quarta-feira, agosto 24, 2005

Fotografia

Eu estranhei logo, franzi o sobrolho, vinquei, ainda mais, a ruga que tenho a meio das sobrancelhas, quando a Magui te deixou dar-lhe dois beijinhos.
Na minha família ninguém se beija. Somos alérgicos a demonstrações públicas de afecto; nem quando a minha mãe estava nos cuidados intensivos a beijei. Quando me deixaram entrar, menos de dois minutos, dei-lhe a mão.
[O coitado do Ricardo quase ficou traumatizado quando ela se negou a dar-lhe uns beijos e, ela adora o Ricardo, não tem nada a ver com gosto ou desgosto. Não é muito polida socialmente... Não somos, aliás.]


O senhor holandês, desgraçado, ontem conheceu a família Addams toda - a de duas e a de quatro patas.
E eu achei logo lindo, ele querer subir, alertei-o que ele podia morrer de alergia, por causa da quantidade imensa de gatos, de cães e pássaros que existe por metro quadrado em casa da Magui, mas ele quis subir.

De manhã, no café das velhas, disse à Magui que ia jantar com o Vring. E que levava a Carolina, já que ela não estava no mood de baby sitting. A minha mãe disse que ia espreitar o espécime da janela, para ver se ele era estrupício (foram estas mesmas as palavras).

Depois de o senhor holandês ter reaparecido do outro lado do oceano, e de termos escrito umas linhas giras, um em cada ponta do atlântico, durante três ou quatro dias - e de eu o ter perdoado por tudo o que ele me fez, quase imediatamente -, eu não contava à Magui que o via, que me encontrava com ele, porque sabia que ela achava que eu estava a ser parva.
A Magui não é banana como eu, não perdoa as ofensas de quem a ofendeu, muito menos de quem ofendeu os seus filhos - o seu passaporte para a eternidade, como ela diz acerca de mim e do Leonardo e, mais recentemente, da Carolina, que é a sua cara cuspida e escarrada, essa sim, parece sua filha. Eu não lhe dizia que ia jantar com o Andy, era até engraçado, parecia uma adolescente a namorar às escondidas da mãe, ou a dizer que ia dormir a casa de uma amiga para, na realidade, ir à discoteca.
Mas ele quis subir, conhecer a família (a família é bonito; dá um toque siciliano à coisa, e, de facto, nós somos arraçados de mafiosos, os Oliveira-Ralha, com a nossa Mama no comando da sua prole) e, puta da coincidência: estava lá tudo - o mano e a cunhadinha linda, pronto, foram feitas as apresentações e o Andy não teve uma reacção alérgica muito má (nem aos bichos, nem à família), só começou quando já estávamos de saída.
Gostou do "paraíso" da Magui - uma reserva natural, um santuário, onde gatos e cães convivem alegremente, onde pombos bébés dormem numa gaiolinha em cima dos bancos da sala dos bichos (temos uma sala cagona para as visitas, onde quem tem quatro patas não entra), com felinos de todas as cores, feitios e idades a rodeá-los.
O jantar foi uma maravilha, o sítio é lindo, ao pé do mar, caipirinhas, a Carolina a portar-se lindamente, um anjo, nem bateu às outras crianças. Houve silêncios. Mas não dos perturbadores, dos que me fazem dar à perna de stress.

Na minha cabeça, esteve em repeat one esta:

Eu, você, nós dois
Aqui neste terraço à beira-mar
O sol já vai caindo
E o seu olhar
Parece acompanhar a cor do mar
Você tem que ir embora
A tarde cai
Em cores se desfaz
Escureceu
O sol caiu no mar
E a primeira luz lá embaixo se acendeu
Você e eu

Eu, você, nós dois
Sozinhos neste bar à meia-luz
E uma grande lua saiu do mar
Parece que este bar
Já vai fechar
E há sempre uma canção para contar
Aquela velha história de um desejo
Que todas as canções têm pra contar
E veio aquele beijo

O beijo não veio, é bom mesmo que não venha, ainda estragava tudo, mas a noite foi perfeita, a música do Jobim chama-se Fotografia e eu tirei uma foto, a noite passada; está guardada no meu cartão de memória de um milhão de gygas, um SD que está alojado na minha cabeça - nós os três na esteira, rodeados de almofadas, a fazermos guerras de cócegas à Carolina.

A Magui adorou o holandês. Daí ter-te deixado dar dois beijinhos.

Outra coisa a dizer

E a ti, senhor holandês, também tenho uma coisa para te dizer: mom loved you :-)

terça-feira, agosto 23, 2005

Há uma coisa que eu tenho que te dizer

Falta menos de um minuto para a meia-noite; há uma coisa que eu tenho que te dizer, antes de me transformar em abóbora - Another Lonely Day - Ben Harper & Pearl Jam.

Tenho dito.

As tradições

Um dia de Inverno, estava já muito grávida, com mais de 25 quilos empilhados em equilíbrio instável sobre os meus joelhos - nunca mais foram os mesmos; já não eram certos, mas nunca mais foram os mesmos depois das 37 semanas e picos em que tive um hóspede dentro de mim -, na barriga já tinha desaguado, de um dia para o outro, um rio de estrias brancas, os pés e as mãos estavam quase grotescos, muito inchados, tive que deixar de usar saltos altos, apenas cabiam ténis nos pés; anéis só o de platina e diamantes que o avô Oliveira deu à Magui, o anel que eu levei no dia em que entrei para a maternidade, levei-o para ele me proteger, um dia conto-te, blog, como eu estava cheia de medo no dia em que entrei pelas urgências do Particular, 25 semanas de gravidez, a Carolina inviável, pequena demais para nascer, mas a querer nascer na mesma, com medo de não ser amada pela tempestade que provocou nas nossas vidas, com medo de ser um impeçilho, com medo de ser usada como bala de canhão, mas eu, muito teimosa - "não vais nascer agora, não podes nascer agora, filha", eu ainda sem saber que era uma menina, mas a chamar-lhe Carolina há muito tempo, e doze semanas depois, o silêncio do meu quarto privativo em véspera de ela me chegar; conto-te, se tiveres paciência, porque ainda hoje me custa a recordar esse dia, como no início da tarde seguinte, soaram sirenes agudas na sala de partos, da máquina onde estavam ligados os eléctrodos que eu tinha colados à barriga; conto-te como o coração da Carolina começou a parar, e a enfermeira de cabelos encarnados a cantar-me uma canção bonita, enquanto outra gritava "chamem o doutor Moniz", e uma tentava desligar o zumbido da máquina - e no monitor 160 batidas, depois 110, depois 90, deixei de olhar nas 60; fechei os olhos, caiu-me uma lágrima pela bocehcha abaixo e pensei que te perdia no antigo dia da mãe, 8 de Dezembro -, a dos cabelos encarnados a rapar-me em andamento, a caminho do bloco operatório. Conto-te tudo isto, noutro dia. Hoje quero-te falar de tradições.
Um dia de Inverno, estava muito grávida, entrei na loja chinesa das traseiras da avenida de Roma, e vi uma nossa senhora de neon, linda, do mais kitsch que há. Tive que a trazer comigo. Já me moía de remorsos de não ter comprado um poster gigante de um ardente coração de Jesus, tive que a levar para casa.
O Natal estava à porta, mandei embrulhar. Numa das muitas noites de silêncio na minha casa pequenina, pus-me a pensar a quem podia oferecer o sagrado coração de Maria. Uma única pessoa reunia os requisitos de loucura essenciais para receber um quadro religioso de neón - o Ricardo.
Eu fui a culpada. Começou tudo com o sagrado coração de Maria. Agora, nos anos e no Natal oferecemo-nos as coisas mais impensáveis. Amor com amor se paga. Até a minha filha já foi metida ao barulho. No seu primeiro aniversário, o Ricardo ofereceu-lhe cuecas do Benfica. No Natal, eu recebi a biografia do Papa; ele uns copos de leite com vacas doidas. Nos anos, para pagar o golpe baixo do Papa dei-lhe a biografia de um franciscano, Vítor Melícias no seu melhor, com lindas fotos do senhor padre, e um CD (ainda não entregue) do apresentador da TVI Rui Vasco Neto. Ele trouxe-me da Irlanda um poster enorme de um belo jardim florido para pendurar na Martinha que eu, inadvertidamente, deixei nos correios, momentos depois de o receber (imperdoável). O mais louco é que alguém gostou e o levou. Também me trouxe um naperon para eu pôr em cima da televisão.

Amo esta tradição, Ric. Não vai parar nunca. E estou mesmo mesmo triste de ter perdido o poster. Daqui a uns dez anos fazemos uma exposição, uma monográfica de toda a tralha louca que oferecemos um ao outro.

segunda-feira, agosto 22, 2005

e-Learning

Memorável, senhora dona Qui Qui. E eu acho que tenho um talento inato para a coisa.
É isso e para estafeta. Conduzo bem, conduzo com o pé bem pesado, tenho um carro maricas, que tem mil e uma formas de baixar os bancos - é um carro de surfista; pelo menos era isso que dizia o folheto; dá para lá meter duas pranchas, não sei, nunca experimentei, mas dá, de facto, para meter muita merda: sapatos, carrinhos de bébé, brinquedos, revistas, cabides, fraldas e dodots por todo o lado. A minha especialidade são as entregas personalizadas. Posso cantar um fadinho, os parabéns, posso sair dentro de um bolo, vir vestida de enfermeira, o cardápio é quase ilimitado.

E agora vou almoçar, porque o post do Mac a psicanalisar o meu "E se eu páro de escrever" é difícil de ler, e muito mais difícil de digerir. Preciso de água das pedras.

sexta-feira, agosto 19, 2005

A musita

A miúda já é linda de nascença, foi mesmo muito bem parida, mas a lente da tia Qui Qui apanhou este sorriso lindo

musita

Musa

Pareço uma musa

musa

As Dianas foram ao Zoo...

dianas

... E encontraram outra Diana.
As Dianas foram ao Zoo, ver a família, foram com a Carolina, com os convites da Mónica, fizeram picnic e gafanhotisse à sombrinha.
Foi um dia em cheio e há fotos lindas - a Diana bébé quase transformou a Diana mãe numa diva publicitária. A seu tempo postarei essas fotos.

À janela. À moda antiga

Como seria de esperar, o meu chulo literário manteve-se caladinho no seu canto, a espreitar por uma janelinha que está no canto direito do seu monitor grande - suponho eu que seja grande; o meu chulo literário exercita-me a imaginação como ninguém.

Namoramos à janela, à moda antiga. O nosso amor não sai da janela.

Mas esta janela não tem flores no parapeito. Não tem vista para a Duque de Loulé. Não se ouvem os carros lá fora, nem as vizinhas quadrilheiras a partilharem o que viram pelo óculo da porta, numa madrugada de há um mês atrás.

Esta janela é silenciosa e opaca: todos os dias são dias de nevoeiro branco e denso.

A janela abre-se cedo, porque cada minuto tem que ser sorvido como se fosse o último. A janela tem sido aberta quase em simultâneo - é transmissão de desejo, não de pensamento.

Quem me dera que esta janela nunca se fechasse.

quarta-feira, agosto 17, 2005

E se eu páro de escrever?

e se eu páro de escrever

E se eu páro de escrever?

Se o nosso amor fosse mesmo de papel, se não fosse um código binário, cheio de zeros e uns, era assim - olha bem para esta imagem

Moleskine, escrito com a Dupont de prata.

Seria mesmo assim, na maioria das vezes em itálico, porque tu me desconcertas, e quando eu fico ao rubro, quando alguém me faz transbordar para lá do que eu achava ser possível, inclino a letra miudinha, escrevo em itálico. E quando assim é, nem dá para perceber que os meus erres são iguais aos meus énes, que os vês são iguais aos us. A minha caligrafia tem dupla personalidade, tem dupla personalidade porque as outras sete personalidades estão amarradinhas com cordas, não lhes dou rédea solta.

