: Quero pintar as unhas para ficar uma princesa.
A pequenota decidiu e a sindicalista deslumbrante pintou as unhas com pós de perlimpimpim. Unhas de fada, com brilhos de mil cores. E foi com unhas mágicas que a sindicalista deslumbrante se cruzou numa viagem de elevador silenciosa com o presidente do conselho de admiração.
Ele cortou o silêncio que se ouvia num quadradinho da marca Schindler e disse: O que é que achas?
E o que a sindicalista achava mesmo é que não o conhece de lado nenhum para o diálogo fluir na segunda pessoa do singular, e por isso cerrou os dentes quando se preparava para responder: Acho que o respeitinho é bom e eu gosto.
Na verdade, o presidente do conselho de admiração estava à rasca porque não gostava de silêncios de elevador e, seguramente, estava-se bem marimbando para a opinião da sindicalista deslumbrante sobre umas folhas de papel impressas a cor que vão estar nas bancas de todo o país a 12 de Fevereiro, desde que ela continue a trabalhar bem e barato e sem chatear muito, e era isso é que o fazia sorrir naquele cubículo vidrado – e o presidente do conselho de admiração tem dentinhos pequeninos, diga-se a despropósito.
Tenho medo, disse a deslumbrante sindicalista que mais uma vez teve vontade de picotar os pulsos porque não estava mascarada de deslumbrante, estava, na realidade com o cabelo em desalinho, mas desculpou-se rapidamente a si própria, já que nada faria supor que teria encontros imediatos de terceiro degrau com o presidente do conselho de admiração, até porque ia no elevador e não nas escadas e o terceiro degrau era do outro lado, na saída de emergência.
Tinha medo. Tinha tanto medo daquilo como de fazer um implante de silicone. É uma questão de hábito, deveria ter ela dito, teria sido a melhor resposta, e até já estava um post nesta tralha escrito sobre o assunto, rais partam que não lhe ocorreu, deve ter sido de não estar particularmente deslumbrante nessa manhã.

O senhor H. é o Ambrósio lá de cima. Coxeando até ao novo posto de trabalho da sindicalista deslumbrante perguntou-lhe baixinho: “Então? O que é que dizia a Inspecção-geral do Trabalho?”

E a sindicalista deslumbrante franziu o sobrolho e não teve tempo de dizer: “Sobre o quê?”, porque o senhor H. ficou nervoso e antecipou-se com um: “Não me digas que não recebeste?”.
A sindicalista deslumbrante gosta do senhor H. Até assumir estas lides sindicais, o contacto entre o senhor H. e a sindicalista deslumbrante era nulo, bom dia boa tarde, ah, sim, e de dois em dois anos, como manda a lei, o empregador da sindicalista deslumbrante fazia umas consultas de medicina no trabalho, e era sempre o senhor H. que as marcava, aquilo era uma fantochada, por mais que a sindicalista deslumbrante se esforçasse para chocar os médicos, eles, porém, só eram pagos para escreverem a vermelho APTO.

Não, não tinha recebido, e nunca tinha visto o senhor H. a andar tão depressa e sem mancar. Agarrou-lhe no bocal do telefone, ligou para não sei quem, onde é que está a carta da Inspecção-geral do Trabalho, seu burro, ela já não é dessa secção há mais de três anos – e nisto, a sindicalista deslumbrante maravilhada e boquiaberta com o notável conhecimento do senhor H. relativamente ao seu percurso profissional, saberia também o seu director a mesma cronologia? –, a Diana é a presidente da Comichão de Trabalhadores, é sempre a ela que têm que ser entregues todas as cartas – e com esta de ser presidente, a sindicalista deslumbrante sorriu –, e desligado o telefone, a carta registada apareceu como por magia no piso que fica acima do novo local de trabalho da deslumbrante defensora dos direitos dos trabalhadores.
A sindicalista deslumbrante sentou-se numa secretária vaga da tal secção à qual não pertencia há mais de três anos. E leu. Tremiam-lhe as mãos e ela à medida que passava folhas, olhava para as unhas de fada, pintadas a pedido do anjo loiro, e pedia em segredo um milagre. Chegou à última folha, sem ler com a devida atenção as anteriores. Leu a conclusão: “sou de parecer negativo ao despedimento de fulana, por motivo de extinção de posto de trabalho.”
A sindicalista deslumbrante chorou de alegria abraçada a uma grande repórter de olhos azuis.

Foram os anjos que no último dia do prazo legal avisaram a sindicalista deslumbrante para chamar a Inspecção-geral de Trabalho. As tais epifanias de que ela se fartava de escrever neste blogue.

Não tinha garrafa de Veuve Clicquot para brindar. Sentou-se, no final do dia, na tasca da Dona Beatriz e bebeu um whiskey oferecido pela casa (e andava a pensar candidatar a Dona Beatriz ao concurso de melhor vizinho de Portugal no programa do Goucha na TVI). Brindou e riu com a satisfação do dever cumprido, mesmo sem saber que oito horas depois seria multada injustamente por circular na faixa do Bus, na Duque de Loulé. E ingenuamente pensou que o presidente do conselho de admiração teria mais tento na língua e que pensasse duas vezes quando lhe apetecesse dizer extinção do posto de trabalho.

