quarta-feira, dezembro 21, 2005

Post às cinco da manhã (ou as árvores nunca são apenas árvores)

[Post escrito depois de lavar a loiça, depois de causar mais um dilúvio forçado no formigueiro da bancada de mármore da cozinha, depois de ter varrido o chão da casa toda, de ter colado um pedaço de papel de embrulho, com motivos infantis, na porta, com a leitura do contador da água. Post escrito depois de ter estado com o meu melhor amigo, o único homem em que eu acredito, o único que nunca me fez sofrer, de ter passado o tempo todo a olhar para ele, a memorizar o que o tempo e milhares de quilómetros de distância me levam da memória (as rugas junto aos olhos, quando se ri, e o verde azeitona dos seus olhos). Post escrito, única e exclusivamente, porque há leitores que pegam nesta tralha antes de lerem a jornalada, antes de saberem na Lusa se houve algum crash nos mercados internacionais.]

As árvores nunca são apenas árvores, disse-me o Leonardo, citando um senhor qualquer cujo meu cérebro não se deu ao trabalho de memorizar.
A Magui tem passado a última semana a ouvir motoserras a cortar os chopos dos nossos jardins.
As árvores nunca são apenas árvores e a minha mãe está a morrer de tristeza.
Não sai de casa, não me quer ver a mim ou à Carolina. Nem sequer me telefona para me acordar e, por isso, as manhãs têm sido mais compridas, mas os acordares mais tristes.
Ontem estive cinco minutos na Estados Unidos e revi a imagem dela, sentada na cadeira verde de plástico da sala dos gatos, a chorar em silêncio ao som de música celta do Alan Stivell.
Anunciou-me hoje, pelo telefone (fui eu quem tomou a iniciativa de procurar se ela estava viva), que não vai haver Natal este ano lá em casa.
As árvores nunca são apenas árvores e o Carmona podia ter distribuído uns panfletos a avisar o que pretende fazer com aqueles jardins e, francamente, podia ter alguma sensibilidade, e deixar passar as festas e só depois começar a chacina dos chopos da Estados Unidos (as árvores nunca são apenas árvores e matar uma árvore, mesmo que ela esteja doente, o que não me parece que seja o caso dos chopos da Estados Unidos da América, que sobrevivem Verões inteiros sem uma gota de água, dar eutanásia a uma árvore é sempre um crime).
As árvores nunca são apenas árvores, são recordações de um amigo, de um amigo como o Miguel é para mim, que morreu num Natal, faz já muito tempo.
As árvores nunca são apenas árvores, são saudades da mãe que decidiu partir, passados poucos minutos de um ano que acabara de começar.
Será apenas mais um Natal triste.

terça-feira, dezembro 20, 2005

Detesto ser pobre

O Yann Tiersen toca hoje em Lisboa e a mim o que é que me dão? Bananas...
É triste.

Encontramo-nos por aí

Quando a escalada de degraus, que têm e aparentam ter mais de uma centena de anos, estava quase no fim, quando já me tinha conseguido arrastar até ao patamar do terceiro piso, o que tem dois vasos, com duas plantas cuja graça eu desconheço, e que é a minha dica que só faltam 16 degraus a pique, a Carolina a dormir profundamente e a ressonar baixinho sobre o meu ombro direito, e eu, em piloto automático para os espécimes do reino vegetal, "Tchau Flores", e a mão esquerda a dar uma ajuda valiosa às pernas, a fazer batota, agarrando-se com toda a força ao corrimão de madeira, a mão a ajudar as pernas que tremiam reclamando o excesso de esforço, os joelhos a estalarem e eu a imaginar, nas minhas entranhas, a cartilagem cada vez mais desfeita e o ortopedista que trata dos joelhos dos futebolistas do Sporting a dizer-me, há nove anos atrás, que eu tinha as rótulas descentradas, a cartilagem destruída, a falar-me em cirurgia, mas deixando o aviso "Acabaram-se as canzanas, menina Ralha", mas de volta aos degraus, o coração a bater nas têmporas, a respiração descontrolada, mas sem poder exprimir-se em toda a sua sofreguidão para a loira não acordar, e eu a agradecer aos deuses de ter ido ao circo com um vestido encarnado espampanante, mas de sapatos novos, redondinhos, com uma rosinha do lado direito, mas sem salto alto, eu a pisar os últimos blocos de madeira gasta que são a via sacra até a um quarto andar sobre a Duque de Loulé, eu a ter pensamentos profundos, os mais profundos dos últimos dias, e não é mais do que dois minutos, a expedição que vence todos os degraus de Santa Marta, mas já me acontecia isto quando vivia sobre o céu da Estados Unidos da América e a viagem de elevador, os mesmos dois minutos de Santa Marta, nos quais não tonificava os músculos das pernas, o velho motor da extinta marca Hércules é que ficava sem fôlego até ao décimo piso, e já então me deleitava com pensamentos profundos até chegar à porta de casa - às vezes, a viagem parecia um relâmpago, nem se dava pelos andares a passar, outras vezes, pareciam horas, nunca mais se chegava mais perto do céu. (ufa, primeiro ponto final)
E eu a meio das escadas e a luz apagou-se, ainda mais difícil, eu a imaginar a voz do circo a gritar: "grandioso exercício!" E, às escuras, pensava: "O filme acaba hoje aqui, não vai acontecer mais nada". E enganei-me. Toquei no interruptor, fez-se luz, e, no tapete da porta de minha casa, o tapete do falecido senhor que cá morava, um tapete muito ranhoso e poeirento, nesse tapete, estava aninhado, um enorme gato preto e branco, o maior gato que eu já vi na minha vida e eu já vi muitos gatos na minha vida.
Para trás, tinha ficado o circo e a Carolina sentada ao colo da tiazorra bonita que estava na fila de trás e que tratava a sobrinha Constança, de seis anos, por você: "Está a gostar, Constança? Olhe que o senhor não engoliu as bolas, isto é magia, tá?". Para trás ficou o Hotel do Chiado, eu e a Teresinha refasteladas nos sofás encarnados com pés de garra, ambas lindíssimas, ambas devastadas, e a Carolina a aterrorizar o outro bébé da sua idade que ali estava, e a tiazorra que era a mãe dele a dizer: "por favor, tire a sua filha daqui"; para trás ficou o empregado do bar a pedir educadamente para eu controlar a miúda que estava a incomodar os outros clientes, mas isto foi antes de o diabo loiro agarrar no iogurte natural que a Teresinha pagou a peso de ouro e o ter atirado às calças de um homem de aspecto decente, mas de intenções duvidosas relativamente a uma quarentona que estava sentada demasiado perto de si, a fingir que tirava apontamentos num bloco de notas Caravela (por falar em blocos de notas, Teresinha, deixaste cá a tua Moleskine).
E as calças do homem cheias de iogurte junto à braguilha, e eu a morrer de vergonha, e ele: "E agora o que é que fazemos?". E, eu, sarcástica: "Quer que eu limpe?" E ele, para a minha filha, agarrando em meia dúzia de guardanapos de papel, limpando ele próprio a enorme mancha branca: "Nós encontramo-nos por aí..." E eu a franzir o sobrolho, sem saber exactamente o que é que ele queria dizer com isso.
E depois fomos para a rua, subimos o Chiado, e a Carolina quis roubar as moedas do senhor que era surdo, mas que cantava o fado com a alma, junto ao Fernando Pessoa. Poucos metros à frente, quis sentar-se na esplanada e nós acompanhámo-la. Levantou-se logo a seguir e foi tocar guitarra para junto de uns rapazes com péssimo apescto que ali estavam sem fazer mal a ninguém. Mas os rapazes, os tais que tinham ar de drogados, que nem sequer conseguiriam passar do lóbi do Hotel do Chiado, não me vieram dizer para eu controlar a criança porque ela estava a incomodar os outros clientes. Pelo contrário, fizeram-lhe um caniche com um balão azul e deixaram-na tocar guitarra. Nem os brasileiros que servem na Brasileira (que apropriada a mão-de-obra imigrante, neste caso) se queixaram quando ela decidiu reorganizar a disposição das cadeiras da esplanada, não disseram nada, riram apenas, é um bébé, seus idiotas, não faz por mal, e nem sequer tínhamos pago 14 euros por um lanche, na verdade não tínhamos consumido nada. Sentámo-nos e ficámos ali, a falar, uma hora, talvez, com vista para a ruazita da Hagen Dazs (não sei onde é o trema neste teclado, lamento), a rua escondida por onde passa o eléctrico (eu não vi passar nenhum, porém, se calhar já não passa). E, ali, nas cadeiras de metal, estava-se muito melhor do que nos sofás encarnados, com pés de garra, do hotel do Siza. E apesar do frio que me fez cieiro nos lábios, tivemos direito a um trovador de sorriso bonito, da trupe dos rapazes com mau aspecto, que cantou esganiçado apenas para as duas mulheres de casaco preto com coragem de estar na esplanada, cantou palavras tão certeiras, que se tivessemos sido nós a escrevê-las não teriam saído melhor.
É difícil eleger o acontecimento mais surreal do Domingo. A Teresa poderá ter outra leitura do fim de tarde no Chiado, mas, quando a mulher bonita, muito bem vestida e cheirosa, de olhos verdes, cabelo longo negro e raízes brancas, apanhou o caniche-balão do chão e perguntou: "É da sua filha?", eu confesso que este foi o climax e olhei para o meu lado direito e depois para o esquerdo à procura das câmeras. E eu disse que sim e ela começou a desenrolar uns sacos de plástico, e eu e a Teresinha pensamos as duas, ao mesmo tempo, que ela ia fazer uma magia, como no circo, e tirar do saco transparente um rebuçado para oferecer à loira diabrete. Mas não. Dali saíram Dodots esterelizados e impregnados com desinfectante hospitalar, "porque sou médica e esta zona é muito mal frequentada, há muitas doenças por aqui, e eu sempre que ando de metro pego num Dodot e limpo o banco". E dizia isto enquanto me desinfectava o caniche e eu, mais uma vez sem saber o que dizer, disse obrigada, e a Carolina até se portou como o anjo que sabe ser e, no final, deu-lhe dois beijinhos e ela balbuciou não sei o quê sobre o menino Jesus e que esta mensagem tinha que ser transmitida a todos os meninos do mundo e, depois, despediu-se de mim e da Teresinha, desejando qualquer coisa muito católica à nossa descendência.
Conheço a Teresinha há uma semana e três dias, entrou na minha vida da forma mais bonita e mais trágica de sempre, e ambas sabemos, passados apenas dez dias sobre um bife no Snob, que, juntas, inspiramos os acontecimentos mais improváveis, aqueles que só se vêm nos filmes.

Aceitam-se sugestões para acabar com o formigueiro de Santa Marta. Hoje aspirei algumas, varri outras, açoitei muitas mais com o pano da loiça, queimei com o vapor do ferro as que lá viviam, dentro do electrodoméstico (é verdade!) e, agora mesmo, às três da manhã, afoguei um batalhão de infantaria no lava loiças. No amor e na guerra vale tudo. E é sempre assim: uma pessoa dá a mão e lavam logo o braço todo.

São três e vinte da manhã e Diana Quintela pede-me para eu ser "madrinha" da sua carteira profissional de jornalista. Eu estou emocionada e feliz, mana afilhada.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Coisas que quero fazer nestas duas semanas off

Vacinar a miúda (ainda que com seis meses de atraso - o pediatra também não achou grave)
Marcar todos os exames que a minha mãe tem para fazer há uma catrefada de tempo (se calhar morreu e ninguém a avisou).
Legalizar a electricidade de minha casa (coisa que deveria ter feito há um ano e dois meses)
Tratar do selo de residente da EMEL (outra coisa que deveria ter feito há um ano e dois meses).
E para tratar do selo da EMEL, tenho:
Mudar o BI.
Mudar a carta de condução.
Mudar os documentos do Idea.
Mudar o cartão de eleitor.
Ir às Finanças pedir não sei o quê.
(estou a escrever isto e o holandês voador, que não dava sinais de vida há umas semanas, pergunta, no messenger: "Já foste à EMEL?")
Ir comer um bife ao Snob com o Miguel, que chega do Dubai já amanhã.
Desencantar algum espírito natalício (e antes disso, acabar de comprar os presentes).
Escrever muito, mas sem pressas, por causa da tendinite.

E agora tenho que sair que já estou atrasada.

