Terça-feira, Janeiro 31, 2006

Esquizofrenia das coisas pequenas (II)

Chamava-lhe a esquizofrenia das coisas pequenas.
Era um estranho conceito, os cépticos não acreditavam na esquizofrenia das pequenas coisas. Nem reparavam.
Ela explicava assim: "É quando os astros se alinham: Vénus entra em triangulação com Júpiter e Saturno e fica tudo em pantanas, há sangue, há suor e há lágrimas em doses cavalares; é quando o tempo pára aos nossos pés e as mais básicas leis da física apanham um vírus terrível que as corrompe, que as perverte; é uma viagem de ácidos de todos os elementos da natureza ao mesmo tempo".
Era o melhor que podia e sabia explicar. Era pouco, sabia, assim ficavam na mesma, isto era muito vago, podia ser qualquer coisa.
Mas ela não estava interessada em prender o conceito numa folha e registá-lo na Sociedade Portuguesa de Autores, nem tão pouco almejava que entrasse nos registos virtuais da Wikipedia, muito menos daria entrada da patente no Instituto Nacional de Propriedade Industrial. Era, mais uma vez, uma tese louca só sua.
E perseguia-a há muitos anos.
Desde que, uma manhã, estava na casa de banho grande de Viseu - e era mesmo grande, era maior que a sala onde está, neste momento, a tentar explicar o que é isto da esquizofrenia das coisas pequenas -, o seu avô Oliveira tinha tirado os dentes de molho num copo de vidro, o sabonete Patti, da Ach Brito, descansava na cerâmica do lavatório, um pincel de barba espalhava espuma branca na cara do seu avô velhinho, e no chão de mármore, muito frio, surgiaram, do nada, os mais loucos desenhos, ela ficou hipnotizada com os veios da pedra, deixou-se levar por um exercício de imaginação idêntico ao que os sonhadores fazem a olhar as nuvens do céu. Começara nesse instante, na casa-de-banho grande de Viseu, a esquizofrenia das coisas pequenas.
Era disto que falava, daquilo que se estava a passar, neste preciso instante, no chão de tábua corrida de uma casa de quatro assoalhadas na Rua de Santa Marta: o pequeno aquecedor, que estava a um canto a bufar ar quente, como a chofagem do Idea, na viagem de retorno a casa da noite passada, fazia rodopiar, aos seus pés, dois balões, um azul turqueza e um cor-de-rosa, numa dança de roda louca e frenética.
Encantava-se com estas coisas.
Com a vizinha do prédio da frente, todas as santas manhãs a comer maçãs à janela, de lenço verde à cabeça - começava a desconfiar que a vizinha tinha um cancro, que estava a fazer quimioterapia; de um dia para o outro deixou de lhe ver o cabelo grisalho, muito curto, mas farfalhudo, para a ver de lenço verde à cabeça.
Com o lugar de estacionamento à porta do seu prédio, que a aguardava, inquieto, noite após noite, fiel, e não era só o demónio do estacionamento que a esperava de braços abertos. As pequenas coisas tinham enormes braços, aceitavam-na tal e qual como era, cheia de defeitos, com algumas virtudes fluorescentes e raras, viviam apenas para a afagar.
Era o vizinho que chegava na mota de competição, ao mesmo minuto que ela - devia ficar escondido à esquina, à espera de ver surgir, do Largo das Palmeiras, o Idea dos estofos laranja; só assim se explicava que o encontrasse todas as noites e da esquizofrenia doentia dos encontros nocturnos, nascia uma rotina, já esboçavam sorrisos e desejavam-se mutuamente uma boa noite.
Não a largavam, as pequenas coisas esquizofrénicas. Era o leitor 33.333, que a tinha ajudado, madrugada fora, sem a conhecer de lado nenhum, a escrever o texto do Bairro da Liberdade; era as cinco horas que passaram no Princípe Real a esvaziar as memórias das suas famílias disfuncionais debaixo de uma Ficus muito velha, que já viu de tudo nesta vida, que guarda memórias nas suas gigantes raízes aéreas (era ele aparecer na outra janela do computador, mal ela tinha acabado de escrever esta frase).
Era o homem decorativo que a acordava às cinco da manhã, com um telefonema, e em vez de dizer "estou?", começava a ler o post "Tenho um homem na minha cama" com a sua orgásmica voz de rádio, era a sua franqueza e javardice (se ela fosse um homem era como ele, era menos gira que ele, "hoje fodes-me?", perguntava ele outro dia).
Era o brinco de platina que tinha desaparecido no dia 6 de Janeiro, era o responso dado ao Santo António a semana passada, era o brinco a aparecer, por magia, no último degrau das escadas de um quarto andar a pique, as escadas que subiu e desceu, dezenas de vezes, nas três semanas em que a argolinha de platina, que o grande amor da sua vida lhe ofereceu no dia em que completou 21 anos e a pediu em casamento, andou a vadear pela cidade.
Era o sensor do estacionamento a apitar, histérico, a gritar-lhe aos ouvidos que estava quase a beijar o pára-choques do Mercedes branco, que está plantado, há meses, no mesmo rectângulo do asfalto - até já havia ervinhas a rodear os pneus -, era o tinido irritante do aviso de iminente colisão, e era, de geração espontânea, lembrar-se onde tinha enfiado as papeladas do IRS, que procurava desde o final do ano passado.
As pequenas coisas estavam esquizofrénicas em estado terminal. Alucinavam de 33 em 33 minutos. Ela deixou de lhes dar o lítio de manhã, à tarde e à noite, em vez de as acalmar, fazia-lhes caldos de galinha, para se manterem fortes - sabia que, da mesma forma que faziam orgias, desapareciam sem deixar rasto, sem um bilhete de adeus. E era mais feliz no caos esquizofrénico.
E dois segundos antes de nevar em Lisboa, o computador de bordo do seu Idea, apitou e disse: Perigo Neve. Foi dos momentos mais lindos da sua vida.

