terça-feira, janeiro 30, 2007

[sem] mil

Sem posts, este blogue chegou aos cem mil.
O visitante 50 mil bisou a façanha.
Há-de haver posts. Façanhas da sindicalista deslumbrante.
Parabéns, (T)ralha.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Hábito

É uma questão de hábito.
É como lembrar-me de beber em jejum – e vinte minutos antes do almoço – a ampola laranja que queima gorduras e que sabe a capilé amargujado; é como acordar uns minutos depois das oito da manhã, ao segundo toque do despertador do Nokia azulito da saudosa lanterna (e eu continuo a recusar-me a acordar ao som do Nokia preto, o João faz-me a vontade, faz-me todas as vontades, atura todas as birras, está ao meu lado em todas as guerras, ele acerta o relógio do Nokia para as sete e quarenta e cinco, e ele toca e eu faço menu sete um um e meia cega determino que quero dormir mais quinze minutos e há de ser assim, há de continuar a ser assim, pelo menos enquanto o Nokia azul não se finar, enquanto não for lavado na máquina no bolso das calças como já aconteceu antes na história).
Mas se calhar estes também são uns hábitos idiotas.

Fuma-se menos, não se fuma ainda despudoradamente, e se o cigarro se acender à revelia seguramente aqui ninguém me culpará de um qualquer cancro. Atrás de mim há uma muralha de armários cheios de pastas cobertas por um manto de pó e de cotão, à frente, a ventoinha do Cerejo, na diagonal à direita, o gabinete do chefe supremo, depois há uma sala de reuniões com videoconferência onde perdi a voz no mês de Dezembro enquanto membro eleito da comichão de trabalhadores, a janela, a única janela que vejo, a que está longe demais, mostra-me aparelhos de ar condicionado espetados nas fachadas, não há gaiolas de periquitos como em Alfama, mas há marquises e idosas a estenderem cuecas cor-de-rosa.
Uma nesga de uma Livistona chinensis a sair de um terraço, telhas laranja brilhantes ao lado de betão e alumínio, e não vejo mais os plátanos que estão prestes a matar-me de renite daqui a mês e meio. Para quem não sabe, para quem não tem mesmo que saber, a Lisvistona é uma palmeira leque, e no fim-de-semana passado a cobertura de um prédio em Massamá ardeu, ardeu por completo, e o único ferido grave foi um polícia que se picou na perna com um ramo de palmeira, quem sabe se não seria uma Phoenix dactilifera, má sorte de um raio, nem uma queimadura para amostra, mas um arranhão de palmeira na perna a reportar, quem vai à guerra dá e leva, isto é como um bombeiro morrer afogado na albufeira, caramba, devia mas era ter estado calado, grande gozão que me saiu o médico do INEM, à frente, à minha frente, à frente da ventoinha, há televisores pequenos e uma prateleira cheia de cassetes VHS onde estão gravadas as notícias de ontem.
É uma questão de hábito, tudo é uma questão de hábito, aposto que a jornalista que usa calças pelo tornozelo apenas o continua a fazer por hábito, não pode ser por motivos estéticos, nem pela moda, é o habito, é o monge, e eu bebo litro e meio de água com quatro colheres de sopa medidas a olho de drenante de limão, fumo menos, escrevo menos, e quase que choro quando olho para a primeira página de um jornal que há-de estar nas bancas a 12 de Fevereiro.
É uma questão de hábito.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Interlúdio

Setas.
Há quem desenhe bolas. Outros travessões. Há ainda quem faça triângulos e outros sólidos geométricos. Não encontrei círculos.
Esta é uma pequena amostra das folhas rascunhadas que jazem em cima das secretárias dos colegas mais próximos do meu posto de trabalho (e hoje, é o último dia em que trabalho à janela da Viriato; subi na vida, subi um piso, passo a estar bem pertinho do patrão e longe da Viriato. Lamento-o profundamente).
Eu desenho setas. É mais forte que eu.
Três cadernos em cima da mesa, três caligrafias diferentes a cada folha que passa, todas desenhadas pela mesma mão, mas em algumas ocasiões, a mão fez dançar a esferográfica de manhã, como numa valsa singela, noutras, rodopiou no papel com um nadinha de tensão, e então a letra inclinou-se para a direita, como num tango, e depois há uns parágrafos, praticamente imperceptíveis, em que a caligrafia teima em não caminhar direita pelas linhas azuis dos cadernos baratos; estas letras foram escritos perto da linha da morte, do fecho antecipado em duas horas por causa de um encarte publicitário, perigosamente em cima da hora de encerramento de um colégio junto à Rotunda do Aeroporto.
Setas, setas, setas.
Agradeço as epifanias, o sussurrar dos anjos a alertarem-me para perigos, para maldades e, por vezes, a guiarem-me às escuras até ao meu destino.

O senhor Guilhermino ligou o número geral. Não foi nem a Fátima nem a São que lhe atenderam a chamada, porque a Fátima e a São também se foram embora, substituídas por um gravador. Agora anda tudo doido a premir do um ao nove no teclado, geralmente desistem, mas o senhor Guilhermino deve ter premido a combinação de números que abre o cofre do tesouro – 7 - 3 - 7 – e o meu telefone, enrodilhado de fios, tocou.
A voz era sumida, apagada, de início. O dedo indicador carregou com força numa tecla do telefone Nortel que tem desenhado uma grande coluna de audio.
Alguém me alertou para puxar do papel e da caneta. Era, certamente, uma grande história, impublicável. Tanto pior para as publicações pagas. Ainda havia um blogue para alimentar a migalhas de serviços mínimos.
O senhor Guilhermino ainda não tinha dito que era cego, e que as noites da sua infância tinham sido passadas com os braços cruzados ao peito, e eu não poderia sequer imaginar que os joelhos do senhor Guilhermino haviam de ser partidos por um marinheiro numa rua sombria dos Anjos. Eu não sabia nada disso, mas o papel e a caneta já estavam preparados para guardar a história do senhor Guilhermino, para gravar a sua voz sumida em letra miudinha.
Foi no verso de um fax da câmara de Lisboa. Três páginas para três horas de monólogo telefónico. Três páginas de papel fino e brilhante, escritas com uma letra minúscula, umas vezes escritas na horizontal, como nos ensinaram na escola à força de reguadas, outras na vertical e na diagonal, porque a mão sabia à partida que a narrativa não seria linear: o senhor Guilhermino começou mais ou menos pelo início, mas logo depois foi ainda mais trás, pulou várias vezes para o presente, se não me engano conjugou verbos no futuro, recuou, andou para os lados como caranguejo. Três folhas cheias de setas, guardadas religiosamente à chave, sem as quais eu já não saberia escrever as façanhas do senhor Guilhermino.
Andam comigo para todo o lado na mala Balenciaga. À espera do segundo capítulo.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

O senhor Guilhermino I

Aparentemente, já todos tiveram que aturar o senhor Guilhermino. Mas não cuidaram de saber e muito menos de reter o nome que consta no seu assento de nascimento deste homem que nasceu em 1920, nem tão-pouco tiveram a paciência de o ouvir até ao limite de duas orelhas escaldadas e metamorfoseadas à forma do auricular de um telefone da marca Nortel.