E amanhã declaro guerra às formigas

Apareceram do nada.
Dou por mim a acreditar que só se vão embora quando o filme acabar (posso não sentir nada, posso andar com medo de ter ficado frígida depois desta, mas uma coisa não mudou em mim e ainda bem: continuo a achar o mundo magnífico e a imaginação continua frenética, a misturar, com cuidado, "coisinhas" à realidade - misturar sem bater, apenas envolvendo, como se faz com as claras em castelo).
Tentei a bem, o diálogo, tenham a bondade de me auxiliar e desaparecer sem deixar rasto para o mesmo sítio de onde vieram e de onde nunca deveriam ter saído (escrevo esta frase e uma formiga passeia-se pelo Ibook. Era uma vez uma formiga). Eu nunca gostei muito de formigas, sequer, desde a história da cigarra e da formiga, sempre tive muita pena da cigarra e achei a formiga pouco cristã e invejosa (mas, espera lá, na história, as formigas ficam mansas no Inverno, não é? No Verão é que andaram histéricas... Isto só dá mais força à minha teoria que elas endoideceram na sequência dos recentes acontecimentos que bombardearam esta casa) Mas daí a gostar de as matar vai um longo caminho. O Leonardo disse-me hoje, no circo, que as formigas só aprendem com grandes catástrofes. Uma espécie de complexo pavloviano.
Amanhã vai haver uma calamidade no reino do formigal de Santa Marta. Depois não digam que eu não avisei. Está aqui o pré-aviso e a declaração de guerra.

[o Dionísio já me espera no quarto, que está a aquecer. Vou-me, que não o quero impaciente; ainda me desaparece pela janela e eu não durmo, ou, pior, estraga-me as orquídeas]

Não durmo há cinco meses

Doze e doze. Excelente hora para começar seja o que for. Neste caso, um post. Por enquanto, sem nome.
Perdoa, dona thê (em minúsculas, como gostas; passei a escrever para ti e, se depois desta declaração, tivesses dúvidas quanto à minha orientação sexual, ainda vai que não vai).
O Pestana está a bater à porta - creio que é o Dionísio, padrinho do outro dos hotéis, e temos que ir ao Palace na Rua Jau, agora que começámos uma tradição de beber chá em hotéis cagões - e eu vou abrir, antes que ele desça as escadas, vou deixá-lo adormecer-me com festinhas no cabelo (estou cansada, não durmo há cinco meses. Faz hoje cinco meses que não durmo).
Sentei-me no sofá com a intenção de imortalizar, neste quintal, mais um capítulo surreal das nossas vidas (o que têm os nossos narizes? Transformam o ar poluído da cidade em droga alucinogénea? será isso? ou estas coisas acontecem mesmo?).
Escrevo sempre no sofá. No laranja. Escrevi um bonito no cadeirão branco, mas o laranja, com vista para o chão axadrezado encarnado e beige da cozinha é onde as palavras me chegam em catadupa, raramente de mansinho.
Mas a digestão do bolo de chocolate que degustámos no hotel desenhado pelo Siza e que nunca será o mesmo depois da passagem do furacão Carolina, não me trouxe as palavras que o nosso fim de tarde alucinogéneo no Chiado merece.
Amanhã ponho tudo em posts limpos.
Depois de conseguir dormir.
Hoje não consigo porque é Domingo (e esta última frase é do meu marido literário, eleito há bocadinho a melhor coisinha que me aconteceu este ano; não fica com ciuminho não, dona thê, a menina superou-se em apenas uma semana - uma semana e dois dias daqui a umas poucas horas).

domingo, dezembro 18, 2005

Como não se consegue escrever sobre o vazio, vamos ao circo

Tenho muita coisa para contar.
E vou demorar-me. É trabalho de parto para lá de duas horas.
Se eu desse ouvidos aos meus amigos bloggers de referência, partia os posts. Fazia render o peixe, como uma novela, tinha posts para toda a semana, já nem me chateava a arranjar tempo para alimentar os leitores em plena quadra natalícia, entre arrumações, embrulhos e consumismo. Em vez de um, fazia três. Faria sempre em número ímpar, não podia ser de outra forma. O primeiro começava aqui. Chamar-se-ia "Amor aos Ímpares".
A Magui entranhou-me o amor pelos ímpares quando eu era pequena e fiz disso uma forma de vida. Só se compram flores em número ímpar. Foi assim que eu fiquei doente, com esta tara - a mais perturbadora de todas, com estes números que não se podem emparelhar (e isto explicava muita coisa, agora que penso: nasci no dia vinte e dois, capícua, e, por isso, menos mal; cresci no segundo andar do número vinte e dois, mas acaba aqui o meu negócio com o dois; o que é uma pena, porque como diria a minha amiga Aimee Mann: "One is the loneliest number that you'll ever do"; porém, a moça também diz que "Two can be as bad as one, it's the loneliest number since the number one") é a do volume do auto-rádio ter que estar sempre em ímpar.
O meu volume favorito é o 37. É alto demais. Mas a Carolina não se importa e, sempre que acaba a faixa de um qualquer CD que lá esteja a servir de banda sonora ao meu road rage (deixei praticamente de ouvir rádio), grita lá de trás, dando-me um pontapé no banco, do alto da sua cadeira alemã imoralmente cara: "MAAAIIIIIISSSSSSSS!!!!".
E isso deixa-me feliz. Porque, caros, escrever não é o que eu sei fazer melhor. Considero-me até sofrível na escrita, sobretudo agora, que deixei de saber para que servem os pontos finais e faço parêntesis com mais de mil caracteres lá dentro. E a propósito de pontuação (não sei se repararam, mas estou a esforçar-me neste post, eu nunca lhe disse, e que eu saiba ele também não é meu leitor, mas isto tem que ficar registado para a posteridade: eu não saberia pontuar tão bem com vírgulas, se não fosse a infindável paciência e generosidade do Paulo Madeira, meu sub-editor durante uma infindade de tempo).
E hoje, a cantar em coro com a Elis o "Como os nossos pais", nasalada, meia rouca ainda da amigdalite, 140 quilómetros hora pela A5 a dentro, pisca esquerdo sem descanso, e "a minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos, nós ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais", e eu a achar isto belo e verdadeiro, universal e absoluto, a vida a repetir-se, sou morena, não sou loira como a minha mãe, temos a boca parecida, porém, carnuda, e é tudo tão replay que já comecei a não me amofinar (é o que ela me diz, quando eu lhe conto mais uma desventura e eu conto todas as minhas desventuras à minha mãe e ela: Não te amofines, filha).
E contando-lhe tudo, no café das velhas, na esquina da Gama Barros, ela passa-me o certificado oficial de que não estou ainda a fazer nada de muito horrível, estou apenas a tentar encontrar o caminho para dias mais úteis e, portanto, mais felizes, e com esse carimbo na mão, mando-me mais uma vez de cabeça, e mais uma vez, também, me dou mal.
Às vezes, a minha progenitora loira, sem um único dente nas gengivas, é má e diz que os homens só servem para procriar, para garantir a continuação da espécie, que os humanos teriam mais a ganhar em ser como as viúvas negras ou os louva-a-deus, que matam os machos após ou durante a cópula.
Às vezes diz que eu estou às portas dos 30 e eu fico triste por ninguém me pegar, olho no espelho, procuro defeitos, sei que tenho um nariz estranho, com personalidade, como diz o Ganilho, e sou ligeiramente estrábica. Há a história do duplo queixo quando me rio com a alma e dois sinais de nascença enormes, em locais estratégicos.
Depois, há dias em que a Magui me recebe em casa com um artigo da Science et Vie que afirma, baseado num estudo realizado à escala mundial, que a proporção do meu corpo é a mais apreciada pelos homens (cintura 70/ anca 100, não falam é das mamas no artigo, enfim...). Diz isto para ver se eu não me recuso a comer o jantar, feito com carinho (e ainda não nos refizemos, mãe e filha, de termos comido sanchas apenas uma vez, neste Inverno), diz isto para ver se eu meto na cabeça que não é defeito meu. Mas depois não se alonga, fez o seu dever maternal e muda de assunto de rompante, revelando-me que descobriu no Discovery Channel que todos os dias damos, pelo menos, trinta peidos. E eu a rir como o Filipe Sena (ela é que o diz; é um riso que dá vontade de rir): "Eu não ! Não dou trinta peidos por dia!" E a minha mãe: "Dás, dás, porque senão estavas muito mal. Isto é o mínimo diário".
Mas "não quero lhe falar, meu grande amor, das coisas que aconteceram comigo". Este à parte foi por causa do "Como os nossos pais".
A Carolina não sabe falar quase nada, mas já trauteia os clássicos, de tanto os ouvir aos altos berros no carro (gosta do Pedaço de mim, do Chico, que, para mim, Ana, é a melhor de todas). E isso faz-me feliz (mas não a obrigo a tocar piano se ela não quiser e desejo, francamente que desejo, que ela seja como o tio, genial, ou então média, normal, apenas não desejo que seja satisfaz bastante, como a mãe, porque não há nada pior do que falhar por um bocadinho).

O segundo post começava aqui, se eu os conseguisse dividir.
Não faz sentido parti-los. Só existem porque eu me sentei no sofá ex-laranja, camufaldo de verde fluorescente, porque me sentei e senti vontade de escrever para encher o vazio de um quarto andar sobre a Duque de Loulé, porque são três e um quarto da manhã e eu ainda não tenho sono. E quem não tem paciência para os ler, quem acha que a letra é demasiado miudinha e de difícil leitura porque o fundo é preto, está, inequivocamente, no blog errado: aqui não há quase filtros, escreve-se lençóis que se deixam a corar ao sol. Omitem-se os pontos finais e, de vez em quando, os nomes dos implicados nas histórias. Há apenas um tabú, recente: a história que de mau gosto que me bateu à porta e me esvaziou (a mim e à menina das bolinhas). Apenas se a nomeia. Ficam a saber que aconteceu algo terrível, algo que eu considero terrível. Comigo e com a minha amiga.
O segundo post devia chamar-se assim, O Inominável.
Mas não tinha nada a ver com a tal história. Tem a ver com um sonho que me visitou nas poucas horas que dormi na noite passada. O incitável mais citado deste blogue tem cunha nos Pestanas e meteu-se entre os lençóis comigo (salvo seja). No sonho, apareceu apenas para me dizer isto: "Oh Calimera, qual é o dramalhão hoje?" E depois de perguntar por novidades do mundo da alta política e de eu, como sempre, não ter nenhuma para lhe contar, isso é a sua área de excelência - por acaso tenho uma novidade do mundo da liliputiana política e por acaso era boa para o jornal do mano -, rectificou-me: Oh, gaja! Estás sempre a citar-me no teu blog. Não dizes é o meu nome. Logo, eu não devo ser tratado por incitável, mas sim, por inominável".
Assim funciona o meu cérebro. Nunca pára. E não perde uma boa oportunidade para me rectificar. E assim acaba o segundo post (tudo escrito sem cigarros; a minha amiga deu-me cigarros finos para o caminho, mas ficaram no tabelier do Idea).

