quarta-feira, novembro 07, 2007

O calcanhar (uma espécie de carta para ti)

Não julgues que já não me dói o passo, que nunca mais me vai doer o passo, às vezes esqueço-me de trazer pensos na mala, o calcanhar fica esfolado, e vou a mancar pelo caminho.

Sabes, a Sílvia já não é loira, mas até já há quem nem se lembre de que, em tempos, a Sílvia já foi loira.

O presidente do banco fazia o seu melhor, tentava refrescar-me a memória à força, dizia, não podia ser mais gráfico – aquela jornalista ruiva que estava à minha frente –, e eu olhava para cima à espera que a nuvem desenhada no céu me revelasse o rosto da jornalista ruiva, olhava para cima como aquela outra com quem jantei debaixo de um tecto desenhado pelo Keil do Amaral, que falava, falava, tagarelava como poucos, mas não me olhava nos olhos enquanto dialogava sobre banalidades com fervor, fixava os olhos verdes no tecto, como se estivesse a falar com Deus, ou talvez com o fantasma do Keil do Amaral, eu meses depois fazia o mesmo, franzia o sobrolho e depois olhei para cima como ela, na esperança de me lembrar da ruiva (eu sempre adorei ruivos, como não me lembro de uma jornalista ruiva?), e só depois percebi – a Sílvia já não é loira; é ruiva.

Mas eu nem reparei, porque para mim, a Sílvia vai ser sempre loira. O que ninguém repara, o que provavelmente ninguém reparou, porque é uma pequena disrupção da realidade aparentemente irrelevante, coisa da moda, é que a Sílvia já não traz na mão direita o cachucho de ouro branco com uma pérola reluzente de que eu tanto gostava.

Todos mudámos, e a cor do cabelo da Sílvia é o lado menos visível e menos chocante de toda a mudança. Eu estou à direita do presidente, e à minha frente estão os meus amigos, eu não estou ao lado deles, e na sala do hotel de cinco estrelas perco a manhã a contemplar tudo o que mudou.

A maçã-de-adão do Pedro continua nos seus rodopios, aquilo fascina-me verdadeiramente como poucas coisas, a João já não tem um dente encavalitado, mas eu revejo de soslaio no rosto o mesmo sorriso de boneca de porcelana com que ela me recebeu no dia em que me ensinou a fazer as páginas da bolsa do jornal de referência. E a Sílvia já não traz no dedo um pedaço do fundo do mar. Ah, sim, já sabes desde o segundo parágrafo – é ruiva.

Não julgues que eu perdoo tudo o que me aconteceu, que compreendo e aceito o meu destino, e que não nunca mais me dói o passo, que nunca mais me vai doer o passo.

Eu só queria aprender a tocar piano, era capaz de jurar que desta vez nasci só de propósito para tocar piano. Se quiseres, eu canto-te as mil canções que sei de cor, eu embalo-te baixinho até se pedires, mas só não me perguntes como é que eu sei tantas músicas de cor, porque eu não te sei explicar, não te sei explicar que tudo faz sentido para mim.

Mudamos milimetricamente todos os dias. A Sílvia já não traz o anel no dedo direito, a João já não tem o dente encavalitado, o Pedro até já é editor, a tua barba, eventualmente, sufocou-te mais um bocadinho (eu trago na cabeça que essa barba te mata lentamente; se ao menos fosse tudo tão fácil como cortar a barba). Mas não me digas que eu sou outra, lá porque estou ao lado do presidente.

Continuo a chorar baixinho sempre que um prédio vai abaixo – porque os prédios, e tu sabe-lo tão bem quanto eu, não são só prédios. Eu contei-te a história do prédio que me chamou durante dias a fio, e eu a pensar que estava louca, porque os prédios não têm voz, e quando tu partiste a janela, escondido pela glicínia, enquanto umas vacas coloridas eram licitadas no Parque das Nações por seres perturbadores que desembolsaram milhares de moedas de euro para exibirem uma vaca nos quintais das suas vivendas geminadas, sabes bem como eu tremi quando abriste a porta debaixo do caramanchão, e como eu já conhecia todos os cantos de uma assoalhada onde nunca tinha entrado.

Tu devias saber que eu sofro por cada telhado desmontado, por cada pedaço de entulho no contentor, por cada pedido de informação prévia que entra na Câmara, porque as casas não são tijolos e tabique, não são telhas e madeiras, são pedaços de nós, e sempre que uma casa morre, morre um pedaço de alguém, uma memória que vai a incinerar no Alto de São de João dentro de um caixão de pinho barato; no fundo, todos nós morremos um bocadinho também, uns mais do que os outros, sempre que a cidade muda, e a cidade, tal como nós, e sobretudo por nossa causa, não está em paz.

Eu já guardo milhares de canções em mim, eu guardo as minhas avós em mim, e agora atafulhei tudo, desarrumei a casa toda para me caber o meu pai também, eu só não sei quanto mais canções é que eu posso guardar, quantos mais telhados e fachadas eu consigo trazer em mim – por isso, não julgues que já nunca me dói o passo, como é que não me havia de doer o passo, eu trago tanta coisa em mim, e por vezes não tenho pensos na carteira, e o calcanhar fica esfolado e eu vou a mancar pelos dias fora.