[E, entretanto, perdoem a ausência, mas houve crianças febris com amigdalites que se transformaram em otites, houve visitas surpresa de um cigano ítalo-brasileiro-irlandês no dia de aniversário do meu blogue, houve correspondência secular dos morgados de Mateus a ser revista no Ibook, e há e continuará sempre a haver corações tão secos e espalmados como os dos bacalhaus a lerem e a copiarem este blogue de fio a pavio – ai, ai, os direitos de autor –, com más intenções, com intenções cretinas, até, coisa que devia dar suspensão na Ordem dos Advogados, todo esse trabalho, um gasto supérfluo de energia para serem abatidas mais árvores (meus queridos eucaliptos, perdoem) e interpostos mais processos judiciais de má-fé, ah, sim, e há também muita estupidez à mistura, sendo que tudo isto atrasou a produção literária]

Todas as redacções têm um senhor Guilhermino. À parte do senhor Guilhermino, nós também temos a dona Clementina, que em 363 edições anuais impressas em papel de má qualidade, há-de nos fazer chegar pelo menos 300 cartas ao director, sim, cartas, nada de emails, mais eucaliptos abatidos, mais dividendos distribuídos à Portucel, mais um selo lambido com a língua, e no fim do ano e das três centenas de cartas, como é uma querida, a dona Clementina ainda envia uma caixa de chocolates.
E havia também um tenente-coronel da armada que escrevia uns faxes com uma caligrafia muito bonita, mas esse estava zangado com o mundo, e com alguma empresa cotada também, se não me falha a memória.
O Manuel Acácio, da TSF, tem senhores Guilherminos e donas Clotildes aos magotes, e eu já ouvi o caríssimo tenente-coronel através das ondas hertzianas no fórum TSF, mas o senhor Guilhermino, o meu, o que nunca ninguém teve pachorra para aturar durante duas horas e meia interrompidas por dois minutos para eu poder fazer um xixizito, é especial, deveras especial e eu descobri isso aos dois minutos de conversa e, como a conversa é como as cerejas, deixei-me estar e os meus ouvidos encheram-se de frutos vermelhos suculentos, retalhos de uma vida às cegas, que já conta com 87 primaveras apesar de o senhor Guilhermino não ter tido nunca a oportunidade e o privilégio de ver uma flor de laranjeira, ou um jacarandá em flor.

É. O senhor Guilhermino nasceu cego. Amarelo e débil, acrescenta ele, o que é muito estranho, na realidade, porque o senhor Guilhermino nunca viu a cor amarela, e assim sendo, vai-se lá saber porque é que uma referência cromática se assume como facto tão relevante da sua infância, mas, se calhar, em garoto cheirou uma mimosa em flor e ficou com a ideia que o amarelo é a cor que cheira a mimosa, e a flor da mimosa cheira bem, mas o que o que é demais chateia e a mimosa em flor às vezes tresanda tanto que até faz dor de cabeça.

O senhor Guilhermino nasceu cego dos olhos, mas há cegos que vêem muito, e o senhor Guilhermino vê coisas do arco-da-velha há 87 anos, e viu-as e continua a vê-las mesmo quando está de olhos fechados, porque a si, tanto lhe faz, e Deus não dorme, como os cegos, e alguma vantagem lhes teria que dar por levarem a vida sempre às escuras.
Infelizmente, o senhor Guilhermino teve má sorte, não por ter nascido cego, mas sim porque os seus pais sofriam de uma cegueira que é bem mais comum neste mundo e há muito tempo, uma cegueira branca e milenar.
Os pais do senhor Guilhermino tiveram, durante toda a vida, o dom de as suas retinas reflectirem ao cérebro, através de impulsos eléctricos, as imagens de tudo o que é belo e de tudo o que é feio neste mundo, mas passaram ao lado da pessoa extraordinária que tinha uma mistura dos seus sangues e uma tez, ao que parece, um tanto ou quanto amarelada.
O senhor Guilhermino ainda era o menino Guilhermino quando foi enxotado para uma instituição em 1927. Os pais fugiram para o Brasil com os filhos que viam o mundo a cores.
O meu pai era maluco, fez-se um vadio e testemunha de Jeová. O senhor Guilhermino surpreende-me a cada três palavras que profere, deitado na cama, com uma voz muito apagada e rouca, sempre à cata de ver com os ouvidos se chega a senhora que trata dele, encontrada num anúncio classificado que foi publicado n’O Crime sem sucesso por mais de um ano. Não se amofine, senhor Guilhermino, ainda há pais que são vadios, ainda há pais que são malucos.
Deixaram-me entregue àquela gente sem coração.
Se eu estava a dormir o meu sonho angélico chegavam à camarata e destapavam-me, destapavam-nos, destapavam todos os ceguinhos. E tínhamos que dormir com as mãos cruzadas no peito, porque se eu tivesse os braços caídos, junto ao corpo, era porque estava a fazer coisas feias. Eu não sabia o que eram coisas feias. O ódio com que batiam nas crianças cegas. Precisávamos de pancada. O vigilante entrava pela aula dentro e desatava à bofetada. E a professora era ceguinha também, nada podia fazer.
O senhor Guilhermino foi criado numa Misericórdia sem misericórdia colada ao mar em São João do Estoril, mas com mais ou menos bofetadas e lençóis destapados a meio da noite, aquela gente sem dó não embruteceu o senhor Guilhermino, que aprendeu o mais belo dos ofícios: a música.
Não lhe valeu de muito o grau superior do Conservatório, o arco e a elegância do seu violoncelo ou dos seus dedos ágeis no marfim do piano. A vida dos cegos ganha-se na rua, mas o Salazar nunca fez mal aos ceguinhos, garante o senhor Guilhermino, que dispara contra o 25 do 4 implacável, nos contextos mais absurdos.
A sua companheira de vida não a conheceu através de anúncio, mas andou lá perto.
A minha mulher ganhava dois escudos a lavar casas à escova. Na terra, guardava as vacas desde os cinco anos e bebia água fresca da fonte. Veio para a cidade servir. Queres vir para a minha companhia? As mulheres dedicavam-se de alma e carinho porque precisavam, agora não precisam de nós para nada.
As mulheres, senhor Guilhermino, precisam de se dedicar a algo ou a alguém; é esse o nosso fado, nada mudou, a conta bancária pode ter até quatro dígitos no início do mês, as contas podem até estar todas pagas, mas as mulheres precisam de se dedicar.

