sexta-feira, janeiro 20, 2006

Faço minhas as palavras do espelho

Cavaco, mesmo mais próximo da minha área política, não representa a pureza e o romantismo político que apenas Garcia Pereira ainda conserva. Porque Cavaco é o hipermercado e Pereira o comércio tradicional; porque Cavaco é o porta-aviões e Pereira o barco rebelo. Porque Cavaco não cola cartazes e Pereira fá-lo com a convicção que essa é tembém a sua missão numa luta que insistentemente tem travado ao longo da vida.Garcia Pereira é um lutador romântico. Tem evoluído, é certo, já não poria bombas ou defenderia a revolta do proletariado, mas continua fiel a um sonho que morrerá sem ver concretizado mas que nem por isso deixará de lutar por ele. Garcia Pereira foi esquecido e quase humilhado pela comunicação social, no entanto, segue o seu caminho, tendo feito a sua melhor e mais lúcida campanha de sempre, tendo sido o melhor candidato.Por isso, o meu voto vai para Garcia Pereira, não por aquilo que defende, não por querer que seja presidente, mas pelo homem que é, e para mim isso vale muito, vale quase tudo. E sem medalhas para oferecer, ofereço-lhe o meu voto.

Roubado descaradamente ao old-mirror.blogspot.com. Ia escrever qualquer coisa muito semelhante. Domingo, pela terceira vez na minha vida, voto PCTP-MRPP, voto Garcia Pereira.

Pesadelo. Reloaded.

Voltaram as insónias.
Este pesadelo é real. É recorrente. É um comentário neste blogue. Acordo sempre a chorar. "Leio-te. Ass: três iniciais de um nome profissional listado na comissão da carteira profissional de jornalista"
Quando eu acordar, ligar o Gmail e o pesadelo se concretizar, a tralha morre.
Não digam que eu não avisei.
Ninguém é viciado em estatísticas se não tiver listado o seu quintal no weblog. O meu não está nem nunca estará. E eu gosto de holofotes. Eu gostava de entrar nessa guerra e, de vez em quando, gostava de linkar os meus amigos bloggers de referência sem ter medo de ser descoberta por uma enorme multidão de leitores. Nunca se perguntaram porque é que eu sou viciada nas minhas estatísticas?
Hoje, o pesadelo andou muito perto. E eu, dificilmente, conseguirei dormir.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Pesadelo

Enquanto namoravam, na caixa dos comentários, debaixo de um ficheiro mp3 fora de lei, que não sabia o que era isso dos direitos de autor, apareceu um bicho mau, um fantasma de um passado não muito distante. E ela jurou que nunca mais voltaria a comentar. Aquele namoro acabou ali, no mesmo sítio onde nasceu. Foi um amor de Inverno.

A triste sina do vestido preto com rosas brancas

O vestido.
Mais um.
Este vestido foi comprado num sábado de penitência judicial (o tempo sara tudo, já não chamo mulher da vida à senhora).
Num sábado em que o cartão multibanco não teve descanso, lá para os lados do Chiado, e a pobrezinha da Astride, sempre fiel, sempre ao meu lado, a acompanhar-me de aparelho de titânio cravado nos dentes, numa dor branca, que não mata mas mói.
No Sábado em que encontrei o Zé Ralha na Praça da Figueira envergando um molho de papiros gigantes (algures semeado neste quintal, para aí em Março, às portas da Primavera: está tudo na minha cabeça, mas eu nunca fui boa nem para datas, nem para nomes).
No Sábado em que pus os pés pela primeira vez na Confeitaria Nacional e ontem, apenas para que fique em acta, saboreei o primeiro mil folhas dos 27 anos que carrego em cada perna, em cada ruga, em cada cabelo branco – nós, os conservadores, somos atreitos à mudança, eu gosto de palmiers simples e cobertos, e quando a Pastelaria São João, na Avenida de Paris, tinha pintado, no estuque das paredes, uma réplica naïf do quadro São João, do pintor espanhol Murillo, (deixa ir ao Google procurar o quadro), com uma placa a informar que dizia: “São João Baptista, de Murillo – Réplica, não fosse a velhota mais incauta pensar, a meio do seu chá e da sua torrada, que aquele era o verdadeiro e que o que está no Prado é que é réplica, e quando eu me sentava com a avó Zá (primeiro íamos à leitaria da UCAL), numa mesa junto à janela, sentavamo-nos sempre ali, quando o São João não era um café com as paredes forradas a azulejos brancos, indiferenciados, e havia para além do São João Baptista outro “fresco” com uma perspectiva impossível da Igreja da Praça de Londres, eu também gostava de palmiers recheados, com um creme branco, tipo chantilly, eu sonho com esses palmiers, mas nunca mais os vi, só há nas pastelarias uns exemplares recheados com creme amarelo de ovos, e eu não gosto de doces com ovos, pudins, iguarias da região de Aveiro, relíquias conventuais não me excitam e as ancas agradecem, ai se agradecem, e eu como sempre bolos de arroz, dos verdadeiros, dos feitos com farinha de arroz e não as falsificações, gordurosas como queques que se vêem por aí, os que têm papel na base, é o meu bolo favorito, depois vem o xadrês, depois, talvez, o vává, e agora mais recordações de verões passados, na pastelaria Doce Beira, a dois passos da nossa casa de Viseu, vávás – não como vavás há tantos anos – devorados em banquinhos volantes ao balcão, mas eu nunca tinha comido um mil folhas e nem é mau de todo (o mesmo se aplica ao presunto e à sapateira recheada, mas continuo a ter as minhas reservas ao salmão fumado, ao caviar, aos camarões e percebes, que teimei durante anos odiar sem nunca ter provado).
O vestido não merecia. É um bom vestido. Lindo. Que me favorece. Devia ficar como o vestido com o qual aterrei nos Emirados Árabes Unidos, depois de uma viagem de avião de oito horas. Ou de um jantar em que a Qui Qui confundiu erva com coentros (foi estreado nesse jantar, nesse jantar memorável, que estreou os posts fotográficos deste blogue). Mas não. É o vestido da pior sessão de intimidade da minha vida. Recordação feliz, porém, sentada num sofá, vestido já no corpo, descalça, soutien abandonado algures no chão (e por lá ficou algum tempo – eu não posso ser amante, deixo sempre provas, uns brincos, um anel, cabelos, até soutiens), cigarro na boca, estás perfeita, posso tirar-te uma fotografia?
Não tirou, não deixei. Parece-me que este tem registos, como no fabuloso post do Francisco que eu não posso linkar – coisas da vida, quem o manda ter um blogue famoso. E a seguir ao meu nome, e à minha foto, perfeita, com o vestido preto com rosas brancas, viria: “a que ressuscita os mortos”.

O que tu me fazes

Toda a gente tem os seus inomináveis, os seus incitáveis, os seus inlinkáveis (palavra nova, que acabo de inventar) fechados na gaveta, escondidos entre as cuecas e os soutiens.
Brincar às escondidas é muito giro, ao quarto escuro também, mas na penumbra todos os gatos são pardos e parvos.
Este poeta escreveu um naco de prosa que eu quero partilhar com a audiência silenciosa. E toda a gente devia enterrar os senhores que não se podem nomear, citar, ou linkar.
É que sabe mesmo bem poder linkar à vontade.
Aqui.

Fotos. Para variar.

De um dia em que a minha mana me apanhou a escrever um amor perfeito. Ainda no Toshiba. O meu saudoso Toshiba, que está muito bem entregue aos cuidados de um amigo que anda às voltas com o seu livro.






Espero que o Toshiba seja tão generoso como foi para mim.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Sonho

[e a História Interminável continua em draft, e há ainda um outro, a ser escrito no Word, apenas por falta de auto-estima e confiança a passear no piso menos cinco - ando a dar erros de quarta classe e o corrector ortográfico da aplicação da Microsoft sublinha a palavra sempre que eu enfio um prego a martelo na língua de Camões]

Conheceram-se por acaso na caixa dos comentários, era um T0 minúsculo, onde, às escondidas de todos os outros comentadores, trocaram o primeiro beijo, um beijo feito de palavras.
Começaram a namorar ainda eram "anónimos", num post florido de arrobas e ela soube, nesse preciso momento, que tinha encontrado o amor. De olhos fechados, não precisava deles para escrever mais beijos, fez uma promessa: iria até ao blogspot de joelhos, agradecer à Santa Google, por ele ser um blogue democrático, com caixa de comentários aberta a todos os anónimos da blogosfera. De vez em quando, porém, ele censurava comentários e ela zangava-se, zangas sérias em que passavam dias sem escrever um post.
Cimentaram aquele amor no Gmail, foi ali, nesse país cotado na bolsa, que ele lhe disse uma tarde que queria passar todos os dias a seu lado e ter muitos blogues que fossem tão bonitos como os da mãe.
Na noite de núpcias, fundiram os seus blogues num só.
E viveram felizes para todo o sempre.

[Eu sonhei isto. O pai do LSD fez cem anos há pouco tempo, mas, por mim, podia nem ter nascido, os alucinogéneos estão-me nos genes]

Ode à Ana

A Ana foi-se embora, não sei porque me faz falta, nunca fomos amigas, nunca trocámos mais do que cinco minutos seguidos de banalidades: a Ana dizia, no fumódromo do piso de cima, onde eu antigamente me deslocava amiúde para fumar cigarros com o senhor que se assemelha demasiado à imagem que faço de Deus, que o meu cabelo estava muito bonito, e eu retribuía como podia, gabando-lhe as botas de estilo militar, cobiçando-as mesmo, e eu devo ter sido das últimas a saber que a Ana se ia embora e, na altura, a única coisa que me ocorreu dizer foi que ia em grande estilo, com um corte de cabelo excepcional. Um dia, soube que a Ana lia a tralha, nesse mesmo dia, o desbroncado do inominável mais citado deste blogue, revelou-me que muita gente "importante" lê o meu quintal e eu levantei a sobrancelha direita e tive medo de voltar a escrever. Noutro dia, estávamos os três na varanda aqui do meu lado direito, com vista para os plátanos agora nús da Viriato, e a Ana disse, a despropósito, tu escreves muito bem. É de uma liberdade... E eu fugi, envergonhada, sem saber como gerir esse elogio.
A Ana foi-se embora e eu não sei porquê sinto muito a sua falta.

Festa, festa (eu não posso ir, mas se pudesse...)

