domingo, setembro 17, 2006

O Professor de Filosofia VI (acho eu, já lhes perdi a conta)

Previously, em O professor de Filosofia:

O Professor de Filosofia recolheu, uma a uma, as fichas de alunos já preenchidas, percorrendo como numa marcha militar, as cinco filas de carteiras

Estragou o almoço dos alunos da Ameixoeira. Escrevam numa folha e entreguem-me a resposta a: O que é pensar?


Ainda bem que pergunta, estava a ver que nunca mais, estranhas as coisas: faz-se tanta pergunta vã, de que marca são as tuas calças, qual é a cor desse verniz, já emagreceste quantos quilos, e esta, tão premente, ninguém a faz, certamente depois há um problema de sobreaquecimento da resistência que carbura na mioleira e é uma desgraça, é que não é fácil a resposta a esta pergunta, mas podia-se tentar, não é, e eu às vezes faço perguntas que são óbvias como esta, e depois, riem-se de mim, mas ainda assim, eu não desisto, não me conformo, mas aprendo, a cada dia que passa, a estar calada e guardar estas coisas em mim, até que me apareça alguém que sinta o mundo como eu o sinto.
Porque é que o maestro não usa batuta, perguntei eu, aos seis anos, naquela que foi a minha primeira visita de estudo, ao Maria Matos, não para ver teatro, mas sim, para ouvir Beethoven. Riram-se. Porque é que o ar que bafejo para cima das minhas mãos, nas manhãs geladas que me cortam a respiração, mas que a trazem de volta quando saio de casa e há orvalho nas folhas do rusgo, é quente, e porque é que o mesmo ar, que sai da mesma boca, mas quando o sopro, é frio e me arrefece a sopa?
Até hoje, ninguém me soube responder, provavelmente também não será o professor que me vai tirar esta dúvida, mas por favor não se ria de mim.

(sem dar por isso, chamou-lhe professor. Sim, chamou-lhe, mesmo que tenha sido a tinta permanente, na folha de papel rigída da marca Ambar – só a Ambar produz papel de cem gramas por metro quadrado. Não há chamamento mais forte do que aquele que é feito por escrito. Eu chamei o senhor 50.000 por escrito, neste blogue escuro, cujo layout já precisava de um bafo quente de mudança; ao acaso, tivesse eu gritado pela janela o seu nome, teria ele vindo como veio, por debaixo de uma roseira de santa Teresinha com mais de cinco metros de altura? Pois não... por isso, muita cautela com o que se escreve, e mesmo muita, mas muita prudência com aquilo que se deseja, porque, certamente, se realizará. Professor ficou, desde aquele instante, apesar de ele ser, na altura, demasiado novo para ser professor, mas ela não sabe se foi das bexigas que lhe marcaram a cara para sempre e que lhe davam aquele ar duro, se foi do cabelo impecavelmente penteado ou do colarinho engomado. Aquele não era um setôr, era um professor e, da mesma forma, que ela sempre soube que algo incrível iria acontecer à 50.000ª visita deste blogue, também teve a certeza que aquele jovem professor de filosofia seria uma espécie de gurú, o seu primeiro mestre nas lides de como ser melhor, um pouco melhor a cada folha do calendário que se rasga)

Professor (repetiu a palavra, e apercebeu-se da gravidade do que havia feito – a turma toda, sobretudo as da Ameixoeira, iriam troçar, chamá-la graxista, lambe-botas e outras coisas menos aceitáveis, por este chamamento solene. Tanto pior, para eles, pensou, quando precisarem de copiar nos testes faço-lhes um manguito – coisa que ela sempre soube foi que a vingança era prato que se servia acabadinho se sair do pólo norte, e, de quando a quando, no Aki de Telheiras, ela encontra uma tal de Mónica, que pertencia a esse grupo da freguesia da Charneca que, sabe-se lá porquê, foi parar à quequíssima Alvalade, e sorri quando lhe entrega o Visa do Barclays, e tira-lhe, literalmente, as medidas, de alto a baixo, por cima do seu uniforme amarelo e boné ridículo, que lhe faz sobressair a obesidade mórbida que se instalou no seu corpinho outrora número 34), a pergunta devia ser ao contrário, penso eu – interessante, esta minha escolha de palavras, já viu? Penso eu... E o que raio é pensar, pergunta-me, e eu não lhe respondo, lamento, não me apetece.
Estou há oito anos à espera para contar o dia em que eu deixei de pensar, entre uma garfada de açorda e o olhar perdido num feixe de projectores de iluminação da pista de tartan do estádio da FNAT (ai, perdão, não sei se leva a mal este revivalismo estado-novista, mas lá em casa não se me permitem exultações ao dia do Trabalhador – ele não levou a mal.)

Sem saber, ela escreveu o seu primeiro post, numa folha pautada de cem gramas por metro quadrado, a tinta permanente sépia, mesmo antes de existir Google, muito menos Blogger.

Soltou o monstro. Até aí, era a miúda que não era magra, mas também não era gorda, que não tinha os cabelos lisos, mas que não os tinha aos caracóis, era a que tinha boas notas a tudo, mas que, especialmente, tinha jeito para o desenho, seria designer, ou estilista, sempre gostou de uns trapinhos, e gostava de costurar, sim, provavelmente, seria designer de moda. As suas composições eram medianas, por vezes, pedia ao seu irmão mais velho, que sempre teve mais imaginação e melhores notas, para inventar umas histórias, é que ela nunca teve paciência para trabalhos de casa, ora são oito horas fora de casa, e ainda mais duas horas de trabalho em casa? E depois, como poderia ela questionar os dados adquiridos do mundo? Não sobraria tempo. Foi aquela pergunta, simples, que alterou tudo, que soltou o vulcão que esteve a aboburar em lume brando oito anos. Desde então, perdeu o jeito para pintar, foi-se-lhe a perspectiva, ou isso, ou vive num mundo com estranhíssimos pontos de fuga, e estranhas proporções. E há quem diga que a blogoesfera foi feita apenas para ela, para ela poder brilhar (e sempre que olha para o statcounter, e espia no technorati os bloggers de referência que a linkam sente que a sua passagem por este planeta já não foi em vão. De certa forma, cumpriu um micro-objectivo de vida e fê-lo à custa do seu trabalho, do seu talento. Isto é mesmo muito importante para ela, ser realmente boa em alguma coisa).

