domingo, abril 29, 2007

Fez uma noiva linda (e um noivo penteado)


Nas próximas três semanas, a meio do Oceano Atlântico, tudo sobre o casamento no Jardim da Estrela, desde o bouquet biodegradável, às lágrimas da Esquizo no hall de entrada de Santa Marta, à viagem no eléctrico 28, com os espanhóis a tirarem fotografias paa mais tarde recordar, e também a descida vertiginosa pelas escadinhas de Alfama abaixo (e eu a treinar para presidente da Junta, a distribuir beijinhos nos pátios, entre promessas de regressar em noite de Santo António para comer uma sardinha) e tantos, tantos outros momentos de uma história improvável e que eu quero interminável.

Três semanas, em frente à praia deserta, eu, o João, o diabrete loiro, e este computador.

Este blogue vai voltar a ser o que era.

PS - Muito feliz. Tão feliz que até estraguei as fotos, porque quando estou assim, radiante, rio muito e vinco o duplo queixo.

segunda-feira, abril 23, 2007

Leiria-Ralha

A noiva foi até Leiria, e Leiria pareceu-lhe menos feia, aliás, mais ou menos a meio da praça do centro histórico, onde procurava sem muita convicção uma caixa de brisas do Lis para trazer ao seu novo patrão – graxa danada, bem sei, mas o que fazer, a noiva tem destas coisas –, deliciou-se com o escafandro poisado no chão, à venda por 3500 euros numa feira de antiguidades ao ar livre, bateu no peito agradecida por mais uma imagem bizarra absorvida pelas suas retinas, e pediu até desculpa a Leiria por lhe ter chamado, há seis meses atrás, a mais feia de todas as cidades de Portugal.
É certo que o raio do vestido da noiva estava largo pelos nove quilos que a balança perdeu sem rasto nos últimos quatro meses (afinal não era assim tão chanfrada dos cornos por começar a dieta nas vésperas do Natal), é certo que não estava como esperado, como sonhado, com a magnólia e as tirinhas cor de vinho a caírem sobre a saia rodada – as madrinhas não disseram uau, o colar decidiu que não estava para ali virado e caiu sem graça sobre o regaço, apenas o véu, antigo, comprado no Ebay, deu um ar da sua graça naquele provador de um subúrbio de Leiria, onde há seis meses atrás um arco-íris rompeu pelo céu, junto à entrada para a A1.
A noiva foi até Leiria, e Leiria irá ficar no seu sobrenome, antes do Ralha, e só visto, nem dá para escrever o ar de espanto da funcionária da conservatória, em transe, quando o noivo lhe disse e voltou a dizer, não houvesse confusões, que ele é que ficava com o Ralha em último lugar. Leiria era uma cidade feia, não havia escafandro à venda no centro histórico que lhe valesse, nem mesmo o facto de o Leonardo, alegadamente, ter sido concebido algures em Leiria num hotel cujo colchão estava cravado de percevejos. Mas há apelidos averbados na certidão de nascimento que puseram Leiria no mapa de encruzilhadas que é a minha vida.

sexta-feira, abril 13, 2007

A Maldição do Alto Minho

Quando a noite cai, o silêncio desce as escadas desenhadas pelo Ventura Terra em pezinhos de lã, e desprendem-se das paredes luminescências que me fazem pensar sobre a maldição do Alto Minho.
As sapatas da porta 86 B da Rua de Santa Marta estão amaldiçoadas. Foram escavadas por cima das sepulturas de um cemitério índio. É tão simples quanto isto. Não pode, não arranjo outra explicação.
Nem sempre foi assim. Oiço relatos dos vizinhos que falam de uma taberna afamada, de uma cozinheira minhota de formas roliças, de um rodopio de febras e pipis, paredes pintadas com gordura e enxurradas de copos três e finos, que fariam transbordar o desolador chafariz do Largo de Andaluz.
O Alto Minho é um restaurante. É um restaurante simpático, irresistível pelo painel de azulejos monumental com vaquinhas e bois a puxarem uma carroça em Paredes de Coura.
O Alto Minho está amaldiçoado, só lá vai com água benta e crucifixo. Até lá, está condenado a este fado: abre, fecha, trespassa-se, arrenda-se. O Alto Minho não aguenta mais do que um mês com o letreiro da porta a dizer “Aberto”, mesmo com a imperial a 50 cêntimos. 50 cêntimos. Nem no boteco da D. Beatriz se bebe um café com 50 cêntimos.
É profundamente desolador. A mim entristece-me a maldição do Alto Minho.
Os vizinhos do restaurante Andaluz, na porta 84 B, têm a casa sempre cheia. Uma refeição ronda, em média os 15 euros por pessoa, e não há quem diga aos vizinhos que o raio das azeitonas não são lá grande coisa, e que, já agora, mudavam o fornecedor do queijo que não sabe rigorosamente a nada. Mas é vê-los todas as semanas com o mesma ementa afixada na porta, é vê-los todas as semanas a abarrotar. À hora do almoço e à hora do jantar.
Na porta ao lado, nem uma mosca se atreve a zumbir dentro das quatro paredes amaldiçoadas do Alto Minho.
Por vezes vamos lá. Não tememos.
Os olhares dos empregados já não têm uma réstia de esperança – devem já ter ouvido falar da maldição do Alto Minho. A lenda espalha-se de ouvido em ouvido, toda a gente a conhece de cor, como uma lenga-lenga.
A rapariga que nos serve o jantar está, sempre, sem excepção, à beira de um ataque de nervos, deita faísca pela ponta dos dedos e aquilo enternece-me, derreto-me com o nervoso miudinho e um misto de ansiedade infantil de quem acabou de desembrulhar um presente, quando chegamos e, apesar de todas as mesas estarem vazias, pedimos para nos sentar na zona de fumadores.
Depois, desdobra-se em atenções dignas de restaurante de primeira categoria: serve as bebidas, por vezes não lhe corre lá muito bem, entorna um bocadinho para fora do copo, mas nós não dizemos nada, nem nos atrevemos, mesmo quando ela não entende o pedido, ou se engana, nós temos medo que ela desate a chorar de desalento, desfazemo-nos em elogios à comida, ao serviço, em jeito de consolo, em jeito de a culpa não é vossa, a culpa é da Maldição do Alto Minho, e ela lá atura a Carolina com a maior das paciências, dá-lhe todas as palhinhas que o seu capricho de diabrete loiro entende pedir.
O Alto Minho tem os melhores secretos de porco preto de Lisboa. Sopa, azeitonas, pão, manteiga, prato, bebida, sobremesa (salva de palmas para a mousse de chocolate – caseira, com raspas de chocolate branco) custa 7,5 euros.
O Alto Minho deve estar quase a fechar as suas portas. E assim vai ficar, com o placard da agência imobiliária na porta, até que algum empresário do ramo da restauração que não tenha lido a newsletter da ARESP, o reabra.

Pelo sim, pelo não, sem medo da maldição, hoje vou lá jantar.

quinta-feira, abril 05, 2007

quarta-feira, abril 04, 2007

Nasceu uma criança com as mãos coladas*

Por estes dias, encontro-me profundamente encantada pela total ausência de expressões faciais da empregada de mesa Irina.

Subo até ao terceiro andar, de elevador, depois, passo pelo chão ladrilhado a preto-e-branco e treino algumas jogadas de mestre do xadrês da minha vida,

[encurralo o rei, como um cavalo, esquivo-me da torre e preparo-me para um eminente xeque-mate, isto tudo num pulinho e a caminho dá acesso à escada estreitinha por onde trepo para a mansarda]

cheguei, e tranco-me no quarto de banho desenhado pelo arquitecto Ventura Terra,

[também ando hipnotizada com a planta deste edifício, às vezes perco-me pelos tectos altos do meu gabinete e imagino-o – vou agora ver na wikipedia a cara dele –, sentado em frente ao estirador, regra e esquadro, tês, aparos vários espalhados, frascos de vidro soprado a transbordarem manchas de tinta-da-china que poderiam inspirar testes psiquiátricos acaso alguém se desse ao trabalho de reparar nelas, o Ventura Terra a desenhar estas salas, os jardins-de-inverno, os motivos florais da fachada, o desenho arte nova do corrimão da escada, e até a casa-de-banho, penso que é um privilégio fazer xixi num prémio Valmor e fico agradecida, eternamente agradecida pela experiência]

e tento, tento muito, tento não devolver ao espelho uma careta, tento, porque me dava jeito dos diabos ter cara de autómato, gostava de saber mentir com cara de guarda nacional republicano, dava um bocadinho do meu cabelo para não ser tão transparente, cara cuspida e escarrada do que se passa cá dentro nas entranhas, tinha piada e até fazia bem à pele ser como a Irina, porque tenho 28 anos e esta cara bolachuda já está riscada a x-acto, porque me rio muito, porque me preocupo muito, porque, em tempos, chorei muito.