Segunda-feira, Janeiro 30, 2006

Esquizofrenia das coisas pequenas (I)

Era um estranho conceito.
Mais um daqueles montado em cima de teses feitas de castelos de cartas de copas, que, por sua vez, estavam plantadas sobre estacas podres de bambu, que, por sua vez, escorregavam por entre terrenos movediços.
E este era um post brincalhão. Primeiro quis jogar à apanhada, ela ia a caminho do Marquês, dentro do Idea cinzento escuro, um carro com uma cor banal, que era boa para esconder a sujidade (em quase dois anos de vida, o Idea tomou banho apenas quatro vezes; tinha um estilo de vida medieval, apenas se banhava no dia do seu aniversário - 19 de Março - e no Natal), mas aquele era, apesar do fato escuro, um monovolume com um toque de rebeldia, emprestada na pincelada laranja dos seus estofos - havia poucos Idea em Lisboa, nem o anúncio com o George Clooney valeu à Fiat e ela ficara triste quando a sua mãe não a deixou encomendar o carro laranja com estofos laranja, detestava o facto de o laranja ser conotado com o PSD, tinha uma parede laranja, um sofá laranja onde escrevia posts esquizofrénicos, a casa-de-banho também era laranja, com mosaicos de piscina de cinco por cinco centímetros, mas não a deixaram ter um carro laranja, mas, não era mal agradecida e a cavalo dado não se olha o dente, não se queixou, como se podia queixar?, e a mãe deixou-a ficar com os estofos dessa cor que é feita da mistura do encarnado com o amarelo.
Ia no Saldanha já, o post todo a chegar por telex, daqueles antigos, com fitas perfuradas, vinha a chegar à velocidade da luz e neste preciso momento, o volume do auto-rádio estava a 37 (sempre números ímpares, sempre números ímpares, já sabem como é), ia a cantar, com a pequena loira lá atrás num coro desafinado: "e tu Maria, diz-me onde andas tu? Qual de nós dois faltou hoje ao rendez vous? Qual de nós viu a noite até ser já quase de dia? É tarde, Maria... Toda a gente passou horas em que andou desencontrado" e olha para o lado, tem este vício terrível, está sempre à cata da realidade, não pode andar de transportes públicos porque fica vidrada na cara das pessoas e depois elas perguntam se há algum problema, se têm macacos no nariz ou pedaços de caldo-verde enfiados entre os dentes, era um perigo para si própria, devia saber olhar para os pés, ou ler o Metro, ou um livro de bolso, dormitar, fixar o olhar no infinito, como todos faziam, sem excepção, mas não. Divertia-se a imaginar as vidas maravilhosas dos utentes dos transportes colectivos de Lisboa e um dia queria ir dar uma volta na Vimeca, ou outra qualquer transportadora suburnana com frotas de autocarros com idade para serem suas irmãs mais velhas, queria ver mais gente triste, mais povo, porque o povo da linha amarela não era povo, e das poucas vezes que tinha andado de autocarro também só fazia trajectos pseudo-finos: Marquês-Avenida de Roma.
Olha para o lado e vê uma cara conhecida. Não interessa quem. Mas como é uma desbocada - agora tem que ser menos desbocada; apareceram bloggers de referência no seu quintal que, hoje, só porque sim, tem plantadas hortenses verdes e azuis -, solta que foi um tipo com quem a quiseram amantizar numa passagem de ano, sem pudores, com a cara de cú da namorada a dormir, enjoada, no andar de cima, mas ela trocou o caldo por várias horas ao telefone com o seu primeiro amor virtual, um doutor de Oxford, que estuda as mutações genéticas em drosophilas e outras coisas que tal, coisas que envolvem sinapses, lembra-se ela assim de cor, é muito interessada, e este é um amigo de longa data. Que nunca viu, que nunca vai ver na vida, já o aceitou, mas ao qual ainda não perdoou a ausência telefónica deste Natal.
