quarta-feira, setembro 20, 2006

O que mais me custa

O que mais custa não é sair da cama, a horas que, há tão poucos dias e durante tantos anos, não convenceriam as pestanas a desenroscarem-se umas das outras, nem à custa da promessa da visão de uma das maravilhas do mundo. A rua de Santa Marta acorda mais cedo que eu, sei-o bem, e madrugar não é o que me custa, não me queixo, quase todo o mundo acorda mais cedo que eu, que moro por debaixo dos pés do marquês e do seu fiel leão amestrado.
Durante nove meses carreguei nos olhos noites brancas, e ouvi a minha rua a despertar para mais um dia de trabalho, de alegrias e tristezas pontuais sem hora marcada nos ponteiros do relógio. A minha rua acorda quando o sol e os galos ainda preguiçam e ouvem-se vozes de todas as línguas menos daquela que eu sei decifrar. Depois há os polícias, vão e vêm, de e para a esquadra emblemática que nunca está de portas fechadas, mas fazem pouco barulho, pegam no trabalho e largam o trabalho em silêncio, não percebo bem porquê, mas honro o acordo informal entre civis e autoridades do trânsito, que permite aos residentes toda e qualquer espécie de estacionamento selvagem no perímetro da rua de Santa Marta com o Largo de Andaluz e até ao Largo das Palmeiras, segunda fila, por cima dos passeios e, com jeitinho e dois minutos de conversa com o porteiro, até nos dois lugares reservados à Judiciária, cujos agentes almoçam sanduíches na baiuca da D. Beatriz, que os chama respeitosamente de “doutores”.
Não custa entrar às nove e sair as cinco, não custa sair da cama antes das oito da manhã, e só custa um bocadinho a poluição que se entranha na pele, logo pela manhã cedo, na Duque de Loulé, e é um pouco desagradável a poeira que me suja o cabelo das obras do túnel do Marquês, Fontes Pereira de Melo acima.
O que me custa mesmo é não estar na redacção à hora que a Dona Maria chega para lavar as casas-de-banho deste edifício. Deixo-lhe, religiosamente, o 24 Horas em cima do teclado, com um post-it amarelo com qualquer coisa simpática rabiscada, mas acabo por não discutir a manchete do tablóide-bíblia com mais ninguém, não tenho ninguém para falar das as parvoeiras do dia, não oiço queixas do reumático, não debito lamentos sobre os meus joelhos e isso custa, custa mesmo.
A Dona Maria é a melhor coisa deste jornal.

domingo, setembro 17, 2006

O Professor de Filosofia VI (acho eu, já lhes perdi a conta)

Previously, em O professor de Filosofia:

O Professor de Filosofia recolheu, uma a uma, as fichas de alunos já preenchidas, percorrendo como numa marcha militar, as cinco filas de carteiras

Estragou o almoço dos alunos da Ameixoeira. Escrevam numa folha e entreguem-me a resposta a: O que é pensar?


Ainda bem que pergunta, estava a ver que nunca mais, estranhas as coisas: faz-se tanta pergunta vã, de que marca são as tuas calças, qual é a cor desse verniz, já emagreceste quantos quilos, e esta, tão premente, ninguém a faz, certamente depois há um problema de sobreaquecimento da resistência que carbura na mioleira e é uma desgraça, é que não é fácil a resposta a esta pergunta, mas podia-se tentar, não é, e eu às vezes faço perguntas que são óbvias como esta, e depois, riem-se de mim, mas ainda assim, eu não desisto, não me conformo, mas aprendo, a cada dia que passa, a estar calada e guardar estas coisas em mim, até que me apareça alguém que sinta o mundo como eu o sinto.
Porque é que o maestro não usa batuta, perguntei eu, aos seis anos, naquela que foi a minha primeira visita de estudo, ao Maria Matos, não para ver teatro, mas sim, para ouvir Beethoven. Riram-se. Porque é que o ar que bafejo para cima das minhas mãos, nas manhãs geladas que me cortam a respiração, mas que a trazem de volta quando saio de casa e há orvalho nas folhas do rusgo, é quente, e porque é que o mesmo ar, que sai da mesma boca, mas quando o sopro, é frio e me arrefece a sopa?
Até hoje, ninguém me soube responder, provavelmente também não será o professor que me vai tirar esta dúvida, mas por favor não se ria de mim.

(sem dar por isso, chamou-lhe professor. Sim, chamou-lhe, mesmo que tenha sido a tinta permanente, na folha de papel rigída da marca Ambar – só a Ambar produz papel de cem gramas por metro quadrado. Não há chamamento mais forte do que aquele que é feito por escrito. Eu chamei o senhor 50.000 por escrito, neste blogue escuro, cujo layout já precisava de um bafo quente de mudança; ao acaso, tivesse eu gritado pela janela o seu nome, teria ele vindo como veio, por debaixo de uma roseira de santa Teresinha com mais de cinco metros de altura? Pois não... por isso, muita cautela com o que se escreve, e mesmo muita, mas muita prudência com aquilo que se deseja, porque, certamente, se realizará. Professor ficou, desde aquele instante, apesar de ele ser, na altura, demasiado novo para ser professor, mas ela não sabe se foi das bexigas que lhe marcaram a cara para sempre e que lhe davam aquele ar duro, se foi do cabelo impecavelmente penteado ou do colarinho engomado. Aquele não era um setôr, era um professor e, da mesma forma, que ela sempre soube que algo incrível iria acontecer à 50.000ª visita deste blogue, também teve a certeza que aquele jovem professor de filosofia seria uma espécie de gurú, o seu primeiro mestre nas lides de como ser melhor, um pouco melhor a cada folha do calendário que se rasga)

Professor (repetiu a palavra, e apercebeu-se da gravidade do que havia feito – a turma toda, sobretudo as da Ameixoeira, iriam troçar, chamá-la graxista, lambe-botas e outras coisas menos aceitáveis, por este chamamento solene. Tanto pior, para eles, pensou, quando precisarem de copiar nos testes faço-lhes um manguito – coisa que ela sempre soube foi que a vingança era prato que se servia acabadinho se sair do pólo norte, e, de quando a quando, no Aki de Telheiras, ela encontra uma tal de Mónica, que pertencia a esse grupo da freguesia da Charneca que, sabe-se lá porquê, foi parar à quequíssima Alvalade, e sorri quando lhe entrega o Visa do Barclays, e tira-lhe, literalmente, as medidas, de alto a baixo, por cima do seu uniforme amarelo e boné ridículo, que lhe faz sobressair a obesidade mórbida que se instalou no seu corpinho outrora número 34), a pergunta devia ser ao contrário, penso eu – interessante, esta minha escolha de palavras, já viu? Penso eu... E o que raio é pensar, pergunta-me, e eu não lhe respondo, lamento, não me apetece.
Estou há oito anos à espera para contar o dia em que eu deixei de pensar, entre uma garfada de açorda e o olhar perdido num feixe de projectores de iluminação da pista de tartan do estádio da FNAT (ai, perdão, não sei se leva a mal este revivalismo estado-novista, mas lá em casa não se me permitem exultações ao dia do Trabalhador – ele não levou a mal.)

Sem saber, ela escreveu o seu primeiro post, numa folha pautada de cem gramas por metro quadrado, a tinta permanente sépia, mesmo antes de existir Google, muito menos Blogger.

Soltou o monstro. Até aí, era a miúda que não era magra, mas também não era gorda, que não tinha os cabelos lisos, mas que não os tinha aos caracóis, era a que tinha boas notas a tudo, mas que, especialmente, tinha jeito para o desenho, seria designer, ou estilista, sempre gostou de uns trapinhos, e gostava de costurar, sim, provavelmente, seria designer de moda. As suas composições eram medianas, por vezes, pedia ao seu irmão mais velho, que sempre teve mais imaginação e melhores notas, para inventar umas histórias, é que ela nunca teve paciência para trabalhos de casa, ora são oito horas fora de casa, e ainda mais duas horas de trabalho em casa? E depois, como poderia ela questionar os dados adquiridos do mundo? Não sobraria tempo. Foi aquela pergunta, simples, que alterou tudo, que soltou o vulcão que esteve a aboburar em lume brando oito anos. Desde então, perdeu o jeito para pintar, foi-se-lhe a perspectiva, ou isso, ou vive num mundo com estranhíssimos pontos de fuga, e estranhas proporções. E há quem diga que a blogoesfera foi feita apenas para ela, para ela poder brilhar (e sempre que olha para o statcounter, e espia no technorati os bloggers de referência que a linkam sente que a sua passagem por este planeta já não foi em vão. De certa forma, cumpriu um micro-objectivo de vida e fê-lo à custa do seu trabalho, do seu talento. Isto é mesmo muito importante para ela, ser realmente boa em alguma coisa).

