segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Mais uma perturbação

Isto é muito perturbador.
Encontrei o Paulo no Welcome Center e pensei isto, quando o avistei e estremeci, e disse Paulo. Não gritei, mas também não sussurrei, e ele não me ouviu e ele também não me viu, e eu, ainda assim, sorri, sorri com a cara toda, e o assessor que estava ao meu lado não percebeu a alegria que não consegui conter, e eu pensei isto: que devia ser proibido passar tanto tempo sem vermos quem amamos.
Não faz sentido. O destino põe e dispõe. Dá as cartas, esconde o jogo, vicia-o, faz batota quando bem quer e bem lhe apetece.
Todos os dias temos que cansar a vista, enferrujamos os neurotransmissores, gastamos a mielina que envolve as ligações nervosas com rostos que não nos dizem nada (o maior terror da tia Lena é que eu tenha esclerose múltipla, que os Ralhas me tenham passado a esclerose múltipla nos genes, da mesma forma que me passaram os joelhos defeituosos e a coxa enormemente desproporcionada à cintura fina; ela tem medo quando eu lhe digo que às vezes não sinto as mãos; ela treme quando se apercebeu que eu deixo cair tudo das mãos, que não há copos e pratos que me resistam; a Magui diz que eu pego em tudo com a pontinha dos dedos, a minha tia Lena sofre por pensar nisto, ela assusta-se com o meu cansaço extremo, ela deu-me tudo a ler sobre a esclerose múltipla e, honestamente, eu tenho medo de ir ao oftalmologista, e se eu tenho uma perda de visão grande?, e por ela eu já tinha feito várias ressonâncias magnéticas, e por ela eu sei o que é a mielina e eu estou atenta a todo e qualquer sinal estranho do meu organismo).
E hoje eu fixei uma cara, dei-me ao trabalho de a guardar. Estava no Palácio meu vizinho, às vezes não quero passar por debaixo do túnel do Metro, por debaixo da Fontes Pereira de Melo, não quero lutar com os carros estacionados em cima do passeio na rua de São Sebastião da Pedreira - mais um santo meu vizinho - e vou pelo palácio. Apanho a boleia do elevador panorâmico, o segurança, preto, enorme, mete sempre conversa, às vezes, abusa e tenta a sorte, e questiona-me como é que eu não tenho namorado, eu não ando com nenhum placard ao peito, mas ele soube, apercebeu-se que eu não tenho namorado; é que ele vê-me à noite sozinha com a Carolina, eu sou uma cara que ele vê todos os dias, e, provavelmente, tal como eu, ele não vê uma amiga do coração há anos, mas a mim, vê-me todos os santos dias, às vezes de manhã, outras vezes à noite, de vez em quando, de manhã e à noite, e se eu quero dormir, não devia tomar café à noite, e se eu quero deixar de ver branco à noite, devia tomar o chá que a Magui comprou na ervanária, mas eu gosto é do chá verde, e do preto e, recentemente, do encarnado.
Eu fixei uma cara no Palácio porque ele não tirou os olhos de mim. E eu gosto de quem faz duelos de olhares, como corridas de carros rumo ao precipício. E ele não baixou o olhar, e passámos muito perto um do outro, e ambos olhámos para trás, pelo ombro, e sorrimos. Eu gosto de uma boa luta de olhares. E é raro encontrar bons adversários.
Mas isto é a excepção. Trabalhamos ao lado de rostos sem expressão, em silêncio, no meu caso, trabalho com os "cascos" enfiados nos ouvidos, e os cascos são uns headphones que, outrora, pertenceram ao meu sub-director. Têm quatro metros de fio, posso ir até à máquina de café com eles, se quiser, vou fumar à janela também com eles a aquecerem-me as orelhas, e posso até nem ouvir música, eles são conchas perfeitas: não se ouve o mar, mas insonorizam-me totalmente da realidade, é a minha afirmação silenciosa, mas geralmente oiço Bach, ultimamente tenho ouvido Purcell (ando à procura da peça Dido et Aeneas, mas não encontro em lado nenhum; ouvi-a na Mezzo e fiquei apaixonada, por ser muito triste, é um queixume lírico, uma das vozes diz: "remember me", repete esse pedido vezes sem conta; é belíssimo e ainda não saiu da minha cabeça desde que o ouvi, bastou uma única vez para não sair da minha cabeça), e a minha vizinha, a encalhada, a mais bela encalhada de todos os tempos, agora envia-me música quase todo os dias e, de repente, aprendo músicas novas, e eu sou conservadora, eu sou conservadora em todos os sentidos: eu comi o meu primeiro mil folhas há pouco mais de um mês; eu fui pela primeira vez ao indiano da Gama Barros no aniversário da Magui, depois de 15 anos da sua abertura, 15 anos depois de dizer quase todas as semanas que lá queria ir; eu uso o mesmo perfume há cinco anos, apesar de ter dezenas de frasquinhos guardados numa gaveta do closet; eu gosto de hábitos: eu vou tomar café todas as manhãs com a minha mãe, eu vejo a novela das nove da noite do GNT com a minha mãe, eu leio a TV Sete Dias às terças à noite, eu leio a Dica do Lidl à quinta-feira à noite, por isso, isto de admitir músicas novas, de amar tudo o que ela me envia, tem que se lhe diga. Aos poucos, vou deixando de ser uma mulher de hábitos, de mansinho, vou aprendendo um mundo para lá das rotinas de prazer, mas com os "cascos" nas orelhas, com Bach, Purcell, Kristen Hersh, ou Anja Garbarek em repeat one, eu vejo caras que não me dizem nada, bom dia, boa tarde, passados nove anos, eu ainda não sei o nome de alguns, eu sou bombardeada de gente que não deixa marca, e fico um ano sem ver o Paulo.
Isto é muito perturbador.