[há meia dúzia de anos, eu a chegar à redacção do Lambert que tinha os tectos radioactivos, a chegar para fazer as bolsas com traje escuro a preceito, muito arranjadinha, nessa noite, eu não sabia, eu apenas julgava que ia à inauguração de mais uma exposição do Zé Ralha, mas nessa noite, com aquela blusa de seda verde-seco, eu conheci a Amália e os seus dentes bamboleantes, e a Sílvia Oliveira dispara esta para o ar, que me persegue sempre que me cruzo com um bocadinho de areia que se transformou em espelho, Ela tem cara de bebé; não tem uma única ruga.]


Mas por mais que treine nas instalações sanitárias protegidas pelo Ippar não consigo, e acabo sempre por constatar que tenho um pelo da sobrancelha muito mais comprido que os outros e arruivado.

Os dias passam-se assim. Num gabinete desenhado pelo Ventura Terra. Num imóvel classificado, onde todos, ou praticamente todos, lêem as entranhas deste blogue (e eu com vontade de picotar os pulsos a cada revelação dos leitores do Tralha).

Os dias passam e eu na expectativa de ver uma expressão qualquer estampada na cara da empregada de mesa Irina.

*Nasceu, ou talvez não, algures no Brasil, numa terra chamada Itaguaí, uma criança com as mãos coladas, como se tivesse passado nove meses quietinha, a rezar no ventre materno. Esse nascimento – que não consigo confirmar porque tenho muito que fazer – vale cem visitas diárias ao Tralha, reencaminhadas pelo Google brasileiro. Diz o mito que quando os médicos cortaram a fina membrana que unia as mãos do nascituro aconteceu um milagre. De facto, o Tralha só não morreu por causa disso. Mas não sei se é obra de Deus.

** Lamento, caro leitor do Google brasileiro: Não faço ideia como se monta uma fábrica de sabões no quintal...

sexta-feira, março 23, 2007

A doutora

A doutora ficou de cabelos em pé, madeixas loiras, brancas, vermelho fogo e castanhas-escuras, um arco-íris capilar e cada cor espetada para seu lado, de costas voltadas como amantes zangados a partilharem a mesma cama. Saída de um divórcio litigioso com convenção antenupcial que cobria até a custódia do papagaio africano que se deliciara a aprender de trás para a frente a última edição do dicionário de calão da Editorial Notícias para combater a agonia dos últimos dez anos de casamento dos seus donos, a doutora vinha com pequenas gotas de suor presas nos riachos das rugas da sua testa, a bufar pelos lados da boca um fumo fininho branco, quase imperceptível à vista humana, e a desgraçada da subserviente funcionária da conservatória não podia ter escolhido pior altura para indagar, a medo, em jeito de pedido de autorização:

Podemos casar estes dois no Jardim da Estrela?

As pupilas dilataram-se e os globos oculares da doutora tiveram ganas de ir dar uma voltinha ao andar de baixo e ver outras vistas sobre a cidade. Os óculos, de meia-lua, hastes encarnadas, desceram o escorrega da cana do nariz e a sobrancelha direita da doutora esticou-se (a testa ficou sem rugas e caiu uma gota de suor em cima da secretária), e a doutora, perplexa, as suas roupas de estilista a caírem com menos graça pelo corpo de girafa abaixo:

Não é digno casar no Jardim da Estrela... Conhecem as nossas salas de casamento? Temos a rubi, a pérola, a cristal...

Não havia verniz para estalar e então estalou um bocadinho da unha do anelar esquerdo da noiva.

Perdão?

Doutora, desculpe-me, a noiva a falar e maravilhada, quase paralisada com a etiqueta do inventário do computador do estado escrita à mão com tinta permanente, e o tapete de rato publicitando os serviços de uma agência funerária, qual é mesmo a diferença de casar numa tenda de uma quinta nos subúrbios que há-de ser fechada mais cedo ou mais tarde pela ASAE, ou na cabine de um avião da TAP, ou sob a areia da praia, e porque é que não é digno casar num dos mais belos jardins de Lisboa?

A doutora cheia de tiques, os olhos a tremerem muito subtilmente, a funcionária atrás dela a esfregar as mãos da nervoseira, um misto de pena de já não ir casar aqueles dois no Jardim da Estrela onde, a própria, há três décadas atrás namorava escondida no Caracol.

Bem, vai ter que nos dizer onde é que na lei diz que não nos podemos casar no Jardim da Estrela.

A doutora viu que não se safava com estes noivos armados em sabichões. Tentou arrasá-los com uma vitória de secretaria.

Bem, então, preciso das licenças emitidas pela autarquia, para começar o processo. Têm um mês.

A licença foi dura de obter. Todos os dias, 21 3912463, está lá, dona Rosinda, novamente Diana Ralha, ai mulher que me parece que já não me caso se não me sai essa licença de ocupação do espaço público... Amanhã? Está bem, eu ligo amanhã às 15h. Todos os dias a mesma coisa, a querida da Dona Rosinda, sempre a mesma resposta, depois a até nos mandou medir o perímetro do coreto, ó raios o perímetro era mesmo como, dois pi ao quadrado?, até que, quase em cima do limite legal, a bem aventurada autorização chega ao tabuleiro do fax.

Tiraram a senha.
A senha dos casamentos ainda não funciona, tem que se tirar uma que também dá para óbitos e a etiqueta do inventário escrita à mão está um pouco mais descolada e o tapete de rato da funerária continua à vista de quem é viciado na realidade. Os livros de registos já não são escritos com bonitas caligrafias a tinta permanente, mas sim, com letras muito redondinhas da funcionária de vinte e poucos anos.
Os divórcios sucedem-se e a doutora continua a vestir uns trapinhos que não se podem compram com o salário de conservador, índice 174. Sentados, à espera da vez, ouve-se a doutora vitoriosa a falar com a funcionária com desdém: Não devem ter conseguido a tempo a licença...
A noiva ouve, porque a noiva ouve tudo, vê tudo, mas não diz nada ao noivo. O painel luminoso chama o número que está impresso na senha verde e os noivos avançam dois passos e sentam-se.

Surpresa (pensa a noiva), estamos aqui.

Ainda agora estávamos a falar de vocês.

Eu sei (pensa a noiva). Fala-se do demónio e aparecem os cornos (acabou por dizer a noiva).

Está aqui a licença, conseguimos.

A doutora bufa, bufa lá de longe sem se mostrar, a funcionária sorri e diz para lhe perdoarem qualquer coisinha que vai ser o seu primeiro casamento fora das salas do edifício da Fontes Pereira de Melo.

O casamento está marcado para as 12h do dia 29 de Abril.

Apareçam.

Carta de demissão (ou vou só ali aprender a tocar piano e já volto)

O raio da velha em São Félix, nós todos encostados em fila indiana junto ao muro de pedra, o Toyota Corolla estacionado na faixa de rodagem em cima da curva de cotovelo, e eu a sonhar com o gemido do portão de ferro a abrir-se, a sonhar com o alpendre da casa do meu avô Oliveira e com o pomar das laranjeiras que não via há tempo demais, e a velha que se fixou em mim e que não me largou, a cara dela craquilhada por entre um lenço preto de viuvez, agarra-me nas mãos, chama-me Magui – e eu tinha uma borbulha na testa, desculpem-me, mas eu tinha catorze anos, mas não era loira como a Magui, que me passou para o sangue os seus olhos azuis –, o raio da velha que há-de martelar-me durante muito tempo, inspeccionou bem as mãos, virou-as e revirou-as (eu já roía as peles quando estava nervosa), e diz assim muito séria, olhos nos olhos do meu tio Manuel:

Ela tem mãos de pianista.

Vinte anos depois de me ensinar a desenhar todas as letras do alfabeto e, seguramente, os mais belos xis de Lisboa, a professora Gertrudes Maria sentada no Luanda, surpreendentemente igual a si própria, como se tivesse sido ontem que me dispensara de fazer os trabalhos de casa para todo o sempre porque me tinham morrido as duas avós, nos olhos, nos olhos muito grandes, as mesmas olheiras negras e o fiel companheiro verde-velha, pintado a pincel por cima das pálpebras e diz-me assim muito séria:

E tu, sempre és pintora como o teu pai?

(o mais surpreendente deste encontro nem foi o lembrar-se, vinte anos depois, que eu queria ser pintora; o mais surpreendente foi lembrar-se que eu amava a cor roxa, que pintava céus e malmequeres roxos com lápis de cera Sino)

Depois, escreve-se um blogue, escreve-se um blogue porque o salário não estica para lá do dia quinze, porque as escadas de um quase bicentenário quarto andar sobre a Duque de Loulé parecem uma via-sacra todos os finais de noite em que se carrega sobre o ombro direito escada acima uma menina com cabelos de ouro, essa sim, que podia ser confundida com a reencarnação da sua avó Magui, e à qual eu disse assim, sem pensar, meia anestesiada e com o ventre aberto a ser costurado pelas mãos hábeis do doutor Moniz:

Ela tem mãos de pianista como a mãe.

