quarta-feira, agosto 03, 2005

Sem nome 2

Teimosa.
Se há traço vincado da minha perturbada e inconstante (nunca inconsciente) personalidade é ser teimosa que nem uma mula.
Post sem nome, desapareceste? Porquê e como? Não queres dizer? Não queres reclamar um chorudo resgate? Deixar-me debaixo da porta um bilhetinho escrito, talvez com ameaças à minha integridade física, escrito com letras recortadas de um jornal?
Pois, post sem nome (terás ficado chateado comigo por eu não te ter dado um nome? não sabes que eu tenho um imbróglio judicial por causa de nomes, de apelidos, por ser teimosa que nem uma mula???), eu não te vou dar esse gostinho, podes armar-te em fugitivo de Alcatraz, mas eu reescrevo-te, meto-te atrás das grades da (T)ralha de novo. Teimosa. Não sabias, quando eu te dei vida, que era teimosa?
Não hás-de ficar igual - memória de longa duração é coisa que eu tenho pouco, as doenças degenerativas do sistema nervoso central são o pão nosso de cada dia da minha família, e eu ando gágá; ando gágá desde a anestesia da cesariana da Carolina, ando gágá, por defesa, desde pequenina, porque não vale a pena recordar certas coisas, apaga-se e já está, segue-se em frente - o que não me mata apenas me torna mais forte (ai, os provérbios, que saudade, o mail da guerra dos provérbios é tão pesado que o Gmail se recusa a abri-lo).
Não hás-de ficar igual, porque os posts têm vida própria - não me canso de dizer isto -, por isso é que eu gosto tanto de escrever: gosto de escrever porque sei que há quem me leia - as visitas dos meus leitores às tantas da matina só me fazem querer escrever mais, assim como os pageloads dos madrugadores, aqueles que começam o dia com as minhas paranóias, penso que são vocês, senhores leitores, os responsáveis pelas minhas insónias e produção frenética neste quintal.
Gosto de escrever porque os esqueletos saem do armário, gosto de escrever porque é o que sei fazer melhor na vida (minto: há outra coisa que eu faço melhor, mas adiante), gosto de escrever porque aqui presto homenagem às pessoas que me tocam, aquelas que gostam de mim incondicionalmente, com muitas falhas e algumas virtudes.
O Mário diz que o que eu gosto mesmo é dos holofotes por cima, mas não é bem isso, é uma relação de interdependência, e era uma ideia mesmo bonita, esta minha, esta que me passa agora pela cabeça, que alguém se pudesse apaixonar por mim só pelo que eu escrevo e eu nem tenho um nariz tão grande e tão feio como o do Cyrano, era uma ideia mesmo bonita.
Post sem nome, as linhas produzidas para este blog têm material genético irreprodutível e incorruptível, são imunes a qualquer manipulação, por isso, vais sair diferente.

Vamos lá descobrir as diferenças:

O esquentador continua em greve de chama. Junta-se-lhe os candeeiros bonitos que eu comprei na loja sueca da moda e que continuam a não cumprir a sua função de alumiadores das minhas noites; junta-se-lhe a torneira do lavatório que eu ainda não fui (nem irei, certamente) trocar; junta-se-lhe as molduras que eu tentei pendurar sem sucesso, esburacando sem dó nem piedade as paredes do hall; junta-se-lhes os dois últimos caixotes por desempacotar que jazem, zombies, no meio da cozinha e junta-se-lhes os quadros do Zé Ralha e do meu querido tio José Oliveira (gosto mais dos teus, Zé, e a Carolina também; quando tinha semanas de vida, só se acalmava a olhar para aquela senhora com olhos em bico, tipo Modigliani, pintada em eléctricas cores primárias), hirtos, no chão brilhante de tábua corrida, encostados à parede branca, cansadíssimos de estarem à espera em pé.
O esquentador continua em greve de chama e a casa-de-banho amarelinha da Magui transformou-se no meu balneário privativo.
A Magui não tem uma banheira, tem um Rolls Royce. Imoral é o que me apraz comentar sobre o preço da cabine de hidromassagem que a mim me lembra sempre a cápsula de mutação genética do filme "A Mosca", com o Jeff Golblum.
Mas ela merece. Merece os jactos de água que lhe aliviam as dores nas costas e eu agradeço a sauna e o banho turco que ela nunca usa.
Hoje caguei para a poupança de água, caguei porque li na recém-defunta Capital que até hoje nunca nenhum incendiário foi preso em Portugal (eu sei que isto não tem nada a ver, bom, até tem, poupança de água, seca, incêndios, mas o que eu queria mesmo provar com estas linhas é que este é um país de merda), assim como caguei para a reciclagem no dia em que vi um camião a despejar indiferenciadamente o conteúdo dos ecopontos que os otários dos conscenciosos cidadãos se deram ao trabalho de encher com os seus lixitos meticulosamente separados.
Caguei para os litros e litros de água que desperdiçei, porque a cabine de hidromassagem da Magui é, para mim, um local de reflexão, de grandes ideias, onde muitos dos posts deste quintal nascem, e, foda-se, o que é que se diz?
A inspiração aquática não veio.
Estava a ensopar uma toalha turca com os meus enormes cabelos e a trunfa, mesmo assim, a respingar o chão da casa-de-banho, quando a Magui me viu a chorar. A Magui deve saber.
Ela já perdeu vários amigos, deve saber o que é que se diz. A minha mãe é a mais linda, sabe tudo, arranja tudo, decerto que se já tivesse criado coragem para subir os degraus do calvário que levam até à porta da Martinha, o malfadado esquentador já estava a funcionar.
A Magui deve saber o que é que se diz. Ela chora o Filipe todos os Natais e todos os dias 23 de Julho.
O Filipe foi o grande amor da vida dela. Foi como na canção do Vinicius:

Porque foste na vida
A última esperança
Encontrar-te me fez criança
Porque já eras meu
sem eu saber sequer
Porque és o meu homem
e eu tua mulher
Porque tu me chegaste
sem me dizeres que vinhas
E tuas mãos foram minhas
com calma
Porque foste em minh'alma
Como um amanhecer
Porque foste o que tinha de ser

E o Filipe era um anjo. Tudo teria sido diferente se ela tivesse aceite casar com aquele puto inconsciente, neto de um grande escritor português: a Magui teria sido mais feliz, eu teria tido um pai genial e saberia escrever muito melhor, porque ele contava muitas histórias, tinha uma imaginação louca, mas nenhuma pachorra para as transpôr para o papel. Ele tinha tanto para nos ensinar...

O Filipe lá em casa, a fazer truques de magia, sentado nos sofás que um dia foram laranja e que nessa altura estavam forrados a preto, a fulminar-me com ataques de cócegas, a andar comigo pela casa toda às cavalitas, o Filipe em Viseu, no Montebranco, comigo no Parque, com bigode, sem ele, magro, muito gordo, o Filipe acabadinho de chegar da América, a falar de flores, a falar de cocaína, o Filipe comigo ao colo, na cozinha, o chão amarelo e os armários azuis cobalto, o Filipe: "Casa comigo, Guida!"
A Magui não ficava fodida quando ele lhe chamava Guida, ela detesta Guida, mas o Filipe era inimputável, o Filipe dizia as coisas com meiguisse e charme, vindo da sua boca, podia chamar-lhe Pafúncia que ela não se importava e eu juro que soaria bem, e nós os dois, eu e o Filipe em suspenso, eu a dar-lhe beijinhos, e a Magui nada.

"O que é que se diz, mãmã?"
Não se diz nada. Empresta-se o ombro para chorar e ouve-se as recordações que nos têm para contar".

Esta é para o KAos.

terça-feira, agosto 02, 2005

Curiosidades

O post "sem nome" despareceu do blog. Não sei explicar porquê. Não tenho qualquer "back up" e estou muito triste que tenha desaparecido assim, sem dar água vai nem água vem. Era um post bonito, dedicado a duas pessoas bonitas.
Não deixa de ser curioso. Não deixa de ser muito curioso que o texto que escrevi para o patrão, depois de acabar com a aventura, tenha sido sobre pombos.
Não deixa de ser curioso que o sr Vring me tenha convidado para jantar.
Os socorros mútuos reúnem-se todas as terças-feiras, quer faça chuva, quer faça sol, decretámos hoje, em assembleia geral, perante um maravilhoso bife à cortador no Oh Lacerda.
Obrigada, Andy.

Agosto

Já chegou o meu mês favorito - o mês em que os casalinhos apaixonados decidem dar o nó, parvos, inconscientes, ignorando a sabedoria popular: casar em Agosto dá desgosto.
Tenho saudades das guerras de provérbios. Veio parar à minha secretária no outro dia um dicionário de provérbios portugueses; 800 páginas de grandes verdades, que eu devoro todas as noites, enquanto penso em ti minuto sim, minuto não, - já vou na letra "b" -, já aprendi dezenas de novos ditos, espero apenas uma oportunidade para os usar, acho que não os vou usar contigo nunca mais, mas que se dane: A esperança é a última a morrer, apesar de eu achar que quem espera desespera e não, nunca alcança.

Três horas depois deste último parágrafo, decretei o fim da aventura.
Três horas e meia depois deste último parágrafo, o João Ramos de Almeida desmaiou, teve um AVC.

Agosto chegou, mês de desgosto.

segunda-feira, agosto 01, 2005

Associação de Socorros Mútuos

Oiço falar desta associação há muitos anos.
A Magui falava dela a toda a hora, falava dela quando se referia ao seu amigo e patrão "Manecas" - suponho que, quando vestia a fatiota de secretária de direcção não lhe chamava Manecas, mas sim sr Manuel Martins -, eu gostava muito do Manecas, lembro-me de uma vez, quando ainda dormia no quarto do Leonardo, numa cama de grades encarnada, lembro-me de dizer à Magui que queria que ele fosse meu pai.
Recordo-me das noitadas em casa dele - apesar de não fazer ideia onde é essa casa que me lembro tão bem -, de fingir que estava a dormir no sofá, de ouvi-los (havia um Dr Uva, um catita, que curioso, lembrar-me do Dr Uva passados mais de vinte anos), a Paula, mulher do Manecas, com enormes cabelos pretos, as gargalhadas, os copos de gin e os whiskeys, as jogatanas de King até de manhãzinha, lembro-me de dormir na cama enorme do Manecas e de uns degrauzinhos (seria um duplex a casa?).
O Manecas e a Magui eram sócios fundadores da Associação de Socorros Mútuos. Eu não percebia o âmbito desta associação, mas agora que já sou "adulta" já faz sentido, e com uma grande cunha familiar lá consegui arranjar o cartão de sócio.
Eu e o senhor Vring andamos numa de socorros mútuos.
Ele agora anda todos os dias pela minha (T)ralha e eu tenho pena de já não escrever para ele, de a musa ser outra. O senhor holandês é inimputável para mim. Fez-me sofrer, fez-me sofrer muito, portou-se mal, portou sim senhora, mas algo me diz (e não, eu não oiço vozes na minha cabeça) que a minha história com o gigante mansinho é superior a tudo isso.
Andamos os dois neura e lá nos amparamos nos maus momentos. E está bem assim, muito bem assim. Que continue assim. Durante muito tempo.

sábado, julho 30, 2005

Jaime

Jaime é um pianista trágico, com uma higiene capilar duvidosa.
Tem uma vozinha de falsete e muitos tiques nervosos: pisca os olhos freneticamente e faz ginástica com os dedos, no ar, nas mesas, onde quer que esteja, como quem acaricia um piano imaginário.
Encontrei o Jaime, por acaso. O camarada Cerejo mandou-me para a rua: "Vai encontrar uma história, coisinha!". O Cerejo chama-me coisinha. Talvez saiba o meu nome, acredito que, pelo menos, conhecerá o meu estranho apelido, mas insiste no "coisinha".
Aceitei o repto sem hesitar, não me apetecia estar no bunker da rua Viriato, a carregar no "refresh" do Gmail compulsivamente, à espera de notícias de um pombo, que suspeito que anda de asa ferida.
Assessorizei um pouco - que é o verbo que eu inventei quando vou tomar café com um determinado assessor da praça -, e depois de ter bebido uma água Campilho (foi a primeira vez que bebi uma água Campilho, por isso é que a menciono), fui à procura de uma história.
Senti-me turista no centro da cidade. Gostei de ver a cidade assim. Como se fosse pela primeira vez. Abençoei o Cerejo várias vezes por me ter mandado para a rua - no meu peito uma angústia terrível, e eu impotente, sem saber nada, sem poder fazer nada, andava nisto, coração apertado, quando esbarrei com a primeira potencial história: um sapateiro que parou no início da revolução industrial. Achei que aquela era a história - sapatos, um dos meus temas favoritos, mas o velhinho que tresandava a cola de contacto, não se sentiu atraído pela ideia de aparecer num jornal.
Vagabundei entre a Estefânea e o Saldanha, a tentar forçar o destino, e, quando já tinha desistido, encontrei o Jaime, a tocar Nick Cave e Tom Waits num Centro Comercial. A tocar, a tocar bem, por sinal, sem ninguém se dar ao trabalho de ouvir. Já nem digo aplaudir, pelo menos parar um bocadinho e ouvir.
Lá tenho que dar o braço a torcer e revelar-vos mais um ensinamento do Zé Ralha - fónix, o senhor, afinal, ainda me ensinou meia dúzia de coisas, não muito úteis, ensinamentos profundos, apenas, de um homem que diz ser um reservatório de conhecimentos inúteis.
Um dia, fomos à Baixa, e de dez em dez metros, o Zé Ralha insistia em parar, escutar ou observar e, no fim, aplaudir, a arte de rua de todos os mendigos - cegos, amputados, velhinhos, ou apenas vagabundos. À primeira, uma criança ainda acha piada, ao sétimo já não há cú.
E nisto, quando a minha cara de tédio e inquietude já não enganava ninguém, ele sai-se com esta, que me acompanha até hoje: "não dês só a esmola aos ceguinhos. Perde cinco minutos a ouvi-los também." E ali ficámos, mais de dez minutos, a ouvir o velhinho que tocava guitarra clássica e que, salvo erro, ainda actua por aquelas bandas.
Alguns poucos anos mais tarde, andava eu a cantar músicas bonitas nos túneis das estações de metro de Roma e Alvalade para ter dinheiro para comprar um bilhete para os Madredeus no CCB, e percebi a importância de alguém se dar ao trabalho de ouvir o que estamos para ali a fazer. O dinheiro, claro, a esmolinha, era muito benvinda, mas eu ficava bem mais contente quando alguém despejava o porta-moedas - houve um tipo que me deu mil escudos e há doze anos atrás isso era muito dinheiro - e perdia dois minutos a ouvir.
Por isso, sentei-me numa mesinha do dito centro comercial e ouvi. E bati palmas no fim. O Jaime agradeceu com aquilo que sabe fazer; perguntou se havia alguma que eu quisesse que ele tocasse. No meu cérebro passou de raspão a frase batida - play it again, sam -, mas soltei um inesperado Bach. Bach a um tipo que estava a tocar Nick Cave. Só eu. Surpreendentemente, ele tocava Bach.
Foi nesse momento que soube que estava ali a minha história.

