domingo, julho 15, 2007

V

Chegou, há mais de dois meses e quatro capítulos atrás, à rua da santa que vai olhando por si, e esta história, mesmo que as palavras teimem em escassear à medida que as imagens se tornam mais nítidas à luz das duas luas que já cresceram no céu, tem de ser escrita em sete capítulos, porque é a história da morte de um mago, vista pelos olhos da sua pequena feiticeira.

Por aqueles dias, os seus pés, os pés de muita gente, mas sobretudo os seus, seguiam três dedos acima do chão.

Houve um momento, e não é fácil precisar, nem na qualidade de narradora, nem na pele de personagem, a partir do qual começou a levitar rasteirinho - talvez, no breve instante em que toda a coragem do mundo se agarrou às suas mãos, que ousaram fazer o que ninguém fez, destapando a face adormecida do caixão, coberta por um naperon de naylon barato, talvez quando as mesmas mãos afagaram, sem tremuras, os caracóis prateados, ou talvez tenha sido no momento em que as lágrimas do seu octogenário avô chegaram ao chão, evaporando-se de imediato, porque aquele homem não chora.

Não foi assim desde o início da viagem - não foi ao primeiro toque do telefone, nem quando a notícia lhe chegou ao cheiro das chagas e ao som das crianças que guinchavam no recreio à hora do almoço. Junto ao edifício da segurança social de Ponta Delgada ainda os tinha bem assentes na terra; lá perto, no Jardim António Borges, estavam tão ou mais presos do que as vastas raízes da maior Ficus Macrophylla que os seus olhos irão certamente ver; carregavam com força no acelerador até ao Porto Formoso, e a custo arrastou-os pelo areal e teve que sorrir quando viu a pequena loira a correr para junto de si. Mesmo quando sobrevoavam o Atlântico, ainda os conseguia sentir.

Não importa. Todos, mais cedo ou mais tarde, saberão. Talvez, a alma que toca incessantemente, sem resposta, à campainha do vizinho, já tenha vivido essa experiência, talvez o primeiro inquilino desta centenária assoalhada tenha sentido o mesmo neste mesmo lugar, junto ao banco de pedra da janela que não existe mais, sabe-se lá há quanto tempo não existe, mas que eu vejo desde o primeiro instante que aqui entrei.

Durante uns escassos segundos, ou mesmo semanas a fio, a dor cessa, passa para lá das marcas, rebenta as escalas, deixa de correr nas veias às golfadas, o ar arrefece, sou capaz de jurar que sim, que correu uma brisa, depois começou a nevar junto ao altar da Sant’Ana, uma neve fofa que caía dos choupos em pompons, e não dos céus em flocos, e depois veio a dormência, foi então que os seus pés passaram a caminhar em frente três dedos acima da calçada.

Chegou à rua da santa que vela por si e continuou a levitar, mesmo correndo riscos desnecessários, quando arriscou uma aterragem de emergência, por ter ousado abrir a porta do primeira quarto à esquerda, onde dormia, numa cama de borboletas, o vestido mágico de uma manhã de primavera.

Deitou-se a seu lado, mais tempo do que aquele que lhe pareceu, e depois foi tudo muito rápido - escorregou para dentro das quatro paredes da segunda porta à direita, só foi à rua da sua santa porque trazia no corpo a mesma roupa há um número de dias que era incapaz de contabilizar, e tirou do cabide o vestido mais bonito que lá estava.

Na manhã seguinte, também o mago iria voar no seu jardim coberto de neve.

4 comentários:

poeira disse...

Dá vontade de imprimir os capítulos... Para ler antes de adormecer.

gato escaldado disse...

tinha saudades, tantas...

M. disse...

welcome back

Mary Mary disse...

Fizeste-me levitar um pouco também com mais este pedaço de história! Não fiques tanto tempo sem dizer nada, fico preocupada! Um grande beijinho