Escreve-se um blogue porque a família Pestana, toda a descendência do patriarca João, é preguiçosa e, certamente, tem artroses nos joelhos ou falta de paciência para trepar os sessenta e cinco degraus podres até às assoalhadas de uma casa velha da rua de Santa Marta. E, de repente, escreve-se, escreve-se sem parar até à tendinite, porque as noites são brancas, e matam-se a escrever num teclado branco, enquanto os dias se ganham a dedilhar num teclado preto.

(e o raio da velha, outra vez, com esta coisa das teclas brancas e pretas – ela tem mãos de pianista)

De repente, alguém que todos nós conhecemos bem, alguém de quem temos saudades e a quem eu gabava umas botas de estilo militar, esse alguém escreve (que é coisa muito mais séria do que apenas dizer da boca para fora):

Ela é a melhor escritora.

E porque alguém escreveu isto, a vida muda drasticamente: o raio da velha já não martela tanto, só pontualmente, quando os dias se ganham a escrever no teclado preto ao som de Chopin.

E na madrugada do dia que assinala o começo da Primavera, há trezentos e sessenta e cinco dias, os jardineiros da câmara de Lisboa atarefados a plantar cinquenta mil flores, entretidos com a empreitada entre vasinhos de ciclames e amores-perfeitos, ancinhos e pás pousados na calçada, e cumprindo o destino, nessa mesma madrugada, houve alguém que também se habituara a noites brancas, houve alguém que, perto da Estrela, atrás de um teclado de cor incerta, foi a visita cinquenta mil do tal blogue, apenas porque se escreveu, porque se espalhou que ela era a melhor escritora; e esse alguém, esse um em mil milhões, predispôs-se a ir buscar um dicionário com mais de duzentos anos debaixo de uma roseira, predispôs-se a recolher cartas de amor debaixo dessa mesma flor que ainda se lembra de haver um leão na Estrela.

E a vida ficou mais simples.

A dona Maria continuou a vir buscar-me, ao final da tarde, um exemplar do 24horas para se rir no autocarro depois de uma jornada de trabalho de catorze horas, eu continuei a fazer obituários de prédios bonitos que todos os dias morrem nas imediações da Viriato, a fumar despudoradamente no meu posto de trabalho e a levar, por isso, com as culpas de cancros alheios.
Contei histórias mirabolantes de mendigos de olhos azuis com sorrisos pueris aos quais o Cerejo me ordenou ir entrevistar do alto dos dez centímetros dos meus saltos altos, loucos que encontrei meses depois, com um recorte de jornal junto ao peito, com mil e quinhentos caracteres impressos a bold junto ao peito.
Nos piores dias, fui cantar missas de Mozart no fumódromo e a Anabela chamou-me de rapariga peculiar.
Escutei com atenção, agarrada ao auscultador do telefone, o fabuloso destino do senhor Guilhermino que nunca cheguei a publicar, e o Cerejo continuou a chamar-me “coisinha”. O Adelino disse-me, no corredor, junto à máquina do café, que eu escrevi uma coisa muito bonita e até hoje eu não faço ideia o que foi; a Teresa de Sousa deu-me conselhos de puericultura no elevador, e quando a coisa estava mesmo mesmo a rebentar, quando eu quase não conseguia respirar, entre plenários, greves e rescisões, encontrei um frasquinho de água com sabão na mala e soltei milhares de bolas irisadas ao longo da Andrade Corvo e sorri quando ouvi o nosso louco, o Afonso, a gritar:

A nossa rua está linda!

(mais acima, há algum tempo, no refeitório do Pingo Doce da Tomás Ribeiro, um velhinho também se aproximou de mim com um saco cheio de carcaças e segredou: vou dar pão aos malucos, e eu fiquei muito aliviada de não ter sido presenteada com um pãozinho)

Espera-se tudo a partir de hoje.

Espera-se que o cabelo me cresça até ao rabo, ou que fique todo branco aos trinta e cinco anos, como é o fado dos Ralhas. Espera-se que as Ginkgo Bilobas de Lisboa deitem daqui a vinte anos o fedor a manteiga rançosa que alguma louca vaticinou e teve o privilégio de escrever nas páginas do Público. Espera-se que o António Barreto continue a dar conta da floração dos jacarandás todos os anos em papel de jornal (e, já agora, que haja mais jacarandás em Lisboa). E eu espero mesmo esta: que o prédio da Tudor, na Fontes Pereira de Melo, não se suma na memória, e que seja resgatável apenas no arquivo municipal de fotografia, ou num texto do Público que fala de dragões e pérgulas de rosas. Quem sabe, quem poderá saber, se calhar, até se espera que alguém, um dia, sabe-se lá porquê e para quê, encontre um texto de uma jornalista com um apelido estranho, sobre um raro metal precioso chamado paladium.

(e, certamente, espera-se que a Cristina Ferreira continue a aconselhar mocitas em idade fértil a nunca se mudarem para casa dos namorados, porque, mais cedo ou mais tarde, hão-de ficar com uma mão à frente e outra atrás, que a Lurdes Ferreira enxugue, nos próximos anos, as lágrimas de adolescentes traídas pelas suas melhores amigas, que o Paulo Madeira ensine ainda muita gente a pontuar com vírgulas, que a Ana Henriques continue a vir para a redacção sem soutien, que o Cerejo se faça ouvir por toda a redacção quando está a descobrir ao telefone alguma escandaleira, que o Miguel Madeira faça mais uma tatuagem, que o David Clifford improvise serenatas à hora do fecho, que a Lena e a Sandra tenham a pachorra de ensinar alguma garota interessada a paginar as cotações da bolsa, espera-se que alguém se barrique na varanda da Viriato, que o Zé Bento Amaro continue a fazer rimas porcas, que o Tiago não tenha emenda e continue a chamar darling às suas editandas, e que o Pedro Ribeiro seja sempre facilmente contactável no aquário de vidro, com um maço de Pall Mall azul)

Por enquanto, eu só espero aprender a tocar piano.

Até já.

(oito caracteres; oitocentos, umas brevezitas, por cada ano que passei convosco)

sexta-feira, março 09, 2007

O caso bicudo

[Regresso ao dashoboard depois de tantos dias a tratar amigdalites crónicas. saudades e desculpas de mau escrevedor.]


O papel de jornal serve de toalha para a tigela da água do cão (já não digo que é a forra do caixote do gato, porque somos um pais desenvolvido, com areia perfumada no Mini Preço a 70 cêntimos cada cinco quilos), ainda me lembro de estender o espesso Expresso no chão da marquise, e da alegria que era encontrar uma notícia interessante, inadvertidamente, a meio do acto de despejar um quilo de ração para cães gigantes de cu virado para a lua; serve para tanta coisa o papel do jornal, eu sei lá, para acender lareiras (as minhas notícias dão uma chama anil), é raro, mas também ainda vai dando para fazer cartuchos para as castanhas no Outono, quando se esgota o stock de páginas amarelas; serve para fazer trabalhos manuais em papier maché, apesar de o que está mesmo mesmo na berra é o feltro; enfim, o papel de jornal fica largado pelas estações do metro de Lisboa desde que chegaram os gratuitos, e quando ninguém está atento, o papel dá espectáculo também de borla e rodopia em passos meticulosamente coreografados; serve para muita coisa, sobretduo, para sujar as mãos, mas poucos, muito poucos, só uma pequena minoria, cerca de dez mil de acordo com a Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas, é que sabem a trabalheira que dá conseguir uma informação digna de ser impressa em papel de jornal.

Três dias. Três dias para confirmar o óbvio (tão prudente, esta jornalista; é por isso que não vai longe; é por isso que lhe faltam no currículo enraivecidos direitos de resposta e processos disciplinares).

Dezenas de telefonemas para o núcleo administrativo de uma força policial de Lisboa: sim, no sábado, cerca das 15h20, um zeloso munícipe ligou para a esquadra a denunciar um roubo de azulejos arte nova da fachada de um prédio. O prédio e os azulejos são ambos arte nova. Na Estefânia. E para desconversar: Sabia que morou por lá o Fernando Pessoa? Esse mesmo, o poeta, morou por cima da leitaria, onde vivem os sem-abrigo, eu sei que é uma javardeira; no outro dia, urinavam à porta, junto à filinha da paragem do autocarro, e à noite, vimo-los de passagem, iluminados à luz de velas brancas, não vou esquecer aquela imagem, era mesmo bela, mas sim, é uma vergonha, pois é.

Sempre a mesma lenga-lenga: Confirmam? Estiveram lá realmente? O que fizeram ao ladrão de azulejos? Eu tenho fotos do ladrão em flagrante delito... Sim, foi o munícipe que as tirou; o mesmo que jura a pés juntos que lá foram... Só não me sabe dizer a matrícula do vosso carro...

E do outro lado, lá para as bandas da Praça de Espanha, eu bem procuro, eu já vi em toda a parte, mas ninguém sabe nada do roubo dos azulejos.