sexta-feira, julho 29, 2005

Não dá

Hoje não dá.
Se escrevo, vai dar merda de certeza.
Vou falar do que não devo - até queria falar da noite bonita com as siglas AKP, mas não dá.
Rezo para que tudo fique bem, para que as três horas que passámos ao telefone, sejam só um sonho mau, peço que tenhas dormido bem, que não estejas louco, esquizofrénico, paranóico, que hoje te tenhas levantado e apercebido que ninguém te vai fazer mal, a ti, a mim, aos teus pais, que estás esgotado, apenas isso, que precisas de férias, peço sobretudo, a quem quer que seja, que a tua vida não acabe aqui, assim, por causa de demónios que vês por todo o lado, que te ameaçam, que te aterrorizam. Passámos por tanta coisa juntos, temos tanto ainda para passar, e eu não aceito que tenhas passado para o outro lado. O teu futuro é brilhante não é num quarto de um hospital psiquiátrico.

quinta-feira, julho 28, 2005

Déjà vu

O dia começou cedo, não me lembro sequer quando foi a última vez que respirei a cidade tão cedo.
A cidade é linda de manhãzinha.
Quase me esquecia como a cidade é linda de madrugada.
Na minha cabeça, desde ontem, durante toda a manhã deliciosa esta: "If one day, I didn't come to see you, what would you do?". A Binoche linda e desgrenhada, a levar um murro no estômago com a resposta de um senhor muito moreno, sikh: "I'd try not to expect you".
Triste, não desarma, não se contenta com a ausência de expectativas: "Yes, but if it got late and I hadn't shown up?" e a resposta não é, novamente, aquela que queria ouvir:: "Then I'd think there must be a reason".
É a história da minha vida.
"You wouldn't come to find me?
That makes me never want to come here..."
E eu insisto nisto, quero acreditar que no plano seguinte eu arranjo a coragem para dizer: "
Then I tell myself: he spends all day searching, in the night he wants to be found."
E apesar de ter a certeza que cheguei em má altura acredito que hei-de ouvir: "
I do. I do want you to find me. I do want to be found."

terça-feira, julho 26, 2005

O dia em que o teu coração decidiu não parar

[Para o senhor da outra reencarnação. Que nos continuemos a encontrar nas próximas.]

"Rápido, vem para casa rápido". Eu estava na esquina da Casa das Lâmpadas, a cortar para a Estados Unidos da América, no Twingo, sei perfeitamente o que trazia vestido, estava bonita, estava bonita apesar de trazer o olhar perdido, afogado na bomba russa, as 50 miligramas de sertralina que me faziam levantar da cama.
Ia a pensar na vida, a Rita tinha-me feito sair de casa uma hora antes - anda, vem tomar café ao Independente, e eu a tomar café com aquele que viria a ser o pai da minha primeira filha, eu a tomar café com ele sem saber disto - e no regresso - tenho tantas saudades do meu Twingo -, quando o telefone toca, percebi logo que o teu coração se preparava para parar outra vez.
"Calma, calma, eu estou bem, liga para o 112, liga só para o 112, eu já fico bem". Eu branca, gatos por todo o lado no teu quarto, e tu aflita, sabias que eu estava por um fio, que não ia aguentar uma segunda paragem cardíaca em apenas uma semana, o teu coração a parar e tu a fingires que não era nada, liga só para o 112, já passa. Eu quero ser uma mãe como tu és para mim. Ainda me mediste a tensão, estava perto dos 20, tão alta como a tua, uma taquicárdia brutal, 180 batidas por minuto, e o teu 50, tem calma, a ambulância já aí vem, mas eu sentia-me muito calma, parecia tudo um sonho.
Ambulância do INEM à porta em três minutos, eu não falava com o Pedro e se, na altura, não estivessemos com um ódio de morte um pelo outro, ele teria enviado um helicóptero para ti, mãezinha - como ele te chama. Aplaudiram a minha calma, os tripulantes e o médico. Gracejei: é o Zoloft e o Xanax. A minha mãe a morrer e eu a fazer graçinhas com fármacos da Pfeizer.
Regresso às urgências de Santa Maria. No meu casaco, um código de barras encarnado e um A de acompanhante escrito à mão, na portaria, contigo deitada na maca, ventilada. Regresso ao banquinho silencioso junto à porta dos cuidados intensivos. Horas a olhar para os meus sapatos, lindos, Pura Lopez, 150 euros salvo erro, sem me aperceber que o tempo passava e toda a minha família estava lá fora à espera de notícias.
"Dispa-se, por favor". Eu a olhar para os sapatos e essa cena a repetir-se. Tu a teimares que não te querias despir, que te querias ir embora, e eu quase a desmaiar, sem saber como te convencer. Tu sem brincos, sem os anéis, sem nada do que é teu, por isso é que não te querias despir, porque ficavas frágil e eu nunca te vi tão frágil, tinhas razão, de bata fininha de algodão verde, muito magra, eu nunca te vi tão frágil.
O coração da Magui decidiu não parar neste dia triste de Março. Nesse dia triste de Março, em que eu passei horas à porta dos cuidados intensivos a olhar para os meus sapatos, tendo a absoluta certeza que estaria perdida se aquele coração parasse de bater, soube que, embora não pareça, tu disfarças bem, sou a tua favorita.

segunda-feira, julho 25, 2005

Minhoca e Catarina

Eu tenho novas gatas. Perco tanto tempo a dissertar sobre o meu amor secreto, sobre o meu ex amor sr Vring, a dissertar sobre este ou aquele meu amigo que grita comigo e me põe a chorar, que me esqueci de vos apresentar as miúdas.
A Magui afiambrou-se à Mancha e à Mimi, aquelas gatinhas lindas que eu há tempos coloquei neste quintal - coitadinhas, elas são tão pequeninas, ficam tanto tempo sozinhas... - e, vai de modos, raptou-as da minha ex-casa pequenina e elas lá estão, no gatil da minha mãe, felizes e contentes.
Fui à Zoófila, ou melhor, a Zoófila é que veio até a mim, veio até a mim no melhor hipermercado de toda a Lisboa - o Feira Nova da Belavista, em Chelas: como quase ninguém lá vai, há pouca gente feia por metro quadrado -, e adoptei a Minhoca e a Catarina. Já vinham baptizadas e eu gostei dos nomes, assim ficaram.
Não são as miúdas mais giras do bairro, mas têm muita pinta. Eram as bichanas que estavam mais tristinhas e isso é que interessa; agora são felizes.
A Minhoca é toda preta, gata de bruxa, muito bonita, muito medrosa e tem toda a legitimidade para desconfiar dos humanos: em apenas seis meses de vida, foi abandonada três vezes. Eu falo com ela, digo-lhe que desta vai ser diferente, suborno-a com Whiskas e Sheba (Sheba só de vez em quando, porque eu não sou rica), mas a Minhoca não confia ainda em mim. Mas já me garantiu que isso dos gatos pretos darem azar é uma parvoeira, que gosta muito de aqui estar e vai ser a guardiã da minha casa, que vai trazer muita sorte à Martinha (e isso já se vê, Minhoca, muito obrigada).
A Catarina é uma tola, tinha sido abandonada, na véspera em que eu a adoptei, em plena Avenida de Roma, a minha avenida, é preta também, mas sarapintada, parece um ET e está nos antípodas da "mana" Minhoca - é uma melga, não me larga um instante.
Agora que já estão enturmadas, que já conhecem todos os cantos da Martinha, as manas pretas enlouquecem por volta da meia noite. Desatam aos pulos, trepam pelos armários, parecem possessas pelo Demo.
São muito muito engraçadas.
Divertem-me nas noites em que eu não estou com quem desejo estar.
E sim, ele gosta de bananas.

domingo, julho 24, 2005

Ressurreição

Aqui a (T)ralha é ainda mais despachada que o Senhor e, apesar de ser Domingo, demorou apenas dois e não três dias a ressuscitar.
Não faz sentido acabar com este canto. Não por causa de uns otários que chatearam a Joana num Sábado de manhã, por causa de umas linhas, umas linhas divertidas e bem escritas (desculpem a imodéstia, mas eram mesmo boas), que não tinham nada de mal. Um texto que era uma homenagem sentida e mais que merecida a uma pessoa de quem eu gosto muito, um texto em que não se teciam quaisquer considerações sobre as qualidades profissionais da minha amiga, um texto cuja moral era apenas esta: o cromossoma X tem uma anomalia de milhares de anos; desculpa o seu par Y com demasiada facilidade.
O cromossoma X é banana, eu sou banana, sou das Nanicas, não sou das da Madeira. Na ilha do Alberto João, as bananas são pequeninas e eu sou gigantescamente banana, escrevi isto, muito recentemente, num mail, a propósito de perdoar incondicionalmente as ofensas de quem me ofendeu, num mail em que suplicava assim: "Diz-me que gostas de bananas" (ainda não respondeste, mas estou convicta que sim, que gostas).

Podia ter apagado o post "Fim" e, assim, de acordo com o StatCounter, apenas 11 pessoas tinham sabido da minha catarse de ontem.
Mas não faz sentido retirar o post.
Quem por aqui põe os olhos há algum tempo - nem é preciso muito, basta uma semanita -, já se apercebeu da minha veia para o faduncho, da predisposição dos meus genes para estados ferozes de melancolia.
Desta vez, decici ficar triste por estar feliz demais. Não cabe na cabeça de ninguém...
O Ric induziu-me a mini-depressão, acabadinho de chegar de Marrocos, e eu estava aérea, nas nuvens, e ele, sabiamente, decidiu chamar-me à terra, assentar as sandalinhas de um salário mínimo nacional no chão. Num estalar de dedos questionei o que é que andava a fazer, quem é que ia sofrer os danos colaterais desta embrulhada, senti-me ridícula por me apaixonar tão facilmente.
Mas hoje, o Ricardinho (espero que tu não te importes que eu te chame pelo teu nome verdadeiro, mor), que anda com peso na consciência desde então, tirou-me da neura (a tua cena dos sorrisos também estava a funcionar muito bem, Maique, a sério que estava e vou continuar com a medicação). Disse-me que não faz mal apaixonar-me por alguém em tão pouco tempo. E que o amor é ridículo, não há nada a fazer. E, nesta primeira fase, o amor emagrece, acrescento eu, por isso é duplamente benvindo, com chatices, alhadas e pombais.
O JPH, que é o grande culpado pela audiência indesejada deste blog, foi, talvez, o primeiro a reparar- apesar da muralha de arquivadores que colocou entre nós, viu os primeiros sintomas, de muito perto, sentado na secretária em frente à minha: eu com um sorriso parvo de orelha a orelha, com os olhos a brilhar para um monitor de computador e ele a aconselhar uma rápida visita ao médico, enquanto me pedia para eu lhe servir um cafézito. Não lhe dei ouvidos, servi-lhe o café, mas deixei-me levar.
Sofre-se de qualquer forma. Dando pouco ou dando muito. Eu prefiro dar tudo. E isto aplica-se também a este blog. É a minha terapia. Não posso abdicar dela. Não estou pronta para o desmame.

sábado, julho 23, 2005

Senhora ex-assessora

[Post reeditado, sem censura, agora que a senhora ex-assessora já não tem cargos institucionais no XVII Governo Constitucional - este blog não teve nada a ver com isso, com a queda do senhor ministro do cabelo às ondinhas; portei-me bem, aceitei censurar o post até ao fim do mandato do senhor, mas, caramba, o post só ficou 20 dias na gaveta, nem sequer ficou a cheirar a naftalina... Ainda uma nota para o post '27 mais um': tinha apenas uma vaga recordação de o ter escrito e parece-me que posso fazê-lo mais vezes - escrever triste e imediatamente após uma estadia nas escadinhas da rua contígua à Bicaense.]


