terça-feira, janeiro 10, 2006

Rugas

Duas e trinta e um da tarde. Almoço ou post? Post. Porque hoje tenho um dia infernal de campanha e só para variar, ainda vou ter que escrever uma qualquer inutilidade - o chefe assim a apelidou, esta não dá justa causa, lamento - para a secção que me paga o salário.

Já sei que, depois, vou chegar a casa às onze da noite, vou deitar a minha bébé, dar corda à caixinha de música, vou ligar as luzinhas com libelinhas a quem a Carolina chama de lulús, vou tirar a roupa da corda, vou ficar com os dedos dormentes do frio, vou aquecê-los em vão, entalando-os entre as pernas, vou espreitar a loira diabrete já a dormir de boca aberta o sono dos inocentes, vou ficar feliz com aquela imagem, vou guardá-la no meu chip, depois vou sentar-me no sofá laranja com frases soltas prestes a explodir como milho americano em lume forte, mas vou ligar o programa que me faz companhia todas as noites e depois vai aparecer, no messenger, o sargento, a adolescente esquizofrénica, a habitué Qui Qui, e já sei, vou ter pouca coragem para o escrever: o meu cansaço é como o desemprego em Portugal, é estrutural, não é meramente cirscunstancial, e já pareço o Garcia Pereira a falar, ontem, gostei sobretudo quando ele disse, no Centro de Estudos Judiciários, perante meia dúzia de gatos pingados que andam a estudar na antiga prisão do Limoeiro para ser juízes em causa própria, ele disse que tem um gabinete de pirotecnia no afamado escritório de advocacia que dirige e que solta um foguete por cada cada vez que a Justiça cumpre os prazos estipulados, mas soltou, também, que tem a sala cheia de foguetes, que estão prestes a passar de prazo, ele disse isto sem mudar o tom de voz, ácido, implacável e eu tive um ataque de riso histérico, que se transformou num ataque de tosse e que me trouxe as desaparecidas lágrimas aos olhos.

Começam-me a nascer as primeiras rugas.

Eu estava há pouco tempo no colégio, ainda não me tinha habituado à ideia de tratar a professora por Ana Paula e não por senhora Professora Gertrudes Maria, na escola 101 do Bairro das Estacas, a senhora professora tinha uma menina dos olhos de não sei o quê e uma régua que içava sempre que alguém abria o pio, e a sala cinco tinha dezenas de colegas indianos, lembro-me de um que tinha 14 anos, o António Odô, tinha a caligrafia mais bonita, e uma menina muito pequenina, que mal falava português, chamava-se Minashri. No colégio, a única pessoa com a cor de pele diferente da minha era a Ruzena, filha de um embaixador, era muito escura, tinha uma carapinha muito cerrada, tinha uns lábios enormes, rosados, tinha as palmas das mãos mais brancas que as minhas, tinha um perfil de estátua aborígene, havia o Aguinaldo também, mas esse tinha cor de meia de leite, e apesar de estarmos numa escola privada, eu e as minhas duas tranças fomos as únicas a brincar com a Ruzena no recreio, porque, diziam os outras crianças, más como eu nunca mais vi, os outros gozavam com ela e diziam que ela era das barracas que havia no morro da Estados Unidos da América, junto ao Parque da Belavista, e isto foi só porque um dia ela trouxe os collants com uma malha.
E, nesta altura, o avô Oliveira ainda estava vivo, a avó Tóia já não, lá em casa, a alcatifa do hall era verde bandeira e eu tinha uns sapatos de presilha azuis escuros, com sola de couro e passava a vida a escorregar naquele cobertor do soalho que lembrava o feltro das mesas de jogo, lembro-me de estar a ajudar a Dona Teresa, a minha ama e ama do meu avô, estávamos a dobrar lençóis no hall, com a cómoda dos puxadores de faraós dourados e tampo de mármore do meu lado esquerdo e, nesse dia, em que dobrámos um jogo de lençóis com padrões dos anos 70, e em que a Dona Teresa me ensinou um jogo que envolvia bolinhas em folhas quadriculadas, tínhamos ido a Vila Franca de Xira, em visita de estudo com o Colégio, à Xira Jovem e isso era uma espécie de feira, montada numa tenda de circo - é assim que eu me lembro dela -, davam-nos dinheiro de fingir à entrada, dinheiro de monopólio, e depois havia barraquinhas, com comes e bebes, com jogos, o chão era de terra batida e estava enlameada, eu lembro-me de andar com cuidado por causa dos sapatos que eram mesmo bonitos, comprados numa loja do centro comercial ACSantos da avenida da Igreja, lembro-me de andar atrelada com a Rosalinda, a contínua do colégio que me recebia todas as manhãs na carrinha, bata cor-de-rosa, permanente no cabelo que lhe tinha emprestado os caracóis de um carneiro, e parámos na barraquinha onde umas senhoras simpáticas faziam penteados e pinturas, e puseram-me uma peruca loira na cabeça e sombra verde nos olhos e lembro-me de sorrir ao espelho, um espelho de camarote com luzes, e de elas dizerem: "faz uma covinha tão linda na bochecha direita". E a Rosalinda: "É a menina mais bonita que eu vi". "Mas vai ficar rapidamente com rugas", disseram.

E na Quinta do Lambert, o tecto radioactivo, as bananeiras do jardim interior, o supermercado do patrão no piso de baixo, o meu cabelo cortado à escovinha, um top de seda verde seco, bordado com missangas, um fato preto, os olhos pintados de verde também, a fazer as bolsas em traje de cerimónia, porque dali seguia para a inauguração do Zé Ralha, a que teve a Amália a dizer que o meu pai e o meu avô e toda a minha famíllia eram pessoas muito puras, a Amália agarrada à minha mão direita sem largar, depois de ter emborcado uma garrafa de whiskey sozinha, a Amália que se esqueceu de colar a placa ao céu da boca, e a Sílvia, quando me viu a tirar os prints da Reuters do Euro Stoxx 50, "tens uma pele tão linda, não tens nenhuma ruga".

Começam-me a aparecer algumas rugas

Rugas de chorar


[Não me perguntem como é que tenho fotos de mim a chorar, porque senão eu tenho que vos dizer que tenho a mania psicopata de fotografar os momentos tristes, da mesma forma que toda a gente fotografa os sorrisos de felicidade Pepsodent, para mais tarde recordar]

Rugas de sorrir

Rugas de cantar [é o que eu mais gosto de fazer e não tenho nenhuma foto a cantar]

Começo a franzir

Rugas de sentir
Amanhã, vou comprar o meu primeiro anti-rugas.

Créditos fotográficos: entre outros, inomináveis, a Diana Quintela.

E não almoçei, mas também não escrevi o post. Fiz tudo como tinha descrito, tirei a roupa no estendal, liguei as luzes de libelinha, a caixa de música a tocar uma canção de embalar, o sofá, a Qui Qui e a outra esquizofrénica no messenger, foi tudo como eu escrevi.

Adolescentes esquizofrénicas - começou o tunning do (T)ralha

À uma e quarenta e dois da matina, depois de quase levar ao desespero o meu helpdesk via messenger, consegui pôr música no (T)ralha.
Esta é para a minha adolescente esquizofrénica.
Estou com saudades do meu cabelo (estou quase arrependida de o ter cortado, já sei que assim fica bem, mas sinto falta do peso dele em cima das mamocas). Estou triste porque já não há luzes de Natal (ontem não nos despedimos como deve de ser). Estou com as hormonas aos pulos (tenho um blogue criado para contar essas coisas de hormonas, mas já não sei qual é a password que escolhi para entrar no dashboard). Estou siderada porque o Garcia Pereira me manda sms à meia-noite e meia, depois de já se ter transformado em abóbora, de certeza. Estou desolada porque o anjo negro disse adeus e só vai voltar quando tiver colado as asas às costas. Estou cansada. Tenho que dormir. Amanhã há mais. Divirtam-se com o Goran.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Histórias

Eu sou uma mulher atormentada.
Por uma história que não posso, que não quero, que não devo escrever.
Porque sei, se eu a bato no teclado com força, com a força que me destrói as unhas do dedo indicador e pai de todos das minhas duas mãos (mais da direita que da esquerda, é verdade) - e a manicure, brasileira, tom de pele de galão de máquina clarinho, diz: "Nossa, Diana, suas unhas estão fraquinhas, fraquinhas, elas estão lascando, tem que comer gelatina", e eu explico à Rose que elas estão fraquinhas porque eu escrevo com raiva, escrevo quase possuída, ela não sabe que eu passo mais de oito horas da minha vida a escrever -, se eu atiço a tendinite num qualquer teclado, neste, branco, ou no outro, preto, ou seja, se ponho tudo preto no branco, e como esta história é psicadélica e feita de coincidências atrás de coincidências, ela é tudo menos monocromática em gradientes de cinzento, ela é fluorescente, conta amores imperfeitos, impossíveis, traições, ela conta surrealidades várias, ela é um misto de romance Arlequim semi-erótico, ela é um pouco de policial da Agatha Christie também, e se eu a escrevo no papel, ou numa qualquer aplicação de edição de texto, estou a aceitar que ela existiu mesmo, que não foi um delírio que começou no Snob e ninguém sabe onde acaba (há quem diga, isto vem nas revistas que se compram por debaixo dos balcões dos quiosques lisboetas, que o autor da história - não sou eu, certamente, nem nos meus sonhos mais loucos eu teria imaginação tão fértil e tão perversa para escrever esta novela - escreveu e gravou vários finais: "round and round it goes, where it stops no one knows", roubado da Carrie).
E eu não sei ainda escrever sobre coisas que não existiram. Um dos leitores que eu não posso linkar, perguntava-me há tempos, com a sua curiosidade científica, se era tudo verdade o que eu escrevia, e eu respondi-lhe que sim, que não sei escrever com letras que sabem o caminho de cor, que sabem quem é o seu par na roda, elas, as letras e as comadres palavras não se entendem nas frases, atropelam-se quando eu estou a escrever sobre coisas que não existiram. Às vezes, muitas das vezes, pronto, admito, junto uns pózinhos de perlimpimpim às histórias reais do meu quotidiano, para as tornar fabulosas, e todas as existências são fabulosas, até a senhora da limpeza já foi musa de um post, dos mais bonitos, aliás, dos que não têm tantos ou mais caracteres como um destaque de página dupla de um qualquer diário português, foi um post escrito à pressa na véspera da véspera de Natal, mas eu não escrevo a metro, não faço questão de escrever muito, não é premeditado, sai ou não sai, às vezes as letras vão dar grandes passeios ao bilhar grande, outras vezes vão só à esquina comprar cigarros (e este post está a ser escrito em carência absoluta de nicotina; estou em ressaca tabagística, ontem fumei dois maços). É assim.
E esta história não existiu. Qualquer semelhança com a ficção é pura realidade, passa este aviso grande velocidade e a letras miudinhas na tela. Eu não a escrevo, também, porque eu não consigo descrever o anti-herói deste conto. Eu não sei quem ele é, tem os olhos baços, opacos, sem brillho, são muito escuros e pestanudos. Mas não sei mais nada sobre ele. Eu pensava que sim, que o conhecia, que sabia que era um homem bom que estava numa encruzilhada. O herói desta tragédia, esse, acho que ainda não apereceu na trama. Há vítimas. Há três vítimas. Número perfeito de vítimas.
Um dia, saberei escrever sobre histórias que não vi, que não aconteceram comigo ou seja com quem for, histórias que vivem apenas na terceira minhoca do meu cérebro a contar de trás, numa terra verdejante com casas feitas de baralhos de cartas. Ando a estudar para isso. Vou no carro, estou parada nos semáforos, numa fila interminável dentro do túnel da avenida da República, estou a comer uma sopa no Picoas Plaza e a dar migalhas de pão aos pardais, com a Moleskine semi-desfeita como companhia, como única companhia, e invento histórias para lugares, para personagens da minha cidade, para as pessoas que passam ou estão sentadas na mesa que está à minha frente.
Estas personagens existem, porém, estes lugares também. Com treino, com dedicação, um dia próximo, não muito distante, estou confiante que sim, começo a inventar as minhas terras, as minhas gentes, os seus nomes, as suas roupas, os seus tiques e manias. Está tudo cá dentro, na tal minhoca do meu cérebro, que cada vez é maior, que cada vez tem mais castelos de cartas de naipes encarnado.

domingo, janeiro 08, 2006

Mãos

Foi um jantar de mãos.