O terceiro chama-se Circo.
Eu fui ao circo pela primeira vez aos 24 anos. Foi a minha querida M. (aka "Astride") quem me levou, era muito cedo, muito manhã e eu nessa altura também quase não dormia, fomos no Corsa preto, fomos ver o Circo do senhor Vitor Hugo Cardinalli, que é fino (com um nome destes, com dois éles o que é que se esperava?) e fixou morada no Parque das Nações. Dias depois, a mesma M. levou-me ao circo chinês, no Pavilhão Atlântico.
Com 20 anos de atraso, alguém se dignou a levar-me ao circo. Duas vezes na mesma semana. Alegria demais para uma criança à porta dos 25 anos. Adorei as "Magníficas pirâmides" de elefantes do Cardinalli. E quis ir tirar uma foto com os tigres bébés, mas a M. não alinhou. Bati palmas, muitas, ri-me, tive pena quando acabou. Gostei mais deste circo bas fond, com aquela do "magnífica pirâmide" do que a belíssima versão chinesa.
Lá em casa, o pessoal sempre foi eclético, discutia-se política nacional e internacional ao almoço, e eu apenas queria fazer vestidos para as minhas Barbies e, no máximo, ler os contos da Condessa de Ségur. E ir ao Circo, mas a Magui não gosta de palhaços. E o meu mano, nessa altura, decerto, preocupava-se com a ressaca do 25 do 4 e para onde caminhava este país. Pouco o inquietavam os tigres, os leões, os engolidores de fogo e malabaristas. Muito menos os palhaços.
Amanhã vou ao circo com o meu irmão, com vinte anos de atraso. A minha filha, de dois anos apenas, há-de ir ao circo todos os anos.
Como os dias têm sido uma fun fair, levo comigo a menina que tem lábios que parecem rosas de santa Teresinha. Que só por isso não se chama Beatriz ou Carolina (estou certa, não estou? foi este o primeiro post que eu comentei no teu blog, parece-me)

8.200 caracteres. Porque hoje é Domingo.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Sem nome (reeditado, que o outro estava uma boa merda)

Tenho estado à espera. De cair em mim.
A alma foi dar uma volta ao bilhar grande, foi ver se eu estava ali na esquina de cima, ao pé do Sheraton, disse que ia comprar cigarros - Dunhill, porque a alma é a coisa mais fina que há em mim - e não voltou. Desapareceu de casa da sua mãe, sofre de algumas perturbações mentais congénitas raras, de menor importância (ver luz onde só existe escuro e cores berrantes onde a realidade é monocromática, em gradientes de cinzento), mas é considerada inofensiva pelas autoridades. Vestia calças de ganga de marca Lee a caírem pelo cú abaixo e uma camisa preta com dezenas de pequenos botõezinhos e, para ser honesta, nem sequer me lembro qual foi o dia em que ela abalou (foi esta semana, parece que foi há muito tempo).
Tenho estado à espera. De reagir da forma como sempre reajo: com muito sangue, com muitas lágrimas.
Nada.
Emagreci dois quilos.
Rio muito.
Fumo muito.
Fiquei doente, o de sempre, amigdalite, o manhosococus atacou-me as debilitadas e cansadas defesas imunitárias.
Não durmo porque nada encaixa com nada, as peças todas na minha mão, mas parece que já não sei fazer puzzles, quando essa é uma das minhas maiores aptidões, desde pequena - aos seis anos gostava dos de 50o peças do Mordillo e o meu recorde foi encaixar uma paisagem muito pirosa, dividida em três mil pedaçinhos de cartão, que fiz em trio com a tia Lena e o tio Carlos, durante os três meses das férias de Verão. Tinha uns oito anos. De manhã fazíamos o puzzle (começa-se sempre pela moldura), à tarde eles estudavam para a tese (seria de mestrado, na altura?) e, para me entreter, durante a digestão, enquanto não podia ir a banhos para a piscina do avô Ralha, davam-me testes psicoténicos e de QI que fazia com gosto e dedicação, cujos resultados me punham quase sempre a raspar o genial.
Estou sempre à espera de sair deste coma. Com uma notícia de jornal sobre uma qualquer desgraça ou aberração da realidade, com o facto de o incitável já me chamar "Calimera" (se eu estivesse no meu perfeito juízo bastava isso para me pôr a chorar - é que eu não tenho vergonha de estar triste), com um comentário simpático e atencioso, dos que aparecem neste blogue.
Mas nada.
Até agora, nada.
Dói-me as entranhas quando vejo os olhos verdes da minha amiga, ou quando vou espreitar o seu blogue das bolinhas. É só.
Se calhar, estou a ficar um icebergue como a Magui.
Há um post que eu gosto muito, destes últimos semi-neuróticos (nos próximos dias vou publicar aí um best of, porque esta horta está quase a fazer um anito de vida e isto vai mudar, tem que mudar, de facto já não há paciência para tanta desgraça e vou voltar a escrever as histórias da minha família, dos personagens estranhos que passam por mim e, bem vistas as coisas, até devia mudar de layout), e nesse lençol, escrito no dia em que fui dispensada via messenger, eu escrevi que esperava tudo. Menti: não esperava mesmo que aconteceu. Até porque, a noite em que o destino decidiu juntar-nos, tinha uma lua crescente absurdamente bela e irregular e o bife pelo qual sonhei, quase três anos da minha vida, estava uma delícia.
Não dói.
É só a supresa, o espanto face à cadência de coincidências à filme psicadélico de um qualquer realizador alternativo, que seria um êxito de bilheteira de tão surreal, retorcido e fantástico que é o seu argumento.
Mais uns dias e vou conseguir fechar a mandíbula. Mas não conseguirei cerrar os dentes de raiva e ficar com o rosto menos bolachudo e mais anguloso, com os maxilares marcados nas maçãs do rosto.
E isso não é à Ralha.

Incoerências

Eu não sou coerente.

Defendo a pena de morte, mas sou contra o aborto.
Digo ser alérgica a comunistas, mas uma das minhas melhores amigas é "casada" com o partido e escreveu um livro com o Cunhal (que eu nunca li, é um facto). E, olhem, esta também é bastante divertida: sou super fã do Carvalho da Silva (mas ele é um revisa não assumido, não é? Deve ser por isso...).
Acho o capitalismo perfeito, porém, acredito e luto pela defesa de grande parte do legado do Estado-providência.
Dana-me que o raio da Constituição do meu país democrático tenha escarrapachado, no Preâmbulo, que vamos todos, cantando e rindo, "abrir caminho para uma sociedade socialista".
Digo ser de direita, mas não sou praticante. Se o poder e a riqueza tivesse ficado nas mãos que tradicionalmente sempre os tiveram, toda a minha família seria pacóvia e miserável lá para os lados de Viseu. O meu avô Ralha não teria sido várias vezes secretário de Estado nem um cientista notável, e o meu avô Oliveira não nos teria deixado um património imobibiliário avaliado para lá de cinco milhões de euros.
Votei mais vezes na esquerda que acho "divertida" (no partido do Garcia Pereira - não acho o Soares divertido, muito menos o Bloco...) do que propriamente na direita. Geralmente, voto em branco, mas voto sempre, porque acho que houve muita mulher com tomates (e provavelmente pelos debaixo dos braços, coisa que não advogo) a lutar há menos tempo do que efectivamente parece, para que eu, gaja, tivesse esse direito, que também é dever. Das vezes que votei na direita, votei no partido que se apropriou indevidamente de uma das minhas cores favoritas, o laranja, e confesso que fiquei com náuseas logo a seguir a meter a cruz no boletim.

Sou mãe solteira, acho que nunca me vou casar, apesar de continuar a acreditar no Amor e na Família. Não sou católica, não sou de religião nenhuma aliás, mas acredito em Deus (agora sim com maiúscula, fizemos as pazes ontem, no fim de tudo, de toda a sujeira dos últimos dias, apercebo-me que ele não andava zangado comigo, nem que tinha desaperecido, andou a escrever com uma caligrafia linda, desenhada com primor, em linhas tortíssimas e num papel rasca).

Tudo isto para vos dizer que a bébé que vem nas notícias e que tem um nome que todos nós devemos não esquecer - Fátima Letícia - não tem nada a ver com a eleição do Presidente da República. Era um desabafo meu face ao silêncio da blogosfera de "grande envergadura" (hoje em dia leio mais blogues que jornais) face ao aberrante crime que foi cometido na terra da minha família. Aparentemente, como diz o FTA no seu blogue, o mal banalizou-se.
Os meus dois incitáveis favoritos lá se redimiram, nos blogues que eu não posso linkar aqui - mas posso escrever os nomes, não? Glória Fácil e Mau Tempo no Canil -, senão a maralha apanha-me este quintal e ele fica cheio de ervas daninhas.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Post que eu não devia escrever

Enquanto não me ligam da câmara de Lisboa a explicar-me porque é que estão a cortar os chopos do jardim onde eu cresci, enquanto a febre sobe, da amigdalite que me veio visitar esta noite, enquanto respiro com dificuldade por uma narina menos congestionada.

Mas os chopos deixam de ter importância, deixa de ter importância a insensibilidade do meu amigo incitável face à minha hiper-sensibilidade botânica (quase que chorei, meu sacana, com os teus comentários horrorosos acerca dos meus chopos que estão a ser mortos pela trupe do Carmona), tudo deixa de ter importância.
O lixo dos últimos dias parece apenas um cotãozinho debaixo do sofá, porque uma bébé de 50 dias foi abusada de todas as formas possíveis e inimagináveis, porque a Comissão de Protecção de Jovens e Menores não viu nada e lava dali as suas mãos, porque o Tribunal de Menores não mexeu uma palha, apesar de o primeiro internamento da criança ter sido aos 14 dias de vida - "Não estamos dentro da mente das pessoas", é o título da entrevista a uma senhora que se chama Maria do Carmo Sá e que me mete nojo -, porque ninguém se deu ao trabalho de verificar que o progenitor da criança estava envolvido em vários processos de abusos sexuais, porque, leio, na legenda da foto: "A PJ está convicta de que só o pai terá agredido a bébé; a mãe limitava-se a observar sem intervir".

Eu não posso ler estas notícias, eu não devia ser jornalista e este é um post que eu não devia escrever. Como o que anda perdido nos arquivos deste blogue, o da Vanessa, a menina de olhos azuis que foi deixada morrer pela avó e pelo pai, a foto da menina mascarada de chinesa na primeira página do Correio da Manhã, a Vanessa que foi retirada aos padrinhos que a criaram até aos cinco anos, a Vanessa que foi queimada com água a escaldar e que agonizou até à morte.

Mas anda tudo muito preocupado com quem vai ser o próximo PR, ou quem ganhou o frente-a-frente de ontem. Puta que pariu este país! Decidi agora mesmo: a 22 de Janeiro dou o meu primeiro passo para dentro do grupo da sempre vitoriosa abstenção.

Doidas, doidas, doidas andam as formigas

Eu nem ia ligar o computador esta noite.
Esta noite, sei-o, vou dormir sem sonhos.
Mas decidi, meia hora depois de lutar com o esquentador por uma chamazita forte que me desse água quente, água a escaldar, para eu fazer uma sabonária (ou saponária?) bem potente para me limpar do lixo dos últimos dias (a cidade está cheia de lixo, já repararam como a cidade está cheia de lixo?), meia hora com o dedo a carregar no botão do esquentador (Bruno, socorro e não, não consigo saber qual é o modelo do esquentador, apenas que se chama Vulcano), meia hora a estudar todos os movimentos das formigas que enlouqueceram e decidiram fazer-me companhia em noites de insónia, trinta minutos a tentar perceber se aquela grande da foto será a formiga-rainha (ou isso é as abelhas?), meia hora a rir sozinha que nem louca na cozinha-bordel: com as formigas que ensandeceram (eu não as matei, claro, dei-lhes um prazo para desaparecerem da mesma forma que apareceram, do nada), eu a rir com o técnico de seguros da Zurich que me telefonou e diz que a Polícia tem os meus dados, que eu presenciei um acidente na A8 que meteu tiros e tudo - e eu: não fui eu, eu sei que o senhor tem os meus dados, mas eu acho que me lembrava se tivesse assistido a um tiroteio na A8. E, numa micro-fracção de segundo, a pensar cá para comigo: ou passei a ténue linha e enlouqueci, ou é da droga, mas eu não me drogo já há algum tempo, não tomei nada hoje, nem almoçei, portanto, é impossível ter ingerido alguma coisa alucinogénea, porque simplesmente não comi, alimentei-me de um maço e meio de cigarros. E eu para a Anabela, que era a única viv'alma que estava ao pé de mim: tu ouviste este telefonema, não ouviste? Isto está a acontecer, não está? E ela a dizer que sim, a rir-se, e eu a achar que se calhar não foi desta, que ainda me aguento lúcida por mais uns tempos, mas isto foi antes de o taxista me levar a contra-gosto até à casa dos Bicos, porque estava muito trânsito, porque, disse-me: "não sabe que só se anda de transportes públicos a esta hora do dia, nunca de carro?", e eu a dizer para ele estar manso, o Pedro ao telemóvel comigo e eu a dizer-lhe para ele estar manso, que de uma queixa na Retalis já não se livrava. O Pedro a dizer-me, encostado ao meu ouvido direito, para eu sair do carro e apanhar outro táxi, mas não, obriguei-o a ir até ao fim, e o gajo a bufar o tempo todo, com o rádio aos berros apesar de eu estar a contar ao telefone a minha triste história ao meu ex-marido, o gajo nervoso e eu a rir da minha desgraça com o Pedro, e o Pedro a achar que desta vez é que foi, que me superei, que a vida me deu uma overdose de uma droga potentíssima chamada inesperado, o fogareiro a bater no volante com as mãos, marcando o ritmo da música da sua raiva por mim, e chegados à casa de de nome sugestivo do Campo das Cebolas, passou o recibo da corrida e depois chamou-me puta pela janela (estás bem fodido comigo, motorista do 659, não ouviste a Isabela - esta só tem um éle - a chamar pelo rádio um crédito à rua Viriato em nome de Diana Ralha? Estás a ver o apelido, otário? Achas que é por acaso, meu grande filho da puta?)
Tenho um blogue novo, onde ainda não escrevi nada. Era para histórias de filme B como a que aconteceu entre ontem e hoje, a mim e à minha amiga. Mas esta não fica escrita. A palavra escrita é a mais poderosa das armas, é a Beretta que eu melhor manejo, a palavra escrita não é etérea como a falada, perpetua-se no tempo, pode nunca desaparecer, sobretudo aqui, no computador e na Internet. A palavra escrita em papel rasga-se ou queima-se, que é mais bonito, e acaba. Os ficheiros binários, zeros e uns a dar com um pau, são como os deuses, são eternos diria eu, porque depois de apagados vão para onde? Ninguém sabe e eu imagino um cemitério bonito com ciprestes e jazigos de famílias nobres e cruzes simples das famílias mais humildes. E esta história é tão feia que não merece ser escrita em lado nenhum. Para a posteridade ficam os cinco meses de uma história de amor que eu escrevi neste blog. Que nunca existiu. Apenas na minha cabeça.