Esta sexta-feira, festa da última sexta-feira sem Cavaco Silva em Belém, na discoteca Europa.

terça-feira, janeiro 17, 2006

De mansinho

Eram 22 horas e 17 minutos, o episódio do CSI tinha acabado, os assassinos presos, a mulher queimada e grávida do melhor amigo do seu marido abriu um olho, foi a última frame, são quantas frames por segundo?, 16?, 24?, não me lembro, a Magui preparava-se para mudar do AXN para o GNT, a Magui está viciada no canal brasileiro, a malga do caldo verde descansava no meu colo, a Carolina brincava com os gatinhos bébés - é o gatino bébé, dizia, entre os meus automáticos "cuidado Carolina" -, a minha mãe fumava um Português Suave Amarelo e eu ergui os olhos do azulejo do chão que está partido, partido pelo arremesso de um cinzeiro de pedra pela minha filha, e disse: "Foda-se, era tão simples".
E depois levei o polegar e o indicador da mão direita ao início da cana do meu nariz, a tocar no orifício de onde saem as lágrimas, ainda pensei que bom que foi chorar hoje, e no fumódromo, o chefe preocupado comigo e eu a explicar-lhe que no dia em que soube, no corredor, que se preparavam para me sodomizar (a ausência de calão neste parágrafo é para o meu leitor anónimo; já está um asneiredo lá em cima) novamente, depois de eu abdicar da minha filha tantos dias consecutivos, chorei de raiva, chorei sem lágrimas, e eu, chefe não te preocupes, eu agora rio-me, sou incapaz de verter uma lágrima, estou crescida, já chorei muito, mas quando eu estava com o polegar e o indicador como molas da roupa na cana do nariz ainda pensei, numa micro-fracção de segundos, se calhar está entupido, se calhar tenho que beber mais líquidos, mas fechei os olhos, franzi o sobrolho, imprimi mais umas rugas no canto dos olhos, baixei a cabeça, abanei-a para um lado e para o outro, em sinal de reprovação, tudo isto sob o olhar atento da Magui que não estava a perceber nada e que deve ter ficado preocupada porque não lhe expliquei de que se tratava - a Magui sabe que eu tenho um blogue, onde escrevo demais, onde escrevo as histórias sinistras da família que ela de quando em quando vai deixando transpirar pela sua pele muito seca e muito branca, mas não sabe o que é a Internet, já viu, já lhe tentei pegar o bichinho, mas ela não tem tempo, cuida dos gatos, dos cães, dos pombos, dos piriquitos, dos melros e ainda cuida da neta -, e também não vou escrever agora.
Mas acho que estou a dar em doida. Hoje, depois do apagão da memória, abri a conta do Gmail desta tralha, com o intuito de dizer a um leitor que o sigo com muita atenção, que gosto de ver o que os seus olhos vêem, de ouvir as cordas dos violinos que tocam no seu bonito blogue (acho que é o mais bonito que eu já vi) e quando me aparece a inbox à frente dos olhos, surpresa, magia, abracadabra, pim pam pum, e andava eu hoje a queixar-me que os dias andavam muito normais, que nada de extraordinário acontecia desde Sábado, desde o vestido voador que aparece na caixa do céu aos trambolhões para ser estreado numa noite quente, e aparece-me o leitor como que por transmissão de pensamentos, mas antes, antes de abrir o e-mail dei para desafiar o destino, pedi-lhe: dá-me dias menos iguais aos anteriores, por favor, faz isso porque senão eu definho, e faço o login e a inbox tem um e-mail que se chama "de mansinho", foi baptizado por mim, ele fez reply de um mail muito antigo que eu lhe enviei, e repete-me que eu escrevo de uma forma crua e nua, e eu não concordo com o crua, acho que a minha escrita é meia barroca, cheia de folhinhos, de bordados à mão, de rendas de filet, quanto ao nua, é, de facto, a minha imagem de marca, por isso é que há tantos olhos a pairarem por cá todos os dias, porque uma mulher despida é um espectáculo difícil de se resisitir, e eu não sei quem ele é, sei que ele gosta de me ler, que acha que eu sou neurótica, que, às vezes se diverte, e eu apenos o sinto muito próximo de mim, a pisar a mesma calçada que eu piso todos os dias, e o post da Feira de São Mateus e das farturas tem a ver com o seu último post, e eu escrevi-lhe sobre esse post, porque me impressionou logo pela manhã, e como é que eu não me lembrei que era sobre isso que eu queria ter escrito dois posts abaixo. Cansaço? Loucura? Não sei. Mas porque raio é que só me lembrei no final do episódio do CSI?
Estou perturbada. Não consigo escrever uma história interminável esta noite. O post, o próximo, chama-se assim mesmo: história interminável.

Frases soltas; frases que são tudo menos feitas, que vai na volta até são premonições

desejo[me] diz: contigo foi mais assim
desejo[me] diz: tu vê lá, Maria Teresa, se a menina da bébé não é lésbica
desejo[me] diz: e eu desato-me a rir
desejo[me] diz: e ela logo a seguir: não posso ver novelas malucas à noite que me fazem sonhar muito
Grande [G]ralha diz: Ai, as premonições da Dona Ester...

(...)

Grande [G]ralha diz: Eu podia casar com aquele homem
desejo[me] diz: Pois podias
desejo[me] diz: Se ele fosse fiel

(...)

Malmequer diz: GRANDE POST!
Malmequer diz: O texto é lindo
Malmequer diz: Não percebo é como um cão te põe a escrever tão bem...

Amnésia - post decepado na Feira de São Mateus

Na Feira de São Mateus – quem será este santo?, e lá estou eu com as minhas dúvidas biográficas acerca dos Santos, who cares?, porque é que eu me consumo tanto com o que não vale a pena, com o que é acessório e, depois, o essencial esfuma-se, todas as noites, nas beatas que se acumulam no cinzeiro, e o cinzeiro nem sequer é um cinzeiro, é um pedaço de vidro laranja que nasceu para ser a cama de uma vela, não nasceu para ser depósito de beatas, mas é mesmo assim, não é? Todos nascemos fadados para um determinado destino, mas às vezes chega-se tarde, o despertador não tocou, os lençóis estavam quentes, o dia estava cinzento, só mais cinco minutos, já vai, e havia trânsito, pára-arranca, buzinadelas, suspiros, ajeita o cabelo no espelho da pala do sol, suspira de novo, um cabelo despigmenta-se nesse preciso instante e fica branco, ou nasce dessa mesma cor de geração espontânea, é que nem todos andam na faixa do BUS despudoradamente como eu, nem todos pensam a 300 à hora, nem todos se preocupam com quem foi o São Mateus e, se calhar, eu não cheguei tarde, não estou atrasada, cheguei mas foi cedo demais e fico com um nervoso miudinho quando estou à espera –, uma vez comi tantas farturas com o avô Oliveira que, só 16 ou 17 anos mais tarde, numa madrugada alta do dia de Santo António, na Praça dos Restauradores, à procura de um táxi que me levasse a casa, desde a casa dos Bicos, com umas meninas aflitas dos pés uns metros atrás, é que voltei a enfiar um frito daqueles pela goela abaixo, com muito açúcar e, ou a fome era muita, ou então o recalcamento de uma noite passada em branco a vomitar há muitos, muitos anos atrás, se apagou com o passar dos dias.
E se eu vos disser que não me lembro a que propósito vêm as farturas e a Feira de São Mateus, acreditam? Fugiu. Desconhece-se o seu paradeiro. Foi apanhar sol, e eu queria agarrar nas duas adolescentes esquizofrénicas e na minha loira e plantá-las ao sol, ouvir os gritinhos histéricos da Carolina ao ver as conchinhas e o mar, o post foi para lá sozinho, gostou da imagem da minha cabeça, fez as malas e partiu sem se importar com quem ficou para trás com um texto decapitado.
Era prudente parar. Mas eu não posso parar, guardem as facas na gaveta, fechem as janelas, não se atirem, não posso parar, apesar de me começarem a irritar os erros ortográficos que nunca dei (se eu paro de escrever não tem acento como eu escrevi, raios, que merda é esta?) e que começam a poluir este blogue como tortulhos (tortulhos são cogumelos em dialecto beirão, esta é uma expressão que a Magui utiliza amiúde e eu sempre gostei da palavra amiúde, é mais um ensinamento perdido do Zé Ralha – e ontem, sem aviso, a descer a Rua do Século vinda do Garcia, descubro que a minha madrasta também lê a Tralha e fiquei em semi-transe, acho que disfarcei bem, mas fiquei em semi-transe –, há uma música dos Xutos, “de Lisboa a Bragança são nove horas de distância, queria ter um avião para lá ir mais amiúde”, e não a miúda, como toda a gente cantava, e o senhor até me ensinou muita coisa e ontem, na loja do Dirk, ainda sorri com a Manuela a lembrar quando ele teimava em armar os filhos, os enteados e todos os seus amigos cavaleiros com o cabo de uma vassoura, e garanto-vos que doía, e também me ensinou a ajoelhar, uma princesa ajoelha-se apenas com uma perna, as coisas úteis que aquele homem me ensinou…).
A culpa deste post manco é de um outro vizinho (outro dia escrevi vizinho com ésse) que não posso linkar, por razões de segurança. Turvou-me os olhos, já não chorava há muito tempo, a beleza continua a comover-me, ao menos isso, já que as aberrações me dão vontade de rir à gargalhada, é um post sobre avós, como o meu era, mas pelos vistos, a beleza também me dá amnésia.

segunda-feira, janeiro 16, 2006

E se eu paro de escrever?

Há muito tempo, escrevi um post com o mesmíssimo nome, e nesse naco de prosa, bem cozido, por sinal, estaladiço, ilustrado por uma fotografia da minha caligrafia impressa por uma Dupond de prata nas folhas amareladas de uma Moleskine, eu declarava ao mundo o início de uma relação perversa e deontia, que alimentei a pão de ló de Alfeizarão durante cinco meses - um amor por correspondência, cujo fermento era apenas palavras, frases que se grudavam na pele, frases que encantavam, frases que faziam doer como sal nas feridas, se assim fosse preciso.
E nessas linhas, que não preciso sequer de rever - a grande maioria dos meus posts estão em backup na minha cabeça, o Blogger pode ir ao ar, as cópias que guardo no Gmail com a label empantanas também - eu dizia, e isto foi a meio de Agosto, que, a custo, ia continuar a arranjar frases, num processo tão doloroso quanto prazenteiro. Porque não era pelos meus lindos olhos azuis, porque eu não tenho olhos azuis, tenho-os apenas nos meus genes (tenho a certeza que escrevi esta frase, sem tirar nem pôr). Era pelo que eu escrevia. Eu não me posso dar ao luxo de deixar de escrever, escrevi eu há muitos meses atrás.
Mantém-se. Só já não é para ele. "Tenho uma audiência esfomeada para alimentar", escrevi eu ao RR, em jeito de justificação da produção frenética desta tralha. E antes tinha escrito às minhas duas adolescentes esquizofrénicas, a dos malmequeres e a dos sapatos liláses: "Acho que vou desmaiar". Escrevi isto, fechei os olhos, e com eles bem fechados, vi bolinhas amarelas e ouvi um ultra-som insuportável.
Mas hoje, apesar de ter tomado café na Hagen Dazs com a Marta e de ela falar como os homens, de lhes ter lido a cartilha, a tal que injectam aos meninos mal eles acabam de inspirar o primeiro oxigénio das suas narinas, apesar de o meu coração ter estado em vias de rebentar pela primeira vez desde Dezembro, e de a médica de Medicina do Trabalho ter tido ganas de discar 112 e de eu a ter impedido, e depois de me ter mandado para casa imediatamente sem apelo nem agravo, e eu, nem pense, tenho um texto para escrever, aos 23 anos tive a minha primeira macacoa, 17 de mínima, 27 de máxima, 160 batidas por minuto, aí sim, tive que parar, doutora, fui para o Hospital porque não aguentei quatro serviços num dia e uma greve geral da função pública, e eu sem conseguir respirar numa conferência de imprensa, sem conseguir respirar na linha amarela do metro, e depois a máscara do oxigénio no nariz no centro de saúde e eu a pensar no desgosto que a minha mãe teria quando soubesse que eu tenho um coração fraco, mas antes, a senhora da farmácia muito aflita e eu: só preciso de uma embalagem de Nasex, não consigo respirar, estou um pouco aflita, tenho o nariz entupido, eu a suar em bica e ela sente-se, sente-se, a menina não está bem, e mede a tensão com os aparelhos automáticos e aquilo dá erro, mede com o manual e não acredita, chamem o INEM, grita, e eu, calma minha senhora, eu tenho que escrever três textos, ninguém chama o INEM coisa nenhuma, aliás, eu chamo o INEM, o meu ex-marido socorre-me, vem a voar, e assim foi, e ainda escrevi um texto, mas hoje estava só a 10 de mínima 18 de máxima, 110 batidas por minuto, isso nem é taquicárdia que se apresente e tenha calma, eu não estou nervosa, isto já passa, e eu devia, mas para que é que lhe ia contar, que trago um segredo no meu peito que às vezes me destrói, como é que lhe explicava que tenho o coração descompassado por uma história que é feia demais para ser contada, e nos registos da Unimed, de há quase três anos atrás, eu pesava menos dez quilos, eu tinha uma depressão enorme em cima dos cornos, mas a tensão era estável, normalíssima, 11/7, e eu estava grávida, foi esse médico quem me disse para ir comprar um teste à farmácia, eu estava grávida e já o sabia, disse-lhe que tinha medo de estar grávida, e nessa consulta eu fiz tudo, mas tudo, para ele me considerar inapta para o trabalho, disse que ouvia vozes, que não tomava os ansiolíticos, apenas os excitantes, que me drogava, que bebia muito, que misturava tudo no shaker e tomava de um trago só e quando me pediu para ler as letras eu inventei um novo alfabeto, mas, no fim de tudo, disse-me apenas para eu ir comprar um teste de gravidez e considerou-me apta para trabalhar. Apesar de tudo isto, dizia eu um parágrafo acima e muitas vírgulas depois, não consigo escrever as frases que estão na minha cabeça.
E se eu paro de escrever?

