sábado, novembro 11, 2006

O vereador dos espaços verdes

Ele era o vereador dos Espaços Verdes e ela desconfiava que o til do seu apelido era uma personalização subtil para efeitos de marketing, e sempre que pensava nisto – era geralmente o Word que a punha a matutar sobre o assunto, porque insistia em não deixar que o senhor se chamasse Prôa – dava-lhe ganas de alterar o nome na carteira jornalista para Raglia, porque ela queria ser uma mama siciliana, de formas generosas e cabelos lustrosos ondulados sobre todo o comprimento das costas (para efeitos do personagem, ela queria também um rubi no anelar da mão direita e cem miligramas de silicone em cada mama).
Era quase perturbadora esta revelação, mas ela estava convicta que ele gostava de ser o vereador dos Espaços Verdes – o restolho do bolo do poder autárquico. Mas esta assunção vinha de uma alma que escrevia sobre os passeios esburacados e sobre os jardins em desalinho na rubrica do jornal de referência, cujo nome era um trocadilho linguístico fácil mas até feliz. E ela, tal como o vereador, também gostava de ser a tipa dos mil e quinhentos caracteres do InfelizCidades. Mudara ligeiramente a cidade com mil e quinhentos caracteres paginados a duas colunas em negrito. Era o seu espaço (T)ralha, mal impresso em papel que esborratava as mãos e que, pensava ela, poderia ser lido, não pelos seus cem leitores diários do Blogger, mas sim, no limite, por 35 mil pessoas por dia – que isto, já se sabe, só o Correio da Manhã é que vende 110 mil exemplares.
Sem saber, o vereador dos Espaços Verdes tornou-se uma peça fundamental da história extraordinária que se segue.
Para comemorar a Primavera, e porque ainda não estava afectado pela rinite alérgica que lhe traziam os choupos, ordenou à empresa subcontratada pela autarquia, que plantasse, na véspera de dia 21 de Março, 50 mil flores na avenida que, em tempos, foi o passeio público e que, hoje em dia, apesar dos bonitos desenhos de calçada portuguesa, tinha o epíteto da mais poluída via da cidade.
Andavam os jardineiros com o cú virado para a lua que estava quase cheia, a plantar ciclames coloridos, sob o olhar assustador do marquês e do seu leão, quando às quatro da manhã, o jardineiro chefe disse um palavrão porque só tinham trazido 49.998 vasos. Mas a aprendiz sabia que naquela noite tinham que ser mesmo cinquenta mil, por isso, dividiu dois ciclames brancos, os mais repolhudos, em quatro, e sorriu, apesar da dor nas cruzes, ao cobrir as duas últimas covas com terra húmida.
Quarenta e seis segundos depois das quatro badaladas que os carrilhões da Basílica da Estrela entoaram, fazendo guinchar os pavões do Jardim Guerra Junqueiro, a Avenida da Liberdade estava mais bonita do que com as iluminações de Natal. Nesse segundo, um homem escreveu um ponto de exclamação no seu teclado.
Era o leitor 50.000.

(Continua. Esta história é para a minha filha Carolina. Para ela acreditar em contos de fadas)

terça-feira, novembro 07, 2006

Árvore de Natal

Foi em Novembro, no início, depois das bruxas e do dia de todos os santos, eu sei porque nessa noite, ao luar, deitei sete gotas de cera num prato de água e a letra que me apareceu não era um P, e com a raiva, e porque eu sempre acreditei em magia, deitei a água pela janela e lamentei ter testado o nosso destino na primeira noite do penúltimo mês do último ano antes da passagem do milénio.
Lembras-te, a nossa primeira árvore de Natal, com anjos de todas as cores, de três pelo menos, eu sei que sou exagerada, perdoa, mas havia encarnados, verdes, prateados, dourados, e também havia azuis se não estou em erro, e bolas de vidro, comprei-as num saldo no Carrefour, nessa altura eu fazia alegremente o meu enxoval, a vida era tão simples quanto isso, arrastava-me, contrariada, a um curso que desprezava, trabalhava à tarde no diário de referência, um trabalho meramente maquinal, que fazia em dezassete minutos úteis e que me rendia quarenta contos, a segunda década da minha vida tinha acabado de começar, não riscava anos na parede, e a primeira peça do enxoval que comprei foi um tabuleiro e um relógio de cozinha do Marks and Spencer e depois a Magui deu-me os lençóis que ela bordou no colégio das Doroteias no Sardão, e a árvore de Natal, em Novembro, na primeira semana de Novembro, um disparate, parecíamos crianças na véspera de Natal, a um canto de uma casa vazia, sem móveis, a nossa primeira casa, que visitávamos de semana a semana só para ver as luzes a piscar, sentados no chão às escuras, e eu não sei o que te passava pela cabeça, mas eu sonhava com uma casa no campo, uma lareira, um rebanho de filhos e de cães.
Hoje é sete de Novembro. Provavelmente, há sete anos atrás, já estava no chão, contigo, a ver a árvore dos anjos, das bolas de vidro que fazem um barulho lindo quando caem no chão, e dos laços de fita de organza dourada que eu própria fiz.
Precisava de fazer hoje a árvore de Natal. Sabes, acho que perdi um amigo, o amigo, aquele que está gravado no telemóvel há dez anos como alma gémea, não sei como foi, há amigos que deixamos ir em silêncio, ainda agora o telefone tocou e eu não atendo números privados, não sei que me deu, e estive a falar ao telefone com aquele, que, outrora, foi a minha alegria no trabalho, o outro Pedro - e depois há a segunda alegria no trabalho, que também é Pedro, e que eu já estou a ver o filme todo, vamo-nos falar de ano fiscal em ano fiscal, isto, pelo menos, se ele não aprender a declarar ele próprio o seu IRS pela Internet, e Deus queira que não, ou pelo menos que se faça de parvo, que finja que não sabe -, e ainda bem que já tinha feito a árvore de Natal e que o chão já estava cheio de purpurinas vermelhas que vão andar a voar, como plumas, durante meses pelas assoalhadas tortas da minha casa centenária, a minha primeira casa, porque dois amigos, ter a revelação diante dos nossos olhos, ouvidos e de todos os outros sentidos que a distância nos levou de mansinho, sem avisar, sem chatices, ou discussões, dois amigos, é uma dor que trespassa, coisa que só deixa de arder como uma boca cheia de piripiri, com uma árvore de Natal ao pé da janela.
Quantos mais amigos vou eu perder?

segunda-feira, novembro 06, 2006

Emergência

Gosto de escrever Estefânea. À moda antiga.
Era uma menina, veio de Sigmaringen para casar com D. Pedro V, o Esperançoso, e quando cá chegou indignou-se com a javardagem que por aqui se passava, ao ver crianças e adultos coléricos amontoados indiscriminadamente nas enfermarias nauseabundas. E, então, como era pequenina e franzina, mas não era de modos, pegou no seu dote de casamento e disse ao maridinho com o seu sotaque germânico: toca lá a fazer-me o gostinho e construir um hospital pediátrico.
A pobre Estefânea morreu pouco depois, ainda criança, não chegou a ver o seu hospital de pé.
Eu visitei-o pela primeira vez na passada sexta-feira. Passei lá 18 horas. Não me quero armar em Jack Bauer, no genérico do 24, mas foram, talvez, as horas mais difíceis da minha vida. Foi a primeira vez, em quase três anos, que entrei numa urgência.
Encheu-me de orgulho, a pequenina. Não chorou quando a picaram, esteve sempre muito serena. No fim, disse, aos enfermeiros so SO, "Obrigada a todos" e despediu-se da cama onde esteve a soro um dia inteiro com um "adeus caminha".
No rápido caminho até casa, descobriu os semáforos: os meninos vermelhos, os meninos verdes, mas gosta sobretudo dos intermitentes, que ainda não decidiu se são amarelos ou cor-de-laranja. Mas, no Fiat, no semáforo do Largo do Andaluz, houve uma emergência, a minha, saí daquele pesadelo de mais de 24 horas quando ela cantou, muito pálida, com olheiras até ao queixo, roxas: "ser amigo dos animais é fácil".
Agora, estou eu doente. É mais que justo.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Bocarras

O Ricardo estava aflito, um erro de casting, uma brincadeira de mau gosto, nada mais, nada menos, do que um menino largado nas mãos daquele tonto, e, caramba, era um menino feio, daqueles muito inchados e roxos em que os familiares e amigos apenas conseguem esboçar um “que querido”, colados ao vidro do berçário da maternidade.

Catrefadas de caracteres,

(no jornalismo, a prosa mede-se nesta unidade. Em vez de dá-me aí 250 gramas desta merda é mais, arranja-te como quiseres, enche chouriços, mas preciso de três mil caracteres mais entrada para ontem. E, com tempo, aliás, mentira, o que me falta é mesmo inspiração e não o tempo, irei escrever neste buraco escuro onde já só pairam meia dúzia de almas resistentes, o poder de mil e quinhentos caracteres numa página par, aquela que, dizem as estatísticas, é menos lida nos jornais)

um trabalho sobre spreads, taeg's, tanb's, armadilhas pérfidas escondidas na banda magnética do cartão de crédito e no dinheiro fácil conseguido por telefone sem perguntas indiscretas, através do chamariz de anúncios idiotas, e ainda há pouco tempo eu era jornalista de economia, melhor, ainda há pouco tempo fiz um crédito à habitação, por isso, acabámos por comemorar seis meses de estado de graça total, com o Ricardo, no Magnólia, com tostas de presunto à frente dos narizes, no local onde, outrora, há muito tempo atrás mesmo, eu comia com o Zé Ralha, elaboradíssimos gelados durante o Inverno, na defunta cafetaria do Londres.

Uma tosta de presunto finíssima, coisa de autor, de fast food armada em slow food, cogumelos e courgettes, e eu disse-lhe, fora de brincadeiras, quase com o mesmo tom que o André lançou à mesa de um recanto escondido no Bairro Alto, que estava com vontade de um rock rural algures entre as flores e o Corvo:

Se eu me tornar redundante, se me passarem um cheque para a mão, já sei o que vou fazer.

E sem mais suspense disse

Abro uma loja de vestidos de noivas.

Todos eles acham que sou muito cosmopolita, e que sou intensa, culta, e mais umas quantas inverdades – eu sou apenas uma rapariga que sonhava ser maquilhadora, na primeira infância, costureira, na pré-adolescência, e cantora de fado, em plena idade do armário –, mas com uma loja de vestidos de noiva, a vida levava-se como um conto de fadas, imaginem só as histórias bonitas que eu ouviria todos os dias, entre provas, saiotes, cetins e tules. Não viveria rodeada de pulhices, rasteiras, mentiras, apenas felicidade absurda todos os dias da minha semana.

Algures entre as sombras, batons e os blushs da minha mãe, os tecidos e as máquinas de costura Singer com que me entretinha tardes a fio a fazer vestidos para a Barbie, eu quis ser voz de desenhos animados. E é sobre essa vocação que versa este post, só que, claro, tenho que dar uma volta muito grande aobilhar grande para lá chegar (e isto lembra-me também que estou preparada para acabar a saga do Professor de Filosofia).
Eu não sou nada, reparem bem, a ideia da loja de vestidos de noiva é capaz de ser a melhor dos últimos tempos. Sou a miúda que se vai casar, eventualmente, se o dinheiro se dignar a armar-se em papo seco e a multipilicar-se sem razão aparente, ao som de gaitas de foles no jardim da Estrela, e cujo momento alto do dia é à noite, quando me sento à mesa de jantar e pego na pinça de gelo e na pinça da salada e as transformo na família Bocarras – Bocarras júnior, a pinça de gelo, mais meiga, com uma vozinha aguda e irritante que gosta de oferecer Smarties no final de uma refeição degustada sem queixumes; e Bocarras pai, vozeirão rouco, humor negro, apetite obsessivo por pezinhos de crianças loiras, e uma antipatia nata pelo João, a quem insiste chamar de palerma.

