quinta-feira, dezembro 28, 2006

Sei o que fizeste no Natal passado

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Ora aqui está um bacalhau seco

terça-feira, dezembro 26, 2006

Maria do Céu

Maria do Céu mora nas alturas.
Isto dos nomes tem que se lhe diga – Maria do Céu não poderia morar num rés-do-chão ou numa cave. É certo que Maria do Céu não mora no Sheraton, mas está perto dele, pelo menos. E também é verdade que Maria do céu tem mais dois pisos por cima dela e da placa de betão que é o seu tecto, mas, para efeitos da presente narrativa, decreta-se aqui que um quarto andar já não é mau, e que, com um esforço de imaginação considerável, se pode concordar com a narradora e assumir que quatro pisos já são ligeiramente próximos do céu, pelo menos se alguém se der ao trabalho de esticar um braço à janela para tentar apanhar alguma das dengosas nuvens que alcatifam o azul do horizonte.
Maria do Céu faz tanto jus ao seu nome que tem no seu acento de nascimento como uma Anabela que, em tempos, eu via todos os dias, de madrugada, com o passe social L123 na mão, na paragem do 27 na Avenida de Roma – a Anabela era feia como uma osga, e a Maria do Céu, bem, não emana qualquer imagem celestial, aliás, e para provar que eu não sou tão boa pessoa como muitos me julgam, até há umas semanas, eu não sabia que Maria do Céu tinha essa graça, e durante uma década referi-me a ela como a olharapa.
Deus é o melhor argumentista e a realidade bate a ficção. Depois, há uns desgraçados que têm um dom, que sugam realidade pelos poros, ou pela palhinha, que depois a digerem e vomitam algures entre o olho esquerdo e a moleirinha e, com mais uns floreados e umas destrezas técnicas na manga, é a isso se chama ficção. Estou certa que é por causa disso, e porque sei o nome de muitas árvores – há pouco, o Cerejo queria um botânico para descobrir o nome de uma espécie, para um artigo, e eu disse, sem pestanejar, Ficus Macrophylla –, que hei-de ser uma grande escritora.
Maria do Céu passou o Natal no seu bunker, à altura de quarto piso.
O presidente do conselho de admiração (esta é do Goiaoia e é genial) quis demonstrar que era um humanista quando se vangloriou de pulmões bem abertos e peito inchado que não despedira Maria do Céu. É graças a ele que eu sei que Maria do Céu tem esse nome no bilhete de identidade, fico-lhe agradecida, porque, até então, era a olharapa que tinha um Peugeot vermelho, e que fazia lá sabe-se bem o quê neste edifício que não é carne nem é peixe, não é novo nem é velho, e não é alto nem é baixo.
É claro que a sensibilidade social do presidente do conselho de admiração se traduz em números. Na realidade, e tendo em conta a esperança média de vida de Maria do Céu, e o seu tom esverdeado da pele, não faltará muito para que ela vá para onde o seu nome a manda desde o seu primeiro grito. Feitas as contas, 1,5 salários de indemnização sairiam mais caro à empresa do que deixá-la estar quietinha, mas, foi uma boa tentativa, grande tentativa mesmo, essa, de tentar convencer os tontinhos de que os gestores têm coração.
Certo é que Maria do Céu é uma funcionária exemplar: trabalha 365 e, por vezes, 366 dias por ano. Antigamente havia uns acetatos que se chamavam fotolitos, e era Maria do Céu que os entregava em Alcântara no seu Peugeot vermelho. A banda larga matou os fotolitos, da mesma forma que a tv matou as estrelas de rádio, e a Internet anda deprimida porque ainda não matou os jornais e os livros, mas ela que se acalme e dê tempo ao tempo que ainda lá chega com mais um esforcinho.
Mas a banda larga não matou Maria do Céu. Agora, a senhora, que leva 36 anos em cada perna arqueada, controla a impressão do pasquim, nuns barracões da Mirandela, noite a dentro, inundando as narinas de um cheirete de tinta lançada sobre papel de má qualidade. Depois, ainda os galos preguiçam aninhados com as galinhas, já a Maria do Céu ata a jornalada toda, para que quando os preguiçosos dos escribas chegam, perto da hora do almoço, não lhes falte a leitura no Lacinho ou no Fax.
Maria do Céu tem um bunker no quarto piso. E, dentro desse cubículo, há quadros pregados nas paredes, há vasos com plantas, jarras com flores, há um iMac dos velhotes, porque Maria do Céu se recusa a converter aos PC’s, há um divã que se faz cama de solteiro num instante, prateleiras com livros e bibelots, uma televisão com um naperon de renda de nylon comprada na loja chinesa da Tomás Ribeiro, é lá que ela vive, a Maria do Céu, sozinha, foi lá que ela passou a Consoada, em paz, porque não será despedida em 2007 porque há gestores com coração de manteiga, é lá, de certeza, que o seu grande amigo, o estafeta engatatão, a vai encontrar uma bela manhã, inanimada.
Este é um post sobre os trágicos e sobre as coisas que continuo a testemunhar num metro quadrado ao meu lado, como o homem de aspecto duvidoso que, às 20h30 do dia 24 de Dezembro, em frente ao portão do Colégio Militar, se aproximou do Idea, levantou o pára-brisas, e deixou um folheto mal amanhado de venda de cosmética Oriflame em esquema de pirâmide (podia ganhar 250 euros se arranjasse dez assessores para a Oriflame). Ou da alma que, nesse mesmo dia, e neste mesmo blogue onde pairam agora, pelo menos, um par de olhos, enfiado no edifício da Direcção Nacional da PSP de Lisboa, esperava encontrar raparigas feias fotografadas pelos namorados.

Mensagem de Natal

Certamente já o sentiste.
Falo da dor, da dor física que nos apanha, que paralisa todo o lado esquerdo do corpo, o lado onde bate o coração, que sufoca, que comicha até, uma coceira insuportável, miudinha, que nos chega pelo simples facto de estarmos separados por tanta terra e por tanto mar.
Não no Natal, não só no advento, mas é no natal que tudo dói mais, que tudo alegra mais, mas por cada dor, parece-me só há 0,7 alegrias, pelo menos, comigo tem sido assim, e eu começo a acreditar que eu nasci com este nome e que ele diz tudo, resume tudo. É por estes dias últimos do calendário que a pele se eriça ao passear pela cidade iluminada e, depois... depois, tu não estás lá. Escrevem-se coisas parvas, aquela da árvore de natal foi uma idiotice, foi coisa própria do Natal e da dor, da dor de te ver tão poucas vezes, de partires mal ainda chegaste.
Eu fujo de pensar na tua ausência.
Penso que crescemos no momento em que não gostamos mais do natal. É o aviso de recepção, os alarmes soam por todo o lado e há sirenes que ensurdecem a ecoar pelas moléculas de oxigénio; é quando tentamos enfiar à força na mioleira que a Consoada é um dia igual aos outros e que o natal é quando um homem e uma mulher bem entenderem. Posso continuar a dizer que tenho 27 anos (não faço propositadamente; sai), mas cresci. Não gosto mais do Natal, Miguel.
Não penses, meu querido, que o meu coração está vazio e seco. Transborda de amor. Eu nunca imaginei que pudesse voltar a rebentar pelas costuras. Está cheio do teu amor também, há-de sempre estar cheio do teu amor, assim como o da Carolina, o do João e o de tantos outros amigos que eu não tenho espaço para enumerar. É o que me salva. Eu cresci e descobri que a chave mestra, para tudo, é o amor. Por todas as coisas e, sobretudo, pelas mais pequenas.
É essa a mensagem que te deixo este Natal.

[E lamento que haja tanta gente a ler este blogue com um coração seco como um bacalhau]

sexta-feira, dezembro 22, 2006

A garrafa de Veuve Clicquot

Se calhar, nunca existiu nenhum parecer jurídico de um qualquer advogado reputado neoliberal, cujo nome também nunca veio à baila. Aos poucos, a sindicalista deslumbrante perdia a sua ingenuidade e aprendia que cada cartada deste jogo traz na manga um trunfo e que a cor do seu naipe é o bluff.
É Natal e a sindicalista deslumbrante e sus muchachos deram o melhor presente ao presidente do conselho de administração. Plenário para aqui, plenário para acolá, duas semanas de férias praticamente arruinadas, comunicados escrevinhados à pressa, mas que, mesmo assim, fizeram ferver o leite e saltar a tampa da panela, houve de tudo, para todos os gostos e idades: emails intimidativos na caixa de correio, bombistas suicidas nas margens do Douro, houve moções escritas a chorar, às tantas da manhã, porque até o gato morreu nas benditas férias.
A sindicalista deslumbrante estreou a sua echarpe verde, cuidadosamente bordada por crianças paquistanesas. Disse ao presidente do conselho de administração, tinha que o dizer, também, nada a fazer, podiam vir mais emails gralhados das suas hierarquias de propósito duvidoso, podiam vir processos disciplinares, ou mesmo, um lugar longínquo no novo organigrama, mas têm um azar do caralho desta vez, é que a sindicalista deslumbrante não teme mais, entrou nesta aventura porque, olhem, foi como na faculdade, quando a sindicalista deslumbrante estudava numa escola superior muito bonita, disse um dia, estou farta desta merda, mãe, estou a desaprender, sinto-me a sufocar, e então passou a nivelar por baixo, pior era impossível, e então, tudo o que se sucedesse acima do patamar mínimo da dignidade humana era uma festa, era balões e foguetes a toda a hora, e neste caso, a jornalista deslumbrante só aceitou transformar-se em sindicalista igualmente deslumbrante, porque não tem nada, mesmo nada a perder, e foi por isso, que com os bordados das mãos pequeninas dos meninos de tez de meia de leite ao pescoço, e com um processo de cessação do contrato de trabalho por extinção do posto de trabalho a abanar e a tremer na mão direita, ela disse, teve que dizer, já que horas mais tarde, o presidente do conselho de administração estaria a brindar com uma garrafa de Veuve Clicquot Brut: “Há dias em que eu tenho vergonha de pertencer a uma empresa assim”.
E o presidente do conselho de administração fez um lifting imediato à testa por a ter esticado muito, e a sindicalista deslumbrante acha que o viu a encolher os ombros também e, nesse momento, achou-o parecido com o José Mourinho, mas nada, mesmo nada que ela dissesse o faria não abrir a garrafa de espumante prometida para o dia em que ele cortasse, com um aperto de mão da comichão de trabalhadores, 400 mil euros de custos fixos.

terça-feira, dezembro 19, 2006

Avisito

A emissão segue amanhã.
Sem net durante uma semana. Só fez bem à pele.
Hasta.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Para a Marta*


Martinha,
A Carolina está sempre a perguntar quando é que vamos andar no carrossel da Alameda com a prima Marta. Combina com o pai e com a tia e vamos todos juntos, está bem? E depois do carrossel vamos comer algodão doce cor-de rosa. Tens que dizer à Carolina que algodão doce é muito bom. A Carolina tem medo do algodão doce (e também tem medo das folhas das árvores que caem no chão no Inverno - tens que lhe dizer, como eu e o pai João dizemos todos os dias, que as folhas são bonitas e amigas, que nunca nos fariam mal).
A Carolina gostava muito que tivesses vindo à festa de aniversário: tivemos um bolo com todos os amigos do Noddy, muitos docinhos, e dezenas de brinquedos novos para brincar. Não fiques triste - tu e a carolina vão ter muito tempo para brincar com a bonecada toda.
Martinha, já fizeste a tua carta ao Pai Natal?
O que é que lhe pediste?
Sabes, eu tenho um duende meu amigo que trabalha com o Pai Natal e que, por estes tempos, nem tem tempo para dormir, tão atarefado que anda a ler as cartas de todos os meninos e a embrulhar todos os presentes que eles pedem.
Manda um beijinho grande para a tua mana. E fica com este que te envio pelo céu, num escorrega que é um arco-íris.

