quinta-feira, outubro 20, 2005

Telefone maluco

Eram 19h45. A janela do messenger abriu-se e fez-se Dia. «Porra, não consigo acender o forno, tens fósforos?» Não tinha, mas corri ao café mais próximo para socorrer a donzela. Acendi o forno à primeira. «Ops, estava a rodar o botão errado. É melhor abrir as janelas que a casa cheira a gás.» Ok, vamos jantar.
Pitéu excelente, bacalhau com espinafres e a tal garrafa colheita de 2000. À segunda garrafa, ofereço-me para sacar a rolha. «Deixa estar, eu só não sei acender fornos». A rolha partiu-se. Acreditas na lei de Murphy?

A Magui ensinou-me a fazer béchamel pelo telemóvel: eu na cozinha centenária, semi-bordel, pintado de encarnado sangue, ela no seu ultra-moderno laboratório culinário, três ou quatro quilómetros a separar mãe e filha, loira e morena, e aqui, por debaixo da Fontes Pereira de Melo, o Toshiba deitadinho na bancada fria de mármore, a ponte entre o lava-loiças e o forno, e entre telefonemas - "Então ponho o leite antes da farinha? Tenho que tirar os grumos do molho antes ou depois de ir ao lume?" -, e nisto, um voyeur espreitava a minha fadisse do lar por uma webcam.
E a Magui foi o meu primeiro 112: "Ai, caralho, mãmã. O forno não liga. O bacalhau cheira tão bem e agora vou ter que mandar vir uma pizza. Ai foda-se, foda-se, mamã, claro que já vi se tenho gás na botija! Faço o quê? Uma vela? Eu acho que tenho uma vela...".
Angustiada pelo facto de o primeiro jantar cem por cento da minha autoria vir a ser condenado, sumariamente, à pena de fiasco, a Magui disponibilizou de imediato um mini-forno que está em casa dela a servir de suplente. Mas o Telescópio salvou a noite sem ser preciso ir à EUA buscar um forno eléctrico (vou trazê-lo, de qualquer forma, não confio mais neste forno nojento), eu telefonei logo à Magui e admiti ser uma sofrível "self made woman". "Analfabeta!", sentenciou ela, sem mesericórdia, da mesma forma que sempre que alguém lhe diz: "Ai dona Margarida, a sua filha é mesmo uma garota bonita", ela lança: "Com esta idade são todas bonitas". Eu já lhe disse que fico fodida, que conheço muitas gajas da minha idade que são umas aventesmas, mas ela nunca concorda com as velhas.
Eu estou a ser pressionada para passar a palavra, que já vai longo o meu discurso, apenas gostaria de vos dizer que segundos antes do Telescópio chegar e ressuscitar o forno, a pequena Ralha tinha despejado no chão meio quilo de sal ao qual juntou, com cuidado e requinte, cem gramas de pimenta branca.

Diz isto alguém que se define como fada do lar e do blog. Get real.
Um homem chega a casa - ok, a tua casa - e tu recebe-lo à porta com um pano da loiça na cabeça e um avental vermelho cheio de restos de espinafre? Parecias uma bandeira portuguesa...
Tudo bem, no fundo também vibro quando joga a Selecção Nacional. Sinto-me bem neste sofá, com vista para um armário de livros. Onde senão aqui iria eu encontrar raridades tão dispersas como: «A Lei do Amor»; «Amor», «Depois do amor» e três volumes encadernados da revista «Linhas & Pontos»? És um terror, Dia.
Também gosto da música de fundo. E gosto de ver-te com um pano de loiça na cabeça, dá-te um ar afro. E das meias do Benfica. Queres um bafo do cigarro? Vou-te salvar.

Eu não acredito que tu estiveste este tempo todo e só escreveste isto!
Na aparelhagem velhota estão os Sétima Legião, esses fachos, um amor musical com décadas: "Gabriel!", grita o Rui Pregal da Cunha, que hoje é médico, o senhor cantava muito mal, melhor salvar vidas, mas o acórdeão do Gabriel perseguiu-me vários anos, cheguei a pensar comprar a casa onde ele cresceu, na Gama Barros; a mãe do Gabriel Gomes tinha um Fiat 600 azul escuro e fazia bolinhos para todos os cafés das imediações da Avenida de Roma. Eu adorava as madalenas da mãe do Gabriel Gomes, apesar de nunca ter sabido o nome daquela velhota simpática que chegava às tascas com tabuleiros cheirosos de bolinhos acabados de sair do forno.
Fui ver a casa, três assoalhadas, 25 mil contos. O preço era bom, demorei-me no quarto do senhor Gabriel, ouvi o som do seu acórdeão, mas quem me veio mostrar a casa não foi o Gabriel, foi um amigo íntimo, com pinta, mas se tivesse sido o Gabriel eu teria comprado aquela casa horrível, com uma casa de banho rosa com uma barra de laçinhos e traseiras com vista para um quintal cheio de barracões de zinco. Ainda tenho o telemóvel do Gabriel no meu telemóvel; deu-mo a Dona Paquita, a velhinha espanhola deliciosa com quem bebo café quase todos os dias, no café das velhas.
Mas o Telescópio chegou cá a casa e não disse nada disso dos panos da loiça. Disse que eu estava linda e que parecia uma virgem Maria. Ri-me alto. Pela virgem, não pelo linda.

Gabriel é o nome do arcanjo que disse à virgem Maria que estava grávida do filho de Deus. História que, aliás, está mal contada. Qual é a gaja que diz ao marido que está grávida do Espírito Santo e o tipo acredita? Já viste a probabilidade de José ser o corno mais citado dos dois últimos milénios? Incrível.
Quanto à tua virgindade, nunca pensei.

Vocês lembram-se de jogar a isto? Chamava-se, pelo menos na Avenida de Roma, o "telefone maluco". Um grupo de putos, papel e caneta eram os ingredientes. O primeiro arrancava, escrevia uma linha, dobrava o papel escondendo o que acabara de cravar no papel com uma esferográfica azul da Bic (eu sempre fui diferente; morceguinha desde pequenina: na primária, no colégio, obrigavam-nos a escrever a azul, mas eu sempre gostei mais do preto. E a tinta permanente, para desenhar letras tão lindas como as que o meu avô Oliveira imprimia nas suas folhas), deixava a descoberto as últimas palavras, passando a palavra ao seguinte. Qual era a moral do jogo? No fim, desdobrava-se o leque que resultara da ronda literária pelos jogadores e lia-se alto o resultado hilariante.
Chamem-nos burgueses, chamem o que entenderem, mas tínhamos 14 anos, acabadinhos de entrar no armário, e em vez de fumarmos ganzas, e descobrirmos a nossa sexualidade nas traseiras do Rainha, passávamos horas a jogar ao "telefone maluco" numa mesa de 12 pessoas do Luanda.

Também jogava, por esses anos. Foi na época em que uma festa de anos era tudo. Jogávamos spectrum a tarde toda, às vezes também ao telefone maluko.
Quando começavam a desaparecer os phrimeiros adultos, o jogo do quarto escuro era passaporte para curtir com a prima do aniversariante. Pais, tios e padrinhos na sala, os putos (todos até aos 12) a brincar, longe de preferência.
Volto ao anjo. Perdi a virgindade com uma miúda chamada Gabriela, numa visita de estudo de dois dias a Conímbriga. A Gabi hoje está casada, tem dois filhos e é muito gorda. Naquela altura, era um anjo.
Muitos anos depois, empantanas-te-me a realidade.

Diz-me qual é a primeira memória que tens de mim?
Jantar de anos do teu irmão, tu chegaste atrasada e parecias um furacão quando entraste. Muitos braços, muitos risos, muito gira.
E tu?

O mano faz anos hoje. 33. Já viste que estamos há uma hora e 40 minutos a escrever este post?
Eu tenho memória de elefante, lembro-me de coisas que não lembram ao menino Jesus. Até sei o que tinha vestido e tudo. 20 anitos, não mais, um jantar do número zero da Focus, - e, caralho, o jantar era na rua de Santa Marta, duzentos metros abaixo do local onde nós estamos -, estava ao lado do meu "marido", e tu por lá andavas, no outro lado da mesa, palhaço de serviço.
Telescópio? Se não chamamos a este post a "quatro mãos", o que é que chamamos?

O jogo.
Nessa noite pedi a actual mulher do teu irmão em casamento e subi a um banco para fazer um brinde. Brutal, tinha 22 anos. Mas siga, é só isso que tens para dizer? Eu a armar-me em D. Juan, a mandar aquelas provocações, subtis enough, e tu sem contestares à altura? Strange.

É na minha segunda recordação que surjes com força. Para sempre. Nessa primeira, eu estava demasiado deslumbrante para te dar atenção, sei tão bem o que vestia... Estava bem mais magra, um fato cor de rato, com corpete com renda de bilros. O cabelo estava apanhado com uma "banana", alisado impecavelmente com brilhantina.
Na segunda, estávamos no BBC, a reboque de um broche amigo que estávamos a fazer ao Manuel Jesus, no jantar dos Portuguese Marketing Awards. Recordas-te? Na nossa mesa, um canastrão que era dono das clínicas de estética Persona.... Tu e a Cate tinham acabado de chegar da Polónia, também sei o que tinha vestido nessa noite, saia preta com umas flores azuis, top branco que me descobria as costas, e, lembro-me, estava muito cansada, o Código do Trabalho fazia-me olheiras. Tu fizeste a Cate chorar, acabámos a noite na rua da Rosa, num apartamento da idade da minha Martinha, com uma mala de cartão na sala a pegar fogo às primeiras horas da manhã.

As coisas foram um pouco onfire desde o início...
Há muitas histórias que não cabe aqui contar. Uns brincos esquecidos, um telefonema com anestesia, a sedução constante, o ritual de quarta-feira e um segredo para sempre.
Vamos sair daqui?

Um segredo o caralho! Apressaste-te a contar o segredo a um homónimo teu...
Podes cá dormir à vontade. Eu não tenho a depilação feita. Dormes como irmão. Aliás, este sofá faz cama.

És má.

Eu fiz caipirinhas e pipocas. Sou ou não sou uma fada do lar?

O que é me vale dizer que és?

Nada, mesmo nada. Eu estou sempre a dar-te foras.

Sim, mas eu já me vinguei uma vez, naquela de manter o ar de tough. Com que então não fizeste a depilação... É muito mais pós-moderno do que «dói-me a cabeça».

É melhor não entrares por aí, porque eu tenho em minha mão, informações que destruíriam a tua reputação. Queres que eu recorde a temática abordada num livro que me ofereceste no meu 25º aniversário, quando já estava barriguda, com a Carolina lá dentro a viver?

Truque baixo. Mas eu esquivo-me, porque mesmo que ponhas essa questão, existe ad eternum a questão de teres ficado barriguda.

Diz-me, Telescópio, algum dia julgaste que eu escrevesse assim?

Sim, já calculava. O desiquilíbrio mental não podia senão traduzir-se nisto, numa irónica câmara sobre o mundo dos afectos.

Eu preferia que o post se chamasse telefone maluco. Concordas? Não tens que concordar... O blogue é meu...

O q é q te faz pensar q vamos publicar isto?

Temos que. Eu tenho pelo menos uma centena de visitantes por dia. Tenho que os alimentar... Ficarão com azia, decerto

E eu tenho quinje, dos quais metade são gajas com quem eu já me enrolei. Topas? I rest my case.

I have no more questions, your honour. Login and publish?

Não.

Sim.

Sim.