Os Bocarras fizeram com que a Carolina voltasse a comer. São apenas pinças de gelo e da salada, que intimidam o anjo loiro a mastigar e engolir a comida, sob pena de levar uma trinca no rabo de uma pinça de salada.

Como a comida já fria, sem graça, para fazer os Bocarras (ainda não como cabeças de peixe, logo, ainda não faço grandes sacrifícios enquanto mãe). Escavaco a garganta a fazer a voz do Bocarras pai, mas a temperamental pinça da salada não me faz pior do que as duas dezenas de cigarros que me ajudam a passar as horas numa redacção em pé de guerra.

E depois, vou com o Bocarras Júnior pescar com o pacote de Smarties à despensa onde as putas das formigas atacam tudo o que está fora de tupperwares hereméticos, e cada vez tenho mais certeza que uma loja de vestidos de noiva é que era.

quinta-feira, outubro 26, 2006

Arco-íris

Talvez eu devesse contar-vos, à boleia do segundo episódio seguido de Noddy que passa na televisão bordeux, e que traz à metade loira de mim a história do arco-íris mágico do país dos brinquedos e do tesouro escondido algures atrás de uma colina onde ele nasce, sobre o céu de milagre que se decidiu abater sobre nós, sobrepondo-se ao cinzento carregado dos céus chuvosos de Leiria, quando decidimos arredar o pé da cidade que tem um estádio encarnado encostado a um castelo, com todos os sentidos embriagados e quase enternecidos pela docura e mau gosto indescritível do casal de idosos proprietário do café Sem Niveau.

Sinais de Deus é o que é.
Que me dizem que a escolha de um vestido de linhas simples, sem bordados, rendas ou mariquices à revelia e sem a opinião das três madrinhas, a 110 quilómetros de Lisboa, não foi um erro, uma compra por impulso, e que talvez o véu com as rendas de guipure cor de sangue sejam apenas o que falta para compor a imagem da virgem que eu gostaria de ter sido - o amor, repito, nunca é tarde demais para me auto-plagiar, até porque o joão Pedro George não é meu leitor e dificilmente me irá dissecar o blogue, o amor é directamente proporcional às golfadas de sangue que se está disposto a derramar, e era isso que o véu debruado a sangue poderia querer significar no dia em que passo de SOL para CAS no bilhete de identidade - o dia em que a minha filha voltar a ter o nome com que nasceu será igualmente solene, talvez dos melhores da minha vida, mas isso é daqui a muitos anos, quando eu já tiver o cabelo todo grisalho e, provavelmente, a tapar-me o rabo, numa espécie de promessa.
E que o noivo, ah, que coisa tão pirosa de se escrever, melhor que isto só a minha manicure que tem uma série de unhas partidas e descuidadas - em casa de ferreiro espeto de pau, já diz a preciosa ajuda dos ditames populares -, que em 15 minutos de manicure fast food que transformam as minhas mãos, e mesmo antes de eu desembolsar 4,5 euros pelo serviço ultra-rápido e milagroso, é capaz de dizer uma média de 55 "o meu esposo", que o homem tímido de cabelos dourados e revoltos que, contra todas as superstições viu o vestido da noiva, é o homem da minha vida.
Mas, francamente, para sabê-lo, para ter essa certeza, não precisava de um arco-íris sobre uma rotunda de acesso à autoestrada, à saída de Leiria.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Pequenos apontamentos de beleza

E no meio de tudo isto há apontamentos de uma beleza simples, da que dói, e que são da mesma matéria que o suicídio premeditado da octogenária que se chamava Maria Teresa de Jesus.

(foi mesmo assim. tirou os anéis dos dedos, o fio de ouro do pescoço e em último lugar a aliança, e alinhou-os na bancada da cozinha. subiu à banqueta, tirou os pés dos chinelitos de fazenda, fez questão de os colocar perfeitos na perpendicular e só depois fez aquilo que tinha a fazer, aos primeiros pingos de chuva que lhe caíram na cara)

Um telefonema ao início da manhã, a valsa de Amélie em toque monofónico a sair da mala Todds que viajou dos Emirados Árabes Unidos para o meu ombro direito há mais de três anos e nunca mais de lá saiu, tudo isto no Lidl de Alvalade, que é um Lidl mais ou menos decente, com um rácio equilibrado de gente feia por metro quadrado, o meu outro ombro, o esquerdo, eriçado, com frio, junto à arca e às salsichas alemãs refrigeradas, para ser exacta, a minha mãe a chorar, eu a pensar que tinha morrido algum gato, e ela diz

a Dona Teresa mandou-se da janela,

e nesse momento, a força é-me arrancada das pernas como num roubo por esticão, num micro-segundo vejo à minha frente o sorriso precioso da minha vizinha em frente aos iogurtes de aromas a 1,49 euros, as doze unidades, e noutro, logo a seguir, transporto-me para o futuro, para o dia em que a Magui há-de partir, muito curvadinha e velhinha, e sei que, nesse instante, as pernas não vão só ficar trémulas, vou ficar tetraplégica por alguns minutos, talvez horas, e cair estatelada no chão sem conseguir chorar ou dizer uma palavra.

Chorar no corredor dos congelados.

Mas porque é que ela faria isso, mamã?
E o João a abraçar-me, e eu a tirar os packs de quatro leites de chocolate radioactivos que deixam manchas que não saem nem à força da lixívia, eu sem acreditar, a chorar com soluços, e os fregueses de Alvalade a passarem com os seus cestos do Lidl sem sequer olharem para trás, como se fosse perfeitamente curriqueiro, ordinário, comum, que alguém irrompesse em lágrimas junto à pimenta e à mostarda. E o João a chorar também, parece-me, e isto é coisa de amor gigante.

Depois, as lágrimas de crocodilo, as lágrimas de crocodilo são também belas, quem me disser o contrário não sabe do que fala, eu estive hipnotizada no lencinho de mão da carpideira réptil que sempre quis mal à minha querida vizinha, que me contou a Magui, era enfermeira. A vizinha. Não a carpideira. E as capelas da Servilusa, na Igreja hedionda de Santa Joana Princesa, onde, outrora, durante muitos, muitos anos, havia um canavial pegado à Quinta dos Lagares d’El Rei, as capelas com tapetes de arraiolos no chão e serviço de cafetaria na mezanine, e o sermão despropositado do padre a quem não terão, certamente, dito que a defunta era uma velhinha voadora desesperada, que ninguém decide quando é a hora de morrer, belíssimo, estaria bêbedo, e a minha boca aberta de espanto, tudo perfeito, a começar na racha na parede ao meu lado, como se naquele instante tivesse havido um pequeno terramoto, e o filho da dona Teresa, no fim, a dar-me uma palmadinha no ombro e a pedir,

não chore,

e depois, logo a seguir a mim, a ir socorrer depressa a empregada, a mulata escultural de traseiro que não obedece às regras básicas da gravidade, que trouxe um enorme ramo de orquídeas com um laçarote roxo.

(a dona Teresa gostou muito delas)

E o pai da Isabel, a quem chamavam cachalote fora d’água na quarta classe, a Isabel que, agora sim, está disforme e parece ser minha mãe, que numa aula de olaria respondeu à pergunta
o que é a lambugem?, com a simplesmente genial reposta, A lambugem é para lambujar o barro.
Toma lá, que a miúda nem era nada parva e não se sintam diminuídos se não souberem o que é lambugem, eu também não vou dizer porque não sou nenhum dicionário, só que a Isabel teve um filho do mecânico da rua em idade imprópria, mas o seu pai, que surpresa incrível, é cangalheiro e eu conhecia-lhe apenas os dotes de mago com os mais pequenos, mas, afinal, até faz bastante sentido - mortos, bebés, são todos anjos, e o senhor de baixa estatura e de armações dos anos 70 tem esse fado nesta vida.
E há um vestido de noiva, o mais simples e o mais barato de uma loja nos arredores da feia Leiria, que o Leonardo insiste que é bonita apenas porque aquele pedaço de terra onde seria bem-vindo um tsunami é teimosamente conservador. E há uma demanda pelo véu perfeito, com renda de guipure, ou veneziana. E um café de fino mau gosto, obra de autor, inenarrável, coisa para foto-reportagem detalhada, os estuques nos tectos, as pedras nas paredes, a escolha cromática, os tecidos, os bibelots, as plantas de plástico, um espaço que é um vórtice, uma outra dimensão, e que, num toque de fairplay incrível, colocou no letreiro comercial o seguinte nome de baptismo: Sem Niveau.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Simples

Foi tão simples quanto isto, levantou-se, chovia, e era um dia bom para morrer. Chovia que Deus a dava, alguém choraria por ela assim, os céus vestir-se-iam de cinzento muito escuro e chorariam por ela durante dois dias e duas noites. Soube, na noite anterior, no boletim meteorológico, que também os ventos se levantariam por ela, rodopiando e arrancando telhados de zinco e chassis de auto-caravanas, foi tão simples que dói: olhou-se ao espelho, cabelo branco em desalinho, sobrancelhas cinzentas escuras, um buço que teimou em grudar-se debaixo do nariz e por cima da boca depois da menopausa, lavou a cara e sorriu, o dourado dos caninos de metal precioso onde fixava a esquelética reluziu como se fizesse sol junto à banheira, despediu-se da empregada, deu-lhe a folga merecida, adeus e até amanhã, fechou a porta à chave, sentou-se no sofá, ao seu lado estava o fantasma do seu companheiro de olhos azuis turquesa, e na alcatifa, o arfar do espectro do cãozito schauwzer anão que os acompanhou na entrada da terceira idade, levantou-se, tocou ao de leve, um roçagar, nas paredes que o seu marido construiu a pulso, foi à cozinha, bebeu um copo de água, deixou a porta do armário aberta, espreitou, do alto de um nono andar, o jardim enlameado e as arvorezitas que daqui a cinquenta anos serão finalmente gente e sombra, abriu a janela, não pensou em nada, não chorava, subiu à banqueta, fechou os olhos e decidiu que a vida acabava num voo rápido.

Este blogue está de luto carregado. Porque foi assim. Simples.

sábado, outubro 14, 2006

Rapariga peculiar

Ela é uma rapariga tão peculiar.

Canta Mozart no fumódromo, ao fim-de-semana, e, em dez minutos da sua hora de almoço, faz uns cartazes giros para convocar eleições para a Comissão de Trabalhadores, pior, voluntaria-se para a dita cuja CT, só que a vontade de subir para cima de um armário, pode até ser o do economato fechado a cadeado, e gritar a password do seu Compaq (é o seu calão favorito) é cada vez maior, e, sim, ela fala como um carroceiro, uma asneira feia a cada sete palavras, fala demais, é uma pena, devia aprender a estar calada, sobretudo, a calar as suas mãos muito magras, e é arrogante, por um lado, insuportável, julga que todos são uma cambada, e gostava de saber revirar os olhos (só os revira, instintivamente de prazer, disseram-lhe) e suspirar "Que gente", e por outro, por outro, é a mais doce das criaturas, entrevista os loucos desta cidade, e, parece que a esposa do patrão leu dois mil caracteres que ela publicou por descargo de consciência, ciente que nada do que escreve muda a realidade, e que o Aníbal já não vai morrer num quarto pestilento onde se passeiam ratos despudorados.

Dizem-lhe, em tempos foram colegas de secretária, dizem-lhe, és uma rapariga tão peculiar, mas o extraordinário não é que lhe tenham batido palmas no trânsito enquanto ela cantava Mozart porque não tinha cigarros na mala e porque o demónio do estacionamento não estava acordado, nem que, atónito, com a mesmíssima melodia, um outro condutor tenha enfaixado o céu pára-choques na traseira de um veículo que seguia a sua frente. O que é verdadeiramente assombrador não é que ela cante, escreva, pinte, dance, ame, viva, erre, lute, sofra. É que tenha sido uma criança a escrever a dita cantilena.