Quem me conhece, sabe da minha tara por assessores de imprensa. Fui casada com um, namorisquei outros tantos.
Este Governo tem a assessora mais bonita e louca de Portugal. A minha tara por assessores não é exclusiva ao sexo masculino: adoro esta mulher.
A senhora assessora ontem pagou-me demasiados copos na Bicaense (agora está rica, em quatro meses afiambrou na sua conta bancária uns poucos milhares de euros).
Eu e a assessora "freak" estagiámos juntas no pasquim, há muitos anos (ela é mais louca do que eu e isso é uma proeza digna de registo num "hall of fame" - prepara-te para enterrar as mãos em cimento fresquinho). Eu fiquei nesta mina, ela foi com os porcos.
Na altura, soube-me bem, de três estagiárias extraordinárias - éramos mesmo as três magníficas: eu, a senhora assessora e uma menina com um apelido indiano muito musical que, segundo sei, anda por Bruxelas a ganhar rios de dinheiro - ter sido eu a escolhida, mas, hoje em dia lamento-o e não consigo deixar de pensar o que poderia ter acontecido se tivesse ido parar ao desemprego (eu sei que não vale a pena pensar nisso, mas é feitio, não é defeito, perco demasiado tempo a pensar no "e se fosse...")
Geralmente, só encontro a assessora dos olhos verdes, filha de um ex-ministro, no dia dos meus anos. 2005 tem sido a excepção - a culpa é da esquina da Bicaense (pára lá tudo o que é bicho careta do jornalismo, sobretudo do económico). O encontro de ontem foi marcado partindo da premissa que iamos falar de gajos, numa espécie de pijama party, sem pijamas, sentadas à soleira de uma porta da Rua da Bica de Duarte Belo, acompanhadas de caipirinhas ou mojitos.
Contei-lhe as mais recentes façanhas (a este blog "chibo" não o posso fazer, porque o JPH andou a divulgá-lo além fronteiras...) e confessei, ainda, o trauma recente, cuja enterrada recordação ainda abala a minha frágil auto-estima.
Na noite em que alguém virou a face e cagou de alto para mim (perdoem a linguagem, mas isto é o mais soft que eu consigo para descrever a pulhice que me fizeram), eu tinha estado com a senhora assessora, no sítio do costume, e ela tinha-me pago demasiados "shots" de absinto: "Eu achei o gajo um otário, Di. Via-se que já estava contrariado. Mereces melhor, muito melhor", desabafou ela e eu larguei um longo suspiro em sinal de aprovação das suas palavras e soltei um: "Sim. É um idiota."
"O problema, é que nós, gajas, somos tótós", lançou a assessora, com os pés assentes nos carris do elevador da Bica (elevador que, para mim, nunca mais foi o mesmo desde que soube que alguém das minhas relações ali mandou uma pinocada; agora, olho sempre para o eléctrico amarelinho com um misto de inveja e nojo). "Se os gajos são uns otários, se são uma nódoa da cama, se são não sabem beijar, nós nunca dizemos nada. A culpa é toda nossa, porque passamos a vida a desculpá-los", sentenciou a assessora acidental.
Tens razão, toda a razão. Lembrei-me logo do senhor holandês que não respondia aos mails, que não respondia às mensagens, que não respondia aos telefonemas, que teria morto à pedrada os pombos correio que eu lhe tivesse enviado, e eu, parva, arranjava sempre uma desculpa - tem muito trabalho, deve ter o telemóvel no silêncio...
(Suspiro)
Recordei uma pinocada para a qual tinha grandes expectativas e que foi abaixo de cão e um outro por quem eu andei caída há muito tempo que tinha problemas gravíssimos de erecção e, raios, tens mesmo razão: nunca teria tido a coragem de dizer aos tipos que eles eram ridículos, que eram publicidade enganosa, que ia fazer queixa à DECO, com medo de lhe ferir o seu orgulho viril para todo o sempre.
O nosso sentido de Estado obrigou-nos a interromper a conversa e apanhar um táxi que demorou meia hora a chegar, porque não sabia onde era a Calçada do Combro.
Mas havemos de continuar esta reflexão.
Entretanto, eu tenho a tal manchete para escrever.

Fim

Devia estar a arrumar caixotes.
Vou esperar pela minha babysitter para dar uma de fada do lar. Mas antes vou contar-lhe as minhas desventuras, vou chorar de certeza - o telefone acaba de ecoar o sinal de mensagem pelos tectos altos da minha casa e o meu coração dispara.
Mas não é quem eu esperava, faz-me sorrir de qualquer forma, mas não é quem eu esperava, é o Rui Lúcio, um que tinha fama de besta como o Madeira, mas que se tornou um dos meus melhores amigos do pasquim, um dos que não se esqueceu de telefonar ontem, mas depois ligo à Cat, porque tenho saudades dela, e desato logo a chorar, nem espero pela minha querida Astride para abrir a torneira.
O telefone toca outra vez é a Joana, grita comigo, grita porque tem toda a razão, eu choro, e o post sai de rajada, outra vez, o post amaldiçoado, e este blog acaba aqui.
Este blog era para os meus amigos. Dez telefonemas por causa de um post? Telefonemas de quem?
Escreves tão bem, não acabes este blog, do outro lado ela diz: tens que escrever um livro, diz isto porque eu estou a chorar sem conseguir parar, mas este blog acaba aqui, não há discussão, não há mais discussão. Ninguém vai voltar a ser acordado por causa dos posts deste blog.
Em dez minutos, este blog acabou. Foda-se!
Eu ia só escrever disparates, disparates sobre ontem, disparates sobre mim, mas este blog acaba aqui.

NR - O Mac diz que há uma forma de pedir cartão da casa à entrada. De transformar a (T)ralha num clube selecto. E, por isso, parei de apagar posts, um a um. Logo se vê, se para a semana, continuo a deitar tudo para o lixo ou se deixo de fazer novelas, como diz o senhor do pedestal no seu comment. Custa muito acabar com este cantinho, garanto-vos. Imaginava a sua morte de outra forma, por já não o poder ver à minha frente, por desleixo, nunca assim. Por leitores maldosos a acordarem os meus amigos pelas parvoeiras que eu aqui escrevo.

PS- Maique, a história dos sorrisos parece meia parva, mas resultou. :)

27 mais um

O senhor Ali levou-me a outras paisagens, transportou-me para outros pombais, em outras freguesias, foi sublime a sua música, mas não tenho pudor em o afirmar, a estas horas escabarosas e imorais para quem está outra vez a arder em febre, para quem devia estar a dormir há meia dúzia de horas, para quem não devia estar preocupada em ligar o computador de propósito para abrir o gmail; não tenho vergonha de dizer isto: foi uma merda, o primeiro dia dos 27.

À minha Diana, que é a amiga mais doce que eu algum dia podia ter. Obrigada pela noite de hoje.

A todos os que não me deram os parabéns, obrigada por me fazerem ver que, afinal, não são assim tão importantes.

sexta-feira, julho 22, 2005

27

27 anos.
Menos três quilos do que há dez dias atrás (e agora, continuam a falar mal da minha nutricionista?).
Acordei com febre. Doente. Com muitas dores de garganta.
Acabo de enviar sms a todo o bicho careta para irmos jantar no Sábado. Sou sempre a mesma merda.
Estou triste outra vez. "entao nao anda tao feliz ? devia estar ainda mais satisfeita hoje...", mandou, por mail, uma pessoa que eu coloco num pedestal.
"tu sabes que eu sou maniaco-depressiva, ou não?", respondi eu. De facto, ontem estava a ver o Schindler's List no AXN, mas decidi mudar de canal. Porque já estava miserável de qualquer forma, não precisava de um filme triste para turvar, ainda mais, o meu já perturbado estado de espírito. E fiz zapping, muito zapping - ontem não me apatecia estar na Net -, até que parei na 2:, estava a passar um documentário sobre doentes bipolares e mais uma vez achei que devia ir ao médico, porque ainda na segunda-feira me sentia invencível e agora já estou melancólica.
"Another Lonely Day" do Ben esteve em repeat one durante toda a manhã. Tentei ir comprar sapatos para espantar a neura, mas nada me excitou, a coisa está mesmo, mesmo preta, quando nenhum par de sapatos me põe os olhos em bico.
Acabo de receber a minha primeira prenda, uma guiquisse do senhor do pedestal: cd de instalação do Ubuntu para Mac. Mas ainda não tenho Mac.
Vamos lá ver se ponho boa, da garganta e do resto. Vamos lá ver se os dias continuam a ser à noite.

quinta-feira, julho 21, 2005

Anúncio público

É oficial: não vou fazer ponta de um corno no meu dia de anos.
Não estou com cú para organizar festas e jantares. Epá, surpreendam-me e organizem todos vós um jantar.
Porque eu estou cansada, mesmo muito -
chego todos os dias a casa às dez e meia da noite, quero deitar a minha filha e esponjar-me no sofá laranja, quero abrir o Toshiba e ficar horas no Gmail a trocar conversa tola, porque os caixotes da Rodrigues e Lourenço continuam espalhados na cozinha, porque no sábado à tarde chega a minha máquina de lavar a roupa, "By appointment of her Royal Highness Queen Elisabeth The second", e ainda não desimpedi o espaço, porque a casa está cheia de pó, porque...

Amanhã, quem quiser que apareça no Ali - é de borla - , depois bebemos um copo na Bica. No Sábado, quem quiser ir jantar comigo que mande um mail, que telefone, que envie um pombo correio ou um cão pastor. Não tenho pachorra para ser eu a coordenar a logística. Não sou uma fada do lar...

O mistério da estrada de Sintra

O repto foi-me lançado pelo meu querido amigo Mac

"e porque não reeditar a ideia?

Apenas a ideia, já que a arte per se foi de mestres e não é, de perto nem de longe, replicável.


O que me dizes?"

É uma proposta indecente. Dois blogs, quatro mãos, uma história.

Eu nunca escrevi a quatro mãos. Tenho as minhas dúvidas que isto vá resultar.

O Mac escreve muito bem, mas é denso, muitas das vezes quase imperceptível, eu, francamente, não gosto dos textos em que ele usa palavras como languido ou lúgubre (detesto-as, dão-me náusea, e ele ama-as). Eu sou matéria prima em bruto, não gosto de figuras de estilo, detesto ter que ler uma frase duas vezes para a perceber. O Mac tem uma escrita codificada, polida, aparada...

Mas é um dos meus melhores amigos - e, mais recentemente, faz terapia gratuita pelo messenger - e penso que vai ser uma experiência engraçada, ainda que, provavelmente, fugaz.

Vamos lá ver o que é que dá.

A história vai começá-la ele, porque, caros, continuo muito feliz para escrever seja o que fôr. Eu pego onde ele acabar e ele começa onde eu terminei. E assim sucessivamente, a fingir que somos o Eça e o Ramalho Ortigão (eu quero ser o Eça)

Como a (T)ralha tem uma linha editorial definida - ando a fazer o livro de estilo deste quintaleco -, todos os posts a quatro mãos serão devidamente identificados como tal.

E vocês, digam de sua justiça, se acham bem ou acham mal (da minha parte, prometo continuar a escrever sobre a minha infância, porque, acima de tudo, este é um blog intimista).

quarta-feira, julho 20, 2005

Estado de graça

É uma alhada. Das enormes.
Mesmo assim, continuo em estado de graça.
Ontem quase descambou, enchi o computador de canções tristes do senhor Ben, esvaziei o meu coração, mas de manhã ele estava cheio outra vez (esta também tem copyright do já muito citado guião do The English Patient).
Caros, estou feliz, não esperem grandes prozas neste blog. Só escrevo bem quando estou miserável e este amor não conto a ninguém.
E como diz uma canção que eu gosto muito: "Os dias são à noite".

terça-feira, julho 19, 2005

Cena 103

É uma das minhas favoritas.

103*. INT.   THE PATIENT'S ROOM.    DAY.

Hana sits reading from the Herodotus. She shows the Patient
the page where a CHRISTMAS CRACKER WRAPPER covered
in handwriting has been glued in.

HANA
Tell me about this, this is in your handwriting - December 22nd -
Betrayals in war are childlike compared with our betrayals during
peace. New lovers are nervous and tender, but smash everything - for
the heart is an organ of fire...
(she looks up)
I love that, I believe that.
(to him)
Who is K?

THE PATIENT
K is for Katharine.

Dilema

Sexta-feira faço anos. 27.
As minhas festas de anos costumam ser "o" acontecimento. Mais de três dezenas de pessoas, família, amigos de infância, as meninas da faculdade e respectivos apêndices, jornalistas, assessores, membros do comité central do PCP, tudo ao molho e fé em Deus e, geralmente, corre sempre bem, o azeite mistura-se com o vinagre na perfeição e eu aproveito para estar com pessoas de quem gosto muito pelo menos uma vez por ano.
Mas este ano estou sem força anímica para preparar seja o que fôr. E tenho uma nova categoria de amigos - as bestas dos fotógrafos - para encaixar na salganhada do jantar e não sei se a coisa resultará bem.
Certo certo é que na sexta a noite é do Ali Farka Toure - o querido que veio directamente do Mali para me cantar os parabéns. Depois, logo se vê.