Published by Dia and Telescópio

Fada do blog

Leitores queridos,
Este blogue é um vício, acreditem, custa-me mesmo muito, dói-me, que não tenham nada para ler - este quintal é um diário e a sua periodicidade é, preferencialmente, diária, como o nome indica, e se eu tivesse vida, vos garanto, que tinham duas edições: a da manhã e a da noite, sucessivos updates da minha vidinha. Mas estou armada em fada do lar, a fada do blog está de férias e directamente da província bateu à porta de uma casinha linda da rua de Santa Marta, a mãe de família, e às vezes sabe bem, parecer quase normal, fingir que brinco às casinhas e às familias monoparentais.

fada do blog

[Aqui, a fazer bacalhau com espinafres para o jantar de hoje; quem quiser que apareça, tenho comida a mais, como qualquer boa mãe]

E a propósito de famílias monoparentais, estou para escrever desde ontem esta história bizarra (adoro esta palavra). Estava eu no Feira Nova de Chelas, a brincar às donas de casa, carrinho com a Carolina lá dentro aos pinotes e recheado de boiões da Blédina e da Nestlé (nunca cozinhei para a minha filha; a minha mãe fá-lo melhor e quando não faz eu contribuo para o engrossar dos lucros da Milupa e da Nestlé, que andam nisto há muito mais anos nisto que eu e que, aliás, têm que distribuir dividendos pelos seus accionistas todos os anos - e a minha filha está estranhamente silenciosa; vou ver o que se passa, porque hoje já bebeu água da sanita e fez uma festa de gel duche no chão da casa de banho; afinal está só a dormir, ufff (e deixem-me ver os espinafres, que enquanto teclo isto, refogo o bacalhau numa wok e os espinafres, com muito alho, numa frigideira, ambos já estão em lume baixinho, e agora um cigarro que eu já mereço; não os encontro, que merda...) - e uma promotora da Gillette interpela-me e pergunta-me se estou interessada em levar para o meu marido as novas lâminas a pilhas, aquelas que têm o outro futebolista que eu não sei o nome nem me interessa, o que é casado com a ex-Spice, cuja graça também não é digna de ocupar uma parcela ínfima da minha mioleira.
Não fui capaz de lhe dizer que não tinha marido, caralho! Não fui, dei-lhe trela, inclusive, disse que o meu marido estava muito satisfeito com a Mach3, que fazia poucas vezes o barbeado com lâminas, que tinha uma barbinha rala, uma pele sensível, que se dava melhor com a máquina de barbear da Philips.
Porque é que eu não fui capaz de lhe dizer que não tinha marido? Gaita!
Para a senhora não ficar triste, levei umas Gilletes para as minhas pernas.
Caros, tenho que ir fazer o béchamel. Esta vida de fada do lar é uma canseira, não sei mesmo dos meus cigarros, mas, ao menos, o meu chulo literário diz que eu fico linda.

terça-feira, outubro 18, 2005

Paz

Quando tinhas menos de 50 centímetros, sossegavas quando eu cantava It's a good day for singin' a song: punha o CD da Peggy Lee às tantas da madrugada, pegava em ti ainda com medo de te partir, dava dois passos e entrava na sala de sete metros quadrados, pegava nas tuas mãos pequeninas com dedos enormes como os meus - agarrava-me a essa ideia, que as tuas mãos eram iguais às minhas, que pelo menos tinhas alguma coisa dos Ralhas -, tu fechavas a mão com muita força e ficávamos ali horas, junto do sofá azul, com almofadas laranja, iluminadas pelas resistências do aquecedor que funcionava 24 horas por dia - vieste num Inverno rigoroso e a casa de bonecas onde morámos, o 10 andar sobre a EUA, era muito frio e muito quente -, dançava e cantava para ti e, enquanto te embalava com todo o amor que podia dar a alguém - sei disto: nunca vou amar um filho como te amo a ti, Carolina -, sentia-me em paz, apesar de tudo estar a ruir ao meu redor.
Nunca te deixei chorar e, como nunca pegaste na xuxa, era o meu peito que te calava (toda a gente ralhou comigo pelo uso sistemático deste calmante; como vai ser no futuro, quando ela estiver triste? Quando tiver uma dor de barriga? Quando esfolar um joelho? Enfias-lhe uma bola de berlim pela goela abaixo?, diziam). Ainda tenho dificuldade em te ouvir a chorar, mesmo quando é birra de um mau feitio imensurável característico dos Ralhas - não são só as mãos que herdaste de mim -, mas quando a minha mama não funcionava, e era tarde, muito tarde, deitava-te de barriga para baixo no meu tronco, tu moldavas-te ao meu regaço e acalmavas num instante. Ficávamos horas assim, eu era o teu sofá e mais uma vez, assim como que por magia, estava em paz.
Hoje, depois de milhares de tropelias - a maquilhagem arruinada, uma festa de cotonettes no armário da casa de banho, depois de regares as roseiras com o leite do biberon e arruinares o Antúrio porque não te deixei rasgares uma a uma as folhas do meu livro de cabeçeira - pediste-me colo, arrumaste-te, enorme, no meu regaço e dormiste, de boca aberta, num sono profundo, pouco mais de um quarto de hora. E, apesar de tudo ter ruído, senti-me em paz.

Tropelias da jovem Ralha

makeup

É de desconfiar quando a pequena está caladinha que nem um rato, entretida noutra divisão da casa sem chatear... Ri-me tanto, que nem consegui gritar-lhe pelas sombras destruídas ou pelo tratamento facial (reparem nas tendências góticas da pequena, reveladas aos 22 meses de idade).
Estou de férias, tenho um post na cabeça, mas está difícil de parir. As minhas desculpas aos assíduos.

segunda-feira, outubro 17, 2005

Parabéns, senhor Vring

Pensei mandar um sms à meia noite, antes de te transformares em lobisomem.
Mas achei que era piroso, optei por te dar os parabéns por aqui.
Beijo enorme, das tuas eternas admiradoras
Dia e Carolina (que te comprou uma prenda linda, linda para a casa nova)

domingo, outubro 16, 2005

Notícias de Santa Marta - histórias de 40 minutos a passar vestidinhos cagões a ferro

Este post foi aberto no sábado, no dia mais odiado (ainda bem que não sou a única).
Este sábado excedeu-se, porém. Tinha acabado de escrever o título do post quando o telefone tocou. Cinco minutos depois a minha homónima veio encher esta casa que é demasiado grande como a minha solidão. Foi tudo o que escrevi, o título e até tinha resolvido variar; não o escrevi no sofá laranja, virada para a janela de madeira pequenina, como é hábito, mas em cima da cama feita de lavado.
Tinha estado a passar a ferro antes de me sentar em cima da cama, antes de deitar o Toshiba confortavelmente em cima da minha almofada de sumaúma, antes de o telefone tocar.
Não tinha lençóis para me acalmar; apostei numa dose de vestidos cagões de bébé para me dar clarividência e paz nas desavenças.
Em 40 minutos passei 16 vestidos da minha filha. Por várias vezes disse a mim própria que sou uma abécula - tenho uma avença mensal na empresa da namorada ou que raio ela é do meu tio para me passarem a roupa a ferro (não é namorada não; como se chama a uma luso-brasileira com um nome impensável, casada e mãe de três filhos, que à pala do meu tio banana, e sem qualquer pagamento através de favores sexuais, tem uma casa mobilada e equipada e um negócio montado???).
Estive 40 minutos a tirar vincos da roupa em miniatura da Carolina, isto em cima da mesa de jantar, porque não tenho nem terei tábua, mas ao menos, assim, a mesa sente-se realizada, ganha alguma utilidade, porque servir refeições numa base diária nesta casa invulgar já sabe a mesita que não pode contar.
Estendi uma toalha turca azul cueca dobrada em dois sobre o vidro temperado - é bem bonita a mesa que o meu querido Pedro me ofereceu, a nossa mesa, comprada ao mesmo tempo que a chaise longue que arruinou o nosso casamento (coitada da chaise longue; diz-lhe que ela é linda, que sou eu que estou a exagerar e que ainda a amo como no primeiro dia em que a vi dengosa lá na nossa sala) -, pus água com cheirinho de colónia de bébé no reservatório e girei a roda para me dar o máximo de vapor - gosto de ouvir o barulho dos urros do vapor.
Um a um, fui emagrecendo a pilha de tecido amarrotado; e quando tenho que passar os "smokes" delicados dos vestidos caros da Carolina, ou vincar as pregas dos machos de alguns vestidos da burguesinha de olhos azuis, ponho a língua de fora, denunciando que estou com um trabalho meticuloso em mãos.
Seria eu feliz a passar a ferro doze horas por dia, como a namorada ou sei lá o que é que é aquela gaja que arruina a conta bancária do meu tio?
Para aí ao sétimo vestido, lembro-me de estar no escritório do avó Oliveira e de embrulhar compulsivamente tudo o que estava à mão com papel kraft (hoje em dia chama-se kraft, é ecológico e está na moda, na altura, há vinte e picos anos atrás não sei o que lhe chamavam, só sei que era papel de terceira categoria, que servia para acondicionar frutas e legumes - lá em casa pelo menos).
O avó Oliveira ralhou-me (olha que giro, o avô Ralha nunca me ralhou; que pena...) por eu ter embrulhado a lista telefónica (adorava ligar para o número de telefone das horas: pi, pi - ao segundo sinal serão xxx horas yyy minutos e www segundos), mas eu disse, em minha defesa, que estava a praticar, porque quando fosse grande queria ser embrulhadora de presentes de Natal. E ele, velhinho, com oitenta e muitos anos, suspirou e usou um dos verbos que eu mais gosto - "Ai Diana que me arrelias".
Poderia eu ser feliz a fazer embrulhos numa loja?
Pouco tempo mais tarde, seduziu-me a ideia de ser costureira. Passava os dias com tecidos, linhas, uma máquina de costura em miniatura que o meu avô Ralha tinha mandado vir do catálogo francês da La Redoute e os moldes que fazia em papel vegetal para as toilletes das minhas várias dezenas de Barbies e similares. Nos meus anos, a minha avó adoptiva, a Dona Ilda, vizinha do quinto esquerdo deu-me uma mala completa de costura; foi seguramente das prendas que mais marcaram a minha infância: anos e anos de diversão em que não chateei ninguém, em que não parti pernas a jogar a apanhada, apenas costurei. Riscava o molde, cortava, chuleava e cozia. Já na altura era viciada em compras e roupa e queimei vários anos de mesada em modelos de alta costura da Barbie (há um belíssimo que hei-de encontrar; custou-me quatro contos há coisa de 18 anos; uma saia pelissada dourada e um casaco Channel em acobreado). Mas gostava também de fazer as minhas roupas (a salientar, das minhas obras mais bem conseguidas, um top em tricot, feito com lã mohair branca).
Então, poderia eu ser feliz a fazer bainhas de calças de gosto duvidoso, com mau corte e tecidos mixurucas, durante 12 horas por dia?
Quando já era crescidinha e namorava com o "tontinho" (estive quase quatro anos da minha adolescência ao lado de um ser humano a quem chamava de "tontinho"; ele era bom rapaz, até deixava que o meu pai o beijasse - o Zé Ralha gosta de beijar os meus namorados; o Pedro sempre se conseguiu esquivar, mas lembro-me de uma situação embaraçosa em que o Zé Ralha foi insistindo à beira da piscina naquele cumprimento muito caloroso e meio abichanado que sempre limitou ao mínimo as minhas visitas lá para os lados dos Capuchos), servia copos a homens de aspecto decente, alguns com polos da Burberrys e porta-chaves com o emblema da Mercedes e da BMW, que atravessavam a ponte 25 de Abril para ver travestis de quinta categoria a fazer playbacks miseráveis, num bar de aspecto duvidoso que, outrora, tinha sido do Joel Branco. Servia copos e memorizava como os homens de aspecto decente engatavam os homens vestidos de mulher, com a cara cheia de betume baço e espesso, que apenas realçava a barba rija que prespontava debaixo de tanta maquilhagem. Às vezes, a noite ia longa e o barmen, heterossexual por sinal, com uma âncora de marinheiro tatuada no braço direito, confidenciava-me que as melhores mamadas da sua vida tinham sido feitas por paneleiros.
Podia eu ser feliz a servir copos a homens de aspecto decente?
As reflexões provocadas pelo acto de passar a ferro são sempre intensas e perturbadoras. Eu podia ser feliz como na sexta-feira, ao lusco fusco, com toda a cidade a ver de binóculos aquilo que eu não vos vou contar.

sexta-feira, outubro 14, 2005

E se dúvidas houvesse...

...ficaram todas tiradas há poucochinho (agora, totalmente a despropósito, lembrei-me do meu avô Ralha no elevador da Praça Pasteur a apertar-me as bochechas - a demonstração de afecto mais calorosa, à parte das chapadinhas -, ao mesmo tempo que me chamava Dona Nicas patusca).
Sexta-feira é, definitivamente, o teu dia.

Pastilha elástica

Não posso deixar os leitores à míngua.
O homem do momento, aquele que dentro deste rectangulozito no cú da Europa e do outro lado do oceano atlântico é quase todos os dias procurado sofregamente nos mais importantes motores de busca da Internet - Google, Yahoo e Altavista - é a musa deste mini-post, escrito entre zapping de blogues, reservas de bilhetes de avião, e conversa animadinha com o meu chulo literário.
Ontem foi dia de Vring. Dia anormal de Vring - os dias a ele dedicados são as terças; as quintas são à conta da minha mana Qui Qui; o chulo literário teve um erro de casting e escolheu as quartas, mas, na realidade as sextas é que lhe são dedicadas (os sábados são do casal maravilha M&M, por isso, despachem-se a fazer as vossas reservas, já só tenho as segundas e os domingos vagos)
Tinha um post em draft guardado sobre o senhor holandês, sobre a paz que ele me traz quando estamos juntos. É um feliz caso de uma paixão arrebatadora, assolapada e muito ridícula (da minha parte), que se transformou no mais parecido que eu tenho com uma relação funcional.
Durante o mês passado, três leitores vieram cá parar à pála do Andy (um brasileiro; dois norte-americanos). Há tarados para tudo, e da lista de esquizofrenias que servem de convite a novos leitores deste blog temos: espantar pombos, com a variante de exterminar pombos, ambas vindas do Brasil. Aliás, do Brasil vêem as mais perturbadoras pesquisas em motores de busca de renome. A decorar: "pedras visiculas", "história do nome domingas", "goto lindo da tia", mas o que eu mais gosto, caros, é este: "ganhe dinheiro com vaca de leite no semi-árido". "Carro de surfista" e "maquina rebelar fotografia kodak" são outras pérolas que trazem leitores acidentais a esta (T)ralha
Ontem a minha filha sacou a carta de condução holandesa do Vring e chamou-lhe papá - ainda não estou em mim, foi um dos pontos altos da noite. Depois, fui pagar a conta e fiquei babada a olhá-los aos dois na palhaçada com um pau de canela. Já em minha casa, a preparar um biberon e duas caipirinhas, fechei os olhos para melhor memorizar as gargalhadas que vinham do sofá laranja.
Noite do caralho, que acabou em beleza com pastilha elástica.