As mãos que nos regaram a alma, e lá atrás, as do Bruno, que gostariam de acertar algumas contas por mim,





As minhas mãos, e a Magui viu esta fotografia e disse: "tira o nariz do teu pai e até pareces minha filha, às vezes pareces mesmo minha filha",




As mãos do João, no papel, nas minhas mãos,

As mãos lindíssimas, esguias, da Mary Mary, depois de assinar o livro de honra do (T)ralha,

As mãos do vogal da presidência do conselho de administração, responsável por toda a logística do jantar, o Potier

As mãos das meninas com quem eu quase não consegui falar, Isa e Astride


As mãos perturbadas do Mac, que noutra encarnação foram de um massagista profissional

As mãos da Thê, manchadas com o mesmo sangue que as minhas

As mãos da Qui Qui, que ontem não estava inspirada (ela é que diz e não quer que eu diga que as fotos são da sua autoria, de facto, algumas não são, não sei dizer quais, a Leiquinha andou de mão em mão como as pombinhas da catrina)

The day after

Foi uma festa de aniversário do camandro.

Com uma garrafa gigante na mesa, com livro de honra, com muitos disparos acidentais da Leica, com surrealidades várias, com escadinhas da Bicaense, com corpos juntinhos no Tóquio (e dois sobreviventes, entre os quais eu não me incluo, infelizmente, porque tenho uma urticária insuportável quando fico à porta à espera para entrar, ainda foram queimar os últimos cartuchos da madrugada no vizinho Jamaica).

Este blogue está com sono. Não de ressaca. Precisa de mais café e menos posts.

[E quando eu quiser ir dançar já sei a quem é que telefono.]

Muito bom.

sábado, janeiro 07, 2006

Butterflies instead

I lock the door and lock my head
And dream of butterflies instead
The beauty of their colored wings
The trees, the grass and pretty things
Imagination fills the void of my existence

Everything will be alright.

Um post escrito com unhas deliciosamente encarnadas sobre um teclado branco merecia qualquer coisinha melhor.
Mas eu estou numa de borboletas hoje.
Hoje vou inventar uma história para a velhota do primeiro andar do número dois da Praça José Fontana, que tem cortinas de crochet com rosinhas, que está sempre à janela a ver os carros passar.
Hoje vou dar um nome a uma outra velhinha corcunda que encontro sempre quando estou a cortar da Duque de Loulé para a Luciano Cordeiro, em direcção ao Largo das Palmeiras.
Hoje vou imaginar a vida toda do senhor Sequeira, o meu vizinho alfarrabista que anda de bicicleta com a cadela Carolina atrás e que passa os dias a divulgar cultura a um euro no jardim do Príncipe Real.
Hoje decidi que não sou fazedora de notícias. Acordei assim. Acordei assim ontem à noite, depois de ter saído de casa mais uma vez aos gritos com a Magui. Depois de ter adormecido num semáforo da Rodrigues Sampaio. Sou contadora de histórias, nove anos para descobrir que é isso que sou.
Hoje, vou ligar ao Ricardo. Vou pedir para ele me ensinar a escrever reportagens.
Decidi.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Jantarada

Caros amigos que aceitaram o repto da jantarada de aniversário da (T)ralha:
A mesa está marcada para as oito, no Caracol, Rua da Barroca 14 (a rua da Barroca é parelela à rua do Norte e à Rua da Atalaia, sugiro o metro Baixa Chiado). A especialidade da casa é Pataniscas de Bacalhau com arroz de feijão. Aconselho.
Aqui ficam as direcções, gentilmente cedidas pela Via Michelin.

Princípio

Se não tenho coragem de cortar o cabelo, como terei coragem de mudar de vida? Vá, sê meu guia espiritual, Brígida, corta-me o cabelo.

E assim fiquei com um défice de vinte centímetros.

É oficial

Ninguém sabe, ninguém desconfia, mas eu tenho um relacionamento sério, estável, um que jurou estar ao meu lado na alegria e na tristeza e que vai honrar esse compromisso, sem vacilar, todos os dias até que a morte nos separe.
Foi há um ano que nos conhecemos. Foi no segundo piso de um edifício da rua Viriato que nos apresentaram, num ecrã de muitas polegadas. Gostei logo dele porque se vestia de preto.
A tralha faz um ano hoje e o seu primeiro visitante foi o senhor de nacionalidade holandesa que inspirou este amor.
A tralha faz hoje um ano, e teve na véspera do seu aniversário, um recorde absoluto: 230 visitantes únicos e 612 pageloads. E se eu estivesse registada no blogómetro, ocuparia a 133ª posição dos blogues mais lidos em Portugal e isso agradava-me, não o facto de ser mais ou menos lida, de estar à frente ou atrás de um ou de outro blogue, isto não é uma corrida, não há vencedores nem vencidos. Isto é um diário, isto é o mais belo exercício de exibicionismo que eu algum dia farei (quem sabe, quando me passar de vez, não ando por aí de gabardine como os loucos da cidade onde vim nascer, mas essa imagem não é bela, porque eu não sou escultural, tenho celulite e estrias de uma gravidez que me engordou 30 quilos), mas é um belo número, o 133.
A todos os seguidores (só 12 é que responderam afirmativamente ao repto do jantar, mas não faz mal, há-de haver foto-reportagem para ficarem invejosos), viciados, psicopatas, tarados, amigos de longa data, bloggers de referência e tantos, tantos outros, um grande bem haja. Voltem sempre. Esta também é a vossa casa. Porque há noites em que eu não me apetecia escrever. E só escrevo porque há quem comece o dia com esta tralha. Há quem acorde para o que não lhes apetece e desanuvie por estas bandas. Há quem dê oito seguidas. Há quem releia os arquivos. Há quem venha às cinco da manhã. Há quem leia do outro lado do oceano todos os dias, sem falta (são dois os leitores transatlânticos).
E eu não me sentia assim tão desejada há muito tempo.
Alea Jacta Est. Acho que hoje muda a minha vida. Vamos ver.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Encruzilhada

De tempos a tempos, dá-me para pensar nisto.
E hoje ao almoço dizia ao ex-marido: “Abre um restaurante comigo”. E ontem, de manhã, dizia à Magui: “Abre uma empresa de reabilitação urbana comigo”. E transanteontem, segredava a um draft da (T)ralha, “Eu sei a vida não é só isto. Que os dados estão lançados, que é mesmo assim, se eu não passar por aqui não recebo os dois contos, não descarrilo para o caminho que os deuses reservaram no dia em que teimei agarrar-me com força ao ventre da Magui. Eu sei que vou honrar o nome dos meus avós. Eu levo os dias a pensar nisto. Que, neste momento, eles não teriam nada para falar com orgulho de mim, como o taxista que me levou à Lapa e contou com os olhos brilhantes que o filho único, 28 anos, engenheiro informático, ganha 3.496 euros numa multinacional de consultadoria, que pratica bio-dança (seja isso o que for) e que ainda canta num coro - ainda o mês passado esteve no Funchal. Eu levo uma vida fácil. Não faço nada grandioso ou altruísta. Não estudo, não leio tanto como devia. Nunca lhes chegarei aos calcanhares, nem com pacto com o demónio eu chegava onde eles chegaram, e eu parti em vantagem, não faz sentido. Mas eu quero honrar o nome dos meus avós”.
O que é que eu sei fazer na vida? Há quem faça casas, há quem limpe casas, há quem destrua casas, há quem não tenha casas (isso é coisa que não falta lá em casa).
Há quem prenda ladrões, há quem roube lojas chinesas, há quem durma tão cansado, nem um beijo os estremece (agora veio-me esta do Sérgio Godinho), há quem varra ruas, há quem lave escadas, há quem grelhe hambúrgueres, há quem masturbe homens de aspecto decente em vãos de escada (está-me a dar forte e feio para o plágio), há quem lute e ao lutar veja o mundo andar para a frente (mais uma vez o Sérgio).
Eu faço redacções. Composições. Sou a notícia de ontem que amanhã forra o caixote do gato ou do lixo, sou a cama da castanha assada.
Estou numa encruzilhada.

Dois enrabanços em dois anos

Se calhar, já é demais.
Se calhar, está na hora de mudar de vida.

Last call

A caixa do Gmail desta tralha até se queixa de tanta confirmação para o primeiro aniversário deste blogue (eheheheheheh you wish... mas já somos mais de dez, eu não estava à espera disso sequer, e há muita malta que eu não conheço que confirmou). Aos que já aceitaram o repto, posso dizer que já temos restaurante: o Caracol, no Bairro Alto. Para os que não confirmaram, o que é que estão à espera?

Espero que tenham gostado de voar a bordo da nossa companhia aérea.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Breaking the waves

Escuta-me. Tenho tantas histórias para te contar.
Pacote de açúcar 7/9 gramas da Delta Cafés, edição Natal 2005


O raio da bica, que sai da máquina barulhenta, que parece que se peida quando alguém carrega no botãozinho, a máquina que é minha vizinha no primeiro piso de um edifício de fachada verde pistáchio da rua Viriato, já se foram todos embora e ela é a minha única companhia, daqui a umas horas aparece a Alenis e traz-me o lanche num carrinho, depois, troco dois dedos de conversa com a Dona Maria e isso lembra-me que hoje ainda não peguei no 24 Horas para lho dar, e não há nada como ter uma editora ditadora que me obriga a entregar os textos às cinco da tarde, e como assim tem que ser, porque sou bem mandada, porque sou eficiente e gosto de corresponder às expectativas, primeiro o trabalho, só depois passo a alimentar a tendinite a pão-de-ló aqui na (t)ralha. Mas eu gosto mesmo é de escrever no sofá laranja, lá tudo é mais sentido, tudo faz mais sentido, mas agora estou aqui sozinha, também sabe bem escrever com os auscultadores gigantes na cabeça a passar o Blue Moon e a voz da Billie dengosa. Agora só há vida para lá do cubículo de vidro dos fumadores que é o meu vizinho de trás, que me separa da minha secção, e tudo bate certo, a música, o lusco-fusco, e o café, que me aquece as mãos, geladas - sempre que escrevo fico com as mãos geladas e mãos frias, coração quente, amor para sempre -, que não me desperta porque sou imune à cafeína, quando nasci caí num caldeirão de excitantes, se calhar enfiei os dedos na tomada quando era recém-nascida, se fiz um streap tease compelto no berçário, porque não uns dedos na tomada? E sou hiper-activa, às vezes até me chateia, queria fazer menos coisas, queria, sobretudo, pensar em muitas menos, mas o café, o que é de borla e que até nem sabe mal, passou a ter outro encanto com estes pacotinhos de açúcar com ditames encantadores, e por falar em ditames, eu sei que não tem nada a ver, ou se calhar tem, não sei bem, hoje recebi o mesmíssimo horóscopo de ontem, não sei se é bom sinal, ou se é mesmo a Optimus que já nem se dá ao trabalho de mudar as mensagens - provavelmente sou a única que subscreve este serviço, o meu signo é Caranguejo, para quem quiser saber. Diz-me assim, há dois dias consecutivos: "Poderá suscitar alguma inveja à sua volta. Um romance com uma pessoa mais velha ou mais rica está no ar". Venha o velho milionário, vá, eu não exijo anéis na Cartier, nem Vuittons verdadeiras, basta-me as lições de piano, em troca, prometo total dedicação, prometo escrever sem parar, e, neste preciso momento vem-me à cabeça a Bess McNeill, personagem do "Breaking the waves", do Lars Von Trier. Vou procurar uma imagem no Google.

Cá está ela. Vou dizer-vos que, tal como a Bess, eu pareço fraca e frágil, mas ganho força a lutar pela bondade em que acredito. Tal como ela, eu falo com Deus, e a minha própria voz responde por Ele. (E hoje descrevi-me como gravisca e grazina. E acho que melhor era impossível, utilizando a letra guê.)