(continua)

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Dia de blog

Faz já muito tempo, os reis magos perderam-se, há quem diga que certa noite, Belchior fumou umas coisas que não devia e viu uma constelação que nunca mais foi identificada em mais de dois mil anos de mundo, depois, como se já não fosse considerável o seu atraso para visitar o filho de Deus, entraram numa taberna e ficaram à conversa com o velho Herodes (isto lembra-me uma cantilena muito javarda, o velho Herodes já morreu, e quem se f++++ sou eu), copo 3 para aqui, copo três para acolá, e tudo perdido: só chegaram ao estábulo dia 6 de Janeiro, já o menino Jesus fazia as suas primeiras graças nas palhinhas deitado e com um cheiro de requeijão e estrume insuportável.
Este blog nasceu há dois anos em Dia de Reis, conforme lembrou a Mary Mary tão bem num comentário lá em baixo. Eu não esqueci. Simplesmente, tenho filha doente, muito doente com a sua primeira amigdalite e a Magui instituiu que, para o ano, o Natal lá em casa é à espanhola, só se abrem os presentes no dia de Reis, sem stresses e com promoções de 70 por cento que permitem comprar mais do dobro de incenso, mirra e ouro.
Este blogue é precioso, foi um bonito presente, eu deixo-o aqui abandonado à sua sorte e ele entra em auto-gestão; é mesmo assim que tem que ser até a pequenita ficar boa.
E depois disso, haverá uma grande festa. Sem dúvida que haverá. Inscrições abertas, como sempre, na caixa dos comentários e no email que está por aí no lado direito em cima.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Sei o que fizeste no Natal passado

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Ora aqui está um bacalhau seco

terça-feira, dezembro 26, 2006

Maria do Céu

Maria do Céu mora nas alturas.
Isto dos nomes tem que se lhe diga – Maria do Céu não poderia morar num rés-do-chão ou numa cave. É certo que Maria do Céu não mora no Sheraton, mas está perto dele, pelo menos. E também é verdade que Maria do céu tem mais dois pisos por cima dela e da placa de betão que é o seu tecto, mas, para efeitos da presente narrativa, decreta-se aqui que um quarto andar já não é mau, e que, com um esforço de imaginação considerável, se pode concordar com a narradora e assumir que quatro pisos já são ligeiramente próximos do céu, pelo menos se alguém se der ao trabalho de esticar um braço à janela para tentar apanhar alguma das dengosas nuvens que alcatifam o azul do horizonte.
Maria do Céu faz tanto jus ao seu nome que tem no seu acento de nascimento como uma Anabela que, em tempos, eu via todos os dias, de madrugada, com o passe social L123 na mão, na paragem do 27 na Avenida de Roma – a Anabela era feia como uma osga, e a Maria do Céu, bem, não emana qualquer imagem celestial, aliás, e para provar que eu não sou tão boa pessoa como muitos me julgam, até há umas semanas, eu não sabia que Maria do Céu tinha essa graça, e durante uma década referi-me a ela como a olharapa.
Deus é o melhor argumentista e a realidade bate a ficção. Depois, há uns desgraçados que têm um dom, que sugam realidade pelos poros, ou pela palhinha, que depois a digerem e vomitam algures entre o olho esquerdo e a moleirinha e, com mais uns floreados e umas destrezas técnicas na manga, é a isso se chama ficção. Estou certa que é por causa disso, e porque sei o nome de muitas árvores – há pouco, o Cerejo queria um botânico para descobrir o nome de uma espécie, para um artigo, e eu disse, sem pestanejar, Ficus Macrophylla –, que hei-de ser uma grande escritora.
Maria do Céu passou o Natal no seu bunker, à altura de quarto piso.
O presidente do conselho de admiração (esta é do Goiaoia e é genial) quis demonstrar que era um humanista quando se vangloriou de pulmões bem abertos e peito inchado que não despedira Maria do Céu. É graças a ele que eu sei que Maria do Céu tem esse nome no bilhete de identidade, fico-lhe agradecida, porque, até então, era a olharapa que tinha um Peugeot vermelho, e que fazia lá sabe-se bem o quê neste edifício que não é carne nem é peixe, não é novo nem é velho, e não é alto nem é baixo.
É claro que a sensibilidade social do presidente do conselho de admiração se traduz em números. Na realidade, e tendo em conta a esperança média de vida de Maria do Céu, e o seu tom esverdeado da pele, não faltará muito para que ela vá para onde o seu nome a manda desde o seu primeiro grito. Feitas as contas, 1,5 salários de indemnização sairiam mais caro à empresa do que deixá-la estar quietinha, mas, foi uma boa tentativa, grande tentativa mesmo, essa, de tentar convencer os tontinhos de que os gestores têm coração.
Certo é que Maria do Céu é uma funcionária exemplar: trabalha 365 e, por vezes, 366 dias por ano. Antigamente havia uns acetatos que se chamavam fotolitos, e era Maria do Céu que os entregava em Alcântara no seu Peugeot vermelho. A banda larga matou os fotolitos, da mesma forma que a tv matou as estrelas de rádio, e a Internet anda deprimida porque ainda não matou os jornais e os livros, mas ela que se acalme e dê tempo ao tempo que ainda lá chega com mais um esforcinho.
Mas a banda larga não matou Maria do Céu. Agora, a senhora, que leva 36 anos em cada perna arqueada, controla a impressão do pasquim, nuns barracões da Mirandela, noite a dentro, inundando as narinas de um cheirete de tinta lançada sobre papel de má qualidade. Depois, ainda os galos preguiçam aninhados com as galinhas, já a Maria do Céu ata a jornalada toda, para que quando os preguiçosos dos escribas chegam, perto da hora do almoço, não lhes falte a leitura no Lacinho ou no Fax.
Maria do Céu tem um bunker no quarto piso. E, dentro desse cubículo, há quadros pregados nas paredes, há vasos com plantas, jarras com flores, há um iMac dos velhotes, porque Maria do Céu se recusa a converter aos PC’s, há um divã que se faz cama de solteiro num instante, prateleiras com livros e bibelots, uma televisão com um naperon de renda de nylon comprada na loja chinesa da Tomás Ribeiro, é lá que ela vive, a Maria do Céu, sozinha, foi lá que ela passou a Consoada, em paz, porque não será despedida em 2007 porque há gestores com coração de manteiga, é lá, de certeza, que o seu grande amigo, o estafeta engatatão, a vai encontrar uma bela manhã, inanimada.
Este é um post sobre os trágicos e sobre as coisas que continuo a testemunhar num metro quadrado ao meu lado, como o homem de aspecto duvidoso que, às 20h30 do dia 24 de Dezembro, em frente ao portão do Colégio Militar, se aproximou do Idea, levantou o pára-brisas, e deixou um folheto mal amanhado de venda de cosmética Oriflame em esquema de pirâmide (podia ganhar 250 euros se arranjasse dez assessores para a Oriflame). Ou da alma que, nesse mesmo dia, e neste mesmo blogue onde pairam agora, pelo menos, um par de olhos, enfiado no edifício da Direcção Nacional da PSP de Lisboa, esperava encontrar raparigas feias fotografadas pelos namorados.