Era mais uma vitória, era um manguito do Zé povinho ao presidente do conselho de admiração com unhas pintadas com purpurinas de mil cores.

Por esse mundo fora, ainda havia muita gente que se limitava a dizer: É aquela que tem um cu grande.

terça-feira, janeiro 30, 2007

[sem] mil

Sem posts, este blogue chegou aos cem mil.
O visitante 50 mil bisou a façanha.
Há-de haver posts. Façanhas da sindicalista deslumbrante.
Parabéns, (T)ralha.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Hábito

É uma questão de hábito.
É como lembrar-me de beber em jejum – e vinte minutos antes do almoço – a ampola laranja que queima gorduras e que sabe a capilé amargujado; é como acordar uns minutos depois das oito da manhã, ao segundo toque do despertador do Nokia azulito da saudosa lanterna (e eu continuo a recusar-me a acordar ao som do Nokia preto, o João faz-me a vontade, faz-me todas as vontades, atura todas as birras, está ao meu lado em todas as guerras, ele acerta o relógio do Nokia para as sete e quarenta e cinco, e ele toca e eu faço menu sete um um e meia cega determino que quero dormir mais quinze minutos e há de ser assim, há de continuar a ser assim, pelo menos enquanto o Nokia azul não se finar, enquanto não for lavado na máquina no bolso das calças como já aconteceu antes na história).
Mas se calhar estes também são uns hábitos idiotas.

Fuma-se menos, não se fuma ainda despudoradamente, e se o cigarro se acender à revelia seguramente aqui ninguém me culpará de um qualquer cancro. Atrás de mim há uma muralha de armários cheios de pastas cobertas por um manto de pó e de cotão, à frente, a ventoinha do Cerejo, na diagonal à direita, o gabinete do chefe supremo, depois há uma sala de reuniões com videoconferência onde perdi a voz no mês de Dezembro enquanto membro eleito da comichão de trabalhadores, a janela, a única janela que vejo, a que está longe demais, mostra-me aparelhos de ar condicionado espetados nas fachadas, não há gaiolas de periquitos como em Alfama, mas há marquises e idosas a estenderem cuecas cor-de-rosa.
Uma nesga de uma Livistona chinensis a sair de um terraço, telhas laranja brilhantes ao lado de betão e alumínio, e não vejo mais os plátanos que estão prestes a matar-me de renite daqui a mês e meio. Para quem não sabe, para quem não tem mesmo que saber, a Lisvistona é uma palmeira leque, e no fim-de-semana passado a cobertura de um prédio em Massamá ardeu, ardeu por completo, e o único ferido grave foi um polícia que se picou na perna com um ramo de palmeira, quem sabe se não seria uma Phoenix dactilifera, má sorte de um raio, nem uma queimadura para amostra, mas um arranhão de palmeira na perna a reportar, quem vai à guerra dá e leva, isto é como um bombeiro morrer afogado na albufeira, caramba, devia mas era ter estado calado, grande gozão que me saiu o médico do INEM, à frente, à minha frente, à frente da ventoinha, há televisores pequenos e uma prateleira cheia de cassetes VHS onde estão gravadas as notícias de ontem.
É uma questão de hábito, tudo é uma questão de hábito, aposto que a jornalista que usa calças pelo tornozelo apenas o continua a fazer por hábito, não pode ser por motivos estéticos, nem pela moda, é o habito, é o monge, e eu bebo litro e meio de água com quatro colheres de sopa medidas a olho de drenante de limão, fumo menos, escrevo menos, e quase que choro quando olho para a primeira página de um jornal que há-de estar nas bancas a 12 de Fevereiro.
É uma questão de hábito.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Interlúdio

Setas.
Há quem desenhe bolas. Outros travessões. Há ainda quem faça triângulos e outros sólidos geométricos. Não encontrei círculos.
Esta é uma pequena amostra das folhas rascunhadas que jazem em cima das secretárias dos colegas mais próximos do meu posto de trabalho (e hoje, é o último dia em que trabalho à janela da Viriato; subi na vida, subi um piso, passo a estar bem pertinho do patrão e longe da Viriato. Lamento-o profundamente).
Eu desenho setas. É mais forte que eu.
Três cadernos em cima da mesa, três caligrafias diferentes a cada folha que passa, todas desenhadas pela mesma mão, mas em algumas ocasiões, a mão fez dançar a esferográfica de manhã, como numa valsa singela, noutras, rodopiou no papel com um nadinha de tensão, e então a letra inclinou-se para a direita, como num tango, e depois há uns parágrafos, praticamente imperceptíveis, em que a caligrafia teima em não caminhar direita pelas linhas azuis dos cadernos baratos; estas letras foram escritos perto da linha da morte, do fecho antecipado em duas horas por causa de um encarte publicitário, perigosamente em cima da hora de encerramento de um colégio junto à Rotunda do Aeroporto.
Setas, setas, setas.
Agradeço as epifanias, o sussurrar dos anjos a alertarem-me para perigos, para maldades e, por vezes, a guiarem-me às escuras até ao meu destino.