E ao terceiro dia, o roubo dos azulejos não ressuscitou por entre uma pilha de processos empilhados na secretária do sub-chefe. Ao terceiro dia, o roubo foi confirmado pelo proprietário do prédio onde viveu Pessoa, que também não viu qual era o grande problema ou sacrilégio da pilhagem. Isso é notícia?

Mas a jornalista é boa jornalista, e deu-lhe naquele dia - talvez porque a sua secção tem, hoje em dia, um máximo de três páginas recortadas de publicidade e não há grande coisa para fazer - para ligar uma última vez para o sub-chefe. Era o mínimo. Para agradecer o trabalho inglório.

Imaginara-o perdido por entre labirintos de arquivos poeirentos, com as bochechas vermelhinhas de tanto procurar, nervoso, a enrolar a corrente do telefone pelo indicador esquerdo acima, à procura em todas as extensões de alguém que soubesse, que tivesse pelo menos ouvido falar no roubo dos azulejos; a roer as peles dos dedos aflito por não poder ajudar a jovem jornalista - a jovem jornalista adora estas coisas, deixar-se levar pela imaginação galopante que a sua mãe de olhos azuis lhe deu, mas sabe, porém, que existe uma forte probabilidade de elas só acontecerem, de facto, numa outra galáxia, num mundo muito mais divertido.

E o sub-chefe comoveu-se com tanta amabilidade, os seus colegas costumam ser umas bestas, disse, e ela naquele dia estava cheia de frases feitas na manga encarnada da camisola, disse, é como em tudo, há bons e há maus, mas desculpe, sra. jornalista, não lhe ter conseguido confirmar o roubo, é que andamos aqui todos às voltas com um caso bicudo.

Ele disse bicudo, e os olhos da jovem jornalista brilharam e imaginou um bigodito pontiagudo a crescer na cara do sub-chefe. Deu-lhe corda, porque, afinal, eram ainda cinco da tarde, e não havia nada de melhor para encher as duas únicas breves de 500 caracteres que restavam da edição do dia seguinte.

Conte-me tudo.

Não estava à espera de crimes horrendos, que chegassem com honras de chamada à primeira página do papel de jornal, esperava por algo bizarro, fez figas para que ele lhe dissesse que tinham apreendido uma burra que estava à venda às seis da manhã na Feira da Ladra; já era o quanto baste para que ganhar o dia.

só que era melhor do que podia ter imaginado. O caso bicudo.

Andamos aqui às voltas, com um pittbull que está a ser disputado por dois donos. E agora eu pergunto-lhe: como é que sabemos quem é que é o dono?

E ela, caladinha, não ia estragar a longa conversa telefónica com um e que tal verificar se o animal tem um chip de identificação electrónica?

Interessante... Xiii... Complicado... Conte-me mais...

É como naquela história da Bíblia, mas só que não podemos cortar o cão ao meio para toda a gente ficar feliz... O pior disto tudo, senhora jornalista, é que com esta espera, sabemos lá se o animal já não foi abatido no canil? Sabe como são as regras... Três dias e depois kaput. Mas também lhe digo, ninguém abate um animal de ânimo leve; há para lá muitos funcionários com depressões...

Coitados. Pois é... é um trabalho sujo, mas alguém tem que o fazer... Nem que fosse o último emprego no mundo...

Quanto mais conheço as pessoas mais gosto dos animais... É o que se costuma dizer. Por isso é que eu digo, senhora jornalista, não me canso de dizer isto: quem gosta de animais, tem que tirar fotografias, tem que pedir - a um familiar, por exemplo -, que lhe tirem uma fotografia ao lado do cão ou do gato. Não vale a pena ser só a foto do animal. Há animais parecidos... Se tivéssemos uma foto, o caso estava resolvido...

(não teve coragem, a jovem jornalista, de falar ao sub-chefe nos esquemas pérfidos da mafia dos animais de estimação que sabem o que é a foto-montagem e conhecem os milagres do photoshop. Desligou o telefone com um sorriso nos lábios e foi buscar uma menina loira à escola, lá para os lados do aeroporto)

terça-feira, fevereiro 27, 2007

O administrador do condomínio

O senhor Domingos é tal e qual como imaginado, de raça pequenina, miudinha.
Sabe-se lá porquê, nasce-se com este dom de adivinhar a principal característica fisionómica de um interlocutor, através de um timbre de voz transmitido via GSM.
É uma coisa que corre na família; a Magui, por exemplo, nunca falha – ouve um gato recém-nascido a soltar os primeiros miados e, prontamente, por artes mágicas, sentencia se é um menino ou uma menina. Em 99 por cento dos casos acerta.
Não nos serve de nada, não é um talento suficientemente inebriante para fazer cabeça de cartaz de uma feira de aberrações, ou seja, não dá para ganhar a vida com isto, e depois também não é coisa que convença nenhum empregador numa entrevista para um cargo que pague mais do que o valor hora de uma empregada doméstica.
O senhor Domingos foi um erro de “casting”. Administrador do condomínio durante sete anos fugiu à obrigação de convocar reuniões, cobrar mensalidades, elaborar planos de actividades e adjudicar reparações em dois prédios anteriores a 1850 que suplicam por ajuda para não caírem aos pés da esquadra de Santa Marta.
O senhor Domingos deixou a casa toda desarrumada e agora a sindicalista deslumbrante é, também, administradora do condomínio. Onze mil euros de receitas não cobradas. Seis anos de contas por fazer. Adjudicações de suspeitas empreitadas a trolhas seus amigos.
O senhor Domingos sorriu com a sua boca pequenina, quando escapou ileso a uma moção de censura dos condóminos pela sua fraca performance à frente dos desígnios dos prédios número 84 e 86. Pensou com os botõezinhos pequeninos da sua também pequenina camisa de xadrez – desta já me safei. Não fiz a ponta de um corno, não apresentei contas, acumulei dívidas, e estes totós nem um raspanete à minha fraquinha gestão deixam na acta da reunião.
Saiu todo pimpão, o senhor Domingos. Nessa noite, ficou acordado até à uma da manhã; parecia uma criança em véspera do Carnaval.
O senhor Domingos, não quero ser má-língua, deve cheirar mal da boca. Mas o pior de tudo, é que infringiu todas as alíneas do código de conduta e de ética da Ordem dos Administradores de Condomínios. É uma vergonha para a classe. Terá que ser exterminado.
Ou então torturado com requintes de malvadez, qualquer coisa como passar à mão e com caligrafia exemplar todas as actas dos condomínios dos imóveis sitos na freguesia de Coração de Jesus. A administração de condomínios é como uma sociedade secreta, exige ainda mais fidelidade que a própria máfia. Já sei – o senhor Domingos devia ficar sentado à porta da Associação Lisbonense de Proprietários com um chapéu de burro na cabeça. Mau administrador de condomínios.
As crianças deviam escarrar à porta do senhor Domingos.

13 dias sem postar




Mas já cá venho. Porque a sindicalista deslumbrante é agora a administradora do condomínio.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

O senhor Guilhermino III - a saga continua e está quase a acabar

Senhor Guilhermino, não me quer dar o seu número que eu ligo-lhe de volta, é para não gastar mais dinheiro…

O senhor Guilhermino estremeceu – contaram-se três segundos de silêncio total –, recusou-se a desligar a chamada e gaguejou qualquer coisa como eu estou de olho na porta; se a mulher entra por aqui e me apanha agarrado ao telefone é sermão e missa cantada, não sei porque tanto se amofina o raio da mulher, quem é que paga a conta, quem é que lhe paga, aliás, as idas ao cabeleireiro? (e do outro lado do bocal, numa janela sobre a Andrade Corvo, houve também uma pausa, a mente elevou-se para até ao tecto e pôs-se a visualizar um cego de olho na porta).

Eu é que já fazia um xixizinho, raisparta o drenante com sabor a anis, mas o senhor Guilhermino não podia arriscar desligar o telefone; sabe-se lá há quanto tempo ninguém o escutava sem delongas. Então continue, senhor Guilhermino, estou aqui, sou toda ouvidos.

Branco Rodrigues teve mais sorte que o senhor Guilhermino. Os pais, no final do século XIX, não o acharam amarelo, ou menos filho só porque os seus olhos nasceram sem o dom de ver.
Branco Rodrigues, leio algures no escuro da net, enquanto danço o fandango com vontade de ir mudar a água às azeitonas (que bonita expressão) e oiço a história da vida do senhor Guilhermino contada em duas horas e picos, foi o primeiro grande impulsionador da valorização dos cegos em Portugal. Em 1896 criou uma aula de leitura e de música no Asilo de Nossa Senhora da Esperança, em Castelo de Vide. Um ano depois, numa sala cedida pela Misericórdia de Lisboa, instalou outra aula de leitura.
No redondo ano de 1900, num andar da Escola Comercial Rodrigues Sampaio, cedido por Despacho Ministerial, abriu a Escola Intelectual e Profissional de Cegos, que esteve instalada em vários edifícios e acabou por transformar-se no Instituto de Cegos Branco Rodrigues, em São João do Estoril – a mesma casa com vista sobre o mar (muito relevante para quem não vê) onde o senhor Guilhermino teve que dormir o seu sono angélico, de 1927 a 1947, com as mãos coladas ao pescoço. Em 1903, os cegos do Porto também passaram a contar com a ajuda deste benemérito.