Mensagem de Natal

Certamente já o sentiste.
Falo da dor, da dor física que nos apanha, que paralisa todo o lado esquerdo do corpo, o lado onde bate o coração, que sufoca, que comicha até, uma coceira insuportável, miudinha, que nos chega pelo simples facto de estarmos separados por tanta terra e por tanto mar.
Não no Natal, não só no advento, mas é no natal que tudo dói mais, que tudo alegra mais, mas por cada dor, parece-me só há 0,7 alegrias, pelo menos, comigo tem sido assim, e eu começo a acreditar que eu nasci com este nome e que ele diz tudo, resume tudo. É por estes dias últimos do calendário que a pele se eriça ao passear pela cidade iluminada e, depois... depois, tu não estás lá. Escrevem-se coisas parvas, aquela da árvore de natal foi uma idiotice, foi coisa própria do Natal e da dor, da dor de te ver tão poucas vezes, de partires mal ainda chegaste.
Eu fujo de pensar na tua ausência.
Penso que crescemos no momento em que não gostamos mais do natal. É o aviso de recepção, os alarmes soam por todo o lado e há sirenes que ensurdecem a ecoar pelas moléculas de oxigénio; é quando tentamos enfiar à força na mioleira que a Consoada é um dia igual aos outros e que o natal é quando um homem e uma mulher bem entenderem. Posso continuar a dizer que tenho 27 anos (não faço propositadamente; sai), mas cresci. Não gosto mais do Natal, Miguel.
Não penses, meu querido, que o meu coração está vazio e seco. Transborda de amor. Eu nunca imaginei que pudesse voltar a rebentar pelas costuras. Está cheio do teu amor também, há-de sempre estar cheio do teu amor, assim como o da Carolina, o do João e o de tantos outros amigos que eu não tenho espaço para enumerar. É o que me salva. Eu cresci e descobri que a chave mestra, para tudo, é o amor. Por todas as coisas e, sobretudo, pelas mais pequenas.
É essa a mensagem que te deixo este Natal.

[E lamento que haja tanta gente a ler este blogue com um coração seco como um bacalhau]

sexta-feira, dezembro 22, 2006

A garrafa de Veuve Clicquot

Se calhar, nunca existiu nenhum parecer jurídico de um qualquer advogado reputado neoliberal, cujo nome também nunca veio à baila. Aos poucos, a sindicalista deslumbrante perdia a sua ingenuidade e aprendia que cada cartada deste jogo traz na manga um trunfo e que a cor do seu naipe é o bluff.
É Natal e a sindicalista deslumbrante e sus muchachos deram o melhor presente ao presidente do conselho de administração. Plenário para aqui, plenário para acolá, duas semanas de férias praticamente arruinadas, comunicados escrevinhados à pressa, mas que, mesmo assim, fizeram ferver o leite e saltar a tampa da panela, houve de tudo, para todos os gostos e idades: emails intimidativos na caixa de correio, bombistas suicidas nas margens do Douro, houve moções escritas a chorar, às tantas da manhã, porque até o gato morreu nas benditas férias.
A sindicalista deslumbrante estreou a sua echarpe verde, cuidadosamente bordada por crianças paquistanesas. Disse ao presidente do conselho de administração, tinha que o dizer, também, nada a fazer, podiam vir mais emails gralhados das suas hierarquias de propósito duvidoso, podiam vir processos disciplinares, ou mesmo, um lugar longínquo no novo organigrama, mas têm um azar do caralho desta vez, é que a sindicalista deslumbrante não teme mais, entrou nesta aventura porque, olhem, foi como na faculdade, quando a sindicalista deslumbrante estudava numa escola superior muito bonita, disse um dia, estou farta desta merda, mãe, estou a desaprender, sinto-me a sufocar, e então passou a nivelar por baixo, pior era impossível, e então, tudo o que se sucedesse acima do patamar mínimo da dignidade humana era uma festa, era balões e foguetes a toda a hora, e neste caso, a jornalista deslumbrante só aceitou transformar-se em sindicalista igualmente deslumbrante, porque não tem nada, mesmo nada a perder, e foi por isso, que com os bordados das mãos pequeninas dos meninos de tez de meia de leite ao pescoço, e com um processo de cessação do contrato de trabalho por extinção do posto de trabalho a abanar e a tremer na mão direita, ela disse, teve que dizer, já que horas mais tarde, o presidente do conselho de administração estaria a brindar com uma garrafa de Veuve Clicquot Brut: “Há dias em que eu tenho vergonha de pertencer a uma empresa assim”.
E o presidente do conselho de administração fez um lifting imediato à testa por a ter esticado muito, e a sindicalista deslumbrante acha que o viu a encolher os ombros também e, nesse momento, achou-o parecido com o José Mourinho, mas nada, mesmo nada que ela dissesse o faria não abrir a garrafa de espumante prometida para o dia em que ele cortasse, com um aperto de mão da comichão de trabalhadores, 400 mil euros de custos fixos.

terça-feira, dezembro 19, 2006

Avisito

A emissão segue amanhã.
Sem net durante uma semana. Só fez bem à pele.
Hasta.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Para a Marta*


Martinha,
A Carolina está sempre a perguntar quando é que vamos andar no carrossel da Alameda com a prima Marta. Combina com o pai e com a tia e vamos todos juntos, está bem? E depois do carrossel vamos comer algodão doce cor-de rosa. Tens que dizer à Carolina que algodão doce é muito bom. A Carolina tem medo do algodão doce (e também tem medo das folhas das árvores que caem no chão no Inverno - tens que lhe dizer, como eu e o pai João dizemos todos os dias, que as folhas são bonitas e amigas, que nunca nos fariam mal).
A Carolina gostava muito que tivesses vindo à festa de aniversário: tivemos um bolo com todos os amigos do Noddy, muitos docinhos, e dezenas de brinquedos novos para brincar. Não fiques triste - tu e a carolina vão ter muito tempo para brincar com a bonecada toda.
Martinha, já fizeste a tua carta ao Pai Natal?
O que é que lhe pediste?
Sabes, eu tenho um duende meu amigo que trabalha com o Pai Natal e que, por estes tempos, nem tem tempo para dormir, tão atarefado que anda a ler as cartas de todos os meninos e a embrulhar todos os presentes que eles pedem.
Manda um beijinho grande para a tua mana. E fica com este que te envio pelo céu, num escorrega que é um arco-íris.

Espero que gostes das fotos.