Salmoura

Os amigos riram-se bem alto quando ela disse que a vida lhe era madrasta e que, agora, todos os dias pareciam sextas-feiras treze, que os azares se sucediam em catadupa um atrás do outro, tanta má sorte apenas porque o patrão fechou o armário do economato à chave e ela, assim, já não podia ser feliz às custas de roubar material de escritório.
Crise, ditaram eles, e agora já não mais podia armazenar caixas de clips na gaveta da secretária, nem levar pilhas para o comando do televisor lá de casa (infelizmente, não havia no armário pilhas para o vibrador, era à sua custa e à de pilhas alcalinas das lojas chinesas que se perdia em prazeres solitários).
Estavam racionados, os clips, as canetas e os blocos de folhas muito finas, e ela não sabia se havia de rir ou de chorar quando o guardião do economato lhe ordenou para estender a sua mão direita em concha e lhe depositou meia dúzia de exemplares de design ordinário, muito brilhantes, contabilizados sem margem para desperdícios.
Esta era mais uma das suas estapafúrdias interpretações da realidade e do destino, mas a melhor de todas as histórias mirabolantes, pelo menos dos últimos tempos, era a perturbação que lhe causou um episódio que aconteceu numa tasca onde a cozinheira abusava do sal e em que todos os petiscos eram servidos em salmoura.
Naquele dia, sugerira ao senhor Zé para colocar um aviso na porta da tasca a proibir a entrada de hipertensos, mas o senhor Zé não era dado a ironias, na verdade, nem sequer ouviu o que ela disse, presumiu que fossem duas doses de febras, uma Coca-Cola e uma água do Caramulo (no final, uma das bicas seria com adoçante). É que nesse dia era dia de cozido, e em salmoura ou não, a casa estava a abarrotar, e o senhor Zé achava-se telepata, ou isso, ou leitor de lábios, como um surdo.
Aquele casal gosta mesmo de febras, dizia o pessoal da tasca na paz do rescaldo dos almoços servidos à base de sal marinho, mas o que eles não sabiam é que nem importava se a carne era tenra, ou sola de sapato, se era saborosa ou sensaborona, o que interessava mesmo era a dose diária de cloreto de sódio que tinha que ser ingerida, sob pena de uns tremeliques e dores de cabeça durante a tarde.
Numa mesa próxima da nossa heroína, num destes dias, em dia de cozido, um casal almoçava com o seu par de filhos. Já estavam bem aviados, pensou ela, olhando para a mais velha, uma miúda doce, agarrada ao calor do regaço da mãe, e um terrorista que teimava em fazer que faz com o hambúrguer que jazia no prato, sentado ao lado do pai. Uma mãe de cabelo curto preto e feições finas desenhadas numa pele branca e um homem com físico de segurança de discoteca, mas vestindo calções de malha. Os opostos atraem-se, lembra-se ela de pensar, sorrindo para o loiro chupado com quem decidira casar.
E como a criança que comeu todas as batatas fritas, mas não tocou na carne picada, implorou por um arroz doce, ela reparou no casal. Arroz doce era a droga, era o melhor da vida, e injustamente a balança laranja e o metabolismo lento como um caracol proibiam-na de se deleitar com o petisco. Por isso, e só por isso, memorizou o casal com o casal de filhos, e depois não se queixe, é que assim não há espaço suficiente para armazenar datas dos aniversários dos seus amigos, mas voltando ao que interessa, todos eles, o casal e o casal de petizes, falavam francês, se bem que o homem de porte de gigante também verbalizava num português sem sotaque.
E isto seria apenas mais uma informação irrelevante, não tivesse o casal francês bisado na tasca da salmoura, desta vez sem o casal de filhos, e não tivesse o destino feito das suas e sentado o casal dos heróis desta história lado a lado com o casal francês.
Nesse dia, 13, por sinal, dia de aparições de Fátima, já se adivinhava algo estranho: não pediram febras e o senhor Zé sorriu com malícia ao gritar o pedido para a copa da cozinha. Infelizmente, a escolha do cardápio, rolos de porco à Mexicana, vinham com pouco sal, mas realmente assustador nessa curtíssima hora de almoço foi que o casal falava francês desta vez expressava-se em castelhano perfeito.
O barulho da sala era estridente, rais'parta mais o cozido que lhe enchia a tasca pacata, era demais para um ouvido direito com uma otite aguda, e de repente, a heroína zangou-se com o seu amor, porque ele foi mau, analisado a frio, até foi bondoso como só ele sabe ser, apenas quis que ela não sofresse se o mundo não fosse o lugar menos mau que ela estava a defender que era, amuou, e conseguiu estar dez minutos sem abrir a boca, ou a abri-la apenas para entrar a carne insonsa.
E nisto, ouviu castelhano ao seu lado direito, da boca do casal que há uma semana falava fluentemente francês. Perdeu o equilíbrio, não sabe se foi da otite, mas ouviu o zumbido que a costuma avisar que está eminente a perda de sentidos, e distintamente, no fundo de uma sinfonia desafinada que pairava naquela tasca, lá da última mesa do restaurante, como se tivesse audição suprasónica, ouviu uma jornalista a falar do cavalo Mister Ed.
Não desmaiou e, das duas uma, ou tantas vezes se abeirou da loucura que algum dia a asa da cantarinha tinha que se partir, ou tem mesmo que se obrigar a comer comida salgada, muito salgada.

quarta-feira, outubro 11, 2006

Uma dúvida que me atormenta


De que marca são os óculos escuros de Kim Jong-ll?

terça-feira, outubro 10, 2006

COR*

Depois de um dia infernal e de uma notícia que há-de fazer rolar cabeças. E olha para a minha cara de satisfação de tramar espartalhões, mas, na verdade, o melhor momento do dia foi a resposta à secretária de
-- E qual é o motivo do contacto?
-- Corrupção.
(silêncio)
-- Peço, então, que transmita o recado.

*Carolina Oliveira Ralha. Tem uma sigla muito mais feliz que a da mãe.

E se Cavaco não vai à Liberdade, a Liberdade vai até ele

Cavaco Silva não vai visitar hoje o Bairro lisboeta que, ironicamente, foi chamado de Liberdade. Cavaco Silva não dá cavaco ao Bairro da Liberdade, mas eu aproveito para lhe dizer que, na Liberdade, há um homem, seu homónimo, ex-combatente do Ultramar, um homem tão doce como eu nunca vi, que me beijou a mão e se pôs de joelhos aos meus pés na esperança que eu lhe desse uma casa onde não tivesse que ter medo que as ratazanas lhe comessem as orelhas durante o sono, porque esta noite, Aníbal Barata dormiu num colchão que partilha com percevejos. Esse homem, senhor Presidente, na assoalhada com pouco mais de seis metros quadrados sem janela onde "vive", tem posters da Amália e també seus - são as personalidades que ele mais admira, e nem que fosse por isso, apenas por isso, o senhor deveria ir cumprimentá-lo e, já agora, se não fosse pedir muito, fazer um telefonema para que este homem deixasse de viver como um animal num esgoto (sei lá, qualquer buffet de luxo do Estado pagaria um quarto e assistência médica a Aníbal Barata).
Se Cavaco não põe um pé na Liberdade, eu levo-lhe uma rua da Liberdade até a si, faço visita virtual a um bairro que os meus olhos não estavam preparados para ver.

[Este trabalho foi publicado no PÚBLICO de 29 de Janeiro. Texto: Diana Ralha Fotos: Rui Gaudêncio]



À espera da Liberdade


A última favela de Lisboa. A primeira também. Enraízada nas costas de Monsanto e aos pés do Aqueduto das Águas Livres. Com vista para o Tejo e para toda Lisboa. Irónica escolha de palavras: um milhar de lisboetas vive em condições idênticas às da Revolução Industrial num bairro chamado Liberdade. Esperam-na há mais de 50 anos.


Um trabalho de Diana Ralha [texto] e Rui Gaudêncio [fotos]


Há coisas que os olhos não estão preparados para ver.

Um milhar de pessoas a viver na companhia de ratos, percevejos, imundice, escombros e entulho. Imagens de Fátima e fotografias de Amália espalhadas pelas paredes, numa espécie de culto, de fé inabalável. Bibelôs, muitos, cisnes, cães, gatos, de vidro ou de porcelana, apinhados em uma, no máximo de duas assoalhadas com pouco mais de cinco metros quadrados.
Habitações que não são mais do que corredores, sem janelas, com as paredes pintadas de cores vivas e salpicadas de bolor. Divisões versáteis e minúsculas, que servem para tudo: para cozinhar, para comer e para dormir.
Sanitas ao lado do micro-ondas, a um canto da sala, aos pés da cama, atrás de um vão de escadas.Por vezes, não existem sequer. A substituí-las, há baldes de plástico no chão, que os seus donos mascaram de sanita, enfeitando-os com tampos de plástico. Depois de cheios despejam-se na rua, nas pias existentes nos pátios. Os lavatórios são um luxo.
Um milhar de pessoas, adormece e acorda todos os dias nestas condições. Liberdade. Vivem num bairro chamado Liberdade. Moram assim desde sempre. A maioria há mais de meio século, mas ainda se encontram anciões que ali criaram raízes há 80 anos, quando o mais antigo e último dos mais precários bairro de Lisboa assentou arraiais e cresceu sem freios nas costas de Monsanto, na freguesia de Campolide. Nasceram, casaram, criaram filhos e os netos na Liberdade. São escravos dela.
Ensombrado pelo Aqueduto das Águas Livres, colado ao pacato e cobiçado Bairro da Serafina, com vista para o Tejo e com Monsanto a enquadrá-lo como uma moldura de vegetação luxuriante, o Bairro da Liberdade é “a última favela de Lisboa”. Quem o qualificou com estas palavras foi António Carmona Rodrigues, na altura candidato à presidência da Câmara Municipal de Lisboa. Não exagerou. Prometeu deitá-lo abaixo. Há coisas que os olhos não estão preparados para ver.
Quando se morre sai-se pela janela num saco

Pátio do Chafariz. Travessa Capela Velha. É apenas uma das ruas de um bairro onde toda a gente se conhece, ajuda e tem sempre as portas abertas, com as chaves na fechadura. Sem medos.
Por fora, lembra uma aldeia, há crianças e velhos nas ruas, cheiros vários, cortinas de renda de nylon e de xadrês colorido. Nada faz adivinhar em que condições vivem os moradores do Bairro da Liberdade.
armen Almeida, 40 anos de bairro e de vida, nunca saiu daquele pátio. Mudou da casa do pai para a do marido. Transportou os seus pertences para apenas duas portas ao lado. No seu T1, ao qual se acede por um corredor escuro e umas escadas a pique que teimam em ceder e pregar rasteiras, moram três pessoas. Tem água em casa porque fez as obras à sua conta. A sanita está ao lado do micro-ondas, numa cozinha improvisada em pouco mais de três metros quadrados.
Esta mulher de coração frágil, recém-operado, está inquieta. A sua sogra regressa do hospital amanhã, segunda-feira, com uma perna amputada. Carmen sabe que a idosa não mais irá sair do buraco a que ali se chama casa até ao dia em que fechar os olhos para sempre. Desabafa, enquanto desce um vão de quatro degraus com a largura de não mais de cinquenta centímetros: “Quando se morre aqui, sai-se num saco de plástico pela janela. Não se sai num caixão”.
Voltando aos vivos. Número da porta 71 A. Aníbal Barata, olhos verdes, muito doces, voz de candura infantil imputada à demência. Um quarto. Sem janela. Um cheiro que se entranha na roupa, na pele. A porta abre-se, não abre toda, só o suficiente para entrar um corpo de lado. Não abre o suficiente porque o quarto é exíguo, a porta bate numa cama onde se acumulam pilhas de lixo, tralhas diversas. Percevejos.
Lá dentro, como um animal e rodeado deles, sobretudo de ratos, vive, desde 1965, um ex-combatente da guerra colonial. Serviu em Angola. Está reformado por invalidez. Enlouqueceu. Está entregue à bondade dos vizinhos e da irmã, que mora uma ou duas portas à frente. Aníbal Barata gosta de Amália, há fotografias e cartazes da fadista na orgia de parafernálias várias que colecciona no seu quarto: “Quem não gosta de Amália não é português”, diz. Gosta de Cavaco Silva também – está um exemplar da revista “Homem”, em grande destaque, aos pés da sua cama. Quase não se vê parede. Aníbal pendura espelhos, posters, demasiada informação para a retina. Ao centro, uma imagem do sagrado coração de Jesus diz, em letras garrafais: “É preciso orar”.
Dez passos à frente. Fim de um pátio do bairro da Liberdade, onde crianças brincam com cães de raça (um pittbul, um caniche, um yorkshire terrier e um lulu da Pomerânia) e pardais chilreiam nas gaiolas pregadas às fachadas das casas. É um pátio cheio de flores e de couves, plantadas por Eva Duarte e que, afiança, já renderam duas sopas este ano.
No fim do pequeno pátio, numa habitação prestes a desmoronar-se, sem telhado, sem reboco nas paredes, apenas tijolos unidos com cimento, mora Francisco Sousa. Aos 49 anos está desempregado e sem direito à prestação social do rendimento mínimo garantido. Este homem, de enormes unhas e gengivas pueris, não tem como se proteger do frio e da chuva. Não tem casa de banho ou cozinha. Sobrevive de biscates e da ajuda dos vizinhos.