E hoje vão levar-me ao cinema. Ao da minha infância. Ao do meu bairro. Este blogue pode ter sido responsável por um amor inventado. Pode ter culpas no cartório de eu ter perdido um grande amigo. Mas trouxe-me as amizades mais improváveis também. E todos se conhecem. Mas isso, é para outra posta, uma menos estranha, porque esta dava internamento compulsivo no Júlio de Matos (e desde que me deixassem andar de colete de forças pelos jardins, estava muito bem).

Piropo (?)

Dia - Sempre fotografaste o meu rabo?
Inominável que agora tem a mania que é fotógrafo - Achas, querida? Não tenho uma grande angular

terça-feira, janeiro 03, 2006

Porque

Porque cheguei a casa às nove e picos da noite e tive que levar com o chorrilho já costumeiro do que tipo de mãe quero ser, porque nunca chego a horas de dar o jantar à miúda, porque nunca, sequer, lhe fiz uma sopa, porque saí aos berros de casa, porque até me esqueci de ir ver o Natal com a Carolina à avenida de Roma e fui pelo túnel e ela ficou triste, porque trabalho como uma parva para levar 1000 euros para casa, porque depois de pagas as contas, comprado o tabaco e as fraldas sobram-me 300 euros para sobreviver, porque já deixei de almoçar, porque estou em défice estrutural, porque o fantasma disse-me "ele ainda gosta muito de ti", porque ela me disse que já sonhou que lhe dava um estalo apesar de não o conhecer, porque ele sorriu e foi simpático, porque se calhar ele lê, ainda cá vem, porque, um dia qualquer, ainda escrevo qualquer coisa bela e consigo-o comover, porque, quem sabe, ele se aperceberá que eu não fiz nada, porque tenho saudades, porque era um bom amigo, porque o coração parou por momentos ao chegar ao Campus do Politécnico de Setúbal, porque, na volta para Lisboa, olhei para o conta-quilómetros e marcava 190, porque tenho saudades de ter um carro potente, porque quero guiar um Twingo outra vez, porque a velocidade me deu sono, porque tive medo de adormecer na autoestrada, porque não durmo há muito tempo, porque ainda tenho que deitar a miúda, porque tenho que tirar a roupa da corda, porque há uma máquina inteira para estender e que está a ganhar mofo no tambor, porque tenho que ir secar o cabelo, porque vocês não têm que levar com isto, porque eu às vezes fico desesperada, desesperada a sério, não é como as giraças da série das donas de casa que vivem em casarões nos subúrbios, porque não vou ao cinema há um ano, porque não leio um livro inteiro há não sei quantos meses, porque, porque, porque, de repente, não mais do que de repente, como no Soneto da Separação do Vinicius (corta os pulsos com este, Carrie) não consigo escrever sobre casas e anúncios classificados.
Lamento.

Um pouco de sexo. Muita Poesia.

Com um pouco de sexo, ou muita poesia, ainda nos vamos casar.
Quinteto Tati

Açúcar

O pacote de açúcar da minha bica manhosa, gratuita, paga pelo patrão, diz assim:

"Acredito na força das coisas frágeis"

Eu também.

E mais logo, updates, porque isto foi um dia do além.

Viola Tricolor

Enquanto o meu candidato presidencial não sai de uma diligência (estará a defender um miserável operário despedido ilicitamente por um vil patrão?), enquanto não entra no seu BMW topo de gama, enquanto não dá um saltinho pela doca para olhar para o Tejo mal-cheiroso e para o seu iatezinho modesto, enquanto a secretária Francisca não lhe transmite o meu recado, enquanto tem o telemóvel desligado e eu não gosto de falar para gravadores, irrita-me a minha voz, os meus ésses muito sibilantes a lembrar cascavéis, e dêem-me tudo para fazer, venham os buracos nas estradas, os acidentes de viação e de trabalho, venham as cheias e os novos lisboetas de Domingo, não me ponham é a desgravar entrevistas, mas enquanto o candidato não está disponível, vamos a isto, a mais uma lição de botânica, com desvios para caminhos de cabras a cada três linhas.

Já vos contei. Guardo mágoas desta vida. Guardo-as numa caixa de madeira, fechada a sete chaves e três aloquetes, mas elas às vezes escapam, são arraçadas de Houdini. Não se deve guardar mágoas. Em que caixa-forte for. Com porta blindada, ou com fechadura das Chaves do Arreeiro. Não se deve. Debaixo do colchão ou emapredado na cave. Não se pode. Consomem, remoem nas entranhas, vincam-se na cara, mas eu não sou perfeita, levo muitas chapadas e depois esqueço-me, dou a outra face como o outro senhor das sandálias de couro que foi parar à cruz, tento dar a outra face, não gosto de odiar ninguém, estou cada vez mais banana, cada vez menos Ralha, mas isso até nem é mau de todo, eu rezo, eu voltei a rezar e rezo muitas vezes para não ser igual ao meu pai, que usa, suga e deita fora olhando apenas para o seu umbigo, eu sou boazinha, eu reciclo as minhas dores, transformo-as em textos, porque eu não sei escrever música, mas eu oiço música na minha cabeça a toda a hora, eu tenho tudo cá dentro, eu invento todos os dias uma melodia nova para a minha filha, mas depois esqueço-me, porque eu não sei escrever essa essa linguagem e a minha memória não é como a do meu avô Ralha, que declama os Lusíadas e a Eneida e a Odisseia que aprendeu há 70 anos atrás, eu nunca fui assim, de empinar, já não me lembro sequer da primeira declinação de Latim, mas tento exercitar a minha memória, tenho medo de acabar com uma doença neurológica degenerativa como a minha tia Lena ou a minha Tia avó Atilde, às vezes repito a melodia 300 vezes, vou no Idea, de manhã, levar a Carolina à Magui à Estados Unidos e desligo o auto-rádio para empinar a música do dia, inventada de manhã enquanto limpo um rabo, preparo um biberon, mas, invariavelmente, no final de mais um dia de trabalho, de orelha encarnada de estar colada a um telefone, de dedos cansados de tanto escrevinhar, depois disso, eu já me esqueci, porque não a escrevi, eu não sei essa língua, nunca ninguém ma ensinou eu só a entendo, mas se eu soubesse, as minhas mágoas eram canções, modinhas, fadunchos, mas tenho as minhas mágoas, as que não consigo digerir, as que não cicatrizam por dentro, apenas por fora, e que depois doem quando o tempo está a mudar como os meus joelhos, como, mais recentemente, a minha mão direita.
O senhor que mais mágoas tatuou no corpo (tatuagens definitivas, não são daquelas que saem em três anos e a Magui continua a achar que a que está desenhada nas minhas costas vai desaparecer, ou se calhar não, ela já não fala disso, conformou-se, como os pais que têm filhos gays, ignoram, não citam a orientação sexual da sua descendência na esperança de se não se fala não existe, mas não é assim, eu passo grande parte do meu dia - das minhas noites, sobretudo - calada e existo, continuo cá, às vezes olho de soslaio para ver se estou toda ou se já desapareceu qualquer coisinha, mas, no caso da tatuagem, para não ser deserdada, tive que garantir à minha mãe, que a libelinha arte nova que está gravada a preto no final das minhas costas é das que saem com o passar dos anos e já lá vão três e qualquer coisa, fui almoçar ao Independente e depois decidi fazer uma tatuagem), que me marcou com ferros em brasa, quer eu queira, quer não, para o resto dos dias, e fê-lo num curtíssimo espaço de tempo, ele tinha lençóis de flanela com amores-perfeitos roxos estampados, tinha amores-perfeitos numa cama de solteiro de contraplacado, que rangia sem ninguém lhe tocar.
Eu estava muito drogada, substâncias legais, prescritas pelo médico, aviadas na farmácia. Mas lembro-me dos amores-perfeitos no quarto poeirento que me fazia alergia. É a melhor recordação que guardo dele, numa caixinha pequenina de veludo azul escuro. Essa, e descer a correr, de braços dados, de saltos altos, muito altos, muito finos, uma ruazinha a pique ao pé do Largo do Caldas.


Viola Tricolor. Herbácea da família das violáceas. Conhecida vulgarmente, em Portugal, como amor-perfeito. Tem outro nome de baptismo, que poucos conhecem: "erva-da-trindade", denominação meia beata, porque as as suas flores podem ser de três cores, como as entidades da Santíssima Trindade.
Em França, é flor amada há séculos e séculos e chamam-lhe "pensée" (pensamento) - quando o que importava era a intenção, as pessoas ofereciam flores e não Playstations ou Ipod's (as flores parece que agora estão confinadas ao piroso dia dos namorados e aos funerais, a mim, não se atrevam a comprar-me coroas de flores quando eu morrer; dêem-mas em vida, camandro!). Se a intenção era o desejo de ser lembrado por alguém, enviavam-se ramalhetes de amores-perfeitos. Reza a lenda que, as mulheres dos marinheiros, da Bretanha, davam um pouco de terra dos amores-perfeitos dos seus canteiros ao maridos, para que não se esquecessem delas e da família durante as longas viagens. É símbolo da meditação, de recordações e reflexão.
É impossível não se associar esta singela flor, utilizada amiúde para as bordaduras de canteiros de jardins coloridos, com o amor. Tal como ele, é muito frágil e delicada, tal como ele, tem uma curta duração (que seja eterno enquanto dure).
Na Idade Média, os feiticeiros acreditavam que ela afastava todo o tipos de mal. Poucas pessoas o saberão - eu sei porque sou um reservatório de conhecimentos inúteis -, mas o amor-perfeito é uma flor comestível (saberá esta, a senhora Lucena?)
Por isto, por muito mais, porque desejo amores-perfeitos para todos os dias de 2006 (amores-perfeitos podem não ser esses que vocês estão a pensar, eu não estou desesperada, não ando à caça, apesar de ter nome de divindade associada a essa actividade, falo de amores-perfeitos associados a amores incondicionais, falo de amores perfeitos do tipo: "Dia, vai tirar as pilhas do vibrador e põe no porquinho da tua filha, para ele cantar e dançar", falo de amores-perfeitos que me ensinam palavras japonesas e bailados de karaté, falo de inconfidências trocadas no primeiro blind date, falo disso, não falo de quecas, não falo de instant pleasure, como na canção do Rufus que toca neste preciso momento), bebi a primeira bica do ano na Suprema, atravessei a rua para o outro lado, entrei na Romeira com a Magui, há 20 anos atrás, a Magui entrou na Romeira para comprar coroas de flores para o funeral da minha avó Tóia, e elas estavam a fazer coroas funerárias com rosas, orquídeas, coroas imperiais, com fitas de cetim roxas, com cruzes douradas, a chefe gritava ao telefone, "Onde está o carro funerário? Já devia estar cá a levantar a encomenda!", eu senti-me num episódio do Sete Palmos de Terra, mas comprei dois amores perfeitos, um euro cada, um para mim, um para a Thê e devia ter comprado mais dois: um para o Ganilho, outro para a Carrie. Eu sempre gostei de metáforas, eu sempre gostei de amores-perfeitos.
[isto é o que dá a quem está demasiado atento à realidade, a quem é fixado nela, como diria o inominável, um dia, no fumódromo do primeiro piso de uma fachada verde da Rua Viriato]

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Teaser

A, de Amor-perfeito: esqueço-te de qualquer jeito!

[Lá para as tantas, há-de haver postas sobre as "Viola Tricolor" ]

Convite


[Eu não disse que o Manual fazia uns bonecos lindos? Têm que carregar na imagem para ver o elevador da Bica a andar para cima e para baixo, enquanto eu não descubro solução para este problema informático]

Jovem, tens mais de 18 anos, e passas todos os dias, várias vezes ao dia, por esta [T]ralha, satisfazendo um estranho ímpeto voyeurista? Retiras um prazer difícil de explicar racionalmente, ao ler os devaneios literários de uma pita da avenida de Roma, que tem mania que é exibicionista?
Se cumpres os requisitos supra-citados, chegou a hora de saíres do armário, de deixares de ser um IP, e se, volto a frisar, tens mais de 18 anos, junta-te à festa do primeiro aniversário da [T]ralha, no próximo Sábado, dia 7. A janta há-de ser para os lados do Bairro Alto (depende de quantos leitores aceitam o repto) e a ideia é passar pela Bicaense e acabar a noite no Lux e deixar tudo em pantanas.
Confirmações para a caixa de comentários, ou para o e-mail empantanas@gmail.com.