Isto marcou-me muito, ainda não o ultrapassei totalmente – da primeira vez que olhei para a lâmpada do candeeiro de mesa-de-cabeceira do meu tio Zé, e depois vi muitos feixes de luz a serpentearem-se na escuridão dos olhos fechados, também me assustei, tanto quanto desta vez em que parei de pensar, e pensei que cegara, chamei por socorro e a minha avó deu-me uma palmada no rabo e disse-me para não voltar a olhar directamente para as lâmpadas que ainda ficava cega, e eu assim fiz, e nunca mais me assustei.
A expressão corriqueira para descrever o que se passou naquele dia seria “parou-me o cérebro”. Estava muito ruído. Nessa altura, éramos muitos à mesa, e o Hugo não queria comer a sopa e eu recusava-me a abrir a escotilha e deglutir açorda de pão com peixe cozido.

A minha mãe berrava qualquer coisa da cozinha que se eu não comesse, qualquer coisa e tal que deixaria de fazer. A minha avó, no meio de mim e do Hugo, convencia-nos, sob uma qualquer chantagem ou prémio, a comer tudo sem refilar. E eu fixei o olhar na janela, os vidros estavam a precisar de uma limpeza, quinto andar sobre o bairro de Alvalade, uma bela vista, garanto-lhe, o estádio lá mais à frente, o projector de milhares de watts a rasgar o céu, a minha avó com um garfo numa mão e uma colher na outra, e por poucos segundos, um agradável silêncio, tudo parou, até passar um avião que me tirou daquele transe.

Professor, juro-lhe, eu não pensei em nada naqueles segundos. E foi uma paz indescritível. Pena não haver um botão. Por exemplo, agora mesmo, estou de olhos fechados, em concentração absoluta, com imensa vontade de não conseguir pensar. Mas no máximo estou a pensar que não estou a pensar.
Eu acho que são as vozes da consciência. Eu oiço muitas vozes, acompanham-me, são simpáticas, não se preocupe, que não me dizem para cortar ninguém aos pedacinhos com uma faca daquelas que se vende pelo TV Shop. Eu sei que elas não são reais, não sofro de nenhum distúrbio psiquiátrico, sou, verdadeiramente, inofensiva, para mim própria e para os outros. Elas são o meu pensamento. Não é linear. Dá curvas e contra-curvas, daquelas de gancho, em que se reduzem duas velocidades, porque só se vai conseguir vencer aquela sinuosidade em altas rotações.

Eu penso quando algo ou alguém me estimula. E aí tenho rendimentos notáveis, posso ser a melhor desta escola toda. E quando assim é, nem lhe conto, é uma barulheira infernal na minha cabeça, quando estou em velocidade cruzeiro todas elas falam umas por cima das outras e eu só consigo apanhar duas, no máximo três, perco todo o resto do meu pensamento, imagino que seja como ler pautas de música, ler o meu pensamento, colcheias numa pauta, e breves noutra, orientadas por uma clave. As duas, ao mesmo tempo, dão um lindo som, perfeito. Se só apanho uma, sai-me coxo o pensamento. Acontece-me muitas vezes.
Raramente deixo de pensar, de uma forma tão sentida como naquele almoço em que não comi a açorda, e provoquei um ataque de histeria à minha mãe, na cozinha, e arranquei suspiros à minha avó que já estava a ser devorada por um cancro.
Certamente, a vida seria melhor com menos ruído. Sorte aquela dos que não pensam.

(lamento, não consigo acabar o professor de Filosofia ao post 700. E este, afinal, é o quinto e não o sexto capítulo da saga do professor)

quarta-feira, setembro 13, 2006

E outra declaração, ao post 699 (ao 700 mato o prof de filosofia)

Estou triste.
A história do beta blogger saiu-me cara e eles bem avisam que uma vez beta blogger, para sempre beta blogger, não dá para voltar atrás, ah pois não, e a menina devia saber que quando diz Beta é sempre arriscado (não sei se as betas são arriscadas; eu dessas coisas, só sei do testemunho de um blogger de referência que me diz que as suburbanas é que são a sua kryptonite).
A moral da história é que tenho que me deixar de geekices (eu prefiro escrever guiquisses). Continuo a aderir a todas as novidades idiotas que aparecem, aos gadgets que não sei para que servem, às extensões mais doidas do Firefox que depois nunca uso, apenas para impressionar alguém que já não é impressionável e que às vezes sonho que lê este blogue às escondidas (ler o blogue dessa pessoa é como comer chocolates às escondidas).
Por causa do Beta, o pessoal deixou de poder comentar esta horta e eu também estou impedida de escarrar uns bitaites nas caixas de comentários por causa da ousadia que cometi sem ler as letrinhas pequenas. Sim, estou triste. Portanto, senhores da Google, arranjem lá esta merda depressa, senão eu amuo e deixo de contribuir para este magnífico ecossistema de flores raras que é a blogoesfera.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Declaração (quase a chegar ao post 700 e sem vergonha nenhuma na cara de ser uma adolescente parva e de este ser um querido diário)

Todas as palavras que eu gasto por dia deviam servir apenas um propósito, seriam sagradas, assim, e não discursos vãos, monólogos a dois, se é que tal coisa pode existir e eu não me estou a lembrar, neste momento, da palavra certa, é que eu gasto palavras em conversas de surdos, de loucos, de humoristas negros como a noite, de pintores surrealistas que absuam do laranja, as minhas palavras não deviam transformar-se em notícias que já passaram de prazo quando as dedilho com todo o amor que dou a todas as coisas deste mundo, ou que expiram duas ou três horas depois de serem traduzidas em zeros e uns, num qualquer computador obsoleto onde entro em transe.
Todas palavras que arranco aos dedos, que alguém me sussurra ao ouvido e que eu me limito a reproduzir, deviam servir-te e servir apenas para dizer que te amo.
Nada mais importa.

A lei das compensações não existe, querida Lady e Carrie. Aconteceu mais uma coisa má, mesmo muito má. Mas o impossível também aconteceu e a roseira de santa Teresinha que eu comprei em honra ao homem que me impede de cortar os pulsos com tanta merda, merda da pior que há, daquela que é inenarrável, da que eu me recuso a escrever porque isso seria consentir que ela existe mesmo, que não é só um filme de muito mau gosto, uma partida tonta que alguém me quis pregar, a roseira floriu, sem explicação possível, dez meses antes do previsto.
Foda-se, e há formigas a saírem do teclado do iMac. E os canos da cozinha rebentaram.

domingo, setembro 10, 2006

Enquanto a sopa não levanta fervura

Algo está para acontecer, coisa diferente, talvez, quem sabe, algo que me arranque a pouca força dos joelhos e me mande ao chão, com a delicadeza de uma rajada de vento ciclónico. Se calhar, coisa boa, será? Algo tão forte que me atinja como um raio em noite de tempestade. Coisa má, é possível? E, sim, vem chuva, os joelhos e os ouvidos meteorológicos desta que vos escreve, emitiram o alerta laranja há mais de uma semana.
Vai acontecer algo em mim e eu gostava que me levassem a sério.


A maldição do bacalhau com espinafres acabou.

E dentro da ruína em que me encontro sorri. Porque voltei a saber cozinhar bacalhau com espinafres. E isto foi depois de uma conversa ao telefone que me fez ganhar dois fios muito prateados na imensa cabeleira castanha escura. Eu acabei a chamada, suspirei, e disse ao João, Isto tira-me anos de vida, Eu não sou esta, Acabaram de me nascer dois cabelos brancos, senti-o, quando poisei o telefone, acreditas que me acabaram de crescer dois cabelos brancos?
Eu preciso que me levem a sério. Isto não são hipérboles. Há cães que cheiram doenças, ao que sei, ao que li algures na imprensa de sábado, há até moluscos que detectam cancro, e uns peixes de aquário, os Plecostomus, que comem a psoríase da pele de crianças. Eu sinto sempre que envelheço mais um bocadinho.

Na casa-de-banho de serviço da casa do Outeiro, cabelos molhados de água com doses pouco recomendáveis de cloro, no espelho que está lá desde sempre, como as chávenas de café que estão lá desde sempre, e as cortinas com armas e brasões e armaduras a divivirem as salas, que, adivinhem, estão lá desde sempre, dois cabelinhos minúsculos, recém-nascidos, brancos como a porcelana do lavatório que não está lá desde sempre, mas há, certamente, tantos anos quantos os que constam no meu bilhete de identidade, caducado desde Maio.
E depois disto, um mergulho na piscina, e já cá em casa, a roupa arrumada por ordem cromática, no closet, e as cordas do estendal divididas, coisa de obsessão profunda, uma para o João, onde só entram as tee-shirts e calças do João, uma para a Carolina, onde só entram roupas em miniatura, outra para mim mesma, a terceira, depois da deles, onde entra pouca coisa porque esta máquina só tinha dois vestidos meus, e outra para as cuecas.