Mas sorri quando vê o vizinho do carro ao lado, ele não a vê, e é, neste momento, praticamente sufocada pela chofagem do Idea - sempre sonhara escrever esta palavra, nem sabia muito bem como é que se dizia, teve que perguntar ao SGTZ, um dos seus vizinho virtuais, um que, apesar do frio de rachar, tem a janela aberta, escancarada, até às tantas da madrugada. E ainda bem que o fez, porque não sabia se era cofragem ou chofagem, ia optar pela primeira e ia fazer asneira, cofragem é dos edifícios, não é dona arquitecta dos abraços de esmigalhar mamas? E falando em arquitectos, lembrava-se dessa palavra, a "chofagem" dita pela boca do seu primeiro namorado, o "tontinho", era assim que o chamava - nesses momentos, em que ela era má, pensava mesmo que era daquela laia que tão bem descreveu três posts abaixo -, e chamar-lhe "tontinho" era até simpático da sua parte. O moço era muito básico e tinha um incisivo lateral cor-de-rosa, pigmentado dessa estranha cor por causa de uma desvitalização feita por um dentista a martelo, um dentista que tinha consultório na Almirante Reis, em frente ao Independente e ao sítio onde fez a sua tatuagem, um dentista que era amigo do pai do "tontinho", que, por sua vez, era talhante - o pai, não o dentista -, mas toda a gente naquela família tinha dentes cor-de-rosa se calhar o que homem que pigmentava os dentes desvitalizados dessa cor também cortava quartos dianteiros de vacas nas horas livres, lembrava-se bem do aspecto sinistro do consultório, o médico não usava luvas, não mudava as brocas e isto fazia-lhe muita impressão, mesmo muita, mas o tontinho dizia "chofage" e dizia também "lember". Sim. "Lember" - havia uma anedota qualquer, muito porca, que acabava com "lambe-me o caralho", ah, não era uma anedota, era uma história qualquer do Nuno Rogeiro a fazer uma oral na Lusíada, e ele dizia sempre "lembe-me o caralho". Arrepios. Pele de galinha. Era "tontinho" sim, dizia "chofage" e "lember", mas, graças a ele, ela tinha um curso incompleto de arquitectura; fez-lhe as cadeiras teóricas todas - ele mal sabia escrever - e isto era quando ela tinha 16 anos, a sua carreira de depósito de conhecimentos inúteis começara com a arquitectura. Por isso, devia até saber que era chofagem e não cofragem. Estava a perder qualidades. Mas lembrava-se de tanto pormenorzinho escondido que tinha, necessariamente, que deixar cair algumas coisas. Era o caso da cofragem.
Tinha ficado no semáforo, no Saldanha. O post começou a chegar por fax, ao mesmo tempo que por telex. E ela sem poder escrever as frases que se atropelavam umas às outras à frente dos seus olhos, quando os olhos também tinham que estar atentos à mudança de faixa para cortar para o Imaviz.
Era brincalhão, este post. E quando se sentou no sofá laranja para o escrever, com dois cinzeiros de vidro amarelo, que noutra vida foram castiçais, continuou no mesmo registo infantil, quis jogar à cabra cega e depois às escondidas. Passadas algumas horas e muitos John Player Special depois, ela encontrou-o na terceira minhoca do cérebro a contar da direita.