Grafitti para esconder o bolor

Os moradores abrem, sem vergonha, as portas das suas casas. É assim em todo o bairro. O asseio é a norma. Ana Isabel mora na Liberdade há apenas três anos com o marido. São ambos muito jovens, já têm um filho com três anos, que dorme num colchão encostado à cama dos pais. São os vizinhos da frente de Francisco e recuperaram a braços uma barraca idêntica à sua. Lutam contra a humidade. Escondem-na, no quarto, com cortinas de renda, com cachecóis de clubes de futebol e posters de ídolos musicais. A humidade não se vê, mas sente-se, entranha-se nos ossos. Na sala, com pouco mais de quatro metros quadrados, desistiram, é uma luta inglória, optaram por um tromp l’oeil, camuflaram o bolor das paredes com um grafitti.
O cenário repete-se naquele pátio, em todo o bairro.
Existe uma tentação forte de verificar, à cautela, na agenda em que ano se está. 2006,1906? Oito pessoas a morar numa habitação que tem um quarto esconso enfiado no sótão, uma sala que também é cozinha, e uma divisão sem janelas, com cerca de cinco metros quadrados, onde dormem quatro pessoas de noite. Um filho de 21 anos, e um neto pequeno a dormir ao lado dos pais e avós.
Um quarto e uma sala. Mínimos. Não há cozinha, nem casa de banho. José Cardoso, setenta anos de boa figura, sobretudo de bom corte e boa fazenda, viveu sempre sozinho. Na companhia de imagens de Fátima e bibelôs do Benfica. “É só miséria”, desabafa, mas volta atrás, quase com vergonha do sacrilégio que a sua boca acabou de reproduzir: “Posso-me dar por contente. Há pessoas aqui no Bairro a viverem trinta vezes pior.”

qui é tudo boa gente

Todos gostam de viver no Bairro da Liberdade. Garantem que não há desacatos, insegurança, admitindo, porém, existir algum tráfico e consumo de droga no bairro. Não se encontra ninguém, que algum dia, em meio século de vida, tenha sido assaltado no bairro.


A noite cai, a ponte 25 de Abril e o aqueduto iluminados compõem um cenário de beleza invejável e, lá em baixo, no Eixo Norte-Sul e na Avenida de Ceuta, os carros seguem em fila indiana sem supor que, ali tão perto ,há um vórtice temporal que faz recuar tempo até ao início da revolução industrial.
Quase todos querem permanecer encostados a Monsanto e ao Aqueduto das Águas Livres, com vista para toda a cidade. Sonham há décadas viver com um pouco de dignidade, mais como pessoas e menos como animais. Muitos perderam já a esperança e também a conta das vezes em que abriram as portas das suas casas, sem vergonha, ou escondendo-a o melhor que sabem, e escutaram as promessas eleitorais, nunca cumpridas, de uma vida melhor.
Mas ainda há quem acredite. A anciã Hermínia Tasso, octogenária, tantos anos de vida como de bairro, sabe que já não vai ver o dia em que a liberdade vai chegar: “Já não vou ver. Mas fico contente por saber que vão ajudar quem precisa. As pessoas merecem, são todos boa gente, acodem-se uns aos outros”.
Com apenas dez anos, Sara Ramos, muitas sardas no nariz, acalenta este sonho: “Tenho muita gente com quem brincar, tenho tanta gente para conhecer aqui no Bairro. Só precisamos de casas melhores. Moramos em buraquinhos que até dão para viver, mas gostava mesmo era de ter um quarto só para mim”, desabafa, entre suspiros e um sorriso envergonhado, à porta de uma das muitas mercearias do bairro para onde vai brincar depois de chegar da escola.

terça-feira, outubro 03, 2006

DOR*

Eu tenho cortinados beringela nas janelas do quarto, de onde vejo uma nesga da Duque de Loulé; são reles, de polyester, translúcidos como os vestidos de cerimónia das fadas, e eu pensei, durante muito tempo, que através da escrita talvez eu pudesse contar tudo: a forma como as duas cortinas de tecido altamente inflamável (se lhes deitar fogo, elas desfaz-se numa lágrima; eu gostava de poder escrever sobre isto, também) se unem, e como dessa sobreposição se formam uns ziguezagues em tudo semelhantes ao efeito televisivo de uma camisa às riscas; o ronronar rouco do gato de 233 gramas debaixo da cama; o chocalhar do espanta-espíritos lá fora e a hera moribunda em cima da floreira de Alegrias da Casa que já não têm mais força para me dar flores todas as manhãs.
Eu pensei que tinha nascido com este nome, e que apenas por isso, grandes desígnios me esperariam pela frente, a toda a hora, sucediam-se ao longo da passadeira vermelha - que eu diria encarnada -; aliás, eu pensei que o meu destino me caía em cima da cabeça, da mesma forma que me acontecem outras coisas extrordinárias todos os dias, eu achei que era destes dedos que ia sair algo que me tornasse só um bocadinho imortal, eu pensei - aos 28 anos de idade, vejam lá - que há magia em todas as coisas inanimadas, que as árvores não são só árvores e que as casas não são só tijolos, telhas e janelas.
Se calhar, o meu destino é roubar azulejos de fachadas de prédios que têm licenças de demolição penduradas à janela. Sou, neste momento, uma mulher sem fé, a poesia provavelmente morreu, porque o Santo Expedito não quis os meus cabelos, nem a Teresinha, junto ao altar da Basílica dos Mártires, deita uma lágrima por mim, sob o olhar atónito do cónego.


*Diana Oliveira Ralha

segunda-feira, outubro 02, 2006

Banda sonora

Já disse isto ao chefe, numa manhã em que quando ele chegou já ia eu no meu terceiro café grátis (por enquanto, aproveite-se o café enquanto ele dura, enquanto ele não tem questões de redundância para resolver no quarto piso) e quarto Davidoff fumado despudoradamente a um canto de uma redacção deserta.
A vida devia vir com banda sonora.

Ele chegou e perguntou-me pela performance do Ipod 30 Gygas que os malucos dos meus amigos decidiram oferecer-me no dia 22 de Julho, e eu respondi-lhe:

– Chefe, eu nunca tinha sentido a Fontes Pereira de Melo como senti esta manhã.

E depois percebi que ele não estava a seguir o meu raciocínio e expliquei-me melhor: – É a cidade, T, a cidade dói-me menos com a banda sonora certa.

Nesse dia, era Tiersen, pianinho do Good Bye Lenine e tudo pareceu perfeito: a bófia na esquina da António Augusto de Aguiar a guardar os operários que estavam armados em toupeiras dentro dos esgotos, as casas-fantasmas que só eu miro e admiro, até o Hotel Sana com a sua loja que vende galos de Barcelos e nossas senhoras de Fátima cujo manto é meteorológico (e vocês não podem imaginar o quão perfeita é a banda sonora sob a qual escrevo estas palavras, e por cima do som de anjos, e de espantas-espíritos feitos de pedacinhos de vidro, eu oiço os meus dedos a martelar, e parece mesmo que esta percussão doida faz parte da música) pareceram-me sublimes, e sou capaz de jurar que se pôs um céu de milagre quando atravessei a rua por um amaranhado de carros parados à espera, pacientes, de cehgar a sua vez de entrar na rotunda que está guardada por um leão.

O Ipod estava na mala quando, pela primeira vez e descaradamente, infringi a lei, não esquecerei, já tive um termo de identidade e residência por um crime grave que não cometi, queixa do outro que me fode o juízo de três em três semanas (quem mais poderia, não é?), e tudo me diz que sou capaz de me viciar nisto como em qualquer outra droga (não me deixem entrar no casino, por favor, é um pedido).

Ele viu-me as mãos a tremer, e até tirou uma foto das minhas bochechas rosadas, prestes a explodir, e o peito muito para fora, parecia três quilos mais magra, quase não respirava, e sussurava, os olhos nem pestanejavam e a voz saía com um tom que nunca se tinha ouvido. Na rua de baixo, o João pensava que eu já tinha ido presa. Quatro avenidas a seguir, a minha mãe de alerta máximo, prevenida de que, se calhar, teria que ir à esquadra, pagar a caução.

O Ipod ficou na mala, não era preciso: a vida decorre em película, às vezes com uns planos e argumentos muito maus, mas desta vez, os heróis da trama estavam bem iluminados, e os diálogos, ou a falta deles, prendeu os olhos de todos à tela, naquela tarde, as vacas foram a leilão na pala do Siza e dois seres descobriram um propósito na ausência. Esta era a banda sonora.

sexta-feira, setembro 29, 2006

quinta-feira, setembro 28, 2006

A casa de onde não chegaram a sair dragões*, nem a entrar pombos pela janela


A questão é apenas esta, e à qual não vou responder, nem vou contar esta incrível história, pelo menos, enquanto o Da. não a for ver como só ele sabe ver, enquanto não ma trouxer em formato digital, para eu a poder guardar para sempre. A questão é tão somente esta: pode uma casa, uma casa, sim, é isso mesmo, são quatro paredes, e estas são de tabique, são telhas lá em cima, para que o mundo não nos caia em cima da cabela, são azulejos, portas, estuque, falo apenas de uma casa, pode uma casa pedir socorro? E, pior, pode uma casa pedir socorro em sonhos, e abrir todas as suas portas para que eu já a conhecesse, para que eu, já acordada, a acudisse?
E só pela Lyra, eu mostro os tesouros que uma casa, sim, que uma casa, me deu. A obra de Francisco Rodrigues Madeira saiu do lixo. O senhor António deu-me uma cadeira de baloiço e duas paletas de aguarelas. Mas eu resgatei quem as usou há cem anos atrás, quem foi deixado para trás. Eu já estou habituada a ter os mortos de ninguém a fazerem-me companhia. Esta casa já pode morrer em paz.

Eu não falo mais, espero as photos do Da. Para elas falarem também. Vamos fazer magia neste blogue.





*Alguém há-de entender o título, se acabar por sair um obituário que escrevi para o pasquim onde continuo até à data a não ser dispensável, apesar de me estar sempre a queixar que só me pagam 4,54 euros à hora.

** o Beta Blogger não me deixa postar mais fotos, querida Lyra.

Porque é de três em três semanas que o indivíduo me fode o juízo

Lá vamos nós para Tribunal outra vez. Veremos se desta, ele fode o juízo à juíza.