E eu sei que algo está para acontecer.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Milagres e afins

E porque o assobio não pára, eu não tenho outra escolha se não olhar para o lado feliz da vida, isto antes de ir tomar um comprimido para a dor de cabeça e de o João acabar de fazer a mézinha que me vai pôr a dormir, que finalmente me vai deitar a baixo como um dardo tranquilizador, em dose para rinoceronte, e no meio de um desespero ensurdecedor - eu oiço vozes, sabiam? Eu estou sempre a ouvir vozes, é isso que conta a saga do professor de Filosofia se algum dia lá chegar -, e reparo que houve um milagre hoje: o Ricardo, no meio do sudeste asiático, o Ricardo que nunca tem onde cair morto, e o Pedro, o tio Pedro, o Pedro que sentiu o pontapé mais assustador da Carolina, estava ela no oitavo mês na barriga da mãe, ambos se disponibilizaram para pagar a mensalidade do colégio da pequenita. E o João, o João não me deixa ir trabalhar no fim-de-semana para o El Corte Inglés. Diz que tudo se resolve.
Mais do que o grande prémio do Casino de Lisboa, mais do que uma eventual comoção do João de Valsassina Heitor ao ler a minha "anulação de matrícula, por motivo de desemprego de um dos progenitores", mais do que a funcionária da secretaria a desejar-me força neste momento, bom, isto vale muito mais do que isso.
Olho para o céu à espera que me caia um milagre na testa, remexo a terra das floreiras da janela à procura de notas de 500 euros e nem reparo que já bateu à porta uma coisa muito mais aterradora - estes amigos nunca me vão faltar.
E quanto ao outro, o que se espera de um homem que não pagou o enxoval da filha? Segue-se em frente, e nunca mais se espera nada de homens sem sangue quente a correrem-lhe nas veias.
(Agradeço à insónia pela clarividência. E vou-me deitar)

quarta-feira, setembro 06, 2006

Novidades, chefe

Olá chefe,

Não fomos ao casino, mas comprámos uns frasquitos de vidro, hereméticos, na catedral sueca da decoração do lar. As putas das formigas não mais nos vão comer os cereais do pequeno-almoço. O Cerejo diz para eu as gasear com a dispensa cheia de mantimentos com BioKill, mas eu acho que o Cerejo não regula bem e já era tempo de ele saber que eu me chamo Diana e não coisinha.

Começo pelas boas notícias, hoje, só para variar, porque o meu dia foi um pouco monty pithonesco e na minha cabeça só toca, em assobio, o Always look at the bright side of life.

A Carolina está óptima de saúde, alta e robusta para os dois anos e nove meses que vai fazer daqui a dois dias, garantiu o pediatra que há vinte anos atrás domava as minhas anginas, insistindo com a minha mãe que mantivesse a integridade das minhas amígdalas, porque elas estavam lá para alguma coisa. E eu ficava feliz, chefe, porque ele dava carta verde, apesar do meu excesso de peso manifestado na primeira infância, para comer todos os gelados que me apetecesse.
A loira está a entrar numa idade perfeita, 33 meses, os pediatras gostam sempre de contabilizar a idade em meses e eu teria que puxar da calculadora do meu telemóvel baixo de gama para saber quantos meses tenho, mas isso é informação puramente inútil, lamento se não faço sentido, se já estás efectivamente assustado com estes meus emails, mas estou cansada, e sim, confirma-se, não gosto de viver, não gosto de viver porque há 42 meses a minha vida cruzou-se com a de um verme, de uma espécie de parasita com calvice, e, agora sim, vou puxar da calculadora e contabilizar quantos mais meses vou ter que o trazer colado a mim como uma sanguessuga, uh oh, bela merda, chefe, no cenário mais optimista, considerando que a Carolina lhe vai dizer tchauzinho e passou bem aos 15 anos, ainda me faltam 180 meses, chefe, 180, vê lá tu, tanto tempo, e eu em 42 meses já vivi mais do que muita alminha que anda por aí a dizer mal da sua vidinha, e às vezes, esborracho formigas e penso na cara dele, se tivesse ratos, decerto ia ser uma matança desgraçada ao som daquela pecinha de Mozart que eu gosto, Apolo e Jacinto, eu sou uma pior pessoa porque ele respira, chefe.

Ah, as más notícias. Anulei a matrícula da Carolina no Valsassina. Não me apareceram 2300 euros do céu, chefe. Também não tentei o casino, é certo. A sorte não bate duas vezes á mesma porta. Encontrei o senhor 50.000 à 50.000ª visita, e o dinheiro não cai no blogue, nem se lhe cheira o rasto através do Statcounter.
A dois dias do começo das aulas, chefe, anulei a matrícula, escrevi uma carta de fazer chorar as pedras da calçada ao Frederico Valsassina. A sanguessuga não paga. Parece que está desempregado, mas curiosamente, foi de férias, e anda com um carro melhor que o meu. Eu ainda o fiz passar por boa pessoa, chefe, na carta que enviei ao Frederico Valsassina, não acredito que escrevi uma carta ao Frederico Valsassina em que ele parece um pai extremoso. Nem imaginas o que eu já chorei hoje, chefe. Não imaginas o que dói só existirem direitos e os deveres serem sempre para cima de mim. Os bibes da Carolina estão prontos. Nome, Carolina Ralha, porque ela vai ser sempre Ralha, mesmo que eu perca o processo no Constitucional, bordado a linha azul escura.
A mochila das princesas está no chão, aqui na assoalhada ao lado, e já não vai para a Quinta de Santa Teresinha na próxima segunda-feira. E, de certa forma, chefe, tu também tens um bocadinho de culpa nisto tudo. Porque é que eu sou a gaja mais mal paga de todo o piso 1, chefe? Sabes que há quem diga que eu sou a melhor escritora? Acho que vou pôr baixa, chefe. Ganho mais dinheiro quando estou de baixa e só me apetece chorar, chefe.
Dia

terça-feira, setembro 05, 2006

Carta para o chefe

Querido chefe,

Cada qual com o seu dramalhão.
Cá em casa não há ratos, mas há formigas por todo o lado e eu já quase paralisei de medo nas escadas, com a Carolina a dormir no meu ombro direito, e uma barata alada quietinha no degrau da escada onde moram os carunchos.
Cada um tem a praga que merece. (Eu nunca gostei de formigas, é um facto; indecente aquilo que fizeram à cigarra. Mas eu dantes não matava formigas. Eu não matava nada antes. Agora, extermino as pobres obreiras com bio kill e acende-se um brilho esquisito nos meus olhos, ou esborracho-as entre os dedos, ou brincamos aos tsunamis na banheira, sanita e lavatório - parece-me que é na casa-de-banho que elas se aquartelaram.)

Mas este mail não tem a ver com as pragas do Egipto (espero, porém, que já não haja roedores em tua casa). Ou talvez tenha, de certa forma. Dizia eu: cada qual com o seu dramalhão e cada um tem mesmo a praga que merece. Eu estou habituada a dramalhões.

(...)

Algum dia viste o filme Run, Lola, Run? A menina de cabelos vermelho fogo, interpretada pela Franka Potente, tem oito horas para arranjar um milhão de marcos e safar o namorado tonto, Manni, de uma morte dolorosa perpretada pela máfia russa (ou berlinense, tanto faz).
Eu estou na mesma onda que a Lola. Só que não tenho joelhos bons para correr. Talvez pinte o cabelo de vermelho, quem sabe. (...) Tenho um aviso de pagamento do Valsassina, de 4600 euros, na minha mesa de cabeceira que não me deixa dormir desde quinta-feira. Tenho toneladas de férias atrasadas, espero que não haja problema em tirar estes três dias, onde terá que se dar o milagre da multiplicação dos euros.

PS- Após três tentativas falhadas e sempre ao som de techno alemão, a Lola consegue o dinheiro que precisa, no casino. Esta noite, acho, vou até ao Parque das Nações, largar cinco ou dez euros nas slot's. Eu ainda acredito em milagres. Talvez, quem sabe, esta noite nasçam dentes do siso ao indivíduo e ele deposite a metade que lhe corresponde na minha conta do Montepio Geral.