*A Marta é a mais nova das leitoras do (T)ralha. Tem quatro anos e andava a pedir à tia Marina para eu postar uma foto do bolo de aniversário da Carolina.

domingo, dezembro 10, 2006

O plenário

Não.
Enganara-se.
Não eram ainda monstrinhos, pensou o pior, pensa sempre o pior, o que é que se há-de fazer – é que está habituada, ao melhor e ao pior, um a seguir ao outro, ou mais pior do que melhor, é mesmo assim, tem que ser desta forma, ninguém pode ousar pedir o melhor e não estar à espera do reverso dessa moeda de ouro, e o melhor vale mais do que o pior, isso é uma verdade de la palisse, por isso, era quase aritmético, matemático, científico, a sindicalista deslumbrante ainda não tinha conseguido descortinado a equação, mas andava lá perto e para cada um melhor existiam, de acordo com os seus cálculos, 1,71 piores, nada a fazer, é o preço que se paga, é um preço simpático, até, que se paga.
A sindicalista deslumbrante estava deslumbrante de corpete preto de dominatrix no primeiro plenário que convocou e que, atabalhoadamente, com o seu parceiro sindical, dirigiu.
Não eram monstrinhos, ainda não eram, que alívio, a grande maioria não era e ninguém se apercebeu, mais de uma centena de pessoas concentrados como sardinhas enlatadas em 30 metros quadrados, ninguém deu conta de como a sindicalista deslumbrante ficou feliz que, naquele plenário, não se falasse só de trocos, de dinheirinhos, das carteirinhas de cada um. Que se falasse de pessoas, de direito ao emprego. Uma jornalista senior disse à sindicalista deslumbrante que tinha inveja dela. Tonta, a sindicalista deslumbrante pensou que ela falava da sua garra, do sangue que lhe pulsa às golfadas nas guelras, da sua coragem e inconsequência, mas não, a jornalista senior tinha inveja dos corpetes pretos de dominatrix que a sindicalista deslumbrante vestia nos plenários. Mas a sindicalista gostava de ser honesta e disse-lhe:
Há quem ache que eu tenha um grande cú.
Mais ou menos deslumbrante, com mais cinco ou menos cinco centímetros de anca, a sindicalista deslumbrante, com a sua equipa de inexperientes e imaturos jovens sindicalistas, conseguiu que a administração recuasse, e cada um engole como pode e consegue o ter que dar um passo atrás e o presidente do conselho de administração tentou a táctica do eu não disse nada disso, a sindicalista deslumbrante é que é muito exaltada (só lhe fica mal).
Cada um usa os seus trunfos, mostra ou não o seu jogo, aumenta a parada ou retrai-se. Cada um tem os seus objectivos: uns têm a obsessão por uma percentagem, outros são obcecados pelas pessoas. Da sua parte, a sindicalista deslumbrante não queria louros, ou palmadinhas nas costas, não queria também abrir a sua cova, só não queria ouvir um dia destes o presidente da empresa a dizer em plenário: Estávamos à beira do precipício. Hoje, demos um passo em frente.
Alea Jacta est.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Comichão de Trabalhadores

A sindicalista deslumbrante não estava assim tão deslumbrante quando, a meio de um texto sobre projectos urbanísticos aprovados pela autarquia de Lisboa por cima do traçado da terceira travessia do Tejo e da linha de ferrovia de alta velocidade, o telefone tocou, perto da hora do jantar, e a extensão que apareceu naquele seu instrumento de trabalho de quem era quase gémea siamesa era a do presidente do conselho de administração.
Nada a fazer e isto que sirva de lição à sindicalista deslumbrante: eram tempos difíceis, se não fossem tempos tão bizarros, aliás, ela nunca teria sido eleita, onde é que já se viu, uma sindicalista de direita e, ainda por cima, deslumbrante, eram tempos tão conturbados que já não restavam para amostra, sequer, ou para exposição atrás de grades com sinais evocativos para não serem alimentados, sindicalistas com patilhas e fartos bigodes, e assim sendo, a sindicalista deslumbrante acabou o texto, ainda teve tempo para sonhar acordada com uma torre miradouro da antiga fábrica dos sabões que conhecera graças aos delírios do Sá Fernandes, e teve que ir a correr para uma reunião informal e muito tardia com o presidente do conselho de administração, infelizmente, com o cabelo em desalinho e a precisar de uma lavagem urgente, que tinha sido adiada, naquele dia, por motivos imputáveis à botija de gás light da BP, que, alheia à vontade da sindicalista deslumbrante, tinha decidido ir desta para melhor, a meio do duche matinal.
E lá se sentaram, os dois únicos representantes dos trabalhadores que não estavam de férias ou folga, numa mesa redonda, e enquanto ela, com o seu cabelo num estado aceitável para a classe, mas totalmente repreensível para o estatuto de sindicalista deslumbrante, negociava mais quatro mil euros de indemnização para uma trabalhadora a quem tinha saído a lotaria de Natal, com uma rescisão amigável do contrato de trabalho no sapatinho, absorvia, ao mesmo tempo, tudo ao seu redor, procurava sinais de que o presidente do conselho de administração era um ser humano, e para além de anotar tudo numa agenda – o economato continuava trancado para cortar custos –, conseguia também mascar pastilha e encontrou ainda as provas que procurava: lá estava, na prateleira, junto à colecção dos Lucky Lukes, a moldura de acrílico e o retrato dos três filhos do presidente, que, sabe-se lá porquê, lhes confidenciou que a mulher tinha optado por ser mãe a tempo inteiro (e ela suspirou, sem saber se de pena, ou de inveja).
A sindicalista deslumbrante estava nisto, a saborear a sua primeira vitória, afinal o primeiro feriado de Dezembro ainda ia ser pago a dobrar, afinal, tinha valido a pena ficar sem voz durante três dias consecutivos, as mebocaínas, os mini comícios nos fumódromos e nos corredores, a empresa já não impunha, negociava, era bom, quase se esqueceu do cabelo por lavar, de não estar tão deslumbrante quanto seria desejável, quando lhe deu uma crise de urticária.
Era a comichão de trabalhadores.
O monstro não era o presidente do conselho de administração, era triste, mas não era ele, apercebeu-se ela, naquele instante: ele despedira 55 colegas da sindicalista deslumbrante desde Janeiro, ela não sabia e tentava adivinhar como é que ele dormia com isso, mas naquele dia, mais três pessoas tinham assinarado um papel que resumia o seu percurso dos últimos dezoito anos de vida em troca de um cheque, e, nos corredores, os outros, os que ficaram, os eleitos, exigiam pré-avisos de greve apenas porque lhes iam retirar a merda dos pagamento dos feriados a dobrar.
A sindicalista deslumbrante ouviu coisas do arco da velha e era aquelas pessoas que ela representava: despeçam lá quantos quiserem, mas não se atrevam a cortar-me o feriado, ouviu ela, ou, os que foram despedidos estavam mesmo a pedi-las, coisas que nem ela, sindicalista de direita ousara pensar, nos seus delírios neo-liberais. Um departamento inteiro daquela empresa ia ser extinto nos próximos meses e só se ouvia falar de greve por causa do pagamento dos feriados, era tão triste, era a natureza humana, o que é que a sindicalista deslumbrante estava à espera, mas quem é que, afinal, são os monstros?