Jantar no sábado, malta? E onde? No espaço Cabo Verde, como manda a tradição, com umas mornas a aquecerem a noite?

Digam de vossa justiça.

segunda-feira, julho 18, 2005

Para ti

Tantas vezes quis que tu lesses este blog, andei à tua procura do teu IP no StatCounter durante meses a fio - ainda tenho os papelinhos amarelos colados ao monitor, com as várias hipóteses - e, agora que o fazes diariamente, do outro lado do oceano, não sai nada. Absolutamente nada.

Estou demasiado aérea para escrever seja o que fôr.

sábado, julho 16, 2005

Post Matinal

Mais um post matinal, antes das dez da manhã, com muito poucas horas de sono, mas um sorriso aparvalhado ao acordar.

A vida anda-me a sorrir, a piscar-me o olho e, caramba, cinco dias após ter começado a minha dieta, já lá vai mais (ou menos, pensando bem) um quilo, é o que acaba de me anunciar a balança laranjinha.

Com umas olheiras do tamanho do mundo, totalmente esgazeada por ter tomado tomado banho de água fria (não há ninguém que me consiga ligar a porra do esquentador?), lá vou eu cumprir a ordem judicial dos sábados de manhã. E escrever os tal doze mil caracteres, porque ontem, simplesmente, não deu. Valores mais altos...
E o corpo é que paga... Vai doer este sábado. Detesto as edições de Domingo do meu jornal! Pim!

185 page loads!!!

É o recorde absoluto.
Nunca a (T)ralha almejou tanto sucesso num só dia.
Obrigado, obrigado. A Dia tem que escrever 12 mil caracteres para Domingo, mas ainda sai um postezinho de agradecimento.

Esta última frase era para ler em voz alta, recordando a entoação que a nossa querida Amália dava às suas frases.

Eu conheci a Amália. Pouco antes de ela bater a soleta. Na vernissage de uma exposição do Zé Ralha, no Páteo Bagatela, há alguns anos atrás.

O pintor estava a pedir 600 contos pelos seus rabiscos nessa exposição, era uma coisa à grande, e como estava a achar que era outra vez um grande artista -

teve direito a catálogo, nota bibliográfica e palavras simpáticas de uma mulher muito bonita, cujo nome condiz com a sua pose elegante, Diva, chamaram-lhe os pais, que deviam ser meios bruxo -,

sentiu-se grande e poderoso, quase tanto quando fez a capa da Antologia de Poesia do Fernando Pessoa, coordenada pelo António Quadros, e então, foi nessa noite que trocou a minha querida madrasta pela outra que faz bicos. Mas a tadinha da Amália não teve nada a ver com isso.

O Zé Ralha apresentou-nos, eu disse à senhora que gostava muito do fado "Cansaço", mas ela estava surda, não percebeu, ao invés estendeu o braço, tapado com um véu de franjinhas, e com as suas mãos muito sardentas, com unhas pintadas de encarnado, agarrou-me a mão e, no mesmo tom que dizia "obrigado, obrigado", repetiu:

"Diana, o teu pai é uma pessoa muito pura, Diana. E o teu avô, Diana, o teu avô é uma pessoa muito pura"

E continuou nisto durante minutos e minutos, a apertar-me a mão, eu à rasca, queria que ela me largasse, e enquanto dizia "é uma pessoa muito pura, Diana, Diana" a dentadura dela ganhava vida própria e mordiscava os seus lábios, que tal como nos habitou na sua fase de decadência, estavam esborratados de um tom alaranjado.

Soube depois, que a senhora dona Amália, que era cliente da farmácia da Rua de São Bento do meu bisavô Correia (um que tinha vergonha de ser Ralha, usava Correia), emborcou todo o whiskey que havia na vernissage. Daí esta insistência na "pureza" do Zé Ralha.

Ao despedir-se, agarrou-me novamente na mão e lá debitou: "uma pessoa muito pura, o teu pai, Diana, Diana".

Isto é mais giro quando eu faço a imitação ao vivo... Só visto mesmo.

De qualquer forma, "obrigada, obrigada".

sexta-feira, julho 15, 2005

Quando eu era pequenina

quando eu era pequenina

E as histórias que eu vos conto passaram-se quando eu era, assim, pequenina.

Retratos de familia

retrato de familia

Um pequena amostra da minha agência de adopção de antepassados...

Columbófila

margarida terenas

Eu sempre gostei de pombos.
Salvo pombitos bébés às dúzias, todos os anos, nos jardins das Avenidas Novas de Lisboa. Bom, a Magui é que os salva - alimenta-os à mão, durante meses e meses a fio, com a paciência de uma verdadeira mãe galinha -, eu, da minha parte, limito-me a apanhá-los.
E isso é um grande feito, permitam-me, porque eu tenho pavor a pássaros. Duas péssimas recordações - daquelas que só saem da masmorra para onde foram desterradas há muito tempo quando temos um blog - explicam o meu temor.
Ter a perfeita noção do momento em que passei a ter medo de pássaros poupa-me uma trabalheira danada e muitas horas no divã de um psiquiatra, quando e se algum dia tiver dinheiro para isso (prefiro guardar o dinheiro da terapia, continuar a fazer catarses quase que diárias na minha (T)ralha e, qualquer dia, aumentar as mamas para um tamanho acima).
O meu medo irracional dos pássaros não tem nada a ver com um determinado filme de um senhor gordo, que se deixava fotografar de perfil, de charuto na boca. Não senhor. Eu sei que os passarocos não me vão fazer mal. E gosto tanto de pássaros (quem me dera voar) que ainda é mais difícil de perceber porque é que fico com suores frios e taquicárdias sempre que me aproximo de um canário, piriquito, caturra e, claro, pombos.
Mas é fácil. Muito fácil. Chama-se recalcamento (gracias senhor Freud, por dar o nome às coisas, mas por acaso, podia ter dado um nome mais jeitoso, que não me agrada nada ser recalcada).
Antes de termos várias dezenas de gatos em casa, tínhamos piriquitos. Mais de uma dezena deles. Havia o Cobalto (que era azul cobalto, como o nome indica), a Francelina (que era uma verde má como as cobras), o marido da Francelina era o Francisquinho - cujo crâneo, os nossos gatos, desenterraram de um vaso, muitos anos depois de o bicho ter ido para o céu dos pardais, e se fartaram de brincar com ele como se fosse uma bolinha -; havia a Dona Branca, que era uma albina, havia uma lutina cujo nome não me recordo; e houve, também, entre muitos muitos outros seres alados, cujos nomes a minha memória colocou em arquivo morto, a Fifa - uma pintassilgo que o Leonardo e a malta do bairro encontraram acabada de nascer, num ninho, por debaixo de um plátano da Avenida dos Estados Unidos da América.
Os passarocos - a Magui tinha também bicos-de-lacre, lembro-me agora, uns singelos e minúsculos passarinhos cor de chumbo, com bicos encarnados - andavam à solta lá por casa.
A senhora minha mãe era tradutora, passava a vida à frente de uma máquina de escrever Olivetti, e os pássaros enfileiravam-se nas pontas do rolinho onde se colocavam as folhas. Assim, à medida que a Magui dactilografava as suas traduções químicas, de francês para português, os bichinhos iam andando para a direita, aos pulinhos. Quando a linha chegava ao fim e uma campainha fazia tlim, a Magui puxava uma alavanca, descia uma linha e recuava tudo para a esquerda. Passarocos incluídos. Um espectáculo digno de se ver, que, certamente, haverá registo fotográfico lá por casa.
Os piriquitos eram como coelhos. Multiplicavam-se à velocidade da luz. E a Magui que sempre foi péssima em controlo de natalidade (por isso mesmo, chegámos, aos sessenta e muito gatos num apartamento), nunca tirou os ninhos das gaiolas.
A postura dos ovos era uma emoção (eu tinha menos de seis anos, isto foi antes de eu entrar para a primária), o nascimento dos bébés - aliens despenados e cegos - então nem se fala. Abríamos o ninho mil vezes por dia para ver se já havia bébés, apesar das súplicas da senhora minha mãe para não o fazermos.
E, numa dessas vezes, eu abri o ninho às escondidas, um ovo resvalou para o chão, partiu-se a meus pés, e o chão amarelo da varanda da cozinha ficou encarnado de sangue.

Lembro-me de gritar como uma louca e pouco mais.
E, se nunca me refiz de ter morto aquele piriquito, pior visão de terror tive num Verão, pouco tempo depois disto, que fomos passar à casa do avô Ralha, nos Capuchos.
A passarada, claro, veio atrás. Uma praga de formigas negras, grandes, esfomeadas, matou-os quase todos.
Outra visão horrenda: a Magui na casa-de-banho verde, com o chuveiro e os piriquitos nas mãos, a tentar tirar-lhes o manto de formigas das penas...

A Qui Qui está aqui (até rima), no outro lado, a perguntar como é que está a correr este post. "Bem...", disse eu. Mas acrescentei logo: " mas já estou a contar historias que não era suposto; os posts têm vida própria".

Este post era sobre pombos. Sobre pombos correio (já apanhei um pombo correio, a quem dei comida e água e que, posteriormente, entreguei à Associação Columbófila, que fica pertinho da Avenida da Igreja), amarrados pelas patitas, pelos seus donos, com fios de computador.

Este post era sobre esta senhora da foto -, Margarida Terenas, filha de um senhor que ajudou a implantar a república a 5 de Outubro de 1910, Feio Terenas (googalizem, se quiserem saber mais sobre este bravo republicano).
Era minha inquilina, a Margarida, daquelas que pagam uns míseros 50 euros por uma casa de seis assoalhadas.
Morreu velhinha, solteira, sem filhos, sobrinhos ou enteados, apenas uns parentes distantes da família Champalimmaud, com demasiado cacau para se preocuparem em reclamar fosse o que fosse da prima solteirona e pobrezeca (afinal só vivia em seis assoalhadas na Rio de Janeiro...).
Eu reclamei-lhe o passado. A Martinha tem imensos móveis da Dona Margarida. O sofá de onde vos escrevo, por exemplo, foi estofado de laranja, mas era da solteirona Terenas.
E as fotos. Tenho quase todas as suas fotos de família. Quando estávamos a retirar os seus pertences da casa para a vendermos - eu já estava muito grávida e aquilo parecia que nunca mais acabava - fazia-me muita confusão, deitar o passado daquela senhora para o lixo.
E, desde então, colecciono fotos antigas, não resisto e sempre que vou a uma feira de antiguidades compro-as, fico a imaginar histórias para os seus rostos, adopto-os como a minha família, porque a minha verdadeira, de sangue, está cheia de segredos e omissões (ninguém me soube dizer, no outro dia, em que eu andava em pesquisas genealógicas - introduzida no vívio pelo JPH -, como se chamava o meu bisavô Correia, por exemplo, e eu apercebi-me que não sei o nome completo da minha avó Zá).
Guardei o mais que pude da Margarida Terenas. Tenho pratos, tenho malas antigas de viagem, um escrivaninha, tapetes, sei lá, tenho tudo e mais alguma coisa desta senhora que eu nunca vi na vida enquanto respirava o oxigénio cá na terra.
E eu amo esta foto. Está mesmo feliz, não está, a D. Margarida?
E eu aposto que hei-de ficar com a mesma cara de felicidade aparvalhada. E há de ser com pombos. Quando eles chegarem a Santa Marta.

quinta-feira, julho 14, 2005

Gmail Reloaded

Já vos falei muitas vezes do Gmail. A pandilha, que hoje em dia está desactivada, nasceu e morreu no (e pelo?) Gmail.

Andava triste. Ligava o mail dos mails todas as manhãs, mais por hábito do que por outra coisa qualquer, porque os únicos mails que lá caíam eram os comments que alguns (poucos) deixam neste quintal e umas cusquisses enviadas de uma Diana para outra.

E, de repente, sem aviso (as melhores coisas acontecem mesmo quando menos se espera), lá estou eu de cinco em cinco minutos a espreitar a janela do Firefox, a carregar freneticamente no botão do refresh.

E a sorrir para um monitor.

quarta-feira, julho 13, 2005

O famoso senhor Andy Vring

Holandês voador, que coração andaste tu a partir no Michigan, USA?
É o terceiro dia consecutivo que alguém da Ford Motors te pesquisa no Google e vem parar à (T)ralha. E vasculha este blog de uma ponta à outra.

Se calhar, podemos formar um clube...

Entretanto, os holandeses continuam a perseguir-me. Recebi uma carta de um, a contar-me uma escandaleira fiscal em Portugal. Chama-se Peter, vive em Amesterdão, tem uma caligrafia muito bonita, e é dono de uma empresa de fotografia (também já cá faltava...). Não faço ideia porque me enviou a mim a carta, cheia de selos com as trombas do Van Gogh, a pedir-me ajuda numa desavença com o Estado português...