Um beijo para ti, chefão, já tenho saudades.
Dia

segunda-feira, setembro 04, 2006

Draft

Agora, já não tenho medo de o escrever, sabendo, decerto, que a caixa de comentários se vai encher de leitores preocupados, solidários e voluntariosos, capazes de largarem tudo o que estão a fazer neste momento, para, das duas uma: pegarem no telemóvel e saberem qual é o dramalhão desta vez, ou, escreverem alguma coisa simpática, como, descansa, não vinques mais a ruga a meio das sobrancelhas, tudo se vai resolver. [Eu só escrevo isto, desta vez, porque li um comentário febril da Lyra, no Trafuncas, a contar que o seu post "Sou profundamente só" foi o que mais comentários teve na sua existência bloguística, apesar de ninguém er percebido de que solidão falava ela]
E tendo a certeza que sim, que tudo tem conserto na vida, que este assunto, este indivíduo (quando eu lhe chamo indivíduo é porque a coisa está má) já me roubou mais vida do que aquela que ele merecia algum dia viver, digam o que disserem, e venham todos os milagres que me fazem, por vezes, crer que não, neste momento, como em tantos outros em que este post ficou em draft, porque eu não gosto ou quero que sintam pena de mim, porque eu luto contra a minha biploaridade com uma força que não sei onde vou buscar, eu não sei se gosto de viver.

quinta-feira, agosto 31, 2006

O Professor de Filosofia IV (a gaja agora só está a encher chouriços)

E, da mesma forma que, em 28 anos, se acumularam, empilhados no baú das tralhas imprestáveis e esquecidas, pronomes, substantivos, verbos e adjectivos que nunca se ouviram da boca ou dos dedos para fora, também é bem provável que, alguns de nós, por falta de tempo e, sobretudo, de transcendência, nunca tenhamos elaborado e, muito menos respondido, à pergunta com que o professor de Filosofia presenteou, de surpresa, uma turma de três dezenas de garotos com hormonas fervilhantes e peles oleosas – a sua maioria, vindos da Ameixoeira no autocarro 17, que já não estou certa que exista e que, se existir, ainda tenha este número – na aula de apresentação.
A aula de apresentação, aquela em que as caras são todas novas, em que não se pregou olho na véspera, em que, de manhã, pela enésima vez, se verifica se, no estojo de lata com bonequinhos japoneses, estão 15 canetas de cores e cheiros diferentes, em que os dossiers e os separadores cheiram a papel acabado de sair da Portucel, apresentando ainda um leve aroma de eucalipto, para os narizes mais treinados; as aulas em que, dificilmente, há já nomes decorados, a não ser os que são estupidamente invulgares, como Élvio (o word desconhece-o, sublinha a encarnado, mas a mãe gostava muito das baladas românticas do Elvis e o auxiliar da conservatória, o mesmo que impediu há pouco tempo a D. Nereida de passar o mesmo nome invulgar à filha recém-nascida, fechou os olhos, e bichanou entre os dentes, porque nunca soube assobiar, apenas bichanar, o Love me Tender quando guardava nos arquivos o assento de nascimento da pequena criaturinha que nasceu com seis dedos em cada mão e pé), Íris, ou Cidalina (ora aqui está outro que o Word assinala como gralha, deixa ver o da minha vizinha do lado: Anália, pois, para o programa da Microsoft, também não existe), em que se anda em pequenos grupos, aos apalpões, pelos corredores escuros, à procura das salas que nunca estão numeradas logicamente, ou, simplesmente, aqueles cinquenta e cinco minutos em que se preenchiam as fichas de aluno de cartolina, não tão rapidamente quanto seria desejável, e havia sempre quem se enganava, e isto se, calhar, era só a aluna aplicada e com dotes burocráticos – garantiam os testes psicotécnicos realizados com a psicóloga no ano transacto –, a implicar com os seus coleguinhas que sofriam de analfabetismo funcional.
Aulas de apresentação, ou seja, intervalos de 40 minutos passados no recreio de cimento, onde se fumavam, descaradamente, à frente das contínuas velhas de bata rosa velho para não destoar, os primeiros cigarros, roubados no dia anterior da carteira do mãe ou do bolso do pai só para dar estilo junto dos novos colegas. Mas, na aula de apresentação do professor de Filosofia, a missão para grande parte dos alunos era outra. Os pulmões não seriam enegrecidos, mas sim, desafiados numa tentativa de bater a velocidade da luz: ir num pé às Galinheiras encher o bandulho, e voltar no outro, até às traseiras da avenida de Roma, isto tudo em pé-coxinho, se se ia num pé e se voltava no outro, o que dificultava ainda mais a façanha.

As palavras, sorte a delas, não têm dilemas metafísicos – quem são, para onde vão, qual é o sentido da vida –, tudo isto lhes passa ao lado, não se deitam no divã do linguista com depressões profundas. Vivem a sua vidinha, simples, despojada, sem grandes pretensões a terem um cargo relevante no dicionário, não vão ao hospital, apesar de algumas serem autênticas múmias, gastas e velhinhas, e de haver palavras moribundas, que já ninguém usa.
Como “persiganga” (o Word franze o sobrolho, desconhece, na sua ignorância informática, o termo). O Google, verifico, só a refere 1720 vezes. Está em vias de extinção, confirma-se: o prognóstico é reservado.
Diz o senhor meu noivo, revisor tipográfico de alto gabarito e que fica de olhos em bico com os meus parágrafos intermináveis, que a última personalidade a utiliza-la frequentemente foi o Rodrigues Sampaio (1450 ocorrências no Google, está pior que a persiganga, pelo que é motivo de preocupação; se pesquisarmos, por exemplo, entre aspas, a expressão sexo com animais, temos 131 mil páginas disponíveis).
Persiganga não vem nos dicionários que tenho disponíveis no pasquim e que ninguém se dá ao trabalho de consultar, confiando no Word (gente naïf, não sabem quão matreiro pode ser o programinha, sobretudo se, como é o caso desta escriba que vos aborrece com divagações inúteis sobre palavras, estiver activado o “auto correct”). Persiganga morre com esta geração, provavelmente com a minha, mas, ainda assim, farei tudo para a passar à minha filha, mas não sei se com sucesso. “Carolina, se não fazes xixi no bacio vais parar à persiganga…” Vou começar hoje.
Há palavras de elite, as palavras não são democráticas, há algumas cujo acesso universal está vedado, e eu não entendo muito bem porquê, ou quem é que decide e define a lista nacional de vocábulos apropriados para a grande maralha e a outra, mais pequena, de palavras que pretendem exclusivamente a uma espécie de sociedade secreta.

Não me confundam, por favor. O meu vocabulário é limitado e eu não pago as quotas dessa associação de palavras difíceis, apesar de ter recebido convites de vários membros – só assim é que se entra, garantem-me. Quem me tira uma boa caralhada tira-me tudo, e nesse clube, calão não entra, é pecado.
Se, por um lado, ensinei ao meu irmão Leonardo, já andava ele a meio da faculdade, do alto dos meus púberes 16 anos, a palavra catarse (foi a única coisa que lhe ensinei na vida, isto vai comigo para a pira de cremação), já foi com a boca aberta e com um encolher de ombros, sinónimo de ignorância em estado mais puro, que ouvi dizer que, em tempos, se escreveu aqui no pasquim onde me vendo a 4,54 euros a hora, “catarse crística”, a propósito de não sei o quê, nas páginas da secção cultural. Paz à sua alma, do autor de tamanho palavrão, que fazia parte do gang das palavras que só se servem à mesa com toalhas de linho, talheres de prata, ou se escrevem a tinta permanente, em papel de 180 gramas por metro quadrado, idêntico a este onde escrevinho, um esboço de post, deitada na cama, de barriga para baixo, e com a mão direita a latejar da dor dos tendões inflamados. É que estas palavras raras não andam de avental no dia-a-dia, mas têm os seus rituais.
Sei perfeitamente as minhas limitações, dizia lá atrás, e até por as conhecer bem demais é que não consigo andar para a frente. Sorrio quando pedem: escreve um livro. Não tenho capacidades para tal, lamento.
O senhor revisor, esse sim, tem as quotas pagas a tempo e horas. E, por estar a seu lado, sem dar por isso, passei a guardiã da “persiganga”. E nisto, a casa está desarrumada, suja mesmo, com tabaco de enrolar espalhado por todo o lado (tinhas razão, João Pedro, os homens só são arrumadinhos e lavam a loiça nos três primeiros meses) e a estante está subitamente mais gorda, empilham-se dicionários de todas as marcas, línguas e formatos. E abrir uma página ao calhas de um dos três volumes do Houaiss, é confirmar a minha pobreza lexical. Escrever um livro… As coisas que vos passam pela cabeça…
Quando era pequenita, anos antes de me cruzar com o professor de Filosofia, não era fã dos cinco, nem dos sete, muito menos das aventuras da Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães. Pousado, na mesinha de cabeceira, estava o dicionário de Português da Porto Editora. Devorava-o e era fascinante aprender novas palavras todas as noites, ao deitar. Pena ter perdido esse hábito nocturno autista para a feitura de diários que hoje não me atrevo a abrir.