E se eu páro de escrever?

Se calhar até te sentes confortável com o estatuto - és o meu chulo literário.

Não é pelos meus lindos olhos azuis. Não é pelos meus lindos olhos azuis, porque eu não tenho olhos azuis, tenho-os apenas nos meus genes, passei-os à minha filha, mas não é pelos meus genes. Nem tão pouco é pelas minhas gigantescas pestanas. Não é pelo sinal de nascença gigantesco que eu tenho por baixo da mama direita; não é pelas minhas mãos esguias de artista, nem tão pouco é pela minha voz - não é pela minha voz falada, muito menos pela minha voz cantada (a minha voz também tem múltipla personalidade).

Não é pelo meu metro de cabelo e não é pelos meus pés; nem tão pouco pelos sapatos bonitos que colecciono.

Não é por nada disso, porque nos vimos apenas quatro vezes.

A primeira foi diferente, a segunda quase não conta, a terceira não foi de vez e teve sabor a primeira, deixou marcas nas paredes, e na quarta estivemos mais tempo de olhos fechados - eu estive de olhos fechados, tu estiveste com eles bem abertos, mas estava escuro, não viste grande coisa, à noite todos os gatos são pardos (e parvos, acrescento eu) e, por isso, não é por nada que tenhas visto.

E se eu páro de escrever?

É pelo que eu escrevo.
E quanto mais eu sentir que é pelo que eu escrevo, melhor sairá, mais preso ficarás, e eu não me posso dar ao luxo de deixar de escrever.

Aqui.
Para ti.
Na Moleskine, com a Dupont de prata.

A custo, num processo quase tão doloroso quanto prazeiroso, vou continuar a arranjar frases.
Vou arranjar uma frase que te martele um mês inteiro na cabeça - quando abrires os olhos, de manhã, e quando os fechares, à noite, quando passeares pelas ruas da cidade e pelas ruelas da tua casa; uma frase que se cole à tua pele - e não vale a pena esfregares no duche com água quente, vai ficar grudada.
Vou arranjar-te uma frase, ou três, porque eu só gosto de ímpares, daquelas que te prendem a mim para sempre
, e um dia, com esforço, se me fizeres mal, arranjo-te uma frase que te amachuque, daquelas que ferem toda a gente.

Para além de mulher das obras também posso ser jardineira

jardinagem

Posso ser aquilo que eu quiser. É uma merda...
Com 14 anos, os testes psicotécnicos não foram uma grande ajuda, mas vaticinavam uma grande carreira na economia :S e não é que foi mesmo aí que eu fiz nome e carreira... Cristo! Os testes psicotécnicos são meios bruxos...

E tenho que pintar a sacada... já que ando com a mão na massa... E assim arrisco-me a ter uma das varandas mais bonitas de Lisboa.

Há lá de tudo: brincos de princesa, fetos, ficus, uma orquídea, um pinheiro, dois jasmins de Madagáscar, cactos da Páscoa, cactos de Natal, uma palmeirita muito raquítica e combalida,

Podia ser jardineira
Não me importava de ser jardineira, podia ser mesmo jardineira, não fazia questão de ser arquitecta paisagista (que são os jardineiros ricos, filhos de papai)

O senhor que me ensinou a fazer aviõezinhos pinta assim

quadros para pendurar

terça-feira, agosto 16, 2005

Cócórócócó

Este é dedicado ao Ti Croca, que me pôs a carcarejar (é assim que se escreve? não não era, é cacarejar) no restaurante chinês da praxe, onde vou há mais de vinte anos; é dedicado à Mó, que me obrigou a sair da fossa, que me obrigou a tomar banho, tirar a tinta casca de ovo do nariz e das mãos, que me incentivou a ficar deslumbrante (destroçada para matar), porque nunca é o fim do mundo

e também nunca é como nos filmes, muito menos como nos livros e eu tenho a mania que sou escritora, tenho q perder essa mania - jornalista menina, repita comigo: jornalista. Jornalista não cria expectativas, jornalista não opina, não fantasia, muito menos usa provérbios ou se arma em columbófila. Acorde para a realidade: jornalista, é o que a menina é

e isto da vida, para que dia conte, para que não seja menos um dia, mas sim, mais um, não tem nada a ver com a sorte ao estacionamento como tão bem referiu o meu querido Pedro no seu blog meio zombie (nunca mais escreveu o menino porquê? isto dos blogs dá uma trabalheira danada, não é?), quando andava fodido da vida comigo, quando eu flashei com o senhor holandês em pouco mais de vinte e quatro horas e caguei para a dedicação que ele tinha por mim e pela minha filha,

eu nunca quis ser jornalista, nunca sonhei ser jornalista, foi por acaso, eu queria mesmo era ser cantora - mas já foi ao Coliseu cantar, menina, dê-se por contente, já fez trinta por uma linha para que cada dia conte, só que é necessariamente doloroso, isto da vida que conta um dia a mais, mais fácil é subtrair um dia, menina,
tem que se ir de cabeça, sim e eu sei que a menina não tem grandes aptidões físicas, que era sempre a última a ser escolhida para as equipas de basketball, que nada à cão, sei que tem pavor de morrer afogada - e por isso é que gosta tanto do Oscar e Lucinda do Peter Carey, porque um dos personagens colecciona botões como a menina e ambos são fascinados por vidro

tem que ser de cabeça, mesmo que não se saiba nadar bem, como é o caso da menina. E quem não tem pedalada vê a vida a passar. Durma de consciência descansada. Fez um galo na cabeça do mergulho em seco? Para a próxima corre melhor.

Grande material

Tenho um amor que não sai do papel, caros, vem aí grande material literário...
Mas se este amor fosse em papel, ainda havia esperança pequenina; é que uma folha de papel às vezes voa, e eu até sei fazer aviõezinhos, o Zé ensinou-me a fazer aviõezinhos há muito tempo, também me ensinou a jogar xadrês, mas 18 mails não voam, não dá para dobrar ao meio, se fosse uma folha ainda podia voar, podia ser que este amor descolasse ao sabor do vento, mas não - vou lavar os pincéis, os rolos, acabaram-se as pinturas por hoje e de certeza que vem aí grande material...

Post em cima do fogão II

viciada

Post em cima do fogão

Mulher das obras.
Acho que tenho jeito para mulher das obras.
Ganhei-lhe o gosto e o jeito, agora apatece-me pintar a casa toda.
Continuo sem jeito nenhum para pregar pregos; os quadros ficaram mal pendurados e as paredes parecem um queijo suíço; não tenho jeito para pregar pregos, mas por acaso nem me saí nada mal com o varão do quarto de vestir: deve ter sido sorte de principiante. Não tenho jeito para pregar pregos, da mesma forma que não tenho jeito para reencontros.
Depois de o Lourenço ter ido para as arábias e quando já estava grávida apesar de não o saber, passava algumas tardes nas chegadas do aeroporto de Lisboa. Estava de baixa, e gostava de ir ver as caras de felicidade dos amantes reunidos, das famílias reunidas; gostava de ficar sentadinha a sentir a ansiedade dos reencontros dos outros. Depois de um banho de reencontros, dava um pulinho nas partidas, via algumas separações tristes e acabava a tarde com um bolo de arroz (um dos meus bolos favoritos) na escandalosamente cara cafetaria do aeroporto.
Pois bem, não aprendi nada; a experiência do aeroporto valeu por si só; foi só mais uma maluqueira minha. Não tenho jeito para reencontros. Nada a fazer...
Estou pintalgada de tinta casca de ovo por todo o lado, e o Toshiba arrisca-se a ser, também, um computador das obras. O wireless é algo maravilhoso, o Toshiba está deitadinho em cima do fogão, porque pode ser que alguém bata à porta do messenger, pode ser que o Gmail dê um ar da sua graça, pode ser...
Vou para a segunda demão...

segunda-feira, agosto 15, 2005

Dezoito mails

Dezoito mails
Dezoito envelopes, dezoito folhas, dezoito selos seria bem mais bonito, seria quase o diário de uma paixão - mas este é o diário da tua ausência.
Dezoito mails que deviam ser cartas.
Dezoito cartas dava para juntar num molhinho gorducho de papel, já dava para as atar com um cordelinho, atá-las com um cordelinho e guardá-las no fundo de uma qualquer gaveta, ou numa caixinha, ou dentro de um livro. Dezoito cartas era bem mais bonito, era como as cartas da menina Alzirinha ao meu avô Oliveira, eram dezoito cartas para a posteridade - quem sabe se, meio século depois de escritas, não acabariam nas mãos de uma neta tua, que as descobrisse por acaso e as lesse de uma ponta à outra...
Dezoito cartas é que era. Dezoito mails não é nada.

Quem é vivo sempre aparece

quem é vivo

Será sempre assim?

A minha alma está parva

Estou de queixo caído...
Chama-se Fiel ou Infiel e é por estas e por outras que eu não ligo a televisão.
O fim-de-semana passou rapidinho - pinturas na Martinha, aliás, estou a acabar a segunda demão de tinta nos azulejos da cozinha.
Amanhã há mais.

sexta-feira, agosto 12, 2005

Um post bem parido

Não é fácil parir um bom post nas actuais circunstâncias.

Todos os dias escrevo textos, estendo enormes lençóis sobre a terra do Gmail, deixo-os a corar ao sol naquele condado da Google - são lençóis de letras lavados à mão com sabão azul e branco, são frases e frases que catapulto com fúria do teclado para o ecrã, são aglomerados de palavras muito bem escritas, sentidas, garanto-vos isso, que são posts meio loucos e estupidamente perturbados, mas não vos posso mostrar; neste momento, são para os olhos de uma pessoa só.
E lamento que assim seja, que não possa contar aos sete ventos, porque é material literário muito bom, mas tenho que me habituar a estar de bico calado (e, por falar nisso, em bicos, hoje apanhei um pombo bébé, já está na Zoófila da Magui), e também a propósito de silêncio, podia encher imenso espaço aqui com o voto de carmelita a que um anjo me votou, mas também não pode ser.
Depois há o Vring - eterna musa, pai deste blog: foi por ele, para ele, e por causa dele que a (T)ralha nasceu há coisa de oito meses (está quase a gatinhar, este blog, como cresceu, quase 200 posts, o tempo voa...). Há um episódio em particular com o senhor holandês que eu gostava aqui de reproduzir, mas também não dá. Tant pirre, guardo só para mim...

Como vêem, estou num cruzamento, tenho um Stop que me obriga a parar, mas só vejo sinais proibidos, não sei para onde virar (para trás?).
Nada tem acontecido. Não procuro mais chatices: estou a recarregar as baterias, porque sinto que vem aí "ramona" - como diz a Magui.

Só posso falar da minha Martinha. Vou continuar a contar-vos as coisas que eu adoro na minha alegre casinha. Olhem só:

fechadura

Gosto das portas e das fechaduras;

chão

do chão da cozinha, onde imagino partidas de damas e xadrês sempre que lá entro; gosto das paredes encarnado sangue e dos facalhões presos pelo íman comprado na Ikea;

cozinha

adoro a casa de banho, apesar dos azulejos rachados, apesar de a torneira do lavatório não ser aquela linda que eu comprei; adoro o Drac que achei numa ruela do bairro gótico quando o Pedro me levou a Barcelona;

drac


adoro a selva privativa no meu quarto;

quarto

e o meu cantinho de leitura na sala.

sala

Detesto a porta de alumínio da entrada do prédio e as escadas. E não posso com o estupor do cão dos vizinhos da frente, que todos os dias me acorda com os seus latidos histéricos.

quinta-feira, agosto 11, 2005

Coisas que eu adoro na Martinha

orange

A parede laranja.