domingo, janeiro 15, 2006

O vestido e as fadas

Neste meu mundo de quartos andares sem elevador, de amores impressos com tinta permanente nas paredes do hall, de amigos improváveis nas esquinas da blogofera, há magos, feiticeiras, fadas e gnomos, há um Deus que usa blusão de cabedal e tem barba de três dias, tem tatuagens nos braços, tribais, do Tahiti (as sandálias, a túnica e barbas brancas, essas ficam num lugar onde raramente passo: o estereótipo). Há encontros de almas gémeas à 33.333ª visita deste blogue (também auguro bons ventos de mudança em relação ao visitante número 31.131 - não sei quem foi, hoje estive o dia inteiro a dormir, não xutei estatísticas na veia), a verdade é que eu vejo sinais em toda a parte: no estacionamento em frente à porta de casa pelo 8º dia consecutivo - moro no Marquês de Pombal e posso-me gabar disto, um lugar fora dos domínios macabros da EMEL, que o demónio em vias de ser anjo do estacionamento reserva só para mim, faça chuva ou faça sol, seja noite, ou seja dia -, e se apenas uma das três grafonolas de um blogue de referência teima em abrir, eu acho que isso também quer dizer qualquer coisa. Mas geralmente, não quer dizer nada. E eu sofro.
Este é o post do vestido, aquele que os gajos dificilmente entenderão, decerto nunca tiveram um frenesim quase orgásmico por encontrarem uma peça de roupa a preço de pechincha, nem tão pouco ficam felizes da vida, a rebentar de alegria é mais adequado, quando o pedaço de tecido parece que foi cortado e cosido à medida do seu corpo.
Eu sonhava com aquele vestido e nunca o tinha visto. Houve magia naquele provador. A Magui que nem é gaja nestas coisas, até disse, sentada no seu banquinho, de bengala, com calças de ganga tingidas de pingos de lixívia de ter estado a lavar o chão, com pouca pachorra para aturar a minha fúria consumista, mas deixando o seu cartão de crédito Mastercard à minha disposição: "É lindo!".
Corte perfeito, crepe de seda, decote até ao umbigo, cor beringela. O vestido foi feito para o meu corpo e isso quase nunca acontece. Mamas 34 (às vezes são 32, eu só estou a ser simpática comigo própria e sempre que escrevo estes números que me fazem desmamada, vem-me à memória um soutien de aleitamento tamanho 40 e sim, é mais forte que eu, suspiro), anca 42, é o cabo dos trabalhos, é uma tarefa titânica e que me dá cabo do ego, encontrar uma vestimenta dentro da qual não pareça uma baiana.
Nessa tarde de sábado, há uma semana, no dia do jantar da (T)ralha, as fadas costureiras daquela loja do centro comercial Vasco da Gama, labutaram sem parar a noite toda. E, à minha espera, estavam três vestidos maravilhosos: um verde (nunca tive um vestido verde, mas agrada-me, porque o meu marido literário tem uma personagem do seu livro que tem uma saia verde), um castanho e o tal, o beringela, o tal que até a minha mãe que não liga aos trapos que usa, disse: "ficas com o mundo aos teus pés com esse vestido".
E sempre que estou num provador e o trapo assenta bem, eu prevejo o futuro das vestimentas: "Aqui vou ser feliz", disse, plagiando o anúncio do banco que se chamava BCP e agora, porque é moderno, e não tinha mais do que fazer a uns bons milhares de euros, se chama Millennium (com dois éles e dois énes) e é cor-de-rosa fuchsia. E eu vaticinei noites quentes para aquele vestido, logo que o vi refectido nos três espelhos do provador.
Paguei, levei o saco para casa e quando vou a pendurar o ex-libris no closet, o drama, o horror: um pequeno defeito, um buraquito debaixo da mamoca direita. Enfia outra vez no saco, reza ter um bocadinho de tempo entre o Garcia Pereira para o ir trocar, lá para os lados do Parque das Nações.
Mas não houve tempo. Esteve no saco, no porta-bagagens do Idea durante sete dias. Passeou de um lado para o outro, o belo vestido defeituoso.
Sem grande esperança, rumei à loja no sábado seguinte. Expus o defeito, aceitaram de imediato a troca e a menina de cabelos volumosos disse-me: "Está com sorte, ainda há um". Mas não havia. Tinham acabado de o levar. "Vá ao provador ver se alguém o rejeitou" (como é que alguém o poderia rejeitar? Era perfeito!), nada, desolada, escolho outro, menos bonito, com mais tecido a sobrar nas mamas, levo também um par de sapatos que não gostava especialmente e quando chega a minha vez na caixa, quase vinte minutos de espera depois, a bufar, a poderar se ficava ou não com o vestido defeituoso, e a Magui a dizer que era caro demais para ter defeito, e quando estou neste dilema e aceito o inevitável, tenho que trocar o vestido beringela pelo preto e pelos sapatos que não são assim tão giros, a menina da outra caixa, que estava de costas para mim, tira um pedaço de tecido de seda beringela de um saco e deposita-o num monte de roupa rejeitada a menos de dez centímetros da minha mão que segurava o cartão de crédito da minha mãe, e eu: parem as rotativas já, mostre-me aquele vestido, veja se tem algum defeito, que tamanho é? Era a réplica do meu vestido. Sem defeito algum. Que aparecera sabe-se lá de onde, no último momento, para me fazer feliz.
Este vestido tem poderes, como as folhas da Ambar de cem gramas por metro quadrado. E quando eu o estrear, decerto, qualquer coisa extraordinária irá acontecer.
Se nada acontecer, tant pirre, como diriam as personagens dos filmes do Jeunet.

sábado, janeiro 14, 2006

Sábados

Já não são os dias mais odiados.

E eu tinha escrito um post sobre uma magia que aconteceu este sábado.
Pus em draft porque era meio aparvalhado, falava de vestidos - era um post para mulheres; os homens não entenderiam.
Mas os blogues às vezes fazem-nos mal. Abri o blogue errado. E o Sábado acabou mal, faltavam apenas dois minutos para acabar. Foi uma grande injustiça.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Sexta-feira treze

Sexta-feira 13 e vieram uns pinguinhos de chuva, se soubesse não tinha regado as floreiras hoje, pela manhã, e a estagiária mais doce que algum dia me passou pelas mãos (o mais doce foi o nosso menino, Carrie), ensinou-me uma das expressões mais bonitas que algum dia ouvi - eu fui buscá-la a Benfica para nos despedirmos no goês do Jesus, numa ruazinha esconsa por detrás do Martim Moniz e ela disse-me: desculpa o atraso, tive que tirar a roupa do estendal para não apanhar o sereno da noite, e as flores da minha janela apanharam o sereno da noite, tinham gelo nas folhas.

O aquecimento não está ligado: a chuva abraçou o frio, um abraço quente, e ele amansou, deixou-se ir, derreteu.

O azar não bateu à porta, mas a sorte continua perdida, algures na outra ponta da cidade, com o mapa virado de pernas para o ar.

No dia mais temido pelos supersticiosos, as meninas dos retratos a branco e preto sentaram-se num café ao Chiado, à janela, nem repararam na chuva que caía sobre a linha do eléctrico, e juntas demonstraram, a quem quer que tivesse prestado atenção - eu já disse que falo alto? -, que a série o Sexo e a Cidade podia passar-se, perfeitamente, em Lisboa, na Lisboa antiga, a que tem janelas de madeira, tectos trabalhados e chão de tábua corrida, e não apenas no papel de um guião, escrito para a cosmopolita Nova Iorque.

Cada vez gosto mais deste blogue. Que me trouxe amigas. Improváveis.

Mas estou cansada. Sim.

Sempre que acordo, a vizinha do prédio em frente, o prédio gémeo do que me escolheu como inquilina – é gémeo idêntico, diria que é siamês, está separado apenas por uma rua estreitinha – e o do outro lado da rua, onde vivem dezenas de imigrantes de leste numa mansarda que tem o tecto negro de bolor, a vizinha está sempre à janela a comer maçãs, dizem que as maçãs fazem bem aos dentes, que os lavam, e eu tenho que voltar a usar o aparelho à noite, a mandíbula inferior já está ligeiramente desalinhada, se calhar tenho que comer maçãs, quero bravo de esmolfe, ou aquelas outras verdes fluorescentes, muito ácidas. Eu acordo com o telefonema da Magui, durmo mais cinco minutos, tempo suficiente para sonhar um sonho inteiro com ficha técnica, abro os olhos ao primeiro “pi” do telemóvel, desligo-o, lanço os dois edredons para os pés da cama, sento-me, olho para a direita e lá está ela, sempre, entre um mar de calças de ganga, estendidos numa corda de nylon azul, já lhe aceno com os olhos inchados e de pernas ao léu, ela deve especular porque é que não tenho cortinas, e eu queria umas de crochet com passarinhos, ou com rosas, mas as artroses da Magui já não fazem milagres no mundo dos lavores, e a minha mãe loira de olhos azuis acinzentados nunca teve paciência de me ensinar, porque eu não aprendo rápido, eu não escrevo rápido, e eu até queria cortinas, não por pudor de a vizinha me ver as pernas, apenas porque não gosto das caixilharias de alumínio, e do outro lado da rua, as janelas são de madeira, pintadas de verde floresta, e eu invejo aquelas janelas, amaldiçoo o condomínio do meu prédio que não arranjou as escadas, mas que substituiu madeira pintada de verde por alumínio prateado, e a vizinha tem um filho, que tem uma mota de corrida cheia de autocolantes lá em baixo, e esse filho é baixinho e gordinho e as bochechas são rosadas como se tivesse bebido um copito a mais, esse filho é a cara chapada da vizinha e já me apanhou de cuecas e soutien encarnado – no primeiro dia da menstruação visto lingerie encarnada, hoje veio o período de surpresa, acho que anda a vir de 15 em 15 dias, mas não sei bem, deixei de tomar a pílula há mais de três anos e desde então é um totoloto, mas não tenho cuecas encarnadas, vá lá, estou vestida de demónio, até pensei comprar na lojas dos trezentos e quarenta escudos e oitenta e um cêntimos uma bandolete com corninhos de diaba, uma para mim e outra para a menina dos sapatos lilases, mas a vizinha tem outro filho, alto e espadaúdo, que rega os vasos das plantas que estão na janela e eu não posso jurar, mas acho que ele tem um vaso de cannabis ao sol, e ele é um homem lindo, deve sair ao pai, e já me apanhou de pernas ao léu a regar a buganvília e o jasmineiro e a cantar “Esquecida, a cada dia que passa”, e ele põe o canário amarelo sol à janela para ele cantar e eu a cantar do outro lado da rua, e ele a sorrir de esguelha e eu a pensar que, se calhar, plantou a cannabis com as sementes do bicho, as sementes dos canários são de cânhamo, por isso é que eles cantam desenfreadamente, com a moca, e eu não posso jurar, mas duvido da sua orientação sexual.
E a vizinha deve achar tudo muito estranho, a do lado sabe que às vezes vêm uns homens fora de horas até à Martinha – e vêm é só com um é, porque vêem é de ver porque tem dois olhinhos, diz-me a menina malmequer, minha copydesk de serviço –, porque esporadicamente, muito esporadicamente, vou à janela dar-lhes o mapa do tesouro pelo telemóvel e eu falo alto, a minha avó Zá estava sempre preocupada porque eu falo muito alto, devo ouvir mal, ela preocupava-se muito com a minha aparente surdez e com os meus joelhos tortos, qualquer dia, vó, com duas décadas de atraso, vou ao otorrino, e se calhar, depois vou à casa Sonotone, e quando os homens chegam às traseiras do Palácio Sottomayor eu aceno da minha janela que não está muito florida, que está mesmo desoladora, diria eu, ando descuidada, apenas as rego e toda a gente sabe que não basta regar, é preciso falar com as flores, dizer-lhes bom dia e tchau e um beijinho, e a vizinha do lado sabe que eu não tenho votos de castidade por causa dessas visitas. Mas a vizinha da frente vê-me sempre a acordar sozinha de pernas ao léu.
“Não mando uma há séculos”. Eu digo isto ao inominável, na varanda onde os fumadores desta redacção apanham pneumonias, e ele fica verde da cor da fachada que está cheia de rachas, calham-me sempre na rifa gajos de esquerda pudicos (e pudicos não leva acento no u, e caracteres – e já vou nos 4229 – devia levar, mas eu não me conformo com isso e, portanto, escrevo caracteres em vez de carácteres). E eu escrevo em resposta a um email perturbador de um outro inominável, que é tão narciso, tão narciso que põe como subject do email – uma bela surpresa, o email –, o seu próprio nome, eu digo-lhe, por favor, não me habitues bem, que eu ainda me apaixono por ti, mas depois do aviso, confesso: também só fodo quando me apaixono. E não fodo há muito tempo. Com este último, sobre o qual tanto escrevo, não estava certa que o amava, amava sim, a ideia de um amor por correspondência, de o ter atraído até mim, do nada, apenas por causa do blogue e, por isso, no fuck, (…) e deixa-me ressalvar uma coisa, já estou a falar demais, mas que se dane, perdido por cem, perdido por mil, eu geralmente não me gabo do meu conservadorismo sexual, mas eu ando puta da vida, porque tenho uma fama de fodilhona, que vou para a cama com este e com aquele e, se calhar devia, da última vez que o fiz acabei com uma loira linda nos braços, mas eu continuo a achar que não há nada pior do que uma gaja mal fodida, enfim, e eu prefiro não ser fodida de todo.Mas estou cansada, sim.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Mau sexo < Nenhum sexo