Há palavras que não se usam. Outras que ainda não nos foram apresentadas, ou que nunca serão, tão longe que estão.
Os silêncios, diz a minha amiga Lyra, são a verdade mais cruel, porque contêm todas as palavras. A amiga Esquizo, que nem com terapia vitalícia ficaria curada da insegurança absurda de que sofre, está sempre a citar um escritor qualquer que eu nunca li (mais uma limitação minha, não ler em doses diárias recomendadas pela OMS), que me diz que há palavras que parecem beijos na boca. O primeiro post do Luís Gouveia Monteiro que li, e que não esqueço, dizia que quando se diz uma coisa matam-se todas as outras, que os silêncios eram os melhores amigos dos amantes.
Em tempos, enterrado nas coisas do arco da velha, escrevi neste blogue, um post para um indivíduo que vocês conhecem bem demais, que muitos zeros e uns fez correr neste blogue, e que devia lavar a boca com lixívia quando se refere ao meu amor por "parolo, que “a custo, num processo quase tão doloroso quanto prazeiroso, vou continuar a arranjar frases. Vou arranjar uma frase que te martele um mês inteiro na cabeça – quando abrires os olhos, de manhã, e quando os fechares, à noite, quando passeares pelas ruas da cidade e pelas ruelas da tua casa; uma frase que se cole à tua pele – e não vale a pena esfregares no duche com água quente, vai ficar grudada. Vou arranjar-te uma frase, ou três, porque só gosto de ímpares, daquelas que te prendem a mim para sempre, e um dia, com esforço, se me fizeres mal, arranjo-te uma frase que te amachuque, daquelas que ferem toda a gente.”

Passa-se o mesmo com as perguntas. As perguntas não são mais que palavras amontoadas (e as palavras não são ingénuas, não pensem nisso, comandam-nos, não somos nós que lhes damos ordens, não haja ilusões, as palavras são como os gatos que nos escolheram como donos e não nós como animais de companhia, e para demonstrar esta teoria, quantas vezes dizemos, não sei como disse aquilo, saiu-me da boca para fora…)

O Professor de Filosofia recolheu, uma a uma, as fichas de alunos já preenchidas, percorrendo como numa marcha militar, as cinco filas de carteiras

Estragou o almoço dos alunos da Ameixoeira. Escrevam numa folha e entreguem-me a resposta a: O que é pensar?


[9157 caracteres, porque as palavras são mesmo assim, como as cerejas]

terça-feira, agosto 29, 2006

E, agora, para algo completamente inovador

Ciclópico
Biltre

Duas palavras que eu nunca tinha escrito na vida.
Já está e, de facto, há sempre uma primeira vez para tudo.
Certamente, lembrarei, para todo sempre, se continuar com esta capacidade incrível de guardar insignificâncias no lado esquerdo do meu cérebro, que as escrevi recorrendo apenas aos deditos da mão esquerda, já que a direita, hoje, decidiu fazer greve de tendinite.

sexta-feira, agosto 25, 2006

O professor de Filosofia III (a saga que não acaba nunca)

Chamemos-lhe, então, Carlos Pedro (porque eu não consigo continuar a chamar-lhe o professor de filosofia… ou consigo?), com a certeza, porém, que essa não era e não será, certamente, hoje em dia, a sua graça, a menos que o professor de filosofia tenha cometido um crime grave nestes 14 anos em que perdemos o contacto, ou que alguém o tenha cometido por ele sem pedir licença de apropriação da sua identidade.
E, talvez por isso, porque já não era um jovem e inofensivo pedagogo que se recusava ver televisão (sendo este o seu acto de maior rebeldia da sua vida), mas sim, um psicopata de várias faces, vários rostos e vários nomes, ou porque, se calhar, tal como eu, o professor de filosofia veio ao mundo com um tê na testa marcado a tinta invisível e, a certa altura, estava tão farto de receber na caixa do correio notificações da Divisão de Investigação Criminal e da PJ para prestar declarações nos casos mais estapafúrdios dos quais não tinha qualquer intervenção, responsabilidade ou contributo a dar às investigações, simplesmente, porque não tinha estado lá, ou então, podemos ainda ir mais longe, e, seguindo este raciocínio, conjecturar que o que motivou o professor de filosofia a mudar o seu nome foi o facto de já não existiam paredes suficientes, na sua casa que antes era orgulhosamente estéril e desprovida das coisas terrenas, para pendurar nem mais um termo de identidade e residência indevido, por processos que nunca lhe chegavam a manchar o cadastro, porque eram sempre arquivados pelo Ministério Público por falta de provas – e os magistrados já suspiravam sempre que o chamavam, e pediam desculpas em adiantado pela maçada e perda de tempo.
Talvez por isto, e isto é só uma hipótese, tão estapafúrdia como os crimes estranhíssimos que perfeitos estranhos podem ter imputado ao professor de filosofia, este pobre homem, objector de consciência (nem à inspecção militar foi), tenha dado corda aos sapatos e aventurado a uma visita a um bairro de má fama no centro da cidade, e tenha comprado um novo nome. Carlos Pedro, disse ele, a uns romenos que vendem BI’s fresquinhos e, até, os novos passaportes electrónicos, numas águas furtadas dos Anjos. Carlos Pedro para não ter mais chatices, e até os deixou escolher o sobrenome à sorte, num sorteio com papelinhos dentro de um saco de plástico com cheiro a erva de fazer rir.
Ou, talvez, nada disto se tenha passado e ele continue com o nome que a sua mãe escolheu e que o seu pai ditou à notária que só se dava ao trabalho de fazer uma caligrafia bonita aos seres que tinham acabado de nascer e que ainda não desconfiavam como seria dura a sua vida (quando averbava um casamento, ainda se esforçava, a caligrafia ainda era cuidada, apesar de só ter amarguras para contar acerca desse sacramento, nódoas negras que escondia sobre a roupa de estampados floridos – usava sempre roupas floridas, gostava de ser como as flores –, mas, nos divórcios, não trazia o mata-borrão e, então nos óbitos, era a sua letra mais corriqueira e desleixada que ficava impressa no certidão), talvez este naco de texto sirva apenas para fazer render a saga professor de filosofia que, ao que me está a parecer, não vai acabar por aqui, porque eu ainda nem cheguei nem aos subúrbios daquilo que quero contar, ou, vai-se lá saber, se calhar até acertei e ainda vou a tempo de ir preencher um euro milhões à papelaria da Fontes Pereira de Melo.
De uma coisa tenho a certeza: o professor de Filosofia tinha dois nomes próprios. E apresentou-se assim aos alunos do nono ano, quarta turma, da Escola Secundária Rainha D. Leonor. Carlos Pedro era um nome duro. E ele estava sempre em sentido, muito tenso (e tinha um belo rabo, desculpem-me os mais pudicos pelo acrescento). A aluna da franja encaracolada (todos nós temos coisas que nos envergonhamos; eu tive franja) começou a analisar o professor de filosofia naquele preciso instante. O tratamento pelos dois nomes próprios só poderia ser fruto de uma educação militar. Não podia ser o Carlos ou o Pedro simplesmente, estava sempre de alerta, como se tivesse feito um qualquer disparate e esperasse o grito: “Carlos Pedrooooooo!”.
Ela acertou. Foi educado nos Pupilos do Exército. Quando, um trio de anos mais tarde, o encontrou a cumprir serviço cívico na biblioteca da escola, por se ter recusado a ir à tropa, ela aflorou, ingenuamente a questão: “Mas, se passou a vida nos pupilos… Porque aceitou este castigo, de ser despromovido de professor a bibliotecário, professor?”. E ele encolheu os ombros e foi à procura do livro que ela precisava para o trabalho de História.


(só um aparte: hoje, antes de entrar no grande edifício da bófia, no Porto de Lisboa, ergui os olhos para o céu de nortada, e disse, em voz alta, já basta de surrealismos, já basta, mas afinal não bastava, e ao que parece, segundo a queixosa, eu sou um homem, e ameaço pessoas na A8 que me fazem sinais de luz à traseira do Idea com armas de calibre desconhecido)

Continua. Só ninguém sabe é quando acaba.

segunda-feira, agosto 21, 2006

Diálogo de quase despedida, a dois dias de acabar três meses de fisioterapia intensa por cima das rótulas dos joelhos

Então, Diana, sente-se melhor dos joelhos?
Nem por isso, Irma, mas isto foi muito agradável, gosto sobretudo da corrente eléctrica sobre as rótulas, bem, e já vou no segundo Saramago... E isso é obra. Coisa que eu demorei cinco anos a fazer. Obrigada e até para o ano, quando eu aparecer aí à porta com o primeiro joelho costurado a linha de seda (e aí, vou ler que autor?)

domingo, agosto 20, 2006

Fui a um casamento hoje,


de uma menina ruiva, com cara de boneca de porcelana fina.
À porta da sua casa repousava um ás de copas.
Como não choveu, porque São Pedro não queria o guichet cheio de reclamações em pleno Agosto - os querubins também preferem este mês para descansar e o expediente acumula-se em pilhas e pilhas de nuvens até Setembro -, enviou esta carta dos céus, de madrugada, logo quando o sol nasceu, para abençoar a boda.
Haverá melhor augúrio?