PS - Ainda não foi desta que eu contei a história da outra noite, aquela em que tu ias morrendo com os pelos das gatas.

quarta-feira, outubro 12, 2005

Manuel Ricardo

O Manuel Ricardo é arquitecto.
Eu não falo com o Manuel Ricardo há dez anos.
O Manuel Ricardo - era sempre assim que eu o tratava, pelos dois nomes; em casa, a mãe enfermeira e o pai que lhe punha os cornos com a secretária (não me lembro já o que ele fazia), tratavam-no por Ricardo; a pandilha do Centro Roma chamava-lhe Manel - está casado com uma tipa baixinha de anca larga, com a cara marcada por um acne severo, uma nova rica que, há dez anos, conduzia um jipinho caixa de fósforos -Vitara, era isso, Vitara a gasolina, gastava 20 litros de gasolina aos cem -, têm uma filha linda, o Manuel Ricardo e a nova rica, da idade da minha.
A alcunha do Manuel Ricardo era o "conquilha". Porque ficávamos horas na praia, à beira mar, a desenterrar as conchinhas que horas mais tarde se transformavam num pitéu dos deuses algures numa praceta do bairro de Alvalade.
O Manuel Ricardo conduzia uma acelera, era Suzuki, como o jipe da nova rica, era Suzuki Adress. Ia-me buscar todos os dias ao Rainha de mota. Passavámos os dias juntos. Eu e o Manuel Ricardo conhecemo-nos numa festa do caloiro no ISCTE, eu tinha 16 anos, ele 19, acabado de entrar para arquitectura na Lusíada, não me esqueço que uma das meninas que estava sentada ao nosso lado, com o rosto pintado pelos padrinhos, e uma Super Bock na mão, tinha entrado para o curso de cardio-pneumologia. Eu reencontrei o Manuel Ricardo numa noite em que ia para os ensaios da minha banda, no grupo Recreativo Ramiro José, no Bairro de São Miguel, onde um cenourinha chamado Miguel me dava boleias para casa de XT 600.
O Manuel Ricardo era acólito, mas tinha dilemas existenciais porque servia na Igreja de manhã e à noite fumava ganzas. O Manuel Ricardo foi o amor mais bonito que eu tive. Eu namorava com o melhor amigo do Manuel Ricardo.
Tinha um Renault 5, PC-69-35, vestia sempre calças e blusão de ganga da Levis e umas botas da Vision. No Inverno, tinha um casaco de penas azul escuro.
O Miguel preto - era mesmo preto, enorme, um soba, era também um grande mentiroso, dizia que era polícia, mas era tudo treta - tinha um Panda encarnado e funcionava como guardião do nosso amor, proporcionava-nos momentos a sós, lembro-me de uma noite de Verão a vermos desenhos nas nuvens e confessarmos o quanto gostávamos um do outro, algures ao pé do rio, o Miguel levou-nos até lá e depois desapareceu, foi comprar pastéis de Belém e não regressou até a madrugada já ir alta.
Nunca fizemos nada. Eu perdi o Manuel Ricardo na Figueira da Foz, detesto essa terra, nunca mais lá ponho os pés. Perdi-o para a nova rica, cuja sala de estar tinha móveis em acrílico com dourados e colunas coríntias de gesso.
No Natal passado fiz uma reportagem sobre uns assaltos na João XXI - a reportagem foi motivada pelo assalto à casa do editor adjunto da secção de Fotografia - e fiquei estática com uma bébé linda na montra de uma loja pindérica da mãe da Sónia - é o nome da estrupícia que me levou o meu amor platónico mais bonito.
Estava do outro lado da rua, ao pé do Londres, e soube, mesmo sem óculos, que ela era a filha do Manuel Ricardo. Apressei-me em atravessar a rua, em transgressão, cega, fiquei a mirá-la da montra, a fingir que via as roupas novas ricas da montra. A cara chapada do pai.
Virei-me para a esquerda e ele estava estático a ver a minha figura de tonta com o nariz colado à montra. Ficámos parados no tempo, a memorizar os riscos de uma década nos nossos rostos, mudos, eu com o coração na boca. Até que a nova rica apareceu e eu, quase a desmaiar, saí do transe e disse: "Até daqui a dez anos, Manuel Ricardo".
Passados dez anos ainda sonho com o Manuel Ricardo Simões.
Hoje, uma noite dura, sonhei com ele.

Eu não mereço 229 visitas num dia

Obrigada.

terça-feira, outubro 11, 2005

Se eu cair ao mar quem me salvará?

Agora fumo SG Ventil.
Voltei aos meus 15 anos, estou nas escadas do anexo do Rainha D. Leonor, perto dos balneários das raparigas, do Ginásio grande e da sala de música onde fui feliz há um ano, quando me ensinaram a ler música, quando a começei a sonhar com cinco linhas e quatro espaços. Estou lá sentada, sempre com a Ana, encontrei uma pessoa que canta bem como eu e que não tem vergonha de saber cantar passamos os intervalos, os furos, a fumar SG Ventil e a cantar à capela naquelas escadas.
Eu ensino-lhe músicas tristes que a minha mãe me canta desde que eu nasci - o Leonardo fica roxo quando vamos a cantar pelo meio da rua, afasta-se de nós, como se não conhecesse a loira e a morena pequenina que cantam despudoradamente melodias que já as nossas avós cantavam nas minas, sentadas em frente à roca a fiar -, ensino-lhe os discos todos dos Madredeus - só havia três: Os Dias da Madredeus, Existir e o Lisboa, poucos meses depois saiu o Espírito da Paz; fui cantar para a estação de Alvalade para conseguir os três contos, subi à Valentim de Carvalho do Centro Comercial poucas horas depois, com o dinheiro, com uma pilha de moedas nas mãos - e ela, em troca, põe-me a cantar Janis Joplin.
A Ana tem a voz rouca, a minha é limpa, cristalina, eu gosto de Jazz, da Billie e da Ella, mas adoro os Madredeus, tenho 14 anos, fumo Ventil, e a minha música favorita é a Sombra - "Se eu cair ao mar quem me salvará?/ Que eu não tenho amigos, Quem é que será? -, ela não a consegue cantar, não chega lá, mas fazemos arranjos musicais naquelas escadas que arrepiam, ela vários tons abaixo do meu e numa tarde qualquer, pouquíssimo tempo depois de nos conhecermos, estamos ainda no primeiro trimestre, a Rita Almeida, a melhor aluna da turma desde sempre até eu ter aparecido para lhe estragar o reinado, já desistiu de nos acompanhar naquelas incursões, roubei-lhe a amiga, e a Ana diz-me: "Eu salvo-te se tu caíres ao mar".

segunda-feira, outubro 10, 2005

A tua rua também tem uma louca

A tua rua também tem uma louca - no quarto andar esquerdo, se não me falha a miserável percepção espacial com que nasci.
Estou sentada no Idea, não sei há quantos segundos, muitos seguradamente, não consigo sair daqui, carro em segunda fila, embicado, rabo para fora, às vezes os autocarros passam de razia e eu fico impávida e serena a ver as tangentes pelo retrovisor, não tenho cigarros, tenho duas folhas, um lápis, uma Grande Reportagem , e um gloss com sabor a morango, que multiplica o volume dos meus lábios já de si carnudos, estou congelada, tremem-me as pernas, o Nyman toca em volume 45 (sempre ímpar, o volume), as janelas do carro estão fechadas, mas, mesmo assim, comecei a ouvi-la.
Tem uma manta com riscas coloridas à janela - lista preta, azul céu, azul escuro, verde fluorescente, verde escuro, depois vêem os laranjas, os encarnados e os rosados, mas é um quarto andar, eu estou sem óculos e não consigo diferenciar as cores.
- Quem me dera que o meu filho deixasse de fumar. Mas assim não, assim não dá -, grita ela pela janela quase rouca. Às vezes debruça-se para a frente, para atirar palavras como quem atira escarretas (tão gira esta palavra), fico a pensar se terá coragem para se atirar (os vizinhos agradeceriam, de certeza. Faz uma barulheira infernal a senhora, possessa).
Ela grita "não, assim não pode ser" e eu acho que tem toda a razão e tenho pena de estar apática e não ter coragem de fazer um disparate semelhante à tua porta, depois de te teres ido embora com a belíssima asneira: "Azar do caralho".
Mas ainda não é o meu timing. Não é a minha vez. Estou em fila de espera para passar a fronteira. Desta vez foi ela, 50 e poucos anos, cabelo negro apanhado num tornuxo com uma rede, calças de ganga e tee-shirt pistáchio à janela junto à manta listada.
O Carmona ganhou, voltei a ser respeitada no pasquim que me emprateleirou há dois anos e picos por ter tido uma filha, a louca parece que sossegou, finalmente, o meu coração ainda bate a mil, vou ficar quietinha mais uns segundos, tantos quanto a faixa quinze deste CD, e aí vou conseguir rodar a chave na ignição e rumar para a redacção.

Não esperem grandes prosas neste blog. Perdi o leitor. O mais importante.

Post escrito a lápis, algures na cidade, numa rua que nem é assim tão feiosa, no verso de uma fotocópia de uma entrevista ao Sá Fernandes.

Estava a escrever isto quando tu apareceste à janela do carro, quase me mataste de susto, deste-me um cigarro e foste embora. A louca voltou à janela: "Isto não é do Carmona Rodrigues, é meu!", grita a senhora. É a minha deixa. Vou sair daqui.

Amanhã logo se vê.

domingo, outubro 09, 2005

Reflexão

Bom, eis-nos no Dia C - Carmona ou Carrilho.
O JPH vai perder a aposta, quem vai ganhar é o meu (salvo seja) candidato, o que eu cobri (salvo seja outra vez).
Estou de toalha enrolada no cabelo, acabei de sair do banho, tenho que ir votar e depois por-me a caminho da redacção, mas decidi ligar o Toshiba para para vos deixar esta nota de reflexão que surgiu ontem ao almoço com os meus queridos amigos M&M, entre umas pratadas de secretos de porco preto e uma sangria de champagne (somos tão burgueses...)
Cá vai: deve o/a amante ser fiel? Fico à espera de sugestões na caixa dos comments, ou mesmo no mail aqui da (T)ralha (recebi uma cartinha de um admirador e mais nada; leitores desnaturados... Façam ginástica aos dedos, vá, isto não é só dormir com a patroa...)

sexta-feira, outubro 07, 2005

Recortes da vida de uma fada do lar

Hoje o chefe proibiu-me de pôr um pé na redacção. Que estou com um ar muito cansado, e mais não sei o quê, e eu disse-lhe: "Chefinho, quem corre por gosto não cansa. Só preciso de ter um tempinho para ir tirar o bigode, que está uma vergonha, e mais nada". Pus a secção dos paginadores toda a rir, eles conhecem-me há mais de oito anos, sabem que já não há nada a fazer, que eu sou mesmo assim de nascença, não há arranjo possível, se mexe só estraga ainda mais.
Mas não o convenci. Estou em casa. Deliberadamente, não disse à minha mãe que estou de folga, para poder estar aqui na Martinha, a blogar à vontade, a namorar à janela, sem ter que me preocupar com a criança (é para isso que as avós servem).
Mas dia em casa não é só netcabo wireless. Há que dar uma de fada do lar (o meu sonho é ser foda do lar), arrumar aquilo que a Carolina desarrumou, aspirar o cotão, lavar a loiça que está há mais de uma semana estática no lava-loiças. Mas digam-me, meus amigos, como é que se põe uma capa de edredon king size sozinha?
Suei, suei e desisti. Quando vier cá alguém a casa cravo uma mãozinha.