Eu ando pelo mundo divertindo gente, chorando ao telefone...

Quantas vezes ouvimos uma música, lemos um livro, miramos um quadro e assalta-nos este pensamento: podia ter sido eu...

Hoje acordei com esta, da senhora Calcanhoto. Não a ouvi, porque o CD desapareceu. Desapareceu na mesma leva em que desapareceu o Fabuloso Destinho de Amélie Poulain, mas não preciso de a ouvir: está na minha cabeça em repeat one.

Podia ter sido eu a escrevê-la...

[Eu canto para quem?]

Eu olho para ti, ao almoço - consegui comer com pauzinhos sem fazer figura de parva, isto tem que ser dito -, as paredes são laranja e pretas, parece a minha casa de banho, parece a casa-de-banho de outros dois elementos da defunta pandilha,

Tu falas mal do layout deste quintal, eu acho piada às vezes usares o Safari, outras vezes o Firefox - lembra-me a guerra dos browsers -, dizes que o blog é muito escuro e que o branco das letras te fere os olhos,

[Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que eu não sei o nome...]

Eu gosto de olhar para ti, e ainda bem que não há traductores de pensamentos - será que te apercebes que eu estou a pensar em trezentas e setenta e uma mil coisas quando estamos juntos?

[Ai, eu quero chegar antes, para sinalizar o estar de cada coisa, filtrar seus graus]

Tenho que ir aturar o Santana Lopes.

Este post não tem sentido nenhum...

quarta-feira, agosto 10, 2005

Sabes o que me fez sorrir?

sou eu

Esta sou eu.
Sou eu, com 27 anos - esta vai ser a minha foto oficial dos 27.
Esta sou eu, com uma enorme ruga de expressão na testa de levar a vida a franzir o sobrolho. Esta sou eu, mechas de cabelos brancos a aparecerem por todo o lado; sou eu, com duplo queixo dos quilos a mais que eu sempre tive e sempre terei; esta sou eu com olheiras de quem não dorme como deve de ser há não sei quantas semanas; sou eu, sem maquilhagem nenhuma, sem nenhum milagre de edição do photoshop.
Esta sou eu a sorrir, alguém me apanhou de olhos fechados a sorrir, a noite passada.

E sabes o que me fez sorrir?
A senhora de vestido de batik africano, cabelos brancos, branquíssimos, apanhados numa banana, como a da Kim Novak no Vertigo, a senhora com uma saca de quinze quilos de milho às onze da noite, no Largo de Andaluz, a um passinho da minha Martinha, a dar comida aos pombos - afinal eles chegaram à Rua de Santa Marta, que distraída ando -, ficarmos as três, eu a Carolina e a senhora, uma hora no banquinho do jardim a ver a passarada.

Isto fez-me sorrir assim.

terça-feira, agosto 09, 2005

Fez-se luz

Eu nunca teria sido capaz de colocar os candeeiros sozinha.
O senhor Paulo, amoroso, entre três imperiais e dois bagaços, deu à luz na Martinha, pendurou prateleiras, o dossel da Carolina, os toalheiros e ainda trocou o sentido das portas do frigorífico.
Agora sim, que já só falta haver luz na sala de jantar, parece uma casa...
E como diria o anúncio pindérico do BCP: Aqui vou ser feliz!

segunda-feira, agosto 08, 2005

Folga

As minhas miúdas foram hoje para a casa de correcção - para um reformatório de luxo.
De há uma semana para cá começaram a ter comportamentos estranhos; dois sofás, um pouff e quatro almofadas urinadas depois, eis que fizeram o inaceitável: deixaram um presente na cama da minha filha.

A Magui, especialista em comportamento felino fez o diagnóstico: estão stressadas. "Passam muito tempo sozinhas, estão a chamar a tua atenção". É bem capaz de ter razão, a Drª Magui. Mas são duas, por isso é que eu trouxe duas, deviam entreter-se e deixar-se dessas paranóias de depressões e, raios, eu já nem me importava com os sofás novinhos em folha cheios de pegões das unhas afiadas da Minhoca.

Chamou-se o 112 e as miúdas partiram. A Magui veio buscá-las e, claro, aproveitou a vinda para pôr o esquentador a funcionar (esta minha mãe é a verdadeira handy andy) e, também, em pouco mais de meia hora, lavou a cozinha de um lado ao outro.

As miúdas chegaram a casa da Magui e adoram lá estar. E à minha pala, a Magui tem mais quatro gatas. Sou uma inconsequente.

As miúdas partiram, eu estou triste, a casa está vazia, foram para a escola de etiqueta, para aprenderem a ser umas ladies, para o colégio interno do melhor que há, mas eu não tenho ilusões: não voltam. Eu ainda propus à Magui que elas viessem aos fins-de-semana, mas ela torceu o nariz a uma muito moderna custódia partilhada.

Tento acreditar nesta história do stress, mas tenho receio que nem gatos consigam viver comigo.

Bem, ao menos, o senhor holandês pode passar a vir cá a casa sem ter que se enfrascar em anti-histamínicos...

domingo, agosto 07, 2005

Sete mil

A visita sete mil pertence à minha querida Qui Qui.
Fico muito contente.
Sete é o número da sorte.

Obrigada João

[Ao ip 83.240 qualquer coisa, que já veio aqui três vezes para ver as novidades. O primeiro dia de piquete ao fim-de-semana que se desejava calmo, a ouvir Tiersen, e a encher este blog de linhas não foi fácil: carrilhadas, carmonisses e algas na Caparica destruíram uma belíssima tarde de inspiração literária.]

Vejamos se os dias são mesmo à noite, como eu tanto apregoo.


Depois de ter escrito estas primeiras linhas, fui adormecer a minha filha - deitei-me ao lado dela e, em menos de dois minutos, ela estava a sonhar sonhos bons que a faziam sorrir. E deixei-me por lá ficar, ao seu lado, de mãos dadas com o anjo loiro com dentes de mentirosa, a absorver a paz que ela me traz.

Eventualmente, adormeci também. Dois minutos também, não mais, a ouvir a caixa de música que projecta estrelinhas no tecto alto da Martinha.

A ouvir a caixa de música e a separar os sons na minha cabeça. Eu adoro a polifonia. Eu desconjunto sempre qualquer melodia que oiço: separo a voz, a guitarra, o baixo, a bateria, o piano, o acordeão e este post era, originalmente, sobre isto mesmo.

Chamava-se "um, dois, três, um" - um belo compasso -, e eu propunha-me a falar da decisão que tomei hoje: que nem que seja uma gaita de beiços, como disse a Magui quando iamos perto da João XXI, espreitar uma montra onde não há sapatos, mas sim, saxofones, violinos, sanfonas e outros que tais, eu tenho que aprender a tocar um qualquer instrumento musical.

Porque senão, vou passar o resto da minha vida a sentir pena de mim própria, a pensar no quão virtuosa eu com certeza teria sido.

Expliquei isto à Magui, que não é mais uma comichisse minha, passei a mão pelo cabelo, soltaram-se dezenas e dezenas de fios, estendi o braço, abri a mão para a minha mãe ver os restos mortais e disse-lhe: "Eu não estou bem".

E não é que eu precisasse de provas, sei que não estou bem, como diz a minha Cat Gato Pardo, topa-se a milhas que não estou bem, mas o senhor meu cabelo decidiu dar um alerta um pouco mais visível, o senhor meu cabelo sabe que me afecta, que eu me orgulho muito dele, que gosto dos olhares de inveja, que sorrio sempre que uma ressaviada diz "devias cortar o cabelo", o senhor meu cabelo decidiu começar a cair aos cachos desde a semana passada, entupindo o Rolls Royce da Magui e eu bem caladinha a pensar: pode ser que passe, amanhã já não cai tanto, é o stress.

O post na minha cabeça, a música da caixinha de música na minha cabeça, mas eu a sair do quarto da Carolina sem coragem para escrever nada - com vontade de publicar apenas um pedido de desculpas ao ip 83.240 pela falta de material.

Mas nem isso: salvei o post em draft, fui-me deitar.
Adormeci quase instantaneamente. Sonhei com a pessoa do costume, acordei com as melgas. Fui buscar o repelente electrónico, enfiei-o na tomada, adormeci outra vez, mas nem dez minutos depois, o cabrão do rafeiro arraçado de doberman do prédio da frente a latir como se o estivessem a matar, voltas e voltas na cama e nisto toca o telefone, João Cortesão no visor, e do outro lado, Ben Harper, Please Bleed, directamente da Zambujeira.
Desatei logo a chorar, a chorar de alegria, porque, efectivamente, não há dúvida, os dias são à noite e, à uma e trinta e oito da manhã, alguém se lembra de me pôr na Zambujeira,

e eu queria tanto estar lá, a chorar baba e ranho, a ouvir a faixa nº 5 do CD que tu gravaste, senhor da guique, e dedicaste assim - o CD está no carro, mas eu nem preciso de o ver, anda em repeat, a Magui já me implora nova música, mas não dá, saltito da 5 para a 12 - "para a mãe da minha sobrinha e madrinha do casamento".

"Achei que ias gostar", manda o João por sms e eu não gostei, eu amei, tive que vir ligar o computador e dizer-te obrigada.

E quanto a nós, mais que não seja, valeu pelo Ben. E pela história dos sorrisos.

sábado, agosto 06, 2005

Safari - post semi geek

Eu acho tanta piada, agora, um Safari a pairar, várias vezes por dia, neste blog.
Até aos fins-de-semana? Da santa terrinha? Com uma grandessíssima ressaca?
Fico feliz, a sério que fico, e garanto-te que, apesar de ser o mês de pasmaceira, apesar de o número de leitores estar a cair a pique, garanto-te que vou continuar a escrever. Até porque temos fim-de-semana de trabalho no pasquim e à excepção de umas "carrilhadas" não vai haver grande coisa para fazer.

Tenho saudades de um Firefox velhinho. E do Konqueror também, admito.

sexta-feira, agosto 05, 2005

Banda sonora

Hoje é dia do mais recente do Yann Tiersen, Les Retrouvailles.

A quem possa interessar, ainda a propósito de música, a 2: passa Jack Johnson ao vivo, no Sábado, ao meio dia.

quinta-feira, agosto 04, 2005

Fadinhas e tremoços

tremoco



Meia noite.
Fadinha, como se chama aquele feijão que tomámos junto com a cerveja?
Sms holandês, directo de Amesterdão.
Eu desmaiada a meio da cama, de barriga para baixo, estoirada - desde que me mudei para a Martinha passei a dormir a meio da cama, expandi os meus horizontes, resignei-me: não vai aparecer ninguém para ocupar o lado direito da minha cama e a meio é que está a virtude, parafraseando os meus amados ditados (no Amélie Poulain, uma personagem do Jeunet acredita que quantos mais provérbios populares se sabe, melhor pessoa se é...)
Não vem assinado, é de um número que não conheço, mas eu sei que só há uma pessoa neste mundo que me chama "fadinha" - há uma outra que me chama "meu doce", ou "doce dia", de quem eu tenho muitas, muitas saudades.

"Fadinha, como se chama aquele feijão que nós comemos junto com a cerveja?"

E eu, meia cega, meia atordoada, meia triste por andarem para aí a matar pombos a torto e a direito: Stucky, do que falas? Arrisquei: "pataniscas de bacalhau com arroz de feijão?" (eu levei o Stucky a comer pataniscas na noite em que o mar o trouxe até a mim, uma noite inesquecível, nas esfumaçadas escadinhas perto da Bicaense, podia ser isso...)