Espero que gostes das fotos.



*A Marta é a mais nova das leitoras do (T)ralha. Tem quatro anos e andava a pedir à tia Marina para eu postar uma foto do bolo de aniversário da Carolina.

domingo, dezembro 10, 2006

O plenário

Não.
Enganara-se.
Não eram ainda monstrinhos, pensou o pior, pensa sempre o pior, o que é que se há-de fazer – é que está habituada, ao melhor e ao pior, um a seguir ao outro, ou mais pior do que melhor, é mesmo assim, tem que ser desta forma, ninguém pode ousar pedir o melhor e não estar à espera do reverso dessa moeda de ouro, e o melhor vale mais do que o pior, isso é uma verdade de la palisse, por isso, era quase aritmético, matemático, científico, a sindicalista deslumbrante ainda não tinha conseguido descortinado a equação, mas andava lá perto e para cada um melhor existiam, de acordo com os seus cálculos, 1,71 piores, nada a fazer, é o preço que se paga, é um preço simpático, até, que se paga.
A sindicalista deslumbrante estava deslumbrante de corpete preto de dominatrix no primeiro plenário que convocou e que, atabalhoadamente, com o seu parceiro sindical, dirigiu.
Não eram monstrinhos, ainda não eram, que alívio, a grande maioria não era e ninguém se apercebeu, mais de uma centena de pessoas concentrados como sardinhas enlatadas em 30 metros quadrados, ninguém deu conta de como a sindicalista deslumbrante ficou feliz que, naquele plenário, não se falasse só de trocos, de dinheirinhos, das carteirinhas de cada um. Que se falasse de pessoas, de direito ao emprego. Uma jornalista senior disse à sindicalista deslumbrante que tinha inveja dela. Tonta, a sindicalista deslumbrante pensou que ela falava da sua garra, do sangue que lhe pulsa às golfadas nas guelras, da sua coragem e inconsequência, mas não, a jornalista senior tinha inveja dos corpetes pretos de dominatrix que a sindicalista deslumbrante vestia nos plenários. Mas a sindicalista gostava de ser honesta e disse-lhe:
Há quem ache que eu tenha um grande cú.
Mais ou menos deslumbrante, com mais cinco ou menos cinco centímetros de anca, a sindicalista deslumbrante, com a sua equipa de inexperientes e imaturos jovens sindicalistas, conseguiu que a administração recuasse, e cada um engole como pode e consegue o ter que dar um passo atrás e o presidente do conselho de administração tentou a táctica do eu não disse nada disso, a sindicalista deslumbrante é que é muito exaltada (só lhe fica mal).
Cada um usa os seus trunfos, mostra ou não o seu jogo, aumenta a parada ou retrai-se. Cada um tem os seus objectivos: uns têm a obsessão por uma percentagem, outros são obcecados pelas pessoas. Da sua parte, a sindicalista deslumbrante não queria louros, ou palmadinhas nas costas, não queria também abrir a sua cova, só não queria ouvir um dia destes o presidente da empresa a dizer em plenário: Estávamos à beira do precipício. Hoje, demos um passo em frente.
Alea Jacta est.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Comichão de Trabalhadores

A sindicalista deslumbrante não estava assim tão deslumbrante quando, a meio de um texto sobre projectos urbanísticos aprovados pela autarquia de Lisboa por cima do traçado da terceira travessia do Tejo e da linha de ferrovia de alta velocidade, o telefone tocou, perto da hora do jantar, e a extensão que apareceu naquele seu instrumento de trabalho de quem era quase gémea siamesa era a do presidente do conselho de administração.
Nada a fazer e isto que sirva de lição à sindicalista deslumbrante: eram tempos difíceis, se não fossem tempos tão bizarros, aliás, ela nunca teria sido eleita, onde é que já se viu, uma sindicalista de direita e, ainda por cima, deslumbrante, eram tempos tão conturbados que já não restavam para amostra, sequer, ou para exposição atrás de grades com sinais evocativos para não serem alimentados, sindicalistas com patilhas e fartos bigodes, e assim sendo, a sindicalista deslumbrante acabou o texto, ainda teve tempo para sonhar acordada com uma torre miradouro da antiga fábrica dos sabões que conhecera graças aos delírios do Sá Fernandes, e teve que ir a correr para uma reunião informal e muito tardia com o presidente do conselho de administração, infelizmente, com o cabelo em desalinho e a precisar de uma lavagem urgente, que tinha sido adiada, naquele dia, por motivos imputáveis à botija de gás light da BP, que, alheia à vontade da sindicalista deslumbrante, tinha decidido ir desta para melhor, a meio do duche matinal.
E lá se sentaram, os dois únicos representantes dos trabalhadores que não estavam de férias ou folga, numa mesa redonda, e enquanto ela, com o seu cabelo num estado aceitável para a classe, mas totalmente repreensível para o estatuto de sindicalista deslumbrante, negociava mais quatro mil euros de indemnização para uma trabalhadora a quem tinha saído a lotaria de Natal, com uma rescisão amigável do contrato de trabalho no sapatinho, absorvia, ao mesmo tempo, tudo ao seu redor, procurava sinais de que o presidente do conselho de administração era um ser humano, e para além de anotar tudo numa agenda – o economato continuava trancado para cortar custos –, conseguia também mascar pastilha e encontrou ainda as provas que procurava: lá estava, na prateleira, junto à colecção dos Lucky Lukes, a moldura de acrílico e o retrato dos três filhos do presidente, que, sabe-se lá porquê, lhes confidenciou que a mulher tinha optado por ser mãe a tempo inteiro (e ela suspirou, sem saber se de pena, ou de inveja).
A sindicalista deslumbrante estava nisto, a saborear a sua primeira vitória, afinal o primeiro feriado de Dezembro ainda ia ser pago a dobrar, afinal, tinha valido a pena ficar sem voz durante três dias consecutivos, as mebocaínas, os mini comícios nos fumódromos e nos corredores, a empresa já não impunha, negociava, era bom, quase se esqueceu do cabelo por lavar, de não estar tão deslumbrante quanto seria desejável, quando lhe deu uma crise de urticária.
Era a comichão de trabalhadores.
O monstro não era o presidente do conselho de administração, era triste, mas não era ele, apercebeu-se ela, naquele instante: ele despedira 55 colegas da sindicalista deslumbrante desde Janeiro, ela não sabia e tentava adivinhar como é que ele dormia com isso, mas naquele dia, mais três pessoas tinham assinarado um papel que resumia o seu percurso dos últimos dezoito anos de vida em troca de um cheque, e, nos corredores, os outros, os que ficaram, os eleitos, exigiam pré-avisos de greve apenas porque lhes iam retirar a merda dos pagamento dos feriados a dobrar.
A sindicalista deslumbrante ouviu coisas do arco da velha e era aquelas pessoas que ela representava: despeçam lá quantos quiserem, mas não se atrevam a cortar-me o feriado, ouviu ela, ou, os que foram despedidos estavam mesmo a pedi-las, coisas que nem ela, sindicalista de direita ousara pensar, nos seus delírios neo-liberais. Um departamento inteiro daquela empresa ia ser extinto nos próximos meses e só se ouvia falar de greve por causa do pagamento dos feriados, era tão triste, era a natureza humana, o que é que a sindicalista deslumbrante estava à espera, mas quem é que, afinal, são os monstros?

segunda-feira, novembro 27, 2006

Alcagoitas

Parece que isto aconteceu na divisão criminal da Polícia de Segurança Pública, num barracão junto ao Tejo, onde vagueiam ainda milhares de almas de bacalhaus que ali foram salgados há décadas atrás.
Ela lembra-se da cena algures na Praça de Londres, mas esse cenário é absolutamente impossível, porque eles não estiveram na Praça de Londres, nem nesse dia, nem em dia nenhum.
Isto foi coisa mágica, e fiquemos, então, com a versão do barracão da PSP, e não nos banquinhos do jardim da Praça de Londres, com vista para a Igreja.
Ela devia estar a ler o já muito ultrapassado romance de Elsa Raposo com o professor de surf - a revista já tinha uma semana e a Elsa Raposo já estava a decorar o apartamento no Parque das Nações de um amigo de longa data que se tornou amante de um dia para o outro (ainda nem o laser tinha pagado o nome do professor de surf das suas costas) -, à espera de prestar declarações a propósito de uma notícia que escrevera sobre Óbidos.

A sua metade

pareciam gémeos siameses, onde estava um encontravam o outro, ela gostava de o ter sempre por perto, e à noite, em noites difíceis, já havia poucas noites dessas, mas de vez em quando voltavam a assombrá-la, isto foi um momento muito bonito, ela nem devia estar aqui a reproduzi-lo para a multidão silenciosa e para os brasucas ávidos de saber em que dia é que se monta a árvore de Natal (eu cá acho que é no dia 1 de Dezembro; este ano antecipei-me, mas sempre montámos a árvore no primeiro dia do último mês), ela estava com a cara enterrada na almofada, a chorar baixinho, e murmurou, dá-me a tua mão, não me largues a mão, e dormiram assim a noite toda, sim, tal e qual como siameses

matava a espera, brincando com os sinónimos e com as letras das palavras cruzadas, e perguntou, achou que, obviamente, ela não saberia, lançou: regionalismo algarvio ara amendoins.

Ela respondeu não sei (tinha a mente presa no Tallon, que apesar de ter três filhos com a Catarina Fortunato de Almeida, conseguiu anular o seu casamento), e na fracção de segundo a seguir disse alcagoitas.
Pôs a mão à boca, bateu-lhe, na boca, não ao gémeo siamês, e ele nem podia acreditar que ela tinha encontrado a solução, sem sequer lhe ter dado uma ajuda, que era uma palavra grande que tinha um t e um g.
A questão é que ela nunca ouviu falar em alcagoitas, até hoje, nunca tinha escrito a palavra alcagoita.
Isto saiu-lhe da boca para fora e ela tem quase a certeza que tudo se passou na Praça de Londres.

