quarta-feira, fevereiro 07, 2007

O cavalinho da chuva

Tirem o cavalinho da chuva, todos os que lêem esta gaita e que partilham o mesmo edifício com vista para a Andrade Corvo: ninguém, nem mesmo os sindicalistas deslumbrantes, legalmente protegidos no próximo biénio pelo estatuto de delegados sindicais, mas mesmo ninguém nestes milhares de metros quadrados pode respirar bem fundo – e não podem mesmo respirar fundo, porque a qualidade do ar, apesar de ninguém fumar despudoradamente como antigamente, é do piorzinho que já se viu, regrediu aos tempos de umas instalações na Quinta do Lambert cobertas de material radioctivo, metem 70 tipos onde havia 40 o que é que querem? –, ninguém pode miraculosamente deixar de roer as unhas por causa do nervoso miudinho, ou de sentir borboletas nocturnas no estômago encandeadas por um holofote de mil watts sempre que o telefone toca, não pensem que ninguém vos vai chatear porque o vosso salário é uma migalha, ou que não vos vai sair a rifa porque são caladinhos de natureza e nunca levantaram ondas; pior, não se sintam protegidos pela graça do divino espírito santo lá porque são engraçados ou porque há tempos caíram em graça; por favor, nem ousem planear o nascimento de um filho ou mesmo trocar de carro.

Olho para a esquerda e está a filha do grande engenheiro. Olho para a direita e está o britânico pago a peso de ouro de 19 quilates que decidiu que o logótipo do meu jornal passa a ser um P vermelho. E se olhar para trás lá está o meu presidente. Passam o dia fechados na sala envidraçada com a vídeo-conferência ligada.

Ninguém sabe o que tanto discutem, porque é que tanto reúnem.

A cena repete-se. E mesmo depois de se repetir 63 vezes nos últimos três meses não deixa de doer assistir às lágrimas de quem vê a dedicação de quase duas décadas de vida reduzida a um cheque do BPI.

Ninguém está a salvo.
Hoje eu soube que ninguém está a salvo.

2 comentários:

AnadoCastelo disse...

Só agora descobriste? Háa muto que este jornal anda assim. Ninguém está a salvo. Isto é só para alguns. Mas deixa lá eu sempre ouvi dizer que há mais marés do que marinheiros. Veremos.
Beijokas e as melhoras querida

Heibelha disse...

ai valha-me Deus. Quem foi despedido agora?