"Não... Não te lembras? No porto, da primeira vez... Parecia favas. Num pratinho. Como se fosse amendoins"

Uma tarde maravilhosa na Rocha do Conde de Óbidos, uma hora com o meu marinheiro, a minha fadinha ainda muito pequenina, ainda andava à frente na cadeirinha, costas voltadas para o trânsito, a minha fadinha a dormir e eu aflita para fazer xixi, parada no trânsito em Alcântara.

Tremoços!

Os feijões que o Stucky queria saber como se chamavam, sabe-se lá porquê, na noite holandesa (quererá importar tremoços?), são tremoços!

Eu adoro tremoços. A avó Tóia fazia-me as trançinhas, encaracolava as pontinhas do cabelo, e depois iamos à praça de Alvalade comprar cartuchos de tremoços, na banquinha do senhor goês, que desde sempre se apercebeu que eu também era da terra dele.

A Magui preocupa-se com o aquecimento global. Com os glaciares que estão a derreter. Com o nível do mar que vai subir 60 metros nas próximas décadas. Com a perda do magnetismo da Terra.
A Magui preocupa-se com isto e eu ando angustiada com outras temáticas: qual é o sentido da vida, quantas horas preciso de estar em silêncio para dar em doida (eu acho que é por causa desse silêncio que depois falo demais quando abro a boca).

A Magui não é uma dona de casa qualquer. É uma fada do lar, é pois, mas, apesar da recente adicção nas idiotisses brasileiras do canal GNT, é um poço de sabedoria.
No café da esquina da Gama Barros falámos hoje de tremoços. Ela ainda recorda o cheiro delicioso dos tremoçeiros em flor.

Tremoceiro

Os tremoçeiros em flor, e ela a explicar-me que o tremoçeiro é o melhor fertilizante das terras de agricultura. As raízes do tremoçeiro, ensina-me, têm umas visículas, repletas de nitrogénio.
Os homens de mãos ásperas e calejadas e rosto cortado pelo sol, que cavam a terra, não sabem o que é isso do nitrogénio, mas sabem que a seguir à colheita da batata semeia-se tremoço.
Porque sim.
E quando o tremoçeiro está em flor (que lindas são as flores do tremoço, que raio, eu nem sabia que o tremoço era uma leguminácia, nunca me tinha dado ao trabalho de pensar de onde é que eles vinham), arrancam-se da terra, escava-se valas e enterram-se os tremoçeiros debaixo do solo. Não se deixa o tremoçeiro dar o fruto. Porque senão, as visículas de nitrogénio esvaziam-se.
A Magui sabe tudo. Eu não vos disse que ela sabia tudo?

quarta-feira, agosto 03, 2005

Encontros imediatos do terceiro grau

Encontrar o senhor Vring no semáforo, parado à minha frente, a caminho de casa da Magui ( It's happening again :-) )

Este quintal é amigo dos pombos. Aqui é um santuário, o exílio da passarada.
Serei sempre columbófila.

Sem nome 2

Teimosa.
Se há traço vincado da minha perturbada e inconstante (nunca inconsciente) personalidade é ser teimosa que nem uma mula.
Post sem nome, desapareceste? Porquê e como? Não queres dizer? Não queres reclamar um chorudo resgate? Deixar-me debaixo da porta um bilhetinho escrito, talvez com ameaças à minha integridade física, escrito com letras recortadas de um jornal?
Pois, post sem nome (terás ficado chateado comigo por eu não te ter dado um nome? não sabes que eu tenho um imbróglio judicial por causa de nomes, de apelidos, por ser teimosa que nem uma mula???), eu não te vou dar esse gostinho, podes armar-te em fugitivo de Alcatraz, mas eu reescrevo-te, meto-te atrás das grades da (T)ralha de novo. Teimosa. Não sabias, quando eu te dei vida, que era teimosa?
Não hás-de ficar igual - memória de longa duração é coisa que eu tenho pouco, as doenças degenerativas do sistema nervoso central são o pão nosso de cada dia da minha família, e eu ando gágá; ando gágá desde a anestesia da cesariana da Carolina, ando gágá, por defesa, desde pequenina, porque não vale a pena recordar certas coisas, apaga-se e já está, segue-se em frente - o que não me mata apenas me torna mais forte (ai, os provérbios, que saudade, o mail da guerra dos provérbios é tão pesado que o Gmail se recusa a abri-lo).
Não hás-de ficar igual, porque os posts têm vida própria - não me canso de dizer isto -, por isso é que eu gosto tanto de escrever: gosto de escrever porque sei que há quem me leia - as visitas dos meus leitores às tantas da matina só me fazem querer escrever mais, assim como os pageloads dos madrugadores, aqueles que começam o dia com as minhas paranóias, penso que são vocês, senhores leitores, os responsáveis pelas minhas insónias e produção frenética neste quintal.
Gosto de escrever porque os esqueletos saem do armário, gosto de escrever porque é o que sei fazer melhor na vida (minto: há outra coisa que eu faço melhor, mas adiante), gosto de escrever porque aqui presto homenagem às pessoas que me tocam, aquelas que gostam de mim incondicionalmente, com muitas falhas e algumas virtudes.
O Mário diz que o que eu gosto mesmo é dos holofotes por cima, mas não é bem isso, é uma relação de interdependência, e era uma ideia mesmo bonita, esta minha, esta que me passa agora pela cabeça, que alguém se pudesse apaixonar por mim só pelo que eu escrevo e eu nem tenho um nariz tão grande e tão feio como o do Cyrano, era uma ideia mesmo bonita.
Post sem nome, as linhas produzidas para este blog têm material genético irreprodutível e incorruptível, são imunes a qualquer manipulação, por isso, vais sair diferente.

Vamos lá descobrir as diferenças:

O esquentador continua em greve de chama. Junta-se-lhe os candeeiros bonitos que eu comprei na loja sueca da moda e que continuam a não cumprir a sua função de alumiadores das minhas noites; junta-se-lhe a torneira do lavatório que eu ainda não fui (nem irei, certamente) trocar; junta-se-lhe as molduras que eu tentei pendurar sem sucesso, esburacando sem dó nem piedade as paredes do hall; junta-se-lhes os dois últimos caixotes por desempacotar que jazem, zombies, no meio da cozinha e junta-se-lhes os quadros do Zé Ralha e do meu querido tio José Oliveira (gosto mais dos teus, Zé, e a Carolina também; quando tinha semanas de vida, só se acalmava a olhar para aquela senhora com olhos em bico, tipo Modigliani, pintada em eléctricas cores primárias), hirtos, no chão brilhante de tábua corrida, encostados à parede branca, cansadíssimos de estarem à espera em pé.
O esquentador continua em greve de chama e a casa-de-banho amarelinha da Magui transformou-se no meu balneário privativo.
A Magui não tem uma banheira, tem um Rolls Royce. Imoral é o que me apraz comentar sobre o preço da cabine de hidromassagem que a mim me lembra sempre a cápsula de mutação genética do filme "A Mosca", com o Jeff Golblum.
Mas ela merece. Merece os jactos de água que lhe aliviam as dores nas costas e eu agradeço a sauna e o banho turco que ela nunca usa.
Hoje caguei para a poupança de água, caguei porque li na recém-defunta Capital que até hoje nunca nenhum incendiário foi preso em Portugal (eu sei que isto não tem nada a ver, bom, até tem, poupança de água, seca, incêndios, mas o que eu queria mesmo provar com estas linhas é que este é um país de merda), assim como caguei para a reciclagem no dia em que vi um camião a despejar indiferenciadamente o conteúdo dos ecopontos que os otários dos conscenciosos cidadãos se deram ao trabalho de encher com os seus lixitos meticulosamente separados.
Caguei para os litros e litros de água que desperdiçei, porque a cabine de hidromassagem da Magui é, para mim, um local de reflexão, de grandes ideias, onde muitos dos posts deste quintal nascem, e, foda-se, o que é que se diz?
A inspiração aquática não veio.
Estava a ensopar uma toalha turca com os meus enormes cabelos e a trunfa, mesmo assim, a respingar o chão da casa-de-banho, quando a Magui me viu a chorar. A Magui deve saber.
Ela já perdeu vários amigos, deve saber o que é que se diz. A minha mãe é a mais linda, sabe tudo, arranja tudo, decerto que se já tivesse criado coragem para subir os degraus do calvário que levam até à porta da Martinha, o malfadado esquentador já estava a funcionar.
A Magui deve saber o que é que se diz. Ela chora o Filipe todos os Natais e todos os dias 23 de Julho.
O Filipe foi o grande amor da vida dela. Foi como na canção do Vinicius:

Porque foste na vida
A última esperança
Encontrar-te me fez criança
Porque já eras meu
sem eu saber sequer
Porque és o meu homem
e eu tua mulher
Porque tu me chegaste
sem me dizeres que vinhas
E tuas mãos foram minhas
com calma
Porque foste em minh'alma
Como um amanhecer
Porque foste o que tinha de ser

E o Filipe era um anjo. Tudo teria sido diferente se ela tivesse aceite casar com aquele puto inconsciente, neto de um grande escritor português: a Magui teria sido mais feliz, eu teria tido um pai genial e saberia escrever muito melhor, porque ele contava muitas histórias, tinha uma imaginação louca, mas nenhuma pachorra para as transpôr para o papel. Ele tinha tanto para nos ensinar...

O Filipe lá em casa, a fazer truques de magia, sentado nos sofás que um dia foram laranja e que nessa altura estavam forrados a preto, a fulminar-me com ataques de cócegas, a andar comigo pela casa toda às cavalitas, o Filipe em Viseu, no Montebranco, comigo no Parque, com bigode, sem ele, magro, muito gordo, o Filipe acabadinho de chegar da América, a falar de flores, a falar de cocaína, o Filipe comigo ao colo, na cozinha, o chão amarelo e os armários azuis cobalto, o Filipe: "Casa comigo, Guida!"
A Magui não ficava fodida quando ele lhe chamava Guida, ela detesta Guida, mas o Filipe era inimputável, o Filipe dizia as coisas com meiguisse e charme, vindo da sua boca, podia chamar-lhe Pafúncia que ela não se importava e eu juro que soaria bem, e nós os dois, eu e o Filipe em suspenso, eu a dar-lhe beijinhos, e a Magui nada.

"O que é que se diz, mãmã?"
Não se diz nada. Empresta-se o ombro para chorar e ouve-se as recordações que nos têm para contar".

Esta é para o KAos.

terça-feira, agosto 02, 2005

Curiosidades

O post "sem nome" despareceu do blog. Não sei explicar porquê. Não tenho qualquer "back up" e estou muito triste que tenha desaparecido assim, sem dar água vai nem água vem. Era um post bonito, dedicado a duas pessoas bonitas.
Não deixa de ser curioso. Não deixa de ser muito curioso que o texto que escrevi para o patrão, depois de acabar com a aventura, tenha sido sobre pombos.
Não deixa de ser curioso que o sr Vring me tenha convidado para jantar.
Os socorros mútuos reúnem-se todas as terças-feiras, quer faça chuva, quer faça sol, decretámos hoje, em assembleia geral, perante um maravilhoso bife à cortador no Oh Lacerda.
Obrigada, Andy.

Agosto

Já chegou o meu mês favorito - o mês em que os casalinhos apaixonados decidem dar o nó, parvos, inconscientes, ignorando a sabedoria popular: casar em Agosto dá desgosto.
Tenho saudades das guerras de provérbios. Veio parar à minha secretária no outro dia um dicionário de provérbios portugueses; 800 páginas de grandes verdades, que eu devoro todas as noites, enquanto penso em ti minuto sim, minuto não, - já vou na letra "b" -, já aprendi dezenas de novos ditos, espero apenas uma oportunidade para os usar, acho que não os vou usar contigo nunca mais, mas que se dane: A esperança é a última a morrer, apesar de eu achar que quem espera desespera e não, nunca alcança.