O pilinhas

Foi um golpe baixo: ele disse, gordura é formosura, era uma provocação e ele quis magoá-la, mas ela é gorda há 28 anos, já está habituada, e faz já tanto tempo que ela convive com as suas ancas largas e com um rabo que só cabe com uma grande angular, quanto aquele em que tem um dedo que adivinha - é o mindinho da mão direita, e foi a sua avó Zá que lho passou quando morreu -, que lhe sussurou ao ouvido, no instante em que o outro lhe chamou de gorda, que o administrador da empresa onde labuta e onde vai deixar de ser paga a 200 por cento nos feriados, não estava nada à espera de uma sindicalista de direita tão deslumbrante, no seu vestido colante de malha preta, e o dedo disse-lhe que ele não se lembra dela gorda, lembra-se de alguém com algum domínio assaz assustador da legislação de trabalho portuguesa, e com lata suficiente para, na primeira reunião, lhe dizer que, se no início da carreira lhe chamavam "the union man", isso era um ímpeto de juventude que, certamente, já lhe tinha passado.
Pois então, finalmente, o indivíduo achou o (t)ralha, e vai utilizá-lo em Tribunal para lhe tentar tirar a custódia da filha, alegando que ela é bipolar, ah, isso e porque ela não lhe corta as unhas e não lhe dá banho, que maravilha, às vezes, diverte-a, diverte-a mesmo muito, diverte-a tanto que até lhe voltou a voz que a reunião com o administrador lhe havia levado com as cheias, mas então, toma lá esta: ela podia ter-lhe respondido que constava no mercado que a sua namorada dava ares de vacalhona (estou a citar, alguém me disse) e que usava vestidos com folhos em casamentos pseudo-chiques onde não havia comida suficiente para os convidados. Mas não, utilizou o penúltimo trunfo, foi mesmo mesmo um golpe baixo, e, por isso, há-de haver alguém, neste preciso instante, que se mira escondido na casa-de-banho de um T3, com vista para a Calçada de Carriche, através de um espelhinho de aumento, daqueles de depilar as sobrancelhas. É que ela foi mesmo má, às vezes, era assustadoramente má, mas já lhe andaba para dizer isto há uns bons três anos, e era agora ou nunca: escreveu no teclado do seu novo Nokia, que já não era azul, mas sim da cor do petróleo e que, infelizmente, já não tinha a funcionalidade de lanterna, e isto, camandro, era quase escusado, era coisa que não se fazia nem ao pior inimigo, mas ela dedilhou e frase fez quase música: ela podia até ser gorda, e formosa, sim senhora (e mais segura do que algum dia esteve), mas ele tinha pilinha de chinês. Minúscula e fininha. E ele, agora, neste instante, ainda está na casa-de-banho, com a fita métrica caída no chão.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Sanchas

Isto tem que ser dito, porque vale, certamente, 50 visitas por dia neste blogue, mais de metade do total deste canto semi-moribundo, largado à mercê das ervas daninhas: há muita gente neste mundo do Blogger e da Google (que, no fundo, são um só, mãe e filho) preocupada com ‘o dia de montar a árvore de Natal’.
São todos brasileiros – o meu vizinho do restaurante Andaluz garantia-me há uma hora atrás, que o Juliano, que não sai detrás do balcão, e por quem a Carolina tem uma paixão assolapada que me permite ter discussões acesas com o meu noivo sobre o referendo do aborto, é brasileiro, mas é um moço muito bom, como já não se encontra, o que significa que, então, para o vizinho, todos os brasileiros, à excepção do Juliano, são uns malandros pagodeiros -, e é nesta casa que saceiam todas as suas dúvidas natalícias inquietantes. Encantada por poder ajudar tanto brasileiro em apuros.
E, se alguém, por exemplo, se desse ao trabalho de pesquisar no Google por ‘sanchas’, este território também será uma espécie de santuário, um reservatório de conhecimentos inúteis. Ninguém sabe o que são ‘sanchas’, à excepção da Lúcia querida, que vive lá longe nas montanhas, e quando vou, armada em porco boletreiro farejá-las ao Mercado de Alvalade Norte, tenho que dizer que procuro 'míscaros', que são cogumelos distintos das ‘sanchas’, mas só se estivesse em Viseu é que alguém saberia o que são ‘sanchas’ e, nesta cidade, tenho que falar em código e dói-me misturar alhos com bugalhos, porque 'míscaros' é uma coisa e ‘sanchas’ é outra, completamente diferente (descobre o João, outro dia, que, na Finlândia, é um prato típico e que se colhem em Agosto – a fixar, esta informação inútil, pode valer outros três ou quatro leitores ávidos de informações idiotas que não lembram ao menino Jesus).
E depois de pedinchar pelas ‘sanchas’, com a voz afectada de quem nasceu e cresceu no Bairro de Alvalade, já sei, já conheço, já vi este filme de trás para a frente e da frente para trás, qual vai ser a resposta da feirante: que a chuva as apodreceu, que em cinco quilos dois se aproveitam, que nem vê-las no MARL, que os cabrões dos franceses nos levam as 'sanchas' de cá para fora para prepararem pratos minimalistas, decorados com raminhos de cebolinho.
Ainda há o Corte Inglés, temos sempre o Corte Inglés, é mesmo a última esperança, mas as 'sanchas' vêm ao cair da castanha, já não há nada a fazer, é um acto de fé inútil, um gasto de energia escusado, e isto é muito preocupante, é mesmo muito, porque no ano passado só comemos ‘sanchas’ uma vez, e este ano parecemos grávidas rabugentas com caprichos impossíveis de atender (Ambrósio, apetecia-me algo, e bardamerda para o Ferrero Rocher, eu quero ‘sanchas’, ‘sanchasssss’), e não tarda, para o ano, talvez, terei de apanhar uma low cost, e voar até Paris para buscar o raio dos cogumelos verdes cobertos de areia, para a Magui me ensinar a lavá-los e cozinhá-los com carne de porco, chouriças e toucinho.
E isto é um pesadelo, é coisa para ataque de pânico e para respiração para dentro de um saco de papel: se a Magui morresse hoje, eu nunca mais comeria 'sanchas', da mesma forma que a Magui nunca mais comeu filhós de abóbora de forma no Natal, porque a avó Tóia não chegou a perder dez minutos e ensinar-lhe a fazer e fritar os doces de Natal (claro que, em matéria de ensinamentos, já decidi que vai ser a Dona Beatriz, do tasco aqui de baixo, que me vai ensinar a fazer rosetas de crochet, porque com a Magui é mesmo impossível, tenho a autoestima em baixo, peso quase oitenta quilos, e a educadora da minha filha mandou uma ficha a dizer que a minha loira não tem o domínio da língua portuguesa que seria desejável para a idade, portanto, não suporto a rejeição de não conseguir aprender por artes mágicas – porque ela não ensina, limita-se a executar a velocidade suprasónica à frente dos meus olhos – a fazer rosetas de crochet; e aqui para nós que ninguém nos ouve, não sei porque me dou ao trabalho: as crianças chinesas têm imenso jeito e vendem-se rosetas de todas as cores nas lojas chinesas a um euro cada dez).
As coisas perturbadoras não param por aqui. Nem sei bem por onde começar. A Polícia Municipal de Lisboa rebocou o meu carro, que estava estacionado em frente a uma garagem abandonada e, por isso, estou 120 euros mais pobre. E, também, pela mesma razão, e porque ainda falta uma semana para o dia de São Receber, amanhã já não vou à despedida de solteira da Joana e, calma, calma que isto ainda piora, não posso comprar um vestido novo, nem ir ao cabeleireiro para chegar mais ou menos deslumbrante à boda da minha querida amiga.
Amanhã, não sou gaja, não sou nada, se não tratar, dois anos depois do que seria previsto e lúcido, do selo de residente do Marquês de Pombal, na EMEL, lá para o lado da rua dos Douradores.
Mas, de vez em quando, volto ao Statcounter, não tal febrilmente como nos dias em que escrevia 1,3 posts por dia, com uma extensão mínima de oito mil caracteres e, assim, descubro que sou a primeira dos links de um blogue coqueluche de esquerda (continuo a não linkar ninguém; continuo a achar que é o low profile que me impede do despedimento por justa causa), e que, noutro, de direita, também estou na molhada de blogs que para lá estão pregados com cuspo. Pela parte que me toca, os links aqui apresentados à direita estão todos ou quase todos semi-mortos, mas vossemecês não perdiam nada se dessem um pulo ao novo blogue do Telescópio .
À noite, porém, apesar de já ter ultrapassado a ‘ressaca’, e de te aprendido que mais vale viver do que escrever, continuo a sonhar com templates. Hoje sonhei com um bem branquinho, onde as palavras se encavalitavam em linhas tortas, desenhadas em Garamond.
O mundo é um local injusto, a sério que é, e não me lembro nada de ter escrito neste quintal que corria na máquina do café que o meu chefe era 'roto', mas tenho, na outra janela, atrás desta, 250 páginas de (t)ralha para cortar para metade, são mais ou menos dois anos de abismo, e quase já não me lembrava que tinha escrito tanta merda, o preocupante é que me parece tudo mau, ou sofrível, pois parece, e para além de despedida, vou ser, também, deserdada, mas, talvez, em Garamond fique mais apresentável e com uma capa bonitita talvez venda mais do que cem exemplares.
Corro para o meu sono de beleza. Amanhã, é bem provável, que seja ainda um dia bem pior que este. Menos mal, porém, pagam-me amanhã para escrever sobre as luzes de Natal.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Princesar


É um verbo inventado por uma Ralha, a Isaura.
Devia passar de mãe para filha, a partir de agora, passa de mãe para filha. Consiste, logicamente, no acto de embonecamento de meninas muito pindéricas, que adoram pinturas, ganchinhos, colares e brincos.

terça-feira, novembro 21, 2006

O professor de Filosofia (fim)

O professor de filosofia chorou. E ninguém estava à espera disso, houve um silêncio constrangedor quando ele irrompeu em lágrimas, apertando o embrulho que eu lhe entregava, à altura do seu peito, em nome de toda a turma.

O professor de Filosofia, cujo nome não era Carlos Pedro, mas, para o efeito desta série de posts, era quanto baste e até resultava bem, ia casar-se. E os seus alunos troçavam, conjecturavam nos intervalos passados na fila do pré-pagamento da cantina para comprar a senha do almoço, ou uma bola de Berlim ainda quentinha para quebrar o jejum da manhã, quem seria a aberração que se submeteria a viver sem televisão, no meio do silêncio e dos livros do professor de Filosofia, mas no fundo, o professor de Filosofia era estimado e muito respeitado.

Sabe-se lá de quem foi a ideia. Provavelmente foi minha, é bem capaz de ter sido. O professor de Filosofia foi um grande mentor, uma pessoa importante para o desenvolvimento da minha personalidade, apesar de não me conseguir recordar do nome dele. Fez-se uma vaquinha. Cada um deu o que pôde, e até as Ameixoeiras, que o odiavam, contribuíram. Não era muito dinheiro, mas deu para comprar uma caneta Parker, de tinta permanente.

O professor de Filosofia não estava à espera, suponho que tenha sido a beleza do simbólico e do ridículo de uma caneta Parker azul-escura que o tenham comovido. Há-de haver muito boa gente que ainda se lembra disto, quero acreditar que não sou só eu, há-de haver muito boa gente que até se lembra do nome do professor de Filosofia e que, de vez em quando, chega a casa com um presente inesperado, só porque se lembra das lágrimas do professor espartano, cuja face, toda ela parecia que lutava contra aquela emoção enquanto eu lhe estendia o embrulho à altura do peito.

Não há mais nada a dizer sobre o professor de Filosofia.

O retrato

Foi uma pergunta desnecessária, no fundo, o telefonema da véspera, à hora do almoço, a pedir-lhe que levasse consigo a máquina fotográfica digital fez antever o filme todo, tim tim por tim tim. A pergunta deveria ter sido outra, mas as perguntas são como as respostas, as melhores chegam sempre tarde demais.

Deveria ter perguntado porquê eu, porque é que me coube a mim, que não sou nem nunca fui a favorita, a fazer-lhe o retrato, e não para que é queria ele a fotografia. O meu avô Ralha, que nunca me ralhou, vestiu-se a rigor, com o fraque, colocou ao peito todas as condecorações de mérito que o Estado português lhe deu, e concedeu-me 20 disparos, em pouco mais de dois minutos.

“É para os meus netos se lembrarem sempre de mim assim”.