Como sempre escrevo demais. Obrigada aos que conseguem ler os lençóis.
Vou dormir. Estou com sono. Espero que a caixinha de madeira gasta esteja já a dormir também.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Ask your saint who he is. Ask him who he's killed.

Esta é do The English Patient. Depois de ontem martela-me a cabeça, até lateja.

102. INT. THE MONASTERY KITCHEN. NIGHT.

Caravaggio comes into the kitchen. Hana is slumped at the table, her back naked. The jug of water in front of her. She's sobbing, her shoulders heaving. Caravaggio approaches tentatively.

CARAVAGGIO
Hana?
(he touches her shoulder)
Hana? Are you alright?

HANA
(without raising her head)
Don't touch me if you're going to try and fuck me.

CARAVAGGIO
(soothing)
I'll have some of your water. It's hot.

She reaches for her blouse, wraps it around herself. Her face is read with weeping.

CARAVAGGIO
(gently)
You have to protect yourself from sadness. This is the thing I've learned.(drinking the water)
You're in love with him, aren't you?
Your patient. Do you think he's a saint or something? Because of the way he looks? I don't think he is.

HANA
I'm not in love with him. I'm in love with ghosts. And so is he. He's in love with ghosts.

CARAVAGGIO
Who are his ghosts?

HANA
Ask him.

CARAVAGGIO
(he holds up his hands)
What if I told you he did this to me?

HANA
(stung)
What? How could he have? When?

CARAVAGGIO
I'm one of his ghosts and he wouldn't even know. It's like he slammed a door in Cairo and it trapped my fucking hands in Tobruk.

HANA
I don't know what that means.

CARAVAGGIO
(shrugs)
Ask him. Ask your saint who he is. Ask him who he's killed.

Evanescense

Eu não sei o que quer dizer a palavra, não há nenhum dicionário aqui no pasquim e o Google não me ajuda, só desajuda. Soa bem, soa a algo etéreo. Eu gosto da menina que canta nessa banda (já sei que é um defeito de personalidade, não é preciso comentarem mais), que vendeu milhões de cópias por esse mundo fora. Gosto dos cabelos pretos enormes até ao fim das costas, gosto dos olhos verde água, gosto dos corpetes com barbas de baleia, das botas da tropa, dos olhos pintados de negro ou de encarnado, gosto sobretudo quando ela canta esta dos Korn:

Thumbing through the pages of my fantasies
Pushing all the mercy down, down, down
I wanna see you try to take a swing at me
Come on, gonna put you on the ground, ground, ground

Why are you trying to make fun of me?
You think it's funny?
What the fuck you think it's doing to me?
You take your turn lashing out at me
I want you crying with your dirty ass in front of me

All of my hate cannot be found
I will not be drowned by your thoughtless scheming
You can try to tear me down
Beat me to the ground
I will see you screaming

Thumbing through the pages of my fantasies
I'm above you, smiling at you, drown, drown, drown
I wanna kill and rape you the way you raped me
And I'll pull the trigger
And you're down, down, down

Why are you trying to make fun of me?
You think it's funny?
What the fuck you think it's doing to me?
You take your turn lashing out at me
I want you crying with your dirty ass in front of me

All of my hate cannot be found
I will not be drowned by your thoughtless scheming
You can try to tear me down
Beat me to the ground
I will see you screaming

All my friends are gone, they died (gonna take you down)
They all screamed, and cried (gonna take you down)
I'm never forget, never forget back against the wall
Gonna take you down

All of my hate cannot be found
I will not be drowned by your thoughtless scheming
Yeah you can try to tear me down
Beat me to the ground
I will see you screaming
All of my hate cannot be found
I will not be drowned by your thoughtless scheming
So you can try to tear me down
Beat me to the ground
I will see you screaming

O Cd andava desaparecido há meses e meses.
Hoje, antes de sair, fui à prateleira, escolher a banda sonora do dia, queria um CD aparvalhadamente alegre. A escolha recaiu nos Enapá 2000. Apetecia-me ouvir "masturbação a bem da nação". Meti-o na mala que uso ininterruptamente há três natais, uma fake da Todds, que o Miguel me trouxe do Dubai. Cheguei ao Idea, abri o CD e estava lá o dos Evanescense.

Apropriado.

Mau tempo no quintal

Chegou a hora da revolta dos drafts: não há mais rascunhos acumulados neste blogue, amotinaram-se, eu devia ter pensado nisso, era um exército já numeroso, são bons guerrilheiros e por isso é que nunca foram publicados, por isso é que eu os alimentava a pão e a água para ver se ficavam quietinhos onde eu os fechei, são diários de ódio, são meus filhos também, são teus filhos, sobretudo, e eu tenho vergonha por terem nascido assim, clandestinos, amputados, mas descobriram a senha da revolta - três voltas para a direita, uma para a esquerda, outras três para a direita -, têm sangue na guelra, são manhosos, são, também, traiçoeiros e decidiram atacar hoje pelas minhas costas, jogar o tudo por tudo, sem sequer me deixarem vestir a cota de malha - nem digo a armadura, apenas a cota de malha -, não me deixaram engolir qualquer espécie de anestésico.
Cheguei a casa, deitei a Carolina, disse-te que não ia fazer nada ilegal, prometi e eu nunca faço promessas que sei que não posso cumprir - aprendi isso com o Fim da Aventura, do Graham Green e eu dava uma católica fervorosa como ele se a Magui não tivesse trauma das freiras que lhe cortaram as tranças em frente às outras meninas do internato, se não tivessem posto a dormir de castigo noites e noites a fio nos corredores escuros dos conventos do Norte do país onde os meus avós a desterraram; dava sim, seria crente, fé inabalável não me falta, e por falar em fé, onde é que andam os Deuses vingadores do olho-por-olho, dente-por-dente de que o Antigo Testamento tanto fala? É tão antigo que já está com reumático? E é mesmo isso, vou pôr o filme já, a punch line da capa dá-me vontade de chorar, mas nem isso consigo, estou mesmo a precisar de ver uma história de amor bonita (é baseada na triste história verídica do próprio escritor), quero ver a cena do bombardeamento, ao som do piano do Nyman, a Sarah a dizer ao Bendrix, depois de ele ressuscitar por milagre, que o amor não acaba só porque se vão deixar de ver - eu acreditei nisto -, dizia, antes de me perder, sem cansar os pontos finais e abusar das vírgulas (mais uns anos assim e recebo o Nobel da Literatura), fui à casa-de-banho laranja, abri o armário do IKEA que comprei e montei com a ajuda do Mário num instantinho, procurei a caixa dos pensos rápidos, abri-a, tirei meia dúzia dos grandalhões - a ferida é grande e eu sei que até precisava de pontos -, desabotoei os botõezinhos minúsculos da camisa preta e colei vários do lado esquerdo do peito, e pensei forte no meu querido Stucky a dizer-me, já a propósito desta história: "Se se magoar, bota band aid que sara".
É desta que eu emagreço. É ridículo dizê-lo com uma mão cheia de rebuçados bolas de neve da velhinha marca Vieira de Castro em cima do sofá que era laranja e agora passou a ter uma coberta verde alface, mas é desta que eu páro de comer por desgosto.

Mais posts que vão sair de draft:

Carta ao Pai Natal

Natal de 1986 (com oito anos de idade)

Querido Pai Natal,
Como sempre as notas foram boas e eu porto-me sempre bem. Queria muito que o Hugo passasse o Natal em Lisboa, que não fosse para a Guarda, e que o Leonardo me parasse de puxar as tranças. Queria um bloco de folhas queridas, um diário, uma Barbie e umas roupas para ela. Claro, um Ferrari Testarossa e um gato persa azul. Mas eu já sei que estes são difíceis.

Natal de 2005,

Querido Pai Natal (ou qualquer outro senhor de barbas que decidiu ensinar-me uma qualquer lição perversa que já aprendi da pior forma, pergunte à santinha da minha rua se não aprendi)

Como sempre, as notas foram boas (cobri uma campanha eleitoral e deram-me palmadinhas nas costas) e eu porto-me bem de vez em quando - trabalho no melhor jornal do país, estou no quadro há não sei quantos anos, tenho um ordenado que faz três salários mínimos nacionais, casa e carro próprios. Queria que o Hugo passasse o Natal connosco e não fosse para Viseu, e que o jornal do Leonardo não fechasse nunca. Peço-lhe, também, menos dores nas costas da minha mãe e que ela se habitue finalmente a usar a dentadura postiça. Um diário também pode ser, porque vou queimar uma Moleskine formato de repórter onde escrevi um amor, por isso, pode esquecer já as folhas queridas, não estou com paciência para elas - lembram-se das folhas queridas, meninas? os meninos coleccionavam cromos e as meninas folhas queridas... Esqueça o Ipod, é um mero sonho idiota de consumo, não me faz falta alguma, assim como mais roupas ou sapatos. Quero paz, não quero ficar cega de tanto ver, protega os meus olhos de noite e de dia. Arranja-se paz? Eu sei que a lista já vai extensa, mas quero um grande amor também. Um que me dê pelo menos um terço do que eu lhe vier a dar a ele. E um mecenas que me pague as aulas de piano. E para isso, claro, que a tendinite passe como por milagre (vingue-se em qualquer outra articulação do meu corpo, mas poupe as minhas invulgares mãos). Mas eu já sei que estes são difíceis.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Link sem link

É pouco sensato linkar um blogue de um perfeito desconhecido, onde eu fui parar através de um dos meus passatempos favoritos das noites brancas de insónias - que ultimamente são cada vez mais frequentes e cada vez melhores: misturam, envolvendo cuidadosamente sem bater, o ultra-cansaço, a tristeza, o desânimo de alma, a uma tendinite tendinite aguda na mão direita -, que é ver a publicidade do Tv shop. Ah, não! Isso era antes de eu entrar para a blogosfera (eu detestava a blogosfera; este blogue não existiria senão fosse o amigo que já não é). Agora gosto de levar o cursor ao canto superior direito das páginas do universo blogspot e clicar freneticamente em "next blog" até os Pestanas me baterem à porta de Santa Marta.
O blogue em questão é recente e, pela qualidade fantástica da escrita e do estilo curto e grosso, eu diria, sem ter tirado um curso por correspondência sobre o assunto, que o seu autor, um tripeiro conservador e abstémio sexual, é um blogger à séria, daqueles ávidos de fama e reconhecimento, um blogger que decerto pediu ao Pai Natal entrar rapidamente para o top 20 do blogómetro nacional (decerto há muito blogger deste rectângulozito que quase venderia a alma ao diabo da blogosfera para destronar os primeiros lugares do blogómetro nacional, inabaláveis, liderados sempre por blogues com nomes tão sugestivos como: pitas malucas, das gatas doidas, contos eróticos, mulheres nuas de portugal e o raio que o parta).
E estes senhores bloggers, os da primeira divisão, não usam o statcounter, medem as suas audiências com um programinha feio e verde chamado site meter e deixam que o weblog lhes pape as estatísticas privadíssimas dos seus blogs e as publique num ranking (sosseguem ip's anónimos desta horta cheia de araucárias e cedros orquídeas e libelinhas: eu nunca farei tal coisa e apenas sei deste esquema de exibicionismo porque o senhor que trabalha à minha frente, e que tem um blogue que outro dia estava em 39º lugar dessa lista, por cima do contos eróticos e por debaixo das pitas nuas, me explicou).
E esses bloggers também passam a vida no technorati a ver quem é que os anda a linkar por esse mundo fora (eu só fui lá a semana passada, porque li num blog de referência nacional uma frase deste género: "quem nunca foi ao technorati ver quem anda a linkar os nossos blogues e posts?" E eu imaginei-me tímida, encolhida, pescoço encostado ao peito com vergonha, numa carteira de madeira das duas escolas oficiais onde estudei e tirei boas médias sem estudar grande coisa - escolas sem crucifixos nas paredes, mas, em vez deles, mapas das antigas colónias ultramarinas -, com um dedinho da mão direita erguido: EU! Mas agora já fui e descobri que Ourém me ama! Obrigada Ourém!!! E que graças aos esforços de muitos queridos amigos que se preocupam de facto comigo, não sou linkada por ninguém "importante" da blogosfera!)