O Leonardo avisou-me logo ao final da manhã, eu vim buscar o telemóvel, lindo serviço, vai para o coração de Chelas sem meios de sobrevivência, e agora como é que chamas o Táxi? Procura um multibanco, procura uma cabine, procura o metro, procura um café, procura tudo isso e só encontrei o café e vim a casa buscar o telemóvel, depois de pagar 75 cêntimos por um impulso numa tasca onde a dona, muito loira, dizia à filha, muito morena: se te apanho no namorico depois das aulas levas uma tareia que nem te alevantas, assim mesmo, como acabaram de ler, alevantas, vim a casa e aproveitei, lavei o resto dos copos que jazem na bancada de mármore desde o fim de ano - o que é que isso diz de mim? ter seis copos por lavar há onze dias? que sou um péssimo partido? uma execrável fada do lar? -, não cheguei a lavá-los a todos porque, mais uma vez, fiquei sem gás, e desta vez até comprei a botija, carreguei-a às costas, como um estivador, 60 degraus a pique, mas o esquentador tem humores, maus humores, demora meia hora a acender, e eu a adiar o inadiável, amanhã de manhã, já sei, acordo meia hora mais cedo, fico de olhos fechados com o polegar a carregar fundo no botão, ainda a dormir troco de mão, troco de dedo, amanhã vai ser assim, mas ontem, aproveitei ter vindo buscar o telemóvel e porque não há que ter medo de o dizer: sou pobre, não compro sapatos desde Outubro, acabaram-se esses tempos, não há dinheiro não há vícios, só o tabaco, mas, qualquer dia, nem esse, vim buscar o telefone, tentei lavar os copos, deitei o lixo fora, e sim, almoçei em casa, aqueci um minuto, no microondas, um hamburguer com queijo do Lidl, e o Leonardo tinha-me dado a notícia: carta registada da minha vizinha divisão de trânsito da PSP. Mas eu esqueci-me, depois lembrei-me, ia já a sair de casa da Magui quando me lembrei da carta registada, abre a carta, vê a multa, eu sei que é populismo, eu sei que é demagogia, mas o PR só dá indultos a assassinos, perdoar multas de estacionamento, está quieto, por isso, amanhã, são trinta euros, dona Ralha, por ter estacionado com uma roda em cima de uma lista da zebra da passadeira na Tomás Ribeiro, e, por isso, hoje não ligo o aquecimento, não sei onde vou arranjar dinheiro para pagar as contas, poderei pedir o subsídio de férias para Fevereiro? Por isso, estou de cachecol e sobretudo de fazenda a escrever, com as mãos e o nariz gelado, por isso, queria expor a minha teoria, que tenho vindo a aplicar há largos meses, sou a inventora e a cobaia, queria fazer um post com bolinha encarnada no canto superior direito, queria falar de sexo, porque, nada a fazer, eu criei um blogue que é suposto ser secreto, mas não há forma de me lembrar do user name e password, não anotei e varreu-se-me para debaixo do tapete da memória, queria escrever um post para eriçar a pele, não sei se tinha jeito, se ficasse como um romance Arlequim não publicava, já me basta ter publicado um post cheio de gralhas, com verbos que chegaram atrasados, que faltaram ao encontro e ainda estou traumatizada de ter publicado um post de merda.
Não sei se consigo escrever sobre sexo. Ou melhor, sobre a falta dele. Ou ainda, sobre a premissa mau sexo é pior que nenhum sexo. Tenho a cabeça cheia de equações, de outro tipo de equações, ligadas a como esticar mil euros e conseguir ser feliz.

Deixo-vos excerto de conversa com uma mulher que me instiga pensamentos lilases:

Retrato a branco e preto diz:
sabes q eu tenho saudades disso, q me toquem
Retrato a branco e preto diz:
raios
Retrato a branco e preto diz:
q merda esta
Retrato a branco e preto diz:
tou carente

Não consigo escrever sobre sexo. Se calhar, amanhã, com o Your Ghost em repeat one.

Retratos. A branco e preto.

[A Carrie tem razão, sou uma vendida, sou uma gralha, não consigo estar em silêncio por muito tempo, e eu já vos contei que a voz do meu cérebro, a da consciência, acho que é a voz da consciência e não quero comentários foleiros sobre a minha sanidade e sobre esta história de ouvir vozes - só oiço uma, que fique isso bem claro -, tem uma voz diferente da minha, mais grave, mais doce, contei isto, não contei?]

No reino das janelas mágicas, na jursidição da aplicação da Microsoft que é a minha companhia de dia e de noite, é o telefone sem voz, três mulheres maravilhosas, do melhor que se fez no rescaldo da Revolução, têm hoje o seu retrato a branco e preto.

Estas três mulheres (eu sou a terceira, lamento a imodéstia, mas hoje estou cheia de soberba, esse pecado mortal pelo qual hei-de pagar caro, talvez esteja assim porque tive um banho de gente feia, em Chelas, logo pela calada da manhã, com o Garcia Pereira de cachecol encarnado de malha polar e fato de bom corte, com colete, impecável, só não gosto do risco demasiado ao lado do senhor) são a música que está aí do lado direito, não as definiria melhor.
Carreguem no play, eu não gosto de blogues que disparam logo a música quando a página está a carregar, mas carreguem no play, é como as três meninas do retrato a branco e preto, das melhores coisas que se fez na música popular brasileira, o casamento perfeito entre a letra do Chico, a melodia do Tom e a voz da Elis.

E agora escrever sobre Chelas e a sua zona I, agora baptizada, para efeitos de marketing, de Bairro das Amendoeiras (e as amendoeiras, nem vê-las, eu bem que andei à procura, eu nunca vi as amendoeiras em flor, eu nunca peguei no carro sem destino, eu nunca fui ao Jardim da Estrela, nem à Costa Vicentina, e, gajas, sim vocês, as do retrato P/B, uma mais linda que a anterior, vamos qualquer dia sem destino?...)

Alô?

[Peço desculpa pela quantidade enorme de gralhas da primeira versão deste texto. Até estou envergonhada, acho que vou deixar de escrever por uns tempos]

Para que é que eu fui telefonar, para quê?

Para que é que eu fui telefonar, para sofrer?
Ao nosso encontro não apareceu
E aí telefonei
E quase que chorei

O telefone às vezes nos faz mal
E sem querer acabou uma paixão
Eu me chamo Zé, pois é
Fiz a ligação
E ela disse "Alô João"
Ai, ai
E ela disse "Alô João"...

Autor: não faço ideia e Google não me ajuda. Está num CD da Elis Regina, no Fino da Bossa, vol 1.