Na espuma da noite

Ontem à noite escrevi uma "posta", uma "posta" branquinha, gorducha, daquelas do lombo, quase sem espinhas, das que as mães cedem sem hesitar às suas crias (eu nunca vou ser uma mãe assim, lamento, Carolina, não vou comer cabeças de peixe e os peitos do frango vão ser sempre para mim, mas tu sabias disso quando me escolheste, sabias perfeitamente, estudaste todos os meus movimentos, sabes que eu choro num dia e rio no outro, que me sinto grande, poderosa em dois dias da semana, e o pior dos estafermos nos restantes cinco; sabias ao que vinhas, agradeço-te a coragem, gosto tanto de ter uma filha loira, de olhos azuis, um anjinho barroco, que tem um feitiozinho de merda aos 21 meses de idade; gosto da forma como me testas, até consigo achar graça ao facto de teres arrancado um olho a um gato da Magui, e quanto ao problema das cabeças do peixe - e nós não havemos de comer tantas vezes peixe, não me estou a ver a fazer peixe cozido, por exemplo - compramos aquelas embalagens da Pescanova, caras como o caralho, que trazem só lombinhos sem espinhas), mas o Blogger não tinha jantado, os senhores da Google deixaram a fera assim à solta, com fome, e o meu post foi devorado no momento em que carreguei no botãozinho laranja do dashboard que, neste meu Firefox brasileiro (argh), diz: "publicar postagem".
Não gosto de deixar este quintal abandonado por 24 horas; eu sei, porque sou uma boa jardineira (tenho mão verde), que basta um dia de descuido para estragar toda a horticultura. Por isso, a todos os que cá puseram os pés de manhã (estou a lembrar-me do Ford Motors, do Manual e, calro, do senhor meu chulo literário), mandem cartas de reclamação ao Blogger. Eu estava cansada, não me apetecia nada ouvir o debate a cinco do canal um, mas a Prudência (chata da velha está sempre cá em casa a moer-me o juízo) quase me obrigou a ficar com a televisão ligada a ronronar (eu quase nunca ligo a merda da TV; prefiro ler e escrever do que me estupidificar em frente ao rectângulo mágico; e, além disso, irrita-me o raio da caixa, é anti-decoração, fica sempre mal onde quer que eu a enfie, e estou a pensar pintar a minha Sanyo bordeaux de verde fluorescente; se se foder no processo de "maquilhagem" é da maneira que se acaba a televisão aqui na Martinha e deixo de pagar 20 euros à TV Cabo), e lá no fundo, não sei quê do túnel do Marquês, e tirar 200 mil carros da cidade, eu entretida a contar as novidades à minha mana pequenina homónima, minha fotógrafa oficial, e a escrever um post delicioso sobre o meu dia de ontem.
Há males que vêem por bem?, pergunta o meu amigo Kaos no seu comment anterior (está bonzinho, senhor arquitecto? Já não comentava há muito tempo, seja bem aparecido). Talvez. Talvez o blogger tenha sido amigo em devorar a "posta" da noite passada.
Mas foi um grande dia. Perdeu-se o registo, na espuma da noite, na espuma da net. O blogger ficou satisfeito, era um post cheio de pimenta e piripiri, mas digeriu-se muito bem.

quarta-feira, outubro 05, 2005

Implantação

Os 95 anos da República lá se passaram, uma seca, sala bonita dos Paços do Concelho, cadeiras de plástico pintadas de dourado com assentos de veludo carmim, querubins rechonchudos esculpidos em pedestais e outros anjinhos mais ao estilo arcanjo pintados no tecto do salão Nobre da câmara de Lisboa.
O Carrilho e mais os seus tiques nervosos, o Sá Fernandes com um fato tipo poliester que não lhe assenta nada bem (nem falo dos sapatos, do seu andar à Charlot e dos óculos fundo de garrafa com as lentes riscadas), o Carmona nasalado a proferir um discurso sem graça, e o Ruben, enfim, o mais bem parecido (faça-se justiça, nem parece comuna), zangadíssimo com o pasquim onde vomito caracteres - e não consegui ver se o Sócrates deitou a língua de fora ou não, ao içar a bandeira republicana na varanda da câmara, figura que fez na implosão das torres da Torralta.
Mamas mais uma vez à mostra (é um privilégio ter dias destes em Outubro, a mamita quer aproveitar os últimos raios de sol), olheiras imensas de uma madrugada insólita que durou quase até às cinco da matina, réstias de sorrisos na minha cara redonda - é que hoje fiz um amigo e coisa mais preciosa no mundo não há.

[Bloqueaste-me? Eu apaguei-te]

terça-feira, outubro 04, 2005

Bloqueada

O chulinho amuou e bloqueou-me no messenger. Mas a tarde acabou por ser muito animada no reino das janelas mágicas.

Salto alto

Oitavo dia de campanha já cá canta e, mais uma vez, fui demasiado bem vestida para uma visita às entranhas do túnel do Marquês de Pombal (e, novamente, estive com as mamas literalmente de fora, num vestido de inspiração grega) .
Tenho andado a semana toda sem saltos altos, ando fodida com isso, as chinelinhas são bonitas, encarnadas, motivos árabes, mas 1,63 não é altura que se apresente, sinto-me um taco de pia. Todos os dias suspiro no quarto de vestir a olhar para belíssima amostra do que de melhor se faz na indústria de calçado, conforto os meus ex-libris explicando-lhes que já está quase a acabar, que para a semana vamos poder voltar a fazer um vistão nas ruas de Lisboa, digo aos meus acabadinhos de comprar sapatinhos anos 50, de tirinhas rosa carne, rosa chá e brancas, que vamos arrasar já no Domingo - já decidi que vou para a sede de campanha ouvir o discurso de vitória ou de derrota do Carmona com eles calçados, no pézinho de Cinderela tamanho 40 -, enfim, vingo-me nos decotes porque não posso usar os meus sapatos lindos.
O post anterior deu logo merda pela manhã, com direito a e-mail às nove e picos da matina. Quando se é objecto de idolatria literária, chulinho, é para o bem e para o mal, estava implícito no contrato (eu só não posso divulgar quem tu és - desculpa manual), estou apenas a adorar-te pelo avesso, como na canção que a Elis canta tão bem - "dei para maldizer o nosso lar/ para xingar teu nome, te humilhar/ e me vingar a qualquer preço/ te adorando pelo avesso/ só para mostrar que ainda sou tua/ até provar que ainda sou tua" -, e não vou retirar o post, por mais embriagado e sem nexo que ele pareça a todos vós, por mais que ele te tenha chateado.

segunda-feira, outubro 03, 2005

Mentira

"Mentiroso!", apeteceu-me dizer logo pela manhã, mas era em vão, um consumo de energia escusado, não ouvias de qualquer forma, estás fora do meu alcance vocal - quando eu era mesmo muito pequena, perdia horas a olhar para a mira técnica da RTP 1 e ficava naquilo, horas a fio, à espera de uma qualquer locutora de continuidade ou de um interlúdio musical, na sala dos avós - um quinto esquerdo de um prédio da Estados Unidos da América, com sofás alaranjados de napa, que eram frios no Inverno e quentes no Verão -, e recordo com muita nitidez que a minha ambição para quando para quando fosse crescida, algures depois do ano 2000, era ser tenista (?) e queria também entrar no Guinness com o grito mais alto da história da humanidade.
Cinco anos, desdentada, uma caganita, uma amostrinha de gente e uma formiguita já cheia de catarro, a revelar um feitiozinho de merda. Gritar mais alto? Onde é que eu fui desencantar esta? Tenho bons pulmões, sei gritar bem alto, melhor: sei gritar sussurando, mas os meus dotes vocais contigo não servem para nada nada: o nosso negócio é exclusivamente literário (no outro dia, o JPH, mestre blogueiro, perguntava quem era o "chulo literário" e eu resumi secamente a questão: "é um gajo que só gosta de mim pelo que eu escrevo"; na altura pareceu-me injusto, agora acho que o meu poder de síntese esteve no seu melhor).

Mentiroso! Escrevo, então, se não me consegues ouvir daí.
Descubro hoje, por acaso, que deves ter aberto actividade nas Finanças como chulo literário há já algum tempo, que não sou a única a ter-te como objecto de idolatria literária, que escrevemos parecido e tudo, que gastamos folhas amareladas dos mesmos cadernos caríssimos de capa dura preta e elásticozinho a prender o material literário que nos inspiras e os nossos cês cedilhados foram separados à nascença. Se passas recibos, eu quero os meus, sabes a morada, conheces, inclusive, as caixas de correio, já lá estiveste encostado numa sexta-feira feliz, manda os recibos, pode ser que dê para descontar no IRS.
Não sei que raiva é esta, não me parecem ciúmes, estou imune. Dói-me as entranhas, dói-me mesmo muito, falta-me o ar, e se calhar foi mesmo por amor que tu me largaste, para eu não ser mais uma puta literária à espera da sua dose para escrever mais uns posts em blogues que começam a ter audiências assustadoras (221 pageloads hoje; parece que quanto mais negro e sombrio este terreno fica, mais olhos por aqui se fixam, e não há nada como um post de gaja, desesperado, daqueles que, certamente, muito boa gente - incluindo tu próprio - leu mais do que duas vezes, para eu ver que não estou assim tão sozinha: o primeiro foi o Vring, sempre em inglês - I will be 31 in two weeks from now [I know] and i'm alone and broken..... but what da fck [if I ever get a nervous meltdown like last nights, can I call you, Andy?] you can call me, sure don´t even ask], e tu próprio a dizeeres coisas parecidas, em português, e eu a querer gritar "mentiroso!".
E à tarde, no Atrium Saldanha, depois de o Carmona pedir maioria absoluta em Lisboa, café ao som do Schubert, uma pianista bonita a tocar sublimemente bem, eu sentadinha no banco de mármore frio a vê-la passar as folhas dos cadernos cheios de pautas e colcheias. Fiquei lá mais tempo do que podia, derramei mais uns decilitros de água salgada com a sensação desagradável de ter o cú enregelado, e um tipo sinistro ao meu lado, muito míope, a ler um livro chamado: "você sabe que precisa de óculos quando..." e a pensar, ao som do piano de cauda:"ele ainda está online, põe-te a andar ainda o apanhas online", mas isso não me preocupa mais.
Provavelmente, amanhã a primeira coisa que faço é ligar na mesma o computador, aceder ao statcounter e verificar se já vieste cá ler a produção de mais uma madrugada, mas já não me preocupa mais. Hoje, porque tenho um dedo que adivinha, gravei a nossa conversa como "fim".
Não é ciúme não. Estou a sentir-me vulgar.

domingo, outubro 02, 2005

Talvez

Talvez eu não devesse dizer tantas vezes caralho. Talvez fosse melhor não mostrar as mamas com decotes de vestidos caros, não depilar os pelitos invisíveis dos dedos das mãos e não usar o corrector de olheiras da Clinique todas as manhãs. Talvez não fosse mau ter apenas três pares de sapatos no quarto de vestir (vai na volta, até seria melhor não ter quarto de vestir) e talvez um palmo de cabelo a menos não me ficasse nada mal. Talvez fosse mais sensato não dizer tudo o que penso e pensar duas vezes no que digo. Talvez fosse preferível não ser tão inteligente e se calhar não devia escrever tão bem (a Prudência está a sussurrar ao ouvido que talvez fosse sensato não ter este blog). Talvez fosse mais acertado não dar sempre mais do que posso a quem não merece sequer um pestanejar das minhas enormes pestanas (talvez não fosse mal pensado não usar um rímel lash xxl também) e, se calhar, talvez me devesse preocupar com o essencial e ignorar os pequenos pormenores que mais ninguém vê. Talvez fosse melhor não tratar as senhoras da Retalis pelo seu nome próprio, limitar-me a pedir um crédito pelo telefone, maquinalmente, como uma gravação automática.
Talvez, assim, tudo fosse diferente.

(Talvez, se não estivesses há quase 1200 dias fora do alcançe de um telefonema de emergência, eu não fizesse um dramalhão tão grande pelo facto de a minha mãe me dizer ao jantar que estou à porta dos 30)

Hoje estás literalmente de mamas de fora

Foi a frase do dia, saiu da boca de muita gente, mesmo muita, gajos e gajas.
A indumentária para este dia de campanha era a mesma do dia memorável no Zoo, aqui captada pela minha fotógrafa oficial, Diana Quintela.

zoo2

Frase do dia

Ah, quase me esquecia, hoje foi um dia recheado de frases para o meu cantinho das autárquicas.
Em ex-aequo temos:

"Agora só canto o fado para espantar os pombos" - António Carmona Rodrigues
"POrtugal não tem alvará para ser um país" - motorista do taxi 3 da Retalis

Faz-me um blog

[Sim, JPH, sossega, foi auto-censura, não és um ditador fascista.]

O JPH, camarada de secretária, de secção, e o grande ostensivo das cigarradas no edifício verde onde criaturas com doenças crónicas ficam com o nariz a sangrar (ai, cala-te, censura-te, aguenta-te; estavas a ir tão bem...), andou a ajudar-me na redecoração deste blog.
Perdi o geek de serviço há algum tempo, não volta mais, não vale a pena ter esperanças, e, como ainda não há nenhum "Querido mudei o blog", fiquei à espera que o html do template se alterasse por obra e graça do divino espírito santo.
Gosto deste template. Apesar de adorar a cor laranja (sofá laranja, casa de banho laranja, parede laranja e, agora, até sigo o candidato laranja), e de o Vring dizer que este se lê mal (estás vivo, holandês voador?), não consigo alterar o template da (T)ralha para um daqueles que o Blogger tem à disposição do freguês, muito alegres e luminosos.
Este blog não é alegre nem luminoso. Aqui expurgo os meus fantasmas, lavo a alma à mão com sabão azul-e-branco. E este post, aparentemente inofensivo e de conteúdo light, está a ser esrito por uma alma perturbada por um sms de um chulo literário e pela ideia de o Alfredo já ter sido transformado em sabão num qualquer canil municipal e, por isso, antes de me sentar no sofá laranja, com as pernas cruzadas, para começar a dedilhar este post no teclado que ganha vida própria do meu Compaq velhote, fui passar a ferro. Já sabem que me traz alguma paz, os vincos desvincados dos enormes lençóis bordados pela minha mãe, em vários colégios de freiras do Norte do país de onde ela foi sendo expulsa por comportamentos desajustados. Mas não tinha nenhum no cesto de verga da roupa, tentei almofadas e tee-shirts da minha filha e não é a mesma coisa, não me trazem a mesma clarividência.
O JPH é o responsável pelos linquezitos aí do lado direito e pela introdução de uma caixa de correio deste quintal (sugestões, fotos porno, idiotisses, ameaças de morte - está disponível para tudo, 24 horas por dia, 365 ou 366 dias por ano; vá, tarados da blogosfera, dêem o vosso melhor: são mais de 2,5 gigas à vossa disposição, gentilmente cedidos pela Google). E este hepdesk veio de onde eu menos esperava (é tão bom quando as coisas acontecem assim, sem aviso), é um feito notável, vindo de um senhor que é do mais info-excluído que há, que chama Godzila ao meu Firefox, que teima em classificar o supra-sumo dos browsers open source como "pirata" e "amador". Mas ele anda a ficar meio geek e isso nota-se nos sucessivos liftings que o Gloria Fácil tem sofrido (o JPH também não me deixa linkar o Glória; diz que se o fizer vem cá parar todo o bicho careta; mais uma vez, está a proteger a sua coleguinha de secretária e isto é quase paternal e comove-me). Qual cirurgião estético da Corporacion Dermoestética, todos os dias há uma novidade neste blog de referência nacional. E ele vai fazendo aquilo por tentativa e erro e tem-se dado bem.
Não vou mudar de layout, porém. Este tem tudo a ver comigo, eu sou "morceguita", gosto muito do preto, mas há uns tempos encomendei um logótipo para a (T)ralha e vou cobrá-lo rapidamente, para juntar mais uma graça aqui ao quintal.
Queria também por música, Loja de Porcelanas, dos Clã, a música que eu estava a ouvir no dia em que este blog nasceu, a música, com letra de Carlos Tê, que baptizou este quintal, mas o JPH, mestre blogueiro, assim como me sugeriu a auto-censura do post anterior e me aconselhou a não linkar o Glória Fácil, cortou-me as vazas também nesta matéria e lembrou-me da vocação deste cantinho: "O teu blog é para ler".