É terrivelmente fotogénico, aliás, como todos os Ralhas.

terça-feira, novembro 14, 2006

A Viriato irisada

Cada um descomprime como bem entende e lhe apetece, quem gosta não olha e se acham que eu tenho um pirolito a menos, pois bem, isso afecta-me tanto como um stiletto de biqueira afiada pelo Blahnik, ou seja, nada, mesmo nada, é que a gente já sabe que faz parte do pacote, a dor e os bichanados dos outros a dizerem que devia morar na avenida do Brasil – e eu aí tenho que dar a mão à palmatória e à menina dos sete olhos, ameaças comuns da avó Tóia na minha primeira infância, e concordar com essa teoria: a Magui tem na avenida do Brasil um apartamento devoluto de seis assoalhadas, uma casa onde a mãe da Cristina se penteou durante décadas pelas mãos de um cabeleireiro chamado Florindo, e a casa tem um belo logradouro onde eu podia encaixar todos os meus amigos à volta de uma mesa rasca de plástico comprada nalguma sucursal de hipermercados do patrão, e a Carolina podia rir com todos os seus dentes de mentirosa à mostra, para a fotografia, num vaivém frenético de um baloiço, ou na vertigem da descida de um escorrega; a felicidade cabia toda naquele quintal da Avenida do Brasil -, e é claro que a Isabel soube, quando saía do táxi da Retalis, à porta do número 13, que só havia uma pessoa capaz de estar a soprar bolas de sabão da janela. Eu.
Há quem faça de escriba o dia todo sem pensar na coitada do terceiro piso a quem tiraram o computador e o posto de trabalho. Nada disto me espanta já. Penso, repenso nos últimos dois meses, geralmente, não chego a nenhuma conclusão, e então, estendo a palma da minha mão direita amiúde para ver se adivinho quando é que me oferecem 1,5 salários para que eu deixe de me queixar na Internet, para quem quiser ler, que ganho 4,54 euros à hora e que chega ao dia 15 e eu tenho dez euros para me governar. E perco-me, também, em labirintos psicadélicos com espelhos mágicos que me emagrecem num segundo os quinze quilos que devia perder, a magicar qual será o requinte de malvadez com que me hão-de dar a notícia e dizer-me que a porta da rua é serventia da casa – adianto desde já que arrancar as unhas já não vale a pena porque, deve ser castigo divino por algum dos meus imperdoáveis pecados, e esta semana parti a três unhas praticamente a meio do sabugo (adoro esta palavra). Eu gostava que amestrassem dois grand danois arlequins com problemas de identidade, que se julgassem São Bernardos, e que me trouxessem ao pescoço um cantil proposta lá dentro enroladita. Ou mudando a conversa da água para o vinho, ou neste caso, dos cães para os gatos, gostava que contratassem os felinos que se dizem fedorentos para fazerem um stunt só para mim, à entrada do primeiro piso, que envolvesse a máquina do café, já agora, electroméstico laboral que eu tão bem domino. Nesse dia, se calhar nem regateio 1,7 salários por cada ano de vida, e crio o blogue (T)ralho.
Cada um descomprime como pode.
E quando a hora de fecho se antecipa duas horas, como se de uma directiva comunitária se tratasse para acertar todos os fusos horários dos 25, tenta-se de tudo: vasculha-se o ebay à procura de santas Martas kitsch, recortam-se imagens naifs dos lenços de namorados minhotos para parir um original convite de casamento, mas a mala de uma mãe é como um ovo kinder, uma surpresa, e um brinquedo (ainda não é um chocolate, mas lá havemos de chegar um dia), e acabou por salvar a tarde: quando pus a mão lá dentro e tacteei, sem medo que esta fosse engolida por um monsro, à procura de um maço de cigarros finos, acabei por encontrar um frasquinho de plástico com água e sabão, corri logo para a janela – é a dois passos, não foi grande o exercício, mas vá lá, dêem-me o esconto -, o cenário era o mesmo de todos os inícios de tarde, uma fila interminável de carros e de luzes encarnadas do pé que não sai do pedal do travão, e com um sorriso tolo na cara, que hoje me dei ao trabalho de ensopar com base e blush, soprei. Soprei com requintes de mestre vidreiro as mais belas bolas irisadas que a Viriato já viu.
O Afonso, que nos arruma os carros e que tem mau vinho logo ao início da tarde, lançou lá debaixo os braços aos céus e gritou com a voz já muito arrastada pelos vapores etílicos: A minha rua está tão lindaaaaa. E com os olhos erguidos ao céu encoberto, abençoou os criativos; abençoou-me a mim. O Zé, que estava na janela de cima, a dar de comer ao seu cancro de pulmão com um Ventil original, dos que vêm em maços molinhos e não em caixas de cartão, pediu-me em casamento. A Isabel estava bonita, mesmo muito, e só olhou para a varanda para confirmar que era eu a doida.
Cada um faz o que pode, pelo menos enquanto não se deixa alhear pela realidade. A Viriato parou de sangrar naquele instante e todas as tristezas voaram para longe e rebentaram no chão, como as bolas de sabão.

sábado, novembro 11, 2006

O vereador dos espaços verdes

Ele era o vereador dos Espaços Verdes e ela desconfiava que o til do seu apelido era uma personalização subtil para efeitos de marketing, e sempre que pensava nisto – era geralmente o Word que a punha a matutar sobre o assunto, porque insistia em não deixar que o senhor se chamasse Prôa – dava-lhe ganas de alterar o nome na carteira jornalista para Raglia, porque ela queria ser uma mama siciliana, de formas generosas e cabelos lustrosos ondulados sobre todo o comprimento das costas (para efeitos do personagem, ela queria também um rubi no anelar da mão direita e cem miligramas de silicone em cada mama).
Era quase perturbadora esta revelação, mas ela estava convicta que ele gostava de ser o vereador dos Espaços Verdes – o restolho do bolo do poder autárquico. Mas esta assunção vinha de uma alma que escrevia sobre os passeios esburacados e sobre os jardins em desalinho na rubrica do jornal de referência, cujo nome era um trocadilho linguístico fácil mas até feliz. E ela, tal como o vereador, também gostava de ser a tipa dos mil e quinhentos caracteres do InfelizCidades. Mudara ligeiramente a cidade com mil e quinhentos caracteres paginados a duas colunas em negrito. Era o seu espaço (T)ralha, mal impresso em papel que esborratava as mãos e que, pensava ela, poderia ser lido, não pelos seus cem leitores diários do Blogger, mas sim, no limite, por 35 mil pessoas por dia – que isto, já se sabe, só o Correio da Manhã é que vende 110 mil exemplares.
Sem saber, o vereador dos Espaços Verdes tornou-se uma peça fundamental da história extraordinária que se segue.
Para comemorar a Primavera, e porque ainda não estava afectado pela rinite alérgica que lhe traziam os choupos, ordenou à empresa subcontratada pela autarquia, que plantasse, na véspera de dia 21 de Março, 50 mil flores na avenida que, em tempos, foi o passeio público e que, hoje em dia, apesar dos bonitos desenhos de calçada portuguesa, tinha o epíteto da mais poluída via da cidade.
Andavam os jardineiros com o cú virado para a lua que estava quase cheia, a plantar ciclames coloridos, sob o olhar assustador do marquês e do seu leão, quando às quatro da manhã, o jardineiro chefe disse um palavrão porque só tinham trazido 49.998 vasos. Mas a aprendiz sabia que naquela noite tinham que ser mesmo cinquenta mil, por isso, dividiu dois ciclames brancos, os mais repolhudos, em quatro, e sorriu, apesar da dor nas cruzes, ao cobrir as duas últimas covas com terra húmida.
Quarenta e seis segundos depois das quatro badaladas que os carrilhões da Basílica da Estrela entoaram, fazendo guinchar os pavões do Jardim Guerra Junqueiro, a Avenida da Liberdade estava mais bonita do que com as iluminações de Natal. Nesse segundo, um homem escreveu um ponto de exclamação no seu teclado.
Era o leitor 50.000.

(Continua. Esta história é para a minha filha Carolina. Para ela acreditar em contos de fadas)

terça-feira, novembro 07, 2006

Árvore de Natal

Foi em Novembro, no início, depois das bruxas e do dia de todos os santos, eu sei porque nessa noite, ao luar, deitei sete gotas de cera num prato de água e a letra que me apareceu não era um P, e com a raiva, e porque eu sempre acreditei em magia, deitei a água pela janela e lamentei ter testado o nosso destino na primeira noite do penúltimo mês do último ano antes da passagem do milénio.
Lembras-te, a nossa primeira árvore de Natal, com anjos de todas as cores, de três pelo menos, eu sei que sou exagerada, perdoa, mas havia encarnados, verdes, prateados, dourados, e também havia azuis se não estou em erro, e bolas de vidro, comprei-as num saldo no Carrefour, nessa altura eu fazia alegremente o meu enxoval, a vida era tão simples quanto isso, arrastava-me, contrariada, a um curso que desprezava, trabalhava à tarde no diário de referência, um trabalho meramente maquinal, que fazia em dezassete minutos úteis e que me rendia quarenta contos, a segunda década da minha vida tinha acabado de começar, não riscava anos na parede, e a primeira peça do enxoval que comprei foi um tabuleiro e um relógio de cozinha do Marks and Spencer e depois a Magui deu-me os lençóis que ela bordou no colégio das Doroteias no Sardão, e a árvore de Natal, em Novembro, na primeira semana de Novembro, um disparate, parecíamos crianças na véspera de Natal, a um canto de uma casa vazia, sem móveis, a nossa primeira casa, que visitávamos de semana a semana só para ver as luzes a piscar, sentados no chão às escuras, e eu não sei o que te passava pela cabeça, mas eu sonhava com uma casa no campo, uma lareira, um rebanho de filhos e de cães.
Hoje é sete de Novembro. Provavelmente, há sete anos atrás, já estava no chão, contigo, a ver a árvore dos anjos, das bolas de vidro que fazem um barulho lindo quando caem no chão, e dos laços de fita de organza dourada que eu própria fiz.
Precisava de fazer hoje a árvore de Natal. Sabes, acho que perdi um amigo, o amigo, aquele que está gravado no telemóvel há dez anos como alma gémea, não sei como foi, há amigos que deixamos ir em silêncio, ainda agora o telefone tocou e eu não atendo números privados, não sei que me deu, e estive a falar ao telefone com aquele, que, outrora, foi a minha alegria no trabalho, o outro Pedro - e depois há a segunda alegria no trabalho, que também é Pedro, e que eu já estou a ver o filme todo, vamo-nos falar de ano fiscal em ano fiscal, isto, pelo menos, se ele não aprender a declarar ele próprio o seu IRS pela Internet, e Deus queira que não, ou pelo menos que se faça de parvo, que finja que não sabe -, e ainda bem que já tinha feito a árvore de Natal e que o chão já estava cheio de purpurinas vermelhas que vão andar a voar, como plumas, durante meses pelas assoalhadas tortas da minha casa centenária, a minha primeira casa, porque dois amigos, ter a revelação diante dos nossos olhos, ouvidos e de todos os outros sentidos que a distância nos levou de mansinho, sem avisar, sem chatices, ou discussões, dois amigos, é uma dor que trespassa, coisa que só deixa de arder como uma boca cheia de piripiri, com uma árvore de Natal ao pé da janela.
Quantos mais amigos vou eu perder?

segunda-feira, novembro 06, 2006

Emergência

Gosto de escrever Estefânea. À moda antiga.
Era uma menina, veio de Sigmaringen para casar com D. Pedro V, o Esperançoso, e quando cá chegou indignou-se com a javardagem que por aqui se passava, ao ver crianças e adultos coléricos amontoados indiscriminadamente nas enfermarias nauseabundas. E, então, como era pequenina e franzina, mas não era de modos, pegou no seu dote de casamento e disse ao maridinho com o seu sotaque germânico: toca lá a fazer-me o gostinho e construir um hospital pediátrico.
A pobre Estefânea morreu pouco depois, ainda criança, não chegou a ver o seu hospital de pé.
Eu visitei-o pela primeira vez na passada sexta-feira. Passei lá 18 horas. Não me quero armar em Jack Bauer, no genérico do 24, mas foram, talvez, as horas mais difíceis da minha vida. Foi a primeira vez, em quase três anos, que entrei numa urgência.
Encheu-me de orgulho, a pequenina. Não chorou quando a picaram, esteve sempre muito serena. No fim, disse, aos enfermeiros so SO, "Obrigada a todos" e despediu-se da cama onde esteve a soro um dia inteiro com um "adeus caminha".
No rápido caminho até casa, descobriu os semáforos: os meninos vermelhos, os meninos verdes, mas gosta sobretudo dos intermitentes, que ainda não decidiu se são amarelos ou cor-de-laranja. Mas, no Fiat, no semáforo do Largo do Andaluz, houve uma emergência, a minha, saí daquele pesadelo de mais de 24 horas quando ela cantou, muito pálida, com olheiras até ao queixo, roxas: "ser amigo dos animais é fácil".
Agora, estou eu doente. É mais que justo.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Bocarras

O Ricardo estava aflito, um erro de casting, uma brincadeira de mau gosto, nada mais, nada menos, do que um menino largado nas mãos daquele tonto, e, caramba, era um menino feio, daqueles muito inchados e roxos em que os familiares e amigos apenas conseguem esboçar um “que querido”, colados ao vidro do berçário da maternidade.