Tenho uma relação esquizofrénica com o telefone.
É o meu mais importante instrumento de trabalho. É o revólver dos polícias. O bisturi dos cirurgiões. É a lima da manicura.
É mais importante do que a caneta. Que o papel. Se não trago comigo o bloco merdoso Caravela e a esferográfica, que me faz calos no dedo "pai de todos", tenho olhos, tenho ouvidos, tenho o que resta da memória, e se ela falha, ainda tenho o gravador, isto se ele tiver pilhas, o meu gravador azul, oferecido por uma empresa de telecomunicações protesta que eu nunca o uso e tem razão, encostei-o à prateleira, dispensei os seus préstimos.
Se não tivesse um telefone sempre ao pé de mim, um analógico, o outro GSM, eu não falava com o presidente da câmara, eu não apanhava ministros e banqueiros (velhos tempos) em coisa de dez minutos. Não sei se o telefone é mais importante que o Google. Talvez. São as minhas muletas, porque eu sou uma jornalista de secretária.
Infelizmente.
Durante muito tempo, achei que tinha nascido talhada para este jornalismo, não queria outro, contentava-me quando, aqui ou ali, um editor deixava passar qualquer coisa com graça - às vezes, bastava um parágrafo para eu ficar feliz, mas nada me dá mais gozo que um título bem esgalhado e uma vez escrevi no suplemento de economia "arrogante pedaço de merda" e soube-me muito bem, foi um dia bom, esse.
Tenho jeito para o telefone. Saio da redacção, ao final do dia, com o ouvido direito muito encarnado, a arder, semi-surdo. Ainda fico nervosa sempre que ligo para alguém importante, não são raras as vezes que escrevo as perguntas no caderno Caravela, para não me esquecer de nada, escrevo tudo, como uma cábula, com a minha letra de jornalista - eu tenho várias letras, seria o cabo dos trabalhos para os grafologistas, davam em doidos, porque eu também sou esquizofrénica com a caligrafia, quando estava na Faculdade tinha uns cadernos muito bonitos, em folhas da Ambar de cem gramas por metro quadrado (desde a primeira classe, que meti na cabeça que estas folhas me davam sorte, estas folhas, quatro furos para guardar no dossier do lado esquerdo são mais pesadas, parecem cartolina, são estupidamente mais caras, geralmente só se vendem nas papelarias, as de 70 gramas em qualquer supermercado se encontram, e eu já era maior de idade e, apesar de ter a vacina do tétano em atraso, se calhar foi por isso, acreditava que naquelas folhas aprendia melhor, que tinham um encantamento qualquer, e ainda acredito nisto e a Carolina há-de usar folhas de cem gramas por metro quadrado), eram uns cadernos mesmo bonitinhos com letras microscópicas escritas com a Art Pen da Rotring, cor sépia, não tinha toda a matéria, porque raramente ia às aulas, mas arriscaria dizer que eram os mais bonitos da turma, se os do Miguel não tivessem uns sublinhados e separadores perfeitos (e os teus, Mónica, também eram muito bonitos, não fiques com inveja, sempre gostei dos teus émes e da forma como agarras nas canetas, muito em baixo, quase junto ao bico, da mesma forma que amava os zês do Miguel e os cês cedilhados da thê foram separados à nascença dos meus, são gémeos). A minha letra de stressada é diferente desta miudinha, se estou perturbada, escrevo a itálico com a letra muito bem desenhada, como na primária, como me ensinou a senhora professora Gerturdes Maria. A minha letra de jornalista é, também, inclinada, garrafal, mas são gatafunhos que eu só entendo nas primeiras seis horas após ter escrito: o que escrevi hoje no Garcia Pereira já não vou entender amanhã, letra de jornalista é equivalente à de médico e a que propósito veio esta coisa das letras? Tenho que ir ver para cima o que escrevi...
Ah, fico nervosa quando ligo, mas depois sou uma charmosa do pior que há, uma das minhas "fontes" mais queridas, diz que é impossível resistir aos meus encantos telefónicos, de facto, tenho jeito mesmo, já me apaixonei, inclusive, por algumas vozes, já levei grandes baldes de água fria quando conheci os donos dessas vozes (registo apenas uma agradável surpresa de uma linda voz para uma linda cara), mas apesar do jeito para a coisa, do talento natural para a conversa, desde que o Miguel foi para o Dubai, o meu telefone, o privado, calou-se.
Até há coisa de um mês.
Eu ligava ao Miguel dezenas de vezes ao dia, pelos pretextos mais idiotas. Imagino que, se ele estivesse por cá, estaria sempre a discutir com ele o blogue, os posts, as estatísticas deste quintal e o diabo a sete. Mas não está. Está nas Arábias, onde Alá perdeu as sandálias e o pano da loiça que os senhores usam na cabeça.
Deixei de ligar aos meus amigos quando ele partiu. Não o quis substituir, ele é insubsituível, tudo me pareceria menos dedicação, menos paciência, menos sabedoria, menos sensatez, depois da amizade dele, tudo seria assim, insonso, nada a fazer, é injusto e eu não gosto de ser injusta.
Calei-me.
Sinto-me um fardo para os amigos que ficaram neste rectângulo e sei que sou inadaptada. Optei por uma carreira que nada tem a ver com o que andei a estudar durante quatro anos, as profissões dos meus amigos estão nos antípodas da minha, vivo num mundo que nada tem a ver com o deles. Não tenho, também, muitos amigos jornalistas, é um facto.
Todos têm as suas vidas, ninguém tem filhos, não têm que me aturar as paranóias, não lhes ligo para ir tomar café, para ir ao cinema, têm os seus problemas, as suas casinhas na suburbe, os seus GTI, muitos deles nem sabem o que é um blogue, não sabem que tem sido o meu melhor amigo, e quando estou com eles não lhes sei explicar porque não tenho namorado, porque é que estou sempre triste mas rio alto, com todo o fôlego dos meus pulmões enegrecidos pela renda que pago todos os dias à Philip Morris, e acho mesmo que, às vezes, se sentem incomodados, invejosos, já senti isto parece-me, mas se calhar estou a ser mesquinha, quando lhes falo do fabuloso destino Diana Ralha, que tropeça em histórias do além todos os dias, que repara em coisas que mais ninguém repara, ficam invejosos.
Se tenho amigos, poucos, foram os que não desistiram de mim, nesta fase bicho do mato, que insistiram, que vieram até mim quando eu os exotava, que gastaram rios de dinheiro em telecomunicações, que me tiraram de casa para ir jantar secretos de porco preto, que me passearam nos sábados em que a minha filha me era retirada por ordem judicial.
O telefone, o Nokia azulinho, que não tem toques polifónicos, que não tem bluetooth, não tem jogos Java, nem coisa parecida (nem agenda tem e sinto muito a sua falta), esteve mudo. Não quis incomodar ninguém. Deixei-me ficar. À espera do meu insubstituível, com quem sonho trocar banalidades como antigamente, ouvindo a sua voz encostada às minhas orelhas, enquanto escrevo textos, enquanto mudo fraldas, enquanto faço xixi. O único telefonema que recebia diariamente até há umas semanas era o da Magui a acordar-me na sua versão de galo pós-moderno.
Tudo mudou.
Voltou a tocar, a valsa da Amélie, para quem nunca tenha ouvido o meu telefone, toca desenfreadamente a valsinha do Tiersen, e comecei a contar a minha vida a perfeitos estranhos, comecei a ligar-lhes sem ter medo de estar a ser inconveniente, a ligar a torto e a direito como uma adolescente esquizofrénica que tem que contar o beijo que deu ao rapaz mais giro do liceu, até o telefone do jornal já tocou com um amigo improvável do outro lado.
Fiz as pazes com o telefone.
(não sei é se tenho é dinheiro para pagar a conta ao final do mês)

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Trinta Mil

Aviso: o visitante trinta mil diga qualquer coisa na caixa de comentários do post de baixo, porque este não é post, vai saltar daqui assim que um leitor pisar a relva do meu quintal pela trigésima milésima vez - e se eu não escrevo estas efemérides, vocês não reparam qual é o número da vossa visita (shame on you...).
Bem haja, sim?

terça-feira, janeiro 10, 2006

Rugas

Duas e trinta e um da tarde. Almoço ou post? Post. Porque hoje tenho um dia infernal de campanha e só para variar, ainda vou ter que escrever uma qualquer inutilidade - o chefe assim a apelidou, esta não dá justa causa, lamento - para a secção que me paga o salário.

Já sei que, depois, vou chegar a casa às onze da noite, vou deitar a minha bébé, dar corda à caixinha de música, vou ligar as luzinhas com libelinhas a quem a Carolina chama de lulús, vou tirar a roupa da corda, vou ficar com os dedos dormentes do frio, vou aquecê-los em vão, entalando-os entre as pernas, vou espreitar a loira diabrete já a dormir de boca aberta o sono dos inocentes, vou ficar feliz com aquela imagem, vou guardá-la no meu chip, depois vou sentar-me no sofá laranja com frases soltas prestes a explodir como milho americano em lume forte, mas vou ligar o programa que me faz companhia todas as noites e depois vai aparecer, no messenger, o sargento, a adolescente esquizofrénica, a habitué Qui Qui, e já sei, vou ter pouca coragem para o escrever: o meu cansaço é como o desemprego em Portugal, é estrutural, não é meramente cirscunstancial, e já pareço o Garcia Pereira a falar, ontem, gostei sobretudo quando ele disse, no Centro de Estudos Judiciários, perante meia dúzia de gatos pingados que andam a estudar na antiga prisão do Limoeiro para ser juízes em causa própria, ele disse que tem um gabinete de pirotecnia no afamado escritório de advocacia que dirige e que solta um foguete por cada cada vez que a Justiça cumpre os prazos estipulados, mas soltou, também, que tem a sala cheia de foguetes, que estão prestes a passar de prazo, ele disse isto sem mudar o tom de voz, ácido, implacável e eu tive um ataque de riso histérico, que se transformou num ataque de tosse e que me trouxe as desaparecidas lágrimas aos olhos.

Começam-me a nascer as primeiras rugas.

Eu estava há pouco tempo no colégio, ainda não me tinha habituado à ideia de tratar a professora por Ana Paula e não por senhora Professora Gertrudes Maria, na escola 101 do Bairro das Estacas, a senhora professora tinha uma menina dos olhos de não sei o quê e uma régua que içava sempre que alguém abria o pio, e a sala cinco tinha dezenas de colegas indianos, lembro-me de um que tinha 14 anos, o António Odô, tinha a caligrafia mais bonita, e uma menina muito pequenina, que mal falava português, chamava-se Minashri. No colégio, a única pessoa com a cor de pele diferente da minha era a Ruzena, filha de um embaixador, era muito escura, tinha uma carapinha muito cerrada, tinha uns lábios enormes, rosados, tinha as palmas das mãos mais brancas que as minhas, tinha um perfil de estátua aborígene, havia o Aguinaldo também, mas esse tinha cor de meia de leite, e apesar de estarmos numa escola privada, eu e as minhas duas tranças fomos as únicas a brincar com a Ruzena no recreio, porque, diziam os outras crianças, más como eu nunca mais vi, os outros gozavam com ela e diziam que ela era das barracas que havia no morro da Estados Unidos da América, junto ao Parque da Belavista, e isto foi só porque um dia ela trouxe os collants com uma malha.
E, nesta altura, o avô Oliveira ainda estava vivo, a avó Tóia já não, lá em casa, a alcatifa do hall era verde bandeira e eu tinha uns sapatos de presilha azuis escuros, com sola de couro e passava a vida a escorregar naquele cobertor do soalho que lembrava o feltro das mesas de jogo, lembro-me de estar a ajudar a Dona Teresa, a minha ama e ama do meu avô, estávamos a dobrar lençóis no hall, com a cómoda dos puxadores de faraós dourados e tampo de mármore do meu lado esquerdo e, nesse dia, em que dobrámos um jogo de lençóis com padrões dos anos 70, e em que a Dona Teresa me ensinou um jogo que envolvia bolinhas em folhas quadriculadas, tínhamos ido a Vila Franca de Xira, em visita de estudo com o Colégio, à Xira Jovem e isso era uma espécie de feira, montada numa tenda de circo - é assim que eu me lembro dela -, davam-nos dinheiro de fingir à entrada, dinheiro de monopólio, e depois havia barraquinhas, com comes e bebes, com jogos, o chão era de terra batida e estava enlameada, eu lembro-me de andar com cuidado por causa dos sapatos que eram mesmo bonitos, comprados numa loja do centro comercial ACSantos da avenida da Igreja, lembro-me de andar atrelada com a Rosalinda, a contínua do colégio que me recebia todas as manhãs na carrinha, bata cor-de-rosa, permanente no cabelo que lhe tinha emprestado os caracóis de um carneiro, e parámos na barraquinha onde umas senhoras simpáticas faziam penteados e pinturas, e puseram-me uma peruca loira na cabeça e sombra verde nos olhos e lembro-me de sorrir ao espelho, um espelho de camarote com luzes, e de elas dizerem: "faz uma covinha tão linda na bochecha direita". E a Rosalinda: "É a menina mais bonita que eu vi". "Mas vai ficar rapidamente com rugas", disseram.

E na Quinta do Lambert, o tecto radioactivo, as bananeiras do jardim interior, o supermercado do patrão no piso de baixo, o meu cabelo cortado à escovinha, um top de seda verde seco, bordado com missangas, um fato preto, os olhos pintados de verde também, a fazer as bolsas em traje de cerimónia, porque dali seguia para a inauguração do Zé Ralha, a que teve a Amália a dizer que o meu pai e o meu avô e toda a minha famíllia eram pessoas muito puras, a Amália agarrada à minha mão direita sem largar, depois de ter emborcado uma garrafa de whiskey sozinha, a Amália que se esqueceu de colar a placa ao céu da boca, e a Sílvia, quando me viu a tirar os prints da Reuters do Euro Stoxx 50, "tens uma pele tão linda, não tens nenhuma ruga".

Começam-me a aparecer algumas rugas

Rugas de chorar


[Não me perguntem como é que tenho fotos de mim a chorar, porque senão eu tenho que vos dizer que tenho a mania psicopata de fotografar os momentos tristes, da mesma forma que toda a gente fotografa os sorrisos de felicidade Pepsodent, para mais tarde recordar]

Rugas de sorrir

Rugas de cantar [é o que eu mais gosto de fazer e não tenho nenhuma foto a cantar]

Começo a franzir

Rugas de sentir
Amanhã, vou comprar o meu primeiro anti-rugas.

Créditos fotográficos: entre outros, inomináveis, a Diana Quintela.

E não almoçei, mas também não escrevi o post. Fiz tudo como tinha descrito, tirei a roupa no estendal, liguei as luzes de libelinha, a caixa de música a tocar uma canção de embalar, o sofá, a Qui Qui e a outra esquizofrénica no messenger, foi tudo como eu escrevi.