O senhor Guilhermino ligou o número geral. Não foi nem a Fátima nem a São que lhe atenderam a chamada, porque a Fátima e a São também se foram embora, substituídas por um gravador. Agora anda tudo doido a premir do um ao nove no teclado, geralmente desistem, mas o senhor Guilhermino deve ter premido a combinação de números que abre o cofre do tesouro – 7 - 3 - 7 – e o meu telefone, enrodilhado de fios, tocou.
A voz era sumida, apagada, de início. O dedo indicador carregou com força numa tecla do telefone Nortel que tem desenhado uma grande coluna de audio.
Alguém me alertou para puxar do papel e da caneta. Era, certamente, uma grande história, impublicável. Tanto pior para as publicações pagas. Ainda havia um blogue para alimentar a migalhas de serviços mínimos.
O senhor Guilhermino ainda não tinha dito que era cego, e que as noites da sua infância tinham sido passadas com os braços cruzados ao peito, e eu não poderia sequer imaginar que os joelhos do senhor Guilhermino haviam de ser partidos por um marinheiro numa rua sombria dos Anjos. Eu não sabia nada disso, mas o papel e a caneta já estavam preparados para guardar a história do senhor Guilhermino, para gravar a sua voz sumida em letra miudinha.
Foi no verso de um fax da câmara de Lisboa. Três páginas para três horas de monólogo telefónico. Três páginas de papel fino e brilhante, escritas com uma letra minúscula, umas vezes escritas na horizontal, como nos ensinaram na escola à força de reguadas, outras na vertical e na diagonal, porque a mão sabia à partida que a narrativa não seria linear: o senhor Guilhermino começou mais ou menos pelo início, mas logo depois foi ainda mais trás, pulou várias vezes para o presente, se não me engano conjugou verbos no futuro, recuou, andou para os lados como caranguejo. Três folhas cheias de setas, guardadas religiosamente à chave, sem as quais eu já não saberia escrever as façanhas do senhor Guilhermino.
Andam comigo para todo o lado na mala Balenciaga. À espera do segundo capítulo.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

O senhor Guilhermino I

Aparentemente, já todos tiveram que aturar o senhor Guilhermino. Mas não cuidaram de saber e muito menos de reter o nome que consta no seu assento de nascimento deste homem que nasceu em 1920, nem tão-pouco tiveram a paciência de o ouvir até ao limite de duas orelhas escaldadas e metamorfoseadas à forma do auricular de um telefone da marca Nortel.

[E, entretanto, perdoem a ausência, mas houve crianças febris com amigdalites que se transformaram em otites, houve visitas surpresa de um cigano ítalo-brasileiro-irlandês no dia de aniversário do meu blogue, houve correspondência secular dos morgados de Mateus a ser revista no Ibook, e há e continuará sempre a haver corações tão secos e espalmados como os dos bacalhaus a lerem e a copiarem este blogue de fio a pavio – ai, ai, os direitos de autor –, com más intenções, com intenções cretinas, até, coisa que devia dar suspensão na Ordem dos Advogados, todo esse trabalho, um gasto supérfluo de energia para serem abatidas mais árvores (meus queridos eucaliptos, perdoem) e interpostos mais processos judiciais de má-fé, ah, sim, e há também muita estupidez à mistura, sendo que tudo isto atrasou a produção literária]

Todas as redacções têm um senhor Guilhermino. À parte do senhor Guilhermino, nós também temos a dona Clementina, que em 363 edições anuais impressas em papel de má qualidade, há-de nos fazer chegar pelo menos 300 cartas ao director, sim, cartas, nada de emails, mais eucaliptos abatidos, mais dividendos distribuídos à Portucel, mais um selo lambido com a língua, e no fim do ano e das três centenas de cartas, como é uma querida, a dona Clementina ainda envia uma caixa de chocolates.
E havia também um tenente-coronel da armada que escrevia uns faxes com uma caligrafia muito bonita, mas esse estava zangado com o mundo, e com alguma empresa cotada também, se não me falha a memória.
O Manuel Acácio, da TSF, tem senhores Guilherminos e donas Clotildes aos magotes, e eu já ouvi o caríssimo tenente-coronel através das ondas hertzianas no fórum TSF, mas o senhor Guilhermino, o meu, o que nunca ninguém teve pachorra para aturar durante duas horas e meia interrompidas por dois minutos para eu poder fazer um xixizito, é especial, deveras especial e eu descobri isso aos dois minutos de conversa e, como a conversa é como as cerejas, deixei-me estar e os meus ouvidos encheram-se de frutos vermelhos suculentos, retalhos de uma vida às cegas, que já conta com 87 primaveras apesar de o senhor Guilhermino não ter tido nunca a oportunidade e o privilégio de ver uma flor de laranjeira, ou um jacarandá em flor.