Por isso, porque eu não quero que este blog vire livro e sou muito feliz com os meus 200 a 250 pageloads por dia e com os meus leitores de Ourém que me linkaram, este link tem que ir sem link: digitam na barra do endereço pif-paf e depois a história do blogspot. Vale a pena. É muito divertido.

Breve apontamento botânico (eu sou aquela)

Eu sou a mulher que anda com a cabeça sempre erguida para o céu, a que destoa com todos os outros que fixam os olhos nas pedras da calçada, sou aquela que anda à procura das árvores que dão sombra à minha cidade, sou a que suspira pelos diospiros da vizinha alentejana do segundo andar que ainda não nasceram (nem nascerão, a Magui diz que deve ter sido da seca do Verão), sou a que aguarda pacientemente pela floração lilás dos Jacarandás da Almirante Barroso, da 5 de Outubro e do Parque Eduardo VII, a que sonha o ano inteiro com o perfume das tílias da Avenida da Igreja.
Eu sou a mulher que ama a "bela sombra" da Estados Unidos da América, a árvore africana cujo nome procurei nos compêndios botânicos do Zé Ralha, a árvore de tronco monstruoso e fruto psicadélico, onde brinquei com o Hugo quando era menina.
Eu sou aquela que se emociona com os plátanos da Viriato encarniçados pelo Outono, ou com o amarelo canário das folhas que parecem leques das Ginkgos Biloba, da João Crisóstomo e da João XXI (a Magui diz que a Câmara deve ter aproveitado um saldo de Ginkgos, que hoje em dia não se vê outra coisa pela cidade).
Sou a que gosta das árvores que ninguém gosta, de chopos e eucaliptos, árvores de raízes profundas, as que roubam toda a água aos solos e à vegetação vizinha, e quando era pequenina, meio palmo de gente, convocava a família toda para o pinhal do Robalo, punha-me de pé na mesa de cimento, com uma casca do tronco de eucalipto a fingir de microfone, e dava concertos sob os olhos brilhantes da avó Zá. E as mesmas cascas de eucalipto eram depois recicladas, convertidas em bacalhaus, que fingia vender na mesma mesa de cimento como se de uma banca do mercado de Alvalade Norte se tratasse. "Há pau pau (carapau), sardinha frita", dizia eu, contou-me a Magui outro dia.
Sou a que dá duas voltas na Rotunda da Rio de Janeiro para ver os ciprestes em frente à Biarritz. Sou a que que gostava de ter uma araucária no jardim, a que sabe da lenda dos embondeiros, a que chora quando abatem uma árvore para fazer estacionamento pago da EMEL.

domingo, dezembro 11, 2005

A alegria é o que nos torna os dias úteis

É do Sérgio Godinho, infelizmente não é minha a frase, cada vez mais acredito que sou uma fraude, que apanho uma frase ali, outra acolá, que reparo num pormenor que salta da realidade como se tivesse um neon rosa para si apontado, depois colo tudo, muitas vezes com cuspo, raramente com super cola 3, e é apenas isso, é tão simples quanto isto.
Está na altura de fazer as pazes com os Sábados.
Acabou.
Agora é só de quinze em quinze dias.
As sextas também já não têm o encanto de outrora. Entrou-me um pombo em casa na manhã do último dia útil da semana (para mim, foi um dia inútil, porque não houve alegria alguma, apenas uma espécie de dor), disse-me assim: "Não estamos embrulhados, Dia". E eu defendi-me como pude, disse que estava embrulhada até à ponta dos 78 centímetros de cabelo, relembrei-lhe que quando era pequenita queria ser embrulhadora de presentes de Natal, que sou atreita a embrulhos, que os atraio-os como poucos, mas, afinal, ele não está embrulhado, e eu apenas lamento, porque seria um embrulho de luxo, de loja de delicatessen, das que vendem as minhas amadas trufas, era um embrulho com um gordo laçarote, feito com fita aramada cobre, é que eu sou mesmo boa a embrulhar, a prenda pode ser uma merda, mas o embrulho é sempre coisa que dá pena estragar, mas como diria a Magui: só perdeu quem não me amou. Azarinho do caralho (mil desculpas, anónimo que não gosta do meu vernáculo).

Dói-me a mão.
Estou novamente com a tala enfiada até ao antebraço, a estrangular-me a circulação, movimentos limitados, estou, novamente, em versão miss tendinite, desta vez com unhas lindas, pintadas de encarnado sangue de boi (a cor chama-se bohème, achei-a apropriada), mãos trabalhadas pela Cecília, a doce Cecília que sabe que as minhas unhas se quebram à mínima pancada, que quando viu as peles roídas soube logo que algo se passava, a Cecília que achou que eu tinha namorado novo quando lhe disse que queria umas unhas sexy, a brasuca de olhos doces e carapinha rala, que não se cansa de dizer que eu tenho as mãos mais estranhamente encantadoras que viu nos seus dez anos de esteticista (antes a Cecília era ama e contou-me, no Sábado, que teve um filho, que perdeu, não me contou como, mas eu lembrei-me como lhe deve ter custado conhecer-me na véspera de a Carolina nascer, ela fez-me manicure francesa para eu receber a minha filha com mãos bonitas e o André, o meu querido e saudoso cabeleireiro, expulso de Portugal pelo SEF, escadeou-me o cabelo), a Cecília disse: "Não esquece de arranhar ele".
Um cabeleireiro é uma espécie de psiquiatra e de confessionário. "Não há ninguém, Cecília, sabes bem que não há ninguém, olha, vou encontrar-me com uma mulher que não conheço, uma das minhas leitoras. Com uma mulher que me disse para eu ir de encarnado, para me encontrar facilmente na Praça Camões". E a Cecília ficou assustada, depois de as unhas já estarem perfeitas, esteve a arranjar as minhas mãos para uma mulher, não para um homem, mas eu disse-lhe, enquanto ela me satisfazia todos os meus caprichos depilatórios - "tira-me esses pêlos horríveis das sobrancelhas, sim, esses mesmo, aí por cima; podes tirar-me estes pequeninos dos dedos também, não podes? E ela alinha sempre em todas; eu descubro micro-penugens e ela risca-as do mapa do meu corpo -, arranjamo-nos sempre para as outras mulheres, porque os homens nem reparam. E ela ficou mais tranquila.
Resumindo, que a mão já não aguenta muito mais: o Sábado foi um dia útil. Saiu-me a sorte grande, a taluda que comprei na casa Viola, trouxe-me dois estranhos que me fizeram rir alto no Snob, e até caguei para o duplo queixo que faço quando me rio alto, e o actor bonitinho das telenovelas, que me lembra um jornalista bonitinho da praça que era meu amigo e deixou de o ser quando engravidei, olhou várias vezes para a nossa mesa para tentar perceber qual o motivo de tanta gargalhada.
Durante aquelas horas eu não pensei na casa vazia, nem na filha a dormir algures na Ameixoeira.
O fim traz sempre um princípio. "Inventamos as duas uma história nova. Sou boa em histórias novas". "Interminável", desejo eu.

O bife estava uma maravilha

Mas o melhor foi mesmo a companhia.
Amanhã, se me doer um pouco menos a mão direita, faço-vos uma ode.

sábado, dezembro 10, 2005

O meu lenço na cabeça e as minhas tranças gigantes





Este é para ti. Uma troca.
Com um e cinco anos

[percebe-se pela pose porque é que a Magui e a avó Zá teimavam que eu ia ser uma arrasa-corações]

O diospireiro da vizinha alentejana

Algo vai mal com o diospireiro da minha vizinha alentejana que me chama de amori.

Não dormi, estou outra vez tendinitosa (já tomei um Clonix, grande doida, mas pode ser que o mais eficaz pain killer que eu conheço apague outras dores enquanto me destrói o estômago), entreguei a miúda, já fumei cinco cigarros, estendi a roupa que pus a lavar às quatro e meia da manhã, e, enquanto estava nisto, enregelada, com o frio de uma manhã de céu limpo, vi o vizinho do prédio ao lado em cuecas, na sua sala belíssima e ilegal, construída onde outrora havia um quintal, e fiquei estática e preocupada, com umas peúgas rosa choc da loira na mão enferma, ao reparar que as folhas do diospireiro da vizinha alentejana já caíram, jazem no chão de tijoleira, e não há uma única bolinha encarnada pendurada nos troncos.
Ando a sonhar com aqueles diospiros desde que me mudei para esta casa.
Algo vai mal naquele quintal, onde lá ao fundo uma tangerineira está carregadinha de bolinhas laranja.
Vou ao supermercado comprar um diospiro.

Ainda Paris




[Adoro esta foto. Estava para postá-la há imenso tempo. Esta, ao contrário de quase todas as outras deste blog, não foi a Qui Qui quem tirou, foi a dona da Leica digital e deste quintal]

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Fervor - ou sempre dependi da bondade dos estranhos (e amanhã vou comer um bife ao Snob)