(mil perdões pelo palavreado; mas qualquer malfeitoria que eu tenha feito nesta, ou noutra vida, só pode estar absolvida depois de um infeliz encontro de dois seres neste planeta que, sem qualquer explicação científica ou mesmo "isotérmica", deu um ser lindíssimo, de olhos azuis pestanudos)

quarta-feira, setembro 27, 2006

Prenúncio

O gato laranja, de duzentas e trinta gramas, que habita em Santa Marta, acaba de urinar em cima do Semanário Sol.

segunda-feira, setembro 25, 2006

Este blogue não morreu,

parece que está na moda, deixá-los ao abandono, até que as estatísticas confirmem e atestem o seu óbito (o querido FTA emudeceu (eu linko-o hoje, porque isto pode funcionar na blogoesfera e no Sitemeter como o choque eléctrico de um fibrilhador automático externo no peito de uma pessoa em paragem cardiorespiratória) e eu ainda choramingo, já sem falar do mano Trafuncas por quem ainda solto um pouco de baba e ranho na voltinha matinal pela blogoesfera - foram todos para o Sol? Agora é lá que se fazem os blogues???).
Mas não, não morreu, está bom de saudinha, roliço e com rosto trigueiro, apesar de se vestir sempre de preto - é porque emagrece. e porque a cidade está cheia de pequenas mortes - e eu quero-vos contar mesmo isso: uma história de abandono. A cidade está cheia de pequenas mortes, repito o que escreveu um blogger que não ouso citar, ou então que se lixe, mais cem visitantes, menos cem visitantes, ele nem vai reparar, e é mesmo verdade, assisti hoje a uma morte anunciada e, por isso, tenho uma cadeira de baloiço de madeira no quarto e uma paleta de aguarelas dos anos 50 na chaminé da cozinha encarnada. E não é que não tenha os dedos cheios de vontade, de raiva, e de um tremelique ansioso que já não sentia há muito tempo, mas o Apple Ibook de onde escrevinhei, em tempos, sem parar, até as mais altas e pouco saudáveis horas da madrugada, está ocupado por alguém que coloca o jantar nesta casa, nos quinze dias do mês em que a minha fralência técnica me faz ganhar uma média de 0,33 cabelos brancos por dia.
Por isso, calminha que eu já volto. (São quase onze da noite, ainda não se jantou, a pequena toma banho na assoalhada laranja, trabalhei onze horas, o fantasma do despedimento é mesmo assim, e eu já posto, não tarda, uma foto das aguarelas e da cadeira que um morto me deu.)

sexta-feira, setembro 22, 2006

O dia começa melhor

Quando à espera no Gmail está uma orgia de comentários do Goiaoia.

Depois há o silêncio da redacção vazia - sem telefones frenéticos, sem folhas vomitadas do porta-aviões que é a fotocopiadora, fax e impressora laser, cujos segredos de funcionamento estão muito bem guardados e acessíveis apenas a quem tirou o doutoramento na Xerox - e o vinil do chão ainda muito limpo, os caixotes do lixo vazios, os cafés e os cigarros sorvidos de enfiada até que alguém chegue para eu dizer bom dia (chegou o senhor Onório com as revistas da Sonae, de como somos um grupo socialmente responsável, sustentável e blá, blá, blá; demora a dizer bom dia, o senhor Onório, e, num instante, fico com medo de não existir, de ser um sonho de outra pessoa, que acabou agora mesmo de despertar), é o cortar a fita de plástico que une a jornalada da minha secção ("estas tretas das revistas que vocês deitam logo fora", diz-me o senhro Onório zangado, e depois acrescenta "e fazem muito bem!", e afinal existo e respiro de alívio), e é mais um dia que começa e eu vou ler o 24 Horas.

quarta-feira, setembro 20, 2006

O que mais me custa

O que mais custa não é sair da cama, a horas que, há tão poucos dias e durante tantos anos, não convenceriam as pestanas a desenroscarem-se umas das outras, nem à custa da promessa da visão de uma das maravilhas do mundo. A rua de Santa Marta acorda mais cedo que eu, sei-o bem, e madrugar não é o que me custa, não me queixo, quase todo o mundo acorda mais cedo que eu, que moro por debaixo dos pés do marquês e do seu fiel leão amestrado.
Durante nove meses carreguei nos olhos noites brancas, e ouvi a minha rua a despertar para mais um dia de trabalho, de alegrias e tristezas pontuais sem hora marcada nos ponteiros do relógio. A minha rua acorda quando o sol e os galos ainda preguiçam e ouvem-se vozes de todas as línguas menos daquela que eu sei decifrar. Depois há os polícias, vão e vêm, de e para a esquadra emblemática que nunca está de portas fechadas, mas fazem pouco barulho, pegam no trabalho e largam o trabalho em silêncio, não percebo bem porquê, mas honro o acordo informal entre civis e autoridades do trânsito, que permite aos residentes toda e qualquer espécie de estacionamento selvagem no perímetro da rua de Santa Marta com o Largo de Andaluz e até ao Largo das Palmeiras, segunda fila, por cima dos passeios e, com jeitinho e dois minutos de conversa com o porteiro, até nos dois lugares reservados à Judiciária, cujos agentes almoçam sanduíches na baiuca da D. Beatriz, que os chama respeitosamente de “doutores”.
Não custa entrar às nove e sair as cinco, não custa sair da cama antes das oito da manhã, e só custa um bocadinho a poluição que se entranha na pele, logo pela manhã cedo, na Duque de Loulé, e é um pouco desagradável a poeira que me suja o cabelo das obras do túnel do Marquês, Fontes Pereira de Melo acima.
O que me custa mesmo é não estar na redacção à hora que a Dona Maria chega para lavar as casas-de-banho deste edifício. Deixo-lhe, religiosamente, o 24 Horas em cima do teclado, com um post-it amarelo com qualquer coisa simpática rabiscada, mas acabo por não discutir a manchete do tablóide-bíblia com mais ninguém, não tenho ninguém para falar das as parvoeiras do dia, não oiço queixas do reumático, não debito lamentos sobre os meus joelhos e isso custa, custa mesmo.
A Dona Maria é a melhor coisa deste jornal.

domingo, setembro 17, 2006

O Professor de Filosofia VI (acho eu, já lhes perdi a conta)

Previously, em O professor de Filosofia:

O Professor de Filosofia recolheu, uma a uma, as fichas de alunos já preenchidas, percorrendo como numa marcha militar, as cinco filas de carteiras

Estragou o almoço dos alunos da Ameixoeira. Escrevam numa folha e entreguem-me a resposta a: O que é pensar?


Ainda bem que pergunta, estava a ver que nunca mais, estranhas as coisas: faz-se tanta pergunta vã, de que marca são as tuas calças, qual é a cor desse verniz, já emagreceste quantos quilos, e esta, tão premente, ninguém a faz, certamente depois há um problema de sobreaquecimento da resistência que carbura na mioleira e é uma desgraça, é que não é fácil a resposta a esta pergunta, mas podia-se tentar, não é, e eu às vezes faço perguntas que são óbvias como esta, e depois, riem-se de mim, mas ainda assim, eu não desisto, não me conformo, mas aprendo, a cada dia que passa, a estar calada e guardar estas coisas em mim, até que me apareça alguém que sinta o mundo como eu o sinto.
Porque é que o maestro não usa batuta, perguntei eu, aos seis anos, naquela que foi a minha primeira visita de estudo, ao Maria Matos, não para ver teatro, mas sim, para ouvir Beethoven. Riram-se. Porque é que o ar que bafejo para cima das minhas mãos, nas manhãs geladas que me cortam a respiração, mas que a trazem de volta quando saio de casa e há orvalho nas folhas do rusgo, é quente, e porque é que o mesmo ar, que sai da mesma boca, mas quando o sopro, é frio e me arrefece a sopa?
Até hoje, ninguém me soube responder, provavelmente também não será o professor que me vai tirar esta dúvida, mas por favor não se ria de mim.

(sem dar por isso, chamou-lhe professor. Sim, chamou-lhe, mesmo que tenha sido a tinta permanente, na folha de papel rigída da marca Ambar – só a Ambar produz papel de cem gramas por metro quadrado. Não há chamamento mais forte do que aquele que é feito por escrito. Eu chamei o senhor 50.000 por escrito, neste blogue escuro, cujo layout já precisava de um bafo quente de mudança; ao acaso, tivesse eu gritado pela janela o seu nome, teria ele vindo como veio, por debaixo de uma roseira de santa Teresinha com mais de cinco metros de altura? Pois não... por isso, muita cautela com o que se escreve, e mesmo muita, mas muita prudência com aquilo que se deseja, porque, certamente, se realizará. Professor ficou, desde aquele instante, apesar de ele ser, na altura, demasiado novo para ser professor, mas ela não sabe se foi das bexigas que lhe marcaram a cara para sempre e que lhe davam aquele ar duro, se foi do cabelo impecavelmente penteado ou do colarinho engomado. Aquele não era um setôr, era um professor e, da mesma forma, que ela sempre soube que algo incrível iria acontecer à 50.000ª visita deste blogue, também teve a certeza que aquele jovem professor de filosofia seria uma espécie de gurú, o seu primeiro mestre nas lides de como ser melhor, um pouco melhor a cada folha do calendário que se rasga)

Professor (repetiu a palavra, e apercebeu-se da gravidade do que havia feito – a turma toda, sobretudo as da Ameixoeira, iriam troçar, chamá-la graxista, lambe-botas e outras coisas menos aceitáveis, por este chamamento solene. Tanto pior, para eles, pensou, quando precisarem de copiar nos testes faço-lhes um manguito – coisa que ela sempre soube foi que a vingança era prato que se servia acabadinho se sair do pólo norte, e, de quando a quando, no Aki de Telheiras, ela encontra uma tal de Mónica, que pertencia a esse grupo da freguesia da Charneca que, sabe-se lá porquê, foi parar à quequíssima Alvalade, e sorri quando lhe entrega o Visa do Barclays, e tira-lhe, literalmente, as medidas, de alto a baixo, por cima do seu uniforme amarelo e boné ridículo, que lhe faz sobressair a obesidade mórbida que se instalou no seu corpinho outrora número 34), a pergunta devia ser ao contrário, penso eu – interessante, esta minha escolha de palavras, já viu? Penso eu... E o que raio é pensar, pergunta-me, e eu não lhe respondo, lamento, não me apetece.
Estou há oito anos à espera para contar o dia em que eu deixei de pensar, entre uma garfada de açorda e o olhar perdido num feixe de projectores de iluminação da pista de tartan do estádio da FNAT (ai, perdão, não sei se leva a mal este revivalismo estado-novista, mas lá em casa não se me permitem exultações ao dia do Trabalhador – ele não levou a mal.)

Sem saber, ela escreveu o seu primeiro post, numa folha pautada de cem gramas por metro quadrado, a tinta permanente sépia, mesmo antes de existir Google, muito menos Blogger.

Soltou o monstro. Até aí, era a miúda que não era magra, mas também não era gorda, que não tinha os cabelos lisos, mas que não os tinha aos caracóis, era a que tinha boas notas a tudo, mas que, especialmente, tinha jeito para o desenho, seria designer, ou estilista, sempre gostou de uns trapinhos, e gostava de costurar, sim, provavelmente, seria designer de moda. As suas composições eram medianas, por vezes, pedia ao seu irmão mais velho, que sempre teve mais imaginação e melhores notas, para inventar umas histórias, é que ela nunca teve paciência para trabalhos de casa, ora são oito horas fora de casa, e ainda mais duas horas de trabalho em casa? E depois, como poderia ela questionar os dados adquiridos do mundo? Não sobraria tempo. Foi aquela pergunta, simples, que alterou tudo, que soltou o vulcão que esteve a aboburar em lume brando oito anos. Desde então, perdeu o jeito para pintar, foi-se-lhe a perspectiva, ou isso, ou vive num mundo com estranhíssimos pontos de fuga, e estranhas proporções. E há quem diga que a blogoesfera foi feita apenas para ela, para ela poder brilhar (e sempre que olha para o statcounter, e espia no technorati os bloggers de referência que a linkam sente que a sua passagem por este planeta já não foi em vão. De certa forma, cumpriu um micro-objectivo de vida e fê-lo à custa do seu trabalho, do seu talento. Isto é mesmo muito importante para ela, ser realmente boa em alguma coisa).