Três horas depois deste último parágrafo, decretei o fim da aventura.
Três horas e meia depois deste último parágrafo, o João Ramos de Almeida desmaiou, teve um AVC.

Agosto chegou, mês de desgosto.

segunda-feira, agosto 01, 2005

Associação de Socorros Mútuos

Oiço falar desta associação há muitos anos.
A Magui falava dela a toda a hora, falava dela quando se referia ao seu amigo e patrão "Manecas" - suponho que, quando vestia a fatiota de secretária de direcção não lhe chamava Manecas, mas sim sr Manuel Martins -, eu gostava muito do Manecas, lembro-me de uma vez, quando ainda dormia no quarto do Leonardo, numa cama de grades encarnada, lembro-me de dizer à Magui que queria que ele fosse meu pai.
Recordo-me das noitadas em casa dele - apesar de não fazer ideia onde é essa casa que me lembro tão bem -, de fingir que estava a dormir no sofá, de ouvi-los (havia um Dr Uva, um catita, que curioso, lembrar-me do Dr Uva passados mais de vinte anos), a Paula, mulher do Manecas, com enormes cabelos pretos, as gargalhadas, os copos de gin e os whiskeys, as jogatanas de King até de manhãzinha, lembro-me de dormir na cama enorme do Manecas e de uns degrauzinhos (seria um duplex a casa?).
O Manecas e a Magui eram sócios fundadores da Associação de Socorros Mútuos. Eu não percebia o âmbito desta associação, mas agora que já sou "adulta" já faz sentido, e com uma grande cunha familiar lá consegui arranjar o cartão de sócio.
Eu e o senhor Vring andamos numa de socorros mútuos.
Ele agora anda todos os dias pela minha (T)ralha e eu tenho pena de já não escrever para ele, de a musa ser outra. O senhor holandês é inimputável para mim. Fez-me sofrer, fez-me sofrer muito, portou-se mal, portou sim senhora, mas algo me diz (e não, eu não oiço vozes na minha cabeça) que a minha história com o gigante mansinho é superior a tudo isso.
Andamos os dois neura e lá nos amparamos nos maus momentos. E está bem assim, muito bem assim. Que continue assim. Durante muito tempo.

sábado, julho 30, 2005

Jaime

Jaime é um pianista trágico, com uma higiene capilar duvidosa.
Tem uma vozinha de falsete e muitos tiques nervosos: pisca os olhos freneticamente e faz ginástica com os dedos, no ar, nas mesas, onde quer que esteja, como quem acaricia um piano imaginário.
Encontrei o Jaime, por acaso. O camarada Cerejo mandou-me para a rua: "Vai encontrar uma história, coisinha!". O Cerejo chama-me coisinha. Talvez saiba o meu nome, acredito que, pelo menos, conhecerá o meu estranho apelido, mas insiste no "coisinha".
Aceitei o repto sem hesitar, não me apetecia estar no bunker da rua Viriato, a carregar no "refresh" do Gmail compulsivamente, à espera de notícias de um pombo, que suspeito que anda de asa ferida.
Assessorizei um pouco - que é o verbo que eu inventei quando vou tomar café com um determinado assessor da praça -, e depois de ter bebido uma água Campilho (foi a primeira vez que bebi uma água Campilho, por isso é que a menciono), fui à procura de uma história.
Senti-me turista no centro da cidade. Gostei de ver a cidade assim. Como se fosse pela primeira vez. Abençoei o Cerejo várias vezes por me ter mandado para a rua - no meu peito uma angústia terrível, e eu impotente, sem saber nada, sem poder fazer nada, andava nisto, coração apertado, quando esbarrei com a primeira potencial história: um sapateiro que parou no início da revolução industrial. Achei que aquela era a história - sapatos, um dos meus temas favoritos, mas o velhinho que tresandava a cola de contacto, não se sentiu atraído pela ideia de aparecer num jornal.
Vagabundei entre a Estefânea e o Saldanha, a tentar forçar o destino, e, quando já tinha desistido, encontrei o Jaime, a tocar Nick Cave e Tom Waits num Centro Comercial. A tocar, a tocar bem, por sinal, sem ninguém se dar ao trabalho de ouvir. Já nem digo aplaudir, pelo menos parar um bocadinho e ouvir.
Lá tenho que dar o braço a torcer e revelar-vos mais um ensinamento do Zé Ralha - fónix, o senhor, afinal, ainda me ensinou meia dúzia de coisas, não muito úteis, ensinamentos profundos, apenas, de um homem que diz ser um reservatório de conhecimentos inúteis.
Um dia, fomos à Baixa, e de dez em dez metros, o Zé Ralha insistia em parar, escutar ou observar e, no fim, aplaudir, a arte de rua de todos os mendigos - cegos, amputados, velhinhos, ou apenas vagabundos. À primeira, uma criança ainda acha piada, ao sétimo já não há cú.
E nisto, quando a minha cara de tédio e inquietude já não enganava ninguém, ele sai-se com esta, que me acompanha até hoje: "não dês só a esmola aos ceguinhos. Perde cinco minutos a ouvi-los também." E ali ficámos, mais de dez minutos, a ouvir o velhinho que tocava guitarra clássica e que, salvo erro, ainda actua por aquelas bandas.
Alguns poucos anos mais tarde, andava eu a cantar músicas bonitas nos túneis das estações de metro de Roma e Alvalade para ter dinheiro para comprar um bilhete para os Madredeus no CCB, e percebi a importância de alguém se dar ao trabalho de ouvir o que estamos para ali a fazer. O dinheiro, claro, a esmolinha, era muito benvinda, mas eu ficava bem mais contente quando alguém despejava o porta-moedas - houve um tipo que me deu mil escudos e há doze anos atrás isso era muito dinheiro - e perdia dois minutos a ouvir.
Por isso, sentei-me numa mesinha do dito centro comercial e ouvi. E bati palmas no fim. O Jaime agradeceu com aquilo que sabe fazer; perguntou se havia alguma que eu quisesse que ele tocasse. No meu cérebro passou de raspão a frase batida - play it again, sam -, mas soltei um inesperado Bach. Bach a um tipo que estava a tocar Nick Cave. Só eu. Surpreendentemente, ele tocava Bach.
Foi nesse momento que soube que estava ali a minha história.

sexta-feira, julho 29, 2005

Não dá

Hoje não dá.
Se escrevo, vai dar merda de certeza.
Vou falar do que não devo - até queria falar da noite bonita com as siglas AKP, mas não dá.
Rezo para que tudo fique bem, para que as três horas que passámos ao telefone, sejam só um sonho mau, peço que tenhas dormido bem, que não estejas louco, esquizofrénico, paranóico, que hoje te tenhas levantado e apercebido que ninguém te vai fazer mal, a ti, a mim, aos teus pais, que estás esgotado, apenas isso, que precisas de férias, peço sobretudo, a quem quer que seja, que a tua vida não acabe aqui, assim, por causa de demónios que vês por todo o lado, que te ameaçam, que te aterrorizam. Passámos por tanta coisa juntos, temos tanto ainda para passar, e eu não aceito que tenhas passado para o outro lado. O teu futuro é brilhante não é num quarto de um hospital psiquiátrico.

quinta-feira, julho 28, 2005

Déjà vu

O dia começou cedo, não me lembro sequer quando foi a última vez que respirei a cidade tão cedo.
A cidade é linda de manhãzinha.
Quase me esquecia como a cidade é linda de madrugada.
Na minha cabeça, desde ontem, durante toda a manhã deliciosa esta: "If one day, I didn't come to see you, what would you do?". A Binoche linda e desgrenhada, a levar um murro no estômago com a resposta de um senhor muito moreno, sikh: "I'd try not to expect you".
Triste, não desarma, não se contenta com a ausência de expectativas: "Yes, but if it got late and I hadn't shown up?" e a resposta não é, novamente, aquela que queria ouvir:: "Then I'd think there must be a reason".
É a história da minha vida.
"You wouldn't come to find me?
That makes me never want to come here..."
E eu insisto nisto, quero acreditar que no plano seguinte eu arranjo a coragem para dizer: "
Then I tell myself: he spends all day searching, in the night he wants to be found."
E apesar de ter a certeza que cheguei em má altura acredito que hei-de ouvir: "
I do. I do want you to find me. I do want to be found."

terça-feira, julho 26, 2005

O dia em que o teu coração decidiu não parar

[Para o senhor da outra reencarnação. Que nos continuemos a encontrar nas próximas.]

"Rápido, vem para casa rápido". Eu estava na esquina da Casa das Lâmpadas, a cortar para a Estados Unidos da América, no Twingo, sei perfeitamente o que trazia vestido, estava bonita, estava bonita apesar de trazer o olhar perdido, afogado na bomba russa, as 50 miligramas de sertralina que me faziam levantar da cama.
Ia a pensar na vida, a Rita tinha-me feito sair de casa uma hora antes - anda, vem tomar café ao Independente, e eu a tomar café com aquele que viria a ser o pai da minha primeira filha, eu a tomar café com ele sem saber disto - e no regresso - tenho tantas saudades do meu Twingo -, quando o telefone toca, percebi logo que o teu coração se preparava para parar outra vez.
"Calma, calma, eu estou bem, liga para o 112, liga só para o 112, eu já fico bem". Eu branca, gatos por todo o lado no teu quarto, e tu aflita, sabias que eu estava por um fio, que não ia aguentar uma segunda paragem cardíaca em apenas uma semana, o teu coração a parar e tu a fingires que não era nada, liga só para o 112, já passa. Eu quero ser uma mãe como tu és para mim. Ainda me mediste a tensão, estava perto dos 20, tão alta como a tua, uma taquicárdia brutal, 180 batidas por minuto, e o teu 50, tem calma, a ambulância já aí vem, mas eu sentia-me muito calma, parecia tudo um sonho.
Ambulância do INEM à porta em três minutos, eu não falava com o Pedro e se, na altura, não estivessemos com um ódio de morte um pelo outro, ele teria enviado um helicóptero para ti, mãezinha - como ele te chama. Aplaudiram a minha calma, os tripulantes e o médico. Gracejei: é o Zoloft e o Xanax. A minha mãe a morrer e eu a fazer graçinhas com fármacos da Pfeizer.
Regresso às urgências de Santa Maria. No meu casaco, um código de barras encarnado e um A de acompanhante escrito à mão, na portaria, contigo deitada na maca, ventilada. Regresso ao banquinho silencioso junto à porta dos cuidados intensivos. Horas a olhar para os meus sapatos, lindos, Pura Lopez, 150 euros salvo erro, sem me aperceber que o tempo passava e toda a minha família estava lá fora à espera de notícias.
"Dispa-se, por favor". Eu a olhar para os sapatos e essa cena a repetir-se. Tu a teimares que não te querias despir, que te querias ir embora, e eu quase a desmaiar, sem saber como te convencer. Tu sem brincos, sem os anéis, sem nada do que é teu, por isso é que não te querias despir, porque ficavas frágil e eu nunca te vi tão frágil, tinhas razão, de bata fininha de algodão verde, muito magra, eu nunca te vi tão frágil.
O coração da Magui decidiu não parar neste dia triste de Março. Nesse dia triste de Março, em que eu passei horas à porta dos cuidados intensivos a olhar para os meus sapatos, tendo a absoluta certeza que estaria perdida se aquele coração parasse de bater, soube que, embora não pareça, tu disfarças bem, sou a tua favorita.