Catrefadas de caracteres,

(no jornalismo, a prosa mede-se nesta unidade. Em vez de dá-me aí 250 gramas desta merda é mais, arranja-te como quiseres, enche chouriços, mas preciso de três mil caracteres mais entrada para ontem. E, com tempo, aliás, mentira, o que me falta é mesmo inspiração e não o tempo, irei escrever neste buraco escuro onde já só pairam meia dúzia de almas resistentes, o poder de mil e quinhentos caracteres numa página par, aquela que, dizem as estatísticas, é menos lida nos jornais)

um trabalho sobre spreads, taeg's, tanb's, armadilhas pérfidas escondidas na banda magnética do cartão de crédito e no dinheiro fácil conseguido por telefone sem perguntas indiscretas, através do chamariz de anúncios idiotas, e ainda há pouco tempo eu era jornalista de economia, melhor, ainda há pouco tempo fiz um crédito à habitação, por isso, acabámos por comemorar seis meses de estado de graça total, com o Ricardo, no Magnólia, com tostas de presunto à frente dos narizes, no local onde, outrora, há muito tempo atrás mesmo, eu comia com o Zé Ralha, elaboradíssimos gelados durante o Inverno, na defunta cafetaria do Londres.

Uma tosta de presunto finíssima, coisa de autor, de fast food armada em slow food, cogumelos e courgettes, e eu disse-lhe, fora de brincadeiras, quase com o mesmo tom que o André lançou à mesa de um recanto escondido no Bairro Alto, que estava com vontade de um rock rural algures entre as flores e o Corvo:

Se eu me tornar redundante, se me passarem um cheque para a mão, já sei o que vou fazer.

E sem mais suspense disse

Abro uma loja de vestidos de noivas.

Todos eles acham que sou muito cosmopolita, e que sou intensa, culta, e mais umas quantas inverdades – eu sou apenas uma rapariga que sonhava ser maquilhadora, na primeira infância, costureira, na pré-adolescência, e cantora de fado, em plena idade do armário –, mas com uma loja de vestidos de noiva, a vida levava-se como um conto de fadas, imaginem só as histórias bonitas que eu ouviria todos os dias, entre provas, saiotes, cetins e tules. Não viveria rodeada de pulhices, rasteiras, mentiras, apenas felicidade absurda todos os dias da minha semana.

Algures entre as sombras, batons e os blushs da minha mãe, os tecidos e as máquinas de costura Singer com que me entretinha tardes a fio a fazer vestidos para a Barbie, eu quis ser voz de desenhos animados. E é sobre essa vocação que versa este post, só que, claro, tenho que dar uma volta muito grande aobilhar grande para lá chegar (e isto lembra-me também que estou preparada para acabar a saga do Professor de Filosofia).
Eu não sou nada, reparem bem, a ideia da loja de vestidos de noiva é capaz de ser a melhor dos últimos tempos. Sou a miúda que se vai casar, eventualmente, se o dinheiro se dignar a armar-se em papo seco e a multipilicar-se sem razão aparente, ao som de gaitas de foles no jardim da Estrela, e cujo momento alto do dia é à noite, quando me sento à mesa de jantar e pego na pinça de gelo e na pinça da salada e as transformo na família Bocarras – Bocarras júnior, a pinça de gelo, mais meiga, com uma vozinha aguda e irritante que gosta de oferecer Smarties no final de uma refeição degustada sem queixumes; e Bocarras pai, vozeirão rouco, humor negro, apetite obsessivo por pezinhos de crianças loiras, e uma antipatia nata pelo João, a quem insiste chamar de palerma.

Os Bocarras fizeram com que a Carolina voltasse a comer. São apenas pinças de gelo e da salada, que intimidam o anjo loiro a mastigar e engolir a comida, sob pena de levar uma trinca no rabo de uma pinça de salada.

Como a comida já fria, sem graça, para fazer os Bocarras (ainda não como cabeças de peixe, logo, ainda não faço grandes sacrifícios enquanto mãe). Escavaco a garganta a fazer a voz do Bocarras pai, mas a temperamental pinça da salada não me faz pior do que as duas dezenas de cigarros que me ajudam a passar as horas numa redacção em pé de guerra.

E depois, vou com o Bocarras Júnior pescar com o pacote de Smarties à despensa onde as putas das formigas atacam tudo o que está fora de tupperwares hereméticos, e cada vez tenho mais certeza que uma loja de vestidos de noiva é que era.

quinta-feira, outubro 26, 2006

Arco-íris

Talvez eu devesse contar-vos, à boleia do segundo episódio seguido de Noddy que passa na televisão bordeux, e que traz à metade loira de mim a história do arco-íris mágico do país dos brinquedos e do tesouro escondido algures atrás de uma colina onde ele nasce, sobre o céu de milagre que se decidiu abater sobre nós, sobrepondo-se ao cinzento carregado dos céus chuvosos de Leiria, quando decidimos arredar o pé da cidade que tem um estádio encarnado encostado a um castelo, com todos os sentidos embriagados e quase enternecidos pela docura e mau gosto indescritível do casal de idosos proprietário do café Sem Niveau.

Sinais de Deus é o que é.
Que me dizem que a escolha de um vestido de linhas simples, sem bordados, rendas ou mariquices à revelia e sem a opinião das três madrinhas, a 110 quilómetros de Lisboa, não foi um erro, uma compra por impulso, e que talvez o véu com as rendas de guipure cor de sangue sejam apenas o que falta para compor a imagem da virgem que eu gostaria de ter sido - o amor, repito, nunca é tarde demais para me auto-plagiar, até porque o joão Pedro George não é meu leitor e dificilmente me irá dissecar o blogue, o amor é directamente proporcional às golfadas de sangue que se está disposto a derramar, e era isso que o véu debruado a sangue poderia querer significar no dia em que passo de SOL para CAS no bilhete de identidade - o dia em que a minha filha voltar a ter o nome com que nasceu será igualmente solene, talvez dos melhores da minha vida, mas isso é daqui a muitos anos, quando eu já tiver o cabelo todo grisalho e, provavelmente, a tapar-me o rabo, numa espécie de promessa.
E que o noivo, ah, que coisa tão pirosa de se escrever, melhor que isto só a minha manicure que tem uma série de unhas partidas e descuidadas - em casa de ferreiro espeto de pau, já diz a preciosa ajuda dos ditames populares -, que em 15 minutos de manicure fast food que transformam as minhas mãos, e mesmo antes de eu desembolsar 4,5 euros pelo serviço ultra-rápido e milagroso, é capaz de dizer uma média de 55 "o meu esposo", que o homem tímido de cabelos dourados e revoltos que, contra todas as superstições viu o vestido da noiva, é o homem da minha vida.
Mas, francamente, para sabê-lo, para ter essa certeza, não precisava de um arco-íris sobre uma rotunda de acesso à autoestrada, à saída de Leiria.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Pequenos apontamentos de beleza

E no meio de tudo isto há apontamentos de uma beleza simples, da que dói, e que são da mesma matéria que o suicídio premeditado da octogenária que se chamava Maria Teresa de Jesus.

(foi mesmo assim. tirou os anéis dos dedos, o fio de ouro do pescoço e em último lugar a aliança, e alinhou-os na bancada da cozinha. subiu à banqueta, tirou os pés dos chinelitos de fazenda, fez questão de os colocar perfeitos na perpendicular e só depois fez aquilo que tinha a fazer, aos primeiros pingos de chuva que lhe caíram na cara)

Um telefonema ao início da manhã, a valsa de Amélie em toque monofónico a sair da mala Todds que viajou dos Emirados Árabes Unidos para o meu ombro direito há mais de três anos e nunca mais de lá saiu, tudo isto no Lidl de Alvalade, que é um Lidl mais ou menos decente, com um rácio equilibrado de gente feia por metro quadrado, o meu outro ombro, o esquerdo, eriçado, com frio, junto à arca e às salsichas alemãs refrigeradas, para ser exacta, a minha mãe a chorar, eu a pensar que tinha morrido algum gato, e ela diz

a Dona Teresa mandou-se da janela,

e nesse momento, a força é-me arrancada das pernas como num roubo por esticão, num micro-segundo vejo à minha frente o sorriso precioso da minha vizinha em frente aos iogurtes de aromas a 1,49 euros, as doze unidades, e noutro, logo a seguir, transporto-me para o futuro, para o dia em que a Magui há-de partir, muito curvadinha e velhinha, e sei que, nesse instante, as pernas não vão só ficar trémulas, vou ficar tetraplégica por alguns minutos, talvez horas, e cair estatelada no chão sem conseguir chorar ou dizer uma palavra.

Chorar no corredor dos congelados.

Mas porque é que ela faria isso, mamã?
E o João a abraçar-me, e eu a tirar os packs de quatro leites de chocolate radioactivos que deixam manchas que não saem nem à força da lixívia, eu sem acreditar, a chorar com soluços, e os fregueses de Alvalade a passarem com os seus cestos do Lidl sem sequer olharem para trás, como se fosse perfeitamente curriqueiro, ordinário, comum, que alguém irrompesse em lágrimas junto à pimenta e à mostarda. E o João a chorar também, parece-me, e isto é coisa de amor gigante.

Depois, as lágrimas de crocodilo, as lágrimas de crocodilo são também belas, quem me disser o contrário não sabe do que fala, eu estive hipnotizada no lencinho de mão da carpideira réptil que sempre quis mal à minha querida vizinha, que me contou a Magui, era enfermeira. A vizinha. Não a carpideira. E as capelas da Servilusa, na Igreja hedionda de Santa Joana Princesa, onde, outrora, durante muitos, muitos anos, havia um canavial pegado à Quinta dos Lagares d’El Rei, as capelas com tapetes de arraiolos no chão e serviço de cafetaria na mezanine, e o sermão despropositado do padre a quem não terão, certamente, dito que a defunta era uma velhinha voadora desesperada, que ninguém decide quando é a hora de morrer, belíssimo, estaria bêbedo, e a minha boca aberta de espanto, tudo perfeito, a começar na racha na parede ao meu lado, como se naquele instante tivesse havido um pequeno terramoto, e o filho da dona Teresa, no fim, a dar-me uma palmadinha no ombro e a pedir,

não chore,

e depois, logo a seguir a mim, a ir socorrer depressa a empregada, a mulata escultural de traseiro que não obedece às regras básicas da gravidade, que trouxe um enorme ramo de orquídeas com um laçarote roxo.