Mais uma coisa estranha... Estás a ver como eu não faço nada para que elas aconteçam? Simplesmente as atraio...

Vou ligar ao senhor.

Private

Maique, desculpa-me. Mas é que o post anterior estava cheio de gralhas.

Dia 3

E ao terceiro dia...
... a dor de cabeça aliviou.
Aliviou apenas, não passou. Esta é das ruins, das que veio para ficar, daquelas que nem a pílula maravilha à base da perigosa codeína (conhecida no underground farmacêutico como Dolorun E) consegue exterminar.
A dieta cá anda, com grandes resultados e os leitores deixem a minha nutricionista em paz, se faz favor: com ela perdi, há 3 anos, cerca de dez quilos.
O problema do pão e das massas (os meus hidratos de carbono favoritos) é o que a gente lhes põe em cima... E três dias, um quilo (a balança louca voltou a dar-me o mesmo peso hoje de manhã) e alguns centímetros a menos, parece-me uma excelente contabilidade. Vou no bom caminho, a caminho do tamanho 42 de calças, força camarada, força (o dia em que eu comprei umas calças 40, pouco tempo antes de a Carolina se implantar no meu útero, foi um dos mais felizes da minha vida!!!)

Hoje tive um sonho musical, com K's Choice - 20.000 seconds.

20,000 seconds since you've left and I'm still counting
And 20,000 reasons to get up,
get something done, but I'm still waiting
Is someone kind enough to pick me up and give me food,
assure me that the world is good
But you should be here, you should be here

How colors can change and even the texture of the rain
And what's that ugly little stain on the bathroom floor
I'd rather not deal with that right now
I'd rather be floating in space somewhere or
Worry about the ozone layer

And it's almost like a corny movie scene
But I'm out of frame and the lighting's bad
And the music has no theme
And we're all so strong when nothing's wrong
And the world is at our feet
But how small we are when our love is far away
And all you need is you

Não sonhava há algum tempo, já andava preocupada, estava rés-vés a enviar uma carta registada com aviso de recepção à família do João Pestana (morarão no Carlton Palace, por caridade do primo madeirense?), a pedir um qualquer sonho, podia até ser como o título daquele quadro do Zé Ralha que está no chão da sala de jantar à espera de ser pendurado, que se chama: "Hoje sonhei que sonhava".

Não ouvia K's Choice há muito muito tempo, gostei da visita madrugadora, voltem sempre, o sonho foi tão bom que até me esqueci que acordei com o ruído infernal do martelo pneumático lá fora, a destruir o passeio da rua de Santa Marta.

Os meninos são a banda sonora de hoje (If I could put you in a frame I'd draw your smiling, with a cigarrette in your mouth and your hands reaching out for something...)

terça-feira, julho 12, 2005

Dieta II

Pequeno-almoço: Café duplo e "sande" de queijo
Almoço: Sopita de feijão verde e salada de frutas
Lanche: "sande" de fiambre
Jantar: Sopa de feijão "congo" (as coisas que a Magui inventa...)
Ceia: iogurte líquido

Ontem comi pouco e, por isso, tive uma dor de cabeça tipo carrilhão de Mafra a martelar melodias loucas e desafinadas junto ao montito de massa cinzenta que está a ditar aos meus dedos estas linhas...
Segundo a balança louca do IKEA, tenho menos um quilo, mas eu não acredito na laranjita - a parva está a gozar comigo, a dar-me esperanças infundadas que isto vai ser rápido fácil e indolor.
Nunca nada é assim. E, como o único exercício que eu faço, é subir os degraus que me levam todos os dias à porta da Martinha, vai levar uns mesitos a chegar aos 68 quilos. Este é o meu objectivo - eu sei, por experiência, depois de muitas centenas de contos gastos do Zé Maria Tallon e no outro, o "tuga", o Póvoas, que nunca serei magra, por isso, proponho-me a um objectivo bastante modesto, mas que, ainda assim, será à custa de muitas privações alimentares (o ar engorda-me).

Esta dieta está a ser mais fácil porque estou com sérias dificuldades financeiras. Ou seja, utilizando um provérbio de mau gosto para quem se está a auto-infligir com o castigo da fome, junta-se a fome e a vontade de comer.
Há tempos, deu-me uma fúria contabilística, quando o ordenado ainda assim chegava aos últimos dias do mês. Queria saber em que é que estoirava tanto dinheiro. Conclusões: fraldas, cremes para o rabo, roupa e sapatos para a Carolina e para mim, gasóleo, EMEL, tabaco, quotas do clube de serigrafia, e a maior parcela, 250 euros, era Laçinho - almoços e lanches. Nada mais, nada menos que, 250 euros. Um quarto do meu rendimento.
Tentei abdicar do carro - a experiência durou uma semana e picos e até gostei de partilhar a carruagem do Metro com tanta gente feia (escrevi imenso, numa Moleskine preta, para o sr Scented Garden, sobre o assunto dos transportes públicos e dos seus passageiros de rostos sem expressão).
Do tabaco, nem tento, só me faria engordar mais. Sapatos já não quase não compro (umas míseras sandalecas no mês passado), por isso, o corte vai para a avença mensal que eu tenho com a gerência do Laçinho.
Uma das minhas dietas com melhores resultados foi, precisamente, por necessidade.
Pode ser difícil de imaginar, mas já fomos pobres lá em casa.
Miseráveis.
Eu e o Leonardo gostamos de fazer um "gague" nos jantares de aniversário e outros encontros da família Addams, relembrando os longos meses em que esprememos uma amostra de pasta de dentes, daquelas que vêm nos "kits" das companhias aéreas - o pai de um dos nossos amigos de infância, que acredita que é Deus, trabalhava na TWA, arranjava-nos dessas pastas de dentes -, para conseguirmos manter uma certa higiene oral, porque, caros, isso era mesmo um luxo, no grau de pobreza em que (sobre)vivíamos.
Eu tinha 16 anos, estava insuportável, em plena adolescência, e deixei de comer carne e peixe. Alimentava-me a pão, água e iogurtes. Mesmo os iogurtes tive que cortar, porque, a certa altura, o cabrão do frigorífico deixou de funcionar.
Estivemos por um fio. Eu queria ir trabalhar para ajudar a minha mãe, porque ela não tinha sequer dinheiro para as matrículas, nem para os livros (fui à Costa pedir 30 contos ao meu avô, ele passou o cheque sem perguntas, isso é que doeu mais, não quis saber pelo que estávamos a passar, assinou o cheque do BCP com a sua bonita caligrafia e ficou de consciência tranquila).
Nesse ano, as minhas notas desceram a pique e o ponteiro da balança também.
Não tive menstruação durante meses e meses e a minha mãe, desesperada, a pensar que eu estava grávida, e eu com fome, com raiva, tão virgem quanto a mãe de Jesus, fiz a coisa da qual mais me arrependo na vida - descalçei a bota Doc Martens de biqueira de aço e, sentada no chão de cor de ardósia do Jardim de Inverno, fiz pontaria e mandei-a à cabeça da Magui...

Basta por hoje.
Já estou com aquela alergia marada. A alergia dos fantasmas do Natal passado.

segunda-feira, julho 11, 2005

Dieta. Mais uma vez.

Estou em dieta.
Mais uma vez.
Desde que me lembro de ser gente que estou em dieta.
Os meus distúrbios alimentares começaram bem cedo.
Quando eu era pequenina, mesmo muito pequenina, a Magui diz que eu estava ao peito a mamar quando o Zé Ralha chegou anormalmente cedo a casa, acompanhado da amante (fututa mãe dos meus irmãos) e anunciou à minha mãe que ela era uma merda na cama e que se ia embora (muitos anos depois, trocou a minha madrasta favorita, a minha mãe adoptiva, por uma ogre loira de cabelo oleoso, com a justificação que ela lhe lambia o piço - desculpem os mais púdicos, mas não há forma suave de descrever o calibre das maldades que o meu dador de esperma fez).
Eu tenho uma ideia pequena do sofrimento da Magui. Fizeram-me muito mal quando eu tinha a minha filha ao peito, acabada de nascer. Só por ela é que eu não enlouqueci. Quero acreditar que também fui eu quem salvou a Magui.
A mim, não me secou o leite pelo desgosto e pela raiva. Dia após dia, notificação do Tribunal de Menores atrás de Notificação, absorvia o impacto dos murros virtuais no estômago e seguia em frente (de noite, quando a minha filha dormia ao meu colo, eu chorava baixinho).
Mas a Magui deixou-se levar. Porque amava o estrupício do Zé Ralha. A depressão galgou pela minha mãe linda de olhos azuis acima e ninguém reparou que o seu leite secou. Nem uma gota para amostra. Parece que estive mais de uma semana sem comer. Apenas não morri porque a minha avó Zá teimava em me dar água. Foi assim a minha primeira dieta. Que me fez recuar, aos três meses de vida, ao peso com o qual nasci.

A primeira dieta que fiz de que me recordo tinha pouco mais de seis anos. A minha avó Tóia tinha morrido, os meus problemas tinham começado, e o avô Oliveira deixava-se levar pela loucura, vagueando de chinelos de couro pelo chão do hall forrado a alcatifa verde, a chamar a minha avó: - "Dia...(de Custódia)", murmurava ele baixinho.
Tinham contratado uma Dona "Pafúncia" - é o nome que a família Oliveira-Ralha chama às empregadas doméstidas -, a Isabel, pouco tempo antes de os anjos levarem a minha avó Tóia.
Era taco de pia, sem nível, tinha cara de macaco e cabelo muito encaracolado com permanente. Tinha um filho insuportável, não me lembro do nome do ser, que me ensinou, porém, uma palavra - "caraça", sinónimo de máscara de carnaval; ensinou-me esta palavra no dia em que uns homens foram buscar a cama de hospital onde a minha avó morreu e as botijas de oxigénio que lhe prolongaram a vida para lá do que teria sido desejável (o Zé deu-me, há pouco tempo, uma foto do dia em que ela morreu - eu e o Hugo, um em cada lado, a sorrirmos, eu desdentada, sem termos a mínima noção do sofrimento da nossa avó Tóia)- e, por falar em Zé, ele teve uma qualquer paixoneta pela senhora dona Pafúncia, porque a defendia com unhas e dentes, porque foi quase um terramoto quando a despediram (para o seu lugar veio a minha Teresa, a minha ama querida, que tanto amor me deu - tenho uma história para contar com a Teresa; não me posso esquecer de vo-la contar).
Eu dei por mim a acreditar que a tal Isabel macacóide me queria envenenar. Teci essa teoria da conspiração por ela me ter servido um cachorro com uma mostarda fora do prazo. Simplesmente deixei de comer. Também ninguém reparou. A roupa a cair-me pelas pernas abaixo, mas andava tudo noutro planeta.

Este post não era para ser assim.
Tinha-o imaginado com uma foto berrante da minha balança laranja do IKEA sob o meu chão preto da casa de banho, e uma prosa ao estilo do Diário da Bridget Jones, dando-vos conta do meu peso, das minhas medidas, e da quantidade de calorias que já tinha ingerido hoje.

Queria-vos contar do estranho fenómeno que eu induzo às balanças: ficam doidas, viciadas: esta laranjita dá-me um peso diferente a cada vez que lhe ponho os pés em cima (será pelo facto de ter custado 4,99 euros?). A anterior, era mais ou menos certa, e era lindíssima, mas a Carolina chamou-lhe um fanico. A primeira de todas, tinha um Homer Simpson a lavar os dentes, era muito amiga - para ela, eu pesava sempre perto de 65 quilos...

Mas o teclado deste Compaq trocou-me as voltas. Mais uma vez arrisco ser processada por difamação...

Tudo isto para dizer que estou em dieta. Por isso, vou andar de mau humor.

sexta-feira, julho 08, 2005

Dramalhão

Soneto da separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

Vinicius de Moraes


Não é um queixume, o que te quero dizer.
É um lamento, baixinho, porque parece que tudo o que eu digo te irrita.
E eu ando triste.
Finjo que não percebo, passo por distraída (coisa que não sou), contento-me com as migalhas contrariadas que raramente me dispensas, porque o breve pensamento de não ter a tua amizade dá-me falta de ar, ata um nó cego na minha garganta, enche os meus olhos de lágrimas.
É mais um dramalhão, com certeza.

quarta-feira, julho 06, 2005

Véu


arabias
Originally uploaded by dia_ralha.

E outra do Dubai. Estou a limpar os cartões SD da Leiquinha...

Foto. Para variar


maos
Originally uploaded by dia_ralha.

O Lameira queixou-se que eu escrevo posts muito compridos. Eu só sei escrever testamentos. Invejo os posts da "carneirada": são K.I.S.S - keep it simple stupid.
Não sei escrever posts KISS, apesar de um admirador secreto dizer em comment que eu sou uma kiss-specialist - eu nao sabia nada disto...
Mas ando-me a baldar às fotos. Aqui fica uma antiga, das arábias.

terça-feira, julho 05, 2005

Um texto para o Kaos sobre as grandes expectativas que eu crio

Este texto foi escrito há algum tempo, para uma pessoa muito especial, a quem eu escrevia semanalmente quando não havia blogs, uma pessoa que apelidava os meus escritos de Amelices (como no filme do Jeunet).
Eu tinha grandes expectativas em relação ao dia mágico 20/02/2002. Nada aconteceu. Tal como no fim-de-semana passado.