É. O senhor Guilhermino nasceu cego. Amarelo e débil, acrescenta ele, o que é muito estranho, na realidade, porque o senhor Guilhermino nunca viu a cor amarela, e assim sendo, vai-se lá saber porque é que uma referência cromática se assume como facto tão relevante da sua infância, mas, se calhar, em garoto cheirou uma mimosa em flor e ficou com a ideia que o amarelo é a cor que cheira a mimosa, e a flor da mimosa cheira bem, mas o que o que é demais chateia e a mimosa em flor às vezes tresanda tanto que até faz dor de cabeça.

O senhor Guilhermino nasceu cego dos olhos, mas há cegos que vêem muito, e o senhor Guilhermino vê coisas do arco-da-velha há 87 anos, e viu-as e continua a vê-las mesmo quando está de olhos fechados, porque a si, tanto lhe faz, e Deus não dorme, como os cegos, e alguma vantagem lhes teria que dar por levarem a vida sempre às escuras.
Infelizmente, o senhor Guilhermino teve má sorte, não por ter nascido cego, mas sim porque os seus pais sofriam de uma cegueira que é bem mais comum neste mundo e há muito tempo, uma cegueira branca e milenar.
Os pais do senhor Guilhermino tiveram, durante toda a vida, o dom de as suas retinas reflectirem ao cérebro, através de impulsos eléctricos, as imagens de tudo o que é belo e de tudo o que é feio neste mundo, mas passaram ao lado da pessoa extraordinária que tinha uma mistura dos seus sangues e uma tez, ao que parece, um tanto ou quanto amarelada.
O senhor Guilhermino ainda era o menino Guilhermino quando foi enxotado para uma instituição em 1927. Os pais fugiram para o Brasil com os filhos que viam o mundo a cores.
O meu pai era maluco, fez-se um vadio e testemunha de Jeová. O senhor Guilhermino surpreende-me a cada três palavras que profere, deitado na cama, com uma voz muito apagada e rouca, sempre à cata de ver com os ouvidos se chega a senhora que trata dele, encontrada num anúncio classificado que foi publicado n’O Crime sem sucesso por mais de um ano. Não se amofine, senhor Guilhermino, ainda há pais que são vadios, ainda há pais que são malucos.
Deixaram-me entregue àquela gente sem coração.
Se eu estava a dormir o meu sonho angélico chegavam à camarata e destapavam-me, destapavam-nos, destapavam todos os ceguinhos. E tínhamos que dormir com as mãos cruzadas no peito, porque se eu tivesse os braços caídos, junto ao corpo, era porque estava a fazer coisas feias. Eu não sabia o que eram coisas feias. O ódio com que batiam nas crianças cegas. Precisávamos de pancada. O vigilante entrava pela aula dentro e desatava à bofetada. E a professora era ceguinha também, nada podia fazer.
O senhor Guilhermino foi criado numa Misericórdia sem misericórdia colada ao mar em São João do Estoril, mas com mais ou menos bofetadas e lençóis destapados a meio da noite, aquela gente sem dó não embruteceu o senhor Guilhermino, que aprendeu o mais belo dos ofícios: a música.
Não lhe valeu de muito o grau superior do Conservatório, o arco e a elegância do seu violoncelo ou dos seus dedos ágeis no marfim do piano. A vida dos cegos ganha-se na rua, mas o Salazar nunca fez mal aos ceguinhos, garante o senhor Guilhermino, que dispara contra o 25 do 4 implacável, nos contextos mais absurdos.
A sua companheira de vida não a conheceu através de anúncio, mas andou lá perto.
A minha mulher ganhava dois escudos a lavar casas à escova. Na terra, guardava as vacas desde os cinco anos e bebia água fresca da fonte. Veio para a cidade servir. Queres vir para a minha companhia? As mulheres dedicavam-se de alma e carinho porque precisavam, agora não precisam de nós para nada.
As mulheres, senhor Guilhermino, precisam de se dedicar a algo ou a alguém; é esse o nosso fado, nada mudou, a conta bancária pode ter até quatro dígitos no início do mês, as contas podem até estar todas pagas, mas as mulheres precisam de se dedicar.

(continua)

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Dia de blog

Faz já muito tempo, os reis magos perderam-se, há quem diga que certa noite, Belchior fumou umas coisas que não devia e viu uma constelação que nunca mais foi identificada em mais de dois mil anos de mundo, depois, como se já não fosse considerável o seu atraso para visitar o filho de Deus, entraram numa taberna e ficaram à conversa com o velho Herodes (isto lembra-me uma cantilena muito javarda, o velho Herodes já morreu, e quem se f++++ sou eu), copo 3 para aqui, copo três para acolá, e tudo perdido: só chegaram ao estábulo dia 6 de Janeiro, já o menino Jesus fazia as suas primeiras graças nas palhinhas deitado e com um cheiro de requeijão e estrume insuportável.
Este blog nasceu há dois anos em Dia de Reis, conforme lembrou a Mary Mary tão bem num comentário lá em baixo. Eu não esqueci. Simplesmente, tenho filha doente, muito doente com a sua primeira amigdalite e a Magui instituiu que, para o ano, o Natal lá em casa é à espanhola, só se abrem os presentes no dia de Reis, sem stresses e com promoções de 70 por cento que permitem comprar mais do dobro de incenso, mirra e ouro.
Este blogue é precioso, foi um bonito presente, eu deixo-o aqui abandonado à sua sorte e ele entra em auto-gestão; é mesmo assim que tem que ser até a pequenita ficar boa.
E depois disso, haverá uma grande festa. Sem dúvida que haverá. Inscrições abertas, como sempre, na caixa dos comentários e no email que está por aí no lado direito em cima.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Sei o que fizeste no Natal passado