Isto marcou-me muito, ainda não o ultrapassei totalmente – da primeira vez que olhei para a lâmpada do candeeiro de mesa-de-cabeceira do meu tio Zé, e depois vi muitos feixes de luz a serpentearem-se na escuridão dos olhos fechados, também me assustei, tanto quanto desta vez em que parei de pensar, e pensei que cegara, chamei por socorro e a minha avó deu-me uma palmada no rabo e disse-me para não voltar a olhar directamente para as lâmpadas que ainda ficava cega, e eu assim fiz, e nunca mais me assustei.
A expressão corriqueira para descrever o que se passou naquele dia seria “parou-me o cérebro”. Estava muito ruído. Nessa altura, éramos muitos à mesa, e o Hugo não queria comer a sopa e eu recusava-me a abrir a escotilha e deglutir açorda de pão com peixe cozido.

A minha mãe berrava qualquer coisa da cozinha que se eu não comesse, qualquer coisa e tal que deixaria de fazer. A minha avó, no meio de mim e do Hugo, convencia-nos, sob uma qualquer chantagem ou prémio, a comer tudo sem refilar. E eu fixei o olhar na janela, os vidros estavam a precisar de uma limpeza, quinto andar sobre o bairro de Alvalade, uma bela vista, garanto-lhe, o estádio lá mais à frente, o projector de milhares de watts a rasgar o céu, a minha avó com um garfo numa mão e uma colher na outra, e por poucos segundos, um agradável silêncio, tudo parou, até passar um avião que me tirou daquele transe.

Professor, juro-lhe, eu não pensei em nada naqueles segundos. E foi uma paz indescritível. Pena não haver um botão. Por exemplo, agora mesmo, estou de olhos fechados, em concentração absoluta, com imensa vontade de não conseguir pensar. Mas no máximo estou a pensar que não estou a pensar.
Eu acho que são as vozes da consciência. Eu oiço muitas vozes, acompanham-me, são simpáticas, não se preocupe, que não me dizem para cortar ninguém aos pedacinhos com uma faca daquelas que se vende pelo TV Shop. Eu sei que elas não são reais, não sofro de nenhum distúrbio psiquiátrico, sou, verdadeiramente, inofensiva, para mim própria e para os outros. Elas são o meu pensamento. Não é linear. Dá curvas e contra-curvas, daquelas de gancho, em que se reduzem duas velocidades, porque só se vai conseguir vencer aquela sinuosidade em altas rotações.

Eu penso quando algo ou alguém me estimula. E aí tenho rendimentos notáveis, posso ser a melhor desta escola toda. E quando assim é, nem lhe conto, é uma barulheira infernal na minha cabeça, quando estou em velocidade cruzeiro todas elas falam umas por cima das outras e eu só consigo apanhar duas, no máximo três, perco todo o resto do meu pensamento, imagino que seja como ler pautas de música, ler o meu pensamento, colcheias numa pauta, e breves noutra, orientadas por uma clave. As duas, ao mesmo tempo, dão um lindo som, perfeito. Se só apanho uma, sai-me coxo o pensamento. Acontece-me muitas vezes.
Raramente deixo de pensar, de uma forma tão sentida como naquele almoço em que não comi a açorda, e provoquei um ataque de histeria à minha mãe, na cozinha, e arranquei suspiros à minha avó que já estava a ser devorada por um cancro.
Certamente, a vida seria melhor com menos ruído. Sorte aquela dos que não pensam.

(lamento, não consigo acabar o professor de Filosofia ao post 700. E este, afinal, é o quinto e não o sexto capítulo da saga do professor)

quarta-feira, setembro 13, 2006

E outra declaração, ao post 699 (ao 700 mato o prof de filosofia)

Estou triste.
A história do beta blogger saiu-me cara e eles bem avisam que uma vez beta blogger, para sempre beta blogger, não dá para voltar atrás, ah pois não, e a menina devia saber que quando diz Beta é sempre arriscado (não sei se as betas são arriscadas; eu dessas coisas, só sei do testemunho de um blogger de referência que me diz que as suburbanas é que são a sua kryptonite).
A moral da história é que tenho que me deixar de geekices (eu prefiro escrever guiquisses). Continuo a aderir a todas as novidades idiotas que aparecem, aos gadgets que não sei para que servem, às extensões mais doidas do Firefox que depois nunca uso, apenas para impressionar alguém que já não é impressionável e que às vezes sonho que lê este blogue às escondidas (ler o blogue dessa pessoa é como comer chocolates às escondidas).
Por causa do Beta, o pessoal deixou de poder comentar esta horta e eu também estou impedida de escarrar uns bitaites nas caixas de comentários por causa da ousadia que cometi sem ler as letrinhas pequenas. Sim, estou triste. Portanto, senhores da Google, arranjem lá esta merda depressa, senão eu amuo e deixo de contribuir para este magnífico ecossistema de flores raras que é a blogoesfera.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Declaração (quase a chegar ao post 700 e sem vergonha nenhuma na cara de ser uma adolescente parva e de este ser um querido diário)

Todas as palavras que eu gasto por dia deviam servir apenas um propósito, seriam sagradas, assim, e não discursos vãos, monólogos a dois, se é que tal coisa pode existir e eu não me estou a lembrar, neste momento, da palavra certa, é que eu gasto palavras em conversas de surdos, de loucos, de humoristas negros como a noite, de pintores surrealistas que absuam do laranja, as minhas palavras não deviam transformar-se em notícias que já passaram de prazo quando as dedilho com todo o amor que dou a todas as coisas deste mundo, ou que expiram duas ou três horas depois de serem traduzidas em zeros e uns, num qualquer computador obsoleto onde entro em transe.
Todas palavras que arranco aos dedos, que alguém me sussurra ao ouvido e que eu me limito a reproduzir, deviam servir-te e servir apenas para dizer que te amo.
Nada mais importa.

A lei das compensações não existe, querida Lady e Carrie. Aconteceu mais uma coisa má, mesmo muito má. Mas o impossível também aconteceu e a roseira de santa Teresinha que eu comprei em honra ao homem que me impede de cortar os pulsos com tanta merda, merda da pior que há, daquela que é inenarrável, da que eu me recuso a escrever porque isso seria consentir que ela existe mesmo, que não é só um filme de muito mau gosto, uma partida tonta que alguém me quis pregar, a roseira floriu, sem explicação possível, dez meses antes do previsto.
Foda-se, e há formigas a saírem do teclado do iMac. E os canos da cozinha rebentaram.

domingo, setembro 10, 2006

Enquanto a sopa não levanta fervura

Algo está para acontecer, coisa diferente, talvez, quem sabe, algo que me arranque a pouca força dos joelhos e me mande ao chão, com a delicadeza de uma rajada de vento ciclónico. Se calhar, coisa boa, será? Algo tão forte que me atinja como um raio em noite de tempestade. Coisa má, é possível? E, sim, vem chuva, os joelhos e os ouvidos meteorológicos desta que vos escreve, emitiram o alerta laranja há mais de uma semana.
Vai acontecer algo em mim e eu gostava que me levassem a sério.


A maldição do bacalhau com espinafres acabou.

E dentro da ruína em que me encontro sorri. Porque voltei a saber cozinhar bacalhau com espinafres. E isto foi depois de uma conversa ao telefone que me fez ganhar dois fios muito prateados na imensa cabeleira castanha escura. Eu acabei a chamada, suspirei, e disse ao João, Isto tira-me anos de vida, Eu não sou esta, Acabaram de me nascer dois cabelos brancos, senti-o, quando poisei o telefone, acreditas que me acabaram de crescer dois cabelos brancos?
Eu preciso que me levem a sério. Isto não são hipérboles. Há cães que cheiram doenças, ao que sei, ao que li algures na imprensa de sábado, há até moluscos que detectam cancro, e uns peixes de aquário, os Plecostomus, que comem a psoríase da pele de crianças. Eu sinto sempre que envelheço mais um bocadinho.

Na casa-de-banho de serviço da casa do Outeiro, cabelos molhados de água com doses pouco recomendáveis de cloro, no espelho que está lá desde sempre, como as chávenas de café que estão lá desde sempre, e as cortinas com armas e brasões e armaduras a divivirem as salas, que, adivinhem, estão lá desde sempre, dois cabelinhos minúsculos, recém-nascidos, brancos como a porcelana do lavatório que não está lá desde sempre, mas há, certamente, tantos anos quantos os que constam no meu bilhete de identidade, caducado desde Maio.
E depois disto, um mergulho na piscina, e já cá em casa, a roupa arrumada por ordem cromática, no closet, e as cordas do estendal divididas, coisa de obsessão profunda, uma para o João, onde só entram as tee-shirts e calças do João, uma para a Carolina, onde só entram roupas em miniatura, outra para mim mesma, a terceira, depois da deles, onde entra pouca coisa porque esta máquina só tinha dois vestidos meus, e outra para as cuecas.

E eu sei que algo está para acontecer.

quinta-feira, setembro 07, 2006

Milagres e afins

E porque o assobio não pára, eu não tenho outra escolha se não olhar para o lado feliz da vida, isto antes de ir tomar um comprimido para a dor de cabeça e de o João acabar de fazer a mézinha que me vai pôr a dormir, que finalmente me vai deitar a baixo como um dardo tranquilizador, em dose para rinoceronte, e no meio de um desespero ensurdecedor - eu oiço vozes, sabiam? Eu estou sempre a ouvir vozes, é isso que conta a saga do professor de Filosofia se algum dia lá chegar -, e reparo que houve um milagre hoje: o Ricardo, no meio do sudeste asiático, o Ricardo que nunca tem onde cair morto, e o Pedro, o tio Pedro, o Pedro que sentiu o pontapé mais assustador da Carolina, estava ela no oitavo mês na barriga da mãe, ambos se disponibilizaram para pagar a mensalidade do colégio da pequenita. E o João, o João não me deixa ir trabalhar no fim-de-semana para o El Corte Inglés. Diz que tudo se resolve.
Mais do que o grande prémio do Casino de Lisboa, mais do que uma eventual comoção do João de Valsassina Heitor ao ler a minha "anulação de matrícula, por motivo de desemprego de um dos progenitores", mais do que a funcionária da secretaria a desejar-me força neste momento, bom, isto vale muito mais do que isso.
Olho para o céu à espera que me caia um milagre na testa, remexo a terra das floreiras da janela à procura de notas de 500 euros e nem reparo que já bateu à porta uma coisa muito mais aterradora - estes amigos nunca me vão faltar.
E quanto ao outro, o que se espera de um homem que não pagou o enxoval da filha? Segue-se em frente, e nunca mais se espera nada de homens sem sangue quente a correrem-lhe nas veias.
(Agradeço à insónia pela clarividência. E vou-me deitar)

quarta-feira, setembro 06, 2006

Novidades, chefe

Olá chefe,

Não fomos ao casino, mas comprámos uns frasquitos de vidro, hereméticos, na catedral sueca da decoração do lar. As putas das formigas não mais nos vão comer os cereais do pequeno-almoço. O Cerejo diz para eu as gasear com a dispensa cheia de mantimentos com BioKill, mas eu acho que o Cerejo não regula bem e já era tempo de ele saber que eu me chamo Diana e não coisinha.

Começo pelas boas notícias, hoje, só para variar, porque o meu dia foi um pouco monty pithonesco e na minha cabeça só toca, em assobio, o Always look at the bright side of life.

A Carolina está óptima de saúde, alta e robusta para os dois anos e nove meses que vai fazer daqui a dois dias, garantiu o pediatra que há vinte anos atrás domava as minhas anginas, insistindo com a minha mãe que mantivesse a integridade das minhas amígdalas, porque elas estavam lá para alguma coisa. E eu ficava feliz, chefe, porque ele dava carta verde, apesar do meu excesso de peso manifestado na primeira infância, para comer todos os gelados que me apetecesse.
A loira está a entrar numa idade perfeita, 33 meses, os pediatras gostam sempre de contabilizar a idade em meses e eu teria que puxar da calculadora do meu telemóvel baixo de gama para saber quantos meses tenho, mas isso é informação puramente inútil, lamento se não faço sentido, se já estás efectivamente assustado com estes meus emails, mas estou cansada, e sim, confirma-se, não gosto de viver, não gosto de viver porque há 42 meses a minha vida cruzou-se com a de um verme, de uma espécie de parasita com calvice, e, agora sim, vou puxar da calculadora e contabilizar quantos mais meses vou ter que o trazer colado a mim como uma sanguessuga, uh oh, bela merda, chefe, no cenário mais optimista, considerando que a Carolina lhe vai dizer tchauzinho e passou bem aos 15 anos, ainda me faltam 180 meses, chefe, 180, vê lá tu, tanto tempo, e eu em 42 meses já vivi mais do que muita alminha que anda por aí a dizer mal da sua vidinha, e às vezes, esborracho formigas e penso na cara dele, se tivesse ratos, decerto ia ser uma matança desgraçada ao som daquela pecinha de Mozart que eu gosto, Apolo e Jacinto, eu sou uma pior pessoa porque ele respira, chefe.