Seja eterno enquanto dure

Soneto da Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa (me) dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Hoje acordei com este. É do Vinicius.
Daqui a nada, depois de falar com a editora que me pôs a fazer o Garcia Pereira, já venho escrever umas postas.

2006

Começa muito bem.
Fiz, pela manhã, trançinhas como as que a avó Tóia tecia no meu cabelo, quando eu era pequenina (acho que vou começar a trazer trançinhas mais vezes), trançinhas à donzela Briolanja (seja lá isso o que for).
Fui tomar café à Suprema com a Magui.
Comprei dois amores perfeitos na Romeira (um para mim, outro para a Thê; adoro metáforas).
A Thê e o Ganilho resgataram-me. Fomos ver o mar revolto, no Guincho, trememos de frio, mas teimámos em fumar um cigarro inteirinho a olhar para o mar. Espreitámos, também, uma lua finíssima, em quarto crescente.
Jantámos na Marta, os quatro, já com a Carolina, Telepizza Bacana, com "lalas" (tomate cherry em carolinês) e queijo feta a acompanhar.
Amanhã, regresso ao trabalho e escrevo qualquer coisa menos telegráfica.
É que é quase uma da manhã e eu não posso continuar com esta vida de não dormir. Faz-me rugas, olheiras, papos, pés de galinha e um feitiozinho de merda.

domingo, janeiro 01, 2006

Onde é que se bebe uma bica no primeiro dia do ano?

Filha entregue no Largo de Andaluz. De volta ao dashboard, enquanto a Thê não me resgata, às 16H00.
Hoje vamos ver o mar. Lá para os lados dela, para a linha, e eu não sou assim tão inteligente, ainda bem que todos adormeceram na sala enquanto eu levantava a mesa para jogarmos Trivial, porque se tivessem ficado acordadinhos caía o mito, não sei nada de nada, mas geografia é mesmo a maior mancha, liguei à Thê a semana passada e disse-lhe, amor já estou perdida, vou na Parede, como é que eu volto atrás para Cascais? Eu não sabia que Cascais era o fim da linha, que depois só o Guincho - isto são palavras da Teresinha, que me fez este croqui -, para mim, o Estoril era o fim da linha, mas depois de ela se aperceber que o meu GPS era flipado, era à minha imagem e semelhança, a Thê disse-me para eu ficar quietinha em frente ao Casino, que me iam lá buscar, porque eu sei ir ter ao casino, fui lá ver uma monográfica de galgos com o Miguel há uns bons anos atrás, aliás, hoje o meu horóscopo diz para eu ir ao casino, mas estava a chover, e eu estava a conduzir, a mascar pastilha e a escrever um post na cabeça ao mesmo tempo e nem isso - parar em frente ao casino - consegui fazer.
Adiante.
Preciso de uma bica.
Preciso de companhia para tomar a primeira bica do ano.
Onde é que se bebe uma bica no primeiro dia do ano?
Ontem, almoçámos às cinco da tarde, no Galeto, e eu só bebi a bica a essa hora. O resultado foi uma gigante dor de cabeça a duas horas de receber os meus convidados chez Ralha, cefaleia essa que fulminei com um comprimidinho milagroso, de venda livre, que a minha mãe toma para as suas torturantes dores, eu queria só uma aspirina, um panadol, mas ela só tinha codeína e pronto, lá enfiei um opiáceo para a corrente sanguínea (só por graça, em 2006, vou fazer análises ao sangue e, para além das venéreas, que só pela divina graça do espírito santo é que dariam positivas, vou pedir ao médico para me passar a credencial do serviço nacional de saúde para medir os meus níveis de THC, para ver se ando a abusar, eu aposto que não e só para ficar em acta, eu sei que parece difícil, mas nunca escrevo posts sob o efeito de quaisquer outras substâncias que não a nicotina).
Uma bomba de gasolina é demasiado deprimente para o primeiro café do ano.
Vou outra vez ao Galeto beber uma bica?
Vou buscar a minha mãe, que já me informou que morreram esta madrugada quatro pessoas no cruzamento da EUA com a Gago Coutinho?

Fiz uma pausa para mais um cigarro, abri umas tabs e fiz a ronda pelos blogues, para ver se há mais alguém acordado, sem ressaca, e em frenética produção bloguística. E há. (Nas análises que vou fazer, devia pedir o nível de blogger no meu sangue, creio que eu e o FTA rebentaríamos a escala, estaríamos em fase terminal, sem reabilitação possível).
O meu amigo blogger escreve (coisa filha da puta, essa, de escrever as resoluções, a palavra escrita pode ser um fantasma, uma maldição mesmo) que a sua única resolução para 2006 é estar mais atento. É uma bela resolução. Não vá é ficar cego de tanto ver, como a sua amiga do ip 213.22.73.21.

É tão bom escrever sem propósito, sem objectivo, apenas aliviar o cérebro. E como diria um dos meus bloggers favoritos, no seu maravilhoso quintal, que eu não posso linkar, a bem da minha saúdinha:

"Não escrevo bem nem mal. Escrevo até à insanidade"

"A esquizofrenia faz o blogger. Antes de começarem a escrever um texto, escolham a doença mental"

Foi há 20 anos

Há 20 anos, a minha avó Tóia morreu.
Sonhei a noite toda com a minha avó. Chamou-me abelha mestra, fez-me trançinhas com laços de seda, encaracolou a pontinha do cabelo com o dedo e depois, quando eu estava quase a acordar com o despertador, para ir entregar a miúda ao pai, e no sonho ela conheceu a Carolina e disse que ela era igual à Magui, despediu-se de mim, com uma festinha nas minhas bochechas.
E aqui, ao nosso lado, na fotografia, a morte estava tão perto, mas eu era tão pequenita, não sabia disso, não a via.

As doze passas

Não gosto de passas e, por isso, nunca faço os doze desejos da praxe.
Em 2006, porém, comecei uma nova tradição: enquanto todos contavam as sultanas, eu peguei no meu cigarrinho de substâncias ilícitas.
A cada passa, um desejo. Se resultar, para o ano há mais.

sábado, dezembro 31, 2005

Balançinho

Na assoalhada à minha direita - será que alguém deu pela minha falta? -, comem-se camarões e lagostins. Até eu comi camarões - lagostins não sei descascar, a Magui descascou-me um para eu experimentar, eu nunca como marisco, sou uma mulher económica, não gosto de marisco, não gosto de caviar nem presunto - e o Leonardo está a comê-los à mão, em vez de usar faca e garfo. Ninguém tirou fotografias, se eu não o escrevesse aqui, não haveria registo para a posteridade.
O ano despede-se alegre, acompanhado de uma reserva tinto de 1999 - a Marina também gosta das cabeçinhas, diz a minha mãe ali do meu lado direito - e, tal como aconteceu com o Natal, o melhor Natal de há muitos anos, tudo corre melhor do que se poderia imaginar.
Venho aqui, a uma hora e cinquenta do novo ano, um ano par e, apenas por isso, torço-lhe o nariz, eleger os cinco melhores textos que escrevi em 2005 - cinco porque é ímpar, cinco, um por cada dedo da minha mão doente, cinco porque três não consigo escolher, é muito pouco (escrevi 411 posts em 2005), cinco porque estamos em 2005. Gosto de muitos mais textos, gosto dos mais merdosos até, tenho-os quase todos na cabeça, sei, inclusive, os meses em que os escrevi, não é difícil encontrá-los.

Os que eu mais gostei de escrever foram estes:

Deus no armário dos sapatos

Menina Alzirinha

Os loucos

Há tanta gente infeliz


Às catorze horas e quarenta e três minutos

Estão a chamar-me. Até.

2005

Às vezes, escrevo posts de cuecas. Durmo de cuecas, e acabei de acordar, a Carolina deixou-me dormir até ao meio dia e meio e, esta noite, fiz batota, precisava mesmo de dormir, tomei um poderoso soporífero, por isso, vivam com isto, eu sei que é demasiada informação, que não precisavam de o saber mesmo, mas, neste momento, estou sentada no sofá laranja a escrever de cuecas. E enquanto escrevo estas linhas, xuto uma de ER no AXN, e quando escrevo posts de cuecas, a bateria do Ibook dá-me umas mini-descargas eléctricas nas pernas, que às vezes não me chateiam, mas hoje está particularmente eléctrico o computadorzinho da maçã.

2005 não foi um ano tão mau como possa parecer, ao reler este blogue - a (T)ralha nasceu a 6 de Janeiro e acho que devíamos comemorar o seu primeiro aniversário algures no Bairro Alto (boa?).

Não faço balanço deste ano.
Agradeço ao amigo que já não é, por ter sido o notário que me entregou a escritura deste pedaçito da Blogger.
Agradeço ao Andy e ao seu desaparecimento súbito em Fevereiro, agradeço a paixão assolapada que senti pelo senhor holandês - eu não me apaixonava assim há muito tempo, totalmente platónico -, agradeço-lhe mesmo o facto de ter inspirado as postas tristes dos primeiros seis meses de vida da (T)ralha.
Tenho que agradecer, também, ao indivíduo com quem tomo bicas em cafés manhosos, porque sem ele, não teria escrito postas sublimes, não me teria sentido invencível, não me teria sentido uma merda também, mas, sem ele, não teria escrito palavras que nunca supus ser capaz de parir e que estão aqui, neste layout preto, para mais tarde recordar.
Sem eles, sem estes três homens que marcaram 2005, não conheceria a Thê, o Ganilho, a Mary, a Cordeira, o FTA, o MPR, o Manual, e tantos outros (o levantamento é exaustivo, nem é esse o propósito deste post, até porque o computador continua a dar-me esticões nas pernas e é um pouco desagradável).
E vocês, pandilha de leitores ainda sob anonimato, não teriam nada para ler de manhã, se eles não me tivessem assombrado em 2005.

Feliz ano novo.

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Ao que tudo indica...

... lembraram-se do meu nome para seguir um candidato presidencial...
Ehehehehehehehhehe
Lá andarei eu de saltos altos por esse país a espalhar glamour.

O homem da minha vida

É a única foto que tenho grávida. E está desfocada - a Catarina tem uma boa colecção de flashs tirados na cervejaria Lusitana do Picoas Plaza, 18 horas antes de eu ter uma filha loira de olhos azuis nos braços.
Está desfocada, mas é a única que tenho. É a que mais amo. Porque, do meu lado esquerdo, o do coração, está o homem da minha vida, o amigo eterno, o amigo arraçado de anjo (os anjos não têm sexo), o amigo sem confusões e a Magui diz que não há nada como ter um amigo assim e eu percebo do que ela fala.
A fotografia foi tirada algures nos primeiros dias de Dezembro de 2003, numa quinta em Aljeruz, Palmela, no dia em que a Carolina parou de se mexer na minha barriga, no dia em que tudo se teve que precipitar, e ela acabou por nascer três ou quatro dias depois, no dia de nossa senhora da Conceição, e não no dia de Natal, quando acabava o termo da gravidez, e eu não sou católica, não acredito em santas, mas eu estive quase a perdê-la nesse dia, quando as máquinas começaram a apitar por todo o lado e o coração dela a parar, eu quase a perdi e, por isso, abriram-me a barriga, sem anestesia, ainda me lembro do grito que dei quando o bisturi me rasgou a pele, de estar amarrada à marquesa, dos gritos do obstetra para a anestesista, das paredes de mármore cheias de sangue, de olhar para o meu lado esquerdo para a minha mãe para ela me dizer se ela estava viva, de dizer-lhe que não conseguia respirar, foi momentos antes de eu desmaiar, eu disse, ela chama-se Maria.
Eu tenho mágoas nesta vida. Ter tido uma filha em segredo. Não ter o Miguel ao meu lado quado ela nasceu.
Ele foi-se embora às seis da manhã e, como eu previa, a vida já não é tão fácil como nos últimos dez dias.