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Ora aqui está um bacalhau seco

terça-feira, dezembro 26, 2006

Maria do Céu

Maria do Céu mora nas alturas.
Isto dos nomes tem que se lhe diga – Maria do Céu não poderia morar num rés-do-chão ou numa cave. É certo que Maria do Céu não mora no Sheraton, mas está perto dele, pelo menos. E também é verdade que Maria do céu tem mais dois pisos por cima dela e da placa de betão que é o seu tecto, mas, para efeitos da presente narrativa, decreta-se aqui que um quarto andar já não é mau, e que, com um esforço de imaginação considerável, se pode concordar com a narradora e assumir que quatro pisos já são ligeiramente próximos do céu, pelo menos se alguém se der ao trabalho de esticar um braço à janela para tentar apanhar alguma das dengosas nuvens que alcatifam o azul do horizonte.
Maria do Céu faz tanto jus ao seu nome que tem no seu acento de nascimento como uma Anabela que, em tempos, eu via todos os dias, de madrugada, com o passe social L123 na mão, na paragem do 27 na Avenida de Roma – a Anabela era feia como uma osga, e a Maria do Céu, bem, não emana qualquer imagem celestial, aliás, e para provar que eu não sou tão boa pessoa como muitos me julgam, até há umas semanas, eu não sabia que Maria do Céu tinha essa graça, e durante uma década referi-me a ela como a olharapa.
Deus é o melhor argumentista e a realidade bate a ficção. Depois, há uns desgraçados que têm um dom, que sugam realidade pelos poros, ou pela palhinha, que depois a digerem e vomitam algures entre o olho esquerdo e a moleirinha e, com mais uns floreados e umas destrezas técnicas na manga, é a isso se chama ficção. Estou certa que é por causa disso, e porque sei o nome de muitas árvores – há pouco, o Cerejo queria um botânico para descobrir o nome de uma espécie, para um artigo, e eu disse, sem pestanejar, Ficus Macrophylla –, que hei-de ser uma grande escritora.
Maria do Céu passou o Natal no seu bunker, à altura de quarto piso.
O presidente do conselho de admiração (esta é do Goiaoia e é genial) quis demonstrar que era um humanista quando se vangloriou de pulmões bem abertos e peito inchado que não despedira Maria do Céu. É graças a ele que eu sei que Maria do Céu tem esse nome no bilhete de identidade, fico-lhe agradecida, porque, até então, era a olharapa que tinha um Peugeot vermelho, e que fazia lá sabe-se bem o quê neste edifício que não é carne nem é peixe, não é novo nem é velho, e não é alto nem é baixo.
É claro que a sensibilidade social do presidente do conselho de admiração se traduz em números. Na realidade, e tendo em conta a esperança média de vida de Maria do Céu, e o seu tom esverdeado da pele, não faltará muito para que ela vá para onde o seu nome a manda desde o seu primeiro grito. Feitas as contas, 1,5 salários de indemnização sairiam mais caro à empresa do que deixá-la estar quietinha, mas, foi uma boa tentativa, grande tentativa mesmo, essa, de tentar convencer os tontinhos de que os gestores têm coração.
Certo é que Maria do Céu é uma funcionária exemplar: trabalha 365 e, por vezes, 366 dias por ano. Antigamente havia uns acetatos que se chamavam fotolitos, e era Maria do Céu que os entregava em Alcântara no seu Peugeot vermelho. A banda larga matou os fotolitos, da mesma forma que a tv matou as estrelas de rádio, e a Internet anda deprimida porque ainda não matou os jornais e os livros, mas ela que se acalme e dê tempo ao tempo que ainda lá chega com mais um esforcinho.
Mas a banda larga não matou Maria do Céu. Agora, a senhora, que leva 36 anos em cada perna arqueada, controla a impressão do pasquim, nuns barracões da Mirandela, noite a dentro, inundando as narinas de um cheirete de tinta lançada sobre papel de má qualidade. Depois, ainda os galos preguiçam aninhados com as galinhas, já a Maria do Céu ata a jornalada toda, para que quando os preguiçosos dos escribas chegam, perto da hora do almoço, não lhes falte a leitura no Lacinho ou no Fax.
Maria do Céu tem um bunker no quarto piso. E, dentro desse cubículo, há quadros pregados nas paredes, há vasos com plantas, jarras com flores, há um iMac dos velhotes, porque Maria do Céu se recusa a converter aos PC’s, há um divã que se faz cama de solteiro num instante, prateleiras com livros e bibelots, uma televisão com um naperon de renda de nylon comprada na loja chinesa da Tomás Ribeiro, é lá que ela vive, a Maria do Céu, sozinha, foi lá que ela passou a Consoada, em paz, porque não será despedida em 2007 porque há gestores com coração de manteiga, é lá, de certeza, que o seu grande amigo, o estafeta engatatão, a vai encontrar uma bela manhã, inanimada.
Este é um post sobre os trágicos e sobre as coisas que continuo a testemunhar num metro quadrado ao meu lado, como o homem de aspecto duvidoso que, às 20h30 do dia 24 de Dezembro, em frente ao portão do Colégio Militar, se aproximou do Idea, levantou o pára-brisas, e deixou um folheto mal amanhado de venda de cosmética Oriflame em esquema de pirâmide (podia ganhar 250 euros se arranjasse dez assessores para a Oriflame). Ou da alma que, nesse mesmo dia, e neste mesmo blogue onde pairam agora, pelo menos, um par de olhos, enfiado no edifício da Direcção Nacional da PSP de Lisboa, esperava encontrar raparigas feias fotografadas pelos namorados.