Nove horas sem pegar no computador, o senhor Ibook voador, o que fica bem em qualquer decoração, na sala, no quarto (fica bestialmente bem no quarto, em cima da cómoda manhosa do IKEA, em frente à jarra que tem as canas chinesas de um metro de altura), junto ao cesto dos brinquedos do quarto fluorescente da metade loira de mim (parece outro brinquedo), na cozinha bordel, em cima do tampo frio de mármore, ou mesmo na casa de banho laranja, onde chove por um foco de halogéneo (e como não tenho gajo, o empreiteiro disse há 3 semanas que vinha cá reparar o problema e é o viste-o) e na qual costumo escrever de manhã, sentada por cima do tampo da sanita, geralmente me trajes menores, enquanto a Carolina chapinha à vontade entre patos e polvos de borracha e embalagens várias de shampôs, máscaras e condicionadores para o meu interminável e delator cabelo (hoje medi-o; são 78 centímetros de comprimento, senhores, e a minha filha diz: Sim, sim, sim!, com tom orgásmico, sempre que vê o anúncio do Herbal Essences, e a mãezinha até usa o de Roma e abacate, salvo errro, mas nunca se sucedem tais ais durante o enxaguamento. "E a nós o que é que nos dão? Bananas...", e a Carolina desata aos pulos na sala dos gatos da Magui sempre que vê os macacos que dão a "punch line" final do anúncio - não liga ao Noddy, nem ao Franklyn, muito menos ao política e ecologicamente correcto Verdokas, mas é vidrada em publicidade; a primeira melodia que cantou era um jingle de pensos higiénicos da Ausónia).
Nove horas, entre Santa Marta, Guerra Junqueiro, Estados Unidos da América e o Carregado. Nove horas a escrever posts na cabeça, a agonizar por não ter um chip implantado debaixo do braço, como o que o Dr Mário enfiou pelo cachaço do Pax e da Maria a dentro, três milímetros de diamêtro debaixo da pele com todos os seus dados canídeos, não se sente ao tacto, muito menos a olho nú, ou a olho vestido com casaco de peles (sintéticas, para sermos politicamente correctos como o Verdoskas; no outro dia entrei em transe com o começo de um episódio deste desenho animado que passa no Panda, escrevi e tudo para não me esquecer, dizia assim: "O Verdoskas pensa globalmente e age localmente; achei isto perturbador, mudei logo de canal, pus na TVI que estava a dar publicidade), o chip está lá e ninguém sabe, e depois, imagino isto muitas muitas vezes: como será? Passam o cão num leitor óptico como os que há nas caixas dos supermercados e ficam logo a saber tudo sobre o animal? (o chip do Pax diz que ele é um grand danois - é mentira, é um grand danois manhoso, de terceira categoria, corpulência de gigante e pêlo de Labrador -, e vai ao pormenor de especificar que o belo animal que fui buscar há quatro anos e meio a Torres Novas, tem uma cicatriz no lábio superior, do lado direito, e isto, caros, é altruísmo, é amor aos animais, ou apenas loucura: não fiz uma mamoplastia para ter um peito 38, mas o Pax fez uma plástica ao lábio para não parecer um burro preto com lábio luperino).
E eu queria um chip destes, que guardasse todos os textos que passaram à velocidade da luz pela minha consciência (nenhum deles apareceu ainda neste post, eu começo a escrever e não sai nunca como tinha pensado, por isso mesmo é que eu preciso de um chip), posts inteiros enquanto calcorreava a A1, sentido sul-norte, a 180 quilómetros à hora, Ben Harper em volume 43, maravilhada com o espectáculo desolador da Cimpor, parada na portagem a pensar, mais uma vez: é a pior profissão do mundo, nem puta nem homem do lixo se lhe comparam, quem serão estas pessoas, os portageiros? E quando eles querem mijar, como é que fazem?
Nove horas feita barata tonta à cata de presentes de Natal, e tudo o que consegui comprar foram uns copos kitsch imoralmente caros no Depósito da Marinha Grande para mim mesma.
Nove horas a matutar na conversa de treta da manhã, nove horas a mutilar o dedo indicador e o pai de todos da mão direita, estou nervosa, estou nervosa como já não me lembrava que se pudesse estar, uma panela de pressão, ainda não me deu para chorar, estou na fase imediatamente anterior, daqui a precisamente dez horas (bateram agora as doze badaladas da meia noite; sei disto porque a vizinha do lado tem um relógio desses) entrego a minha filha pela primeira vez, durante todo um fim-de-semana, ao seu progenitor.
Estou a pagar os copos com o Visa, a começar a achar que a Magui vai ter que me substituir novamente no pagamento do cartão este mês porque este mês para além dos natais, aniversários e afins vai cair, também, o seguro contra todos os riscos do meu Idea, a achar que sou louca por comprar uns copos tão caros e surreais, estou já arrependida de os ter comprado, e quem é que me entra pelo telemóvel a dentro? Quem é que me vai por a pastar na primeira noite de liberdade/ agonia, depois de dois anos de clausura e dedicação maternal?
Uma perfeita estranha. E vamos comer um bife ao Snob. É o meu primeiro desejo.
Sempre dependi da bondade dos estranhos, como a outra, a do filme, que tinha um feitiozinho de merda, uma cinturinha de vespa e um vestido feito de cortinas - eu só tenho o feitiozinho, a cinturinha, enfim, deixa-me medir, 69 centímetros, já cá faltava, que contrastam, deixa-me ser precisa novamente, com 98 de anca, jesus, que tenho que emagrecer, e as cortinas, já disse isto à minha estranha de estimação, não vou fazer um vestido com elas, mas, daqui a dez horas entrego a miúda, enfio-me no Idea, vou passear para a bela e degradante Almirante Reis e depois subo a Morais Soares e não volto para casa enquanto não encontrar umas cortinas de renda ou de crochet que quero tingir de encarnado para pendurar no quarto.

Enquanto escrevi este post fumei oito cigarros, pus o dedo indicador direito em carne viva de tanto o enfiar na boca e roer com o stress, falei com o meu esposo literário que me contou um lindo segredo pantanoso, e li um post do camandro sobre perús, que não posso linkar, porque é perigoso e ele agora passou também a ser incitável.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

A família





Neste aniversário, não fomos cinco no restaurante chinês.
A casa esteve cheia. E eu estou muito feliz.

quarta-feira, dezembro 07, 2005

5 x 2 + 2

Começo eu, o computador e a casa são meus.
Há dois anos, 730 dias, são 17.520 horas, deixaram-me à porta do Hospital Particular, jantámos na Lusitana, eu tenho pena de não ter uma foto aqui comigo, tem-nas a Catarina, eu era uma grávida bem bonita, fui de saltos de cunha de sete centímetros, fui toda de castanho, parece que foi ontem, deixaram-me no Particular, e eu parecia forte, o Pedro depois disse-me que sentiu orgulho na mulher que ficou nas urgências, sozinha, que ficou nas urgências do Particular, quarto 615, para parir. Foi há dois anos.
de dois em dois anos, de duas em duas mãos, de dois em dois paços e passas de passar a noite a passar palavras: (i'll miss our conversations) e se fosse uma coisa que cheirasse, como soprar 23 vezes por dia a nossa liberdade: falta de pudor. de um no outro parágrafo, soltam-se coisas pequenas ou pequeninas coisinhas de fazer sorrir, de fazer viver. depois estavam todos na rua a celebrar, do 7 ao oito passam-se próximos infinitos: coisas sem nexo e sexo no vão das escadas: assimetrias.
"começar em assimetrias e esquecer tudo o resto que está para trás."
"e o gajo quando foi à África do Sul com ela mostrou-lhe o meu blog e ela curtiu bué."
"aliás a nossa viagem de finalistas foi a Diana, o Pedro, o Miguel, a prima do Miguel, o namorado e eu. Não, nos fomos mm pq já tinhamos..."
"e quando tens 21 ou 22 anos isso é muito importante, precisas dessas coisas para cimentar uma amizade."
"vem cá ter? pá ainda vamos ter mais um então, mas ele diz que não vem só beber um capuccino. "
"imprimir esta merda e lermos os cinco ao mesmo tempo mas cada um ler a sua parte. tipo Carolina mas ao contrário. e se jogassemos outra vez ao "e se fosses?""
"tu perguntaste e a diana viu? e eu respondi que sim."
"e se essa pessoa fosse uma divisão da casa que divisão era?"
um sótão."
"se essa pessoa fosse...se essa pessoa morresse o que estaria escrito na sua pedra tumular?
é bonito!"
".... mas é complicado..."
"qui qui já te estás a esticar, era só um parágrafo...!"
(troca de pessoas, troca de respostas....bangunça total! o jogo no seu ponto!)
É meia noite e dezassete. Há pouco, quando o telefone tocou eram: 00:00. No meu telefone. O que na prática significa que afinal eram 00:03. Era para ser a 10 mãos. afinal vai passar a ser a 12... Números. Sempre gostei de números, e de riscos. Os riscos ficaram pelo caminho. De vez em quando faço uns biscates. As letras é que nunca me apaixonaram. A não ser na versão voyeur. Gosto. De ler. O que os outros escrevem. Por vezes deixo posts. Muitos anónimos. Quando sei que sabem quem sou. Gosto especialmente quando conheço os personagens. Mesmo os ficcionados. Aqueles que consigo ver. A cores. Ou em "relevo branco" como descrevia um antigo professor a cor dos sonhos.
Há 365+366+1 dias atrás eu estive lá. Naquele jantar. A deixá-la à porta. A dar-lhe um bloco para ela escrever. Porque não sou rica para lhe oferecer o i-book que ela comprou uns anos depois. Para ela escrever para a filha os seus pensamentos. e estive lá há 365+366 dias atrás e a vi. E ao bébé mais lindo do breçário. Pequenina. Perfeitinha. Linda. Com toda a vida pela frente. Com todos os sonhos por realizar. Por idealizar.
Escreve - disseram-me, enquanto arrastava o último neurónio pela viela escura dos corredores do cansaço que precedeu o último orgasmo do ano. Foi o epílogo de uma história triste. Uma noite estafada com uma ideia feliz a rematar as primeiras horas do dia seguinte. E agora?... What now, my love?
E agora, navegar. Mergulhos superficiais, para treinar a respiração e depois submergir profundo. É a sina de santa marta, estofo de um sofá cheio de pó, amarelado, um art work desactualizado.
Não há nem pode haver coerência em seis almas, doze mãos. Somos passageiros de realidades egoístas, filmes com um único protagonista, o nosso umbigo.
Noite que vaga, vagarinho. Um chegante estafado, 'miss' dry martini, o pedro-master-musician, a dupla homónima, menina quero ser e menina quero ter. Eu também, aqui ao lado. Feliz, feliz porque o Benfica ganhou.

Postado por Dia, Branco, Qui Qui, M. (a blogger que ainda não é), Mac e Telescópio.

Mais um que se anda a armar em casamenteiro

Aqui.

E o teu blog já se sindicalizou. Eu sou a sua advogada de defesa (assim como do retratos, do Rodriguez), já interpus as providências cautelares no Tribunal Administrativo da Google, vamos lutar até ao fim pela suspensão do fecho anunciado da tua música e das tuas polaroids, Ricardo. Sou o Sá Fernandes da blogosfera. Se toda a gente começa a fechar blogues eu também fecho este. E, sim, é chantagem. É uma táctica como outra qualquer.

Dia feliz, este, em que não tarda vou dar um pulinho ao café manhoso. Em que o vizinho cozinheiro me entregou um maço de tabaco, esquecido na mesa de um almoço tardio com o incitável. Em que há jantar de bloggers cá em casa. Em que passei a noite a falar de embondeiros e outras árvores nobres.

Promete. Ou não fosse dia de desafiar o destino.

Menina mimada

Tenho saudades da minha mãe me secar o cabelo.
Até há seis meses atrás, ela tratava do assunto, um pouco como aqueles gabinetes de contabilidade que preenchem o IRS aos seres que têm alergia a termos encriptados como "deduções à colecta".
Juntam-se, durante o ano inteiro, os papéis, as facturas, se forem como eu, juntam-se folhas bonitas de arvores que se vão catando do chão, ou trevos de quatro folhas que se encontram no meio da relva, junta-se pacotes de açúcar bonitos (sobretudo os da Tofa que têm azulejos das fachadas de prédios de Lisboa), tudo para dentro de uma caixa de sapatos, e quando chega a altura, entrega-se tudo, caixa incluída, aos senhores cinzentões que passam oito horas por dia sentados num cubículo e que por cerca de 35 a 50 euros até tratam de entregar a nossa obrigação fiscal na repartição de Finanças, seja ela virtual ou não (e eu sou uma gaja destas, agora é que não vou mesmo conseguir dormir, gosto de cinzento - o vestido do Tenente é cinzento, o tal -, trabalho numa espécie de cubículo com vista para um plátano e entreguei, ainda este ano, não sei quantos anos de declarações do senhor incitável e até hoje, essa alta figura da blogosfera, me deve um almoço - e eu continuo com desejos de ir ao Snob comer um bife. E apesar desta dedicação, nem falo dos milhares de cafés que lhe sirvo, nem citá-lo posso... É incrível!).
E a Magui era o homem da Regisconta do meu cabelo até eu vir morar para debaixo da Duque de Loulé. Aquela máquina. Um ritual de cerca de uma hora, eu sentava-me no banquinho amarelo da casa de banho e ela a escovava, a enrolava, esticava, às vezes a encaracolava com o Babyliss velhote que comprou nos anos 70, e eu, por mim, saía com ele de qualquer jeito, gosto de tranças, aí é que pareço mesmo monhé, mas a Magui gosta de fazer promessas à custa do meu cabelo, e por isso, levou uma vida dedicada a estes cabelos que não são lisos nem encaracolados, que são escuros, mas reflectem a encarnado.

Quem quiser morar em mim tem que me secar o cabelo de vez em quando. São mais de 70 centímetros. Só para avisar.

terça-feira, dezembro 06, 2005

À rasca

É como eu fico sempre que a Ana diz que esteve a ler esta horta.
E depois só me saem idiotices como esta: "Vais-te embora com um excelente corte de cabelo..." (Vá lá, não lhe disse pela enésima vez que adoro as botas altas, pretas, ao estilo militar)

Mais logo, um post sobre o Ricardo. Eu queria poupá-lo, mas ele anda a pedi-las.