segunda-feira, julho 25, 2005

Minhoca e Catarina

Eu tenho novas gatas. Perco tanto tempo a dissertar sobre o meu amor secreto, sobre o meu ex amor sr Vring, a dissertar sobre este ou aquele meu amigo que grita comigo e me põe a chorar, que me esqueci de vos apresentar as miúdas.
A Magui afiambrou-se à Mancha e à Mimi, aquelas gatinhas lindas que eu há tempos coloquei neste quintal - coitadinhas, elas são tão pequeninas, ficam tanto tempo sozinhas... - e, vai de modos, raptou-as da minha ex-casa pequenina e elas lá estão, no gatil da minha mãe, felizes e contentes.
Fui à Zoófila, ou melhor, a Zoófila é que veio até a mim, veio até a mim no melhor hipermercado de toda a Lisboa - o Feira Nova da Belavista, em Chelas: como quase ninguém lá vai, há pouca gente feia por metro quadrado -, e adoptei a Minhoca e a Catarina. Já vinham baptizadas e eu gostei dos nomes, assim ficaram.
Não são as miúdas mais giras do bairro, mas têm muita pinta. Eram as bichanas que estavam mais tristinhas e isso é que interessa; agora são felizes.
A Minhoca é toda preta, gata de bruxa, muito bonita, muito medrosa e tem toda a legitimidade para desconfiar dos humanos: em apenas seis meses de vida, foi abandonada três vezes. Eu falo com ela, digo-lhe que desta vai ser diferente, suborno-a com Whiskas e Sheba (Sheba só de vez em quando, porque eu não sou rica), mas a Minhoca não confia ainda em mim. Mas já me garantiu que isso dos gatos pretos darem azar é uma parvoeira, que gosta muito de aqui estar e vai ser a guardiã da minha casa, que vai trazer muita sorte à Martinha (e isso já se vê, Minhoca, muito obrigada).
A Catarina é uma tola, tinha sido abandonada, na véspera em que eu a adoptei, em plena Avenida de Roma, a minha avenida, é preta também, mas sarapintada, parece um ET e está nos antípodas da "mana" Minhoca - é uma melga, não me larga um instante.
Agora que já estão enturmadas, que já conhecem todos os cantos da Martinha, as manas pretas enlouquecem por volta da meia noite. Desatam aos pulos, trepam pelos armários, parecem possessas pelo Demo.
São muito muito engraçadas.
Divertem-me nas noites em que eu não estou com quem desejo estar.
E sim, ele gosta de bananas.

domingo, julho 24, 2005

Ressurreição

Aqui a (T)ralha é ainda mais despachada que o Senhor e, apesar de ser Domingo, demorou apenas dois e não três dias a ressuscitar.
Não faz sentido acabar com este canto. Não por causa de uns otários que chatearam a Joana num Sábado de manhã, por causa de umas linhas, umas linhas divertidas e bem escritas (desculpem a imodéstia, mas eram mesmo boas), que não tinham nada de mal. Um texto que era uma homenagem sentida e mais que merecida a uma pessoa de quem eu gosto muito, um texto em que não se teciam quaisquer considerações sobre as qualidades profissionais da minha amiga, um texto cuja moral era apenas esta: o cromossoma X tem uma anomalia de milhares de anos; desculpa o seu par Y com demasiada facilidade.
O cromossoma X é banana, eu sou banana, sou das Nanicas, não sou das da Madeira. Na ilha do Alberto João, as bananas são pequeninas e eu sou gigantescamente banana, escrevi isto, muito recentemente, num mail, a propósito de perdoar incondicionalmente as ofensas de quem me ofendeu, num mail em que suplicava assim: "Diz-me que gostas de bananas" (ainda não respondeste, mas estou convicta que sim, que gostas).

Podia ter apagado o post "Fim" e, assim, de acordo com o StatCounter, apenas 11 pessoas tinham sabido da minha catarse de ontem.
Mas não faz sentido retirar o post.
Quem por aqui põe os olhos há algum tempo - nem é preciso muito, basta uma semanita -, já se apercebeu da minha veia para o faduncho, da predisposição dos meus genes para estados ferozes de melancolia.
Desta vez, decici ficar triste por estar feliz demais. Não cabe na cabeça de ninguém...
O Ric induziu-me a mini-depressão, acabadinho de chegar de Marrocos, e eu estava aérea, nas nuvens, e ele, sabiamente, decidiu chamar-me à terra, assentar as sandalinhas de um salário mínimo nacional no chão. Num estalar de dedos questionei o que é que andava a fazer, quem é que ia sofrer os danos colaterais desta embrulhada, senti-me ridícula por me apaixonar tão facilmente.
Mas hoje, o Ricardinho (espero que tu não te importes que eu te chame pelo teu nome verdadeiro, mor), que anda com peso na consciência desde então, tirou-me da neura (a tua cena dos sorrisos também estava a funcionar muito bem, Maique, a sério que estava e vou continuar com a medicação). Disse-me que não faz mal apaixonar-me por alguém em tão pouco tempo. E que o amor é ridículo, não há nada a fazer. E, nesta primeira fase, o amor emagrece, acrescento eu, por isso é duplamente benvindo, com chatices, alhadas e pombais.
O JPH, que é o grande culpado pela audiência indesejada deste blog, foi, talvez, o primeiro a reparar- apesar da muralha de arquivadores que colocou entre nós, viu os primeiros sintomas, de muito perto, sentado na secretária em frente à minha: eu com um sorriso parvo de orelha a orelha, com os olhos a brilhar para um monitor de computador e ele a aconselhar uma rápida visita ao médico, enquanto me pedia para eu lhe servir um cafézito. Não lhe dei ouvidos, servi-lhe o café, mas deixei-me levar.
Sofre-se de qualquer forma. Dando pouco ou dando muito. Eu prefiro dar tudo. E isto aplica-se também a este blog. É a minha terapia. Não posso abdicar dela. Não estou pronta para o desmame.

sábado, julho 23, 2005

Senhora ex-assessora

[Post reeditado, sem censura, agora que a senhora ex-assessora já não tem cargos institucionais no XVII Governo Constitucional - este blog não teve nada a ver com isso, com a queda do senhor ministro do cabelo às ondinhas; portei-me bem, aceitei censurar o post até ao fim do mandato do senhor, mas, caramba, o post só ficou 20 dias na gaveta, nem sequer ficou a cheirar a naftalina... Ainda uma nota para o post '27 mais um': tinha apenas uma vaga recordação de o ter escrito e parece-me que posso fazê-lo mais vezes - escrever triste e imediatamente após uma estadia nas escadinhas da rua contígua à Bicaense.]


Quem me conhece, sabe da minha tara por assessores de imprensa. Fui casada com um, namorisquei outros tantos.
Este Governo tem a assessora mais bonita e louca de Portugal. A minha tara por assessores não é exclusiva ao sexo masculino: adoro esta mulher.
A senhora assessora ontem pagou-me demasiados copos na Bicaense (agora está rica, em quatro meses afiambrou na sua conta bancária uns poucos milhares de euros).
Eu e a assessora "freak" estagiámos juntas no pasquim, há muitos anos (ela é mais louca do que eu e isso é uma proeza digna de registo num "hall of fame" - prepara-te para enterrar as mãos em cimento fresquinho). Eu fiquei nesta mina, ela foi com os porcos.
Na altura, soube-me bem, de três estagiárias extraordinárias - éramos mesmo as três magníficas: eu, a senhora assessora e uma menina com um apelido indiano muito musical que, segundo sei, anda por Bruxelas a ganhar rios de dinheiro - ter sido eu a escolhida, mas, hoje em dia lamento-o e não consigo deixar de pensar o que poderia ter acontecido se tivesse ido parar ao desemprego (eu sei que não vale a pena pensar nisso, mas é feitio, não é defeito, perco demasiado tempo a pensar no "e se fosse...")
Geralmente, só encontro a assessora dos olhos verdes, filha de um ex-ministro, no dia dos meus anos. 2005 tem sido a excepção - a culpa é da esquina da Bicaense (pára lá tudo o que é bicho careta do jornalismo, sobretudo do económico). O encontro de ontem foi marcado partindo da premissa que iamos falar de gajos, numa espécie de pijama party, sem pijamas, sentadas à soleira de uma porta da Rua da Bica de Duarte Belo, acompanhadas de caipirinhas ou mojitos.
Contei-lhe as mais recentes façanhas (a este blog "chibo" não o posso fazer, porque o JPH andou a divulgá-lo além fronteiras...) e confessei, ainda, o trauma recente, cuja enterrada recordação ainda abala a minha frágil auto-estima.
Na noite em que alguém virou a face e cagou de alto para mim (perdoem a linguagem, mas isto é o mais soft que eu consigo para descrever a pulhice que me fizeram), eu tinha estado com a senhora assessora, no sítio do costume, e ela tinha-me pago demasiados "shots" de absinto: "Eu achei o gajo um otário, Di. Via-se que já estava contrariado. Mereces melhor, muito melhor", desabafou ela e eu larguei um longo suspiro em sinal de aprovação das suas palavras e soltei um: "Sim. É um idiota."
"O problema, é que nós, gajas, somos tótós", lançou a assessora, com os pés assentes nos carris do elevador da Bica (elevador que, para mim, nunca mais foi o mesmo desde que soube que alguém das minhas relações ali mandou uma pinocada; agora, olho sempre para o eléctrico amarelinho com um misto de inveja e nojo). "Se os gajos são uns otários, se são uma nódoa da cama, se são não sabem beijar, nós nunca dizemos nada. A culpa é toda nossa, porque passamos a vida a desculpá-los", sentenciou a assessora acidental.
Tens razão, toda a razão. Lembrei-me logo do senhor holandês que não respondia aos mails, que não respondia às mensagens, que não respondia aos telefonemas, que teria morto à pedrada os pombos correio que eu lhe tivesse enviado, e eu, parva, arranjava sempre uma desculpa - tem muito trabalho, deve ter o telemóvel no silêncio...
(Suspiro)
Recordei uma pinocada para a qual tinha grandes expectativas e que foi abaixo de cão e um outro por quem eu andei caída há muito tempo que tinha problemas gravíssimos de erecção e, raios, tens mesmo razão: nunca teria tido a coragem de dizer aos tipos que eles eram ridículos, que eram publicidade enganosa, que ia fazer queixa à DECO, com medo de lhe ferir o seu orgulho viril para todo o sempre.
O nosso sentido de Estado obrigou-nos a interromper a conversa e apanhar um táxi que demorou meia hora a chegar, porque não sabia onde era a Calçada do Combro.
Mas havemos de continuar esta reflexão.
Entretanto, eu tenho a tal manchete para escrever.

Fim

Devia estar a arrumar caixotes.
Vou esperar pela minha babysitter para dar uma de fada do lar. Mas antes vou contar-lhe as minhas desventuras, vou chorar de certeza - o telefone acaba de ecoar o sinal de mensagem pelos tectos altos da minha casa e o meu coração dispara.
Mas não é quem eu esperava, faz-me sorrir de qualquer forma, mas não é quem eu esperava, é o Rui Lúcio, um que tinha fama de besta como o Madeira, mas que se tornou um dos meus melhores amigos do pasquim, um dos que não se esqueceu de telefonar ontem, mas depois ligo à Cat, porque tenho saudades dela, e desato logo a chorar, nem espero pela minha querida Astride para abrir a torneira.
O telefone toca outra vez é a Joana, grita comigo, grita porque tem toda a razão, eu choro, e o post sai de rajada, outra vez, o post amaldiçoado, e este blog acaba aqui.
Este blog era para os meus amigos. Dez telefonemas por causa de um post? Telefonemas de quem?
Escreves tão bem, não acabes este blog, do outro lado ela diz: tens que escrever um livro, diz isto porque eu estou a chorar sem conseguir parar, mas este blog acaba aqui, não há discussão, não há mais discussão. Ninguém vai voltar a ser acordado por causa dos posts deste blog.
Em dez minutos, este blog acabou. Foda-se!
Eu ia só escrever disparates, disparates sobre ontem, disparates sobre mim, mas este blog acaba aqui.