Adolescentes esquizofrénicas - começou o tunning do (T)ralha

À uma e quarenta e dois da matina, depois de quase levar ao desespero o meu helpdesk via messenger, consegui pôr música no (T)ralha.
Esta é para a minha adolescente esquizofrénica.
Estou com saudades do meu cabelo (estou quase arrependida de o ter cortado, já sei que assim fica bem, mas sinto falta do peso dele em cima das mamocas). Estou triste porque já não há luzes de Natal (ontem não nos despedimos como deve de ser). Estou com as hormonas aos pulos (tenho um blogue criado para contar essas coisas de hormonas, mas já não sei qual é a password que escolhi para entrar no dashboard). Estou siderada porque o Garcia Pereira me manda sms à meia-noite e meia, depois de já se ter transformado em abóbora, de certeza. Estou desolada porque o anjo negro disse adeus e só vai voltar quando tiver colado as asas às costas. Estou cansada. Tenho que dormir. Amanhã há mais. Divirtam-se com o Goran.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Histórias

Eu sou uma mulher atormentada.
Por uma história que não posso, que não quero, que não devo escrever.
Porque sei, se eu a bato no teclado com força, com a força que me destrói as unhas do dedo indicador e pai de todos das minhas duas mãos (mais da direita que da esquerda, é verdade) - e a manicure, brasileira, tom de pele de galão de máquina clarinho, diz: "Nossa, Diana, suas unhas estão fraquinhas, fraquinhas, elas estão lascando, tem que comer gelatina", e eu explico à Rose que elas estão fraquinhas porque eu escrevo com raiva, escrevo quase possuída, ela não sabe que eu passo mais de oito horas da minha vida a escrever -, se eu atiço a tendinite num qualquer teclado, neste, branco, ou no outro, preto, ou seja, se ponho tudo preto no branco, e como esta história é psicadélica e feita de coincidências atrás de coincidências, ela é tudo menos monocromática em gradientes de cinzento, ela é fluorescente, conta amores imperfeitos, impossíveis, traições, ela conta surrealidades várias, ela é um misto de romance Arlequim semi-erótico, ela é um pouco de policial da Agatha Christie também, e se eu a escrevo no papel, ou numa qualquer aplicação de edição de texto, estou a aceitar que ela existiu mesmo, que não foi um delírio que começou no Snob e ninguém sabe onde acaba (há quem diga, isto vem nas revistas que se compram por debaixo dos balcões dos quiosques lisboetas, que o autor da história - não sou eu, certamente, nem nos meus sonhos mais loucos eu teria imaginação tão fértil e tão perversa para escrever esta novela - escreveu e gravou vários finais: "round and round it goes, where it stops no one knows", roubado da Carrie).
E eu não sei ainda escrever sobre coisas que não existiram. Um dos leitores que eu não posso linkar, perguntava-me há tempos, com a sua curiosidade científica, se era tudo verdade o que eu escrevia, e eu respondi-lhe que sim, que não sei escrever com letras que sabem o caminho de cor, que sabem quem é o seu par na roda, elas, as letras e as comadres palavras não se entendem nas frases, atropelam-se quando eu estou a escrever sobre coisas que não existiram. Às vezes, muitas das vezes, pronto, admito, junto uns pózinhos de perlimpimpim às histórias reais do meu quotidiano, para as tornar fabulosas, e todas as existências são fabulosas, até a senhora da limpeza já foi musa de um post, dos mais bonitos, aliás, dos que não têm tantos ou mais caracteres como um destaque de página dupla de um qualquer diário português, foi um post escrito à pressa na véspera da véspera de Natal, mas eu não escrevo a metro, não faço questão de escrever muito, não é premeditado, sai ou não sai, às vezes as letras vão dar grandes passeios ao bilhar grande, outras vezes vão só à esquina comprar cigarros (e este post está a ser escrito em carência absoluta de nicotina; estou em ressaca tabagística, ontem fumei dois maços). É assim.
E esta história não existiu. Qualquer semelhança com a ficção é pura realidade, passa este aviso grande velocidade e a letras miudinhas na tela. Eu não a escrevo, também, porque eu não consigo descrever o anti-herói deste conto. Eu não sei quem ele é, tem os olhos baços, opacos, sem brillho, são muito escuros e pestanudos. Mas não sei mais nada sobre ele. Eu pensava que sim, que o conhecia, que sabia que era um homem bom que estava numa encruzilhada. O herói desta tragédia, esse, acho que ainda não apereceu na trama. Há vítimas. Há três vítimas. Número perfeito de vítimas.
Um dia, saberei escrever sobre histórias que não vi, que não aconteceram comigo ou seja com quem for, histórias que vivem apenas na terceira minhoca do meu cérebro a contar de trás, numa terra verdejante com casas feitas de baralhos de cartas. Ando a estudar para isso. Vou no carro, estou parada nos semáforos, numa fila interminável dentro do túnel da avenida da República, estou a comer uma sopa no Picoas Plaza e a dar migalhas de pão aos pardais, com a Moleskine semi-desfeita como companhia, como única companhia, e invento histórias para lugares, para personagens da minha cidade, para as pessoas que passam ou estão sentadas na mesa que está à minha frente.
Estas personagens existem, porém, estes lugares também. Com treino, com dedicação, um dia próximo, não muito distante, estou confiante que sim, começo a inventar as minhas terras, as minhas gentes, os seus nomes, as suas roupas, os seus tiques e manias. Está tudo cá dentro, na tal minhoca do meu cérebro, que cada vez é maior, que cada vez tem mais castelos de cartas de naipes encarnado.

domingo, janeiro 08, 2006

Mãos

Foi um jantar de mãos.

As mãos que nos regaram a alma, e lá atrás, as do Bruno, que gostariam de acertar algumas contas por mim,





As minhas mãos, e a Magui viu esta fotografia e disse: "tira o nariz do teu pai e até pareces minha filha, às vezes pareces mesmo minha filha",




As mãos do João, no papel, nas minhas mãos,

As mãos lindíssimas, esguias, da Mary Mary, depois de assinar o livro de honra do (T)ralha,

As mãos do vogal da presidência do conselho de administração, responsável por toda a logística do jantar, o Potier

As mãos das meninas com quem eu quase não consegui falar, Isa e Astride


As mãos perturbadas do Mac, que noutra encarnação foram de um massagista profissional

As mãos da Thê, manchadas com o mesmo sangue que as minhas

As mãos da Qui Qui, que ontem não estava inspirada (ela é que diz e não quer que eu diga que as fotos são da sua autoria, de facto, algumas não são, não sei dizer quais, a Leiquinha andou de mão em mão como as pombinhas da catrina)

The day after

Foi uma festa de aniversário do camandro.

Com uma garrafa gigante na mesa, com livro de honra, com muitos disparos acidentais da Leica, com surrealidades várias, com escadinhas da Bicaense, com corpos juntinhos no Tóquio (e dois sobreviventes, entre os quais eu não me incluo, infelizmente, porque tenho uma urticária insuportável quando fico à porta à espera para entrar, ainda foram queimar os últimos cartuchos da madrugada no vizinho Jamaica).

Este blogue está com sono. Não de ressaca. Precisa de mais café e menos posts.

[E quando eu quiser ir dançar já sei a quem é que telefono.]

Muito bom.

sábado, janeiro 07, 2006

Butterflies instead

I lock the door and lock my head
And dream of butterflies instead
The beauty of their colored wings
The trees, the grass and pretty things
Imagination fills the void of my existence

Everything will be alright.

Um post escrito com unhas deliciosamente encarnadas sobre um teclado branco merecia qualquer coisinha melhor.
Mas eu estou numa de borboletas hoje.
Hoje vou inventar uma história para a velhota do primeiro andar do número dois da Praça José Fontana, que tem cortinas de crochet com rosinhas, que está sempre à janela a ver os carros passar.
Hoje vou dar um nome a uma outra velhinha corcunda que encontro sempre quando estou a cortar da Duque de Loulé para a Luciano Cordeiro, em direcção ao Largo das Palmeiras.
Hoje vou imaginar a vida toda do senhor Sequeira, o meu vizinho alfarrabista que anda de bicicleta com a cadela Carolina atrás e que passa os dias a divulgar cultura a um euro no jardim do Príncipe Real.
Hoje decidi que não sou fazedora de notícias. Acordei assim. Acordei assim ontem à noite, depois de ter saído de casa mais uma vez aos gritos com a Magui. Depois de ter adormecido num semáforo da Rodrigues Sampaio. Sou contadora de histórias, nove anos para descobrir que é isso que sou.
Hoje, vou ligar ao Ricardo. Vou pedir para ele me ensinar a escrever reportagens.
Decidi.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Jantarada

Caros amigos que aceitaram o repto da jantarada de aniversário da (T)ralha:
A mesa está marcada para as oito, no Caracol, Rua da Barroca 14 (a rua da Barroca é parelela à rua do Norte e à Rua da Atalaia, sugiro o metro Baixa Chiado). A especialidade da casa é Pataniscas de Bacalhau com arroz de feijão. Aconselho.
Aqui ficam as direcções, gentilmente cedidas pela Via Michelin.

Princípio

Se não tenho coragem de cortar o cabelo, como terei coragem de mudar de vida? Vá, sê meu guia espiritual, Brígida, corta-me o cabelo.

E assim fiquei com um défice de vinte centímetros.

É oficial

Ninguém sabe, ninguém desconfia, mas eu tenho um relacionamento sério, estável, um que jurou estar ao meu lado na alegria e na tristeza e que vai honrar esse compromisso, sem vacilar, todos os dias até que a morte nos separe.
Foi há um ano que nos conhecemos. Foi no segundo piso de um edifício da rua Viriato que nos apresentaram, num ecrã de muitas polegadas. Gostei logo dele porque se vestia de preto.
A tralha faz um ano hoje e o seu primeiro visitante foi o senhor de nacionalidade holandesa que inspirou este amor.
A tralha faz hoje um ano, e teve na véspera do seu aniversário, um recorde absoluto: 230 visitantes únicos e 612 pageloads. E se eu estivesse registada no blogómetro, ocuparia a 133ª posição dos blogues mais lidos em Portugal e isso agradava-me, não o facto de ser mais ou menos lida, de estar à frente ou atrás de um ou de outro blogue, isto não é uma corrida, não há vencedores nem vencidos. Isto é um diário, isto é o mais belo exercício de exibicionismo que eu algum dia farei (quem sabe, quando me passar de vez, não ando por aí de gabardine como os loucos da cidade onde vim nascer, mas essa imagem não é bela, porque eu não sou escultural, tenho celulite e estrias de uma gravidez que me engordou 30 quilos), mas é um belo número, o 133.
A todos os seguidores (só 12 é que responderam afirmativamente ao repto do jantar, mas não faz mal, há-de haver foto-reportagem para ficarem invejosos), viciados, psicopatas, tarados, amigos de longa data, bloggers de referência e tantos, tantos outros, um grande bem haja. Voltem sempre. Esta também é a vossa casa. Porque há noites em que eu não me apetecia escrever. E só escrevo porque há quem comece o dia com esta tralha. Há quem acorde para o que não lhes apetece e desanuvie por estas bandas. Há quem dê oito seguidas. Há quem releia os arquivos. Há quem venha às cinco da manhã. Há quem leia do outro lado do oceano todos os dias, sem falta (são dois os leitores transatlânticos).
E eu não me sentia assim tão desejada há muito tempo.
Alea Jacta Est. Acho que hoje muda a minha vida. Vamos ver.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Encruzilhada

De tempos a tempos, dá-me para pensar nisto.
E hoje ao almoço dizia ao ex-marido: “Abre um restaurante comigo”. E ontem, de manhã, dizia à Magui: “Abre uma empresa de reabilitação urbana comigo”. E transanteontem, segredava a um draft da (T)ralha, “Eu sei a vida não é só isto. Que os dados estão lançados, que é mesmo assim, se eu não passar por aqui não recebo os dois contos, não descarrilo para o caminho que os deuses reservaram no dia em que teimei agarrar-me com força ao ventre da Magui. Eu sei que vou honrar o nome dos meus avós. Eu levo os dias a pensar nisto. Que, neste momento, eles não teriam nada para falar com orgulho de mim, como o taxista que me levou à Lapa e contou com os olhos brilhantes que o filho único, 28 anos, engenheiro informático, ganha 3.496 euros numa multinacional de consultadoria, que pratica bio-dança (seja isso o que for) e que ainda canta num coro - ainda o mês passado esteve no Funchal. Eu levo uma vida fácil. Não faço nada grandioso ou altruísta. Não estudo, não leio tanto como devia. Nunca lhes chegarei aos calcanhares, nem com pacto com o demónio eu chegava onde eles chegaram, e eu parti em vantagem, não faz sentido. Mas eu quero honrar o nome dos meus avós”.
O que é que eu sei fazer na vida? Há quem faça casas, há quem limpe casas, há quem destrua casas, há quem não tenha casas (isso é coisa que não falta lá em casa).
Há quem prenda ladrões, há quem roube lojas chinesas, há quem durma tão cansado, nem um beijo os estremece (agora veio-me esta do Sérgio Godinho), há quem varra ruas, há quem lave escadas, há quem grelhe hambúrgueres, há quem masturbe homens de aspecto decente em vãos de escada (está-me a dar forte e feio para o plágio), há quem lute e ao lutar veja o mundo andar para a frente (mais uma vez o Sérgio).
Eu faço redacções. Composições. Sou a notícia de ontem que amanhã forra o caixote do gato ou do lixo, sou a cama da castanha assada.
Estou numa encruzilhada.