segunda-feira, novembro 27, 2006

Alcagoitas

Parece que isto aconteceu na divisão criminal da Polícia de Segurança Pública, num barracão junto ao Tejo, onde vagueiam ainda milhares de almas de bacalhaus que ali foram salgados há décadas atrás.
Ela lembra-se da cena algures na Praça de Londres, mas esse cenário é absolutamente impossível, porque eles não estiveram na Praça de Londres, nem nesse dia, nem em dia nenhum.
Isto foi coisa mágica, e fiquemos, então, com a versão do barracão da PSP, e não nos banquinhos do jardim da Praça de Londres, com vista para a Igreja.
Ela devia estar a ler o já muito ultrapassado romance de Elsa Raposo com o professor de surf - a revista já tinha uma semana e a Elsa Raposo já estava a decorar o apartamento no Parque das Nações de um amigo de longa data que se tornou amante de um dia para o outro (ainda nem o laser tinha pagado o nome do professor de surf das suas costas) -, à espera de prestar declarações a propósito de uma notícia que escrevera sobre Óbidos.

A sua metade

pareciam gémeos siameses, onde estava um encontravam o outro, ela gostava de o ter sempre por perto, e à noite, em noites difíceis, já havia poucas noites dessas, mas de vez em quando voltavam a assombrá-la, isto foi um momento muito bonito, ela nem devia estar aqui a reproduzi-lo para a multidão silenciosa e para os brasucas ávidos de saber em que dia é que se monta a árvore de Natal (eu cá acho que é no dia 1 de Dezembro; este ano antecipei-me, mas sempre montámos a árvore no primeiro dia do último mês), ela estava com a cara enterrada na almofada, a chorar baixinho, e murmurou, dá-me a tua mão, não me largues a mão, e dormiram assim a noite toda, sim, tal e qual como siameses

matava a espera, brincando com os sinónimos e com as letras das palavras cruzadas, e perguntou, achou que, obviamente, ela não saberia, lançou: regionalismo algarvio ara amendoins.

Ela respondeu não sei (tinha a mente presa no Tallon, que apesar de ter três filhos com a Catarina Fortunato de Almeida, conseguiu anular o seu casamento), e na fracção de segundo a seguir disse alcagoitas.
Pôs a mão à boca, bateu-lhe, na boca, não ao gémeo siamês, e ele nem podia acreditar que ela tinha encontrado a solução, sem sequer lhe ter dado uma ajuda, que era uma palavra grande que tinha um t e um g.
A questão é que ela nunca ouviu falar em alcagoitas, até hoje, nunca tinha escrito a palavra alcagoita.
Isto saiu-lhe da boca para fora e ela tem quase a certeza que tudo se passou na Praça de Londres.

O pilinhas

Foi um golpe baixo: ele disse, gordura é formosura, era uma provocação e ele quis magoá-la, mas ela é gorda há 28 anos, já está habituada, e faz já tanto tempo que ela convive com as suas ancas largas e com um rabo que só cabe com uma grande angular, quanto aquele em que tem um dedo que adivinha - é o mindinho da mão direita, e foi a sua avó Zá que lho passou quando morreu -, que lhe sussurou ao ouvido, no instante em que o outro lhe chamou de gorda, que o administrador da empresa onde labuta e onde vai deixar de ser paga a 200 por cento nos feriados, não estava nada à espera de uma sindicalista de direita tão deslumbrante, no seu vestido colante de malha preta, e o dedo disse-lhe que ele não se lembra dela gorda, lembra-se de alguém com algum domínio assaz assustador da legislação de trabalho portuguesa, e com lata suficiente para, na primeira reunião, lhe dizer que, se no início da carreira lhe chamavam "the union man", isso era um ímpeto de juventude que, certamente, já lhe tinha passado.
Pois então, finalmente, o indivíduo achou o (t)ralha, e vai utilizá-lo em Tribunal para lhe tentar tirar a custódia da filha, alegando que ela é bipolar, ah, isso e porque ela não lhe corta as unhas e não lhe dá banho, que maravilha, às vezes, diverte-a, diverte-a mesmo muito, diverte-a tanto que até lhe voltou a voz que a reunião com o administrador lhe havia levado com as cheias, mas então, toma lá esta: ela podia ter-lhe respondido que constava no mercado que a sua namorada dava ares de vacalhona (estou a citar, alguém me disse) e que usava vestidos com folhos em casamentos pseudo-chiques onde não havia comida suficiente para os convidados. Mas não, utilizou o penúltimo trunfo, foi mesmo mesmo um golpe baixo, e, por isso, há-de haver alguém, neste preciso instante, que se mira escondido na casa-de-banho de um T3, com vista para a Calçada de Carriche, através de um espelhinho de aumento, daqueles de depilar as sobrancelhas. É que ela foi mesmo má, às vezes, era assustadoramente má, mas já lhe andaba para dizer isto há uns bons três anos, e era agora ou nunca: escreveu no teclado do seu novo Nokia, que já não era azul, mas sim da cor do petróleo e que, infelizmente, já não tinha a funcionalidade de lanterna, e isto, camandro, era quase escusado, era coisa que não se fazia nem ao pior inimigo, mas ela dedilhou e frase fez quase música: ela podia até ser gorda, e formosa, sim senhora (e mais segura do que algum dia esteve), mas ele tinha pilinha de chinês. Minúscula e fininha. E ele, agora, neste instante, ainda está na casa-de-banho, com a fita métrica caída no chão.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Sanchas