Estou ainda a pensar fazer um outro quintal, anónimo, sobre sexo (é o que está a dar; que o diga o manual de deus, que quando escrevia sobre o senhor lá de cima ninguém comentava e agora que aborda a temática sexual é um fartar vilanagem), mas o nome que eu queria (acanzana.blogspot.com) já está ocupado. (Se era para ser anónimo, não devia ter escrito aqui. Bolas... )
Já é tarde e amanhã, Domingo, não é dia do Senhor: é dia de Carmona!

quinta-feira, setembro 29, 2005

E depois de escrever duas dezenas de milhar de caracteres ainda tive que levar com o choradinho desta tipa

O post foi censurado, porque o JPH e a ASL acham que eu ainda me fodo à brava com ele.

Alfredo. Fim.

O Alfredo já não mora no Largo de Andaluz.
De manhã, o senhor da tasca, que sabe o meu nome, que me trata por tu, e tem umas madeixas loiras na franja, disse-me que o polícia barrigudo chamou a câmara e o Alfredo está algures no canil municipal à espera de ser transformado em sabão.
"Assassino!", gritei eu bem alto, soltando perdigotos para a cara do agente ridículo de bigodinho, que patrulha a rua por causa das obras da EPAL. "Como é que consegue dormir à noite? Não lhe pesa sequer um bocadinho a consciência? Não tem vergonha nessa cara?", continuei eu com um ataque de raiva daqueles que não sentia há muito tempo, de punhos cerrados, olhos a faíscarem. E foi essa mesma, a sua explicação: "O cão ladrava muito; estava raivoso de certeza". E eu aos berros, parecia a doida que diz que a branca foi a melhor coisa que lhe aconteceu na vida, e que na noite passada, qual candidata à junta de freguesia, cumpriu a promessa que havia feito de manhã, que iria voltar a haver água no Chafariz do largo de Andaluz, e eu não sei como ela fez, mas ele está cheio de água, e o homem da tasca a agarrar-me pelo braço, e eu com uma vontade enorme de bater no polícia gordo de cabelo grisalho ensebado, ao mesmo tempo que no meu cérebro martela "Porque é que ele não quis subir para minha casa? Porque é que se armou em vadio?", disparo: "Não há raiva em Lisboa, ò besta quadrada, foi erradicada há muito tempo". E o ridículo, perdão, o agente da autoridade, diz que me leva para a esquadra, que me prende, e eu continuo a dizer disparates, com o peito para a frente bem cheio, como quem diz: vá, prende-me lá, se és homem. E ele claro que não é. Tem medo de cães e de mulheres à beira de um ataque de nervos. Tranquei-me no Idea e chorei copiosamente, lágrimas que não corromperam o rímel à prova de água, chorei desalmadamente com o nariz a tocar no símbolo da Fiat do volante. Não sei quanto tempo lá estive, o suficiente para chegar atrasada à arruada do Carmona.

quarta-feira, setembro 28, 2005

Subject close to my heart

Tenho pouquíssimo tempo para escrever este post - qualquer coisa como um quarto de hora. Não dá para nada, um post de jeito, um daqueles que se lêem pelo menos duas vezes, demora sempre mais do que uma hora a ser parido, com a ajuda de uns ferros e de umas ventosas.
Gostava de falar do tempo. Da falta dele, aliás.
Voltei a ter dores no estômago e insónias. A roupa está um pouco mais larga, por não ter sequer cinco minutos para emborcar uma merda qualquer hiper-calórica, e essa é a única coisa boa da campanha eleitoral, que não me deixa respirar e que me enegrece os centímetros quadrados de pele que tenho por debaixo dos olhos.
É um óptimo tónico, o excesso de trabalho. Penso nas milhares de tretas que tenho que escrever até ao final da semana, pulo de arruada em arruada, de jantar em jantar, e isto sempre com as mesmas caras (calhou-me uma comitiva de jornalistas sensaborona, sem salero nenhum) - fico num transe hipnótico semi-maquinal: trabalho-casa; casa-trabalho.
Mesmo assim, com a falta de tempo e com duas micro-cassetes para desgravar, lá arquitectei um plano maquievélico para enfrentar um dos meus demónios. Gosto de me testar, de testar os outros, sou muito competitiva, tenho a mania que sou a melhor, mas, em cinco minutos, apercebi-me que ainda não estou curada.
Devia sabê-lo. Na semana passada sonhei com um livro que li há uns bons quatro anos, do australiano Peter Carey, e sonhar em inglês, com um booker prize muito sugestivo de um par amorosos viciados (um obsessivo e outro compulsivo) é sinal de que a cura ainda vai muito longe: "Shall I tell you my idea? (...) It envolves glass - a subject close my heart", começava assim o meu sonho e acabava com esta frase: "It was then she knew he loved her".
Acordei e fui à prateleira buscar o calhamaço de 500 e tal páginas. Demorei uma horita e meia a descobrir o trecho do sonho - um capítulo essencial para toda a trama; é ali que nasce a ideia louca de construir uma catedral em vidro e transportá-la até ao fim do mundo. Li-o e desejei saber escrever como o raio do australiano que tem cara de tarado-geek. A páginas tantas, o narrador diz que não damos a devida atenção aos assuntos que estão perto demais do coração, que não os tratamos como deve de ser.
E eu continuo a pensar no outro senhor mais de três dezenas de vezes por dia; é a primeira imagem quando acordo de manhã, é a última que vejo nitidamente antes de carimbar a entrada no vale dos lençóis (os lençóis desta semana são deliciosos para dormir - algodão egípcio, cor beringela, dão muito bom dormir). E cinco minutos depois de bebericar um café fortíssimo perto da hora do almoço, sei que estou novamente agarrada, e com a sensação estranha, provavelmente injusta e descabida de que devia ser melhor tratada se estou assim tão perto.

Demorou 45 minutos a escrever. Estou ultra-atrasada. Mas quem me tira este blog tira-me uma das poucas alegrias.

terça-feira, setembro 27, 2005

A branca é a melhor coisa que me aconteceu na vida

Eu não sei virar costas e deixar os loucos a falarem sozinhos.
A louca da minha rua quer conversa a toda a hora. Os comerciantes de Santa Marta proibiram-na expressamente de entrar nos seus estabelecimentos e a chinesa deu-lhe um enxerto de porrada por a ter apanhado a roubar shampôs.
Está a ressacar: "A branca é a melhor coisa que me aconteceu na vida", diz-me ela, convicta e com os lábios gretados. Há quatro dias que não se droga, porque não consegue roubar.
O pai é médico, rico, é dono do prédio do Largo de Andaluz. Às vezes prostitui-se, diz-me, enquanto vasculha numa pasta cinzenta fotografias da filha Mariana. Nessa foto a Mariana está ao colo da Mafalda, e a Mafalda tem dez quilos a mais e um grande sorriso aberto na face.
A Mariana é uma criança muito bonita, loirinha. "Às vezes pergunta à avó porque é que uns homens vestidos de preto me levam embora". Ri-se. Diz-me que não larga a droga nem pela filha, que já não há nada a fazer, muda de assunto rapidamente e diz que é cleptomaníaca, que rouba por encomenda - gosta de roubar queijos da serra que revende por cerca de 5 euros.
Está tuberculosa e tem sida. Dou-lhe dois cigarros, despeço-me e digo-lhe que não podemos voltar a falar por causa da minha filha. Ela compreende. Agradece o tabaco e deseja-me um bom dia.

domingo, setembro 25, 2005

Vadio

Alfredo

O Alfredo já está vadio, ganhou-lhe o gosto, pelos passeios e carros disponíveis para mijar a toda a hora do dia e da noite. Esta noite preferiu dormir na rua. Pus-lhe o remédio das pulgas no cachaço, e fiz-lhe a vontade: dorme onde quiseres, cãozito.
Melhor assim, se calhar.
Tenho a dispensa cheia de comida de cão e na carteira trago 4 comprimidos de disparasitante. Se quiseres aparecer sabes onde eu moro. Sabes mesmo. Estavas à porta, como nas noites passadas.
Até lá, és o cão do Largo de Andaluz. Todos gostam de ti. É impossível não gostar de ti.

Alfredo

O Alfedro é o cachorro que está a morrer de tristeza.
Peculiar, esta rua onde eu moro, onde um cachorro se recusa a comer em protesto por ter sido abandonado e uma mulher chupadinha, a meio dos seus trinta anos, dentadura perfeita e branca, de nome Mafalda, veste apenas roupão de turco azul cueca entreaberto, sem mais nada por baixo e explica-me, entre lágrimas de um desepero de quem está prestes a carimbar o passaporte com da vassoura dos doidos varridos, --"Sabes, há determinados limites que nós pomos em causa a nossa sanidade mental".
É a única coisa com lógica que me diz, a Carolina está a dormir dentro do Idea, e o Alfredo vem-me cumprimentar, tento convencê-la a ir para casa, que está frio, mas ela quer tabaco, o Alfredo quer festas, e eu andei a fumar pontas de cigarros Português Suave, não tenho nicotina para a confortar e, enquanto a obrigo a fechar o roupão - "Ainda se constipa, Mafalda" -, não por mim, choca-me a magreza da mulher e o corpo cheio de nódoas negras, mas não é por mim, sinto-me até mais seguro por ter uma louca a guardar a rua, mas os vizinhos estão todos à janela a ver o espectáculo da loucura e ela mostra-me os braços, diz-me que não se droga, eu acredito e o Alfredo ao meu lado, preocupado com a Mafalda, irrequieto e eu matuto, enquanto consolo a doida: levo-te ou não para casa, Alfredo?
Andava meia triste (eu ando sempre triste, aliás, não é novidade). De vez em quando acontece algo que me abre o portão do mundo (o portão do mundo é de ferro forjado trabalhado, com pavões e libelinhas arte-nova) e me dá mais do que eu imaginava ser possível numa só vida. Mas são sempre ilusões, são ilusões bonitas, mas são isso mesmo - bolinhas de sabão irisadas que desaparecem quando as vamos a agarrar.
No final dos meus dias, tudo se resume a uma janela de um programa de chat do Bill Gates e as aventuras de um candidato autárquico, com um terrível problema na pele, pelos bairros mais miseráveis e feios da capital (hoje foi a excepção, porém. Passeámos, aquecidos por um sol que estrelou os meus ombros, entre Belém e a Expo, entre pastéis de nata, quentinhos e estaladiços, polvilhados com canela e açúcar).
E, pronto, como há muito tempo que não acontecia nada digno de registo, eis-me a debater o sentido da vida com uma louca semi-nua, ao mesmo tempo que passo a mão no pelo sedoso de um cão ruivinho, com olhos de Bambi, isto muito perto da meia-noite, instantes antes de eu me transformar em abóbora (ou vampira?).

Confortei a louca, trouxe o cão para casa.

No dia em que eu vos contei, pela primeira vez, a triste história do Alfredo, de ele estar lá em baixo a definhar decepção e melancolia, o cãozito estava mais para lá do que para cá, deitado sem reacção no meio da estrada, com moscas-abutres a avisarem que por ali andava a morte.

"Não te deixo morrer à minha porta", pensava eu enquanto fazia um esforço enorme para levantar o alfredo-vegetal e colocá-lo dentro da bagageira do Idea. O vizinho taberneiro ajudou e todos concordámos que o Alfredo é um lindo cão. Todos concordámos, eu, o taberneiro e os três espectadores da esplanada, que ele só se pode chamar Alfredo (pronuncia-se com sotaque mafioso siciliano)

Decidi levar o cão moribundo ao veterinário. Mas ele ressuscitou, apenas por alguém se ter negado a deixá-lo ali no asfalto, ao Deus dará.
O Alfredo acordou de um coma nessa manhã e pela primeira vez aceitou comida, um quilo de carne picada que a Magui comprou e comeu, também, umas bolachas Maria que eu tinha no carro.
O Alfredo já não comia há muito tempo. Estava em greve de fome. Nesse dia, o Alfredo subiu à Martinha (nunca imaginei que no seu estado de debilidade conseguisse escalar os quatro andares a pique) - um vizinho deixou a porta aberta e ele seguiu-me o rasto até cá acima. Esteve pouco mais de cinco minutos e acho que gostou.