Mensagem de Natal

Certamente já o sentiste.
Falo da dor, da dor física que nos apanha, que paralisa todo o lado esquerdo do corpo, o lado onde bate o coração, que sufoca, que comicha até, uma coceira insuportável, miudinha, que nos chega pelo simples facto de estarmos separados por tanta terra e por tanto mar.
Não no Natal, não só no advento, mas é no natal que tudo dói mais, que tudo alegra mais, mas por cada dor, parece-me só há 0,7 alegrias, pelo menos, comigo tem sido assim, e eu começo a acreditar que eu nasci com este nome e que ele diz tudo, resume tudo. É por estes dias últimos do calendário que a pele se eriça ao passear pela cidade iluminada e, depois... depois, tu não estás lá. Escrevem-se coisas parvas, aquela da árvore de natal foi uma idiotice, foi coisa própria do Natal e da dor, da dor de te ver tão poucas vezes, de partires mal ainda chegaste.
Eu fujo de pensar na tua ausência.
Penso que crescemos no momento em que não gostamos mais do natal. É o aviso de recepção, os alarmes soam por todo o lado e há sirenes que ensurdecem a ecoar pelas moléculas de oxigénio; é quando tentamos enfiar à força na mioleira que a Consoada é um dia igual aos outros e que o natal é quando um homem e uma mulher bem entenderem. Posso continuar a dizer que tenho 27 anos (não faço propositadamente; sai), mas cresci. Não gosto mais do Natal, Miguel.
Não penses, meu querido, que o meu coração está vazio e seco. Transborda de amor. Eu nunca imaginei que pudesse voltar a rebentar pelas costuras. Está cheio do teu amor também, há-de sempre estar cheio do teu amor, assim como o da Carolina, o do João e o de tantos outros amigos que eu não tenho espaço para enumerar. É o que me salva. Eu cresci e descobri que a chave mestra, para tudo, é o amor. Por todas as coisas e, sobretudo, pelas mais pequenas.
É essa a mensagem que te deixo este Natal.

[E lamento que haja tanta gente a ler este blogue com um coração seco como um bacalhau]

sexta-feira, dezembro 22, 2006

A garrafa de Veuve Clicquot

Se calhar, nunca existiu nenhum parecer jurídico de um qualquer advogado reputado neoliberal, cujo nome também nunca veio à baila. Aos poucos, a sindicalista deslumbrante perdia a sua ingenuidade e aprendia que cada cartada deste jogo traz na manga um trunfo e que a cor do seu naipe é o bluff.
É Natal e a sindicalista deslumbrante e sus muchachos deram o melhor presente ao presidente do conselho de administração. Plenário para aqui, plenário para acolá, duas semanas de férias praticamente arruinadas, comunicados escrevinhados à pressa, mas que, mesmo assim, fizeram ferver o leite e saltar a tampa da panela, houve de tudo, para todos os gostos e idades: emails intimidativos na caixa de correio, bombistas suicidas nas margens do Douro, houve moções escritas a chorar, às tantas da manhã, porque até o gato morreu nas benditas férias.
A sindicalista deslumbrante estreou a sua echarpe verde, cuidadosamente bordada por crianças paquistanesas. Disse ao presidente do conselho de administração, tinha que o dizer, também, nada a fazer, podiam vir mais emails gralhados das suas hierarquias de propósito duvidoso, podiam vir processos disciplinares, ou mesmo, um lugar longínquo no novo organigrama, mas têm um azar do caralho desta vez, é que a sindicalista deslumbrante não teme mais, entrou nesta aventura porque, olhem, foi como na faculdade, quando a sindicalista deslumbrante estudava numa escola superior muito bonita, disse um dia, estou farta desta merda, mãe, estou a desaprender, sinto-me a sufocar, e então passou a nivelar por baixo, pior era impossível, e então, tudo o que se sucedesse acima do patamar mínimo da dignidade humana era uma festa, era balões e foguetes a toda a hora, e neste caso, a jornalista deslumbrante só aceitou transformar-se em sindicalista igualmente deslumbrante, porque não tem nada, mesmo nada a perder, e foi por isso, que com os bordados das mãos pequeninas dos meninos de tez de meia de leite ao pescoço, e com um processo de cessação do contrato de trabalho por extinção do posto de trabalho a abanar e a tremer na mão direita, ela disse, teve que dizer, já que horas mais tarde, o presidente do conselho de administração estaria a brindar com uma garrafa de Veuve Clicquot Brut: “Há dias em que eu tenho vergonha de pertencer a uma empresa assim”.
E o presidente do conselho de administração fez um lifting imediato à testa por a ter esticado muito, e a sindicalista deslumbrante acha que o viu a encolher os ombros também e, nesse momento, achou-o parecido com o José Mourinho, mas nada, mesmo nada que ela dissesse o faria não abrir a garrafa de espumante prometida para o dia em que ele cortasse, com um aperto de mão da comichão de trabalhadores, 400 mil euros de custos fixos.