Isto tem que ser dito, porque vale, certamente, 50 visitas por dia neste blogue, mais de metade do total deste canto semi-moribundo, largado à mercê das ervas daninhas: há muita gente neste mundo do Blogger e da Google (que, no fundo, são um só, mãe e filho) preocupada com ‘o dia de montar a árvore de Natal’.
São todos brasileiros – o meu vizinho do restaurante Andaluz garantia-me há uma hora atrás, que o Juliano, que não sai detrás do balcão, e por quem a Carolina tem uma paixão assolapada que me permite ter discussões acesas com o meu noivo sobre o referendo do aborto, é brasileiro, mas é um moço muito bom, como já não se encontra, o que significa que, então, para o vizinho, todos os brasileiros, à excepção do Juliano, são uns malandros pagodeiros -, e é nesta casa que saceiam todas as suas dúvidas natalícias inquietantes. Encantada por poder ajudar tanto brasileiro em apuros.
E, se alguém, por exemplo, se desse ao trabalho de pesquisar no Google por ‘sanchas’, este território também será uma espécie de santuário, um reservatório de conhecimentos inúteis. Ninguém sabe o que são ‘sanchas’, à excepção da Lúcia querida, que vive lá longe nas montanhas, e quando vou, armada em porco boletreiro farejá-las ao Mercado de Alvalade Norte, tenho que dizer que procuro 'míscaros', que são cogumelos distintos das ‘sanchas’, mas só se estivesse em Viseu é que alguém saberia o que são ‘sanchas’ e, nesta cidade, tenho que falar em código e dói-me misturar alhos com bugalhos, porque 'míscaros' é uma coisa e ‘sanchas’ é outra, completamente diferente (descobre o João, outro dia, que, na Finlândia, é um prato típico e que se colhem em Agosto – a fixar, esta informação inútil, pode valer outros três ou quatro leitores ávidos de informações idiotas que não lembram ao menino Jesus).
E depois de pedinchar pelas ‘sanchas’, com a voz afectada de quem nasceu e cresceu no Bairro de Alvalade, já sei, já conheço, já vi este filme de trás para a frente e da frente para trás, qual vai ser a resposta da feirante: que a chuva as apodreceu, que em cinco quilos dois se aproveitam, que nem vê-las no MARL, que os cabrões dos franceses nos levam as 'sanchas' de cá para fora para prepararem pratos minimalistas, decorados com raminhos de cebolinho.
Ainda há o Corte Inglés, temos sempre o Corte Inglés, é mesmo a última esperança, mas as 'sanchas' vêm ao cair da castanha, já não há nada a fazer, é um acto de fé inútil, um gasto de energia escusado, e isto é muito preocupante, é mesmo muito, porque no ano passado só comemos ‘sanchas’ uma vez, e este ano parecemos grávidas rabugentas com caprichos impossíveis de atender (Ambrósio, apetecia-me algo, e bardamerda para o Ferrero Rocher, eu quero ‘sanchas’, ‘sanchasssss’), e não tarda, para o ano, talvez, terei de apanhar uma low cost, e voar até Paris para buscar o raio dos cogumelos verdes cobertos de areia, para a Magui me ensinar a lavá-los e cozinhá-los com carne de porco, chouriças e toucinho.
E isto é um pesadelo, é coisa para ataque de pânico e para respiração para dentro de um saco de papel: se a Magui morresse hoje, eu nunca mais comeria 'sanchas', da mesma forma que a Magui nunca mais comeu filhós de abóbora de forma no Natal, porque a avó Tóia não chegou a perder dez minutos e ensinar-lhe a fazer e fritar os doces de Natal (claro que, em matéria de ensinamentos, já decidi que vai ser a Dona Beatriz, do tasco aqui de baixo, que me vai ensinar a fazer rosetas de crochet, porque com a Magui é mesmo impossível, tenho a autoestima em baixo, peso quase oitenta quilos, e a educadora da minha filha mandou uma ficha a dizer que a minha loira não tem o domínio da língua portuguesa que seria desejável para a idade, portanto, não suporto a rejeição de não conseguir aprender por artes mágicas – porque ela não ensina, limita-se a executar a velocidade suprasónica à frente dos meus olhos – a fazer rosetas de crochet; e aqui para nós que ninguém nos ouve, não sei porque me dou ao trabalho: as crianças chinesas têm imenso jeito e vendem-se rosetas de todas as cores nas lojas chinesas a um euro cada dez).
As coisas perturbadoras não param por aqui. Nem sei bem por onde começar. A Polícia Municipal de Lisboa rebocou o meu carro, que estava estacionado em frente a uma garagem abandonada e, por isso, estou 120 euros mais pobre. E, também, pela mesma razão, e porque ainda falta uma semana para o dia de São Receber, amanhã já não vou à despedida de solteira da Joana e, calma, calma que isto ainda piora, não posso comprar um vestido novo, nem ir ao cabeleireiro para chegar mais ou menos deslumbrante à boda da minha querida amiga.
Amanhã, não sou gaja, não sou nada, se não tratar, dois anos depois do que seria previsto e lúcido, do selo de residente do Marquês de Pombal, na EMEL, lá para o lado da rua dos Douradores.
Mas, de vez em quando, volto ao Statcounter, não tal febrilmente como nos dias em que escrevia 1,3 posts por dia, com uma extensão mínima de oito mil caracteres e, assim, descubro que sou a primeira dos links de um blogue coqueluche de esquerda (continuo a não linkar ninguém; continuo a achar que é o low profile que me impede do despedimento por justa causa), e que, noutro, de direita, também estou na molhada de blogs que para lá estão pregados com cuspo. Pela parte que me toca, os links aqui apresentados à direita estão todos ou quase todos semi-mortos, mas vossemecês não perdiam nada se dessem um pulo ao novo blogue do Telescópio .
À noite, porém, apesar de já ter ultrapassado a ‘ressaca’, e de te aprendido que mais vale viver do que escrever, continuo a sonhar com templates. Hoje sonhei com um bem branquinho, onde as palavras se encavalitavam em linhas tortas, desenhadas em Garamond.
O mundo é um local injusto, a sério que é, e não me lembro nada de ter escrito neste quintal que corria na máquina do café que o meu chefe era 'roto', mas tenho, na outra janela, atrás desta, 250 páginas de (t)ralha para cortar para metade, são mais ou menos dois anos de abismo, e quase já não me lembrava que tinha escrito tanta merda, o preocupante é que me parece tudo mau, ou sofrível, pois parece, e para além de despedida, vou ser, também, deserdada, mas, talvez, em Garamond fique mais apresentável e com uma capa bonitita talvez venda mais do que cem exemplares.
Corro para o meu sono de beleza. Amanhã, é bem provável, que seja ainda um dia bem pior que este. Menos mal, porém, pagam-me amanhã para escrever sobre as luzes de Natal.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Princesar


É um verbo inventado por uma Ralha, a Isaura.
Devia passar de mãe para filha, a partir de agora, passa de mãe para filha. Consiste, logicamente, no acto de embonecamento de meninas muito pindéricas, que adoram pinturas, ganchinhos, colares e brincos.

terça-feira, novembro 21, 2006

O professor de Filosofia (fim)

O professor de filosofia chorou. E ninguém estava à espera disso, houve um silêncio constrangedor quando ele irrompeu em lágrimas, apertando o embrulho que eu lhe entregava, à altura do seu peito, em nome de toda a turma.

O professor de Filosofia, cujo nome não era Carlos Pedro, mas, para o efeito desta série de posts, era quanto baste e até resultava bem, ia casar-se. E os seus alunos troçavam, conjecturavam nos intervalos passados na fila do pré-pagamento da cantina para comprar a senha do almoço, ou uma bola de Berlim ainda quentinha para quebrar o jejum da manhã, quem seria a aberração que se submeteria a viver sem televisão, no meio do silêncio e dos livros do professor de Filosofia, mas no fundo, o professor de Filosofia era estimado e muito respeitado.