The document contains no data

Fiz as três - o número que deus fez (ainda estamos zangados, leva minúscula, apesar de estar com uma cruz ao peito, entre o regaço exorbitante que o soutien de marca Wonderbra que dá para iludir o mais incauto): chão lavado, roupa passada, post escrito.
É impublicável, junta-se às dezenas de drafts do dashboard. Há-os para todos os gostos, posts em que estou de fio dental e que, por isso, não publico, por pudor, porque o fio dental não me fica bem sequer, sou mais da ala liberal da asa delta. Há os que estão por acabar - um muito bonito, sobre um estranho vírus da poesia que decide atacar o mundo ocidental, e toda a gente verseja: o povo faz rimas de pé quebrado, os Lucenas sonetos, a classe média, essa, ainda não decidi o que faz, mas tenho na cabeça um congresso de cientistas sobre a terrível praga da poesia, todo em aiku, na minha cabeça; há um outro sobre a minha filha, vários sobre o aka "chulo literário". Há os às dezenas, coxos, tristes, fechados a ganhar mofo.
E agora vou preparar a poção mágica para dormir (mana, ficarias orgulhosa, é o que te digo), deixo a porta aberta para os Pestanas entrarem rapidinho (escolhem sempre os caminhos mais difíceis e de há uns tempos para cá, andam com uma crise de identidade, é a da meia idade decerto, ou então deixaram-se apanhar pelo espírito natalacío, também pode ser isso: chegam-me pela chaminé, cheios de fuligem). E hoje que venha o Pestana que nunca traz sonhos na algibeira.

"The document contains no data" é o que aparece hoje de noite sempre que tento ver o meu blog. E já pensei nisso...dar-lhe um sumisso.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Das duas três

Ou escrevo um post que uma das minhas primeiras visitas do dia não vai gostar. Ou vou passar a ferro. Ou lavar o chão.
Vou fumar um cigarro e pensar no assunto.

Guillaume Laurant

Um leitor devidamente identificado

[é destes que eu gosto, dos que não têm caganças, dos que não se escondem atrás do "anonymous" - não é uma boca a ninguém em particular, este é um blogue plural, aceita críticas, elogios, declarações de amor ou de guerra, outro dia, um idiota veio cá parar ao quintal através de uma pesquisa da Google por colégio Valsassina e chamou-me "meu grandesíssimo cabrão" no seu comentário, porque eu escrevi que se tivesse andado naquele colégio altaneiro do monte de Chelas teria uma deficiência de dicção, que me faria dizer "tefone e tevisão". O cabrão do beto levou a mal e, de facto, o colégio da família Valsassina não lhe deu grande formação, porque é tão limitado que nem percebeu que era uma gaja - xiça e é difícil, até está ali a foto do lado direito em que o que eu mais pareço é um gajo -, de qualquer forma, a referência a este indivíduo, um anónimo, é apenas para dizer que não apaguei o seu comentário atrasado mental; prefiro que comentem anonimamente do que não comentem de todo, mas às vezes parece mesmo que ando a escrever para o boneco - estou a escrever este post e a loira está a pentear-me (a arrancar-me cabelos é mais a palavra), enquanto olha para os anúncios do intervalo do debate entre o Cavaco e o Alegre de boca aberta; quando eles estavam a falar ela não lhes prestou atenção nenhuma, escovou, escovou, e devemos tirar daqui alguns ensinamentos, as crianças é que sabem - mais vale um anúncio do Xau do que um presidente da República - acho que me vou solidarizar com o tal que não se pode citar - que merda, até quando? - e vou estrear o meu voto na abstenção; nunca votei nela, pode ser que seja desta, ou então voto no Vieira se ele arranjar as 7.500 assinaturas e não as entregar com bonequinhos do Happy Meal no Tribunal]

comentou o post "Às catorze horas e quarenta e três minutos", comparando a minha escrita à do Guillaume Laurant.
I wish...
E ele já está a trabalhar na adaptação ao cinema do Life of Pi, uma história de um monhé que me marcou demasiado (May you always believe the good story, escreveu o Iann Martel no exemplar que o Leonardo me emprestou, o tal que eu devorei ao pé da cascata da quintarola do meu avô, e sim, eu acredito na história boa, a de sobrevivência numa jangada tendo como companheiro um tigre de Bengala, claro que acredito nessa história).
Chega lá para 2007. Até lá, se quiserem aceitar a sugestão desta reles escriba, leiam a Vida de Pi - Booker Prize há uns três anos (não me apetece googalizar).

Dias assim

Há dias assim.
Em que o facto de não ter tido que desembolsar 90 euros de multa e reboque por estacionamento ilícito no parque reservado às viaturas da Polícia Judiciária da rua de Santa Marta - a menos de trinta metros da Divisão de Trânsito da PSP, de onde saem os reboques - não chega.
Dias em que, apesar de a loira endiabrada que divide o apartamento connosco ter dormido e deixado dormir o sono dos justos até quase ao meio dia, não se acorda nem um bocadinho mais feliz. Porque o dia começa e para trás deixa-se, nas rugas dos lençóis bordados por uma mãe loira de olhos azuis, uma noite cheia de sonhos, de sonhos que já não nos pertencem.
Há dias assim.
Em que tomamos o pequeno-almoço em família à hora em que todos almoçam, e porque estamos todos de folga, há dias em vamos pela avenida de Roma fora, inventando gagues de mau gosto, a rir a bandeiras despregadas com o "sketch" da loja do comércio injusto (onde as prateleiras estão cheias de produtos fruto de trabalho escravo; todo o material à venda, sem excepção, contém uma etiqueta com a fotografia da criança escrava agrilhoada a um poste que o produziu, com todos os seus dados bibliográficos).
Há dias assim.
Em que choramos ao saber que apagaram o nosso número de telefone. Em que ganhamos coragem e relemos finalmente este post.
Há dias assim.
E no final de um dia assim resta-nos apenas uma certeza: que na quarta tudo será melhor. Porque continua a ser dia de desafiar o destino, porque há jantar de bloggers cá em casa.

Foda-se!

Deixei o carro no parque da PJ pensando que hoje era sábado. Mais 90 euros decerto. Sabe bem começar assim a semana. Foda-se!

domingo, dezembro 04, 2005

O drama

Estou perdidamente apaixonada por um vestido do Tenente. Apaixono-me sempre pelos homens errados.
Pelos vestidos, digo.

[Post ao estilo da primeira divisão da blogosfera, onde ninguém posta nada com mais de 500 caracteres.]

sábado, dezembro 03, 2005

Este blog não é amigo do Explorer (as coisas que se descobrem num fim-de-semana de trabalho)

E eu não sabia disso.
Por engano, abri o programa surfista da Microsoft e constatei que não aparece nada do lado direito - nem o meu perfil, nem os arquivos, os meus links. Nada. Rien. Nicles.
Fervorosos leitores, vocês vêm alguma coisa do lado direito deste blog, ou é apenas uma imensa escuridão?
E eu aqui a pensar que isto deve ser coisa do divino, a fazer das suas, a mexer os cordelinhos na Google, a proteger-me do despudorado streap tease que faço neste quintal.

E agora?

Usem o Firefox. É uma versão acabadinha de sair do forno.

Queimar tempo

Escrevi um bom texto para o patrão (sai amanhã, no Local Lisboa).
Estou em avançado estado de agonia porque às nove horas de um Domingo vou ter que estar na Cova da Moura, a assistir a um jogo de futebol entre bófias e crianças em via de se transformarem em marginais (isto não é nada politicamente correcto, pois não? Mas podia ficar com os nomes e contactos dos putos e daqui a quatro anos fazia uma grande reportagem para saber o que é feito deles... Talvez fosse interessante, mais interessante do que a tese doida sobre a morfologia dos filmes pornográficos. Quem sabe...)

O incitável mais citado

Disse assim, ontem, a meio de um cigarro, depois de confessar que já não me lê, porque escrevo muitos milhares de caracteres de cada vez:

"Tu és como eu. Somos fixados na realidade"

Eu gostei. Até escrevi a tinta preta no comunicado do Sá Fernandes, para não me esquecer.

Come on baby light my fire

Lucky Strikes

Fim-de-semana de trabalho, maço de Ventil na secretária, e isqueiro népia, ficou em casa a descansar (ao menos podia aspirar a casa, era uma boa surpresa).

A foto é, como sempre, da Qui Qui. Tirada há muitos meses, na minha outra casa, a pequenina, a das alturas, com uma vista assustadora para toda a cidade.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Obrigada

O dia tinha tudo para ser dos duros.
Mas aquele cujo nome não pode ser pensado concordou com um post de um blog de uns idiotas, o outro cujo nome não pode ser citado evitou um mar de lágrimas atrás de um ecrã radioctivo, proibindo-me de estar de headphones a tarde toda a ouvir músicas tristes, o Sá Fernandes fez-me rir à gargalhada numa conferência de imprensa nos Paços do Concelho, o outro com quem eu alegadamente andei a dormir (não sei de nada, não deve ter sido grande coisa porque não me apercebi sequer) fez-me rir, também, ao dizer que eu fui enrabada (não posso especificar o enquadramento, porque arrisco o despedimento por justa causa), a mana Qui Qui trouxe-me paz e uma alegria aparvalhada, assim como o arcanjo Miguel, que ligou das Arábias a dizer que chega a Lisboa daqui a 18 dias, o aniversariante João David, meu amigo há qualquer coisa como 25 anos, enterneceu-me ao chamar-me "biucha", a minha amiga Ana, com quem eu nunca teria feito as pazes se não tivesse ido buscar o pai da minha filha ao aeroporto de Lisboa há uns três anos, anunciou-me que está à espera de uma menina, o meu esposo literário fez-me amá-lo ainda mais ao mandar beijos brancos às flores, e eu e a minha filha fomos ver a cidade iluminada, uma hora dentro do carro com um sorriso nos lábios, avenida de Roma, Praça de Londres , João XXI, Almirante Reis, Rossio, Rua do Ouro, Terreiro do Paço, rua da Prata, Rossio outra vez, Chiado, Bairro Alto e, finalmente, Avenida da Liberdade.
A todos, obrigada.

Às catorze horas quarenta e três minutos

Às catorze horas quarenta e três minutos e vinte e um segundos, a esposa do senhor Mário Calado, 54 anos, faz girar a rodinha de um telefone antigo, negro, dos TLP, e, com o coração na boca, preso no dente do siso direito do maxilar superior que nunca se deu ao trabalho de tirar e que até ajuda a segurar a placa, o coração a querer pular para as mãos e as mãos a tremer e geladas, incumbidas de uma outra tarefa mais importante que amparar corações que querem sair pela janela de uma rua feia do Alto do Lumiar, as mãos a girarem a roda como se fosse uma combinação de uma casa-forte, as mãos sem obedecerem à senhora Calado, que se manteve em silêncio durante os três segundos e quatrocentos e setenta e cinco centésimos que demorou a discar a sequência 1-1-2 .

Às catorze horas quarenta e três minutos e vinte e dois segundos, de auricular preso no ouvido direito, os dois operadores do grupo 1 do Centro de Orientação de Doentes Urgentes do INEM, alheados aos gritos que o operador do grupo 2 emite – minha senhora, qual é o número da porta? Diga-me um número, um qualquer! Eu sei que não conhece o doente, mas diga-me onde está! –, jogam computador em rede, um jogo de corridas de automóvel, não sei bem, não posso garantir, mas parece-me que é o jogo em que ganha quem atropela mais velhinhas e carrinhos de bebé.

Às catorze horas quarenta e três minutos e vinte e três segundos, o septuagenário do terceiro andar de um prédio centenário da rua de Santa Marta estende as ceroulas à janela. Nesse mesmo segundo, a gata tricolor do meu quintal espreguiça-se. Ali pertinho da Estefânea, no fim da rua, num prédio que implora por obras, às catorze horas quarenta e três minutos e vinte e quatro segundos, um sindicalista acode uma mulher perdeu o emprego no Intermarché porque está grávida.

Passa outro segundo e no Mercado 31 de Janeiro a peixeira acaba de lavar a banca, pronta para ir fazer umas horas a passar a ferro numa casa de onze assoalhadas no Campo Pequeno. E outro, no Liceu Camões, às catorze horas quarenta e três minutos e vinte e seis segundos, uma aluna tímida, que passa os intervalos sozinha com os dossiers da Agatha Ruiz de la Prada, porque calça o 42 de calças e tem uma miopia cavalar, recebe um 19 a Matemática e vê cada vez mais perto o curso de medicina (ela ainda não sabe, mas, daqui a muitos milhões de segundos, vai trabalhar ali pertinho no INEM, vai levar a vida a salvar outras vidas).