Branco Rodrigues nasceu num berço de ouro, e gastou a sua fortuna na dignificação dos cegos portugueses. É a ele, e a um generoso funcionário da Imprensa Nacional cujo nome não aparece em nenhuma das páginas pescadas pelo Google, que se deve a primeira impressão em Braille, na viragem do século XIX, descubro enquanto escrevo tudo o que o senhor Guilhermino me conta (e, não contem a ninguém, mas ainda consigo, para além de ler, escrever conteúdos totalmente distintos, mascar pastilha com destreza).

O senhor Guilhermino não conheceu Branco Rodrigues, mas chama-lhe pai. Mas em 1947, vinte anos depois de os seus verdadeiros pais o terem abandonado numa casa onde se ouvia o rugido do mar e o pouca-terra do comboio, e terem apanhado o vapor para o calor tropical do Brasil, o senhor Guilhermino era um homem feito, vinte e sete anos de idade e uma tez mais rosada, era pois hora de partir, era a hora de partir porque havia mais cegos em lista de espera para aprenderem a ler pautas sem olhos (como raio é que um cego lê uma pauta?), e o senhor Guilhermino não teve outro remédio senão sair da sua casa, sair a contragosto, com uma mala na mão e um violoncelo noutra.
E foi para a rua, a verdadeira casa dos cegos.

Então o que é que me podia esperar? Fui para a rua, fui tocar para a rua e pedir esmola. As pessoas deitavam as mãos à cabeça, diziam, não há direito, não há direito.
Foi nesses dias, anos que se seguiram que o senhor Guilhermino conheceu a sua mulher, a tal que lavava casas a escova a dois escudos por mês.
A minha mulher não era deficiente mental (?! Lá estou eu de boca aberta a ouvir o senhor Guilhermino), era atrasadinha, mas era muito humana, chorava, chorava mesmo muito, chorava pelos meus olhos que não a viam.

Eu dizia-lhe: não te preocupes. Tu és a minha máquina; eu sou o teu cérebro.

E a vida seguia assim, ela guiava-o, era os seus olhos, e ele era o seu pensamento. Os primeiros anos de casados viveram numa casinha da câmara em parte incerta e de onde foram expulsos por circunstâncias que faltaram apurar num telefonema de duas horas com uma perfeita estranha.

A coisa ficou torta numas pequeninas águas-furtadas nas Portas de Santo Antão.

Imagino sim o que é subir umas escadas estreitinhas até ao quarto andar, senhor Guilhermino. Pois, de facto, de olhos fechados nunca experimentei…

O barulho dos canos era insuportável. Sabe que os cegos ouvem coisas como os cães, coisas que mais ninguém escuta…

A vida fazia-se, fez-se sempre na rua. Certo dia, depois do 25 do 4 porque o senhor Guilhermino a meio deste vórtice temporal disse maldito 25 de Abril, por isso é que eu digo: MALDITO 25 de ABRIL (está em caps, porque a voz do senhor Guilhermino elevou-se, só se eleva, de facto, para falar mal da revolução dos cravos), Gilberto Almeida Monteiro, vestia camisa branca e ziguezagueava com o seu carro pelas ruas estreitas do Intendente.

Este conhecido marinheiro do Intendente era um homem à frente do seu tempo. Muito antes de inventarem a PlayStation e muito menos o popular joguinho Grand Theft Auto, onde se ganham pontos a atropelar as avozinhas que passeiam seus netinhos em carrinhos de bebé, já ele fazia pontaria aos ceguinhos (que ao que constava na época valiam pontos a triplicar).

Atropelou-me e ainda me chamou nomes feios. E eu também lhe chamei os mesmos nomes que ele nos chamou, ora pois, não sou de me ficar.

Cego tombado na calçada, mulher aos gritos, um carro de marinheiros divertidos com a cena rocambolesca (e uma série de pormenores que eu não consigo decifrar da minha caligrafia de há mais de um mês atrás). Não o deixem fugir que eu estou ferido, mas nisto sai do carro um outro de seu nome António Coelho, de camisa grenat (mais referências cromáticas vindas de um cego; é impressionante a memória visual deste cego de 87 anos), e ia a dar um pontapé na barriga da minha mulher, quando saem da taberna muitas prostitutas, que lhes cercaram o carro e deram murros no capot, e aí os valentes marinheiros trancaram-se lá dentro e já não eram tão valentes.

Vieram dois polícias, que viram tudo mas fizeram a vista grossa, abeiraram-se do carro, eu caído no chão, e eles com as mãos atrás das costas (impressionante as coisas que este cego viu há mais três décadas atrás), era só cagufa, porque estes marinheiros eram muito conhecidos na zona do Intendente.

O polícia mais novo já levava dinheiro na mão e o sub-chefe Barata, quando cheguei à esquadra para apresentar queixa contra os malandros, também já tinha a carteira bem recheada de notas.

O senhor Guilhermino deve aos marinheiros Gilberto Almeida Monteiro, de camisa branca, e António Coelho, de camisa grenat, um volte-face do seu destino e da sua mulher que não era deficiente mental, apenas atrasadinha.

Mas esse, só há-de ser contado no próximo episódio da saga do senhor Guilhermino (não queriam mais nada, duas horas e meia de patuá telefónico reduzido a dois posts…)

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Os pequenos salazares

Tenho melhor que fazer. Tenho, por exemplo, que contestar a multa de há dez dias atrás e convencer o Director Geral de Viação que fui autuada injustamente (o sacaninha do polícia vai levar na próxima lua cheia com o feitiço da impotência e ai de mim que dou em criminosa se descubro que viatura conduz ele, aqui na pacata rua de Santa Marta).

E eu até nem ia escrever sobre o referendo para não me chatear com os meus amigos do sim. E só o fiz porque sofro de stress pós-traumático, apesar de nunca ter interrompido a gestação de um filho meu. Sofro 15 anos depois da tarde na saleta da Paula e da descarga do autoclismo e choro descontroladamente pela minha irmã que não nasceu.

Irrita-me, sobretudo, que o post mais abaixo seja o mais comentado deste blogue, suplantando um dos mais bonitos e mais bem escritos desta horta (este).

E depois tenho o comentário do Filipe a dizer que aquele foi o primeiro texto do (T)ralha que detestou, e isto apenas, presumo, porque tenho o azar de não pensar como ele, e há ainda o telefonema do Trigo de Abreu, o desaparecido Trigo de Abreu, o muito saudoso Trigo de Abreu que, por acaso, não leu o post das três dezenas de comentários, mas que ficou pessoalmente desiludido com esta sua amiga por ela no próximo Domingo ir desenhar uma cruzinha na opção Não. Debaixo de uma chuva torrencial ouço que sou irracional por votar não, que afinal não sou tão boa pessoa como penso que sou, porque tenho o desejo mórbido de ver mulheres na cadeia.

Há um pequeno Salazar em cada um de nós.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

O cavalinho da chuva

Tirem o cavalinho da chuva, todos os que lêem esta gaita e que partilham o mesmo edifício com vista para a Andrade Corvo: ninguém, nem mesmo os sindicalistas deslumbrantes, legalmente protegidos no próximo biénio pelo estatuto de delegados sindicais, mas mesmo ninguém nestes milhares de metros quadrados pode respirar bem fundo – e não podem mesmo respirar fundo, porque a qualidade do ar, apesar de ninguém fumar despudoradamente como antigamente, é do piorzinho que já se viu, regrediu aos tempos de umas instalações na Quinta do Lambert cobertas de material radioctivo, metem 70 tipos onde havia 40 o que é que querem? –, ninguém pode miraculosamente deixar de roer as unhas por causa do nervoso miudinho, ou de sentir borboletas nocturnas no estômago encandeadas por um holofote de mil watts sempre que o telefone toca, não pensem que ninguém vos vai chatear porque o vosso salário é uma migalha, ou que não vos vai sair a rifa porque são caladinhos de natureza e nunca levantaram ondas; pior, não se sintam protegidos pela graça do divino espírito santo lá porque são engraçados ou porque há tempos caíram em graça; por favor, nem ousem planear o nascimento de um filho ou mesmo trocar de carro.

Olho para a esquerda e está a filha do grande engenheiro. Olho para a direita e está o britânico pago a peso de ouro de 19 quilates que decidiu que o logótipo do meu jornal passa a ser um P vermelho. E se olhar para trás lá está o meu presidente. Passam o dia fechados na sala envidraçada com a vídeo-conferência ligada.

Ninguém sabe o que tanto discutem, porque é que tanto reúnem.

A cena repete-se. E mesmo depois de se repetir 63 vezes nos últimos três meses não deixa de doer assistir às lágrimas de quem vê a dedicação de quase duas décadas de vida reduzida a um cheque do BPI.