Todos os dias, saio de casa e faço por olhar com olhos de ver.
É a chave da felicidade.

A quem possa interessar, ontem, encontrei, na esplanada do Luanda, a senhora professora Gertrudes Maria, que não via há 22 anos. Lembrou-se de mim: era aquela que desenhava muito bem. Estive para lhe dizer que agora sou aquela que escreve muito bem, que se enganou no meu talento, mas, de facto, ela não teve tempo para o avaliar. Apenas me ensinou os nomes das letras e dos números e a desenhar xis que mais ninguém desenha. Sorriu quando lhe disse que ainda hoje escrevo assim os xis. A professora da sala seis, a sala em frente à da senhora professora Gertrudes Maria, anuiu: Sim, ensinavas assim os xis. As coisas que ela se lembra. E nada de extraordinário acontece?

sexta-feira, agosto 18, 2006

Pax


Pax, com um ano e picos, menos de dois dias depois de ter ressuscitado da sua primeira torção gástrica com dilatação (coisa de milagre, o estômago já estava em gangrena), e há dois anos, com a Carolina, muito pequenita, com nove meses, na casa antiga.

Aniversário do Pax e daquele que foi o primeiro a saber que eu seria uma grande escritora

Foi por um triz.
Ai, Esqueci-me dos anos do Pax! As coisas que me surgem assim do nada depois do jantar, quando um dos últimos cigarros do dia me queima o lábio inferior que tem uma ferida, como um calo, que nunca sara (e às vezes, devo-o assustar, estou certa que, desta vez, o assustei, não pelos anos do Pax, mas pelo que veio a seguir…)
E tal foi a comoção da deslembrança (existe esta palavra? O word diz que não, mas eu não quero repetir a palavra esquecimento e a preguiça é muita para ir catar o dicionário de sinónimos a alguma secretária desarrumada de jornalista, e encontrar outra diferente que queira dizer o mesmo, e tenho que dizê-lo, é tão estúpido, que tenho que o dizer, é só mais uma linha, não deseperem: há três linhas atrás quando escrevi word, ó santinho, o nome do dito cujo, ele também o sublinhou a vermelho, sofre de amnésia, não sabe quem é, está desorientado, é natural, ando para aqui às voltas, não faz ideia, também, para onde vai – sossega, programa filho de Bill Gates, eu também não, anda meio mundo nessa incerteza…), que raio de dona sou eu, que raio de mãe sou eu, perguntava ainda ontem, também, por me ter esquecido de verificar se a minha filha dormia em paz, o coração bateu tão forte, apertado lá na caixa onde está. Que até inflacionei a idade do bicho em um ano, qualquer coisa como 365 dias.
O Pax é o cão, o grand danois manhoso que eu fui buscar a Ponte de Rol há cinco e não seis anos, no primeiro dia do mês de Agosto. Ele veio numa caixa de papelão, quatro quilos de cachorro que não se tinha ainda nas patas, uma doçura, coisa de anúncio de papel higiénico (não comeces, não comeces, isto é um esforço desumano para não desviar o assunto, mas porque é que os anúncios da indústria farmacêutica são tão maus? Agora, todos os dias, deito-me uma hora numa caminha da fisioterapia e, para além de Saramagos – sacana do comuna é bom -, leio, também, a imprensa de saúde e afiro que a publicidade dos grandes gigantes farmacêuticos deve ser feita pelas filhas dos directores que “tinham jeito para o desenho quando eram pequenitas”), era mais pequeno que o Rolf (e vocês não sabem quem é o Rolf, mas eu conto, é que ser mais pequeno que o Rolf é uma façanha: o Rolf é um podengo anão de pelo cerdoso, propriedade da senhora minha mãe, o primeiro cão que ousou pôr a pata em casa de gatos, na altura em que nasceu, era o exemplar nº 97 registado no Clube Português de Canicultura), uma semana depois já era maior, mas não interessa, quando se encontram, o Rolf ainda pode latir qualquer coisa como: eu lembro-me quando tu eras um caga tacos que não se tinha nos quartos traseiros, por isso, bolinha baixa, matulão, que eu tenho idade para ser teu pai.
A imagem que se guarda na memória, a primeira, depois guardam-se muitas outras e algumas não são boas – num outro dia, dei boleia ao Gustavo da Praia das Maçãs até às Olaias, e com o trânsito parado ao longo do IC 19 disse: a única vez que enlouqueci foi por causa dos cães –, é esta: bola de pelo preto e focinho empapado de Nestum, lá atrás, no banco do Twingo, e o Pedro não veio comigo, provavelmente, se tivesse trocado uma tarde de trabalho árduo no ministério da Saúde, pelo passeio de auto-estrada até Torres Novas, também não se teria apercebido que o indivíduo que vende candeeiros de latão e cães de raças gigantes, era um charlatão de primeira, que me vendeu gato por lebre, por assim dizer, esquecendo o aparte de estarmos a falar de canídeos e não de felinos, muito menos leporídeos (isto foi o senhor 50.000 que me ensinou; eu sou limitada em termos de vocabulário…). Temos um híbrido, uma mutação genética, exemplar único de uma nova raça ainda sem estalão, que dá pelo nome de grand labrador (eu explico: corpulência de grand danois e pelo de labrador).
O cão, que recebeu o nome de baptismo de uma ex-ministra da Saúde, que não fosse ter abandonado o cargo uns tempos depois, antes de a besta pesar 60 quilos distribuídos em 1,80 metros de altura, o teria pedido emprestado para meter medo aos sindicalistas da classe médica, ficou sentido, tive a certeza disso quando perguntei: que dia é hoje? 16. Ai, foda-se - sai-me sempre o calão nestas alturas -, e levantei-me num pulo do sofá laranja, que ainda não seja meia-noite, pedi ao Deus do Tempo, do Pax já não me posso redimir, ó tempo volta para trás, e tu, canitchone, perdoa a tua dona, mas olha, já nem vou ao talho do senhor Vieira, aliás, o que será feito do senhor dos olhos lacrimejantes, casado com uma mulher com traços suínos (que apropriado, um talhante casar com alguém que reúne características físicas semelhantes às das febras e costoletas que o seu facalhão corta como se fossem feitas de manteiga), e, por isso, já vês: não te podia ter levado uma tíbia de vaca de presente, com um lacinho de cetim. E nisto, a moldura do Pax com seis meses, de boca aberta a bocejar, como quem diz “WHAZZZUPPPPPP?????” caiu da prateleira, e, caraças, ele está mesmo zangado, tenho que arranjar, pelo menos um fémur de vaca para ele me perdoar, mas eram 23:13 e eu suspirei de alívio e pude dizer parabéns ao amigo de sempre, ao amigo para sempre.
Isto de ter um telemóvel baixo de gama, cuja performance mais espectacular é ter uma lanterna que alumia no escuro, é o que o salário dá para pagar, azarinho do caraças, faz com que estas lembranças à última da hora valham palladium (vocês também, decerto, não sabem o que é palladium e eu também não saberia se não tivesse sido jornalista de economia durante anos a mais, quase me toldou o cérebro o feito, mas depois, posso fazer estes brilharetes e outros do género, perfeitamente inúteis – estais rodeados de palladium, ficai sabendo: o processador do vosso computador deve levar um bocadinho pequeno deste metal precioso, e vós, companheiros da ortodontia, vós também tenhais palladium na boca, certamente).
Não tenho a mão da tecnologia a auxiliar-me a memória. Este amigo, que quer que eu abandone o domínio blogspot e migre para o domínio da sua empresa de telecomunicações (só se me pagarem muito bem é que mudo, lamento, a vida é mesmo assim, e já que ninguém, à excepção da esquizo, me quis comprar um conto por um conto, tenho que fazer render este peixinho), foi o primeiro a ler os meus posts, no tempo em que não havia blogs. Semanalmente, enviava-lhe o “mote da semana”. Tem-los guardados, assim como os cartões de Natal que lhe desenho todos os Dezembros, os únicos que desenho (também tenho jeito para a coisa, e o meu avô até foi bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, olha que gaita, porque é que não me pagam para fazer anúncios a comprimidos?), e os milhares de caracteres que escrevi, estão num ficheiro protegido com password, chamado Amelices. Deixem ver se me lembro ainda da password (só um momento)… Sim, lembro ainda, e nesta fase, há quatro anos atrás, as minhas palavras-passe não eram palavrões. Foram 65.000 caracteres muito bonitos que não vou reproduzir aqui, são dele, quando eu morrer, ele que os publique, se quiser, se eu for alguém na vida, que consiga vender um décimo dos exemplares da Margarida Rebelo Pinto. Ele que espere sentado, porém, porque eu não vou ser mais do que a jornalista maluca que escreve posts de sete mil caracteres sobre o professor de Filosofia, cujo nome foi roído pelos peixinhos de prata, sem contar, aos 15.000 caracteres de texto, porque raio este homem a marcou, e ele sempre acreditou que eu seria uma grande escritora, e eu sempre acreditei, também, que ele seria quem é hoje, mais que não fosse, devia, pela confiança que depositou nestes dedos, escrever qualquer coisa que tivesse princípio, meio e fim.