Isto marcou-me muito, ainda não o ultrapassei totalmente – da primeira vez que olhei para a lâmpada do candeeiro de mesa-de-cabeceira do meu tio Zé, e depois vi muitos feixes de luz a serpentearem-se na escuridão dos olhos fechados, também me assustei, tanto quanto desta vez em que parei de pensar, e pensei que cegara, chamei por socorro e a minha avó deu-me uma palmada no rabo e disse-me para não voltar a olhar directamente para as lâmpadas que ainda ficava cega, e eu assim fiz, e nunca mais me assustei.
A expressão corriqueira para descrever o que se passou naquele dia seria “parou-me o cérebro”. Estava muito ruído. Nessa altura, éramos muitos à mesa, e o Hugo não queria comer a sopa e eu recusava-me a abrir a escotilha e deglutir açorda de pão com peixe cozido.

A minha mãe berrava qualquer coisa da cozinha que se eu não comesse, qualquer coisa e tal que deixaria de fazer. A minha avó, no meio de mim e do Hugo, convencia-nos, sob uma qualquer chantagem ou prémio, a comer tudo sem refilar. E eu fixei o olhar na janela, os vidros estavam a precisar de uma limpeza, quinto andar sobre o bairro de Alvalade, uma bela vista, garanto-lhe, o estádio lá mais à frente, o projector de milhares de watts a rasgar o céu, a minha avó com um garfo numa mão e uma colher na outra, e por poucos segundos, um agradável silêncio, tudo parou, até passar um avião que me tirou daquele transe.

Professor, juro-lhe, eu não pensei em nada naqueles segundos. E foi uma paz indescritível. Pena não haver um botão. Por exemplo, agora mesmo, estou de olhos fechados, em concentração absoluta, com imensa vontade de não conseguir pensar. Mas no máximo estou a pensar que não estou a pensar.
Eu acho que são as vozes da consciência. Eu oiço muitas vozes, acompanham-me, são simpáticas, não se preocupe, que não me dizem para cortar ninguém aos pedacinhos com uma faca daquelas que se vende pelo TV Shop. Eu sei que elas não são reais, não sofro de nenhum distúrbio psiquiátrico, sou, verdadeiramente, inofensiva, para mim própria e para os outros. Elas são o meu pensamento. Não é linear. Dá curvas e contra-curvas, daquelas de gancho, em que se reduzem duas velocidades, porque só se vai conseguir vencer aquela sinuosidade em altas rotações.

Eu penso quando algo ou alguém me estimula. E aí tenho rendimentos notáveis, posso ser a melhor desta escola toda. E quando assim é, nem lhe conto, é uma barulheira infernal na minha cabeça, quando estou em velocidade cruzeiro todas elas falam umas por cima das outras e eu só consigo apanhar duas, no máximo três, perco todo o resto do meu pensamento, imagino que seja como ler pautas de música, ler o meu pensamento, colcheias numa pauta, e breves noutra, orientadas por uma clave. As duas, ao mesmo tempo, dão um lindo som, perfeito. Se só apanho uma, sai-me coxo o pensamento. Acontece-me muitas vezes.
Raramente deixo de pensar, de uma forma tão sentida como naquele almoço em que não comi a açorda, e provoquei um ataque de histeria à minha mãe, na cozinha, e arranquei suspiros à minha avó que já estava a ser devorada por um cancro.
Certamente, a vida seria melhor com menos ruído. Sorte aquela dos que não pensam.

(lamento, não consigo acabar o professor de Filosofia ao post 700. E este, afinal, é o quinto e não o sexto capítulo da saga do professor)

5 comentários:

ISA disse...

sem palavras.

é q n exagero, gosto mm mt do que escreves. é mm pra acreditar. este deixou me sem palavras. pronto

Dia disse...

:) está a precisar de uma revisão, mas eu já trato disso; é que agora, chego ao emprego às nove da manhã. Espero aumentar, drasticamente, a minha produção.
Enquanto não se corrigem as (g)ralhas, obrigada, minha querida amiga, por estares sempre por aí

Carrie disse...

Só não tens um layout novo porque não queres...

[muiyo bom!]

Dia disse...

Tenho saudades tuas, Esquizo. Este sábado devíamos ir para a borga!

Goiaoia disse...

Pois, nunca desistas, plise au lorde, nunca desistas.

Mais ou menos a meio julguei que finalmente, pelo menos, revelavas o quem e o porque da importância do professor, e, já próximo do fim, considerei que havias concluido esta (...) saga (dá sempre uma pena quando nos aproximamos do fim de uma estória de que gostamos....).

Tu sabes que gasto amíde palavras arcaicas. E que o faço só porque posso e me dá gosto. No entanto, confrontado com este teu caso, apercebi-me o porquê e o quando chamava "professor(a)" aos ditos cujos: era quanmdo os admirava, quando os entendia como "bons" orientadores, como... ATENTOS, como ... dignos. E, pelos vistos era o caso do teu. Eu tive alguns... por incrivel que pareça só me lembro do nome de um(a): Maria José, nem o nome de famelga sei... Aos outr@s lembro-me por acções e posturas. Mas num é grave. Sempre fui uma merda com nomes.