A octogenária que comprava cuecas de renda por 30 euros e outras histórias que não lembram ao menino Jesus

Não queria fazer aquela chamada.
Inventou mil pretextos para não a fazer.
Podia ser que ninguém lhe perguntasse se já tinha cumprido aquele seu último dever.
Primeiro, ficou de ir lá a casa despedir-se, à casa que cheira a velha, e que fica junto ao estádio do Sporting.
Não deu satisfações para não o ter feito. Ninguém lhas pediu, também.
Todos compreendiam a resistência em pegar no telefone portátil e fazer um pouco de ginástica nos dedos pelas teclas numeradas de zero a nove.
Teve uma vida cheia. Mentiu sobre a idade desde os 30 anos. Gastou rios de dinheiro em lingerie. Ainda hoje, com 89 anos, compra cuecas de 30 euros. E soutiens, com muita renda. Manda ainda fazer por medida, à costureira, as suas combinações de seda pura.
Foi uma mulher vistosa. Vistosa, não bonita. É baixa, é muito magra. Tem umas mãos e unhas enormes, belíssimas.
Este ano, deixou de pintar o cabelo de loiro platinado, vi-a no dia de Natal com um plix roxo, estranhei, percebi que algo se passava, mas a maquilhagem estava impecável, a lucidez e pose altiva iguais, e apesar do cabelo roxo, ninguém diria que que faltam três meses para os 90 anos.
Ninguém diria que a morte estava sentada a seu lado.
Não chegará lá, dizem. Ninguém acredita que chegue aos 90. Eu arrisco que sim, que chega. Porque é teimosa e quer morrer com 90. Não com 89. Gosta de números redondos. E 90 é um posto. Aos 80 muita gente chega.
Aos 80, fez o pino. Quando estava de cabeça para baixo com as pernas ao alto, já tinha a seu cargo, numa cadeira de rodas, o ex-marido, de quem cuidou até à morte apesar de não suportar o velho, sentiu orgulho da mulher que era. Da família enorme e unida que tinha. O sangue subiu-lhe à cabeça, sentiu-se uma menina de tranças e laçarotes de seda a passear de sapatos de verniz pelas ruas da Figuerira da Foz, mas nunca, nem aí, nem minutos, dias e anos mais tarde, lhe passou pela cabeça que ali, com o pino, com os 80, tinha ficado tudo de pernas para o ar.
Começaram os anos mais difíceis. Com pouco glamour. Sem as idas ao Casino com os visons, sem as jóias, sem as unhas pintadas de encarnado.
O velho morreu, até foi um alívio, era um vegetal. Meses depois, suportou a morte dolorosa e rápida do seu único filho, um solteirão bon vivant, que um cancro nos roubou a todos nós. Todos vaticinaram que morreria em menos de um mês. Com o desgosto. Resistiu.
Há coisa de seis meses não se finou numa cirurgia de coração aberto. Os médicos ainda não acreditam na pujança daquele coração remendado de Matusalém. Às vezes, os mais cépticos, vão lá com o estetoscópio ver se ele bate mesmo, se a mulher dura de rosto quadrado estará mesmo viva, ou não será um boneco da madame Tussaud.
Há seis meses atrás ainda me deu conselhos sobre a importância da disciplina na educação da minha filha Carolina. Há coisa de dois meses, conseguiu enlouquecer uma empregada brasileira com o seu mau feitio.
Parece que o seu fígado parou, resta-lhe pouco tempo.
Ele não queria discar o número.
Sabia que era a última vez que falava com a sua tia Mami.

Esta é para o Miguel, que parte daqui a duas horas para o Dubai, e para a Mami

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Ainda não é a história do Pap'açorda. Os posts são como as cerejas.

[Reeditado]

Claro que não reparou nos candeeiros. Era novinho, loirito, não era nada feio e eu tenho pena que não me chegue um espécime destes, que eu nunca vá ser feliz com um indivíduo que possua apenas boa aparência, corpo torneado, que saiba montar candeeiros e pendurar varões de cortinados, não me basta que dê oito seguidas de manhã, outras tantas à tarde e à noite, eu sei que não é por aí, não vale a pena sequer tentar, eu disse isto à Clara, durante o almoço económico de há um mês atrás, umas tostas merdosas à beira mar, os dois directores das publicações mais vendidas de Portugal penso que ouviram a minha clarividência súbita, eu, estranhamente, nem estava a falar alto como é costume, mas também não sussurava, acho que me ouviram mesmo e deram ordens automáticas e vitalícias aos seus cérebros para nunca me virem a contratar seja em que circunstâncias for, um do meu lado direito, o outro do meu lado esquerdo, disse isto à Clara, a minha companheira de desterro, que sempre que está comigo me pergunta por gajos e a minha resposta é sempre a mesma, nada, nada, nada, mas acho que descobri a pólvora desta última vez, eu respondi isto à Clara e acredito mesmo que esteja certa: eu só vou sossegar, eu só vou ser feliz, só vou ter paz, ao lado de um homem que seja mais inteligente do que eu.
Da mesma forma que a Magui justifica a má sorte com o sexo masculino com o facto de ter passado a vida a procurar um homem igual ao seu pai, Manuel Lourenço de Oliveira - não encontrou na sua demanda, pela vida fora, nenhum exemplar que chegasse aos calcanhares do meu querido avô -, eu preciso de um homem inteligentíssimo para me amansar.
A Magui confessou-nos isto, a mim e ao Hugo, no dia de Natal, e ò Pai Natal, esse post está em draft, não sei se sairá desse estado vegetal algum dia, mas tu não sabes como me fizeste feliz, o melhor presente de sempre, um Natal com o Hugo, coisa que não acontecia há vinte anos, ainda para mais de surpresa, mas, voltando ao que interessa, estávamos os dois na cozinha, a tecer considerações sobre o amor, o desamor, a vida e para que é que cá andamos e a Magui intromete-se na conversa entre dois primos que se amam como irmãos, que são praticamente da mesma idade, um mais problemático que o outro e, zás, diz-nos isto do pai e eu não ando a procurar sacanas como o meu pai, apesar de o meu pai verdadeiro, o mano Leonardo ser a pessoa mais inteligente que eu conheço, aquele que eu tento que tenha orgulho de mim, o que se me dissesse "apaga o blogue que ainda te fodes" eu nem pestanejaria e carregaria no delete, se calhar até podíamos analisar por aí, ando à procura de uma réplica do meu irmão, ou então, voltamos à teoria dos pais biológicos e o meu é um sacana ímpar e, de facto, tenho feito um casting rigoroso, têm-me calhado uns na rifa indivíduos com o mesmíssimo calibre do meu dador de esperma, vampiros de emoções, capazes das coisas mais impensáveis; e, depois de a minha mãezinha me ter inquietado com isto, voltou a meter-se nos nossos diálogos existenciais e disse também que a vida não passa de um dia após o outro, disse isso com uma paz que eu, provavelmente, nunca terei, porque eu sei que só serei feliz com alguém que seja mais inteligente do que eu, alguém que me inspire numa base diária, que faça revelar o melhor que há em mim, que me faça aprender com prazer as coisas mais bizarras, que me desafie numa base horária - há uns anos, eu tornei-me expert em direito do trabalho, não porque estivesse apaixonada pela minha fonte, mas porque ele era mais inteligente do que eu, anos luz mais inteligente do que eu e, por isso, porque ele era inteligente e adorava passar conhecimento, eu serei ainda, provavelmente, a jornalista que mais sabe em Portugal sobre contratação colectiva -, e venham as tendinites todas de tanto escrever, venha a miopia de tanto ler, fique sem pestanas de tanto estudar, vinquem-se as olheiras de não dormir, porque eu sei que só poderei ser feliz assim.
Entretanto, distraio-me com rapazinhos bonitos, como o que veio cá dar à luz, que se deixam hipnotizar apenas com decotes profundos em vê, de renda preta, do "cache coeur" (gosto tanto desta palavra e tenho milhares destes casaquinhos traçados) que a Magui me ofereceu no Natal.
Não olhou para os tectos, não viu candeeiros, na verdade, não elevou o olhar para lá do metro e setenta que os saltos me emprestaram esta tarde, e como já estava escuro cá em casa e não havia electricidade, eu tinha umas velas acesas na janelinha da cozinha bordel, e toda a gente sabe que uma mulher, qualquer mulher que seja, pode até nem ser um mulherão, à luz amarela e difusa das velas, qualquer coirão ganha graciosidade, qualquer tez baça ganha luminosidade, e eu até nem sou feia, o meu problema não é esse, é a saliência que a minha inteligência um pouco acima da média me dá, coitadinho, não tinha mesmo hipótese de reparar nos candeeiros.

Um abraço ao meu querido Mac, um amigo que está sempre lá, o amigo que me veio desligar a electricidade às dez da manhã, trepando por um escadote acima e correndo perigo de electrocução, um amigo que, cheira-me, é mais inteligente que eu, mais psicopata que eu (esteve a ajudar na decoração da cozinha com os caixotes), mas que foi apanhado primeiro pela minha melhor amiga.

Candeeiros? Quais candeeiros?

Amanhã, abro a porta assim, ao gajo da EDP. Reparará ele nos candeeiros pendurados nos tectos altos da Martinha?

[E amanhã, bem cedinho, ao acordar, porque hoje tenho que dormir, são três da manhã e hoje não pode ser até às cinco da matina, vou ligar a televisão (para justificar os quase 22 euros que pago de TV Cabo), procurar um canal qualquer que esteja a dar televendas, não vou ligar o aquecedor porque sou pobre, porque ando cheia de dívidas e a electricidade vai passar a ser paga daqui a 12 horas, por isso, é melhor começar a habituar-me ao frio, da mesma forma que me habituei a banhos rápidos para poupar a botija de gás light da BP, que invariavelmente carrego escada acima e escada abaixo, porque nunca me lembro de pedir uma aos senhores que apenas cobram um euro para a elevar ao meu quarto andar; tenho que dormir, porque ando impossível, rabugenta, de manhã, saio do prédio, fecho a porta horrorosa de alumínio, entro na tasca duas portas ao lado, já no largo de Andaluz, e peço três cafés curtos e a Dona Beatriz fica a olhar para mim com ar de pânico e reprovação, e eu explico-lhe que não consigo dormir, tenho vontade de lhe dizer: falta de sexo, D. Beatriz, mas não digo, porque ela me tem em grande conta, esta história de mãe solteira a viver num quarto andar sem elevador faz de mim uma santa, mas amanhã, assim que acordar e começar a montar o cenário de caixotes de mudanças na cozinha bordel, ligo o computador, utilizo a wireless internet que esteve operativa antes mesmo de eu ter água (a net é a minha necessidade básica e ponto final - salvo seja, porque nesta terra continuam desaparecidos, sem deixar rasto, esses sinais de pontuação imprescindíveis em qualquer prosa), sento o Ibook voador na bancada fria de mármore e escrevo sobre a minha primeira refeição no Pap'acorda, esta história tem mesmo que ser contada, mas amanhã de manhã, porque hoje tenho que me obrigar a dormir, e esta noite vou desmaiar o corpo do lado direito e imaculado da cama, porque a Carolina está a ocupar a minha metade esquerda, deixo apenas um cheirinho desta bela noite, regada com Quinta de Pancas, e adianto-vos que, na mesa ao lado da nossa, com uns brincos demasiado dourados e ridículos, mas com uma figura elegantíssima, estava a Qui Qui Espírito Santo (é Qui Qui, como a minha mana Quintela?) e que eu e a Maria combinámos, caso não apareça o idiota do príncipe encantado em 2006, combinámos isto com o consentimento do Miguel, que nos pagou a janta na rua onde eu não punha os saltos altos há muito muito tempo, combinámos, dizia eu, engravidar, ao mesmo tempo, do nosso melhor amigo, porque não há amor como o dele e porque a vida, nestes últimos dez dias, andou mais cor-de-rosa e ligeira, mas depois das dez da manhã de sexta-feira, vai outra vez ser insuportavelmente dolorosa, porque ele apanha o avião na Portela e volta para o Dubai e, em Fevereiro, assina um novo contrato de três anos com a Emirates.]