7.229 caracteres – BINGO!
(daqui a umas horas, finalmente, o último capítulo do professor de filosofia)

quinta-feira, agosto 17, 2006

Nada mais me apetece dizer

a não ser que,

tenho uma bandoleta na cabeça, com uma auréola de penugens de pato posicionada a meio do meu cocuruto, que me obrigou a fazer a seguinte ressalva ao vizinho do primeiro andar: eu tenho uma auréola de anjo na cabeça mas não estou maluca, é da minha filha (e não é, que coisa feia é mentir, que importa o que ele pensa, nem acredito que pus as culpas no anjo loiro que dormia ao colo do 50.000, e ela deve fazer de propósito, adormecer no carro, para não ter que subir a penantes a escadaria de Santa Marta),

os meus dentes estão azuis turquesa e prateados, tenho estrelinhas na mandíbula inferior, diz o senhor 50.000, que é como quem diz a uma criança que ainda tem pouca maldade, que ela tem um sorriso metálico, sim, novamente, vá lá que a senhora não teve o desplante de cobrar a sua burrice, e um ano e três meses depois de me ter libertado da ditadura do titânio, só espero voltar a emagrecer (para já, o jantar ficou no prato - a carne, também, estava dura como solas de sapatos da Inditex cosidos à mão por crianças de Felgueiras, a culpa nem foi do aparelho, ainda só sinto uma moinha irritante, um arrastar dos dentes teimosos do sítio onde sempre foram felizes, para o sítio onde eu quero que eles se mudem de armas e bagagens até que as cáries e as gengivites os separem) e que achem que eu sou uma miúda outra vez, ou, pelo menos, que tenho os 28 anos que efectivamente tenho (continuo a dizer que tenho 26, parei aí e não é por mal),

e o ortopedista da CUF, saído do casting do ER (é parecido com o Luka, mas o Luka é mais bonito, e hoje, particularmente, não sei se por me estar a explicar como me cortaria os músculos das pernas, não o achei tão encantador, estava assimétrico hoje, o senhor doutor, um olho mais acima que o outro, ele a apalpar-me os joelhos e eu concentrada na assimetria, sem retirar prazer nenhum naquilo, e a pensar, será tudo isto produto da minha imaginação, será que a recepcionista com cara de palito de fósforo também existe ou eu tenho mesmo que deixar as drogas, mas depois a rótula saiu de sítio e eu esqueci as divagações todas acerca da minha lucidez, da simetria e da estranha forma de cara da outra, e concentrei-me em entoar um sonoro camandro), lamentou profundamente, mas vai ter que fazer ponto de cruz nas minhas duas pernas – deixe-me casar com os joelhos intactos, pedi eu, e ele, que não usa aliança, sorriu e disse, O casamento faz milagres, quem sabe se não fica curada, e ainda me passou pela cabeça dizer um disparate a despropósito, mas sorri, ainda sem aparelho nos dentes.

quarta-feira, agosto 16, 2006

O professor de Filosofia II

Feitas as contas, coisa que sempre gostei de fazer, apesar de ter fugido da matemática como o Diabo foge da cruz (e isto também me dana, quase tanto como me ter esquecido do nome dele, ter-me juntado à carneirada que teima que a matemática é para os marrões), duas professoras na primária, uma média de dez professores até ao fim do ensino secundário, e uns quinze por ano no superior, isto dá, vamos lá ver, 142 prof’s, mais coisa menos coisa. Não é desculpa para me ter esquecido. É imperdoável, dou voltas à cabeça, e até já liguei à única pessoa que mantenho contacto desde essa altura, mas ela era do clube dos que não achavam piadinha nenhuma ao pedante (eles não saberiam, quer na altura, quer agora, o que quer dizer pedante, chamar-lhe-iam, no máximo “armado em esperto”) professor de filosofia.
Parece-me que foi com ele que eu me armei em fina, larguei para trás o horroroso “setôr” e adoptei o chamamento de “professor”. Estas coisas de como se deve chamar aos poços de conhecimento que verteram para mim parte do seu saber, abala a minha frágil existência há muito tempo.
Na primeira e segunda classe, a mulher de cabelos cinza-violeta que me guiou a mão num quadro macio e amanteigado de ardósia, e me ensinou a fazer uns “d’s” maiúsculos muito bonitos e uns “x” capitulares como mais ninguém faz, além de me ter passado alguma informação inútil e que colocaria os encarregados de educação vermelhos de cabelos em pé, acaso existissem comunas no Bairro de Alvalade – havia uma grande comunidade hindu, lá isso havia, e com as letras do abecedário e as contas de somar e diminuir, aprendi nomes como Vishnu, Minashri e Pritesh, e outros que apaguei dos registos da memória para arranjar espaço para outras coisas, num processo semelhante ao que faço com o telemóvel baixo de gama, todos os dias, para receber mais sms do meu amigo filósofo, aliás, voltando atrás e pedindo, antecipadamente desculpa pelo desvio sinuoso, brancos havia poucos e com que cor tivéssemos nascido, a verdade é que apresentávamos, sem excepção, um ar miserável e macilento (os mais miseráveis eram os gémeos falsos, Carla e Carlos, muito pequeninos e enfezadinhos), e basta-me vasculhar na poeira dos caixotes do passado e dar uma vista de olhos na tradicional foto de turma, recordação do ano lectivo 1984-85, ano em que a estrela de Floribella estava a nascer, leio ao mesmo tempo no 24 horas (façanha inacreditável, esta, de escrever posts com vida própria e dar uma espreitadela no diário de referência que me informa, com direito a chamada de primeira página, que Merche Romero mandou tirar o bidé da sua mansão e estou totalmente de acordo, porque o monte de porcelana não serve, de facto, para nada), para constatar que nós, branquelas que morávamos num subúrbio chique, éramos uma minoria, no fundo da Estados Unidos, onde agora há o prolongamento até Chelas, havia uma favela, mas lá comunas não devia haver, porque a senhora professora Gertrudes Maria ensinou-nos as linhas de comboios das antigas colónias e ninguém se queixou, nem foi para a televisão chamar a senhora de fascista –, e ela pôs, preto no branco, na primeira aula dentro da sala cinco da escola primária do Bairro das Estacas (o coitado do arquitecto Ruy Authouguia não descansa em paz, lá onde quer que esteja – desconheço se ainda é vivo, aliás -, pelo que a merda das marquises fizeram ao seu inovador bairro, construído respeitando todos os princípios da Carta de Atenas), aula essa em que se armou em bruxa e adivinhou que a minha cor favorita era o roxo (eu fiquei mesmo assustada quando ela me disse isso ao ouvido, tinha cabelo cor-de-bruxa e pintava os olhos com sombra verde-velha, era ligeiramente assustadora, apesar do sorriso enorme, só mais tarde, caramba, muito mais tarde, é que a Magui me explicou que eu pintava tudo a roxo, daí a aferição simples da pedagoga, e isto do roxo lembra-me outra professora, na faculdade, muito machona, que insistia que a cor da minha camisola era lilás e eu corrigia sempre, dizendo, é roxo, professora, é roxo), que assim que pusesse um pé na sala, devíamos levantávar o rabo da cadeira e dizer em uníssono, Bom dia, senhora professora Gertrudes Maria.
E isto nem teria tido importância, a formalidade no trato, se, no fim da segunda classe, as minhas adoradas avós não tivessem morrido em escadinha, seguindo-lhe os passos, o meu querido avô Oliveira, e a Magui não me tivesse, por força das circunstâncias, enfiado no Externato do Aeroporto. Entrei na aula, em silêncio, a professora apresentou-se como Ana Paula e eu disse: Prazer, senhora professora Ana Paula. E ribombou pelas paredes acima um coro de gargalhadas infantis, é que, ali, naquele colégio, os professores eram tratados pelo nome próprio, apesar da distância de um você aqui e além, e eu não sabia, ninguém teve a delicadeza de me avisar, e a minha estreia foi desastrosa (cedo incumbi a minha fértil imaginação de contar histórias horríveis às minhas novas amigas, de como no outro "colégio" - ai de mim que dissesse que vinha de uma escola pública, era linxada num instantinho -, se usavam meninas dos olhos e outras torturas pedagógicas, das quais, usar uniforme e chamar o professor por senhor professor eram migalhitas, e feito este esforço criativo, passei a ser respeitada por aquela maralha de putos queques, que, no final da quarta classe me chamavam "mão de ferro" - parece que eu tinha a mão forte na resposta aos apalpões do menino David Coito (este nome, foi-me impossível de esquecer, apesar de na altura não me dizer nada, foi o Zé Ralha que me explicou que queria dizer queca, e muitas vezes penso se ele não assinará, hoje em dia, com o mais afortunado, de certeza, apelido da mãe).
E isto também não teria tido uma importância por ali e além, se o Zé Ralha não tivesse voltado para casa e eu, desgraçada, mais uma vez, sem saber como chamar o indivíduo durante meses e meses a fio. Evita-se o chamamento e ponto final e, se o trato por você, a culpa é do Bernardo, não é da avenida de Roma, porque, na tarde em que nos conhecemos, tarde demais para dois irmãos se conhecerem, brincávamos por debaixo da mesa de vidro e eu perguntei: como é que tu lhe chamas? A quem? A ele, o nosso pai. Chamo-lhe Pai. Mas não o tratas por tu? Não, trato por pai.
E, depois, ainda veio o António, o professor de música que já teve direito a post autónomo neste blogue, que obrigava a sua enorme turma de destemidos nove alunos que haviam escolhido música como opção no nono ano, ao invés de optarem pela segurança da disciplina saúde ou economia, a tratarem-no por tu.
Esta baralhação toda deu cabo de mim, decidam-se lá como é que querem ser tratados, que maçada incrível, e o último amoque que me deu foi com o meu primeiro editor, Pedro Camacho, actual director da Visão, que eu apenas consegui tratar por tu quando se foi embora do pasquim. Foste como um pai para mim e eu trato o meu pai por você, por causa de uma pergunta feita debaixo de uma mesa de vidro, expliquei-lhe eu, numa das muitas vezes em que o chefinho suplicava para que eu o tratasse por tu.