Desde então, tem vindo todos os dias cá acima. Devora latas de salsichas, esvazia-me a dispensa e o congelador. Se eu lhe levo a comida lá abaixo, olha-me com tristeza e suspira. Só come lá em cima, na Martinha. Depois deita-se no hall e dorme uma soneca. Custa-me levá-lo de novo para a rua, depois de lhe servir o jantar.
Mas a tal da dona Prudência, que me tem chateado os cornos todas as noites, adverte: Ralha, não tens vida para ter um cão. As gatas não aguentaram e eram duas. Se tivesses passarocos, decerto se afogariam nos bebouros, de tristeza e solidão; os hamsters teriam ataques cardíacos de tanto correrem na roda com o stress; os peixes suicidar-se-iam saltando para fora do aquário - a puta da Prudência diz-me isto ao ouvido e eu fico triste e desconsolada: "Será que ninguém me atura mesmo?"

O Alfredo está a dormir na sala de jantar e é mesmo um cão muito bonito. Esta noite dorme cá. Vamos lá ver como se porta.

(Portou-se muito bem. A Carolina acordou, viu o "ão ão" no mesmo sítio em que o deixei quando escrevi aquelas linhas e deu-lhe muitos beijinhos na foçinheira - carinhos que ele retribuiu com umas lambidelas que a fizeram rir à gargalhada. Combinei com o Alfredo que vou ser, por enquanto, sua dona em "time-sharing", a Martinha aceitou ser o abrigo nocturno de um cão bonito até eu tomar uma decisão definitiva - a Martinha já tinha servido de asilo nocturno, há coisa de dois meses e picos, e diz que nasceu para ser uma instituição particular de segurança social)

sábado, setembro 24, 2005

No comício

E esta é a foto da noite do Comício (sou a musa dos dois fotógrafos oficiais da campanha), à entrada do Coliseu, com a Broadway aos meus pés!

musa do carmona

Comícios e campanhas

Inauguro aqui um espaço exclusivamente dedicado às deliciosas pérolas que oiço por esta Lisboa fora, de fervorosos apoiantes e de munícipes anónimos que não perdem uma oportunidade de dar um passou bem e um beijinho repenicado ao candidato que farejo como cão da GNR até ao dia 9 de Outubro.

A frase não é de hoje, mas é linda, ouvi-a numa arruada em Campolide, durante esta semana que finda:

"Eu sabia que era o professor; eu tenho uma memória muito fotogénica".

O comício acabou por ser um espectáculo, não pelos discursos políticos, mas sim porque eu e a minha Qui Qui estivemos juntas no Coliseu dos Recreios em trabalho (ela a representar um órgão de comunicação social rival do meu pasquim, mas ninguém reparou).
Apanhei o muito falado táxi 854 da Retalis - o táxi-poeta, um velhote que fala em rimas de pé quebrado (a certa altura já não há pachorra para o homem e para as suas lenga-lengas; é uma espécie de rap saloio, o discurso do senhor) e que adora presentear os seus passageiros com catitas adivinhas (também elas em quadra). Não me tentou impingir o seu livro de poesia naïf (tive pena).

Amanhã vamos ao Sporting em campanha. Vai haver, decerto, grande material para a recém criada secção da "frase do dia"

sexta-feira, setembro 23, 2005

Valores mais altos

Está um dia bonito lá fora. Sei disto porque fui à rua, há cinco horas atrás, entregar a filha ao progenitor e beber a bica na tasca cá da rua.
Está sol e eu tenho um plano de ir para a praia, porque trabalho só pela noite a fora. Vai ser o meu primeiro comício e não tenho a rata aos pulos, confesso. Está quentinho, mas eu estou sentada de pernas cruzadas no sofá laranja, com uma mantinha da mesma cor a cobrir-me as pernas, uma mantinha gira que uma agência de publicidade me enviou como pequeno suborno para comprar uma qualquer notícia breve que eu não sei se escrevi (eu gostava muito do director criativo desta agência e, segundo sei, o tipo deu-se muito bem pela W+K).
Não mexo o cú enorme do sofá, porque estou a namorar à janela do computador. É mais forte do que eu - a vida passa lá fora e eu fico a vê-la passar. É que nesta janela eu tenho alguma importância. Lá fora não sou ninguém.
Amanhã estou mais uma vez a trabalhar, seguindo o rasto do candidadto independente, mas que segundo o líder da distrital do PSD, "tem um coração laranja" - eu já tinha bebido umas imperiais e fiquei a pensar que se calhar era melhor o Carmona ir fazer uma ecografia ao coração, que ter órgãos dessa cor deve ser uma qualquer ictrícia louca - e espero que saia algo menos obsessivo. Agora não dá.

quinta-feira, setembro 22, 2005

Mais coisas do baú da velha

Lá me conseguiram despir - foi um fartote de riso o meu "problema matinal" na lojinha de arranjos, sita numa rua atrás da avenida de Roma e que tem um nome genial: "Expresso da meia rota" (o logótipo não faz juz ao nome).
Antes de ser uma loja de pequenos arranjos de costura, há umas boas décadas atrás, aquela lojinha era uma retrosaria linda - Retrosaria "A Moda", letreiro dos anos 50, impresso no vidro da montra com uma letra muito patusca -, cuja dona era velhinha bonita de cabelos loiros platinados, muito baixinha, óculos de ver ao peito, presos por uma corrente, e que vestia sempre uma bata azul escura.
Eu adorava aquela retrosaria, acho que foi ali que começou a minha tara por botões - eram prateleiras e prateleiras de caixas de sapatos com botões cosidos no cartão, mostruários que me fizeram as delícias durante a minha infância, botões de todos os tamanhos e feitios, todos eles caríssimos, sei disto, porque às vezes, quando lá iamos, pedia à avó Tóia para ela me comprar uma caixa de sapatos cheia de botões e ela explicava-me que não podia, porque eram muito caros, mas levava sempre uma boa meia dúzia de pequeninos, para embelezar as minhas camisas brancas (lembro-me bem de uns com cerejinhas e de outros com a Hello Kitty).
Quando a velhota morreu - tentei, em vão, durante toda a manhã, lembrar-me do nome dela -, ainda lá fui ver se me vendiam os botões para a minha colecção. Deixei um cartão por debaixo da porta com os meus contactos, mas aquilo deve ter parecido muito bizarro aos herdeiros, porque nunca me telefonaram (e era um cartão do pasquim, bonitinho, Diana Ralha, jornalista, enfim, esta profissão tem pouco glamour e reconhecimento - a minha mãe está-me sempre a dizer que para puta e mal paga mais vale ser mulher honrada e eu não lhe dou ouvidos...).
O senhor Zé Manel, que é dono de uma tasca muito tasca em frente ao King, é que engrossou a minha colecção em largos milhares de botões. O sogro tinha uma retrosaria e ele deu-me quilos de botões com o pó dos séculos que lavei, e cataloguei em caixinhas, por cor e por tamanhos.
Ali, nas traseiras da avenida de Roma, não há gente rica nem os betos que frequentam a Mexicana. Há gente velha a viver em condições precárias, tendo como única companheira a solidão; o merceeiro e o taberneiro são os centros de dia desta gente, servem-lhes a bica, levam-lhes o almoço a casa em marmitas de alumínio e as compras que a miserável reforma lhes permite adquirir (a Celestinha dizia-me há tempos que não comia quase nunca carne, porque o dinheiro não chegava, a Celestinha é o Matusalem da Gama Barros, ninguém sabe que idade ela tem, é viúva, não tem filhos nem sobrinhos e hoje deixei a Magui e a Carolina na Conde Sabugosa e tremi ao ver que está uma casa à venda no prédio da Celestinha, provavelmente morreu e antes de ter tempo para arrefer já lá estavam milhentos herdeiros, que não se lembraram dela em vida, mas para reclamar as suas quatro assoalhadas nas traseiras da Avenida de Roma refrescaram a memória - "Esta casa cheira a alho, aqui mora algum espantalho. Esta casa cheira a unto, mora aqui algum defunto", já diz um dos meus provérbios favoritos e, agora, um repto para os leitores: "Esta casa cheira a ganza, mora aqui alguma ..." - completar, enviando sugestões para a caixinha dos comentários).
Ali, onde eu nasci e cresci, ainda é uma pequena aldeia dentro da cidade anónima, todos se conhecem, todos se preocupam com o cancro da Dona Ivone ou a constipação que não passa à D. Marina. E se a Magui não passa no senhor Manel para lhe comprar as hortaliças cortadas pela madrugada, na sua horta (e não custam os balúrdios dos produtos "biológicos" do supermercado, meus amigos, sei que vai dar azo a comentários idiotas, mas os tomates do Manel são os melhores que eu já comi na vida), e não vai buscar os gladíolos e os jarros do seu jardim (para que fique em acta, as minhas flores favoritas são os jarros), o merceeiro magrinho, desdentado e de bigodes fartos, liga-lhe para o telemóvel para saber se está tudo bem.

Afinal hoje tenho Carmona, já estou meia atrasadita e tudo, nunca mais é 9 de Outubro para a minha vida voltar à merda que era.

Things of the arch of the old woman

As coisas do arco da velha continuam a suceder-se. Estou desde ontem à noite a pensar como vou despir o vestido turqueza que tenho no corpo, depois de o seu fecho ter morrido e de se encontrar num rigor mortis tão petrificado, que não se mexe um milímetro para cima ou para baixo.
Quero ver se consego sair do vestido - que é um bom vestido, fica-me lindamente e ainda nem está sujo - rapidamente e se blogo qualquer coisa decente. É que hoje, parece-me, não tenho carmonisses para acompanhar e pode ser que a inspiração bata à porta.
Bem, vou ver se me ponho na alheta (little female garlic), rumo a uma daquelas lojinhas que fazem arranjos na roupa a preços bárbaros, porque o gajedo deixou de saber coser.
Até.

terça-feira, setembro 20, 2005

Um dedo que adivinha

Quando ia à Praça Pasteur "princesar-me" com as bujigangas da avó Zá, que estavam guardadas na última porta do armário do quarto verde hospital, numa caixa de plástico cor de chocolate , ela dizia-me muitas vezes que tinha um dedo que adivinhava. E eu sabia que era verdade.
E esse dedo, o mindinho - e é incrível como eu estou cada vez mais parecida com ela; o levantar da sobrancelha direita, aquele a que tu dizes que eu recorro compulsivamente, chulo literário, é igualzinho ao seu e, apesar de os meus olhos serem bem mais pequenos e mais pestanudos, temos o mesmo estrabismo leve e a mesmíssima expressão perdida no infinito -, esse dedo era mágico e sabia sempre tudo: sabia que o meu anel favorito das princesisses é este que eu uso todos os dias no anelar direito - um tronco de árvore em prata -, sabia que eu gostava de pôr cerejas nas orelhas a fingir que eram brincos (a Magui não me deixava furar as orelhas e não há brincos de mola para criança, aliás, não há brincos de mola ponto final - usaram-se, vagamente, na década de 70; chamava e chama, a Magui, aos furos nas orelhas, de mutilações tribalistas e eu não sabia o que isso era, tinha pouco mais de cinco anos, sabia lá o que era esse palavrão, mas percebia que devia ser algo mau e perverso, pensava nisto mais do que seria desejável para uma criança em idade pré-escolar, matutava, matutava mesmo muito, quase tanto como na questão de quem é que inventou o homem, e questionava-me: se é assim tão proibido e nefasto porque é que, então, ela, as avós e a maioria das mulheres portuguesas têm as orelhas furadas? E já agora, pobre mãezinha, ainda em relação às mutilações tribalistas, ainda achas que a tatuagem que eu tenho nas costas é daquelas que sai com o tempo, ou já te apercebeste, mais de três anos depois, que a libelinha impressa perto das covinhas do final das costas, vai comigo para a tumba?); o dedo adivinho sabia que o sabor dos Sugos que eu mais gostava era o de ananás, sabia de tudo, esse dedo maroto, sabia que a minha cor favorita era o roxo e da minha predilecção por saias que tivessem bolsinhos pequeninos. Sabia onde desencantar uma pantera cor-de-rosa para não desiludir uma pequenina de tranças enormes que acreditava no Pai Natal, que lhe tinha pedido apenas isso no Natal (e um Ferrari Testarossa, mas esse eu pedia sempre), e apesar de não haver panteras cor-de-rosa à venda em Portugal, o dedo desencantou-a, desencantou com a mesma facilidade com que arranjou num aniversário meu, um bébé chorão de olhos azuis e orelhas furadas (a avó Zá comprou dois brincos e furou ela própria a borracha; o bébé chorão chamava-se Ana Teresa).
As minhas avós eram mágicas, não me canso de dizer que eram doces feiticeiras e a minha avó Zá parecia mesmo uma bruxinha, com os seus cabelos meios lilases e tez muito morena.
Quando morreu, a minha avó Zá deixou os seus olhos ao meu pai (de um dia para o outro, ele ganhou o seu olhar, mas como o Zé Ralha não presta eu apoderei-me do olhar da minha avó) e deixou-me a mim esse dedo que adivinha. E as minhas mãos são muito magras e as da avó Zá eram muito gordas e sapudas, mas quando estava a pendurar molduras na parede, há duas noites atrás, reparei como estou a ficar parecida em tudo com ela (quando eu te disse, sei lá quando, que sei como vou ser quando for velha, a resposta não era "chata", chulo literário; era "igual à minha avó Zá")
Eu tenho um dedo que adivinha que me disse que os monossílabos não eram bom sinal. Hoje voltaste a ser mal educado, a deixar uma frase pendurada à janela. Eu não tive contemplações; com o dedo mindinho, o tal que adivinha e que tem ao lado o anel de prata da minha avó Zá, apaguei-te da minha lista num instante. Já nem custa.