NR - O Mac diz que há uma forma de pedir cartão da casa à entrada. De transformar a (T)ralha num clube selecto. E, por isso, parei de apagar posts, um a um. Logo se vê, se para a semana, continuo a deitar tudo para o lixo ou se deixo de fazer novelas, como diz o senhor do pedestal no seu comment. Custa muito acabar com este cantinho, garanto-vos. Imaginava a sua morte de outra forma, por já não o poder ver à minha frente, por desleixo, nunca assim. Por leitores maldosos a acordarem os meus amigos pelas parvoeiras que eu aqui escrevo.

PS- Maique, a história dos sorrisos parece meia parva, mas resultou. :)

27 mais um

O senhor Ali levou-me a outras paisagens, transportou-me para outros pombais, em outras freguesias, foi sublime a sua música, mas não tenho pudor em o afirmar, a estas horas escabarosas e imorais para quem está outra vez a arder em febre, para quem devia estar a dormir há meia dúzia de horas, para quem não devia estar preocupada em ligar o computador de propósito para abrir o gmail; não tenho vergonha de dizer isto: foi uma merda, o primeiro dia dos 27.

À minha Diana, que é a amiga mais doce que eu algum dia podia ter. Obrigada pela noite de hoje.

A todos os que não me deram os parabéns, obrigada por me fazerem ver que, afinal, não são assim tão importantes.

sexta-feira, julho 22, 2005

27

27 anos.
Menos três quilos do que há dez dias atrás (e agora, continuam a falar mal da minha nutricionista?).
Acordei com febre. Doente. Com muitas dores de garganta.
Acabo de enviar sms a todo o bicho careta para irmos jantar no Sábado. Sou sempre a mesma merda.
Estou triste outra vez. "entao nao anda tao feliz ? devia estar ainda mais satisfeita hoje...", mandou, por mail, uma pessoa que eu coloco num pedestal.
"tu sabes que eu sou maniaco-depressiva, ou não?", respondi eu. De facto, ontem estava a ver o Schindler's List no AXN, mas decidi mudar de canal. Porque já estava miserável de qualquer forma, não precisava de um filme triste para turvar, ainda mais, o meu já perturbado estado de espírito. E fiz zapping, muito zapping - ontem não me apatecia estar na Net -, até que parei na 2:, estava a passar um documentário sobre doentes bipolares e mais uma vez achei que devia ir ao médico, porque ainda na segunda-feira me sentia invencível e agora já estou melancólica.
"Another Lonely Day" do Ben esteve em repeat one durante toda a manhã. Tentei ir comprar sapatos para espantar a neura, mas nada me excitou, a coisa está mesmo, mesmo preta, quando nenhum par de sapatos me põe os olhos em bico.
Acabo de receber a minha primeira prenda, uma guiquisse do senhor do pedestal: cd de instalação do Ubuntu para Mac. Mas ainda não tenho Mac.
Vamos lá ver se ponho boa, da garganta e do resto. Vamos lá ver se os dias continuam a ser à noite.

quinta-feira, julho 21, 2005

Anúncio público

É oficial: não vou fazer ponta de um corno no meu dia de anos.
Não estou com cú para organizar festas e jantares. Epá, surpreendam-me e organizem todos vós um jantar.
Porque eu estou cansada, mesmo muito -
chego todos os dias a casa às dez e meia da noite, quero deitar a minha filha e esponjar-me no sofá laranja, quero abrir o Toshiba e ficar horas no Gmail a trocar conversa tola, porque os caixotes da Rodrigues e Lourenço continuam espalhados na cozinha, porque no sábado à tarde chega a minha máquina de lavar a roupa, "By appointment of her Royal Highness Queen Elisabeth The second", e ainda não desimpedi o espaço, porque a casa está cheia de pó, porque...

Amanhã, quem quiser que apareça no Ali - é de borla - , depois bebemos um copo na Bica. No Sábado, quem quiser ir jantar comigo que mande um mail, que telefone, que envie um pombo correio ou um cão pastor. Não tenho pachorra para ser eu a coordenar a logística. Não sou uma fada do lar...

O mistério da estrada de Sintra

O repto foi-me lançado pelo meu querido amigo Mac

"e porque não reeditar a ideia?

Apenas a ideia, já que a arte per se foi de mestres e não é, de perto nem de longe, replicável.


O que me dizes?"

É uma proposta indecente. Dois blogs, quatro mãos, uma história.

Eu nunca escrevi a quatro mãos. Tenho as minhas dúvidas que isto vá resultar.

O Mac escreve muito bem, mas é denso, muitas das vezes quase imperceptível, eu, francamente, não gosto dos textos em que ele usa palavras como languido ou lúgubre (detesto-as, dão-me náusea, e ele ama-as). Eu sou matéria prima em bruto, não gosto de figuras de estilo, detesto ter que ler uma frase duas vezes para a perceber. O Mac tem uma escrita codificada, polida, aparada...

Mas é um dos meus melhores amigos - e, mais recentemente, faz terapia gratuita pelo messenger - e penso que vai ser uma experiência engraçada, ainda que, provavelmente, fugaz.

Vamos lá ver o que é que dá.

A história vai começá-la ele, porque, caros, continuo muito feliz para escrever seja o que fôr. Eu pego onde ele acabar e ele começa onde eu terminei. E assim sucessivamente, a fingir que somos o Eça e o Ramalho Ortigão (eu quero ser o Eça)

Como a (T)ralha tem uma linha editorial definida - ando a fazer o livro de estilo deste quintaleco -, todos os posts a quatro mãos serão devidamente identificados como tal.

E vocês, digam de sua justiça, se acham bem ou acham mal (da minha parte, prometo continuar a escrever sobre a minha infância, porque, acima de tudo, este é um blog intimista).

quarta-feira, julho 20, 2005

Estado de graça

É uma alhada. Das enormes.
Mesmo assim, continuo em estado de graça.
Ontem quase descambou, enchi o computador de canções tristes do senhor Ben, esvaziei o meu coração, mas de manhã ele estava cheio outra vez (esta também tem copyright do já muito citado guião do The English Patient).
Caros, estou feliz, não esperem grandes prozas neste blog. Só escrevo bem quando estou miserável e este amor não conto a ninguém.
E como diz uma canção que eu gosto muito: "Os dias são à noite".

terça-feira, julho 19, 2005

Cena 103

É uma das minhas favoritas.

103*. INT.   THE PATIENT'S ROOM.    DAY.

Hana sits reading from the Herodotus. She shows the Patient
the page where a CHRISTMAS CRACKER WRAPPER covered
in handwriting has been glued in.

HANA
Tell me about this, this is in your handwriting - December 22nd -
Betrayals in war are childlike compared with our betrayals during
peace. New lovers are nervous and tender, but smash everything - for
the heart is an organ of fire...
(she looks up)
I love that, I believe that.
(to him)
Who is K?

THE PATIENT
K is for Katharine.

Dilema

Sexta-feira faço anos. 27.
As minhas festas de anos costumam ser "o" acontecimento. Mais de três dezenas de pessoas, família, amigos de infância, as meninas da faculdade e respectivos apêndices, jornalistas, assessores, membros do comité central do PCP, tudo ao molho e fé em Deus e, geralmente, corre sempre bem, o azeite mistura-se com o vinagre na perfeição e eu aproveito para estar com pessoas de quem gosto muito pelo menos uma vez por ano.
Mas este ano estou sem força anímica para preparar seja o que fôr. E tenho uma nova categoria de amigos - as bestas dos fotógrafos - para encaixar na salganhada do jantar e não sei se a coisa resultará bem.
Certo certo é que na sexta a noite é do Ali Farka Toure - o querido que veio directamente do Mali para me cantar os parabéns. Depois, logo se vê.

Jantar no sábado, malta? E onde? No espaço Cabo Verde, como manda a tradição, com umas mornas a aquecerem a noite?

Digam de vossa justiça.

segunda-feira, julho 18, 2005

Para ti

Tantas vezes quis que tu lesses este blog, andei à tua procura do teu IP no StatCounter durante meses a fio - ainda tenho os papelinhos amarelos colados ao monitor, com as várias hipóteses - e, agora que o fazes diariamente, do outro lado do oceano, não sai nada. Absolutamente nada.

Estou demasiado aérea para escrever seja o que fôr.

sábado, julho 16, 2005

Post Matinal

Mais um post matinal, antes das dez da manhã, com muito poucas horas de sono, mas um sorriso aparvalhado ao acordar.

A vida anda-me a sorrir, a piscar-me o olho e, caramba, cinco dias após ter começado a minha dieta, já lá vai mais (ou menos, pensando bem) um quilo, é o que acaba de me anunciar a balança laranjinha.

Com umas olheiras do tamanho do mundo, totalmente esgazeada por ter tomado tomado banho de água fria (não há ninguém que me consiga ligar a porra do esquentador?), lá vou eu cumprir a ordem judicial dos sábados de manhã. E escrever os tal doze mil caracteres, porque ontem, simplesmente, não deu. Valores mais altos...
E o corpo é que paga... Vai doer este sábado. Detesto as edições de Domingo do meu jornal! Pim!

185 page loads!!!

É o recorde absoluto.
Nunca a (T)ralha almejou tanto sucesso num só dia.
Obrigado, obrigado. A Dia tem que escrever 12 mil caracteres para Domingo, mas ainda sai um postezinho de agradecimento.

Esta última frase era para ler em voz alta, recordando a entoação que a nossa querida Amália dava às suas frases.

Eu conheci a Amália. Pouco antes de ela bater a soleta. Na vernissage de uma exposição do Zé Ralha, no Páteo Bagatela, há alguns anos atrás.

O pintor estava a pedir 600 contos pelos seus rabiscos nessa exposição, era uma coisa à grande, e como estava a achar que era outra vez um grande artista -

teve direito a catálogo, nota bibliográfica e palavras simpáticas de uma mulher muito bonita, cujo nome condiz com a sua pose elegante, Diva, chamaram-lhe os pais, que deviam ser meios bruxo -,

sentiu-se grande e poderoso, quase tanto quando fez a capa da Antologia de Poesia do Fernando Pessoa, coordenada pelo António Quadros, e então, foi nessa noite que trocou a minha querida madrasta pela outra que faz bicos. Mas a tadinha da Amália não teve nada a ver com isso.

O Zé Ralha apresentou-nos, eu disse à senhora que gostava muito do fado "Cansaço", mas ela estava surda, não percebeu, ao invés estendeu o braço, tapado com um véu de franjinhas, e com as suas mãos muito sardentas, com unhas pintadas de encarnado, agarrou-me a mão e, no mesmo tom que dizia "obrigado, obrigado", repetiu:

"Diana, o teu pai é uma pessoa muito pura, Diana. E o teu avô, Diana, o teu avô é uma pessoa muito pura"

E continuou nisto durante minutos e minutos, a apertar-me a mão, eu à rasca, queria que ela me largasse, e enquanto dizia "é uma pessoa muito pura, Diana, Diana" a dentadura dela ganhava vida própria e mordiscava os seus lábios, que tal como nos habitou na sua fase de decadência, estavam esborratados de um tom alaranjado.

Soube depois, que a senhora dona Amália, que era cliente da farmácia da Rua de São Bento do meu bisavô Correia (um que tinha vergonha de ser Ralha, usava Correia), emborcou todo o whiskey que havia na vernissage. Daí esta insistência na "pureza" do Zé Ralha.

Ao despedir-se, agarrou-me novamente na mão e lá debitou: "uma pessoa muito pura, o teu pai, Diana, Diana".