Ah, as más notícias. Anulei a matrícula da Carolina no Valsassina. Não me apareceram 2300 euros do céu, chefe. Também não tentei o casino, é certo. A sorte não bate duas vezes á mesma porta. Encontrei o senhor 50.000 à 50.000ª visita, e o dinheiro não cai no blogue, nem se lhe cheira o rasto através do Statcounter.
A dois dias do começo das aulas, chefe, anulei a matrícula, escrevi uma carta de fazer chorar as pedras da calçada ao Frederico Valsassina. A sanguessuga não paga. Parece que está desempregado, mas curiosamente, foi de férias, e anda com um carro melhor que o meu. Eu ainda o fiz passar por boa pessoa, chefe, na carta que enviei ao Frederico Valsassina, não acredito que escrevi uma carta ao Frederico Valsassina em que ele parece um pai extremoso. Nem imaginas o que eu já chorei hoje, chefe. Não imaginas o que dói só existirem direitos e os deveres serem sempre para cima de mim. Os bibes da Carolina estão prontos. Nome, Carolina Ralha, porque ela vai ser sempre Ralha, mesmo que eu perca o processo no Constitucional, bordado a linha azul escura.
A mochila das princesas está no chão, aqui na assoalhada ao lado, e já não vai para a Quinta de Santa Teresinha na próxima segunda-feira. E, de certa forma, chefe, tu também tens um bocadinho de culpa nisto tudo. Porque é que eu sou a gaja mais mal paga de todo o piso 1, chefe? Sabes que há quem diga que eu sou a melhor escritora? Acho que vou pôr baixa, chefe. Ganho mais dinheiro quando estou de baixa e só me apetece chorar, chefe.
Dia

terça-feira, setembro 05, 2006

Carta para o chefe

Querido chefe,

Cada qual com o seu dramalhão.
Cá em casa não há ratos, mas há formigas por todo o lado e eu já quase paralisei de medo nas escadas, com a Carolina a dormir no meu ombro direito, e uma barata alada quietinha no degrau da escada onde moram os carunchos.
Cada um tem a praga que merece. (Eu nunca gostei de formigas, é um facto; indecente aquilo que fizeram à cigarra. Mas eu dantes não matava formigas. Eu não matava nada antes. Agora, extermino as pobres obreiras com bio kill e acende-se um brilho esquisito nos meus olhos, ou esborracho-as entre os dedos, ou brincamos aos tsunamis na banheira, sanita e lavatório - parece-me que é na casa-de-banho que elas se aquartelaram.)

Mas este mail não tem a ver com as pragas do Egipto (espero, porém, que já não haja roedores em tua casa). Ou talvez tenha, de certa forma. Dizia eu: cada qual com o seu dramalhão e cada um tem mesmo a praga que merece. Eu estou habituada a dramalhões.

(...)

Algum dia viste o filme Run, Lola, Run? A menina de cabelos vermelho fogo, interpretada pela Franka Potente, tem oito horas para arranjar um milhão de marcos e safar o namorado tonto, Manni, de uma morte dolorosa perpretada pela máfia russa (ou berlinense, tanto faz).
Eu estou na mesma onda que a Lola. Só que não tenho joelhos bons para correr. Talvez pinte o cabelo de vermelho, quem sabe. (...) Tenho um aviso de pagamento do Valsassina, de 4600 euros, na minha mesa de cabeceira que não me deixa dormir desde quinta-feira. Tenho toneladas de férias atrasadas, espero que não haja problema em tirar estes três dias, onde terá que se dar o milagre da multiplicação dos euros.

PS- Após três tentativas falhadas e sempre ao som de techno alemão, a Lola consegue o dinheiro que precisa, no casino. Esta noite, acho, vou até ao Parque das Nações, largar cinco ou dez euros nas slot's. Eu ainda acredito em milagres. Talvez, quem sabe, esta noite nasçam dentes do siso ao indivíduo e ele deposite a metade que lhe corresponde na minha conta do Montepio Geral.

Um beijo para ti, chefão, já tenho saudades.
Dia

segunda-feira, setembro 04, 2006

Draft

Agora, já não tenho medo de o escrever, sabendo, decerto, que a caixa de comentários se vai encher de leitores preocupados, solidários e voluntariosos, capazes de largarem tudo o que estão a fazer neste momento, para, das duas uma: pegarem no telemóvel e saberem qual é o dramalhão desta vez, ou, escreverem alguma coisa simpática, como, descansa, não vinques mais a ruga a meio das sobrancelhas, tudo se vai resolver. [Eu só escrevo isto, desta vez, porque li um comentário febril da Lyra, no Trafuncas, a contar que o seu post "Sou profundamente só" foi o que mais comentários teve na sua existência bloguística, apesar de ninguém er percebido de que solidão falava ela]
E tendo a certeza que sim, que tudo tem conserto na vida, que este assunto, este indivíduo (quando eu lhe chamo indivíduo é porque a coisa está má) já me roubou mais vida do que aquela que ele merecia algum dia viver, digam o que disserem, e venham todos os milagres que me fazem, por vezes, crer que não, neste momento, como em tantos outros em que este post ficou em draft, porque eu não gosto ou quero que sintam pena de mim, porque eu luto contra a minha biploaridade com uma força que não sei onde vou buscar, eu não sei se gosto de viver.

quinta-feira, agosto 31, 2006

O Professor de Filosofia IV (a gaja agora só está a encher chouriços)

E, da mesma forma que, em 28 anos, se acumularam, empilhados no baú das tralhas imprestáveis e esquecidas, pronomes, substantivos, verbos e adjectivos que nunca se ouviram da boca ou dos dedos para fora, também é bem provável que, alguns de nós, por falta de tempo e, sobretudo, de transcendência, nunca tenhamos elaborado e, muito menos respondido, à pergunta com que o professor de Filosofia presenteou, de surpresa, uma turma de três dezenas de garotos com hormonas fervilhantes e peles oleosas – a sua maioria, vindos da Ameixoeira no autocarro 17, que já não estou certa que exista e que, se existir, ainda tenha este número – na aula de apresentação.
A aula de apresentação, aquela em que as caras são todas novas, em que não se pregou olho na véspera, em que, de manhã, pela enésima vez, se verifica se, no estojo de lata com bonequinhos japoneses, estão 15 canetas de cores e cheiros diferentes, em que os dossiers e os separadores cheiram a papel acabado de sair da Portucel, apresentando ainda um leve aroma de eucalipto, para os narizes mais treinados; as aulas em que, dificilmente, há já nomes decorados, a não ser os que são estupidamente invulgares, como Élvio (o word desconhece-o, sublinha a encarnado, mas a mãe gostava muito das baladas românticas do Elvis e o auxiliar da conservatória, o mesmo que impediu há pouco tempo a D. Nereida de passar o mesmo nome invulgar à filha recém-nascida, fechou os olhos, e bichanou entre os dentes, porque nunca soube assobiar, apenas bichanar, o Love me Tender quando guardava nos arquivos o assento de nascimento da pequena criaturinha que nasceu com seis dedos em cada mão e pé), Íris, ou Cidalina (ora aqui está outro que o Word assinala como gralha, deixa ver o da minha vizinha do lado: Anália, pois, para o programa da Microsoft, também não existe), em que se anda em pequenos grupos, aos apalpões, pelos corredores escuros, à procura das salas que nunca estão numeradas logicamente, ou, simplesmente, aqueles cinquenta e cinco minutos em que se preenchiam as fichas de aluno de cartolina, não tão rapidamente quanto seria desejável, e havia sempre quem se enganava, e isto se, calhar, era só a aluna aplicada e com dotes burocráticos – garantiam os testes psicotécnicos realizados com a psicóloga no ano transacto –, a implicar com os seus coleguinhas que sofriam de analfabetismo funcional.
Aulas de apresentação, ou seja, intervalos de 40 minutos passados no recreio de cimento, onde se fumavam, descaradamente, à frente das contínuas velhas de bata rosa velho para não destoar, os primeiros cigarros, roubados no dia anterior da carteira do mãe ou do bolso do pai só para dar estilo junto dos novos colegas. Mas, na aula de apresentação do professor de Filosofia, a missão para grande parte dos alunos era outra. Os pulmões não seriam enegrecidos, mas sim, desafiados numa tentativa de bater a velocidade da luz: ir num pé às Galinheiras encher o bandulho, e voltar no outro, até às traseiras da avenida de Roma, isto tudo em pé-coxinho, se se ia num pé e se voltava no outro, o que dificultava ainda mais a façanha.

As palavras, sorte a delas, não têm dilemas metafísicos – quem são, para onde vão, qual é o sentido da vida –, tudo isto lhes passa ao lado, não se deitam no divã do linguista com depressões profundas. Vivem a sua vidinha, simples, despojada, sem grandes pretensões a terem um cargo relevante no dicionário, não vão ao hospital, apesar de algumas serem autênticas múmias, gastas e velhinhas, e de haver palavras moribundas, que já ninguém usa.
Como “persiganga” (o Word franze o sobrolho, desconhece, na sua ignorância informática, o termo). O Google, verifico, só a refere 1720 vezes. Está em vias de extinção, confirma-se: o prognóstico é reservado.
Diz o senhor meu noivo, revisor tipográfico de alto gabarito e que fica de olhos em bico com os meus parágrafos intermináveis, que a última personalidade a utiliza-la frequentemente foi o Rodrigues Sampaio (1450 ocorrências no Google, está pior que a persiganga, pelo que é motivo de preocupação; se pesquisarmos, por exemplo, entre aspas, a expressão sexo com animais, temos 131 mil páginas disponíveis).
Persiganga não vem nos dicionários que tenho disponíveis no pasquim e que ninguém se dá ao trabalho de consultar, confiando no Word (gente naïf, não sabem quão matreiro pode ser o programinha, sobretudo se, como é o caso desta escriba que vos aborrece com divagações inúteis sobre palavras, estiver activado o “auto correct”). Persiganga morre com esta geração, provavelmente com a minha, mas, ainda assim, farei tudo para a passar à minha filha, mas não sei se com sucesso. “Carolina, se não fazes xixi no bacio vais parar à persiganga…” Vou começar hoje.
Há palavras de elite, as palavras não são democráticas, há algumas cujo acesso universal está vedado, e eu não entendo muito bem porquê, ou quem é que decide e define a lista nacional de vocábulos apropriados para a grande maralha e a outra, mais pequena, de palavras que pretendem exclusivamente a uma espécie de sociedade secreta.