Mas estava cansada. E o texto ia longe da parte que era realmente bonita, da que piscara diante dos seus olhos, no percurso de carro que era igual todas as noites, e que ela tinha enxotado com força com as escovas do pára-brisas.

Doía-lhe a mão e a tendinite de esforço, que lhe tinha sido diagnosticada há uns meses, estava assanhada. Pela primeira vez, ia cortar um post ao meio, fazê-lo em capítulos, reivindicação de muitos leitores preguiçosos, que desistem aos cinco mil caracteres. Não estava contente com essa decisão. Não fora reflectida, fora imposta pela mão. E, como tinha falhado, prometera a si própria nunca mais ficar 24 horas sem escrever. O Ibook tinha uma bolsinha janota em neoprene, tipo boxeurs de lycra, tinha uma bateria com horas e horas de autonomia, da próxima vez, levava-o para o Princípe Real consigo.

Era a excepção. Hoje. E o melhor da posta ainda estava para vir, garantia.

E continuava a escrever na terceira pessoa do singular. Não o lamentava. Apenas registava a ocorrência, tão maquinalmente como um agente barrigudo da Divisão de Trânsito da PSP preenchia uma multa de estacionamento.

Domingo

Arrisca-se a ser eleito o melhor dia da semana. O que faz bem à pele. E às vezes neva. Já me imagino, velhota, cheia de artroses, nas mãos e nos joelhos, sentada na poltrona com pés de garra, estofada a veludo de cor beringela, a olhar a neve a cair no Marquês de Pombal pelo vidro da janela. A recordar o Domingo longínquo em que Lisboa ficou coberta de branco e onde todos se queixavam do frio menos eu e o senhor que é decorativo.

Estou de folga. Estou de rastos. Perdoem a mini-posta.

Domingo, Janeiro 29, 2006

À espera da Liberdade


A última favela de Lisboa. A primeira também. Enraízada nas costas de Monsanto e aos pés do Aqueduto das Águas Livres. Com vista para o Tejo e para toda Lisboa. Irónica escolha de palavras: um milhar de lisboetas vive em condições idênticas às da Revolução Industrial num bairro chamado Liberdade. Esperam-na há mais de 50 anos.


Um trabalho de Diana Ralha [texto] e Rui Gaudêncio [fotos]


Há coisas que os olhos não estão preparados para ver.


Um milhar de pessoas a viver na companhia de ratos, percevejos, imundice, escombros e entulho. Imagens de Fátima e fotografias de Amália espalhadas pelas paredes, numa espécie de culto, de fé inabalável. Bibelôs, muitos, cisnes, cães, gatos, de vidro ou de porcelana, apinhados em uma, no máximo de duas assoalhadas com pouco mais de cinco metros quadrados.
Habitações que não são mais do que corredores, sem janelas, com as paredes pintadas de cores vivas e salpicadas de bolor. Divisões versáteis e minúsculas, que servem para tudo: para cozinhar, para comer e para dormir.