Sabe-se lá de quem foi a ideia. Provavelmente foi minha, é bem capaz de ter sido. O professor de Filosofia foi um grande mentor, uma pessoa importante para o desenvolvimento da minha personalidade, apesar de não me conseguir recordar do nome dele. Fez-se uma vaquinha. Cada um deu o que pôde, e até as Ameixoeiras, que o odiavam, contribuíram. Não era muito dinheiro, mas deu para comprar uma caneta Parker, de tinta permanente.

O professor de Filosofia não estava à espera, suponho que tenha sido a beleza do simbólico e do ridículo de uma caneta Parker azul-escura que o tenham comovido. Há-de haver muito boa gente que ainda se lembra disto, quero acreditar que não sou só eu, há-de haver muito boa gente que até se lembra do nome do professor de Filosofia e que, de vez em quando, chega a casa com um presente inesperado, só porque se lembra das lágrimas do professor espartano, cuja face, toda ela parecia que lutava contra aquela emoção enquanto eu lhe estendia o embrulho à altura do peito.

Não há mais nada a dizer sobre o professor de Filosofia.

O retrato

Foi uma pergunta desnecessária, no fundo, o telefonema da véspera, à hora do almoço, a pedir-lhe que levasse consigo a máquina fotográfica digital fez antever o filme todo, tim tim por tim tim. A pergunta deveria ter sido outra, mas as perguntas são como as respostas, as melhores chegam sempre tarde demais.

Deveria ter perguntado porquê eu, porque é que me coube a mim, que não sou nem nunca fui a favorita, a fazer-lhe o retrato, e não para que é queria ele a fotografia. O meu avô Ralha, que nunca me ralhou, vestiu-se a rigor, com o fraque, colocou ao peito todas as condecorações de mérito que o Estado português lhe deu, e concedeu-me 20 disparos, em pouco mais de dois minutos.

“É para os meus netos se lembrarem sempre de mim assim”.

É terrivelmente fotogénico, aliás, como todos os Ralhas.

terça-feira, novembro 14, 2006

A Viriato irisada

Cada um descomprime como bem entende e lhe apetece, quem gosta não olha e se acham que eu tenho um pirolito a menos, pois bem, isso afecta-me tanto como um stiletto de biqueira afiada pelo Blahnik, ou seja, nada, mesmo nada, é que a gente já sabe que faz parte do pacote, a dor e os bichanados dos outros a dizerem que devia morar na avenida do Brasil – e eu aí tenho que dar a mão à palmatória e à menina dos sete olhos, ameaças comuns da avó Tóia na minha primeira infância, e concordar com essa teoria: a Magui tem na avenida do Brasil um apartamento devoluto de seis assoalhadas, uma casa onde a mãe da Cristina se penteou durante décadas pelas mãos de um cabeleireiro chamado Florindo, e a casa tem um belo logradouro onde eu podia encaixar todos os meus amigos à volta de uma mesa rasca de plástico comprada nalguma sucursal de hipermercados do patrão, e a Carolina podia rir com todos os seus dentes de mentirosa à mostra, para a fotografia, num vaivém frenético de um baloiço, ou na vertigem da descida de um escorrega; a felicidade cabia toda naquele quintal da Avenida do Brasil -, e é claro que a Isabel soube, quando saía do táxi da Retalis, à porta do número 13, que só havia uma pessoa capaz de estar a soprar bolas de sabão da janela. Eu.
Há quem faça de escriba o dia todo sem pensar na coitada do terceiro piso a quem tiraram o computador e o posto de trabalho. Nada disto me espanta já. Penso, repenso nos últimos dois meses, geralmente, não chego a nenhuma conclusão, e então, estendo a palma da minha mão direita amiúde para ver se adivinho quando é que me oferecem 1,5 salários para que eu deixe de me queixar na Internet, para quem quiser ler, que ganho 4,54 euros à hora e que chega ao dia 15 e eu tenho dez euros para me governar. E perco-me, também, em labirintos psicadélicos com espelhos mágicos que me emagrecem num segundo os quinze quilos que devia perder, a magicar qual será o requinte de malvadez com que me hão-de dar a notícia e dizer-me que a porta da rua é serventia da casa – adianto desde já que arrancar as unhas já não vale a pena porque, deve ser castigo divino por algum dos meus imperdoáveis pecados, e esta semana parti a três unhas praticamente a meio do sabugo (adoro esta palavra). Eu gostava que amestrassem dois grand danois arlequins com problemas de identidade, que se julgassem São Bernardos, e que me trouxessem ao pescoço um cantil proposta lá dentro enroladita. Ou mudando a conversa da água para o vinho, ou neste caso, dos cães para os gatos, gostava que contratassem os felinos que se dizem fedorentos para fazerem um stunt só para mim, à entrada do primeiro piso, que envolvesse a máquina do café, já agora, electroméstico laboral que eu tão bem domino. Nesse dia, se calhar nem regateio 1,7 salários por cada ano de vida, e crio o blogue (T)ralho.
Cada um descomprime como pode.
E quando a hora de fecho se antecipa duas horas, como se de uma directiva comunitária se tratasse para acertar todos os fusos horários dos 25, tenta-se de tudo: vasculha-se o ebay à procura de santas Martas kitsch, recortam-se imagens naifs dos lenços de namorados minhotos para parir um original convite de casamento, mas a mala de uma mãe é como um ovo kinder, uma surpresa, e um brinquedo (ainda não é um chocolate, mas lá havemos de chegar um dia), e acabou por salvar a tarde: quando pus a mão lá dentro e tacteei, sem medo que esta fosse engolida por um monsro, à procura de um maço de cigarros finos, acabei por encontrar um frasquinho de plástico com água e sabão, corri logo para a janela – é a dois passos, não foi grande o exercício, mas vá lá, dêem-me o esconto -, o cenário era o mesmo de todos os inícios de tarde, uma fila interminável de carros e de luzes encarnadas do pé que não sai do pedal do travão, e com um sorriso tolo na cara, que hoje me dei ao trabalho de ensopar com base e blush, soprei. Soprei com requintes de mestre vidreiro as mais belas bolas irisadas que a Viriato já viu.
O Afonso, que nos arruma os carros e que tem mau vinho logo ao início da tarde, lançou lá debaixo os braços aos céus e gritou com a voz já muito arrastada pelos vapores etílicos: A minha rua está tão lindaaaaa. E com os olhos erguidos ao céu encoberto, abençoou os criativos; abençoou-me a mim. O Zé, que estava na janela de cima, a dar de comer ao seu cancro de pulmão com um Ventil original, dos que vêm em maços molinhos e não em caixas de cartão, pediu-me em casamento. A Isabel estava bonita, mesmo muito, e só olhou para a varanda para confirmar que era eu a doida.
Cada um faz o que pode, pelo menos enquanto não se deixa alhear pela realidade. A Viriato parou de sangrar naquele instante e todas as tristezas voaram para longe e rebentaram no chão, como as bolas de sabão.