Era uma ideia bonita, a minha, de que lá pelo dia se ler de trás para a frente e de frente para trás, pudesse encerrar em si algo de mágico e único que mudasse, não só a minha, mas toda a a existência da humanidade. Não sei - porque a matemática não é o meu forte - quando foi a última vez que o mundo presenciou proeza idêntica, mas acho que foi há uma boa catrefada de séculos.
Não conheço ninguém - para além de mim, claro - que se tivesse lembrado de reparar ou tecer grandes considerações acerca disto e não sei se isso significa que sou louca, iluminada, ou simplesmente, alguém que não tem mais nada para fazer.
Dou demasiada importância a estes pormenores, empolo as minhas expectativas, tentando assim, dar significado e interesse à vida, mas ontem, à parte de três acidentes rodoviários graves no país - que, certamente, mudaram os destinos de muitas pessoas -, foi apenas mais um dia triste.

O céu não ficou cor-de-rosa, nem as nuvens amarelo canário. Não houve fogo de artifício de estrelas cadentes à noitinha. O admirador das tulipas brancas não escolheu o dia de ontem para se revelar e o telefone não tocou com nenhuma boa nova.

À hora mágia (20H02m) estava presa no trânsito, rumo ao jornal, fechada num Mercedes de cheiro nauseabundo a baunilha, com um motorista psicopata totalmente drogado. Quando cheguei à redacção, não tinha nenhuma promoção ou aumento em cima da mesa. Nem a tecla "C" do meu teclado Mac deu um ar da sua graça ontem. Podia, milagrosamente, ter passado a funcionar.

Nada.

Não fosse um jantar de "espantar a neura" com a minha amiga Filipa (tua conterrânea lá do fim do mundo) e teria chorado ontem.

Tu sempre que fazes uma manchete ficas assim?

Pergunta o coleguinha da frente.
Estou, de facto, insuportável. Quero acreditar que é dos muitos cafés que já bebi hoje (estou com uns tremeliques nas mãos, tipo béri-béri) e não da alteração legislativa que apressei.
Nada de extraordinário aconteceu, Kaos. Saturday night tive o encontro surreal com a senhora assessora na Bica (vou ter que tirar o post porque ela nem dormiu esta noite a pensar que alguém descobre o texto e denuncia os seus ensinamentos no 24 Horas) e, à parte isso, nada de muito palpitante (à excepção da manchete) a registar.
Ontem descobri que fui viver para um bairro simpático, onde os vizinhos me ajudam a levar 12 litros de leite até a um quarto andar a pique sem elevador e os polícias de trânsito, que "vivem" mais abaixo, se apresentam aos moradores, num gesto de boas vindas à rua de Santa Marta.
Continuo sem gás e sem candeeiros (o jovem que se propôs a acabar com o problema anda a apagar outros fogos), mas com a bela e perigosa Internet wireless.
Sou, basicamente, uma dona de casa desesperada. Acho que nunca vou conseguir desempacotar os caixotes que atravancam a cozinha e arrumar a estante da sala.
Quarta-feira quem quiser lá passar para um copo é benvindo. Diz-me a prudência que não é sensato divulgar a morada de minha casa num blog, por isso, se quiserem saber o número da porta mandem um mail para diaba.ralha@gmail.com (será sensato divulgar a conta do gmail, dona Prudência? Não? Já está, nada a fazer...)

segunda-feira, julho 04, 2005

Inchada

Estou orgulhosa da minha manchete. Passa em todas a rádios, em todas as TV's.
Tenho o ego tal e qual como o aparelho reprodutivo masculino - depois de muito tempo murcho, esticou para proporções africanas.
Maniaco-depressiva como sou, amanhã já estou a achar que sou uma fraude. Até lá ninguém me tira a satisfação do meu "furo".

Como é que se diz?

Eu ando esquinada com a Magui, porque ela me dificulta a vida, porque anda uma velha chata como a putassa, porque ela passa o dia a ver as novelas do GNT e não mas deixa interromper por breves instantes só para espreitar a abertura do telejornal e, por isso, não devia abrir o debate cibernético etimológico e gramatical, por forma a pôr um posnto final a uma das dúvidas que mais atormenta a senhora minha mãe durante todos os santos dias. Mas sou um coração mole, não consigo ficar zangada com ela por mais de dez minutos e, então, cá vai: Como é que é mais correcto dizer-se?

A) Vou com os cães à rua

B)Vou à rua com os cães

Eu tenho uma teoria muito própria, por incrível que pareça até é lógica (é um bocado retorcida mas é lógica, no limite). Digo que é a primeira hipótese, porque a Magui só vai à rua porque tem que pôr os cães a mijar. Se, pelo contrário, fosse à rua, imaginemos que beber um café, ou comprar cigarros e levasse os cães sem a obrigação de eles esvaziarem a tripa e/ou o intestino, seria a hipótese B.

A Magui não come a minha teoria (até me espantava se ela me desse razão um dia...), e anda a matutar nisto há muito tempo.
Há demasiado tempo - enquanto esfrega os caixotes da areia dos gatos, enquanto faz comida para um batalhão (apesar de só eu jantar em casa), enquanto muda a fralda à minha filha, enquanto varre os pelos do Fiel do chão da cozinha, enquanto dá milho ao milésimo pombo bébé que salvamos de um triste destino (eu gosto de pombos, ao contrário de 99,9 por cento da população de Lisboa; não gosto das cagadelas que corroem o cinza rato metalizado do Idea, mas são um mal menor, são tão lindas as pombinhas...)
Se calhar é esta atrofia que a viciou na Ana Maria e no Louro José.
Ajudem a solucionar esta charada e, assim, pode ser que a minha mãezinha volte a ser uma intelectual espectadora diária do canal Mezzo.
Bem haja

sábado, julho 02, 2005

Martinha entra na era do wireless

A Martinha é daquelas velhotas geek, high tech, só o bilhete de identidade confirma a sua avançada idade, mas, no seu caso, nem isso: é tão velha que não existe registo do seu nascimento na câmara municipal, nem nas Finanças, na sua caderneta predial, apenas há um registo, uma data - 1901 -, ano da primeira alteração ao prédio que é a mãe da Martinha e dos seus apartamentos irmãos.
Às senhoras não se pergunta a idade, a Martinha insiste em dizer que ainda não é centenária, mas eu conto-vos um segredo: é mentira! (já vai a caminho dos duzentos, mas isto fica só entre nós).
A Martinha entrou na era do wireless, está tão vaidosa que não se atura: pior só quando lhe maquilhei a sala de laranja (cor que lhe tirou, pelo menos, meio século de cima). Pede-me a Martinha para deixar aqui os agradecimentos públicos ao senhor Abílio, que tornou possível o sonho do wireless.

Tenho que subir a rua e enfiar-me na "mina", escrever notícias.
Até

Quem me ilumina o fim-de-semana?

Sábado, dez e vinte da manhã, estou no pasquim. Nem aos dias de semana estou tão cedo na "mina" (esta tem "copywrite" do senhor Miguel Madeira).Devo estar doente.
Tenho uma grande escandaleira em mãos, se não der manchete é porque os directores devem andar loucos (mas a minha popularidade no piso de cima ainda não é a maior - a excepção vem dos amigos fotojornalistas, essas bestas, esses analfabetos, como os descrevem os reles "escribas", essa categoria infame à qual pertenço - é assim que os fotógrafos nos chamam: é uma troca de mimos deliciosa...).
Houve uma altura em que eu vivia obcecada pelas manchetes e pelas chamadas à primeira página que fazia. Tinha a contabilidade organizada, qual Técnico Oficial de Contas, acho que, na altura, era muito ambiciosa, queria ser tão boa como o Leonardo (a tara estatística só me deu jeito uma vez, quando não fui promovida e mandei para o C... um director, espetando-lhe a contabilidade do meu trabalho na cara).
Falhei redondamente o objectivo, não sou ninguém, ainda estou na letra C, a letra mais miserável da profissão, e fui desterrada na secção menos importante do pasquim. Começo a gostar da secção, porém: o "chibo" do JPH, novo coleguinha de secretária - que andou a divulgar este blog para lá do que eu desejaria (lá vou eu deixar de escrever sobre a minha vida sexual, por exemplo, mas, na verdade, também havia pouco para contar...), temos, agora, diariamente, uma média de 120 page loads, é bom, muito bom, sabe-me bem, mas o facto de eu ter controlo sobre os ip's que cá vêm ao quintal angustia-me muito (eu sei que o blog é público, que se está escarrapachado na Net é para ser lido, que são coisas da vida, mas eu chamei "puta" a uma juíza no outro dia, acho que já falei mal de colegas de profissão e gozei com a minha entidade patronal, qualquer dia têm motivos para a justa causa) -, mas, dizia eu, o JPH veio iluminar os meus dias (não é tão "loud" como eu, mas anda lá perto), com o seu humor cáustico - o outro tinha uns olhos mais bonitos que os do JP, mas só falava de carros e tinha conversas telefónicas com a mulher que não tinham graçinha nenhuma - e, depois, um ano após de ter chegado, contrafeita, a este departamento, já tenho umas fontes jeitosas, já não escrevo só sobre buracos, já não me dão só as sobras dos seniores, e, claro, tenho o chefe mais bonito do mundo.
Tenho grandes expectativas em relação a estes dois dias a quem chamam fim-de-semana. Tenho um feeling que algo de extraordinário está prestes a acontecer.
Será?
Quem me ilumina o fim-de-semana?

quinta-feira, junho 30, 2005

Canção

Toda a gente anda com o Variações debaixo da língua - culpa dos Humanos. Eu gosto dos Humanos, nunca ouvi o disco, só os telediscos que passavam na Sic Mulher - a Carolina adora o "Muda de Vida" -, tinha dois convites para o concerto de ontem, mas a minha mãe não me deixou ir (vicissitudes de se ser mãe solteira e de depender sempre da bondade da mãe para ter um bocadinho de vida social, sim, social, já nem digo afectiva, amorosa, ou coisa que o valha)
Não sei se os Humanos têm esta no CD. É um poema de Fernando Pessoa, musicado pelo Variações (quando ele morreu, lembro-me, estávamos na Costa, a avó Zá ainda viva, a tia Lena e o tio Carlos também lá estavam, lembro-me bem, tão bem, a capa do Tal & Qual, em manchete a notícia de que as autoridades sanitárias tinham queimado a ambulância em que o Variações tinha sido transportado, tinham incinerado os lençóis e desinfectado o quarto; ninguém sabia que doença estranha era aquela que o levou), é talvez das melhores coisas que se fez em Português.


Silfos ou gnomos tocam?...
Roçam nos pinheirais
Sombras e bafos leves
De ritmos musicais.

Ondulam como em voltas
De estradas não sei onde
Ou como alguém que entre árvores
Ora se mostra ou esconde.

Forma longínqua e incerta
Do que eu nunca terei...
Mal oiço e quase choro.
Por que choro não sei.

Tão tênue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste.

Mas cessa, como uma brisa
Esquece a forma aos seus ais;
E agora não há mais música
Do que a dos pinheirais.

quarta-feira, junho 29, 2005

Bug

Não percebo porque é que no post anterior o parágrafo que começa com: "As meninas" fica em letra mais pequena. Já tentei tudo. Não dá. Perdoem.

Entretanto, decidi copiar todos os meus textos do blog para um ficheiro. São muito especiais e eu não tenho nenhuma espécie de backup.

quinta-feira, junho 23, 2005

Sobre a mudança - ode à minha casa pequenina

[Este Firefox brasileiro, "baixado" por engano para as entranhas do meu ressuscitado Compaq, está a dar cabo de mim: a página de abertura do Gmail, em vez de me cumprimentar com "Welcome to Gmail, a Google approach to email", não - tenho que gramar com qualquer coisa deste género "Benvindo ao Gmail. Um email que é do jeito e a cara do Google". Aqui, no universo brasileiro, eu crio "postagens" no blogger. As tabs do Firefox são abas - acho que é este o que mais me enoja... A preguiça, porém, é muita, e desinstalar o irmão bastardo brasileiro da raposa de fogo já me valia perder uma série de "bookmarks" (lamento Maique, gostava de ser ultra- geek como tu, mas não sou: essa é a dura realidade. Percebo alguma coisa, interesso-me, mas consigo viver nesta agonia brasileira...)]

A mudança nunca mais acaba. Por oposição, o meu anjo das arábias ainda agora chegou e já se prepara para partir (relativo, o idiota do tempo...)
O meu 10º andar sobre a Estados Unidos da América está desolador. É-me extremamente dolorosa, esta mudança.
Não sei porquê.
Não fui feliz nestas duas assoalhadas minúsculas com uma vista sublime sobre a cidade nova. Fui estupidamente miserável.
Mesmo muito.
Recordo a última noite com o Pax e a Maria, os meus cães gigantes mansinhos, que eu não hesitei em abandonar à primeira dificuldade, como o pior momento destes meus 37 metros quadrados de quem me estou a despedir.