quarta-feira, dezembro 28, 2005

E os Pestana nem vê-los

Não pode ser todas as noites, claro que não, só quando estou na casa de um recém-amigo que desenha anjos negros como ninguém, é que me dá para desmaiar de cansaço.
Hoje que precisava de dormir, claro, nem vê-los, nem um parente afastado me bate à porta, nem sequer se digna a mandar um toque para o telemóvel, eu ligava-lhe para ele não gastar dinheiro, mas nada, e eu vou só escrever este mini-post porque isto é pior que um vício e é um vício que puxa outros vícios que me enegrecem os pulmões e me destroem a linda voz que a Magui me deu, amanhã, os senhores simpáticos da EPAL, que evitaram que eu tivesse um chelique (é assim que se escreve? sabes, Isa, eu também não tenho dicionário de português no Ibook voador, diz-me uma coisa: o teu também é de doze polegadas?) nos primeiros dias de 2006, ao abrir um envelope com uma nota de débito de 3500 euros, vêem bater cá a casa às oito da matina para confirmar a leitura do contador, não vá eu ter enviado o da electricidade desta vez, e a propósito de electricidade, e outra vez sem pontos finais, esses, também ninguém os vê por estas bandas, pregam noutras freguesias, na quinta-feira à tarde, os senhores simpáticos da EDP virão cá dar à luz e eu vou fechar todas as portas de casa, vou deixar apenas a cozinha à mostra, e vou dar uma de cenógrafa, eu sou muito boa em qualquer coisa em que me meta, uma vez, há quase 15 anos, um pica apanhou-me na estação de Roma sem bilhete de metro e eu dissuadi-o de me passar uma multa de seis contos (na altura, éramos pobres, miseráveis, um dia escrevo um post que vos fará rir à gargalhada sobre a pasta de dentes da TWA que esprememos até ao limite do impossível e das mil e uma maneiras de cozinhar pescada que a Magui inventou, mas eu não comia a pescada, deixei de comer, não tínhamos dinheiro para isso), porque o fiz acreditar que era vítima de violência doméstica pela mão pesada do meu pai e ele caiu, e eu até chorar chorei e depois senti-me mal porque o Zé Ralha é um pobre Diabo que eu via, na época, uma vez por ano, e então, na quinta, vou tirar o fusível que me dá electricidade há 14 meses, vou pôr muitos caixotes no chão de xadrês encarnado e amarelo para fingir que me acabei de mudar para Santa Marta, se calhar, eles vão achar estranho eu ter os candeeiros montados na cozinha bordel, mas eu não vou descurar nenhum detalhe a não ser esse (não cabe na cabeça de ninguém desmontar os candeeiros, até porque eu não os sei montar outra vez), ninguém vai desconfiar que eu vivo e consumo ilegalmente energia eléctrica neste quarto andar há mais de um ano, até porque eu vou pôr um decote até ao umbigo, vou pintar-me e alongar as pestanas até ao limite do impossível, para melhor fazer olhos de Bambi, terei um metro e setenta e três com os saltos de dez centímetros e o simpático senhor nem terá hipótese de reparar nos candeeiros da cozinha.
(uff, recuperar o fôlego)
E agora vou acabar o meu livrinho. E ouvir o "Bom dia tristeza" do Vinicius de Moraes, musicada pelo Adoniran Barbosa.

terça-feira, dezembro 27, 2005

Imparável. Imbatível.

Vacinei a miúda, tratei da legalização da electricidade, paguei para me mudarem a lâmpada do Stop direito que entregara a alma ao criador há coisa de meio ano, fiz olhos de Bambi para me encherem os pneus e o depósito de água do esguichinho dos pára-brisas e para passarem polish na tinta azul de um pilar do estacionamento do feira Nova da rua Cidade de Bratislava, que teimou transferir-se à chapa do Idea por cima da roda direita traseira (quem houvera de imaginar que havia uma torneira escondida num pilar?).
Não há nada como uma boa noite de sono.
Hoje estou imparável. Hoje estou imbatível.
E vou comer um bife ao Snob.

Cura milagrosa

Continua a ser a primeira coisa que faço mal acordo: ligar o Ibook voador, abrir o Gmail, depois o PÚBLICO, depois checkar a blogalhada sem a qual eu não passo, através dos favoritos dinâmicos do meu browser Firefox 1.0.7 (tenho que fazer o upgrade, ando a adiar issohá muito tempo), que me informam se algum blogger arrotou novas postas de pescada sem eu precisar de abrir a página - a barra dos favoritos tem, por esta mesmíssima ordem, o Isto não é um Jogo, o Deitadinha, o Diário, o Músicas, o Hálito da mente, o Mau tempo, o Mais cidade que sexo, o Glória, e mais umas boas dezenas, mas estes são os que eu abro todas as manhãs.
Ligo o Ibook ainda de pijama, sem conseguir focar como deve de ser, a esfregar os olhos e arrancar pestanas sem dó, ligo o Ibook a bocejar, com pouca vontade de sair de casa, mas já não é o primeiro pensamento do dia, já não tem esse privilégio, apenas penso que já não penso nele e isso não conta sequer como pensamento, já não ligo o Statcounter todas as manhãs para ver se um determinado leitor já cá veio ler a colheita de mais uma noite de frenética produção de lençóis de caracteres (para o meu leitor da comoção, fique sabendo que hoje contabilizei, às dez da manhã, oito entradas no quintal do seu IP que não baralha o programita das estatísticas).
O Pai Natal curou-me. Não o vejo nas caixas do correio de Santa Marta sempre que me preparo para subir as escadas dignas de um filme de terror, que me levam a um quarto andar sobre a Duque de Loulé, não o vejo nas marcas que ficaram gravadas no hall da minha casa no dia 18 de Julho e que não saem de nenhuma forma, são tatuagens, não há Cillit Bang que me valha, não o vejo quando estou parada nos semáforos da rua Engenheiro Vieira da Silva, ou quando miro o gaveto da Duque de Loulé com a Luís Bivar, que antes era uma casinha apalaçada cor-de-rosa e agora é um prédio de sete ou oito andares amarelo.
E ontem adormeci profundamente em casa do meu anfitrião, que, por isso, teve que dormir no sofá, parece que as insónias se foram de vez, 2005 despede-se da melhor forma, com a cabeça limpa, com o coração varridinho, arrumado e colado com super cola três, no fim de tudo, um recomeço e ai eu bem que mereço tratar bem do melhor que há em mim.

O horóscopo de hoje:

Resista à tentação de fazer promessas a amantes, amigos, familiares ou sócios. A vida já é difícil sem esses compromissos. (lá se vai o pacto do bajulanço, gaita!)
E acabo de receber um telefonema da EPAL, enganei-me na contagem e enviei a leitura do contador de gás em vez do da água. Só me dava uma factura de três mil euros. ehehehehhehehe. Gajas...

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Outro, enquanto seco o cabelo

Não parava de o surpreender. No primeiro encontro, um vendedor de flores, de nacionalidade paquistanesa, abordou-os à mesa de um restaurante nem muito caro, nem muito barato, que estava na moda. Ela dispensou o homem e as rosas de estufa que trazia, dizendo alto, para todos ouvirem: Não obrigada. Já fodemos.

Post marado enquanto me visto para ir jantar

Era uma despudorada. Mal o conhecia e pediu-lhe para lhe fazer um blog.

Ainda a propósito da comoção

Ficai sabendo, admiráveis leitores, que a minha filha já sabe dizer anjo.
Aprendeu-o na véspera de Natal.
Em carolinês diz-se "bébé-piu piu".

A comoção é para os blogues sim

Como eu jurei que não comentava mais um determinado quintal (já abri duas excepções e agora vou ter que mandar umas vergastadas de penitência, mas à terceira é de vez e eu não quero ir parar ao inferno), utilizo a minha horta para te dizer que a comoção é a matéria prima dos blogues.
Esta tralha até pode ser pirosa, como o tal vestidinho cagão que deste à tua sobrinha (? deduzo eu) pelo Natal. Mas este é um quintal cavado, diariamente, por uma média de cem pessoas (muitas das quais eu não faço ideia quem sejam, como, por exemplo, o teu caso), que voltam duas a três vezes ao dia para ver se há novidades de uma estranha, que vive em Santa Marta, que cria uma filha sozinha, que morre de amores sempre pelos tipos errados, que adora as empregadas da limpeza, que se emociona com árvores, que oscila entre crises maníacas (mais raras) e crises depressivas (mais frequentes).
Há um leitor especial desta quinta, que me escreve estranhas e perturbadoras prosas para o e-mail que está aí do lado direito, e eu devoro-as devagarinho, saboreando cada palavra, ele trata por você, por "Querida Diana", trata-me com um respeito e solenidade às quais não estou habituada, e eu estou a divagar como sempre, ele vê-me como um objecto de estudo, e logo ao início quis saber se tudo o que escrevo é verdade. Não sei, não lhe perguntei quando respondi que sim, se faria alguma diferença, mas penso que faria, se tudo não passasse de uma grande imaginação.
Nesta casa, não há mais nada a oferecer senão comoção. E ao que parece, é um excelente petisco.

[De facto, ainda bem que eu não comento, não haveria pachorra]

Bajulanço - a primeira resolução para 2006

Hoje, três pessoas que se conheceram no Snob, num sábado de há umas poucas semanas atrás, vão sentar-se à mesa, vão degustar um requintado petisco de beringelas recheadas, irão emborcar um vinho bom e caro, que algum cliente do anfitrião enviou de presente de Natal (quando eu era jornalista de Economia, tinha, todo o ano, uma simpática garrafeira, a custo zero, patrocinada pelos banqueiros deste país; na secção que me calhou na rifa não há vinhaça para ninguém, vá lá que o senhor da Central de Cervejas continua a mandar-me paletes de Sagres e de água do Luso, tenho que fazer uma festa da cerveja cá em casa, a propósito), eu vou levar uma garrafa de champagne francês, que a AIP me mandou pelo meu 27º aniversário, os três irão encher as flutes (provavelmente não haverá flutes, mas não faz mal, é só para o texto ficar mais bonitinho e selecto), erguê-las no ar e fazer o seguinte juramento solene:

Em 2006, não vamos idolatrar ninguém, não escreveremos mais histórias de amor, será difícil, muito difícil, mas não vamos dar mais do que podemos a quem quer que seja, por mais especial que seja esse alguém, por mais apaixonados que estivermos por esse ser vivo, por mais que pareça que pareça que desta é que é, que, finalmente, os astros se alinharam a nosso favor.
Em 2006, é a nossa vez. Queremos ser bajulados. Não aceitamos de outra forma. Eu por mim falo, mas em 2006 anseio ser objecto de idolatria literária, como é a Catarina em tons de azul do meu marido, como foi o indivíduo - ele fica danado que eu o chame de indivíduo - de que vos falei meses a fio.

Se calhar era mais fácil deixar de fumar.