Sanitas ao lado do micro-ondas, a um canto da sala, aos pés da cama, atrás de um vão de escadas.Por vezes, não existem sequer. A substituí-las, há baldes de plástico no chão, que os seus donos mascaram de sanita, enfeitando-os com tampos de plástico. Depois de cheios despejam-se na rua, nas pias existentes nos pátios. Os lavatórios são um luxo.

Um milhar de pessoas, adormece e acorda todos os dias nestas condições. Liberdade. Vivem num bairro chamado Liberdade. Moram assim desde sempre. A maioria há mais de meio século, mas ainda se encontram anciões que ali criaram raízes há 80 anos, quando o mais antigo e último dos mais precários bairro de Lisboa assentou arraiais e cresceu sem freios nas costas de Monsanto, na freguesia de Campolide. Nasceram, casaram, criaram filhos e os netos na Liberdade. São escravos dela.


Ensombrado pelo Aqueduto das Águas Livres, colado ao pacato e cobiçado Bairro da Serafina, com vista para o Tejo e com Monsanto a enquadrá-lo como uma moldura de vegetação luxuriante, o Bairro da Liberdade é “a última favela de Lisboa”. Quem o qualificou com estas palavras foi António Carmona Rodrigues, na altura candidato à presidência da Câmara Municipal de Lisboa. Não exagerou. Prometeu deitá-lo abaixo. Há coisas que os olhos não estão preparados para ver.


Quando se morre sai-se pela janela num saco

Pátio do Chafariz. Travessa Capela Velha. É apenas uma das ruas de um bairro onde toda a gente se conhece, ajuda e tem sempre as portas abertas, com as chaves na fechadura. Sem medos.
Por fora, lembra uma aldeia, há crianças e velhos nas ruas, cheiros vários, cortinas de renda de nylon e de xadrês colorido. Nada faz adivinhar em que condições vivem os moradores do Bairro da Liberdade.


Carmen Almeida, 40 anos de bairro e de vida, nunca saiu daquele pátio. Mudou da casa do pai para a do marido. Transportou os seus pertences para apenas duas portas ao lado. No seu T1, ao qual se acede por um corredor escuro e umas escadas a pique que teimam em ceder e pregar rasteiras, moram três pessoas. Tem água em casa porque fez as obras à sua conta. A sanita está ao lado do micro-ondas, numa cozinha improvisada em pouco mais de três metros quadrados.
Esta mulher de coração frágil, recém-operado, está inquieta. A sua sogra regressa do hospital amanhã, segunda-feira, com uma perna amputada. Carmen sabe que a idosa não mais irá sair do buraco a que ali se chama casa até ao dia em que fechar os olhos para sempre. Desabafa, enquanto desce um vão de quatro degraus com a largura de não mais de cinquenta centímetros: “Quando se morre aqui, sai-se num saco de plástico pela janela. Não se sai num caixão”.
Voltando aos vivos. Número da porta 71 A. Aníbal Barata, olhos verdes, muito doces, voz de candura infantil imputada à demência. Um quarto. Sem janela. Um cheiro que se entranha na roupa, na pele. A porta abre-se, não abre toda, só o suficiente para entrar um corpo de lado. Não abre o suficiente porque o quarto é exíguo, a porta bate numa cama onde se acumulam pilhas de lixo, tralhas diversas. Percevejos.