A minha mãe no hospital, com o coração quase parado, um dia triste de chuva, eu magra, a primeira vez na vida em que eu fui magra, pálida, sem cor, excepto o negrume das olheiras, uma carrinha BMW com uma senhora baixinha e anafada, vestida de vison, no banco de trás, a garantir-me que eles iam ficar bem, que eu não chorasse que eles iam ficar bem, eu sem saber se era chuva ou eram lágrimas que caíam pelas bochechas abaixo, a Maria sentada no banco de trás e o Pax sem querer entrar, e eu a procurar no bolso do casaco de pele de antílope clarinha, sarapintado pela chuva, as 50 miligramas de sertralina, sem conseguir enfrentar a realidade sem uma droga poderosa, a carrinha a avançar e eu estática, no meio do parque de estacionamento, a tentar convencer-me que eles estavam melhores sem mim, que lhes tinha encontrado um orfanato de luxo, fiquei ali, parada, não sei quanto tempo, até que a D. Assunção me veio buscar, foi à janela, não sabe porquê, viu-me ali sozinha e veio-me buscar, não perguntou nada, nem na altura, nem depois, só me abraçou e disse-me que ia rezar muito para que eu tivesse paz nas desventuras...

Mas houve mais, muito mais momentos difíceis nestas quatro paredes. E piores até. Ou diferentes.

Ainda assim, sem nunca ter sido aqui feliz, amo a minha primeira casa, não a vou esquecer, e acredito que não tenha sido sua culpa.

Agora, preciso ser feliz com vista para a Duque de Loulé.

Adeus casa.

quarta-feira, junho 22, 2005

Rapidinha para o senhor arquitecto

Kaos,
Não sei se já te apercebeste, mas estamos a desenvolver uma relação estranha e peculiar, do melhor que se faz nas sitcoms que passam no ainda grátis canal Fox da TV Cabo.
Estou sem tempo, sem tempo nenhum para dissertar sobre o assunto. Mas abro o Gmail e tenho lá o teu comment; vou ao statcounter e faço a contabilidade das tuas visitas - o teu ip e o teu firefox 1.0 já os conheço de cor - e então é-me impensável desligar a merda do Compaq sem escrever algo para para entreter os teus olhos.
Ontem, sentada na Bica, a olhar para ti, pensei com os atilhos do meu corpete beringela: "Ali está uma das pessoas que te faz escrever bem. Diz qualquer coisa inteligente. Age como uma mulher intensa."
Não saiu nada de jeito. Não saiu nada, de todo. Para a próxima talvez...
Um beijo grande
Dia

segunda-feira, junho 20, 2005

Mudança

Não estranhem a ausência de caracteres neste blog. Ando com a casa (literalmente) às costas - 48 degraus a pique até ao meu quarto andar cheio de cachet no Marquês de Pombal (festa de inauguração na próxima semana).
Hoje, porém, fui buscar o meu Lourenço das arábias ao aeroporto (foi a primeira vez que ele me deixou fazê-lo) e até me esqueci do murro no estômago de sexta-feira - a entrevista a correr e o senhor holandês aflito, com a actual namorada psicótica (uma que eu ingenuamente ajudei nos meandros do Tribunal de Família e Menores de Lisboa) a enviar-lhe sms de calibre do além, de dez em dez minutos, e eu, boa samaritana, armada em conselheira matrimonial (cada conselho sincero saiu-me do pelo, atou-me um nó cego na garganta e no coração).
Mas, quando o Miguel, nome de código Lourenço, reaparece em Lisboa tudo é menos grave e eu juro, parece impossível esta contabilidade: não dá para acreditar que ele está há dois anos e meio longe de mim.
Hoje fomos às minhas 3+1 assoalhadas do Marquês de Pombal e disse-lhe que já podia voltar. Podia morar ali comigo e com a Carolina. Abraçámo-nos, um abraço muito forte, que teve que ser interrompido, pela ciumeira da minha filha que não deixa nenhum homem tocar-me (eu era igual com a Magui e os seus namorados).
Mais do que um amigo, mais do que um namorado, mais do que um irmão, mais do que um pai para a minha filha, ali, naquele quarto com vista para a Duque de Loulé, senti-me capaz de enfrentar qualquer batalha, e pensei de mansinho que não vou ficar destroçada outra vez.
Tem uma namorada psicótica, tem aquilo que merece.

sábado, junho 18, 2005

O texto

Escrever sobre uma pessoa que amamos, ou que, outrora, sabe-se lá porquê, desejámos com todo o nosso ser, é um exercício doloroso. Fazê-lo para milhares de leitores portugueses é angustiante.
Das duas uma: ou saía uma grande merda, ou um grande texto. Não ficou mau.

Não consigo, ainda, escrever sobre o miradouro de Santa Luzia, sobre quase meia dúzia de horas de entrevista e acerto de contas pessoal. Fica o texto.


Novos Lisboetas

Um cidadão do mundo

Na passada reencarnação talvez tenha sido caixeiro viajante...
Nesta é designer.
Andries Vring nasceu, por acaso, em Leidschendam, na Holanda, há 30 anos, filho de pai holandês e mãe lisboeta. “Por acaso”, porque, com apenas seis meses de idade, atravessou meio continente e um oceano e rumou até ao Brasil e, desde então, nunca mais parou.
Primeiro foi São Paulo, depois Salvador da Bahia e, novamente, São Paulo. Levou esta vida de “saltimbanco” nos seus cinco primeiros anos de vida, dos quais pouco se recorda, à excepção de ter sido vizinho de Vinicius de Moraes e de ali ter aprendido os primeiros rudimentos da língua de Camões e também da de Shakespeare, porque frequentava uma escola americana.
Aos seis anos, em idade de ingressar no ensino primário, volta para a Holanda, para uma cidade perto de Haia. A adaptação não é fácil. Fala “vringuês” – uma mistura de três línguas, o holandês, português e inglês. “Um dia, estava na escola, entalei um dedo e não consegui explicar à professora o que me tinha acontecido. A minha mãe levou-me ao médico, preocupada, porque eu misturava as três línguas”, recorda, entre gargalhadas e com um sotaque português perfeito.
Com 13 anos volta a mudar de país. Desta vez, para Portugal. “O meu pai sempre disse que queria voltar para Portugal, onde conheceu a minha mãe, assim que se reformasse”, explica Andy. “Fomos para Alcobaça por mera coincidência, porque conhecíamos na Holanda um casal português que era de lá e os meus pais ficaram apaixonados” pela então vila.
Mais uma vez, tem que lidar com a barreira da língua: “Falava muito pouco português. Custou-me muito a habituar”, admite Vring. Mas teve sorte. Sozinho, no corredor das salas de aula, foi interpelado, em inglês, por dois garotos da sua turma, também eles recém-chegados ao país, filhos de emigrantes portugueses. Foi amizade à primeira vista. Até hoje. Passou esse primeiro ano escolar em Portugal, o oitavo, com boas notas e sem nenhuma negativa. Como prémio, os pais ofereceram-lhe uma prancha de windsurf – uma das suas grandes paixões.
Andy Vring não sabe o que respondia quando lhe perguntavam: “O que é que queres ser quando fores grande?”. Não dizia, de certeza: “Quero ser designer”. Sempre gostou de desenhar e pintar e, por isso, no nono ano, a escolha é óbvia: segue a área de arte e design. Dois anos mais tarde, decide ser escultor e muda mais uma vez de cidade. Para as Caldas da Rainha. Mas desilude-se: “não precisava de um curso superior para o que me estavam ali a ensinar...”
Vem para a capital, pela primeira vez, com o objectivo de estudar Design, na Universidade Lusófona. Por aqui fica durante quatro anos. Mas Andy Vring tem “bichos carpinteiros” a fervilhar nos genes – acaba o curso e embarca para a Holanda, desta vez para Amesterdão, onde estuda Design industrial.
“Depois, foi mais uma sucessão de coincidências: surgiu a Internet quando eu estava a trabalhar num bar que disponibilizava acesso à Net. Eu já tinha interesse por esta área e decidi arriscar”. Andy Vring apanha, então, a euforia das empresas tecnológicas (a chamada “bolha” das “dot com”). Como a oferta de profissionais é escassa e a procura elevada, trabalha como freelancer e, também, em algumas das mais prestigiadas agências de publicidade, como a Grey e Advance Interactive.
Foram seis anos que passou em Amesterdão, de 1997 a 2003. Com um nome estabelecido no mercado e um chorudo salário, volta a sentir-se insatisfeito e com a portuguesíssima saudade herdada de sua mãe a falar mais alto. Volta para Alcobaça, em 2003, um ano que apelida de “sabático”.
Tentou estabelecer-se como designer “freelance” na zona centro, tendo trabalhado com as autarquias de Tomar, Alcobaça e elaborado o primeiro videoclip da banda Gomo, com a agência M104.
Vem, no final de 2003, para Lisboa “por necessidade”, em busca de oportunidades profissionais que não encontra na região centro. Uma professora da Lusófona dá-lhe a mão e arranja-lhe emprego numa pequena agência de design, a Terra, onde trabalha até hoje na área multimédia.
Andy Vring mora na Praça Afrânio Peixoto, junto à Avenida de Roma: “um achado em Lisboa, com um jardim enorme em frente de casa e estacionamento sempre disponível a qualquer hora do dia”. “Gosto imenso de Lisboa, da sua morfologia. É uma metrópole europeia, mas, por outro lado, é muito aconchegante, tal como Amesterdão”, diz, mais uma vez sem se conseguir definir se sente mais português ou mais holandês. No seu bilhete de identidade consta a nacionalidade holandesa e o seu porte gigante denuncia à vista desarmada as suas raízes nórdicas, mas existe em Andy Vring um enorme conflito genético de duas pátrias muito distintas: “tenho uma parte de mim muito emocional, mais portuguesa, e uma outra parte mais fria, racional e calculista, que é mais holandesa; andam constantemente em choque”, nota.
“Ando sempre a saltitar. Tenho facilidade em fazer amigos, mas desapareço com a mesma rapidez”, confessa.“Conheço meio mundo e não conheço ninguém. Não tenho raízes...”, diz, sem muito orgulho do seu destino nómada.
Se Andy Vring fosse uma estação de Metropolitano seria, de certeza, a da Cidade Universitária, onde inscrito nas paredes de azulejo está a frase do filósofo Sócrates: “Não sou ateniense nem grego, mas sim, um cidadão do mundo”. Próxima estação?...

Ideias peregrinas II

O destino é assim.
Fiquei sem imigrante à última da hora e entrevistei o Vring. Sai no Domingo. Para quem quiser ver quem é o senhor.
Estou meia zonza, sem reacção. Amanhã teorizo sobre a problemática.

quinta-feira, junho 16, 2005

Ausência

si asa um tivesse
pa voa na esse distancia
si um gazela um fosse
pa corre sem nem um cansera

anton ja na bo seio
um tava ba manche
e nunca mas ausencia
ta ser nos lema

ma so na pensamento
um ta viaja sem medo
nha liberdade um te'l
e so na nha sonho

na nha sonho mieforte
um tem bo protecao
um te so bo carinho
e bo sorriso

ai solidao to'me
sima sol sozim na ceu
sol ta brilha ma ta cega
na se clarao
sem sabe pa onde lumia
pa onde bai
ai solidao e un si e un na...

Cesária Évora & Goran Bregovic, em Emir Kusturica "Underground"


Não garanto que esteja escrito em bom criolo; foi tirado do net. Mas é das músicas mais lindas de sempre.

quarta-feira, junho 15, 2005

Ideias peregrinas

O Maique acusou-me outro dia de ter ideias peregrinas. Injustamente, parece-me, mas não vale a pena ocupar o quintal com esse assunto. Armei-me em ditadora no Gmail e, por isso, como tenho a perfeita noção quando passo dos limites (e porque adoro fazer um dramazito), renunciei ao meu mandato vitalício no reino da gmailada (é para aí a décima vez que o faço, mas, como adoro o poder, acabo sempre por voltar...)
Mas, na madrugada de hoje, durante uma insónia que durou a noite toda, estava eu deslumbrada com um anúncio idiota da TV SHOP a um cinto de sauna, e a pensar em estrangeiros de sucesso podia eu entrevistar para a nova secção politicamente correcta do Local Lisboa, ao Domingo - chamada "novos lisboetas" - , quando tive a mais peregrina das ideias. Uma que me transforma numa absoluta "idiota".
E se eu entrevistasse o Andy Vring? É estrangeiro. Vive em Lisboa há pouco tempo. Tem sucesso. Destroçou-me o coração.
Estavam reunidas todas as condições para um grande texto jornalístico.
Que tal? Proponho?

terça-feira, junho 14, 2005

Histórias da noite de Santo António

A noite do padroeiro de Lisboa foi very untypical.
Não houve manjericos, o cheiro da sardinha assada não se entranhou na roupa, cabelos e pele, música pimba nem vê-la.
Foi a minha primeira vez nos Santos, na Bica, e há momentos kodak extraordinários dessa longa noite: o rei da Chamussa, o enorme Jesus, vestido de amarelo, em cima de uma mesa numa espécie de strip-tease; o Soja-man e o inacreditável interesse do Lionel (com "i") pela conservação e restauro; o jornalista da concorrência, com corte de cabelo pseudo-moderno, que, já o sol tinha nascido, nos garantia que o jogador de futebol Pedro Barbosa é Deus; as horas que passámos sentados numa mesa a falar de fotografia (é o que dá sair com fotógrafos...); ver, finalmente, o João (que saudades); o Nuno, o cromo de camisa preta e gravata bordeaux, que se esmifrou para ganhar um cigarro (há fotos deste cromo, tiradas por um fotojornalista da Capital); eu e a Mar, a fazermos xixi numas escadinhas de beco, enfim, um espactáculo de decadência muito, muito divertido.
Aquele cujo nome não deve ser pronunciado veio à baila, eu fiquei triste por alguns minutos quando o João disse, out of the blue: "Conheci o Andy Vring; não o imaginava nada assim". Apeteceu-me dizer: "Eu também não o imaginava nada assim", mas optei pelo silêncio, estive mesmo muito silenciosa e pensativa (isso foi notado pelos ilustres foto-jornalistas bébés que me acompanhavam) e cheguei a uma conclusão - da próxima vez que alguém me começar a dar trela, a enviar mails muito simpáticos até às tantas, eu ponho tudo em pratos limpos: se é para me partir o coração, por favor, não diga coisas simpáticas, não entre em minha casa, não me beije muito perto da boca...
Será pedir muito?