Ninguém está a salvo.
Hoje eu soube que ninguém está a salvo.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Declaração de voto

A Célia viu-se grávida quando eu ainda só pedia três no bate-pé e passava as tardes sentadas num Morris Minor abandonado na rua 2, uma rua do Bairro de Alvalade que tem nome de poeta há muitos anos, mas que todos ainda conhecem como rua 2.
E foi dentro do Morris, eu ao volante a fingir que sabia pôr mudanças apesar de não saber qual era o pedal da embraiagem, que a Célia nos anunciou que naquela tarde ia correr como louca, ia fazer abdominais até as suas forças se esgotarem, que ia pular na sala com uma corda de ginástica até aquilo se desprender. A Célia era ginasta de alta competição e o desmancho não ia ser feito num vão de escada, iriam bastar oito horas de treino aeróbico violento.
E todas as ocupantes do Morris estavam lá, na saleta da Paula onde se faziam sessões de espiritismo numa mesa de pé-de-galo, quando o feto se soltou das entranhas da Célia. E todas ouviram o barulho do autoclismo e nunca mais falaram dessa tarde, aliás, nunca mais falaram umas com as outras, a nossa infância morreu ali, foi-se com a descarga da sanita e com a pasta ensanguentada.

Por outro lado, a prima solteirona da Ana já estava habituada. Uma vez por ano, setenta contos, e um dia deitada na cama com direito às visitas de todos os familiares mais próximos no apartamento de dois quartos no subúrbio. Era esta a receita de um encontro anual com um amante marinheiro que teimava sempre em resultar numa gravidez. E eu lá os acompanhei, lençóis de flanela, acenos de desaprovação com a cabeça, a pílula, o preservativo, porquê, e as lágrimas da outra a rolarem para a base de um rosto pálido.

O João diz-me na cama, saca dos seus conhecimentos de seminarista por entre o edredon, diz-me que os filhos que não nasceram ficam no limbo a tremer de frio para toda a eternidade. E eu penso na minha irmã com nome de fada que foi aspirada não fosse ser mongolóide ou coisa pior, e desato a chorar porque ela merecia o risco, merecia ter dezassete anos e eu nem sei se era uma menina, nunca tive coragem de perguntar.

Aos vinte e quatro foi a minha vez.
Não tomava nada, não exigi latex porque estava em rota descendente de auto-destruição, tanto fazia: diariamente engolia duas tomas de sertralina, bebia, fumava e escrevia sobre o Código do Trabalho, comprava toneladas de sapatos caros e a vida era isto, ninguém me convencia que voltaria a sorrir de novo.

Por causa de um feto estive cinco meses na cama, em casa, em repouso absoluto. Perdi o meu posto de trabalho (às 37 semanas de gravidez, saí de casa, fui a Picoas e constatei que estava tudo encaixotado e que já outro jornalista dedilhava atrás da minha coluna).
E por duas vezes – às 24 e às 26 semanas – entrei numa urgência de obstetrícia prestes a parir, e os médicos, em Santa Maria, caso sirva de algo este detalhe, minimizaram a coisa que trazia dentro de mim, que não era viável, que o meu organismo me estava a avisar de algo que eu devia escutar e aceitar, e das duas vezes assinei um termo de responsabilidade e dei entrada numa urgência privada.

O meu feto tem 38 mais nove meses agora. É uma menina loira de olhos azuis que herdou a mesma propensão às anginas que a mãe. Às dez semanas, eu nem tinha a certeza de quem seria o pai, mas tinha a certeza que naquele ecrã, onde fixei o olhar por dois minutos e sorri ao discernir dezenas de pontapés, estava uma vida.

Compro menos stilettos, pois compro, o ordenado não chega ao dia 15, é verdade, ganho cabelos brancos e perco anos de vida em corredores do Tribunal de Menores e afins, oh lá lá se ganho e se perco.

No sofá, cheia de febre e a dormir, está a não planeada Maria Carolina Ralha. Que eu quase perdi às 24, às 26 e às 37 semanas de gestação intra-uterina. Que me valeu uma cesariana de urgência sem anestesia e uma cicatriz no ventre [o aparelho do CTG a apitar por todo o lado, a pulsação do feto a cair dos 160 para os 60, a enfermeira Deodata a gritar chamem o doutor Moniz, a desligar os alarmes, outra a cantar-me ao ouvido uma canção do Carlos Paião, uma a rapar-me os pelos púbicos, e a minha mãe num elevador com o obstetra e eu no outro a chorar sem fazer barulho, e depois um bloco operatório de mármore rosa, o doutor Moniz com pulover de losangos, eu a dizer à Magui, não consigo respirar, e a desmaiar logo depois de ver 2,9 quilos de gente ensanguentada por cima de um lençol branco]. A Maria Carolina que, em Abril de 2003, tinha dez semanas e era do tamanho de um feijão.

O (T)ralha vota não no referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez até às dez semanas de gravidez a pedido da mulher, porque acredita que cada vida é única e irrepetível e que, em concreto, aquela que dorme no sofá com uma otite e uma amigdalite agudas vale bem mais do que três pares de stilletos por mês.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

O parecer e as unhas com pós de perlimpimpim

E quando a sindicalista deslumbrante pediu à sua sombra muito mais magra e muito mais loira que ele se empoleirasse no escadote centenário que veio de brinde com um apartamento pombalino em estado de semi-ruína, nada fazia prever que os astros preparavam nas seguintes 48 horas uma surpresa bem maior do que duas dezenas de vernizes de cores e feitios esquizofrénicos, guardados num baú de madeira.
Guardados religiosamente numa pequena caixa que também esconde, lá em cima, na última prateleira, a três metros de altura, ao nível da Duque de Loulé, algum cotão de mágoas; vernizes de todas as cores, com estrelas e purpurinas, verdes, azuis, amarelos, e até uma edição especial psicadélica da Dior, que reage, ou pelo menos reagia, há cinco anos atrás, à luz negra das discotecas; duas dezenas de frasquinhos de vidro guardados na secreta esperança que um dia as unhas deixassem de se esfarelar como uma rocha de talco; escondidos no baú, fechados a sete chaves, vinte vernizes malcheirosos, dos mais caros aos das lojas dos 300, à espera que um anjo pequenito me chegasse – eu não sabia, quando os tranquei, se ia ter um anjo loiro, ou um moreno –, e dissesse assim, depois do jantar: Quero pintar as unhas para ficar uma princesa.
A pequenota decidiu e a sindicalista deslumbrante pintou as unhas com pós de perlimpimpim. Unhas de fada, com brilhos de mil cores. E foi com unhas mágicas que a sindicalista deslumbrante se cruzou numa viagem de elevador silenciosa com o presidente do conselho de admiração.
Ele cortou o silêncio que se ouvia num quadradinho da marca Schindler e disse: O que é que achas?
E o que a sindicalista achava mesmo é que não o conhece de lado nenhum para o diálogo fluir na segunda pessoa do singular, e por isso cerrou os dentes quando se preparava para responder: Acho que o respeitinho é bom e eu gosto.
Na verdade, o presidente do conselho de admiração estava à rasca porque não gostava de silêncios de elevador e, seguramente, estava-se bem marimbando para a opinião da sindicalista deslumbrante sobre umas folhas de papel impressas a cor que vão estar nas bancas de todo o país a 12 de Fevereiro, desde que ela continue a trabalhar bem e barato e sem chatear muito, e era isso é que o fazia sorrir naquele cubículo vidrado – e o presidente do conselho de admiração tem dentinhos pequeninos, diga-se a despropósito.
Tenho medo, disse a deslumbrante sindicalista que mais uma vez teve vontade de picotar os pulsos porque não estava mascarada de deslumbrante, estava, na realidade com o cabelo em desalinho, mas desculpou-se rapidamente a si própria, já que nada faria supor que teria encontros imediatos de terceiro degrau com o presidente do conselho de admiração, até porque ia no elevador e não nas escadas e o terceiro degrau era do outro lado, na saída de emergência.
Tinha medo. Tinha tanto medo daquilo como de fazer um implante de silicone. É uma questão de hábito, deveria ter ela dito, teria sido a melhor resposta, e até já estava um post nesta tralha escrito sobre o assunto, rais partam que não lhe ocorreu, deve ter sido de não estar particularmente deslumbrante nessa manhã.

O senhor H. é o Ambrósio lá de cima. Coxeando até ao novo posto de trabalho da sindicalista deslumbrante perguntou-lhe baixinho: “Então? O que é que dizia a Inspecção-geral do Trabalho?”

E a sindicalista deslumbrante franziu o sobrolho e não teve tempo de dizer: “Sobre o quê?”, porque o senhor H. ficou nervoso e antecipou-se com um: “Não me digas que não recebeste?”.
A sindicalista deslumbrante gosta do senhor H. Até assumir estas lides sindicais, o contacto entre o senhor H. e a sindicalista deslumbrante era nulo, bom dia boa tarde, ah, sim, e de dois em dois anos, como manda a lei, o empregador da sindicalista deslumbrante fazia umas consultas de medicina no trabalho, e era sempre o senhor H. que as marcava, aquilo era uma fantochada, por mais que a sindicalista deslumbrante se esforçasse para chocar os médicos, eles, porém, só eram pagos para escreverem a vermelho APTO.