Lá dentro, como um animal e rodeado deles, sobretudo de ratos, vive, desde 1965, um ex-combatente da guerra colonial. Serviu em Angola. Está reformado por invalidez. Enlouqueceu. Está entregue à bondade dos vizinhos e da irmã, que mora uma ou duas portas à frente. Aníbal Barata gosta de Amália, há fotografias e cartazes da fadista na orgia de parafernálias várias que colecciona no seu quarto: “Quem não gosta de Amália não é português”, diz. Gosta de Cavaco Silva também – está um exemplar da revista “Homem”, em grande destaque, aos pés da sua cama. Quase não se vê parede. Aníbal pendura espelhos, posters, demasiada informação para a retina. Ao centro, uma imagem do sagrado coração de Jesus diz, em letras garrafais: “É preciso orar”.
Dez passos à frente. Fim de um pátio do bairro da Liberdade, onde crianças brincam com cães de raça (um pittbul, um caniche, um yorkshire terrier e um lulu da Pomerânia) e pardais chilreiam nas gaiolas pregadas às fachadas das casas. É um pátio cheio de flores e de couves, plantadas por Eva Duarte e que, afiança, já renderam duas sopas este ano.






No fim do pequeno pátio, numa habitação prestes a desmoronar-se, sem telhado, sem reboco nas paredes, apenas tijolos unidos com cimento, mora Francisco Sousa. Aos 49 anos está desempregado e sem direito à prestação social do rendimento mínimo garantido. Este homem, de enormes unhas e gengivas pueris, não tem como se proteger do frio e da chuva. Não tem casa de banho ou cozinha. Sobrevive de biscates e da ajuda dos vizinhos.



Grafitti para esconder o bolor

Os moradores abrem, sem vergonha, as portas das suas casas. É assim em todo o bairro. O asseio é a norma. Ana Isabel mora na Liberdade há apenas três anos com o marido. São ambos muito jovens, já têm um filho com três anos, que dorme num colchão encostado à cama dos pais. São os vizinhos da frente de Francisco e recuperaram a braços uma barraca idêntica à sua. Lutam contra a humidade. Escondem-na, no quarto, com cortinas de renda, com cachecóis de clubes de futebol e posters de ídolos musicais. A humidade não se vê, mas sente-se, entranha-se nos ossos. Na sala, com pouco mais de quatro metros quadrados, desistiram, é uma luta inglória, optaram por um tromp l’oeil, camuflaram o bolor das paredes com um grafitti.
O cenário repete-se naquele pátio, em todo o bairro.




Existe uma tentação forte de verificar, à cautela, na agenda em que ano se está. 2006,1906? Oito pessoas a morar numa habitação que tem um quarto esconso enfiado no sótão, uma sala que também é cozinha, e uma divisão sem janelas, com cerca de cinco metros quadrados, onde dormem quatro pessoas de noite. Um filho de 21 anos, e um neto pequeno a dormir ao lado dos pais e avós.
Um quarto e uma sala. Mínimos. Não há cozinha, nem casa de banho. José Cardoso, setenta anos de boa figura, sobretudo de bom corte e boa fazenda, viveu sempre sozinho. Na companhia de imagens de Fátima e bibelôs do Benfica. “É só miséria”, desabafa, mas volta atrás, quase com vergonha do sacrilégio que a sua boca acabou de reproduzir: “Posso-me dar por contente. Há pessoas aqui no Bairro a viverem trinta vezes pior.”

Aqui é tudo boa gente

Todos gostam de viver no Bairro da Liberdade. Garantem que não há desacatos, insegurança, admitindo, porém, existir algum tráfico e consumo de droga no bairro. Não se encontra ninguém, que algum dia, em meio século de vida, tenha sido assaltado no bairro.


A noite cai, a ponte 25 de Abril e o aqueduto iluminados compõem um cenário de beleza invejável e, lá em baixo, no Eixo Norte-Sul e na Avenida de Ceuta, os carros seguem em fila indiana sem supor que, ali tão perto ,há um vórtice temporal que faz recuar tempo até ao início da revolução industrial.
Quase todos querem permanecer encostados a Monsanto e ao Aqueduto das Águas Livres, com vista para toda a cidade. Sonham há décadas viver com um pouco de dignidade, mais como pessoas e menos como animais. Muitos perderam já a esperança e também a conta das vezes em que abriram as portas das suas casas, sem vergonha, ou escondendo-a o melhor que sabem, e escutaram as promessas eleitorais, nunca cumpridas, de uma vida melhor.
Mas ainda há quem acredite. A anciã Hermínia Tasso, octogenária, tantos anos de vida como de bairro, sabe que já não vai ver o dia em que a liberdade vai chegar: “Já não vou ver. Mas fico contente por saber que vão ajudar quem precisa. As pessoas merecem, são todos boa gente, acodem-se uns aos outros”.
Com apenas dez anos, Sara Ramos, muitas sardas no nariz, acalenta este sonho: “Tenho muita gente com quem brincar, tenho tanta gente para conhecer aqui no Bairro. Só precisamos de casas melhores. Moramos em buraquinhos que até dão para viver, mas gostava mesmo era de ter um quarto só para mim”, desabafa, entre suspiros e um sorriso envergonhado, à porta de uma das muitas mercearias do bairro para onde vai brincar depois de chegar da escola.