Às catorze horas quarenta e três minutos e trinta segundos chega à base uma Viatura Médica de Emergência e Reanimação de marca Volkswagen, de motor TDI, enfiam-se os três tripulantes na tasca da porta ao lado do INEM, o condutor pede uma chamussa, o médico um bolo de bacalhau, o tripulante de ambulância de emergência uma bica. Não falam, o dono da tasca sabe, às catorze horas quarenta e três minutos e quarenta segundos, que eles perderam uma vida, e o que não imagina é que foi uma criança de quatro anos, que se engasgou com um pedaço de pão, os três vão deixar de ir à padaria, decidem isso, em uníssono mental, às catorze horas quarenta e três minutos e trinta e sete segundos.

Às catorze horas quarenta e três minutos e quarenta segundos, a última folha do diospireiro do Quintal da minha vizinha alentejana cai com uma rajada de vento gelado e o operador do INEM identifica a maleita do senhor Calado, doença metabólica, coma diabético, diz à senhora Calado, que está outra vez em silêncio, vamos já mandar socorro, um segundo depois, naquela mesma sala, dois passos e uma mão à frente, sai uma ambulância do Pulido Valente para o Alto do Lumiar.

Às catorze horas quarenta e quatro minutos e cinquenta e oito segundos, estou com as mãos nos bolsos do sobretudo de fazenda castanho, o Pedro fotografa freneticamente e um projector pinta a parede com a localização de todos os meios de socorro do INEM (e quase todos estão a piscar, à excepção de uma ou outra ambulância e do helicóptero, às catorze horas quarenta e três minutos, a vida de muita gente mudou).

E durante estes sessenta segundos das catorze horas quarenta e três minutos continuei no café manhoso, atrás de uma parede azul, com dois cafés e dois SG ventil queimados no cinzeiro. E depois destes dias todos, ainda estou no café manhoso.

A secretária

secretária

Como é que pode sair alguma coisa de jeito numa secretária destas?
O post engarrafado é para amanhã; estive na lida, numa de fada do lar, vou arrepender-me, porque vou passar a noite toda a sonhar com ele (é dos bons, o primeiro e segundos parágrafos estão todos escritos na minha cabeça, a sépia, com a Rotring 600 extra fina que comprei com o primeiro ordenado que o pasquinzito me pagou, e devia ser parido aqui, na sala pombalina, nunca na secretária com o cérebro de um superior hierárquico num frasquinho de formol, se bem que os melhores foram escritos lá, no primeiro piso, numa secretária com vista para um plátano, os melhores saíram em feriados, estimula-me literariamente a história de ganhar a 300 por cento), mas a árvore de Natal estava meia feita há uma semana e agora sim, está linda, em tons de cobre, como eu a vi num post do caralho que ainda nem consigo reler (lição de gramática; não ponho o link, porque não posso mesmo lê-lo, é uma espécie de dor).
Será que me vou orientar com os varões dos cortinados? Ai, Jesus, que eu não consiga pôr os cortinados sozinha... Boa noite. E não vou tentar sequer pendurar os varões. E depois os vizinhos? Já não me viam de cuecas pela casa, geralmente a cantarolar (hoje foi em soutien, a vizinha apanhou-me de lingerie encarnada, sorridente, a cantar por cima da Ella: "me, myself and I are all in love with you...")

(no post it: Relembra-te de não usar relembrar! o Cerejo não gosta)

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Eu sei qual é o teu IP

Sei sim.

quarta-feira, novembro 30, 2005

Quero ir comer um bife ao Snob (continuação)

Mas a minha mãe não deixa.

Se for trabalho ela deixa. Se for conhaque já não.

Ontem descíamos a rua do Século de táxi, a caminho da Bicaense, e eu quis ir comer um bife ao Snob.

Já no outro dia fiquei com ele entalado, no dia em que me apetecia desafiar o destino, mas ele (o destino) faltou ao encontro marcado, deixou-me pendurada na bonita Praça das Flores e nem sequer eram horas de comer um bife no Snob.
E na noite a seguir a esse dia, idem, e aquele cujo nome eu não posso mais citar (que tal? dá-te um ar clandestino, fica-te bem, digo eu) telefonou a dizer-me que estava um ambiente bas fond, que era melhor eu não ir ao Snob comer um bife (ainda me conhece mal, o tal que não pode jamais ser citado: não sabe que eu adoro o mais bas do bas fond, que vou ao Lidl de Xabregas para ver gente ordinária e suja, que amo os casais de fato de treino no Feira Nova da Belavista e seus respectivos rebentos ranhosos, com rabichos de cabelo à Ana Malhoa e ouro, muito ouro, nas orelhas, nos pulsos, ao peito).

Quero ir comer um bife ao Snob mas a minha mãe não me deixa.

Toma que a filha é tua.

Queria sentar-me na mesa onde eu e o Lourenço (das arábias), putos de 18 anos, abancávamos, gulosos, cansados, desiludidos com o curso superior que nos tinha calhado na rifa, íamos ao Snob pelo prazer de um bife fora d'horas, íamos ao Snob pelo bife, apenas por isso, e eu estava longe de imaginar que ia ser jornalista, nem o arcanjo Miguel sonhava que iria trabalhar para os Emirados Árabes Unidos, éramos naïfs, não sabíamos que aqueles bêbados todos que fazem parte da decoração do Snob eram, maioritariamente, jornaleiros; gostávamos do Snob e ponto final, do Snob antigo, o mais escuro e mais inflamável (o novo perdeu um certo encanto, mas eu continuo a querer ir ao Snob apenas pelo bife), e poucos meses depois de ter ido ao Snob pela primeira vez, pelos braços do senhor das Arábias, entrei para o pasquim onde me prostituo a escrever notícias sem interesse,

(hoje, infelizmente, escrevo sobre uma desgraça, o Tiago já sabe que não me deve dar desgraças para as mãos, que fico muito tempo a matutar sobre elas, uma breve de 500 caracteres sobre um homem que morreu trocidado por uma serra eléctrica numa linha de montagem demorou qualquer coisa como duas horas a ser escrito, foi o meu primeiro fim-de-semana de piquete nesta secção, tinha as mamas cheias de leite, bastava fazer copy e paste do take da Lusa para me despachar rápido e ir esvaziar o quarto Vigor do meu corpo, era preciso apenas limar o texto, mas a boa da Dia não conseguiu desligar-se, claro que não, aquele homem morreu, uma morte horrível, e eu só pensava na mulher e nos filhos a recortarem a puta da breve e a juntarem-na às outras micro-notícias da imprensa nacional - no 24 horas, o senhor foi um rodapé de página par, sei disto porque me perseguiu a morte deste homem nos dias a seguir -, os dedos da mulher mascarrados de tinta debotada de um papel de péssima qualidade, uma vida toda em cinco micro-recortes, guardados numa pastinha com fotografias do senhor a sorrir junto aos filhos no seu último Natal, o senhor com cara de caso junto aos sogros no baptizado da filha mais nova, o senhor na maternidade com a mulher ainda muito inchada e de bochechas rosadas, acabada de parir um bébé de cabelos muito escuros e espetados, vestido de babygrow azul, um varão, e a breve que não saía dos meus dedos, eu a pensar na serra eléctrica, na linha de montagem, nos 375 euros que levava para casa ao fim do mês)

foi o mano que me arranjou um part-time na secção de Economia (e eu acho isto belo: a primeira negativa que tive na vida foi a Economia, foi também a primeira frequência da faculdade e eu tive um oito, ainda por cima uma negativa par, ao menos que fosse um sete, gaita, e a vida é mesmo assim, oito a economia e jornalista de Economia), ganhava trinta contos a facturas de restaurante e de gasolina, a culpa é do mano, eu nunca quis ser jornalista, e só mais tarde, com a saudosa Gabriela Neto e com uma pandilha selecta de jornalistas de Economia (alguém se ia embora, não sei bem quem) é que fui ao Snob em visita de estudo devidamente acompanhada com espécimes jurássicos do jornalismo nacional, nessa madrugada não comi um bife, bebi um Vodka, e percebi que o sítio onde gostava de comer às tantas com o meu Miguel era o poleiro da classe onde eu entrei sem convite, pela porta VIP.

(E a merda do Blogger acaba de me devorar quatro mil caracteres escritos na madrugada de ontem; anda esfomeado como eu, na volta, quer ir comer um bife ao Snob e a mãe Google também não deixa)

Descemos a Bica, o elevador ganhou outro encanto desde que alguém me contou que mandou lá uma queca, entrámos na Bicaense às sete e picos da tarde, crianças a correrem de uma sala para a outra, isto confundiu-me os sentidos (e a primeira vez que eu fui à Bicaense dava um grande post, mas não vai ser, não quero falar desses dois), no fundo do balcão de pedra (mármore?), a minha ex-madrasta apresentava o seu novo livro, dava autógrafos, o meu mais ou menos irmão André, cada vez mais parecido com o Saramago, pulava de conversa em conversa, e a minha quase irmã Marta, linda e deslumbrante, com sardas no nariz, pele branca e acetinada, mas também ninguém se atreve a tocar à porta, ninguém quer morar nela e na minha sobrinha assim assim Maria, de sete anos.
E a Manuela, de cabelos encarnados, muito bonita: "Minhas filhas, o problema não é vosso, ponham isso na vossa cabeça". Dá uma festinha a cada uma, eu fecho os olhos, ninguém dá festas, ninguém se beija na minha família principal, mas eu acho que gosto deste carinho, e a Manuela não repara que eu não estou habituada e vira-se para o lado direito e diz: "Tenho umas filhas tão lindas, não tenho, Dirk?"

E o Dirk, com o seu sotaque cerrado holandês: "Diana, tu és minha quê?"

E eu: "Deixa-me ver, Dirk: ora, tu és o companheiro da minha ex-madrasta, mãe dos meus irmãos, isso faz de ti o meu ex-futuro padrasto".

Risos. Os Ralhas, os Oliveiras e os Gonzagas foram pioneiros nas salganhadas de laços familiares, que agora são o pão nosso de cada dia.

E o Dirk: "Posso ser teu pai?"

E eu: "Tenho que te pagar alguma coisa?"

E ele: "Não. E eu, tenho?"

E eu: "Não, mas podes-me fazer um desconto na Tom Tom para a semana, quando for lá comprar as prendas de Natal"

E ele: "Filhinha que eu nunca tive!"

E eu: "Paizinho, não te apagues..."

Gargalhada, abraço, beijinho repenicado na bochecha do holandês magrinho que passou a ser meu pai, ginjinha de penalti para anestesiar a garganta.

E agora a merda da notícia da criança que morreu há seis anos num esgoto no Seixal.

(Não tarda há mais. Tenho a cabeça cheia de posts, hoje nem dormi como deve de ser, devido ao congestionamento literário)

14 para os 20 mil (diário de ódio)

[Post reeditado. São quatro e não cinco anos, como tão bem corrigiu o meu ex-marido]

Ainda me lembro quando ficava perto da histeria por ter vinte visitas por dia. Quando acabar de escrever este já devo estar nas vinte mil.
Este blog (às vezes escrevo à portuguesa, outras vezes não - é como calha) está quase a fazer um ano. Este é um diário de ódio e se calhar não existia se eu não estivesse sempre tão triste. E não está assim tão bem escrito, não me lixem, não está assim tão bem escrito (estou num dia mau - apetece-me citar o primeiro post desta horta).
Mas, a par do meu casamento com o pasquim de referência (estamos casados com comunhão de adquiridos há oito anos), onde escrevo todos os dias para garantir o sustento da casa (eu gosto dessa imagem, de ganhar a vida a prostituir os meus dedos em cima de um teclado que me faz tendinites; a Magui suspira, arregala as sobrancelhas, e diz às velhotas suas amigas sobre a estranha forma de vida dos seus dois filhos: "levam a vida a escrever composições, o que é que se há-de fazer?..."E desde pequena a ouvi dizer esta rezinha: "Vocês sejam aquilo que quiserem. Apenas não sejam padres, paneleiros ou jornalistas". Ela não diz isto em público, mas também estamos proibidos de ter relacionamentos inter-raciais, sob pena de sermos deserdados. E não vale a pena ripostar e dizer-lhe que se casou e que pariu dois filhos de um monhé. Monhés pode ser e chineses também), esta tralha é o relacionamento mais longo, mais estável e mais interessante que me apareceu à frente nos últimos quatro anos.
(faz amanhã quatro anos que eu saí de tua casa com dois grand danois sentados no banco de trás do Twingo, o meu amado Twingo, 63-24-JO)

Quero ir comer um bife ao Snob

Mas a minha mãe não deixa.

(continua. À tarde)