(a dona Teresa gostou muito delas)

E o pai da Isabel, a quem chamavam cachalote fora d’água na quarta classe, a Isabel que, agora sim, está disforme e parece ser minha mãe, que numa aula de olaria respondeu à pergunta
o que é a lambugem?, com a simplesmente genial reposta, A lambugem é para lambujar o barro.
Toma lá, que a miúda nem era nada parva e não se sintam diminuídos se não souberem o que é lambugem, eu também não vou dizer porque não sou nenhum dicionário, só que a Isabel teve um filho do mecânico da rua em idade imprópria, mas o seu pai, que surpresa incrível, é cangalheiro e eu conhecia-lhe apenas os dotes de mago com os mais pequenos, mas, afinal, até faz bastante sentido - mortos, bebés, são todos anjos, e o senhor de baixa estatura e de armações dos anos 70 tem esse fado nesta vida.
E há um vestido de noiva, o mais simples e o mais barato de uma loja nos arredores da feia Leiria, que o Leonardo insiste que é bonita apenas porque aquele pedaço de terra onde seria bem-vindo um tsunami é teimosamente conservador. E há uma demanda pelo véu perfeito, com renda de guipure, ou veneziana. E um café de fino mau gosto, obra de autor, inenarrável, coisa para foto-reportagem detalhada, os estuques nos tectos, as pedras nas paredes, a escolha cromática, os tecidos, os bibelots, as plantas de plástico, um espaço que é um vórtice, uma outra dimensão, e que, num toque de fairplay incrível, colocou no letreiro comercial o seguinte nome de baptismo: Sem Niveau.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Simples

Foi tão simples quanto isto, levantou-se, chovia, e era um dia bom para morrer. Chovia que Deus a dava, alguém choraria por ela assim, os céus vestir-se-iam de cinzento muito escuro e chorariam por ela durante dois dias e duas noites. Soube, na noite anterior, no boletim meteorológico, que também os ventos se levantariam por ela, rodopiando e arrancando telhados de zinco e chassis de auto-caravanas, foi tão simples que dói: olhou-se ao espelho, cabelo branco em desalinho, sobrancelhas cinzentas escuras, um buço que teimou em grudar-se debaixo do nariz e por cima da boca depois da menopausa, lavou a cara e sorriu, o dourado dos caninos de metal precioso onde fixava a esquelética reluziu como se fizesse sol junto à banheira, despediu-se da empregada, deu-lhe a folga merecida, adeus e até amanhã, fechou a porta à chave, sentou-se no sofá, ao seu lado estava o fantasma do seu companheiro de olhos azuis turquesa, e na alcatifa, o arfar do espectro do cãozito schauwzer anão que os acompanhou na entrada da terceira idade, levantou-se, tocou ao de leve, um roçagar, nas paredes que o seu marido construiu a pulso, foi à cozinha, bebeu um copo de água, deixou a porta do armário aberta, espreitou, do alto de um nono andar, o jardim enlameado e as arvorezitas que daqui a cinquenta anos serão finalmente gente e sombra, abriu a janela, não pensou em nada, não chorava, subiu à banqueta, fechou os olhos e decidiu que a vida acabava num voo rápido.

Este blogue está de luto carregado. Porque foi assim. Simples.

sábado, outubro 14, 2006

Rapariga peculiar

Ela é uma rapariga tão peculiar.

Canta Mozart no fumódromo, ao fim-de-semana, e, em dez minutos da sua hora de almoço, faz uns cartazes giros para convocar eleições para a Comissão de Trabalhadores, pior, voluntaria-se para a dita cuja CT, só que a vontade de subir para cima de um armário, pode até ser o do economato fechado a cadeado, e gritar a password do seu Compaq (é o seu calão favorito) é cada vez maior, e, sim, ela fala como um carroceiro, uma asneira feia a cada sete palavras, fala demais, é uma pena, devia aprender a estar calada, sobretudo, a calar as suas mãos muito magras, e é arrogante, por um lado, insuportável, julga que todos são uma cambada, e gostava de saber revirar os olhos (só os revira, instintivamente de prazer, disseram-lhe) e suspirar "Que gente", e por outro, por outro, é a mais doce das criaturas, entrevista os loucos desta cidade, e, parece que a esposa do patrão leu dois mil caracteres que ela publicou por descargo de consciência, ciente que nada do que escreve muda a realidade, e que o Aníbal já não vai morrer num quarto pestilento onde se passeiam ratos despudorados.

Dizem-lhe, em tempos foram colegas de secretária, dizem-lhe, és uma rapariga tão peculiar, mas o extraordinário não é que lhe tenham batido palmas no trânsito enquanto ela cantava Mozart porque não tinha cigarros na mala e porque o demónio do estacionamento não estava acordado, nem que, atónito, com a mesmíssima melodia, um outro condutor tenha enfaixado o céu pára-choques na traseira de um veículo que seguia a sua frente. O que é verdadeiramente assombrador não é que ela cante, escreva, pinte, dance, ame, viva, erre, lute, sofra. É que tenha sido uma criança a escrever a dita cantilena.

Salmoura

Os amigos riram-se bem alto quando ela disse que a vida lhe era madrasta e que, agora, todos os dias pareciam sextas-feiras treze, que os azares se sucediam em catadupa um atrás do outro, tanta má sorte apenas porque o patrão fechou o armário do economato à chave e ela, assim, já não podia ser feliz às custas de roubar material de escritório.
Crise, ditaram eles, e agora já não mais podia armazenar caixas de clips na gaveta da secretária, nem levar pilhas para o comando do televisor lá de casa (infelizmente, não havia no armário pilhas para o vibrador, era à sua custa e à de pilhas alcalinas das lojas chinesas que se perdia em prazeres solitários).
Estavam racionados, os clips, as canetas e os blocos de folhas muito finas, e ela não sabia se havia de rir ou de chorar quando o guardião do economato lhe ordenou para estender a sua mão direita em concha e lhe depositou meia dúzia de exemplares de design ordinário, muito brilhantes, contabilizados sem margem para desperdícios.
Esta era mais uma das suas estapafúrdias interpretações da realidade e do destino, mas a melhor de todas as histórias mirabolantes, pelo menos dos últimos tempos, era a perturbação que lhe causou um episódio que aconteceu numa tasca onde a cozinheira abusava do sal e em que todos os petiscos eram servidos em salmoura.
Naquele dia, sugerira ao senhor Zé para colocar um aviso na porta da tasca a proibir a entrada de hipertensos, mas o senhor Zé não era dado a ironias, na verdade, nem sequer ouviu o que ela disse, presumiu que fossem duas doses de febras, uma Coca-Cola e uma água do Caramulo (no final, uma das bicas seria com adoçante). É que nesse dia era dia de cozido, e em salmoura ou não, a casa estava a abarrotar, e o senhor Zé achava-se telepata, ou isso, ou leitor de lábios, como um surdo.
Aquele casal gosta mesmo de febras, dizia o pessoal da tasca na paz do rescaldo dos almoços servidos à base de sal marinho, mas o que eles não sabiam é que nem importava se a carne era tenra, ou sola de sapato, se era saborosa ou sensaborona, o que interessava mesmo era a dose diária de cloreto de sódio que tinha que ser ingerida, sob pena de uns tremeliques e dores de cabeça durante a tarde.
Numa mesa próxima da nossa heroína, num destes dias, em dia de cozido, um casal almoçava com o seu par de filhos. Já estavam bem aviados, pensou ela, olhando para a mais velha, uma miúda doce, agarrada ao calor do regaço da mãe, e um terrorista que teimava em fazer que faz com o hambúrguer que jazia no prato, sentado ao lado do pai. Uma mãe de cabelo curto preto e feições finas desenhadas numa pele branca e um homem com físico de segurança de discoteca, mas vestindo calções de malha. Os opostos atraem-se, lembra-se ela de pensar, sorrindo para o loiro chupado com quem decidira casar.
E como a criança que comeu todas as batatas fritas, mas não tocou na carne picada, implorou por um arroz doce, ela reparou no casal. Arroz doce era a droga, era o melhor da vida, e injustamente a balança laranja e o metabolismo lento como um caracol proibiam-na de se deleitar com o petisco. Por isso, e só por isso, memorizou o casal com o casal de filhos, e depois não se queixe, é que assim não há espaço suficiente para armazenar datas dos aniversários dos seus amigos, mas voltando ao que interessa, todos eles, o casal e o casal de petizes, falavam francês, se bem que o homem de porte de gigante também verbalizava num português sem sotaque.
E isto seria apenas mais uma informação irrelevante, não tivesse o casal francês bisado na tasca da salmoura, desta vez sem o casal de filhos, e não tivesse o destino feito das suas e sentado o casal dos heróis desta história lado a lado com o casal francês.
Nesse dia, 13, por sinal, dia de aparições de Fátima, já se adivinhava algo estranho: não pediram febras e o senhor Zé sorriu com malícia ao gritar o pedido para a copa da cozinha. Infelizmente, a escolha do cardápio, rolos de porco à Mexicana, vinham com pouco sal, mas realmente assustador nessa curtíssima hora de almoço foi que o casal falava francês desta vez expressava-se em castelhano perfeito.
O barulho da sala era estridente, rais'parta mais o cozido que lhe enchia a tasca pacata, era demais para um ouvido direito com uma otite aguda, e de repente, a heroína zangou-se com o seu amor, porque ele foi mau, analisado a frio, até foi bondoso como só ele sabe ser, apenas quis que ela não sofresse se o mundo não fosse o lugar menos mau que ela estava a defender que era, amuou, e conseguiu estar dez minutos sem abrir a boca, ou a abri-la apenas para entrar a carne insonsa.
E nisto, ouviu castelhano ao seu lado direito, da boca do casal que há uma semana falava fluentemente francês. Perdeu o equilíbrio, não sabe se foi da otite, mas ouviu o zumbido que a costuma avisar que está eminente a perda de sentidos, e distintamente, no fundo de uma sinfonia desafinada que pairava naquela tasca, lá da última mesa do restaurante, como se tivesse audição suprasónica, ouviu uma jornalista a falar do cavalo Mister Ed.
Não desmaiou e, das duas uma, ou tantas vezes se abeirou da loucura que algum dia a asa da cantarinha tinha que se partir, ou tem mesmo que se obrigar a comer comida salgada, muito salgada.

quarta-feira, outubro 11, 2006

Uma dúvida que me atormenta


De que marca são os óculos escuros de Kim Jong-ll?

terça-feira, outubro 10, 2006

COR*

Depois de um dia infernal e de uma notícia que há-de fazer rolar cabeças. E olha para a minha cara de satisfação de tramar espartalhões, mas, na verdade, o melhor momento do dia foi a resposta à secretária de
-- E qual é o motivo do contacto?
-- Corrupção.
(silêncio)
-- Peço, então, que transmita o recado.

*Carolina Oliveira Ralha. Tem uma sigla muito mais feliz que a da mãe.