Não me confundam, por favor. O meu vocabulário é limitado e eu não pago as quotas dessa associação de palavras difíceis, apesar de ter recebido convites de vários membros – só assim é que se entra, garantem-me. Quem me tira uma boa caralhada tira-me tudo, e nesse clube, calão não entra, é pecado.
Se, por um lado, ensinei ao meu irmão Leonardo, já andava ele a meio da faculdade, do alto dos meus púberes 16 anos, a palavra catarse (foi a única coisa que lhe ensinei na vida, isto vai comigo para a pira de cremação), já foi com a boca aberta e com um encolher de ombros, sinónimo de ignorância em estado mais puro, que ouvi dizer que, em tempos, se escreveu aqui no pasquim onde me vendo a 4,54 euros a hora, “catarse crística”, a propósito de não sei o quê, nas páginas da secção cultural. Paz à sua alma, do autor de tamanho palavrão, que fazia parte do gang das palavras que só se servem à mesa com toalhas de linho, talheres de prata, ou se escrevem a tinta permanente, em papel de 180 gramas por metro quadrado, idêntico a este onde escrevinho, um esboço de post, deitada na cama, de barriga para baixo, e com a mão direita a latejar da dor dos tendões inflamados. É que estas palavras raras não andam de avental no dia-a-dia, mas têm os seus rituais.
Sei perfeitamente as minhas limitações, dizia lá atrás, e até por as conhecer bem demais é que não consigo andar para a frente. Sorrio quando pedem: escreve um livro. Não tenho capacidades para tal, lamento.
O senhor revisor, esse sim, tem as quotas pagas a tempo e horas. E, por estar a seu lado, sem dar por isso, passei a guardiã da “persiganga”. E nisto, a casa está desarrumada, suja mesmo, com tabaco de enrolar espalhado por todo o lado (tinhas razão, João Pedro, os homens só são arrumadinhos e lavam a loiça nos três primeiros meses) e a estante está subitamente mais gorda, empilham-se dicionários de todas as marcas, línguas e formatos. E abrir uma página ao calhas de um dos três volumes do Houaiss, é confirmar a minha pobreza lexical. Escrever um livro… As coisas que vos passam pela cabeça…
Quando era pequenita, anos antes de me cruzar com o professor de Filosofia, não era fã dos cinco, nem dos sete, muito menos das aventuras da Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães. Pousado, na mesinha de cabeceira, estava o dicionário de Português da Porto Editora. Devorava-o e era fascinante aprender novas palavras todas as noites, ao deitar. Pena ter perdido esse hábito nocturno autista para a feitura de diários que hoje não me atrevo a abrir.

Há palavras que não se usam. Outras que ainda não nos foram apresentadas, ou que nunca serão, tão longe que estão.
Os silêncios, diz a minha amiga Lyra, são a verdade mais cruel, porque contêm todas as palavras. A amiga Esquizo, que nem com terapia vitalícia ficaria curada da insegurança absurda de que sofre, está sempre a citar um escritor qualquer que eu nunca li (mais uma limitação minha, não ler em doses diárias recomendadas pela OMS), que me diz que há palavras que parecem beijos na boca. O primeiro post do Luís Gouveia Monteiro que li, e que não esqueço, dizia que quando se diz uma coisa matam-se todas as outras, que os silêncios eram os melhores amigos dos amantes.
Em tempos, enterrado nas coisas do arco da velha, escrevi neste blogue, um post para um indivíduo que vocês conhecem bem demais, que muitos zeros e uns fez correr neste blogue, e que devia lavar a boca com lixívia quando se refere ao meu amor por "parolo, que “a custo, num processo quase tão doloroso quanto prazeiroso, vou continuar a arranjar frases. Vou arranjar uma frase que te martele um mês inteiro na cabeça – quando abrires os olhos, de manhã, e quando os fechares, à noite, quando passeares pelas ruas da cidade e pelas ruelas da tua casa; uma frase que se cole à tua pele – e não vale a pena esfregares no duche com água quente, vai ficar grudada. Vou arranjar-te uma frase, ou três, porque só gosto de ímpares, daquelas que te prendem a mim para sempre, e um dia, com esforço, se me fizeres mal, arranjo-te uma frase que te amachuque, daquelas que ferem toda a gente.”

Passa-se o mesmo com as perguntas. As perguntas não são mais que palavras amontoadas (e as palavras não são ingénuas, não pensem nisso, comandam-nos, não somos nós que lhes damos ordens, não haja ilusões, as palavras são como os gatos que nos escolheram como donos e não nós como animais de companhia, e para demonstrar esta teoria, quantas vezes dizemos, não sei como disse aquilo, saiu-me da boca para fora…)

O Professor de Filosofia recolheu, uma a uma, as fichas de alunos já preenchidas, percorrendo como numa marcha militar, as cinco filas de carteiras

Estragou o almoço dos alunos da Ameixoeira. Escrevam numa folha e entreguem-me a resposta a: O que é pensar?


[9157 caracteres, porque as palavras são mesmo assim, como as cerejas]

terça-feira, agosto 29, 2006

E, agora, para algo completamente inovador

Ciclópico
Biltre

Duas palavras que eu nunca tinha escrito na vida.
Já está e, de facto, há sempre uma primeira vez para tudo.
Certamente, lembrarei, para todo sempre, se continuar com esta capacidade incrível de guardar insignificâncias no lado esquerdo do meu cérebro, que as escrevi recorrendo apenas aos deditos da mão esquerda, já que a direita, hoje, decidiu fazer greve de tendinite.

sexta-feira, agosto 25, 2006

O professor de Filosofia III (a saga que não acaba nunca)

Chamemos-lhe, então, Carlos Pedro (porque eu não consigo continuar a chamar-lhe o professor de filosofia… ou consigo?), com a certeza, porém, que essa não era e não será, certamente, hoje em dia, a sua graça, a menos que o professor de filosofia tenha cometido um crime grave nestes 14 anos em que perdemos o contacto, ou que alguém o tenha cometido por ele sem pedir licença de apropriação da sua identidade.
E, talvez por isso, porque já não era um jovem e inofensivo pedagogo que se recusava ver televisão (sendo este o seu acto de maior rebeldia da sua vida), mas sim, um psicopata de várias faces, vários rostos e vários nomes, ou porque, se calhar, tal como eu, o professor de filosofia veio ao mundo com um tê na testa marcado a tinta invisível e, a certa altura, estava tão farto de receber na caixa do correio notificações da Divisão de Investigação Criminal e da PJ para prestar declarações nos casos mais estapafúrdios dos quais não tinha qualquer intervenção, responsabilidade ou contributo a dar às investigações, simplesmente, porque não tinha estado lá, ou então, podemos ainda ir mais longe, e, seguindo este raciocínio, conjecturar que o que motivou o professor de filosofia a mudar o seu nome foi o facto de já não existiam paredes suficientes, na sua casa que antes era orgulhosamente estéril e desprovida das coisas terrenas, para pendurar nem mais um termo de identidade e residência indevido, por processos que nunca lhe chegavam a manchar o cadastro, porque eram sempre arquivados pelo Ministério Público por falta de provas – e os magistrados já suspiravam sempre que o chamavam, e pediam desculpas em adiantado pela maçada e perda de tempo.
Talvez por isto, e isto é só uma hipótese, tão estapafúrdia como os crimes estranhíssimos que perfeitos estranhos podem ter imputado ao professor de filosofia, este pobre homem, objector de consciência (nem à inspecção militar foi), tenha dado corda aos sapatos e aventurado a uma visita a um bairro de má fama no centro da cidade, e tenha comprado um novo nome. Carlos Pedro, disse ele, a uns romenos que vendem BI’s fresquinhos e, até, os novos passaportes electrónicos, numas águas furtadas dos Anjos. Carlos Pedro para não ter mais chatices, e até os deixou escolher o sobrenome à sorte, num sorteio com papelinhos dentro de um saco de plástico com cheiro a erva de fazer rir.
Ou, talvez, nada disto se tenha passado e ele continue com o nome que a sua mãe escolheu e que o seu pai ditou à notária que só se dava ao trabalho de fazer uma caligrafia bonita aos seres que tinham acabado de nascer e que ainda não desconfiavam como seria dura a sua vida (quando averbava um casamento, ainda se esforçava, a caligrafia ainda era cuidada, apesar de só ter amarguras para contar acerca desse sacramento, nódoas negras que escondia sobre a roupa de estampados floridos – usava sempre roupas floridas, gostava de ser como as flores –, mas, nos divórcios, não trazia o mata-borrão e, então nos óbitos, era a sua letra mais corriqueira e desleixada que ficava impressa no certidão), talvez este naco de texto sirva apenas para fazer render a saga professor de filosofia que, ao que me está a parecer, não vai acabar por aqui, porque eu ainda nem cheguei nem aos subúrbios daquilo que quero contar, ou, vai-se lá saber, se calhar até acertei e ainda vou a tempo de ir preencher um euro milhões à papelaria da Fontes Pereira de Melo.
De uma coisa tenho a certeza: o professor de Filosofia tinha dois nomes próprios. E apresentou-se assim aos alunos do nono ano, quarta turma, da Escola Secundária Rainha D. Leonor. Carlos Pedro era um nome duro. E ele estava sempre em sentido, muito tenso (e tinha um belo rabo, desculpem-me os mais pudicos pelo acrescento). A aluna da franja encaracolada (todos nós temos coisas que nos envergonhamos; eu tive franja) começou a analisar o professor de filosofia naquele preciso instante. O tratamento pelos dois nomes próprios só poderia ser fruto de uma educação militar. Não podia ser o Carlos ou o Pedro simplesmente, estava sempre de alerta, como se tivesse feito um qualquer disparate e esperasse o grito: “Carlos Pedrooooooo!”.
Ela acertou. Foi educado nos Pupilos do Exército. Quando, um trio de anos mais tarde, o encontrou a cumprir serviço cívico na biblioteca da escola, por se ter recusado a ir à tropa, ela aflorou, ingenuamente a questão: “Mas, se passou a vida nos pupilos… Porque aceitou este castigo, de ser despromovido de professor a bibliotecário, professor?”. E ele encolheu os ombros e foi à procura do livro que ela precisava para o trabalho de História.


(só um aparte: hoje, antes de entrar no grande edifício da bófia, no Porto de Lisboa, ergui os olhos para o céu de nortada, e disse, em voz alta, já basta de surrealismos, já basta, mas afinal não bastava, e ao que parece, segundo a queixosa, eu sou um homem, e ameaço pessoas na A8 que me fazem sinais de luz à traseira do Idea com armas de calibre desconhecido)

Continua. Só ninguém sabe é quando acaba.

segunda-feira, agosto 21, 2006

Diálogo de quase despedida, a dois dias de acabar três meses de fisioterapia intensa por cima das rótulas dos joelhos

Então, Diana, sente-se melhor dos joelhos?
Nem por isso, Irma, mas isto foi muito agradável, gosto sobretudo da corrente eléctrica sobre as rótulas, bem, e já vou no segundo Saramago... E isso é obra. Coisa que eu demorei cinco anos a fazer. Obrigada e até para o ano, quando eu aparecer aí à porta com o primeiro joelho costurado a linha de seda (e aí, vou ler que autor?)

domingo, agosto 20, 2006

Fui a um casamento hoje,


de uma menina ruiva, com cara de boneca de porcelana fina.
À porta da sua casa repousava um ás de copas.
Como não choveu, porque São Pedro não queria o guichet cheio de reclamações em pleno Agosto - os querubins também preferem este mês para descansar e o expediente acumula-se em pilhas e pilhas de nuvens até Setembro -, enviou esta carta dos céus, de madrugada, logo quando o sol nasceu, para abençoar a boda.
Haverá melhor augúrio?

Todos os dias, saio de casa e faço por olhar com olhos de ver.
É a chave da felicidade.

A quem possa interessar, ontem, encontrei, na esplanada do Luanda, a senhora professora Gertrudes Maria, que não via há 22 anos. Lembrou-se de mim: era aquela que desenhava muito bem. Estive para lhe dizer que agora sou aquela que escreve muito bem, que se enganou no meu talento, mas, de facto, ela não teve tempo para o avaliar. Apenas me ensinou os nomes das letras e dos números e a desenhar xis que mais ninguém desenha. Sorriu quando lhe disse que ainda hoje escrevo assim os xis. A professora da sala seis, a sala em frente à da senhora professora Gertrudes Maria, anuiu: Sim, ensinavas assim os xis. As coisas que ela se lembra. E nada de extraordinário acontece?

sexta-feira, agosto 18, 2006

Pax


Pax, com um ano e picos, menos de dois dias depois de ter ressuscitado da sua primeira torção gástrica com dilatação (coisa de milagre, o estômago já estava em gangrena), e há dois anos, com a Carolina, muito pequenita, com nove meses, na casa antiga.