Dois enrabanços em dois anos

Se calhar, já é demais.
Se calhar, está na hora de mudar de vida.

Last call

A caixa do Gmail desta tralha até se queixa de tanta confirmação para o primeiro aniversário deste blogue (eheheheheheh you wish... mas já somos mais de dez, eu não estava à espera disso sequer, e há muita malta que eu não conheço que confirmou). Aos que já aceitaram o repto, posso dizer que já temos restaurante: o Caracol, no Bairro Alto. Para os que não confirmaram, o que é que estão à espera?

Espero que tenham gostado de voar a bordo da nossa companhia aérea.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Breaking the waves

Escuta-me. Tenho tantas histórias para te contar.
Pacote de açúcar 7/9 gramas da Delta Cafés, edição Natal 2005


O raio da bica, que sai da máquina barulhenta, que parece que se peida quando alguém carrega no botãozinho, a máquina que é minha vizinha no primeiro piso de um edifício de fachada verde pistáchio da rua Viriato, já se foram todos embora e ela é a minha única companhia, daqui a umas horas aparece a Alenis e traz-me o lanche num carrinho, depois, troco dois dedos de conversa com a Dona Maria e isso lembra-me que hoje ainda não peguei no 24 Horas para lho dar, e não há nada como ter uma editora ditadora que me obriga a entregar os textos às cinco da tarde, e como assim tem que ser, porque sou bem mandada, porque sou eficiente e gosto de corresponder às expectativas, primeiro o trabalho, só depois passo a alimentar a tendinite a pão-de-ló aqui na (t)ralha. Mas eu gosto mesmo é de escrever no sofá laranja, lá tudo é mais sentido, tudo faz mais sentido, mas agora estou aqui sozinha, também sabe bem escrever com os auscultadores gigantes na cabeça a passar o Blue Moon e a voz da Billie dengosa. Agora só há vida para lá do cubículo de vidro dos fumadores que é o meu vizinho de trás, que me separa da minha secção, e tudo bate certo, a música, o lusco-fusco, e o café, que me aquece as mãos, geladas - sempre que escrevo fico com as mãos geladas e mãos frias, coração quente, amor para sempre -, que não me desperta porque sou imune à cafeína, quando nasci caí num caldeirão de excitantes, se calhar enfiei os dedos na tomada quando era recém-nascida, se fiz um streap tease compelto no berçário, porque não uns dedos na tomada? E sou hiper-activa, às vezes até me chateia, queria fazer menos coisas, queria, sobretudo, pensar em muitas menos, mas o café, o que é de borla e que até nem sabe mal, passou a ter outro encanto com estes pacotinhos de açúcar com ditames encantadores, e por falar em ditames, eu sei que não tem nada a ver, ou se calhar tem, não sei bem, hoje recebi o mesmíssimo horóscopo de ontem, não sei se é bom sinal, ou se é mesmo a Optimus que já nem se dá ao trabalho de mudar as mensagens - provavelmente sou a única que subscreve este serviço, o meu signo é Caranguejo, para quem quiser saber. Diz-me assim, há dois dias consecutivos: "Poderá suscitar alguma inveja à sua volta. Um romance com uma pessoa mais velha ou mais rica está no ar". Venha o velho milionário, vá, eu não exijo anéis na Cartier, nem Vuittons verdadeiras, basta-me as lições de piano, em troca, prometo total dedicação, prometo escrever sem parar, e, neste preciso momento vem-me à cabeça a Bess McNeill, personagem do "Breaking the waves", do Lars Von Trier. Vou procurar uma imagem no Google.

Cá está ela. Vou dizer-vos que, tal como a Bess, eu pareço fraca e frágil, mas ganho força a lutar pela bondade em que acredito. Tal como ela, eu falo com Deus, e a minha própria voz responde por Ele. (E hoje descrevi-me como gravisca e grazina. E acho que melhor era impossível, utilizando a letra guê.)

E hoje vão levar-me ao cinema. Ao da minha infância. Ao do meu bairro. Este blogue pode ter sido responsável por um amor inventado. Pode ter culpas no cartório de eu ter perdido um grande amigo. Mas trouxe-me as amizades mais improváveis também. E todos se conhecem. Mas isso, é para outra posta, uma menos estranha, porque esta dava internamento compulsivo no Júlio de Matos (e desde que me deixassem andar de colete de forças pelos jardins, estava muito bem).

Piropo (?)

Dia - Sempre fotografaste o meu rabo?
Inominável que agora tem a mania que é fotógrafo - Achas, querida? Não tenho uma grande angular

terça-feira, janeiro 03, 2006

Porque

Porque cheguei a casa às nove e picos da noite e tive que levar com o chorrilho já costumeiro do que tipo de mãe quero ser, porque nunca chego a horas de dar o jantar à miúda, porque nunca, sequer, lhe fiz uma sopa, porque saí aos berros de casa, porque até me esqueci de ir ver o Natal com a Carolina à avenida de Roma e fui pelo túnel e ela ficou triste, porque trabalho como uma parva para levar 1000 euros para casa, porque depois de pagas as contas, comprado o tabaco e as fraldas sobram-me 300 euros para sobreviver, porque já deixei de almoçar, porque estou em défice estrutural, porque o fantasma disse-me "ele ainda gosta muito de ti", porque ela me disse que já sonhou que lhe dava um estalo apesar de não o conhecer, porque ele sorriu e foi simpático, porque se calhar ele lê, ainda cá vem, porque, um dia qualquer, ainda escrevo qualquer coisa bela e consigo-o comover, porque, quem sabe, ele se aperceberá que eu não fiz nada, porque tenho saudades, porque era um bom amigo, porque o coração parou por momentos ao chegar ao Campus do Politécnico de Setúbal, porque, na volta para Lisboa, olhei para o conta-quilómetros e marcava 190, porque tenho saudades de ter um carro potente, porque quero guiar um Twingo outra vez, porque a velocidade me deu sono, porque tive medo de adormecer na autoestrada, porque não durmo há muito tempo, porque ainda tenho que deitar a miúda, porque tenho que tirar a roupa da corda, porque há uma máquina inteira para estender e que está a ganhar mofo no tambor, porque tenho que ir secar o cabelo, porque vocês não têm que levar com isto, porque eu às vezes fico desesperada, desesperada a sério, não é como as giraças da série das donas de casa que vivem em casarões nos subúrbios, porque não vou ao cinema há um ano, porque não leio um livro inteiro há não sei quantos meses, porque, porque, porque, de repente, não mais do que de repente, como no Soneto da Separação do Vinicius (corta os pulsos com este, Carrie) não consigo escrever sobre casas e anúncios classificados.
Lamento.

Um pouco de sexo. Muita Poesia.

Com um pouco de sexo, ou muita poesia, ainda nos vamos casar.
Quinteto Tati

Açúcar

O pacote de açúcar da minha bica manhosa, gratuita, paga pelo patrão, diz assim:

"Acredito na força das coisas frágeis"

Eu também.

E mais logo, updates, porque isto foi um dia do além.

Viola Tricolor

Enquanto o meu candidato presidencial não sai de uma diligência (estará a defender um miserável operário despedido ilicitamente por um vil patrão?), enquanto não entra no seu BMW topo de gama, enquanto não dá um saltinho pela doca para olhar para o Tejo mal-cheiroso e para o seu iatezinho modesto, enquanto a secretária Francisca não lhe transmite o meu recado, enquanto tem o telemóvel desligado e eu não gosto de falar para gravadores, irrita-me a minha voz, os meus ésses muito sibilantes a lembrar cascavéis, e dêem-me tudo para fazer, venham os buracos nas estradas, os acidentes de viação e de trabalho, venham as cheias e os novos lisboetas de Domingo, não me ponham é a desgravar entrevistas, mas enquanto o candidato não está disponível, vamos a isto, a mais uma lição de botânica, com desvios para caminhos de cabras a cada três linhas.

Já vos contei. Guardo mágoas desta vida. Guardo-as numa caixa de madeira, fechada a sete chaves e três aloquetes, mas elas às vezes escapam, são arraçadas de Houdini. Não se deve guardar mágoas. Em que caixa-forte for. Com porta blindada, ou com fechadura das Chaves do Arreeiro. Não se deve. Debaixo do colchão ou emapredado na cave. Não se pode. Consomem, remoem nas entranhas, vincam-se na cara, mas eu não sou perfeita, levo muitas chapadas e depois esqueço-me, dou a outra face como o outro senhor das sandálias de couro que foi parar à cruz, tento dar a outra face, não gosto de odiar ninguém, estou cada vez mais banana, cada vez menos Ralha, mas isso até nem é mau de todo, eu rezo, eu voltei a rezar e rezo muitas vezes para não ser igual ao meu pai, que usa, suga e deita fora olhando apenas para o seu umbigo, eu sou boazinha, eu reciclo as minhas dores, transformo-as em textos, porque eu não sei escrever música, mas eu oiço música na minha cabeça a toda a hora, eu tenho tudo cá dentro, eu invento todos os dias uma melodia nova para a minha filha, mas depois esqueço-me, porque eu não sei escrever essa essa linguagem e a minha memória não é como a do meu avô Ralha, que declama os Lusíadas e a Eneida e a Odisseia que aprendeu há 70 anos atrás, eu nunca fui assim, de empinar, já não me lembro sequer da primeira declinação de Latim, mas tento exercitar a minha memória, tenho medo de acabar com uma doença neurológica degenerativa como a minha tia Lena ou a minha Tia avó Atilde, às vezes repito a melodia 300 vezes, vou no Idea, de manhã, levar a Carolina à Magui à Estados Unidos e desligo o auto-rádio para empinar a música do dia, inventada de manhã enquanto limpo um rabo, preparo um biberon, mas, invariavelmente, no final de mais um dia de trabalho, de orelha encarnada de estar colada a um telefone, de dedos cansados de tanto escrevinhar, depois disso, eu já me esqueci, porque não a escrevi, eu não sei essa língua, nunca ninguém ma ensinou eu só a entendo, mas se eu soubesse, as minhas mágoas eram canções, modinhas, fadunchos, mas tenho as minhas mágoas, as que não consigo digerir, as que não cicatrizam por dentro, apenas por fora, e que depois doem quando o tempo está a mudar como os meus joelhos, como, mais recentemente, a minha mão direita.
O senhor que mais mágoas tatuou no corpo (tatuagens definitivas, não são daquelas que saem em três anos e a Magui continua a achar que a que está desenhada nas minhas costas vai desaparecer, ou se calhar não, ela já não fala disso, conformou-se, como os pais que têm filhos gays, ignoram, não citam a orientação sexual da sua descendência na esperança de se não se fala não existe, mas não é assim, eu passo grande parte do meu dia - das minhas noites, sobretudo - calada e existo, continuo cá, às vezes olho de soslaio para ver se estou toda ou se já desapareceu qualquer coisinha, mas, no caso da tatuagem, para não ser deserdada, tive que garantir à minha mãe, que a libelinha arte nova que está gravada a preto no final das minhas costas é das que saem com o passar dos anos e já lá vão três e qualquer coisa, fui almoçar ao Independente e depois decidi fazer uma tatuagem), que me marcou com ferros em brasa, quer eu queira, quer não, para o resto dos dias, e fê-lo num curtíssimo espaço de tempo, ele tinha lençóis de flanela com amores-perfeitos roxos estampados, tinha amores-perfeitos numa cama de solteiro de contraplacado, que rangia sem ninguém lhe tocar.
Eu estava muito drogada, substâncias legais, prescritas pelo médico, aviadas na farmácia. Mas lembro-me dos amores-perfeitos no quarto poeirento que me fazia alergia. É a melhor recordação que guardo dele, numa caixinha pequenina de veludo azul escuro. Essa, e descer a correr, de braços dados, de saltos altos, muito altos, muito finos, uma ruazinha a pique ao pé do Largo do Caldas.