Morrer de Tristeza

Na minha rua, para além de passeios estreitinhos esventrados pelas obras da EPAL, e de homens das obras de aspecto duvidoso e palavreado que até a mim me faz corar (é obra: hoje, às oito da matina, um mulatito dizia a um outro, de aspecto libanês: vai levar no cú, filho da puta... Nem abrir buracos tu sabes, ò paneleiro de merda! E o libanês: abrir buracos só se fosse o do teu cú, preto de merda! E trocam estes mimos, em frente aos polícias que disciplinam o trânsito e o estacionamento caótico da rua e dos "engenheiros" da EPAL que coordenam a empreitada, no equivalente ao volume 43 do meu auto-rádio e, assim, toda a vizinhança acorda com este bonito palavreado), mas, na minha rua, para além de picaretas e canos de água a brotarem da terra como que por geração espontânea, há um canito a morrer de tristeza.
Foi abandonado no Largo de Andaluz há pouco mais de uma semana e, desde então, vejo-o definhar, dia após dia. É um animal lindíssimo, entre Retriver e Setter Irlandês, enorme, e tudo me diz que foi para o olho da rua porque não se armou em raquítico e cresceu demais.
Tenho-lhe levado de tudo um pouco que existe na minha dispensa minimalista: bolos, queijo, lasanhas do Lidl, secretos de porco preto, e ele pura e simplesmente se recusa a comer seja o que for. Está em greve de fome, está triste demais, já é um esqueleto ambulante, olhos sem expressão, fica deitado o dia todo ao sol, num montinho de areia das obras da EPAL, não come, não bebe, espera os donos e a morte.
Estou a descongelar hamburgueres e a pensar no que posso fazer. Apetece-me dizer-lhe baixinho, ao ouvido peludo: "Consegues subir e descer quatro andares a pique até à Martinha? Prometes não mijar no chão envernizado? Prometes que não te passas por eu chegar tarde a casa todos os dias? E deixas a Carolina puxar-te o rabo sem retaliar?"
Não sei o que posso fazer. Neste momento, acho que o que ele precisa é de ir ao veterinário...

segunda-feira, setembro 19, 2005

Mais lençóis

Hoje estou muito perturbada, a minha taradisse compulsiva por efemérides só me faz mal.
O que são dois meses? Não é nada... Dá-me vontade de bater com a cabeça contra as paredes, por causa da ridicularia que é esta minha triste história de um amor literário por correspondência que não teve um final feliz de conto de fadas (já tenho quase trinta anos, sou mãe, são requisitos mais do que suficientes para ter juízo). Mas as paredes são de tabique, fragilíssimas, e eu estou a pagar a Martinha às mijinhas, em milhentas prestações até daqui a 49 anos, mais coisa menos coisa, e tenho que estimá-la - já basta o que fiz ontem na parede do hall, a tentar esconder, com molduras de retratos da minha família disfuncional, umas marcas de há dois meses e um dia atrás e, agora, a entrada parece mais um queijo suiço, do que outra coisa qualquer.
Socorri-me, então, de uma pilha de lençóis acabadinhos de sair do estendal. Como não tenho tábua de passar a ferro na Martinha (nem terei; para isso é que eu contratei a engomadoria; só passo lençóis e é quando estou à beira de um ataque de nervos, de um colapso emocional), estendi uma toalha de banho na mesa de vidro temperado que já se queixa de ter muito pouco uso nesta casa - é uma vergonha: desde que me mudei para cá ainda só fiz dois jantares - e passei, desenfreadamente, três jogos de lençóis de casal (o que é uma ridicularia também, porque é que eu tenho uma cama de casal se sou solteira e se continuo a dormir no meu pedaçinho sem ultrapassar as fronteiras para a metade direita da cama, mesmo quando tenho noites agitadas de pesadelos), à procura de alguma paz e clarividência. Nenhuma delas veio, mas os lençóis ficaram impecavelmente passados a ferro.
Amanhã sigo o rasto do "professor" a freguesias sem bairros sociais e com gente menos feia. Até que enfim... Já não posso com urbanizações no âmbito do Programa Especial de Realojamento...

Dois meses

Há dois meses e dezassete horas atrás (and counting) alguém me disse assim: "E se eu desse uma fugida aí (...)?". É uma frase que eu tenho dificuldade em esquecer.

Dois meses depois, já não estou a fazer um destaque de duas páginas sobre os condomínios fechados de Lisboa, "subi" na vida e ando atrás do candidato social democrata à Câmara de Lisboa por onde quer que ele vá - já conheço Chelas como a palma da minha mão, e rio-me quando o senhor diz que quer chamar para ali a classe média.

Dois meses depois, tudo o que resta são momentos.
"Moments lost in time like tears in the rain", diz, prestes a morrer, o andróide Roy, interpretado pelo Rutger Hauer, no "Blade Runner" (um holandês que me fascina há muito mais tempo do que tu, Vring, desde que era pequenina e via compulsivamente o "Lady Hawk", com a Pfeiffer e o Matthew Broderic - tenho que ver se arranjo isto em DVD).

Os andróides Nexus 6 do Blade Runner têm dois tipo de memórias: uma artificial, introduzida pela empresa Tyrell e outra referente a tudo aquilo que, de facto, viveram. É esta última pela qual o andróide Roy chora, antes de soltar uma pomba branca pela noite. E eu também.

97 pageloads às dez da matina

Hoje vamos, de certeza, bater mais um record diário...

domingo, setembro 18, 2005

Domingo no mundo

Domingo.
Dispensaram-me de seguir o Carmona como cão farejador.
Ainda bem, precisava de descansar e o dia não começou da melhor forma: saltou-me um papagaio para cima e devorou-me o braço.
Foi, aliás, um fim-de-semana de marcas corporais. No sábado, ao telefone, a assessorizar, espetei uma tampa de uma caneta na mão esquerda, gritei pelo menos vinte vezes caralho e foda-se com o assessor na linha telefónica, até que uma coleguita me arrancou a tampa para espanto e horror das demais que assitiram ao espectáculo horrendo (não tenho nenhuma explicação lógica para o mistério da tampa perfuradora, as coisas estranhas sucedem-se).

A grande novidade do fim-de-semana é que a minha mãe quer lançar a sua candidatura à presidência da República. Votem na Magui e ela promete mandar todos para o caralho e arranjar um cú novo para toda a gente. Diz a senhora minha mãe que os filhos da puta lá estiveram, as mães deles também, agora estão lá os paneleiros e está na hora das mulheres honradas.

Amanhã há mais.

sábado, setembro 17, 2005

Ainda o mistério alado

A Qui Qui diz que passa tempo demais a pensar nas impressões corporais do ser alado que esbarrou na porta da Estados Unidos (e há uma segunda impressão corporal, também com asas, a mais de 2,5 metros de altura, que eu fotografarei assim que possível) e eu compreendo-a perfeitamente.
Não sei se é coisa das Dianas, mas também não me sai da cabeça o fenómeno quase paranormal, até porque a senhora que faz a limpeza lá no prédio (que é das melhores pessoas do mundo, acreditem) está de férias e o bicharoco ainda está lá para quem o quiser ver.
O manualdedeus estreou-se nos comments neste quintal (seja muito benvindo; este blog, assim como o seu, tem leitores mudos e com uma qualquer parilisia nas mãos que os impede de comentar o que aqui se escreve e eu nem escrevendo sobre sexo consigo encher as caixas que o Blogger disponibiliza para o efeito, mas também já me habituei à plateia silenciosa, espiolho os seus movimentos através do statcounter, comove-me, Andy, que cá tenhas vindo hoje às nove e picos da manhã), e avança com uma explicação que me agrada particularmente, a de um anjo pequenino que atravessou a matéria translúcida do vidro "como se de ar se tratasse".
Gosto de pensar que é o anjo da minha Carolina que anda sempre de vigia por aqueles lados, velando-lhe o sono, afastando os sonhos maus - ele deve ainda estar na Unidade dos Cuidados Intensivos do Hospital de São Miguel arcanjo, algures entre o céu e a terra, porque hoje ela teve muitos pesadelos -, protegendo-a de coisas que eu não vejo, que não dependem mais de mim.
"Anjo da guarda, minha companhia, guarda a minha alma de noite e de dia. Anjo da Guarda, minha companhia, não me desampares, nem de noite, nem de dia" - vocês não imaginam quantas vezes eu, descrente, repeti esta lenga-lenga, no quarto 615 do Hospital Particular de Lisboa, durante três longas madrugadas, a Carolina com horas de vida, o bébé mais bonito de toda a freguesia de São Sebastião da Pedreira, a dormir ao meu lado e eu agarrada ao anjo da guarda de prata que a minha mãe (outra descrente) trouxe para a minha filha no dia em que ela nasceu, dia em de Nossa Senhora da Conceição (faça sol e chuva não, mas choveu o dia inteiro), o anjo preso ao meu pulso com uma fitinha de cetim branca e eu a pedir-lha ajuda e paz nas desventuras.
E ando zangada com Deus, não falamos há muito, mandei cortar a assinatura, rescindi o contrato de prestação de serviços, mas, de vez em quando, sei que ele ainda olha por mim e põe, no meu caminho, anjos de carne-e-osso para me orientarem, para me protegerem, anjos que às vezes têm tatuagens, outras vezes têm mesmo cara de anjos, são perfeitos e irradiam luz (e quando estou com eles, com os que não parecem anjos e com os outros que é de caras que perderam as asas nesta reencarnação, ando sempre à procura de um rasto de penas).
Eu olho para aquele vidro, obsessivamente, e também não me parece ser possível um pombo; os pombos são singelos, não têm aquela corpulência do "desenho" no vidro. E naquele prédio não há ninguém genial (à excepção do meu irmão Leonardo), são todos velhos, mais velhos que sei lá o quê, não é obra de nenhum dos inquilinos da Magui.
Olho para as asas, lindamente impressas, reviradas, perfeitas, agradeço por não ter enlouquecido, de elas estarem lá mesmo, e aceito que não vou desvender o mistério. Seja um anjo. Agrada-me essa imagem. Se calhar os anjos não deixam penas pelo caminho. Ficam impressos nos vidros da porta da nossa casa.


[e deixem-me partilhar esta rima linda de pé-quebrado, com a qual o JBA, me presenteou neste início de tarde: Os peidos saem do cú/ Os pombos dos pombais/ Os pombos voltam sempre/ Os peidos não voltam mais]

sexta-feira, setembro 16, 2005

Pombos na janela

De asas bem abertas

pombo na janela outra vez

pombo na janela

quinta-feira, setembro 15, 2005

Dias assim

O dia de hoje dava um filme.
De terceira categoria.
Já imagino, iluminação à portuguesa, falas mal dobradas, sem coincidirem com a a dança dos lábios dos actores - esses seriam feios, porcos e maus, com guarda roupa pobríssimo -, planos mal paridos, com os microfones a aparecerem na cena, cenários surrealistas, erros de racord a cada minuto - num plano estou de cabelo apanhado com uma banana, noutro com ele solto, encaracolado da humidade, a chegar à tatuagem -, banda sonora pavorosa - que tal Shakira? ou os DZRT? -, argumento inexistente.
O dia de hoje dava um filme, com polícias, com carros a serem rebocados, com insultos a automobilistas e peões, o título podia mesmo ser "Road rage", até tenho medo de sair do pasquim, pegar no Idea e que me caia um bloco de 16 toneladas, ou que ele não esteja no lugar ilegal onde eu o deixei, ou que tenha um papel branco da PSP no pára-brisas, ou um "piercing" amarelo na roda dianteira (marca finíssima de joalharia automóvel, EMEL - empresa merdosa de estacionamento de Lisboa).
Durante toda a semana passada, a semana dos trágicos acontecimentos, voltei a ter sorte ao estacionamento. Sete dias consecutivos a deixar o carro à porta de casa, à porta do jornal, fora das garras da famigerada empresa municipal. Esta semana, voltou o azar, mas a sorte ao amor, cadê, demónio do estacionamento?????
A inspiração está um bocadinho melhor, ontem fiquei horas deitada no chão da Martinha a olhar para o tecto, à procura de uma qualquer coisa para escrever, fiquei ali, cabelos estendidos sobre a madeira envernizada, imagem bonita, digna de filme europeu, com uma qualquer pianada do Nyman - talvez a 15, do Piano, The sacrifice -, ando a fazer contas a vida, ver se consigo viver com menos 107 euros por mês, se abdico totalmente de comprar sapatos e roupa, ou se simplesmente páro de fumar (bastava isso, sim senhora, pode mesmo ser por aí), para no lugar de um quarto de vestir a transbordar (apesar de eu me ter queixado, ainda hoje, que não tinha nada para vestir), ou de uns pulmões negros que se revelararão no próximo raio x toráxico que a minha entidade patronal me mandar fazer