terça-feira, dezembro 19, 2006

Avisito

A emissão segue amanhã.
Sem net durante uma semana. Só fez bem à pele.
Hasta.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Para a Marta*


Martinha,
A Carolina está sempre a perguntar quando é que vamos andar no carrossel da Alameda com a prima Marta. Combina com o pai e com a tia e vamos todos juntos, está bem? E depois do carrossel vamos comer algodão doce cor-de rosa. Tens que dizer à Carolina que algodão doce é muito bom. A Carolina tem medo do algodão doce (e também tem medo das folhas das árvores que caem no chão no Inverno - tens que lhe dizer, como eu e o pai João dizemos todos os dias, que as folhas são bonitas e amigas, que nunca nos fariam mal).
A Carolina gostava muito que tivesses vindo à festa de aniversário: tivemos um bolo com todos os amigos do Noddy, muitos docinhos, e dezenas de brinquedos novos para brincar. Não fiques triste - tu e a carolina vão ter muito tempo para brincar com a bonecada toda.
Martinha, já fizeste a tua carta ao Pai Natal?
O que é que lhe pediste?
Sabes, eu tenho um duende meu amigo que trabalha com o Pai Natal e que, por estes tempos, nem tem tempo para dormir, tão atarefado que anda a ler as cartas de todos os meninos e a embrulhar todos os presentes que eles pedem.
Manda um beijinho grande para a tua mana. E fica com este que te envio pelo céu, num escorrega que é um arco-íris.

Espero que gostes das fotos.



*A Marta é a mais nova das leitoras do (T)ralha. Tem quatro anos e andava a pedir à tia Marina para eu postar uma foto do bolo de aniversário da Carolina.

domingo, dezembro 10, 2006

O plenário

Não.
Enganara-se.
Não eram ainda monstrinhos, pensou o pior, pensa sempre o pior, o que é que se há-de fazer – é que está habituada, ao melhor e ao pior, um a seguir ao outro, ou mais pior do que melhor, é mesmo assim, tem que ser desta forma, ninguém pode ousar pedir o melhor e não estar à espera do reverso dessa moeda de ouro, e o melhor vale mais do que o pior, isso é uma verdade de la palisse, por isso, era quase aritmético, matemático, científico, a sindicalista deslumbrante ainda não tinha conseguido descortinado a equação, mas andava lá perto e para cada um melhor existiam, de acordo com os seus cálculos, 1,71 piores, nada a fazer, é o preço que se paga, é um preço simpático, até, que se paga.
A sindicalista deslumbrante estava deslumbrante de corpete preto de dominatrix no primeiro plenário que convocou e que, atabalhoadamente, com o seu parceiro sindical, dirigiu.
Não eram monstrinhos, ainda não eram, que alívio, a grande maioria não era e ninguém se apercebeu, mais de uma centena de pessoas concentrados como sardinhas enlatadas em 30 metros quadrados, ninguém deu conta de como a sindicalista deslumbrante ficou feliz que, naquele plenário, não se falasse só de trocos, de dinheirinhos, das carteirinhas de cada um. Que se falasse de pessoas, de direito ao emprego. Uma jornalista senior disse à sindicalista deslumbrante que tinha inveja dela. Tonta, a sindicalista deslumbrante pensou que ela falava da sua garra, do sangue que lhe pulsa às golfadas nas guelras, da sua coragem e inconsequência, mas não, a jornalista senior tinha inveja dos corpetes pretos de dominatrix que a sindicalista deslumbrante vestia nos plenários. Mas a sindicalista gostava de ser honesta e disse-lhe:
Há quem ache que eu tenha um grande cú.
Mais ou menos deslumbrante, com mais cinco ou menos cinco centímetros de anca, a sindicalista deslumbrante, com a sua equipa de inexperientes e imaturos jovens sindicalistas, conseguiu que a administração recuasse, e cada um engole como pode e consegue o ter que dar um passo atrás e o presidente do conselho de administração tentou a táctica do eu não disse nada disso, a sindicalista deslumbrante é que é muito exaltada (só lhe fica mal).
Cada um usa os seus trunfos, mostra ou não o seu jogo, aumenta a parada ou retrai-se. Cada um tem os seus objectivos: uns têm a obsessão por uma percentagem, outros são obcecados pelas pessoas. Da sua parte, a sindicalista deslumbrante não queria louros, ou palmadinhas nas costas, não queria também abrir a sua cova, só não queria ouvir um dia destes o presidente da empresa a dizer em plenário: Estávamos à beira do precipício. Hoje, demos um passo em frente.
Alea Jacta est.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Comichão de Trabalhadores