Bocas da reacção - ou a história dos homens "coerentes" e "de grandes convicções"

Longe de mim transformar este blog num fórum de discussão política. Não gosto de política, sou totalmente apolítica, mas não posso deixar passar em branco a morte de dois combatentes anti-fascistas, o companheiro Vasco e o camarada Álvaro.
Mas, lamento, não vou aqui fazer uma ode maravilhosa de fazer chorar as pedras da calçada, a propósito da morte destas duas individualidades da esfera política portuguesa. Não vou falar da "coerência dos ideais" destes senhores, ou das suas "grandes convicções" - para isso, liguem a televisão em qualquer canal, sintonizem uma qualquer estação de rádio, desfolhem qualquer jornal.
Agora, os finados são uns santos. Só o director do meu pasquim teve a coragem de falar que se tratavam de potenciais ditadores de esquerda e, caramba, vou ter que lhe tirar o chapéu por ter tido a coragem, porque, fónix, até o Soares, que, a 6 de Novembro de 1975, celebrizou o "olhe que não, olhe que não", no ponto alto da resistência socialista ao PREC, só faloude "coerência e grandes convicções"...
Porque eram velhotes e fica sempre mal contar os podres dos defuntos, ainda mais quando eram uns velhotes tão simpáticos e frágeis.
Espero que o Pinochet e o Fidel Castro morram no mesmo dia. E aí, vamos ver as diferenças: aposto que o Fidel será, com certeza, um "homem coerente, de grandes convicções". O Pinochet, naturalmente, um assassino.

sexta-feira, junho 10, 2005

4000

A (T)ralha está de parabéns. Ontem, perto da meia noite, não se transformou em abóbora, mas recebeu a sua 4000ª visita.
O feliz contemplado foi o ip 212.113.169.90, um daqueles habitués deste blog, que eu não faço ideia quem seja, sabendo, porém, que acede através de Netcabo, tem um PC com Windows XP e Explorer 6.0.
Volte sempre. Esta casa também é sua.
E tu, Miguel, ainda em Linux, e com o Konqueror, deixa-me que te diga que hoje tive dois espanhóis. Que ficaram cerca de um minuteco. Nada, nada mau... ;)

quinta-feira, junho 09, 2005

666

É o número da besta.
Lá em casa, à semelhança do 25 de Abril - como já vos disse, é mais conhecido por 25 do 4 e por ter escrito a data já estou com urticária -, não se profere o número da besta. Por superstição - e nós somos supersticiosos, como tão bem reparou alguém que me envia "beijos apreciadores" e que, por isso, já tem direito a uma label só para si no meu gmail -, diz-se 665+1.
Taradices.
Não fiquei muito contente quando entrei no Mercedes e dei de caras com o 665+1 estampado no vidro da Covina.
Mas não era a primeira vez que apanhava aquele táxi e tinha até boas recordações suas - uma viagem num Merecedes bem limpinho e apresentável, com ar condicionado e um motorista que não exalava qualquer odor corporal repreensível e que me deixou sozinha com os meus pensamentos, é no silêncio dos táxis que me lembro de histórias para contar; essa viagem anterior do 665+1 foi boa, pasquim - museu da cidade, recordo-me bem, o Luís Magalhães a chatear-me o juízo para eu emigrar e os vaidosos pavões do Palácio Pimenta a desfilarem por entre uma vereadora municipal que eu ainda não percebi se tem alguma doença degenerativa do sistema nervoso central, ou se dá forte no álcool ou nos ansiolíticos.
Mas, ontem, depois da viagem matinal a bordo do 665+1, deparei-me com um sério e grave problema para a feitura do tal livro sobre os fogareiros.
É que eles são muitos. O chauffer do 665+1 do turno da manhã, não é o mesmo da tarde, e com certeza, o que atravessa a cidade de noite há-de ser outro. E, se calhar, às segundas, quartas e sextas estão escalados uns, e às terças, quintas, sábados e Domingos, outros.
O motorista do 665+1 de quarta-feira de manhã fazia juz ao número do Táxi da Retális: era uma besta!
Tinha uns lindos olhos azuis, mas era uma besta! Uma besta em plena crise de andropausa.
Mão na buzina a toda a hora, refilanços com qualquer carro que se pusesse à sua frente, disparates alto e em bom som, até que eu lhe dizer, com a minha pouca paciência matinal "ele não o consegue ouvir e eu não faço questão", a pular de uma faixa para a outra, grunhindo com os dentes semi-cerrados: "a fila para onde eu vou nunca anda".
Muita raiva acumulada; só me lembrava da história do outro taxista que o Miguel apanhou, que lhe apresentou a solução milagrosa para o stress (outro dia houve um que me ensinou uma dieta milagrosa) - comer pastilhas. Muitas pastilhas.
O 665+1 das quartas-feiras de manhã estava chumbado àadmissão do meu livro.
Próximo!

terça-feira, junho 07, 2005

31

A ideia não é minha, é do Madeira - fazer um blogue inteiramente dedicado aos taxistas da nossa praça.
Eu vou um pouco mais longe e digo-vos isto: era um livro dos diabos (e agora que nós, jornaleiros, temos todos a mania que somos artistas), modéstia à parte, texto Diana Ralha, fotos MMM, igual a best seller. De caras.
A primeira história desse livro seria sobre a Isilda, a telefonista da Retalis, que eu nunca vi na vida, mas que sabe o meu número de crédito de cor (é um número com 10 algarismos), que pergunta sempre pela Carolina, pelo David e pelo Gaudi (de acordo com a Isilda, somos os mais simpáticos jornalistas do país; já tu Madeira, que comunicas com as senhoras da Retalis através de monossílabos - crédito; viriato; miguel madeira -, nunca vens à baila), que me dá conselhos sentimentais e de puericultura, que estranha a minha ausência, que me envia sempre taxistas simpáticos.
A segunda história seria, seguramente, sobre a senhora do 31 - a enorme chauffeur de 54 anos, ex-técnica de higiene e segurança no trabalho, reformada há 12 anos da Inspecção Geral do Trabalho: "se aqueles gulutões dos ministros podem acumular reformas milionárias com vencimentos, porque é que eu não posso??? Além disso, está tudo muito bem feito com o meu patrão; não há risco de ser apanhada", garante-nos. Se o seu anterior empregador a apanha, a senhora do 31 está feita ao bife: é que ela trabalha 16 horas no seu táxi potente. Tudo por uma boa causa, claro está: para pagar os estudos à sua "tropa".
A senhora do 31 tem uma "tropa" exemplar. Fizeram um acordo estratégico da maior importância, a senhora do 31 e a sua tropa de quatro descendentes. Enquanto a "tropa" quiser estudar, a senhora do 31 pega no Táxi todos os dias à uma da tarde e só descola as mãos do volante às cinco da manhã.
A senhora do 31 tem dois filhos doutorados. Estudam nos Estados Unidos. A senhora do 31 é a mulher mais orgulhosa da sua prole que eu já conheci.
Porquê motorista de táxi?, pergunta o Cerejo, a caminho do Parque das Nações. Porque aos 42 anos, uma mulher, desempregada, ainda que com imenso currículo e experiência, está morta para a vida. "Um dia, depois de estar há muito tempo em casa, vi um anúncio no jornal, a pedir motoristas de Táxi e pensei: porque não? Sempre gostei muito de conduzir..."
A senhora do 31 é alucinada a conduzir. Ia a 180 Km/h e eu só pensava, olhando aterrorizada pela janela, para o separador central de betão daquela avenida/autoestrada que vai para a Expo: "São Cristóvão, protege-me que eu não levo cinto e esta mulher é louca, eu tenho uma filha para criar e se ela tem que fazer uma travagem brusca nem a alma se me escapa..."
O São Cristóvão ouviu as minhas preces, jantei com o professor Carmona, apanhei, no regresso, um motorista patusco numa van da Mercedes (lamentavelmente não me recordo do número do Táxi), com quem falei sobre as maravilhas da maternidade. O senhor da carrinha Mercedes recebeu, por milagre, depois de oito anos de tentativas inglórias, um anjinho, o Betinho. Em frente à rua Viriato, sacámos dos nossos telemóveis com máquinas fotográficas e mostrámos, embevecidos, os nossos filhos - o nosso passaporte para a eternidade.
Foi uma noite boa.
Quase não pensei no defunto.
Pena que o morto tenha vindo do além, hoje, ao início da tarde, assombrar-me o meu gmail.
Todos nós temos fantasmas no armário.

A minha nova colecção

Tristezas não pagam contas.
Eu tenho que me mentalizar que vou continuar a atrair gente estranha pela minha vida fora, há pessoas que nascem com karmas - este é o meu, não há nada a fazer.
Tant
pirre, agora, os habitués deste quintal é não podem ser penalizados por estes meus estados de melancolia prolongados. Ainda estou de luto carregado, mais conformada com a partida súbita do defunto mas, verdade seja dita, o look de viúva negra fica-me a matar.
Ontem resisti à tentação de comprar meia dúzia de pares de sapatos. O Mário, que já me conhece de gingeira, aconselhou-me, pelo messenger, a fazer terapia pelo consumo. Para me passar rapidinho a neura. Mas, como dinheiro é coisa que, hoje em dia, não abunda na minha conta bancária, fiquei por casa, a fazer os censos da sapatada (são 73).
Acabadinho de chegar do Ebay, está o primeiro elemento da minha nova tara - corsets, em inglês, corpetes, na língua de Camões. É um bocado kinky esta minha nova colecção, os atilhos e os ilhós, enfim, o Freud com certeza que explicava...

segunda-feira, junho 06, 2005

De luto

Estou de luto.
Não esperem encontrar nada de jeito por estas bandas. Até porque eu não posso falar da pessoa que morreu.
Sinto-me o ser mais desinteressante do mundo, o mais desprezível, a mais ridícula e inadaptada personagem de uma história de terceira categoria, logo, não vai sair nada digno de aqui estar.
Por isso, apaguei dois posts muito zangados que aqui tiveram a desonra de pousar durante o fim-de-semana.
Sou capaz de bem melhor que aquilo.

Estive quase uma hora para escrever estas linhas.

Estou a exagerar, certamente.

Pode ser que passe rapidinho.

Duvido.

sexta-feira, junho 03, 2005

Alea Jacta est

Uma revista linda, linda, reaccionária como o raio, que eu não tinha idade para ler quando ela existia, a K, tinha uma secção hilariante que se chamava "Traduções Selvagens". Alea Jacta Est surgia como "a lei é rápida como um jacto".
No primeiro dia dos três anos que perdi a estudar Latim (pelo menos encontrei recentemente alguém para trautear a primeira declinação - rosa, rosae), vomitámos à sirigaita da professora Maria Hedwiges, as frases feitas que sabíamos na língua de Virgilio e da sua Eneida - Et pluribus unum do Benfica, primus inter pares, dos maços do SG Ventil, Quo Vadis, do Cinema. Fiquei a saber, nesse dia, que a lei não é rápida como um jacto, mas sim que os dados estão lançados.
Esta frase latina, proferida por grandes imperadores romanos, é muito portuguesa, muito fatalista, muito ao género do pior faduncho lusitano.
Mas hoje, os dados estão mesmo lançados, por causa da lei que não foi rápida como um jacto (demorou, na realidade, 18 meses). A tal idiota do Tribunal de Menores, que já vos falei em posts anteriores, decidiu alterar o nome da minha filha.
Agora há o recurso até ao Constitucional, há a queixa contra o Estado português por descriminação sexual, mas os meus dados estão lançados há muito tempo - tenho sempre que ir à guerra. O pior é que a única coisa que sei fazer é guerrear.

quinta-feira, junho 02, 2005

O dia em que eu memorizei o teu número de telefone

Foi hoje.

Imagem da felicidade



quarta-feira, junho 01, 2005

Felicidade é...

Chegar a casa, estoirada, desiludida, desanimada e, num instante, os guinchinhos histéricos e o sorriso de orelha-a-orelha de uma loirita de olhos azuis e dentes de mentirosa, que me vem receber à porta de casa, apagarem tudo o que está mal no mundo, tudo o que não bate certo na minha vida.
Ponto final.