Véspera da véspera de Natal (a revolta dos drafts natalícios)

[Um dos muitos drafts do dashboard que eu teimei que tem que ser escrito hoje, apesar de estar com sono, com muito sono - os Pestanas fizeram as pazes com este T3 de Santa Marta, parece que o Pai Natal também e eu estou grata, apetece-me dizer "bem haja", que era a frase que o meu avô Oliveira dizia sempre que alguém praticava o bem perto dele. Agora, não esperem grandes obras literárias, nem hoje, nem nos próximos dias. Estão fartos de saber, até porque eu o repito até à exaustão - e não, hoje não vou citar o Vinicius - que a felicidade não é amante da qualidade literária, mas se esse é o preço a pagar, que assim seja, que se dane a escrita, eu nem sequer estou certa que escrevo bem]

Hoje, véspera da véspera de Natal, vejo mais do que ontem.
Vejo coisas do arco da velha e isto nem sequer é novidade, não sei porque escrevo, eu vejo sempre mais além. E hoje nem não estou de óculos de massa castanhos escuros pendurados sobre o nariz arrebitado, o nariz cheio de personalidade que o gene dos Ralhas me deu. Não uso óculos há muito tempo, aliás, não sei onde meti as armações do senhor Calvin, as que me valeram um piropo no elevador Schindler do jornalista mais bonito, charmoso e respeitado de Portugal, as que me aumentaram milagrosamente as letras dos livros e do computador, porque, eu não sabia, eu pensava que era o contrário, mas eu não vejo é nada ao perto.
Hoje é véspera da véspera de Natal e vejo coisas que mais ninguém vê, penso noutras que mais ninguém pensa.
Anda todo o mundo atarefado com as compras, com os perús, os brinquedos, os bric-a-bracs que se acumulam nos sacos de plástico, merdas que ninguém precisa, umas peúgas para o primo Luís, um pano da loiça para a sogra Carménia, uns bombons para a cunhada Isabel, um Nenuco para a mais nova e uma Bratz para a mais velha, anda toda a gente nisto, a Magui inclusive, e eu, alheada a todo o reboliço que me cerca, fico hipnotizada com o talhante que corta costoletas como se fossem feitas de manteiga (quando ia ao talho de Alvalade com a avó Tóia, um talho que tinha um touro de peluche por cima da vitrine de exposição da carne, ficava maravilhada com a máquina de fazer hamburgueres; quando a Magui tinha dentes e era uma das mulheres mais lindas do planeta, eu ficava em transe com a táctica de brushing da sua cabeleireira, podia ficar ali horas a olhar para aquilo).
O povo saiu à rua num dia assim, fumaram uma ganza de espírito natalício (droga caríssima e cada vez mais difícil de encontrar, só nas melhores lojas, nas mais requintadas, lembra-me as trufas com as quais tenho desejos de há umas semanas para cá) e decidiram fazer uma revolução. Em vez de cravos, trazem cartões de crédito nas mãos, e em vez de saírem para as ruas, fazem esvoaçar os Visas (vi poucos Mastercard; a Magui tem um Mastercard, eu acho que só gente mesmo fina tem Mastercards) sobre filas intermináveis das caixas de pagamento, e esta gente lembra-me as defuntas e aterafadas formigas de Santa Marta, que, se calhar, andavam nisto também, enlouqueceram em pleno Inverno, quando deveriam estar quietinhas no formigueiro a curtir a labuta do Verão e a recusar comida à pobre da cigarra, foram, decerto, contagiadas com esta coisa do Natal e andavam às compras na minha cozinha bordel, até que eu as exterminei, sem dó nem piedade, com o estranhamente eficaz insecticida Raid.
Eu não sabia porque não gostava do Carrefour. Agora já sei. No hipermercado francês, os letreiros gigantes que anunciam os preços dos produtos do folheto são feitos e impressos a computador. Nos hiper e supermercados do grupo Jerónimo Martins, há um artista que os desenha. E eu dou por mim, com o carro cheio de lampreias de ovos, troncos de Natal, rabanadas, sonhos e coscurões a pensar nesse senhor (tenho a certeza que é um homem), fechado numa espécie de atelier, junto a paletes de leite e de arroz a desenhar letras e preços num estirador improvisado com caixotes de detergente Skip; dou por mim a sorrir com o cunho artístico que ele empresta a cada letreiro, escrito com marcado preto sobre fundo amarelo - gosto muito do perú que ele desenhou ao lado dos 1,99 euros por quilo, da lampreia naif (mais uma vez, o trema, não o encontro) a 7,99 euros o quilo e do bolo-rei a um preço que não fixei.
Hoje tenho visão raio x e, pela primeira vez, dou-me ao trabalho de reparar que o hipermercado onde levo a Magui a abastecer-se, no meio de Chelas, se situa na rua cidade de Bratislava. E, parada no trânsito, em vez de levar o olhar perdido no semáforo camaleão, que, ora é verde, ora é encarnado, olho para o carro do lado. Primeiro, para o meu lado direito, onde um casal viaja com semblante carregado e profundamente infeliz (estão juntos apenas por causa da hipoteca da casa que compraram num qualquer subúrbio de Lisboa). Depois, para o meu lado esquerdo, onde uma mulher está a chorar. Fixo-a. Identifico-me - tantas vezes peguei no carro sem destino, apenas com o propósito de chorar, chorar sozinha, pela cidade, enfiada num qualquer engarrafamento, chorar no meio de estranhos porque eu não quero que a loira me veja assim.
Mas nunca ninguém se dignou a mirar a minha dor. Nem mesmo quando andava de metro, sempre acompanhada de um caderno de merceeiro da papelaria Fernandes e de uma caneta Rotring prateada, e às vezes, quando escrevia uma qualquer coisa bonita, relia e depois chorava, chorava sem vergonha, não tenho vergonha de chorar, sou desavergonhada a chorar e a rir, também, faço ambos os exercícios com perfeição, utilizo toda a cara, vinco rugas na minha cara (quando choro, surge a ruga a meio das sobrancelhas; quando rio, faço rugas nos cantos dos olhos e afundo a covinha na bochecha direita).
Há um qualquer sexto sentido que nos alerta quando alguém está a olhar para nós. Mesmo quando estamos a dormir, mesmo quando estamos a chorar. A mulher estava em transe, com um ataque de comoção, mas pressentiu-o. Olhou para para mim, Honda Civic preto, o sinal ficou verde, uma última lágrima caiu-lhe pelo rosto sem ela querer, ela limpou-a, envergonhada por eu estar a olhar despudoradamente para a sua dor, sei que ficou danada comigo, perguntou para si própria: porque é que não és como os outros, os que fixam o olhar no semáforo e vão a pensar o que vai ser o jantar, ou se haverá sexo logo à noite, e além de ver tudo, eu às vezes também leio pensamentos, larguei a mão direita, a que está doente por ter trabalhado noite e dia sem descanso a escrever um amor, soltei a mão da manete das mudanças, e espalmei-a de encontro ao vidro, como quem diz: "Vai tudo ficar bem". Ela sorriu e seguimos as duas com a nossa vida.

domingo, dezembro 25, 2005

Post ultra-rápido que eu tenho que ir levar a miúda ao pai

Faz muito, muito tempo que eu recebo diariamente, por sms, o meu horóscopo (signo, caranguejo). Ao início era grátis, depois passaram a cobrar 1,46 euros por mês, mas é dinheiro bem gasto pelas gargalhadas que me faz soltar às dez em ponto da manhã. Gosto disto. De a Magui me acordar geralmente às 09H45 e de eu dormir mais um bocadinho até ao horóscopo chegar.
O de hoje, dia de Natal, é muito divertido:

Um admirador secreto está a observá-lo à distância. Esta é uma boa ocasião para o convidar a aproximar-se. Quem sabe?

Então, vamos lá a isto, admirador secreto que me anda a observar à distância por este blog, queres vir jantar comigo? (resposta ao mail aqui do quintal. Sigilo garantido)

É dinheiro bem gasto, este serviço da Optimus, é mesmo bem gasto...

Bom Natal a todos.

E contra todas as expectativas...

Foi um bom Natal.

[quatro posts em draft, nenhum me parece sequer sofrível, digno de publicação. Será que estou com o bloqueio do escritor?]

A todos os leitores, continuação de umas boas festas.
Eu volto logo, logo, assim que conseguir escrever coisas bonitas.

sábado, dezembro 24, 2005

Eu hoje vou dormir assim


[Temos mais um record em véspera de véspera de Natal (há um ano, o Andy Vring apareceu na minha vida, foi no Restaurante Brasuca, na Rua de O Século): 479 pageloads, 117 visitantes. Como esta noite não consigo parir os dois drafts que estão no dashboard, vou ver pela enésima vez o Eduardo Mãos de Tesoura e depois tentar dormir, quero sonhar com os presentes que o Pai Natal traz no saco este ano - é o mecenas, Pai Natal, o mecenas que me pague as aulas de piano, esquece o grande amor, é o mecenas, ok? Também pode ser um grande amor dado ao mecenato, vá, eu não me importo com dois em um]

Esta não é da Diana Quintela.

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Dona Maria

Senão me vê à sexta-feira, a dona Maria deixa uma folha de papel A4 em cima do teclado preto da Compaq, onde escreve, com uma caligrafia infantil, pejada de erros ortográficos: "Bom fim-de-cemana, menina Diana".
Haverá, decerto, muito boa gente no pasquim onde trabalho, que não faz ideia quem é a Dona Maria. A Dona Maria é a senhora que faz a limpeza ao final da tarde, que me chega ao primeiro piso por volta das 18h30 e pergunta, com um sotaque do norte: "Então, menina, muito stress hoje?".
A Dona Maria tem um sorriso bonito, está sempre bem disposta, mesmo quando anda com problemas com o filho e a ex-nora, um regaço que me lembra o da minha avó Tóia, e pergunta-me sempre pela bébé, depois de averiguar o nível de stress dos meus finais de tarde. Depois fala-me da netinha, a Mónica, que eu conheci numa acção de campanha do Carmona, nos Olivais, e para quem cravei uma réplica da Roteiro, a bola do Euro 2004 que o candidato apoiado pelo PSD distribuía pela criançada nas "arruadas", à caça de votos. No final, pede-me emprestado o 24 Horas para ler depois das limpezas. Eu, tenho-o sempre guardado para ela, na minha secretária, por cima da pilha de milhentas merdas que está ao meu lado esquerdo, e faço-lhe a revista de imprensa, assinalando as notícias mais (i)relevantes.
Vim ao pasquim (de onde vos escrevo, e deixam-me dizer-vos que, faltam oito minutos para as 19h00 e já foram contabilizados 329 pageloads e 96 visitantes únicos, admirável público) apenas para dar um beijo à Dona Maria. Fiquei de queixo caído, quando ela tirou de uma bolsa uma caixinha de oito Ferrero Rocher e, envergonhada, ma entregou.
No embrulho, escrito a esferográfica azul, está: "felis natal, menina Diana".
E isto sim, é a magia do Natal.

[mais logo, quando me debater com as senhoras doutoras insónias, há mais]

Eu hoje vou acordar assim


Créditos fotográficos, como sempre, da Diana Quintela

A guerra dos comments (porque é que eu lhes chamo comments e não comentários?)

A guerra dos comments, no inesperadamente explosivo post "Começou a Guerra Química", valeu 388 pageloads e 106 visitantes únicos a este quarto escurto das desarrumações - muito aquém das 411 vezes que o quintal foi cavado, num um dia de Novembro, em que um leitor inominável e incitável o descobriu e o lavrou de uma ponta à outra, tendo ficado com uma brutal indigestão que, segundo, o próprio, até lhe causou insónias (eu gostei desse post e do outro, que não tinha link, fiz copy paste para os meus dois computadores, o de casa e o que tem vista para um plátano da Viriato, e quando acho que não sou nada, que nunca serei nada e que não posso querer ser nada, dou uma espreitadela ao ficheiro que baptizei com o nome "couro", sinto-me um pouco melhor, e volto a ter em mim todos os sonhos do mundo - o Álvaro escreveu isto a 15 de Janeiro e apenas por isso era justifiação suficiente para que fosse decretado feriado nacional).
Se eu estivesse registada no blogómetro (e o grande Acidental, onde escreve outro Ralha, já vai no 15º lugar do "ranking" - e eu votei várias vezes no Acidental para melhor blogue de direita, maninho, cumpri o meu dever cívico na blogosfera), a façanha alcançada ontem valia-me a 173ª posição dos blogues mais lidos de Portugal, em ex-aequo com um quintal que se chama Azenhas do Mar.
Mas, adiante, isto era só para fazer o resumo da guerra dos comments e como ela fez disparar as audiências desta horta, onde eu gostava que houvesse sanchas e diospiros (e um canteiro de orquídeas e outro de sardinheiras, e uma hera atrepadeira e uma buganvília gigante e pára aqui, porque senão, nunca mais acaba, mas, também queria um salgueiro chorão, descobri um aqui, muito perto de Santa Marta, num jardim que tem um coreto bonito).
A quem possa interessar e falando de outras guerras, exterminei as formigas. Não sobrou uma para amostra, estou na fase da eliminação das provas do crime e não me orgulho nada de ter sido forçada à solução final, sou uma pacifista, ao contrário do que o meu apelido possa sugerir.
A quem possa interessar, tive um dia feliz e por isso o post de hoje não vai sair grande coisa (a felicidade, essa grande inimiga da beleza da escrita). Um dia em que não aconteceu nada de especial, mas, basta o meu melhor amigo estar em Portugal por dez dias para serem dez dias felizes, e antes era felicidade aos molhos, todos os dias, e agora só me acontece duas vezes por ano (este ano foi a loucura e vimo-nos três vezes, porque eu não aguentei as saudades, enfiei-me num avião e fui para os Emirados Árabes Unidos). E eu já sei que ele já não volta em 2006, eu andei a pensar que sim, que ele voltava, que era só os três anos do primeiro contrato e depois não aguentava as saudades e vinha outra vez tomar conta de mim, e, sei também que, provavelmente, nunca mais voltará, quem é que quer voltar a Portugal? Mas eu é que não sei se quero viver mais tempo longe dele, porque a vida parece-me mais fácil com ele à distância de uns minutos de automóvel.
A quem possa interessar, consegui dormir dez minutos, há pouco, acho que desmaiei de cansaço, enquanto tentava convencer a Carolina a adormecer e enquanto as compras do El Corte Inglés não chegavam (chegaram à meia noite e a nota de cinco euros de gorjeta que eu tenho sempre no bolso para gratificar o desgraçado que carrega com 24 pacotes de leite, 200 fraldas, 6 embalagens de Dodots, detergentes, bolachas, iogurtes e mais umas coisinhas poucas que não chegam para sobreviver durante quinze dias, não saíram do aconchego do bolso que cobria a minha nádega direita, porque o senhor vinha com cara de mau e lançou para o ar um "o filho da minha mãe é que não volta cá outra vez". Puta que o pariu e amanhã vou lá fazer queixa que é para não se armar em saliente. Quando são os brasileiros a entregar não se armam em finos).
A quem possa interessar, lá se foi mais um quilo, acho que não janto desde Domingo.
Boa noite.
Hoje são apenas duas e vinte da manhã e eu decidi que tenho que dormir. Dê por onde der. Vou comer pão e leite quente, sugestão que me veio para a conta de Gmail do empantanas (onde não recebo ameaças de morte, apenas palavras simpáticas de meia dúzia de leitores corajosos e devidamente identificados).