E se Cavaco não vai à Liberdade, a Liberdade vai até ele

Cavaco Silva não vai visitar hoje o Bairro lisboeta que, ironicamente, foi chamado de Liberdade. Cavaco Silva não dá cavaco ao Bairro da Liberdade, mas eu aproveito para lhe dizer que, na Liberdade, há um homem, seu homónimo, ex-combatente do Ultramar, um homem tão doce como eu nunca vi, que me beijou a mão e se pôs de joelhos aos meus pés na esperança que eu lhe desse uma casa onde não tivesse que ter medo que as ratazanas lhe comessem as orelhas durante o sono, porque esta noite, Aníbal Barata dormiu num colchão que partilha com percevejos. Esse homem, senhor Presidente, na assoalhada com pouco mais de seis metros quadrados sem janela onde "vive", tem posters da Amália e també seus - são as personalidades que ele mais admira, e nem que fosse por isso, apenas por isso, o senhor deveria ir cumprimentá-lo e, já agora, se não fosse pedir muito, fazer um telefonema para que este homem deixasse de viver como um animal num esgoto (sei lá, qualquer buffet de luxo do Estado pagaria um quarto e assistência médica a Aníbal Barata).
Se Cavaco não põe um pé na Liberdade, eu levo-lhe uma rua da Liberdade até a si, faço visita virtual a um bairro que os meus olhos não estavam preparados para ver.

[Este trabalho foi publicado no PÚBLICO de 29 de Janeiro. Texto: Diana Ralha Fotos: Rui Gaudêncio]



À espera da Liberdade


A última favela de Lisboa. A primeira também. Enraízada nas costas de Monsanto e aos pés do Aqueduto das Águas Livres. Com vista para o Tejo e para toda Lisboa. Irónica escolha de palavras: um milhar de lisboetas vive em condições idênticas às da Revolução Industrial num bairro chamado Liberdade. Esperam-na há mais de 50 anos.


Um trabalho de Diana Ralha [texto] e Rui Gaudêncio [fotos]


Há coisas que os olhos não estão preparados para ver.

Um milhar de pessoas a viver na companhia de ratos, percevejos, imundice, escombros e entulho. Imagens de Fátima e fotografias de Amália espalhadas pelas paredes, numa espécie de culto, de fé inabalável. Bibelôs, muitos, cisnes, cães, gatos, de vidro ou de porcelana, apinhados em uma, no máximo de duas assoalhadas com pouco mais de cinco metros quadrados.
Habitações que não são mais do que corredores, sem janelas, com as paredes pintadas de cores vivas e salpicadas de bolor. Divisões versáteis e minúsculas, que servem para tudo: para cozinhar, para comer e para dormir.
Sanitas ao lado do micro-ondas, a um canto da sala, aos pés da cama, atrás de um vão de escadas.Por vezes, não existem sequer. A substituí-las, há baldes de plástico no chão, que os seus donos mascaram de sanita, enfeitando-os com tampos de plástico. Depois de cheios despejam-se na rua, nas pias existentes nos pátios. Os lavatórios são um luxo.
Um milhar de pessoas, adormece e acorda todos os dias nestas condições. Liberdade. Vivem num bairro chamado Liberdade. Moram assim desde sempre. A maioria há mais de meio século, mas ainda se encontram anciões que ali criaram raízes há 80 anos, quando o mais antigo e último dos mais precários bairro de Lisboa assentou arraiais e cresceu sem freios nas costas de Monsanto, na freguesia de Campolide. Nasceram, casaram, criaram filhos e os netos na Liberdade. São escravos dela.
Ensombrado pelo Aqueduto das Águas Livres, colado ao pacato e cobiçado Bairro da Serafina, com vista para o Tejo e com Monsanto a enquadrá-lo como uma moldura de vegetação luxuriante, o Bairro da Liberdade é “a última favela de Lisboa”. Quem o qualificou com estas palavras foi António Carmona Rodrigues, na altura candidato à presidência da Câmara Municipal de Lisboa. Não exagerou. Prometeu deitá-lo abaixo. Há coisas que os olhos não estão preparados para ver.
Quando se morre sai-se pela janela num saco

Pátio do Chafariz. Travessa Capela Velha. É apenas uma das ruas de um bairro onde toda a gente se conhece, ajuda e tem sempre as portas abertas, com as chaves na fechadura. Sem medos.
Por fora, lembra uma aldeia, há crianças e velhos nas ruas, cheiros vários, cortinas de renda de nylon e de xadrês colorido. Nada faz adivinhar em que condições vivem os moradores do Bairro da Liberdade.
armen Almeida, 40 anos de bairro e de vida, nunca saiu daquele pátio. Mudou da casa do pai para a do marido. Transportou os seus pertences para apenas duas portas ao lado. No seu T1, ao qual se acede por um corredor escuro e umas escadas a pique que teimam em ceder e pregar rasteiras, moram três pessoas. Tem água em casa porque fez as obras à sua conta. A sanita está ao lado do micro-ondas, numa cozinha improvisada em pouco mais de três metros quadrados.
Esta mulher de coração frágil, recém-operado, está inquieta. A sua sogra regressa do hospital amanhã, segunda-feira, com uma perna amputada. Carmen sabe que a idosa não mais irá sair do buraco a que ali se chama casa até ao dia em que fechar os olhos para sempre. Desabafa, enquanto desce um vão de quatro degraus com a largura de não mais de cinquenta centímetros: “Quando se morre aqui, sai-se num saco de plástico pela janela. Não se sai num caixão”.
Voltando aos vivos. Número da porta 71 A. Aníbal Barata, olhos verdes, muito doces, voz de candura infantil imputada à demência. Um quarto. Sem janela. Um cheiro que se entranha na roupa, na pele. A porta abre-se, não abre toda, só o suficiente para entrar um corpo de lado. Não abre o suficiente porque o quarto é exíguo, a porta bate numa cama onde se acumulam pilhas de lixo, tralhas diversas. Percevejos.
Lá dentro, como um animal e rodeado deles, sobretudo de ratos, vive, desde 1965, um ex-combatente da guerra colonial. Serviu em Angola. Está reformado por invalidez. Enlouqueceu. Está entregue à bondade dos vizinhos e da irmã, que mora uma ou duas portas à frente. Aníbal Barata gosta de Amália, há fotografias e cartazes da fadista na orgia de parafernálias várias que colecciona no seu quarto: “Quem não gosta de Amália não é português”, diz. Gosta de Cavaco Silva também – está um exemplar da revista “Homem”, em grande destaque, aos pés da sua cama. Quase não se vê parede. Aníbal pendura espelhos, posters, demasiada informação para a retina. Ao centro, uma imagem do sagrado coração de Jesus diz, em letras garrafais: “É preciso orar”.
Dez passos à frente. Fim de um pátio do bairro da Liberdade, onde crianças brincam com cães de raça (um pittbul, um caniche, um yorkshire terrier e um lulu da Pomerânia) e pardais chilreiam nas gaiolas pregadas às fachadas das casas. É um pátio cheio de flores e de couves, plantadas por Eva Duarte e que, afiança, já renderam duas sopas este ano.
No fim do pequeno pátio, numa habitação prestes a desmoronar-se, sem telhado, sem reboco nas paredes, apenas tijolos unidos com cimento, mora Francisco Sousa. Aos 49 anos está desempregado e sem direito à prestação social do rendimento mínimo garantido. Este homem, de enormes unhas e gengivas pueris, não tem como se proteger do frio e da chuva. Não tem casa de banho ou cozinha. Sobrevive de biscates e da ajuda dos vizinhos.



Grafitti para esconder o bolor

Os moradores abrem, sem vergonha, as portas das suas casas. É assim em todo o bairro. O asseio é a norma. Ana Isabel mora na Liberdade há apenas três anos com o marido. São ambos muito jovens, já têm um filho com três anos, que dorme num colchão encostado à cama dos pais. São os vizinhos da frente de Francisco e recuperaram a braços uma barraca idêntica à sua. Lutam contra a humidade. Escondem-na, no quarto, com cortinas de renda, com cachecóis de clubes de futebol e posters de ídolos musicais. A humidade não se vê, mas sente-se, entranha-se nos ossos. Na sala, com pouco mais de quatro metros quadrados, desistiram, é uma luta inglória, optaram por um tromp l’oeil, camuflaram o bolor das paredes com um grafitti.
O cenário repete-se naquele pátio, em todo o bairro.
Existe uma tentação forte de verificar, à cautela, na agenda em que ano se está. 2006,1906? Oito pessoas a morar numa habitação que tem um quarto esconso enfiado no sótão, uma sala que também é cozinha, e uma divisão sem janelas, com cerca de cinco metros quadrados, onde dormem quatro pessoas de noite. Um filho de 21 anos, e um neto pequeno a dormir ao lado dos pais e avós.
Um quarto e uma sala. Mínimos. Não há cozinha, nem casa de banho. José Cardoso, setenta anos de boa figura, sobretudo de bom corte e boa fazenda, viveu sempre sozinho. Na companhia de imagens de Fátima e bibelôs do Benfica. “É só miséria”, desabafa, mas volta atrás, quase com vergonha do sacrilégio que a sua boca acabou de reproduzir: “Posso-me dar por contente. Há pessoas aqui no Bairro a viverem trinta vezes pior.”

qui é tudo boa gente

Todos gostam de viver no Bairro da Liberdade. Garantem que não há desacatos, insegurança, admitindo, porém, existir algum tráfico e consumo de droga no bairro. Não se encontra ninguém, que algum dia, em meio século de vida, tenha sido assaltado no bairro.


A noite cai, a ponte 25 de Abril e o aqueduto iluminados compõem um cenário de beleza invejável e, lá em baixo, no Eixo Norte-Sul e na Avenida de Ceuta, os carros seguem em fila indiana sem supor que, ali tão perto ,há um vórtice temporal que faz recuar tempo até ao início da revolução industrial.
Quase todos querem permanecer encostados a Monsanto e ao Aqueduto das Águas Livres, com vista para toda a cidade. Sonham há décadas viver com um pouco de dignidade, mais como pessoas e menos como animais. Muitos perderam já a esperança e também a conta das vezes em que abriram as portas das suas casas, sem vergonha, ou escondendo-a o melhor que sabem, e escutaram as promessas eleitorais, nunca cumpridas, de uma vida melhor.
Mas ainda há quem acredite. A anciã Hermínia Tasso, octogenária, tantos anos de vida como de bairro, sabe que já não vai ver o dia em que a liberdade vai chegar: “Já não vou ver. Mas fico contente por saber que vão ajudar quem precisa. As pessoas merecem, são todos boa gente, acodem-se uns aos outros”.
Com apenas dez anos, Sara Ramos, muitas sardas no nariz, acalenta este sonho: “Tenho muita gente com quem brincar, tenho tanta gente para conhecer aqui no Bairro. Só precisamos de casas melhores. Moramos em buraquinhos que até dão para viver, mas gostava mesmo era de ter um quarto só para mim”, desabafa, entre suspiros e um sorriso envergonhado, à porta de uma das muitas mercearias do bairro para onde vai brincar depois de chegar da escola.

terça-feira, outubro 03, 2006

DOR*

Eu tenho cortinados beringela nas janelas do quarto, de onde vejo uma nesga da Duque de Loulé; são reles, de polyester, translúcidos como os vestidos de cerimónia das fadas, e eu pensei, durante muito tempo, que através da escrita talvez eu pudesse contar tudo: a forma como as duas cortinas de tecido altamente inflamável (se lhes deitar fogo, elas desfaz-se numa lágrima; eu gostava de poder escrever sobre isto, também) se unem, e como dessa sobreposição se formam uns ziguezagues em tudo semelhantes ao efeito televisivo de uma camisa às riscas; o ronronar rouco do gato de 233 gramas debaixo da cama; o chocalhar do espanta-espíritos lá fora e a hera moribunda em cima da floreira de Alegrias da Casa que já não têm mais força para me dar flores todas as manhãs.
Eu pensei que tinha nascido com este nome, e que apenas por isso, grandes desígnios me esperariam pela frente, a toda a hora, sucediam-se ao longo da passadeira vermelha - que eu diria encarnada -; aliás, eu pensei que o meu destino me caía em cima da cabeça, da mesma forma que me acontecem outras coisas extrordinárias todos os dias, eu achei que era destes dedos que ia sair algo que me tornasse só um bocadinho imortal, eu pensei - aos 28 anos de idade, vejam lá - que há magia em todas as coisas inanimadas, que as árvores não são só árvores e que as casas não são só tijolos, telhas e janelas.
Se calhar, o meu destino é roubar azulejos de fachadas de prédios que têm licenças de demolição penduradas à janela. Sou, neste momento, uma mulher sem fé, a poesia provavelmente morreu, porque o Santo Expedito não quis os meus cabelos, nem a Teresinha, junto ao altar da Basílica dos Mártires, deita uma lágrima por mim, sob o olhar atónito do cónego.