(continua, há-de continuar, não tenham medo que isto vai acabar ao terceiro capítulo, acho eu, não posso prometer nada, mas não sei o que me deu para partir posts em fascículos da Planeta Agostini, se calhar, é um novo estilo literário, e o meu mais que tudo, que não comenta nada sobre este blogue, nem na caixa de acrílico que acolhe as vossas sugestões e apupos, nem lá em casa, na cozinha encarnada que agora tem uma escrivaninha também de madeira cor de sangue, estilhaçou-me há pouco o coração, ao sugerir que devo partir os meus intermináveis parágrafos, com infindáveis travessões e parêntesis, com uns enter's, para a malta não se perder. Sniff)

terça-feira, agosto 15, 2006

O professor de Filosofia I

A gente habitua-se a tudo, a fazer piquetes de polícia – olá, boa tarde, daqui fala a Diana Ralha, jornalista, há alguma desgraça na cidade, ou está tudo em paz, agora que a temperatura desceu, e com ela, talvez os níveis de ozono no ar, tenham voltado a níveis aceitáveis? Ahhh, coitado, acabou de chegar de férias e leva logo com uma jornalista curiosa arraçada de gato, pois, fui criada com eles, a páginas tantas, a Magui tinha mais de seis dezenas de bichanos lá em casa, passaram-me esta coisa da curiosidade, mas, olhe, aqui para nós que ninguém nos ouve, eu até largava mão da curiosidade, se eles me emprestassem umas vidas que tivessem para lá aos caídos, sem uso…Desculpe lá qualquer coisita, eu sei que somos todos uma cambata de chatos, não, não quero saber como apanhou isso com uma prostituta do Intendente, mas tenha a bondade de me auxiliar, como diz o outro ceguinho do metro, hmmm, veja lá isso, já sabe como é, vivemos de desgraças, se tiver uma boa notícia, olhe que eu também a publico… (Espera) O quê? Profanaram quatro túmulos no Cemitério dos Prazeres… (silêncio) Sim, há gente para tudo, realmente, mas, de facto, os mortos não precisam das jóias no caixão, não vão a lado nenhum, e a vida está difícil, lá isso está… –, a demorar mais de uma hora (quatro euros e cinquenta e quatro cêntimos pagos, hoje, a triplicar pela entidade patronal, porque é feriado pela ascensão da nossa senhora aos céus – aleluia para ela, e que não se coíba de repetir a façanha mais umas quantas vezes ao ano e de coincidir as datas com as minhas escalas de piquete, se não der muito trabalho) a confirmar uma linha de uma notícia sem interesse, que tem que ser escrita dê lá por onde der, por razões que são perfeitos dogmas inquestionáveis. O hábito faz o monge, e já quase nem custa fazer obituários a prédios demolidos por bulldozers no coração da cidade, reconstruída pelo saudoso Marquês de Pombal (quando é que ele me reencarna para acabar com as marquises galinheiro de Lisboa? E já agora, permitam-me reproduzir aqui, uma mensagem bonita que eu encontrei na necrologia do Correio da Manhã da semana passada, de um marido que não contratou as mensagens padronizadas da Servilusa: “Já lá vão seis meses e a saudade é cada vez maior. As lágrimas são quase diárias, como quase diárias são as visitas que te faço, levando-te as flores que tanto gostavas. Até quando Deus quiser. Bonito, extremamente bonito, e eu estive quase a ir à Igreja de Nossa Senhora do Carmo, no Alto do Lumiar, para estar presente nesta missa e, com esta mensagem, acreditei novamente que não sou louca e que não perco o meu precioso tempo, quando começo os dias, com uma vista bastante exaustiva nos classificados de toda a imprensa diária, à procura de algo belo), e até se engole – a custo, vá – o facto de um ofício interno aconselhar jornalistas a passarem a ir de metro para os serviços, porque o táxi está caro e os jornais cada vez se vendem menos (e eu ofereço quatro exemplares aos desgraçados dos transeuntes que me respondem aos inquéritos diários idiotas que são publicados na página 2 do Local Lisboa e ai de mim se o meu director sabe disto, põe-me de castigo por andar a aumentar os custos da empresa, que ideia tonta a minha, para que é que a gente quer mais quatro leitores e, para o ano, em vez de me avaliar a 90 por cento, baixa ainda mais significativamente o seu juízo, mas, também, nem faz mal, já está tudo perdido, de qualquer forma: no mapa de férias que está aqui afixado à minha esquerda – o lado onde está o coração e, por isso, dói mais, é como os pelos da perna e da axila esquerdas, manhosos, arrancam sempre mais uns gritos guturais de dor do que os da metade direita de mim –, sou a funcionária com a categoria mais baixa deste piso e, “they can’t take that away from me”, como diz uma bela canção que eu gosto de cantarolar – e este é, talvez, o momento em que eu devia calar os dedos, diria o meu paizinho blogueiro e, se calhar, a Ana Sá Lopes também, por estar a arriscar demais, mas também vos digo: antes, portava-me mal, barricava-me na casa-de-banho, e dava-me sempre bem…).
O que me dana mesmo, mesmo, aquilo a que não me vou acostumar nunca, nem que uma manada de vacas tussam e com as tosses reproduzam a nona sinfonia de Beethoven, é não me conseguir lembrar do nome do professor de Filosofia do nono ano.
(continua, há-de continuar, vamos ver onde é que isto nos vai levar...)

quinta-feira, agosto 10, 2006

Provocação

Como ninguém diz nada - porra, dez mil caracteres (alguém leu aquilo até ao fim???) dão para três dias sem postar, não? -, como eu fico triste quando não aparecem mails a jorrar no Gmail, resolve-se assim o problema: escrevo um parágro (coisa inédita, neste blogue de palmo e meio e ganso - isto é gíria de quem jogava ao "guelas" no recreio e sonhava com abafadores irisados, guardados como preciosidades em frascos de vidro), e aparece uma surpresa no mail dos mails. E isto lembra-me uma história que comecei a escrever num centro comercial, num guardanapo de papel que não era, mas que se transformou em papel vegetal - está comatoso há muitos meses, não fala, não come, está para lá aos caídos -, sobre um homem que era tão solitário, tão solitário, que a sua única companhia era a sua bicha solitária amestrada, e que, quando ela estava a dormir e ele não tinha com quem falar, escrevia os posts e os comentários do seu próprio blogue, e depois disso, puxava do tabuleiro de xadrês e jogava contra si mesmo - e qual fosse o resultado, ganhasse ele, ou ele, ficava sempre irado por não ter ganho.
Vou comprar bifes. Nem me vou dar ao trabalho de abrir o mail e saber se está aí alguém.