A Sílvia já não é loira, e eu, de facto, já não te envio sms esquizofrénicos, profundos, eu tenho medo dessa palavra, sinto vertigem só de a escrever, quando era pequenita chorava só de ouvir a palavra esqueleto, e profundo, e profundezas, dão-me vontade de chorar.

Vê lá tu como as coisas mudam, um ex-ministro da nossa República, com quem o meu avô fez a reforma do sistema educativo no Robalo (quando as árvores do Robalo eram mais pequenas que a Carolina), repete baixinho, fracções de segundo depois, o discurso de um líder empresarial, voltou a ser criança, sem sonhar que eu reparei na brincadeira. Isto é tudo o que mudamos durante uma vida inteira.

E eu sei de cor milhares de canções, e sei reproduzir também o momento em que gritei pela primeira vez socorro, se quiseres até te digo quando aprendi o que era jurar, ou como fiquei envergonhada, com nove anos, por não saber no último teste de português do primeiro período o que é que era imolar. Ou posso contar-te quando era muito pequenina e descobri o que era a polifonia, e dizer-te que, desde então, nunca mais ouvi a música como um todo.

Dói-me o passo.

Somos camadas, como as músicas. Fazemos sentido como um todo, mas eu só vejo, e só oiço as partes, os detalhes, as pequenas coisas extraordinárias – diz-me quais são as possibilidades de duas pessoas que mal se conhecem, mas que trabalham para o mesmo patrão, sonharem, ao mesmo tempo, com o bacalhau à braz do restaurante Andaluz? Como é que eu não hei-de andar enamorada pelo raríssimo extraordinário?


Eu estou sentada ao lado do presidente. Do lado direito. Falo de obrigações hipotecárias e obrigações permutáveis, até já sei qual é a diferença entre elas, caso alguém queira saber, e tagarelo sobre turbo warrants na pausa do cigarro, mil milhões para aqui e para acolá, se bem que ainda tenho a lata de contar ao inglês com quem falo religiosamente às terças e às quintas-feiras dos milagres operados pelo fantasma da rainha D. Estefânia nos corredores do hospital pediátrico.

Eu continuo a mesma, mesmo que já não te envie sms perturbadores, mesmo que este blogue seja actualizado numa base mensal, a que tem ressentimentos cósmicos com o destino que não se há-de cumprir, a que se diverte a decompor a melodia que toca o oboé, e que por cima dele ouve o clarinete, e que sem esforço algum ouve os ferrinhos e o quinteto de cordas, a que chora nos concertos porque não suporta a beleza da união das coisas.

E, por vezes, não trago pensos na carteira, e levo o calcanhar esfolado pelo caminho.

15 comentários:

maria inês disse...

Olá Dia!
Pelo menos aqui sinto os jacarandás a renascerem...devagarinho, devagarinho, mas a renascerem.
um beijinho

Luis Eme disse...

Adorei a carta...

vou responder, logo que possa... provavelmente menos inspirado...

Anónimo disse...

alegre surpresa a da escrita que aqui já era saudosa. é uma página viva que amplifica coisas simples tornando-as memoráveis.

Ivone Ralha disse...

Muito bonito, prima. Comovente... Estás bem?

Dia disse...

Que saudades tuas, minha querida prima, mãe da outra Diana Ralha :)

Eu estou bem. Estou mesmo aqui do outro lado da rua. Se combinarmos, vamos as duas à janela e dizemos adeus...

Não sabia que passeavas nestas tralhas... Obrigada.

Carrie disse...

... o costume...

Anónimo disse...

Nunca tinha pensado porque a música faz chorar... "[...] a beleza da união das coisas." É. É mesmo por isso. Obrigada, por esta visão. De repente, tudo ficou claro.

Que saudades da tua escrita!

Um beijinho!

AnadoCastelo disse...

Menina que é feito de ti? Estás a escrever muito pouco. Falta de tempo? Julgo que sim. Fazes o favor de aparecer?
Jokas para vocês

Anónimo disse...

Quem é a Sílvia?

Anónimo disse...

O primeiro ano sem sanchas. Até os montes mudam.

Mary Mary disse...

Ai mulher, tu tens o dom de me arrepiar... Safa! Cada palavra tua tem uma musicalidade, cada parágrafo é um concerto. Choras enquanto ouves um concerto, e eu dou por mim com lágrimas nos olhos e algumas vezes a chorar pelo que tu escreves... Apenas te posso mandar um grande beijinho e esperar que tudo corra bem para ti! :)

Um beijinho para a cabeça loira que deve estar enorme!

Alura disse...

Gostei de ler o teu blog.
Tenho uma sugestão para te fazer.
Visita-me em http://prazer2sexo.blogspot.com/
Obrigada!

ContorNUS disse...

E X C E L E N T E !!!

Eu disse...

Linda, como tu!

da. disse...

..'de mansinho'..dissemos naquele dia..