*Diana Oliveira Ralha

segunda-feira, outubro 02, 2006

Banda sonora

Já disse isto ao chefe, numa manhã em que quando ele chegou já ia eu no meu terceiro café grátis (por enquanto, aproveite-se o café enquanto ele dura, enquanto ele não tem questões de redundância para resolver no quarto piso) e quarto Davidoff fumado despudoradamente a um canto de uma redacção deserta.
A vida devia vir com banda sonora.

Ele chegou e perguntou-me pela performance do Ipod 30 Gygas que os malucos dos meus amigos decidiram oferecer-me no dia 22 de Julho, e eu respondi-lhe:

– Chefe, eu nunca tinha sentido a Fontes Pereira de Melo como senti esta manhã.

E depois percebi que ele não estava a seguir o meu raciocínio e expliquei-me melhor: – É a cidade, T, a cidade dói-me menos com a banda sonora certa.

Nesse dia, era Tiersen, pianinho do Good Bye Lenine e tudo pareceu perfeito: a bófia na esquina da António Augusto de Aguiar a guardar os operários que estavam armados em toupeiras dentro dos esgotos, as casas-fantasmas que só eu miro e admiro, até o Hotel Sana com a sua loja que vende galos de Barcelos e nossas senhoras de Fátima cujo manto é meteorológico (e vocês não podem imaginar o quão perfeita é a banda sonora sob a qual escrevo estas palavras, e por cima do som de anjos, e de espantas-espíritos feitos de pedacinhos de vidro, eu oiço os meus dedos a martelar, e parece mesmo que esta percussão doida faz parte da música) pareceram-me sublimes, e sou capaz de jurar que se pôs um céu de milagre quando atravessei a rua por um amaranhado de carros parados à espera, pacientes, de cehgar a sua vez de entrar na rotunda que está guardada por um leão.

O Ipod estava na mala quando, pela primeira vez e descaradamente, infringi a lei, não esquecerei, já tive um termo de identidade e residência por um crime grave que não cometi, queixa do outro que me fode o juízo de três em três semanas (quem mais poderia, não é?), e tudo me diz que sou capaz de me viciar nisto como em qualquer outra droga (não me deixem entrar no casino, por favor, é um pedido).

Ele viu-me as mãos a tremer, e até tirou uma foto das minhas bochechas rosadas, prestes a explodir, e o peito muito para fora, parecia três quilos mais magra, quase não respirava, e sussurava, os olhos nem pestanejavam e a voz saía com um tom que nunca se tinha ouvido. Na rua de baixo, o João pensava que eu já tinha ido presa. Quatro avenidas a seguir, a minha mãe de alerta máximo, prevenida de que, se calhar, teria que ir à esquadra, pagar a caução.

O Ipod ficou na mala, não era preciso: a vida decorre em película, às vezes com uns planos e argumentos muito maus, mas desta vez, os heróis da trama estavam bem iluminados, e os diálogos, ou a falta deles, prendeu os olhos de todos à tela, naquela tarde, as vacas foram a leilão na pala do Siza e dois seres descobriram um propósito na ausência. Esta era a banda sonora.

sexta-feira, setembro 29, 2006

quinta-feira, setembro 28, 2006

A casa de onde não chegaram a sair dragões*, nem a entrar pombos pela janela


A questão é apenas esta, e à qual não vou responder, nem vou contar esta incrível história, pelo menos, enquanto o Da. não a for ver como só ele sabe ver, enquanto não ma trouxer em formato digital, para eu a poder guardar para sempre. A questão é tão somente esta: pode uma casa, uma casa, sim, é isso mesmo, são quatro paredes, e estas são de tabique, são telhas lá em cima, para que o mundo não nos caia em cima da cabela, são azulejos, portas, estuque, falo apenas de uma casa, pode uma casa pedir socorro? E, pior, pode uma casa pedir socorro em sonhos, e abrir todas as suas portas para que eu já a conhecesse, para que eu, já acordada, a acudisse?
E só pela Lyra, eu mostro os tesouros que uma casa, sim, que uma casa, me deu. A obra de Francisco Rodrigues Madeira saiu do lixo. O senhor António deu-me uma cadeira de baloiço e duas paletas de aguarelas. Mas eu resgatei quem as usou há cem anos atrás, quem foi deixado para trás. Eu já estou habituada a ter os mortos de ninguém a fazerem-me companhia. Esta casa já pode morrer em paz.

Eu não falo mais, espero as photos do Da. Para elas falarem também. Vamos fazer magia neste blogue.





*Alguém há-de entender o título, se acabar por sair um obituário que escrevi para o pasquim onde continuo até à data a não ser dispensável, apesar de me estar sempre a queixar que só me pagam 4,54 euros à hora.

** o Beta Blogger não me deixa postar mais fotos, querida Lyra.

Porque é de três em três semanas que o indivíduo me fode o juízo

Lá vamos nós para Tribunal outra vez. Veremos se desta, ele fode o juízo à juíza.

(mil perdões pelo palavreado; mas qualquer malfeitoria que eu tenha feito nesta, ou noutra vida, só pode estar absolvida depois de um infeliz encontro de dois seres neste planeta que, sem qualquer explicação científica ou mesmo "isotérmica", deu um ser lindíssimo, de olhos azuis pestanudos)

quarta-feira, setembro 27, 2006

Prenúncio

O gato laranja, de duzentas e trinta gramas, que habita em Santa Marta, acaba de urinar em cima do Semanário Sol.

segunda-feira, setembro 25, 2006

Este blogue não morreu,

parece que está na moda, deixá-los ao abandono, até que as estatísticas confirmem e atestem o seu óbito (o querido FTA emudeceu (eu linko-o hoje, porque isto pode funcionar na blogoesfera e no Sitemeter como o choque eléctrico de um fibrilhador automático externo no peito de uma pessoa em paragem cardiorespiratória) e eu ainda choramingo, já sem falar do mano Trafuncas por quem ainda solto um pouco de baba e ranho na voltinha matinal pela blogoesfera - foram todos para o Sol? Agora é lá que se fazem os blogues???).
Mas não, não morreu, está bom de saudinha, roliço e com rosto trigueiro, apesar de se vestir sempre de preto - é porque emagrece. e porque a cidade está cheia de pequenas mortes - e eu quero-vos contar mesmo isso: uma história de abandono. A cidade está cheia de pequenas mortes, repito o que escreveu um blogger que não ouso citar, ou então que se lixe, mais cem visitantes, menos cem visitantes, ele nem vai reparar, e é mesmo verdade, assisti hoje a uma morte anunciada e, por isso, tenho uma cadeira de baloiço de madeira no quarto e uma paleta de aguarelas dos anos 50 na chaminé da cozinha encarnada. E não é que não tenha os dedos cheios de vontade, de raiva, e de um tremelique ansioso que já não sentia há muito tempo, mas o Apple Ibook de onde escrevinhei, em tempos, sem parar, até as mais altas e pouco saudáveis horas da madrugada, está ocupado por alguém que coloca o jantar nesta casa, nos quinze dias do mês em que a minha fralência técnica me faz ganhar uma média de 0,33 cabelos brancos por dia.
Por isso, calminha que eu já volto. (São quase onze da noite, ainda não se jantou, a pequena toma banho na assoalhada laranja, trabalhei onze horas, o fantasma do despedimento é mesmo assim, e eu já posto, não tarda, uma foto das aguarelas e da cadeira que um morto me deu.)

sexta-feira, setembro 22, 2006

O dia começa melhor

Quando à espera no Gmail está uma orgia de comentários do Goiaoia.

Depois há o silêncio da redacção vazia - sem telefones frenéticos, sem folhas vomitadas do porta-aviões que é a fotocopiadora, fax e impressora laser, cujos segredos de funcionamento estão muito bem guardados e acessíveis apenas a quem tirou o doutoramento na Xerox - e o vinil do chão ainda muito limpo, os caixotes do lixo vazios, os cafés e os cigarros sorvidos de enfiada até que alguém chegue para eu dizer bom dia (chegou o senhor Onório com as revistas da Sonae, de como somos um grupo socialmente responsável, sustentável e blá, blá, blá; demora a dizer bom dia, o senhor Onório, e, num instante, fico com medo de não existir, de ser um sonho de outra pessoa, que acabou agora mesmo de despertar), é o cortar a fita de plástico que une a jornalada da minha secção ("estas tretas das revistas que vocês deitam logo fora", diz-me o senhro Onório zangado, e depois acrescenta "e fazem muito bem!", e afinal existo e respiro de alívio), e é mais um dia que começa e eu vou ler o 24 Horas.

quarta-feira, setembro 20, 2006

O que mais me custa

O que mais custa não é sair da cama, a horas que, há tão poucos dias e durante tantos anos, não convenceriam as pestanas a desenroscarem-se umas das outras, nem à custa da promessa da visão de uma das maravilhas do mundo. A rua de Santa Marta acorda mais cedo que eu, sei-o bem, e madrugar não é o que me custa, não me queixo, quase todo o mundo acorda mais cedo que eu, que moro por debaixo dos pés do marquês e do seu fiel leão amestrado.
Durante nove meses carreguei nos olhos noites brancas, e ouvi a minha rua a despertar para mais um dia de trabalho, de alegrias e tristezas pontuais sem hora marcada nos ponteiros do relógio. A minha rua acorda quando o sol e os galos ainda preguiçam e ouvem-se vozes de todas as línguas menos daquela que eu sei decifrar. Depois há os polícias, vão e vêm, de e para a esquadra emblemática que nunca está de portas fechadas, mas fazem pouco barulho, pegam no trabalho e largam o trabalho em silêncio, não percebo bem porquê, mas honro o acordo informal entre civis e autoridades do trânsito, que permite aos residentes toda e qualquer espécie de estacionamento selvagem no perímetro da rua de Santa Marta com o Largo de Andaluz e até ao Largo das Palmeiras, segunda fila, por cima dos passeios e, com jeitinho e dois minutos de conversa com o porteiro, até nos dois lugares reservados à Judiciária, cujos agentes almoçam sanduíches na baiuca da D. Beatriz, que os chama respeitosamente de “doutores”.
Não custa entrar às nove e sair as cinco, não custa sair da cama antes das oito da manhã, e só custa um bocadinho a poluição que se entranha na pele, logo pela manhã cedo, na Duque de Loulé, e é um pouco desagradável a poeira que me suja o cabelo das obras do túnel do Marquês, Fontes Pereira de Melo acima.
O que me custa mesmo é não estar na redacção à hora que a Dona Maria chega para lavar as casas-de-banho deste edifício. Deixo-lhe, religiosamente, o 24 Horas em cima do teclado, com um post-it amarelo com qualquer coisa simpática rabiscada, mas acabo por não discutir a manchete do tablóide-bíblia com mais ninguém, não tenho ninguém para falar das as parvoeiras do dia, não oiço queixas do reumático, não debito lamentos sobre os meus joelhos e isso custa, custa mesmo.
A Dona Maria é a melhor coisa deste jornal.