(tinha 21 anos quando fiz o primeiro, e o técnico de disse-me que eu tinha uns pulmões muito bonitos. Eu achei que era um dos piores piropos que poderia ouvir em toda a minha existência; perguntou-me se eu fazia desporto de alta competição, eu ri-me alto, apontei para o diámetro monumental da minha anca e já convencida que era a pior cantada de sempre disse, sem paciência, "Acha???". Mas ele insistiu, "sabe, assim como há pessoas bonitas e feias por fora, também há pessoas feias por dentro". E hoje, uma meia dúzia de frases no meu Gmail, fez-me sentir a pior pessoa de todas, mas tenho uns pulmões bonitos, valha-nos isso, "Canta?", perguntou o técnico daquela clínica privada, e os meus dois pulmões, impressos numa chapa negra, iluminados por uma luz fluorescente, e eu: "Canto, sim". "Está tudo explicado, por isso é que tem estes pulmões belíssimos, concluiu ele),

e se eu conseguir despojar-me de todas essas futilidades de burguesinha tonta, a música que eu oiço desde sempre na minha cabeça passará a ser traduzida pelas minhas mãos. E estes dedos, que sabem de cor o teclado "qwerty", que trazem até vós o que me vai na alma, estes mesmos dedos vão fazê-lo de outra forma - passarei não a ler livros, ou notícias, mas sim pautas, colcheias, breves e semi-breves.
Tenho só que me propor a isto - eu sou boa em tudo o que quiser; e tenho a certeza que seria muito boa na música e, sobretudo, feliz.
Tenho que arranjar os 107 euros. E os outros largos milhares de euros para comprar o instrumento; mas mesmo aí não me consigo decidir: piano, sim, era a primeira opção, estou a imaginar-me a lutar com as variações Goldberg durante meses e meses a fio, a levar à loucura a vizinhança com escalas intermináveis. Mas tenho muito medo que seja tarde demais para o piano.
Guitarra, a mais fácil, a mais barata, a que me permite ir para uma estação de metro bonita e angariar fundos para pagar as aulas.
Violoncelo, um velho sonho, mas só tem piada se conhecesse um triozito de violinos para acompanhar o "baixo" da música clássica.
Acórdeão. Por estar ligado à música tradicional portuguesa e ao Tiersen. Por ser dos instrumentos mais sensuais à face da terra. Por me emocionar sempre que algum puto romeno entra numa carruagem do metro, ou quando um ceguinho arranca harmónicos na Rua Augusta.

O meu chulo literário fica assim, na minha vida, por me ter posto a tocar um instrumento.

Falta decidir qual.
O dinheiro há-de arranjar-se.

A mana mais velha da Martinha

Hoje, fui beber ginjinha caseira à mana mais velha da Martinha, no primeiro andar deste prédio decrépito do Marquês de Pombal.
A mana recebeu-me muito bem, estou bem feliz.

terça-feira, setembro 13, 2005

Os dias - um apanhado sem inspiração

A puta da inspiração foi-se.
Foi-se com os trágicos acontecimentos. Eu já o avisei: vou culpá-lo durante largos meses, por todos os males do mundo e, em particular, do que vai menos bem na minha vida.
É culpado pelo estado crítico da azálea, pois claro, e pela recaída dos olmos da China (sabes, Astride, ainda bem que não me ofereceste o plátano nos meus anos; as folhas deviam estar agora a ficar vermelhas, do Outono que bate à porta, e o plátano morreria de tristeza, era o primeiro a definhar, aposto, porque há uma semana morreu um amor debaixo de um plátano - um amor platónico).
É culpado pelas minhas noites brancas de insónia, pelas unhas e peles roídas do dedo "pai de todos" da mão direita; tem culpas no cartório nas borbulhas irritantes que me nascem na cara; mas naquilo em que o veredicto é inequívoco - guilty of all charges - é de me ter sugado toda a inspiração. Não sobrou nada. Ficou tudo em pantanas.
Não escrevo nada de jeito desde então. Sento-me horas em frente ao computador, aqui, no sofá laranja, de pernas cruzadas, a ouvir o estendal da vizinha de baixo dar gritinhos fininhos de dor, por uma gotinha de óleo lubrificante, e não sai nada.
E os dias têm sido diferentes, em campanha eleitoral, tenho levado um banho de "gente ordinária e suja", como dizia o Álvaro de Campos,

[Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! -
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosamente gente humana que vive como os cães
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!]



mas não sai nada - o heterónimo do Pessoa já disse tudo por mim, há muitos anos atrás.

Os dias têm sido cheios, tenho falado com o chulo literário estupurado (gosto muito desse comment) todos os dias, como se nada tivesse mudado, digo-lhe às vezes coisas lindas, outras assustadoras, faço-o rir a bandeiras despregadas, mesmo quando ele está impossível de se aturar.
Os dias têm sido bons para mim e agora mesmo bebi leite com groselha, e se fosse há uma semana atrás, eu contava-vos uma história grande e bonita sobre o leite com groselha, falar-vos-ia, provavelmente, também de capilé e grenardine, mas hoje não vai sair nada de jeito, não iria honrar a história, não seria nenhum daqueles posts que se lêem duas vezes seguidas de tão bem escritos que estão.
Os dias têm sido perturbadores, e ontem de madrugada, fui buscar a Carolina a casa da minha mãe, vinda de um jantar de pré-campanha eleitoral, e na porta de vidro do prédio da Magui estavam impressos os corpos e asas abertas de dois pombos que se espatifaram a grande velocidade na porta daquele prédio da Avenida EUA.
Eu pensei que estava a alucinar, juro que pensei, esfreguei os olhos, lembro-me de dizer em voz alta "isto são só manchas de gordura de algum inquilino porco, não são as silhuetas de dois pombos de asas abertas, estás cansada e com sono, é só isso...", o coração a bater alto e rápido e eu a pensar que era ali o momento, estava a passar para o outro lado, e cheguei lá acima em pânico, com medo de estar a enlouquecer, disse à Magui o que tinha visto no vidro, mas ela pensou que eu estava bêbeda ou drogada, não me ligou, não percebeu a minha angústia, limitou-se a disparar que eu sou uma má mãe, que ponho o trabalho à frente da família.
E eu mandei-a para o caralho, agarrei na Carolina e fui para a Martinha, sem saber se eram mesmo os desenhos dos pombos no vidro da porta do prédio, ou se eu estava a ver coisas, se já estava carimbada no meu passaporte a entrada no reino da demência (o carimbo é uma vassoura porque os doidos são varridos), mas hoje ainda lá estam (tento fotografar amanhã) as impressões corporais dos dois bichos, e a Magui, que confirma a minha "visão", ainda tem uma versão mais sinistra: diz que foi alguém que apanhou um pombo morto e o andou a mandar aos vidros da nossa porta. É que é mesmo uma imagem assustadora de tão bem impressa, parece um sudário em versão columbófila, ou um teste psiquiátrico do Rocharch (aqueles dos borrões de tinta negros; neste caso seria borrão de gordura em vidro).
O chulo roubou-me a alegria, roubou-me a inspiração, e este post é só para marcar o ponto, para não perder o jeito, para não perder leitores. É que os escritores não escrevem só quando estão inspirados, têm que se obrigar a isso, levar a prosa como uma profissão (oito horas por dia, durante cinco dias por semana, no mínimo).
Vamos lá ver se isto passa depressa. Espero bem que sim.

Delayed

Com um dia de delay – o moço é do mais pleasure delayer que eu conheci; come os meios da torrada no fim, óbvio –, lá veio uma frase de calibre 38 mm (ainda estou meia atordoada com o disparo)
“Se pudesses, agora tiravas me daqui, nao tiravas?”

As árvores morrem de pé (e sobretudo de tristeza)

Os meus olmos da China (foram comprados para três meninas - a Inês, a Qui Qui e a Cat -, mas nunca foram entregues) são pródigos em morrer e ressuscitar. Já fizeram a brincadeira pelo menos três vezes cá em casa, mas eu só desisto de um bonsai quando ele não reage durante um largo período de tempo, quando o coma se reverte na falência total de todos os seus sinais vitais.
É assim com estas mini-árvores; é assim com tudo: insisto até à última, sou pessimista de natureza, mas das gajinhas com mais esperança à face da terra.
Os olmos da China andavam possessos. Tinham ressuscitado há coisa de um mês e meio, os três ao mesmo tempo, tinham renascido com a felicidade absurda que se viveu nestas quatro paredes. Os meus olmos da China murcharam na semana passada e não foi por falta de água ou mimos. As árvores morrem de pé, mas sobretudo de tristeza. Viram-me chorar demais, sentada no sofá laranja, não gostam de me ver assim por nada deste mundo e decidiram, em conjunto, absorver a minha tristeza. Beberam-na através das suas raízes e, por isso, estão novamente em coma.
Eu sei que eles vão renascer. Porque eu não desisto deles.
Mas hoje, um quarto bonsai, um dos que eu mais gosto, a minha azálea, murchou também. E este é um golpe muito duro.
Estou triste.

Frases que não se devem dizer a quem espartilhou, unilateralmente, uma relação

Há uma forte probabilidade de termos sido feitos um para o outro.

[É elevadíssima a probabilidade do outro lado não responder nada do mesmo calibre]

segunda-feira, setembro 12, 2005

Politiquisses

O cidadão Rogério Guimarães, eleitor nº 6823, da unidade de recenseamento das Caldas da Rainha, comprou um anúncio grandote (e carote, com certeza) nos classificados do pasquim que me paga a renda da casa, para apresentar as suas desculpas a todos os democratas por ter contribuído com o seu voto para a eleição deste Governo (PÚBLICO – 9 de Setembro, caderno Local, página 58, para quem estiver interessado).

Ontem queimei um Domingo de folga a acompanhar o candidato à presidência da câmara de Lisboa que me saiu na rifa, pelos piores bairros de Chelas, e eu e o mano reaccionário discutimos à hora do jantar (para além da questão de que toda a gaja barbuda, gorda, sebenta, a cheirar mal da boca e dos pés, ter namorado e eu, que nem sou uma monstrenga, não – a discussão continuou mais tarde, numa janela à direita do meu monitor, com o meu ex-marido a perguntar-me, out of the blue, se é por eu ter uma filha que os gajos não se aproximam e eu a responder-lhe que não deve ser, é mesmo por minha causa, que os afugento com as minhas maluqueiras; só neste blog é que a minha excentricidade têm legiões de seguidores dependentes), que devia ser instituído um exame de aptidão para o voto.
Estava na Zona I de Chelas (o Carmona não quer que se chame Chelas pelas letras, mas, caro professor, comigo essa treta não pega) e ouvi um senhor de bigode farfalhudo e grandes patilhas dizer que ali, as “gentes”, votam mas é no PCP.
Um elemento do staff do candidato independente apoiado pelo PSD perguntou ao tal senhor de bochechas rosadas - que partilhou com todos que tinha votado numas presidenciais no Soares, porque o “partido” lhe tinha dito para fechar os olhos e votar no PS -, o que é que ele achava do Ruben de Carvalho. O fiel eleitor do PCP respondeu: “Não sei, não conheço”, pensando que o assessor se referia a um outro candidato da oposição. “O meu voto vai para o Jerónimo”, disse com convicção, segundos depois. O colaborador da candidatura de Carmona Rodrigues explicou-lhe, muito educadamente, que o Ruben era o candidato do PCP à Câmara de Lisboa, mas isso não interessava nada ao senhor bonacheirão. Não faz ideia em quem vai votar, mas não há problema.
Os taxistas precisam de ter um Certificado de Aptidão Profissional para conduzirem uma viatura, que lhes custa 200 contos, de cinco em cinco anos. Para além disso têm, como qualquer condutor, que ter a carta – o que implica um exame de código e outro de condução. Eu pago, de dois em dois anos, à Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas, uma imoralidade para escrever notícias. Os advogados têm o exame da ordem, enfim, os motoristas de pesados são obrigados a fazer testes psicológicos com frequência (talvez não a desejada, anda para aí muito doido), mas para votar basta ter 18 anos. Único requisito.
Não interessa que não saibam o que são as instituições, para que é que se vota, o que é que se está a eleger. Não interessa que nunca se vá votar na vida. O direito ao voto está no código genético, é intocável.
Antes que a esquerda fique com a ratinha aos pulos com este post (espero nunca mais me dar para estes lados; é mesmo só porque me comprometi a não tocar nos trágicos acontecimentos da semana passada), que isto é uma ideia neo-fascista para calar os pobres e os desprotegidos, eu e o mano reaço estamos francamente convictos que a classe média-alta chumbaria em maior percentagem do que a classe média-baixa.
Já estou a ver os tios da Lapa a responderem ao teste americano de múltipla escolha: “Nas legislativas o que é que se elege? 90 por cento responderia o primeiro-ministro. 8,9 por cento optaria pela resposta B - o presidente da república e 1,1 lá acertaria na terceira opção.
E qual é, caros, a resposta certa?