Não, não tinha recebido, e nunca tinha visto o senhor H. a andar tão depressa e sem mancar. Agarrou-lhe no bocal do telefone, ligou para não sei quem, onde é que está a carta da Inspecção-geral do Trabalho, seu burro, ela já não é dessa secção há mais de três anos – e nisto, a sindicalista deslumbrante maravilhada e boquiaberta com o notável conhecimento do senhor H. relativamente ao seu percurso profissional, saberia também o seu director a mesma cronologia? –, a Diana é a presidente da Comichão de Trabalhadores, é sempre a ela que têm que ser entregues todas as cartas – e com esta de ser presidente, a sindicalista deslumbrante sorriu –, e desligado o telefone, a carta registada apareceu como por magia no piso que fica acima do novo local de trabalho da deslumbrante defensora dos direitos dos trabalhadores.
A sindicalista deslumbrante sentou-se numa secretária vaga da tal secção à qual não pertencia há mais de três anos. E leu. Tremiam-lhe as mãos e ela à medida que passava folhas, olhava para as unhas de fada, pintadas a pedido do anjo loiro, e pedia em segredo um milagre. Chegou à última folha, sem ler com a devida atenção as anteriores. Leu a conclusão: “sou de parecer negativo ao despedimento de fulana, por motivo de extinção de posto de trabalho.”
A sindicalista deslumbrante chorou de alegria abraçada a uma grande repórter de olhos azuis.

Foram os anjos que no último dia do prazo legal avisaram a sindicalista deslumbrante para chamar a Inspecção-geral de Trabalho. As tais epifanias de que ela se fartava de escrever neste blogue.

Não tinha garrafa de Veuve Clicquot para brindar. Sentou-se, no final do dia, na tasca da Dona Beatriz e bebeu um whiskey oferecido pela casa (e andava a pensar candidatar a Dona Beatriz ao concurso de melhor vizinho de Portugal no programa do Goucha na TVI). Brindou e riu com a satisfação do dever cumprido, mesmo sem saber que oito horas depois seria multada injustamente por circular na faixa do Bus, na Duque de Loulé. E ingenuamente pensou que o presidente do conselho de admiração teria mais tento na língua e que pensasse duas vezes quando lhe apetecesse dizer extinção do posto de trabalho.

Era mais uma vitória, era um manguito do Zé povinho ao presidente do conselho de admiração com unhas pintadas com purpurinas de mil cores.

Por esse mundo fora, ainda havia muita gente que se limitava a dizer: É aquela que tem um cu grande.

terça-feira, janeiro 30, 2007

[sem] mil

Sem posts, este blogue chegou aos cem mil.
O visitante 50 mil bisou a façanha.
Há-de haver posts. Façanhas da sindicalista deslumbrante.
Parabéns, (T)ralha.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Hábito

É uma questão de hábito.
É como lembrar-me de beber em jejum – e vinte minutos antes do almoço – a ampola laranja que queima gorduras e que sabe a capilé amargujado; é como acordar uns minutos depois das oito da manhã, ao segundo toque do despertador do Nokia azulito da saudosa lanterna (e eu continuo a recusar-me a acordar ao som do Nokia preto, o João faz-me a vontade, faz-me todas as vontades, atura todas as birras, está ao meu lado em todas as guerras, ele acerta o relógio do Nokia para as sete e quarenta e cinco, e ele toca e eu faço menu sete um um e meia cega determino que quero dormir mais quinze minutos e há de ser assim, há de continuar a ser assim, pelo menos enquanto o Nokia azul não se finar, enquanto não for lavado na máquina no bolso das calças como já aconteceu antes na história).
Mas se calhar estes também são uns hábitos idiotas.

Fuma-se menos, não se fuma ainda despudoradamente, e se o cigarro se acender à revelia seguramente aqui ninguém me culpará de um qualquer cancro. Atrás de mim há uma muralha de armários cheios de pastas cobertas por um manto de pó e de cotão, à frente, a ventoinha do Cerejo, na diagonal à direita, o gabinete do chefe supremo, depois há uma sala de reuniões com videoconferência onde perdi a voz no mês de Dezembro enquanto membro eleito da comichão de trabalhadores, a janela, a única janela que vejo, a que está longe demais, mostra-me aparelhos de ar condicionado espetados nas fachadas, não há gaiolas de periquitos como em Alfama, mas há marquises e idosas a estenderem cuecas cor-de-rosa.
Uma nesga de uma Livistona chinensis a sair de um terraço, telhas laranja brilhantes ao lado de betão e alumínio, e não vejo mais os plátanos que estão prestes a matar-me de renite daqui a mês e meio. Para quem não sabe, para quem não tem mesmo que saber, a Lisvistona é uma palmeira leque, e no fim-de-semana passado a cobertura de um prédio em Massamá ardeu, ardeu por completo, e o único ferido grave foi um polícia que se picou na perna com um ramo de palmeira, quem sabe se não seria uma Phoenix dactilifera, má sorte de um raio, nem uma queimadura para amostra, mas um arranhão de palmeira na perna a reportar, quem vai à guerra dá e leva, isto é como um bombeiro morrer afogado na albufeira, caramba, devia mas era ter estado calado, grande gozão que me saiu o médico do INEM, à frente, à minha frente, à frente da ventoinha, há televisores pequenos e uma prateleira cheia de cassetes VHS onde estão gravadas as notícias de ontem.
É uma questão de hábito, tudo é uma questão de hábito, aposto que a jornalista que usa calças pelo tornozelo apenas o continua a fazer por hábito, não pode ser por motivos estéticos, nem pela moda, é o habito, é o monge, e eu bebo litro e meio de água com quatro colheres de sopa medidas a olho de drenante de limão, fumo menos, escrevo menos, e quase que choro quando olho para a primeira página de um jornal que há-de estar nas bancas a 12 de Fevereiro.
É uma questão de hábito.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Interlúdio

Setas.
Há quem desenhe bolas. Outros travessões. Há ainda quem faça triângulos e outros sólidos geométricos. Não encontrei círculos.
Esta é uma pequena amostra das folhas rascunhadas que jazem em cima das secretárias dos colegas mais próximos do meu posto de trabalho (e hoje, é o último dia em que trabalho à janela da Viriato; subi na vida, subi um piso, passo a estar bem pertinho do patrão e longe da Viriato. Lamento-o profundamente).
Eu desenho setas. É mais forte que eu.
Três cadernos em cima da mesa, três caligrafias diferentes a cada folha que passa, todas desenhadas pela mesma mão, mas em algumas ocasiões, a mão fez dançar a esferográfica de manhã, como numa valsa singela, noutras, rodopiou no papel com um nadinha de tensão, e então a letra inclinou-se para a direita, como num tango, e depois há uns parágrafos, praticamente imperceptíveis, em que a caligrafia teima em não caminhar direita pelas linhas azuis dos cadernos baratos; estas letras foram escritos perto da linha da morte, do fecho antecipado em duas horas por causa de um encarte publicitário, perigosamente em cima da hora de encerramento de um colégio junto à Rotunda do Aeroporto.
Setas, setas, setas.
Agradeço as epifanias, o sussurrar dos anjos a alertarem-me para perigos, para maldades e, por vezes, a guiarem-me às escuras até ao meu destino.

O senhor Guilhermino ligou o número geral. Não foi nem a Fátima nem a São que lhe atenderam a chamada, porque a Fátima e a São também se foram embora, substituídas por um gravador. Agora anda tudo doido a premir do um ao nove no teclado, geralmente desistem, mas o senhor Guilhermino deve ter premido a combinação de números que abre o cofre do tesouro – 7 - 3 - 7 – e o meu telefone, enrodilhado de fios, tocou.
A voz era sumida, apagada, de início. O dedo indicador carregou com força numa tecla do telefone Nortel que tem desenhado uma grande coluna de audio.
Alguém me alertou para puxar do papel e da caneta. Era, certamente, uma grande história, impublicável. Tanto pior para as publicações pagas. Ainda havia um blogue para alimentar a migalhas de serviços mínimos.
O senhor Guilhermino ainda não tinha dito que era cego, e que as noites da sua infância tinham sido passadas com os braços cruzados ao peito, e eu não poderia sequer imaginar que os joelhos do senhor Guilhermino haviam de ser partidos por um marinheiro numa rua sombria dos Anjos. Eu não sabia nada disso, mas o papel e a caneta já estavam preparados para guardar a história do senhor Guilhermino, para gravar a sua voz sumida em letra miudinha.
Foi no verso de um fax da câmara de Lisboa. Três páginas para três horas de monólogo telefónico. Três páginas de papel fino e brilhante, escritas com uma letra minúscula, umas vezes escritas na horizontal, como nos ensinaram na escola à força de reguadas, outras na vertical e na diagonal, porque a mão sabia à partida que a narrativa não seria linear: o senhor Guilhermino começou mais ou menos pelo início, mas logo depois foi ainda mais trás, pulou várias vezes para o presente, se não me engano conjugou verbos no futuro, recuou, andou para os lados como caranguejo. Três folhas cheias de setas, guardadas religiosamente à chave, sem as quais eu já não saberia escrever as façanhas do senhor Guilhermino.
Andam comigo para todo o lado na mala Balenciaga. À espera do segundo capítulo.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

O senhor Guilhermino I

Aparentemente, já todos tiveram que aturar o senhor Guilhermino. Mas não cuidaram de saber e muito menos de reter o nome que consta no seu assento de nascimento deste homem que nasceu em 1920, nem tão-pouco tiveram a paciência de o ouvir até ao limite de duas orelhas escaldadas e metamorfoseadas à forma do auricular de um telefone da marca Nortel.