A sindicalista deslumbrante não estava assim tão deslumbrante quando, a meio de um texto sobre projectos urbanísticos aprovados pela autarquia de Lisboa por cima do traçado da terceira travessia do Tejo e da linha de ferrovia de alta velocidade, o telefone tocou, perto da hora do jantar, e a extensão que apareceu naquele seu instrumento de trabalho de quem era quase gémea siamesa era a do presidente do conselho de administração.
Nada a fazer e isto que sirva de lição à sindicalista deslumbrante: eram tempos difíceis, se não fossem tempos tão bizarros, aliás, ela nunca teria sido eleita, onde é que já se viu, uma sindicalista de direita e, ainda por cima, deslumbrante, eram tempos tão conturbados que já não restavam para amostra, sequer, ou para exposição atrás de grades com sinais evocativos para não serem alimentados, sindicalistas com patilhas e fartos bigodes, e assim sendo, a sindicalista deslumbrante acabou o texto, ainda teve tempo para sonhar acordada com uma torre miradouro da antiga fábrica dos sabões que conhecera graças aos delírios do Sá Fernandes, e teve que ir a correr para uma reunião informal e muito tardia com o presidente do conselho de administração, infelizmente, com o cabelo em desalinho e a precisar de uma lavagem urgente, que tinha sido adiada, naquele dia, por motivos imputáveis à botija de gás light da BP, que, alheia à vontade da sindicalista deslumbrante, tinha decidido ir desta para melhor, a meio do duche matinal.
E lá se sentaram, os dois únicos representantes dos trabalhadores que não estavam de férias ou folga, numa mesa redonda, e enquanto ela, com o seu cabelo num estado aceitável para a classe, mas totalmente repreensível para o estatuto de sindicalista deslumbrante, negociava mais quatro mil euros de indemnização para uma trabalhadora a quem tinha saído a lotaria de Natal, com uma rescisão amigável do contrato de trabalho no sapatinho, absorvia, ao mesmo tempo, tudo ao seu redor, procurava sinais de que o presidente do conselho de administração era um ser humano, e para além de anotar tudo numa agenda – o economato continuava trancado para cortar custos –, conseguia também mascar pastilha e encontrou ainda as provas que procurava: lá estava, na prateleira, junto à colecção dos Lucky Lukes, a moldura de acrílico e o retrato dos três filhos do presidente, que, sabe-se lá porquê, lhes confidenciou que a mulher tinha optado por ser mãe a tempo inteiro (e ela suspirou, sem saber se de pena, ou de inveja).
A sindicalista deslumbrante estava nisto, a saborear a sua primeira vitória, afinal o primeiro feriado de Dezembro ainda ia ser pago a dobrar, afinal, tinha valido a pena ficar sem voz durante três dias consecutivos, as mebocaínas, os mini comícios nos fumódromos e nos corredores, a empresa já não impunha, negociava, era bom, quase se esqueceu do cabelo por lavar, de não estar tão deslumbrante quanto seria desejável, quando lhe deu uma crise de urticária.
Era a comichão de trabalhadores.
O monstro não era o presidente do conselho de administração, era triste, mas não era ele, apercebeu-se ela, naquele instante: ele despedira 55 colegas da sindicalista deslumbrante desde Janeiro, ela não sabia e tentava adivinhar como é que ele dormia com isso, mas naquele dia, mais três pessoas tinham assinarado um papel que resumia o seu percurso dos últimos dezoito anos de vida em troca de um cheque, e, nos corredores, os outros, os que ficaram, os eleitos, exigiam pré-avisos de greve apenas porque lhes iam retirar a merda dos pagamento dos feriados a dobrar.
A sindicalista deslumbrante ouviu coisas do arco da velha e era aquelas pessoas que ela representava: despeçam lá quantos quiserem, mas não se atrevam a cortar-me o feriado, ouviu ela, ou, os que foram despedidos estavam mesmo a pedi-las, coisas que nem ela, sindicalista de direita ousara pensar, nos seus delírios neo-liberais. Um departamento inteiro daquela empresa ia ser extinto nos próximos meses e só se ouvia falar de greve por causa do pagamento dos feriados, era tão triste, era a natureza humana, o que é que a sindicalista deslumbrante estava à espera, mas quem é que, afinal, são os monstros?