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Delicodoce

Hoje chamaram-me delicodoce num post (a mim e a outras fãs de um blogger de referência). Estou de greve, não deixo lá mais comentários.... até amanhã.

Mais um post de estilo bastante diferente do meu

Era um amor literário.
À noite, quando ele chegava tarde do emprego, tresandanado a álcool, do copo que ainda tinha ido beber ao Snob, ela não fazia cenas de ciúmes, não procurava baton nos colarinhos, enrolava-se dengosa e pedia-lhe apenas isto: escreve-me.
E ele agarrava na caneta Rotring, de tinta da china, bico 0,7 mm, e em vez de escrever aquele amor no papel, tatuava-o na pele da mulher morena.
Às vezes, ela não tomava banho. E às vezes, choviam queixas dos colegas de trabalho, porque quando ele escrevia no seu corpo, com palavras demasiado belas, ela tentava preservar o máximo de tempo aquele amor literário, agarrado à sua pele.
E quando tinha saudades, quando ele se esquecia de vir para casa, ela levantava a manga da camisa, ou puxava a saia até à coxa e sentia-se mais feliz.

[Foda-se, que é uma imagem bonita]

Começou a guerra química

[tenho que ir buscar o carregador do Ibook, já só tenho 33 por cento de bateria - bela percentagem -, é só um momentinho, fregueses]

Hoje foi mais um dia estranho (não muito bizarro, não pode ser todos os dias bizarria, ninguém aguenta muitos dias bizarros de enfiada), uma quarta-feira sobre a qual recaía apenas um desígnio.

[há coisa de umas três semanas - se eu não fosse preguiçosa e se não fossem três da manhã, ia à procura do post nos arquivos e punha aqui o link para quem não leu, pronto, faz de conta que está aqui -, quarta era dia de mudar o destino, e eu mando para o ar estes reptos à filme do Jeunet e depois o destino muda mesmo, mas, ao menos, podia ser pontual, que é uma qualidade que eu muito aprecio - ai, estas variações Golbberg matam-me, e saibam, senhores leitores, que a maioria dos meus posts é escrita ao som de Bach, ou de Chopin e às vezes de Ben Harper -, porque o destino decidiu mudar de faixa de rodagem, sem fazer pisca, sem olhar pelo retrovisor, e abalroou as duas miúdas que têm a mesma idade, que se vestem de preto, que gostam das cores encarnado, beringela e de sapatos de salto alto e biqueiras pontiagudas (aliás, estas mesmas garotas foram comer um bife ao Snob, dias antes de o destino mudar, com um calçado muito apropriado para escalar e descer ruazinhas estreitas com passeios esburacados e estradas em macadame do Bairro Alto). Atropelou-as na terça-feira, e não na quarta, e as terças, antigamente, eram dias de Andy (faz amanhã, sexta-feira, um ano que tu entraste na minha vida, holandês voador, e não tem sido fácil), e eu já estou como a Teresinha e acho que tenho um blogue, não só para terapia intensiva pela madrugada fora, mas, também, para saber a quantas ando, que dia da semana é que é]

A missão desta quarta não era ir vacinar a miúda, ou tratar da papelada da EMEL (não vou fazer nada do que me propus fazer, não tenho pachorra e há sempre lugares de estacionamento não pago nesta rua por debaixo da Fontes Pereira de Melo e da Duque de Loulé). Era simples: encher caixas de comentários de blogues alheios (e, como amor com amor se paga - e como eu gosto de provérbios -, as caixinhas desta horta também estão a abarrotar, anónimos de toda a blogosfera, juntem-se a nós, nós os que somos voyeurs compulsivos confessos, que adoramos espreitar as vidas de desconhecidos, mas, também, gostamos de participar, de as invadir, gostamos de dar vida aos posts, outra vida, levando-os, por vezes, para caminhos sinuosos - maus caminhos, naturalmente).
E porque quero perpetuar as estranhezas, as bizarrias desta quarta-feira, hoje não vou começar pelo princípio, nem pelo título (fiquem a saber que é raríssimo eu começar a escrever um post sem primeiro esgalhar um bom título, foi isso que eu estudei publicidade - haverá aí muito leitor que não sabia esta, que eu estudei para ser vendedora da banha da cobra e, arriscando mais uma vez a justa causa, se o patrão me descobre o quintal, não trabalho na indústria publicitária, mas, basicamente, o meu quotidiano é esse mesmo, mas não faço filmes, nem coisas criativas, nem sou tão bem paga como provavelmente seria, se levasse a vida a fazer anúncios, mas se eu já fico puta da vida com notícias sem importância, não sei como reagiria se tivesse que fazer um anúncio do Jumbo com o Jorge Gabriel a perguntar a uns actores pagos para fingirem que são pessoas normais, apanhadas de surpresa, a afirmarem que esse hipermercado é o mais barato -, quatro anos a fazer o curso com os pés num edifício bonito em Benfica, sobre a Segunda Circular, que ganhou o prémio Secil de Arquitectura, mas que é irracional, contra todas as regras do bom senso, da ergonomia, da acústica e o raio que o parta, mas valeu de alguma coisa, para além de pés torcidos no caminho de pedras que o arquitecto teimou em perpetuar para se chegar à porta da Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa, sei, pelo menos (mas não precisava de quatro anos para chegar a essa conclusão), que se deve chamar a atenção do consumidor (neste caso, leitor) no primeiro contacto, porque senão ninguém se dá ao trabalho de prestar atenção ao resto, sobretudo se existir uma falta crónica de pontos finais e muitos parêntesis e travessões com coisinhas que não lembram ao menino Jesus.
Mas está muito frio em Santa Marta, o aquecedor irrita-me porque faz muito barulho, eu sempre que escrevo fico com as mãos e a ponta do nariz gelados e, por isso, fiz uma concha com as mãos, levei-a à cara, tapei todo o nariz e a boca com ela e expirei lá para dentro, num esforço inglório para aquecer as extremidades enregeladas, e nisto reparei nas minhas mãos de perto e veio-me à memória esta imagem: o parque de Viseu, junto ao lago, o Leonardo na biblioteca, eu junto à Magui, pego-lhe nas mãos lindas e compridas, analiso a textura da sua pele junto aos nós dos dedos, olho para as minhas mãos pequeninas e gorduchas, que têm uma textura muito diferente, e pergunto: "Mamã, quando é que eu vou ter estrelinhas nas mãos?" (olhem para as vossas mãos e reparem se a pele junto aos nós dos dedos não faz uns desenhos que se aperentam com umas estrelas). Eu já tenho estrelas nas mãos, 22 anos depois de o perguntar à minha mãe vem-me este fantasma do Natal passado do nada, e agora que o escrevi e gastei mais uma pestana a quem ainda não desistiu de ler este post (hoje tive um recorde de visitantes únicos, 125, é o efeito Carrie, e está a dar no iTunes a minha variação preferida, a 15, bem na realidade, é a 21 a favorita, bom, são as duas, adiante), vamos a isto, Lisboa (argh, resquícios da campanha eleitoral do Carmona; é que há pouco, passava pouco tempo depois de me ter transformado em abóbora, às doze badaladas da meia noite, estive a rever as fotos da divertida campanha, demorei-me, sobretudo, numas hilariantes tiradas pelo Hermínio numa sardinhada no Vale de Santo António).
Começou a guerra química em Santa Marta. Ontem, quando afoguei sem piedade, às cinco e picos da manhã, o exército de formigas que teima em não içar a bandeira branca, voltei à diplomacia, vamos lá assinar o tratado de paz, eu não gosto de matar nenhum ser vivo, basta de carnificina, vamos lá, senhoras, que maçada, mas não, estas formiguitas são da pior espécie, guerrilheiras bárbaras, e hoje já tinham novamente um exército armado, que me atacou um pacote de bolachas e o saco do lixo. Não me restou outra opção senão utilizar o meu arsenal de armas de destruição maciça - Raid Casa e Plantas. Vamos lá ver se é desta...

Hoje voltei ao Independente. Como sou uma tesa de primeira, não tinha dinheiro para telefonar ao meu irmão emigrado na Escócia que, ontem, fez 25 anos (ou 24? para além de tesa sou desnaturada), fui então ao Independente chular o meu irmão mais velho: "Não te importas que eu faça a chamado do teu telefone, pois não?"
E ele não se importou, claro. O meu irmão mais velho até mesada me dava quando eu já trabalhava.
Mas eu não punha os pés no Independente desde que engravidei inadvertidamente de um jornalista desse pasquim e correu tudo anormalmente bem, a loira endiabrada esteve a brincar com o tio e com o paizinho e eu até consegui ir a um café manhoso da Almirante Reis com o indivíduo que começou essa tradição de cafés feios porcos e maus (este era só piroso, tinha um painel de azulejos com o rei Artur).
É que hoje, finalmente, consegui chorar qualquer coisita depois de o destino ter mudado a uma terça-feira, afinal ainda não fiquei de pedra, teve apenas efeito retardado, a dor da pancada - as árvores não são apenas árvores, ninguém me tira esta da cabeça -, e a coisa correu, também, anormalmente bem.
Por isso, hoje (ontem) foi um dia anormalmente estranho. E a propósito do meu post anterior, ao estilo da minha mais recente paixão na blogosfera, ele escreveu assim, no seu blogue, o tal que eu não vou linkar porque ainda arranjo um bilhete de ida, sem volta para Sarilhos Grandes:

Eram blogonamorados. Quando ela o apanhou na caixa de comentários com outra acabaram tudo.

P.S.: You wish.
P.S.2: I wish.

Quatro da manhã. Mais uma noite. Quantos dias aguentarei eu a dormir três horas?

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Vinte e um

O parto da minha filha esteve marcado para hoje, dia de anos do meu irmão Bernardo, dia em que a avó do Miguel partiu. Parabéns aos vivos, e tenho que me preparar para ir à missa em memória da senhora que apenas conheço da fotografia a preto-e-branco em que parece uma estrela de cinema dos anos 50.

Post ao estilo da minha mais recente paixão da blogosfera

Era um amor à moda antiga. Namoravam de mãos dadas na caixa dos comentários.