[E, entretanto, perdoem a ausência, mas houve crianças febris com amigdalites que se transformaram em otites, houve visitas surpresa de um cigano ítalo-brasileiro-irlandês no dia de aniversário do meu blogue, houve correspondência secular dos morgados de Mateus a ser revista no Ibook, e há e continuará sempre a haver corações tão secos e espalmados como os dos bacalhaus a lerem e a copiarem este blogue de fio a pavio – ai, ai, os direitos de autor –, com más intenções, com intenções cretinas, até, coisa que devia dar suspensão na Ordem dos Advogados, todo esse trabalho, um gasto supérfluo de energia para serem abatidas mais árvores (meus queridos eucaliptos, perdoem) e interpostos mais processos judiciais de má-fé, ah, sim, e há também muita estupidez à mistura, sendo que tudo isto atrasou a produção literária]

Todas as redacções têm um senhor Guilhermino. À parte do senhor Guilhermino, nós também temos a dona Clementina, que em 363 edições anuais impressas em papel de má qualidade, há-de nos fazer chegar pelo menos 300 cartas ao director, sim, cartas, nada de emails, mais eucaliptos abatidos, mais dividendos distribuídos à Portucel, mais um selo lambido com a língua, e no fim do ano e das três centenas de cartas, como é uma querida, a dona Clementina ainda envia uma caixa de chocolates.
E havia também um tenente-coronel da armada que escrevia uns faxes com uma caligrafia muito bonita, mas esse estava zangado com o mundo, e com alguma empresa cotada também, se não me falha a memória.
O Manuel Acácio, da TSF, tem senhores Guilherminos e donas Clotildes aos magotes, e eu já ouvi o caríssimo tenente-coronel através das ondas hertzianas no fórum TSF, mas o senhor Guilhermino, o meu, o que nunca ninguém teve pachorra para aturar durante duas horas e meia interrompidas por dois minutos para eu poder fazer um xixizito, é especial, deveras especial e eu descobri isso aos dois minutos de conversa e, como a conversa é como as cerejas, deixei-me estar e os meus ouvidos encheram-se de frutos vermelhos suculentos, retalhos de uma vida às cegas, que já conta com 87 primaveras apesar de o senhor Guilhermino não ter tido nunca a oportunidade e o privilégio de ver uma flor de laranjeira, ou um jacarandá em flor.

É. O senhor Guilhermino nasceu cego. Amarelo e débil, acrescenta ele, o que é muito estranho, na realidade, porque o senhor Guilhermino nunca viu a cor amarela, e assim sendo, vai-se lá saber porque é que uma referência cromática se assume como facto tão relevante da sua infância, mas, se calhar, em garoto cheirou uma mimosa em flor e ficou com a ideia que o amarelo é a cor que cheira a mimosa, e a flor da mimosa cheira bem, mas o que o que é demais chateia e a mimosa em flor às vezes tresanda tanto que até faz dor de cabeça.

O senhor Guilhermino nasceu cego dos olhos, mas há cegos que vêem muito, e o senhor Guilhermino vê coisas do arco-da-velha há 87 anos, e viu-as e continua a vê-las mesmo quando está de olhos fechados, porque a si, tanto lhe faz, e Deus não dorme, como os cegos, e alguma vantagem lhes teria que dar por levarem a vida sempre às escuras.
Infelizmente, o senhor Guilhermino teve má sorte, não por ter nascido cego, mas sim porque os seus pais sofriam de uma cegueira que é bem mais comum neste mundo e há muito tempo, uma cegueira branca e milenar.
Os pais do senhor Guilhermino tiveram, durante toda a vida, o dom de as suas retinas reflectirem ao cérebro, através de impulsos eléctricos, as imagens de tudo o que é belo e de tudo o que é feio neste mundo, mas passaram ao lado da pessoa extraordinária que tinha uma mistura dos seus sangues e uma tez, ao que parece, um tanto ou quanto amarelada.
O senhor Guilhermino ainda era o menino Guilhermino quando foi enxotado para uma instituição em 1927. Os pais fugiram para o Brasil com os filhos que viam o mundo a cores.
O meu pai era maluco, fez-se um vadio e testemunha de Jeová. O senhor Guilhermino surpreende-me a cada três palavras que profere, deitado na cama, com uma voz muito apagada e rouca, sempre à cata de ver com os ouvidos se chega a senhora que trata dele, encontrada num anúncio classificado que foi publicado n’O Crime sem sucesso por mais de um ano. Não se amofine, senhor Guilhermino, ainda há pais que são vadios, ainda há pais que são malucos.
Deixaram-me entregue àquela gente sem coração.
Se eu estava a dormir o meu sonho angélico chegavam à camarata e destapavam-me, destapavam-nos, destapavam todos os ceguinhos. E tínhamos que dormir com as mãos cruzadas no peito, porque se eu tivesse os braços caídos, junto ao corpo, era porque estava a fazer coisas feias. Eu não sabia o que eram coisas feias. O ódio com que batiam nas crianças cegas. Precisávamos de pancada. O vigilante entrava pela aula dentro e desatava à bofetada. E a professora era ceguinha também, nada podia fazer.
O senhor Guilhermino foi criado numa Misericórdia sem misericórdia colada ao mar em São João do Estoril, mas com mais ou menos bofetadas e lençóis destapados a meio da noite, aquela gente sem dó não embruteceu o senhor Guilhermino, que aprendeu o mais belo dos ofícios: a música.
Não lhe valeu de muito o grau superior do Conservatório, o arco e a elegância do seu violoncelo ou dos seus dedos ágeis no marfim do piano. A vida dos cegos ganha-se na rua, mas o Salazar nunca fez mal aos ceguinhos, garante o senhor Guilhermino, que dispara contra o 25 do 4 implacável, nos contextos mais absurdos.
A sua companheira de vida não a conheceu através de anúncio, mas andou lá perto.
A minha mulher ganhava dois escudos a lavar casas à escova. Na terra, guardava as vacas desde os cinco anos e bebia água fresca da fonte. Veio para a cidade servir. Queres vir para a minha companhia? As mulheres dedicavam-se de alma e carinho porque precisavam, agora não precisam de nós para nada.
As mulheres, senhor Guilhermino, precisam de se dedicar a algo ou a alguém; é esse o nosso fado, nada mudou, a conta bancária pode ter até quatro dígitos no início do mês, as contas podem até estar todas pagas, mas as mulheres precisam de se dedicar.

(continua)

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Dia de blog

Faz já muito tempo, os reis magos perderam-se, há quem diga que certa noite, Belchior fumou umas coisas que não devia e viu uma constelação que nunca mais foi identificada em mais de dois mil anos de mundo, depois, como se já não fosse considerável o seu atraso para visitar o filho de Deus, entraram numa taberna e ficaram à conversa com o velho Herodes (isto lembra-me uma cantilena muito javarda, o velho Herodes já morreu, e quem se f++++ sou eu), copo 3 para aqui, copo três para acolá, e tudo perdido: só chegaram ao estábulo dia 6 de Janeiro, já o menino Jesus fazia as suas primeiras graças nas palhinhas deitado e com um cheiro de requeijão e estrume insuportável.
Este blog nasceu há dois anos em Dia de Reis, conforme lembrou a Mary Mary tão bem num comentário lá em baixo. Eu não esqueci. Simplesmente, tenho filha doente, muito doente com a sua primeira amigdalite e a Magui instituiu que, para o ano, o Natal lá em casa é à espanhola, só se abrem os presentes no dia de Reis, sem stresses e com promoções de 70 por cento que permitem comprar mais do dobro de incenso, mirra e ouro.
Este blogue é precioso, foi um bonito presente, eu deixo-o aqui abandonado à sua sorte e ele entra em auto-gestão; é mesmo assim que tem que ser até a pequenita ficar boa.
E depois disso, haverá uma grande festa. Sem dúvida que haverá. Inscrições abertas, como sempre, na caixa dos comentários e no email que está por aí no lado direito em cima.