Isto é mais giro quando eu faço a imitação ao vivo... Só visto mesmo.

De qualquer forma, "obrigada, obrigada".

sexta-feira, julho 15, 2005

Quando eu era pequenina

quando eu era pequenina

E as histórias que eu vos conto passaram-se quando eu era, assim, pequenina.

Retratos de familia

retrato de familia

Um pequena amostra da minha agência de adopção de antepassados...

Columbófila

margarida terenas

Eu sempre gostei de pombos.
Salvo pombitos bébés às dúzias, todos os anos, nos jardins das Avenidas Novas de Lisboa. Bom, a Magui é que os salva - alimenta-os à mão, durante meses e meses a fio, com a paciência de uma verdadeira mãe galinha -, eu, da minha parte, limito-me a apanhá-los.
E isso é um grande feito, permitam-me, porque eu tenho pavor a pássaros. Duas péssimas recordações - daquelas que só saem da masmorra para onde foram desterradas há muito tempo quando temos um blog - explicam o meu temor.
Ter a perfeita noção do momento em que passei a ter medo de pássaros poupa-me uma trabalheira danada e muitas horas no divã de um psiquiatra, quando e se algum dia tiver dinheiro para isso (prefiro guardar o dinheiro da terapia, continuar a fazer catarses quase que diárias na minha (T)ralha e, qualquer dia, aumentar as mamas para um tamanho acima).
O meu medo irracional dos pássaros não tem nada a ver com um determinado filme de um senhor gordo, que se deixava fotografar de perfil, de charuto na boca. Não senhor. Eu sei que os passarocos não me vão fazer mal. E gosto tanto de pássaros (quem me dera voar) que ainda é mais difícil de perceber porque é que fico com suores frios e taquicárdias sempre que me aproximo de um canário, piriquito, caturra e, claro, pombos.
Mas é fácil. Muito fácil. Chama-se recalcamento (gracias senhor Freud, por dar o nome às coisas, mas por acaso, podia ter dado um nome mais jeitoso, que não me agrada nada ser recalcada).
Antes de termos várias dezenas de gatos em casa, tínhamos piriquitos. Mais de uma dezena deles. Havia o Cobalto (que era azul cobalto, como o nome indica), a Francelina (que era uma verde má como as cobras), o marido da Francelina era o Francisquinho - cujo crâneo, os nossos gatos, desenterraram de um vaso, muitos anos depois de o bicho ter ido para o céu dos pardais, e se fartaram de brincar com ele como se fosse uma bolinha -; havia a Dona Branca, que era uma albina, havia uma lutina cujo nome não me recordo; e houve, também, entre muitos muitos outros seres alados, cujos nomes a minha memória colocou em arquivo morto, a Fifa - uma pintassilgo que o Leonardo e a malta do bairro encontraram acabada de nascer, num ninho, por debaixo de um plátano da Avenida dos Estados Unidos da América.
Os passarocos - a Magui tinha também bicos-de-lacre, lembro-me agora, uns singelos e minúsculos passarinhos cor de chumbo, com bicos encarnados - andavam à solta lá por casa.
A senhora minha mãe era tradutora, passava a vida à frente de uma máquina de escrever Olivetti, e os pássaros enfileiravam-se nas pontas do rolinho onde se colocavam as folhas. Assim, à medida que a Magui dactilografava as suas traduções químicas, de francês para português, os bichinhos iam andando para a direita, aos pulinhos. Quando a linha chegava ao fim e uma campainha fazia tlim, a Magui puxava uma alavanca, descia uma linha e recuava tudo para a esquerda. Passarocos incluídos. Um espectáculo digno de se ver, que, certamente, haverá registo fotográfico lá por casa.
Os piriquitos eram como coelhos. Multiplicavam-se à velocidade da luz. E a Magui que sempre foi péssima em controlo de natalidade (por isso mesmo, chegámos, aos sessenta e muito gatos num apartamento), nunca tirou os ninhos das gaiolas.
A postura dos ovos era uma emoção (eu tinha menos de seis anos, isto foi antes de eu entrar para a primária), o nascimento dos bébés - aliens despenados e cegos - então nem se fala. Abríamos o ninho mil vezes por dia para ver se já havia bébés, apesar das súplicas da senhora minha mãe para não o fazermos.
E, numa dessas vezes, eu abri o ninho às escondidas, um ovo resvalou para o chão, partiu-se a meus pés, e o chão amarelo da varanda da cozinha ficou encarnado de sangue.

Lembro-me de gritar como uma louca e pouco mais.
E, se nunca me refiz de ter morto aquele piriquito, pior visão de terror tive num Verão, pouco tempo depois disto, que fomos passar à casa do avô Ralha, nos Capuchos.
A passarada, claro, veio atrás. Uma praga de formigas negras, grandes, esfomeadas, matou-os quase todos.
Outra visão horrenda: a Magui na casa-de-banho verde, com o chuveiro e os piriquitos nas mãos, a tentar tirar-lhes o manto de formigas das penas...

A Qui Qui está aqui (até rima), no outro lado, a perguntar como é que está a correr este post. "Bem...", disse eu. Mas acrescentei logo: " mas já estou a contar historias que não era suposto; os posts têm vida própria".

Este post era sobre pombos. Sobre pombos correio (já apanhei um pombo correio, a quem dei comida e água e que, posteriormente, entreguei à Associação Columbófila, que fica pertinho da Avenida da Igreja), amarrados pelas patitas, pelos seus donos, com fios de computador.

Este post era sobre esta senhora da foto -, Margarida Terenas, filha de um senhor que ajudou a implantar a república a 5 de Outubro de 1910, Feio Terenas (googalizem, se quiserem saber mais sobre este bravo republicano).
Era minha inquilina, a Margarida, daquelas que pagam uns míseros 50 euros por uma casa de seis assoalhadas.
Morreu velhinha, solteira, sem filhos, sobrinhos ou enteados, apenas uns parentes distantes da família Champalimmaud, com demasiado cacau para se preocuparem em reclamar fosse o que fosse da prima solteirona e pobrezeca (afinal só vivia em seis assoalhadas na Rio de Janeiro...).
Eu reclamei-lhe o passado. A Martinha tem imensos móveis da Dona Margarida. O sofá de onde vos escrevo, por exemplo, foi estofado de laranja, mas era da solteirona Terenas.
E as fotos. Tenho quase todas as suas fotos de família. Quando estávamos a retirar os seus pertences da casa para a vendermos - eu já estava muito grávida e aquilo parecia que nunca mais acabava - fazia-me muita confusão, deitar o passado daquela senhora para o lixo.
E, desde então, colecciono fotos antigas, não resisto e sempre que vou a uma feira de antiguidades compro-as, fico a imaginar histórias para os seus rostos, adopto-os como a minha família, porque a minha verdadeira, de sangue, está cheia de segredos e omissões (ninguém me soube dizer, no outro dia, em que eu andava em pesquisas genealógicas - introduzida no vívio pelo JPH -, como se chamava o meu bisavô Correia, por exemplo, e eu apercebi-me que não sei o nome completo da minha avó Zá).
Guardei o mais que pude da Margarida Terenas. Tenho pratos, tenho malas antigas de viagem, um escrivaninha, tapetes, sei lá, tenho tudo e mais alguma coisa desta senhora que eu nunca vi na vida enquanto respirava o oxigénio cá na terra.
E eu amo esta foto. Está mesmo feliz, não está, a D. Margarida?
E eu aposto que hei-de ficar com a mesma cara de felicidade aparvalhada. E há de ser com pombos. Quando eles chegarem a Santa Marta.

quinta-feira, julho 14, 2005

Gmail Reloaded

Já vos falei muitas vezes do Gmail. A pandilha, que hoje em dia está desactivada, nasceu e morreu no (e pelo?) Gmail.

Andava triste. Ligava o mail dos mails todas as manhãs, mais por hábito do que por outra coisa qualquer, porque os únicos mails que lá caíam eram os comments que alguns (poucos) deixam neste quintal e umas cusquisses enviadas de uma Diana para outra.

E, de repente, sem aviso (as melhores coisas acontecem mesmo quando menos se espera), lá estou eu de cinco em cinco minutos a espreitar a janela do Firefox, a carregar freneticamente no botão do refresh.

E a sorrir para um monitor.

quarta-feira, julho 13, 2005

O famoso senhor Andy Vring

Holandês voador, que coração andaste tu a partir no Michigan, USA?
É o terceiro dia consecutivo que alguém da Ford Motors te pesquisa no Google e vem parar à (T)ralha. E vasculha este blog de uma ponta à outra.

Se calhar, podemos formar um clube...

Entretanto, os holandeses continuam a perseguir-me. Recebi uma carta de um, a contar-me uma escandaleira fiscal em Portugal. Chama-se Peter, vive em Amesterdão, tem uma caligrafia muito bonita, e é dono de uma empresa de fotografia (também já cá faltava...). Não faço ideia porque me enviou a mim a carta, cheia de selos com as trombas do Van Gogh, a pedir-me ajuda numa desavença com o Estado português...

Mais uma coisa estranha... Estás a ver como eu não faço nada para que elas aconteçam? Simplesmente as atraio...

Vou ligar ao senhor.

Private

Maique, desculpa-me. Mas é que o post anterior estava cheio de gralhas.

Dia 3

E ao terceiro dia...
... a dor de cabeça aliviou.
Aliviou apenas, não passou. Esta é das ruins, das que veio para ficar, daquelas que nem a pílula maravilha à base da perigosa codeína (conhecida no underground farmacêutico como Dolorun E) consegue exterminar.
A dieta cá anda, com grandes resultados e os leitores deixem a minha nutricionista em paz, se faz favor: com ela perdi, há 3 anos, cerca de dez quilos.
O problema do pão e das massas (os meus hidratos de carbono favoritos) é o que a gente lhes põe em cima... E três dias, um quilo (a balança louca voltou a dar-me o mesmo peso hoje de manhã) e alguns centímetros a menos, parece-me uma excelente contabilidade. Vou no bom caminho, a caminho do tamanho 42 de calças, força camarada, força (o dia em que eu comprei umas calças 40, pouco tempo antes de a Carolina se implantar no meu útero, foi um dos mais felizes da minha vida!!!)

Hoje tive um sonho musical, com K's Choice - 20.000 seconds.

20,000 seconds since you've left and I'm still counting
And 20,000 reasons to get up,
get something done, but I'm still waiting
Is someone kind enough to pick me up and give me food,
assure me that the world is good
But you should be here, you should be here

How colors can change and even the texture of the rain
And what's that ugly little stain on the bathroom floor
I'd rather not deal with that right now
I'd rather be floating in space somewhere or
Worry about the ozone layer

And it's almost like a corny movie scene
But I'm out of frame and the lighting's bad
And the music has no theme
And we're all so strong when nothing's wrong
And the world is at our feet
But how small we are when our love is far away
And all you need is you

Não sonhava há algum tempo, já andava preocupada, estava rés-vés a enviar uma carta registada com aviso de recepção à família do João Pestana (morarão no Carlton Palace, por caridade do primo madeirense?), a pedir um qualquer sonho, podia até ser como o título daquele quadro do Zé Ralha que está no chão da sala de jantar à espera de ser pendurado, que se chama: "Hoje sonhei que sonhava".

Não ouvia K's Choice há muito muito tempo, gostei da visita madrugadora, voltem sempre, o sonho foi tão bom que até me esqueci que acordei com o ruído infernal do martelo pneumático lá fora, a destruir o passeio da rua de Santa Marta.

Os meninos são a banda sonora de hoje (If I could put you in a frame I'd draw your smiling, with a cigarrette in your mouth and your hands reaching out for something...)