9 comentários:

Mary Mary disse...

I'm back e tinha imensas saudades de te ler... Vou pôr a leitura em dia que isto assim não pode ser...

Há mesmo coisas muito injustas nesta vida... Enfim, c'est la vie, como se costuma dizer, mas não devia ser assim. A vida devia ser bela e sorrir-nos todos os dias...

[ t ] disse...

perturba sim. será que o outro lado também acha isso? olhe vizinha todas somos mulheres de hábitos e não venho aqui contar os meus. mas... vou escolher-me a música para hoje. segue algo triste.

MPR disse...

Eu não encontro bons adversários de olhares... toda a gente desvia a vista passado momentos... tenho pena...

pinaster disse...

Bom dia! Tenho-te lido com bastante frequência e deixo desde já bem vincado que tens um dom para escrever ;). A única coisa que me custa ao ler os teus longos posts é o contraste de cores que usas (preto e branco) que me obriga a trocar longos olhares com as letras brancas perdidas no horizontes:)...

Dia disse...

Mary, que saudadinhas, amor. Ontem estive a devorar o teu bloguinho porque senti a tua falta (e xissa, que havia muito para ler ;) )

Somos mulheres de negros hábitos, dona Thê.

mpr, meu caro, também andei a vasculhar no teu quintal e fartei-me de rir com a história sinistra do vidro do carro.

Pinaster, benvindo. Desculpa esta negritude do layout, ando a trabalhar num novo, psicadélico, mas não tenho tido tempo ou coragem para mudar (sou uma mulher de - negros - hábitos mesmo)

Anónimo disse...

Tb adorei estar contigo, rever-te e a esse sorriso contagiante. Vale a pena viver quando se te tem por perto. Jinhos fofos***

Anónimo disse...

Tenho andado um pouco fugida, mas quando voltei a ler-te já tinha um lençolão para ler. Mas gostei.
Fiquei curiosa pela tua vizinha encalhada. Tenho de descobrir.
Jinhos do Castelo

Anónimo disse...

muito bom mana, muito bom! e bem sei o perturbador que é esse destino que dá as cartas e volta a baralhar, e volta a dar e a baralhar..

Maria disse...

Perturbadora é a vida...e seguimos, que temos que seguir,perturbadas e tentando encontrar sentidos onde eles talvez não existam.
Gosto cada vez mais de te ler.
Beijos.