Viola Tricolor. Herbácea da família das violáceas. Conhecida vulgarmente, em Portugal, como amor-perfeito. Tem outro nome de baptismo, que poucos conhecem: "erva-da-trindade", denominação meia beata, porque as as suas flores podem ser de três cores, como as entidades da Santíssima Trindade.
Em França, é flor amada há séculos e séculos e chamam-lhe "pensée" (pensamento) - quando o que importava era a intenção, as pessoas ofereciam flores e não Playstations ou Ipod's (as flores parece que agora estão confinadas ao piroso dia dos namorados e aos funerais, a mim, não se atrevam a comprar-me coroas de flores quando eu morrer; dêem-mas em vida, camandro!). Se a intenção era o desejo de ser lembrado por alguém, enviavam-se ramalhetes de amores-perfeitos. Reza a lenda que, as mulheres dos marinheiros, da Bretanha, davam um pouco de terra dos amores-perfeitos dos seus canteiros ao maridos, para que não se esquecessem delas e da família durante as longas viagens. É símbolo da meditação, de recordações e reflexão.
É impossível não se associar esta singela flor, utilizada amiúde para as bordaduras de canteiros de jardins coloridos, com o amor. Tal como ele, é muito frágil e delicada, tal como ele, tem uma curta duração (que seja eterno enquanto dure).
Na Idade Média, os feiticeiros acreditavam que ela afastava todo o tipos de mal. Poucas pessoas o saberão - eu sei porque sou um reservatório de conhecimentos inúteis -, mas o amor-perfeito é uma flor comestível (saberá esta, a senhora Lucena?)
Por isto, por muito mais, porque desejo amores-perfeitos para todos os dias de 2006 (amores-perfeitos podem não ser esses que vocês estão a pensar, eu não estou desesperada, não ando à caça, apesar de ter nome de divindade associada a essa actividade, falo de amores-perfeitos associados a amores incondicionais, falo de amores perfeitos do tipo: "Dia, vai tirar as pilhas do vibrador e põe no porquinho da tua filha, para ele cantar e dançar", falo de amores-perfeitos que me ensinam palavras japonesas e bailados de karaté, falo de inconfidências trocadas no primeiro blind date, falo disso, não falo de quecas, não falo de instant pleasure, como na canção do Rufus que toca neste preciso momento), bebi a primeira bica do ano na Suprema, atravessei a rua para o outro lado, entrei na Romeira com a Magui, há 20 anos atrás, a Magui entrou na Romeira para comprar coroas de flores para o funeral da minha avó Tóia, e elas estavam a fazer coroas funerárias com rosas, orquídeas, coroas imperiais, com fitas de cetim roxas, com cruzes douradas, a chefe gritava ao telefone, "Onde está o carro funerário? Já devia estar cá a levantar a encomenda!", eu senti-me num episódio do Sete Palmos de Terra, mas comprei dois amores perfeitos, um euro cada, um para mim, um para a Thê e devia ter comprado mais dois: um para o Ganilho, outro para a Carrie. Eu sempre gostei de metáforas, eu sempre gostei de amores-perfeitos.
[isto é o que dá a quem está demasiado atento à realidade, a quem é fixado nela, como diria o inominável, um dia, no fumódromo do primeiro piso de uma fachada verde da Rua Viriato]

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Teaser

A, de Amor-perfeito: esqueço-te de qualquer jeito!

[Lá para as tantas, há-de haver postas sobre as "Viola Tricolor" ]

Convite


[Eu não disse que o Manual fazia uns bonecos lindos? Têm que carregar na imagem para ver o elevador da Bica a andar para cima e para baixo, enquanto eu não descubro solução para este problema informático]

Jovem, tens mais de 18 anos, e passas todos os dias, várias vezes ao dia, por esta [T]ralha, satisfazendo um estranho ímpeto voyeurista? Retiras um prazer difícil de explicar racionalmente, ao ler os devaneios literários de uma pita da avenida de Roma, que tem mania que é exibicionista?
Se cumpres os requisitos supra-citados, chegou a hora de saíres do armário, de deixares de ser um IP, e se, volto a frisar, tens mais de 18 anos, junta-te à festa do primeiro aniversário da [T]ralha, no próximo Sábado, dia 7. A janta há-de ser para os lados do Bairro Alto (depende de quantos leitores aceitam o repto) e a ideia é passar pela Bicaense e acabar a noite no Lux e deixar tudo em pantanas.
Confirmações para a caixa de comentários, ou para o e-mail empantanas@gmail.com.

Seja eterno enquanto dure

Soneto da Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa (me) dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Hoje acordei com este. É do Vinicius.
Daqui a nada, depois de falar com a editora que me pôs a fazer o Garcia Pereira, já venho escrever umas postas.

2006

Começa muito bem.
Fiz, pela manhã, trançinhas como as que a avó Tóia tecia no meu cabelo, quando eu era pequenina (acho que vou começar a trazer trançinhas mais vezes), trançinhas à donzela Briolanja (seja lá isso o que for).
Fui tomar café à Suprema com a Magui.
Comprei dois amores perfeitos na Romeira (um para mim, outro para a Thê; adoro metáforas).
A Thê e o Ganilho resgataram-me. Fomos ver o mar revolto, no Guincho, trememos de frio, mas teimámos em fumar um cigarro inteirinho a olhar para o mar. Espreitámos, também, uma lua finíssima, em quarto crescente.
Jantámos na Marta, os quatro, já com a Carolina, Telepizza Bacana, com "lalas" (tomate cherry em carolinês) e queijo feta a acompanhar.
Amanhã, regresso ao trabalho e escrevo qualquer coisa menos telegráfica.
É que é quase uma da manhã e eu não posso continuar com esta vida de não dormir. Faz-me rugas, olheiras, papos, pés de galinha e um feitiozinho de merda.

domingo, janeiro 01, 2006

Onde é que se bebe uma bica no primeiro dia do ano?

Filha entregue no Largo de Andaluz. De volta ao dashboard, enquanto a Thê não me resgata, às 16H00.
Hoje vamos ver o mar. Lá para os lados dela, para a linha, e eu não sou assim tão inteligente, ainda bem que todos adormeceram na sala enquanto eu levantava a mesa para jogarmos Trivial, porque se tivessem ficado acordadinhos caía o mito, não sei nada de nada, mas geografia é mesmo a maior mancha, liguei à Thê a semana passada e disse-lhe, amor já estou perdida, vou na Parede, como é que eu volto atrás para Cascais? Eu não sabia que Cascais era o fim da linha, que depois só o Guincho - isto são palavras da Teresinha, que me fez este croqui -, para mim, o Estoril era o fim da linha, mas depois de ela se aperceber que o meu GPS era flipado, era à minha imagem e semelhança, a Thê disse-me para eu ficar quietinha em frente ao Casino, que me iam lá buscar, porque eu sei ir ter ao casino, fui lá ver uma monográfica de galgos com o Miguel há uns bons anos atrás, aliás, hoje o meu horóscopo diz para eu ir ao casino, mas estava a chover, e eu estava a conduzir, a mascar pastilha e a escrever um post na cabeça ao mesmo tempo e nem isso - parar em frente ao casino - consegui fazer.
Adiante.
Preciso de uma bica.
Preciso de companhia para tomar a primeira bica do ano.
Onde é que se bebe uma bica no primeiro dia do ano?
Ontem, almoçámos às cinco da tarde, no Galeto, e eu só bebi a bica a essa hora. O resultado foi uma gigante dor de cabeça a duas horas de receber os meus convidados chez Ralha, cefaleia essa que fulminei com um comprimidinho milagroso, de venda livre, que a minha mãe toma para as suas torturantes dores, eu queria só uma aspirina, um panadol, mas ela só tinha codeína e pronto, lá enfiei um opiáceo para a corrente sanguínea (só por graça, em 2006, vou fazer análises ao sangue e, para além das venéreas, que só pela divina graça do espírito santo é que dariam positivas, vou pedir ao médico para me passar a credencial do serviço nacional de saúde para medir os meus níveis de THC, para ver se ando a abusar, eu aposto que não e só para ficar em acta, eu sei que parece difícil, mas nunca escrevo posts sob o efeito de quaisquer outras substâncias que não a nicotina).
Uma bomba de gasolina é demasiado deprimente para o primeiro café do ano.
Vou outra vez ao Galeto beber uma bica?
Vou buscar a minha mãe, que já me informou que morreram esta madrugada quatro pessoas no cruzamento da EUA com a Gago Coutinho?

Fiz uma pausa para mais um cigarro, abri umas tabs e fiz a ronda pelos blogues, para ver se há mais alguém acordado, sem ressaca, e em frenética produção bloguística. E há. (Nas análises que vou fazer, devia pedir o nível de blogger no meu sangue, creio que eu e o FTA rebentaríamos a escala, estaríamos em fase terminal, sem reabilitação possível).
O meu amigo blogger escreve (coisa filha da puta, essa, de escrever as resoluções, a palavra escrita pode ser um fantasma, uma maldição mesmo) que a sua única resolução para 2006 é estar mais atento. É uma bela resolução. Não vá é ficar cego de tanto ver, como a sua amiga do ip 213.22.73.21.

É tão bom escrever sem propósito, sem objectivo, apenas aliviar o cérebro. E como diria um dos meus bloggers favoritos, no seu maravilhoso quintal, que eu não posso linkar, a bem da minha saúdinha:

"Não escrevo bem nem mal. Escrevo até à insanidade"

"A esquizofrenia faz o blogger. Antes de começarem a escrever um texto, escolham a doença mental"

Foi há 20 anos

Há 20 anos, a minha avó Tóia morreu.
Sonhei a noite toda com a minha avó. Chamou-me abelha mestra, fez-me trançinhas com laços de seda, encaracolou a pontinha do cabelo com o dedo e depois, quando eu estava quase a acordar com o despertador, para ir entregar a miúda ao pai, e no sonho ela conheceu a Carolina e disse que ela era igual à Magui, despediu-se de mim, com uma festinha nas minhas bochechas.
E aqui, ao nosso lado, na fotografia, a morte estava tão perto, mas eu era tão pequenita, não sabia disso, não a via.

As doze passas

Não gosto de passas e, por isso, nunca faço os doze desejos da praxe.
Em 2006, porém, comecei uma nova tradição: enquanto todos contavam as sultanas, eu peguei no meu cigarrinho de substâncias ilícitas.
A cada passa, um desejo. Se resultar, para o ano há mais.