Sexta-feira, Janeiro 27, 2006

Da sua laia

Conhecia muito bem os da sua laia. Era feita da mesma matéria. Tinha degenerado um pouco, gostava de acreditar que tinha degenerado, ou regenerado - era como a história dos copos, se estam meios vazios ou meio cheios, depende se é um maníaco ou um depressivo que está a olhar para o copo -, que apenas parte de si vivia à custa de sugar emoções.
Era gulosa, mas empanturrava-se com chocolates sempre que lhe surgiam repentinos desejos incontroláveis de devorar sofregamente o melhor que há em cada um.
Acreditava que era moderada - nunca fora moderada em nada, era adjectivo que fazia ricochete em si, iludia-se, portanto -, que tinha apenas um distúrbio alimentar que ainda não tinha sido identificado ou publicado nas revistas científicas que às vezes gostava de ler. Gostava de pensar que deixava sempre um pouco, um restinho, qualquer coisa, queria acreditar nisto, repetia-o em voz alta, com determinação, como que a empinar a tabuada dos nove, que não sugava tudo e todos os que estavam ao seu redor, que não os atraía a si apenas para isso, como um implacável e frio predador.

Conhecia bem os da sua laia.
Adorava a expressão "vampiro de emoções".
Ouvira-a tantas vezes da boca de uma senhora loira, uma inocente vítima de um desses espécimes, e imaginava a cena da mordidela fatal, inspirada num filme de Ed Wood. O seu pai era mais feio que o Bela Lugosi, não tinha ar de húngaro, mas sim de monhé com carapinha, mas imaginava a cena assim, com uns cenários manhosos a desfazerem-se no momento em que os caninos "rilhões" do vampiro - que para si e para os seus irmãos passaram misturados nos genes; ela tinha conseguido camuflar o aspecto vampiresco com recurso à ortodôncia e a uns belos milhares de euros -, aferroavam o pescoço esguio, leitoso da sua mãe, até não sobrar nada.
Isto tinha sido há três décadas atrás. Há mais de três décadas atrás. Ninguém tinha vontade de se lembrar, ninguém sabia ao certo. Não tinha graça nenhuma, mas o que vem aqui para o caso é que a vítima continuava vazia, seca, não tinha havido lugar para uma miraculosa regeneração, ela pensava muito nisto, quase tudo regenera, porque é que a trinca do vampiro de emoções era irreversível para todo o sempre, como uma imuno-deficiência?

Já não havia o oitavo andar. Haver havia, mas morava lá a ex-tia que, para si, seria sempre a mulher de queixo e nariz proeminente e verruga colada à narina direita que lhe oferecera o seu primeiro eye lyner, tinha ela 14 anos. O jardim de inverno já não tinha paredes rugosas pintadas de verde, o chão já não era de mosaico preto. Evitava entrar em casa da tia. Doía-lhe o apartamento desfigurado, transformado numa toca indiferenciável de tantas outras, a puxar para o novo-rica e que havia sido paga, integralmente, pelo corno do seu tio de sangue.
Durante toda a sua adolescência refugiara-se naquelas cinco assoalhadas, 150 metros quadrados numa zona nobre da cidade, que a sua mãe, burguesa e péssima gestora de património imobiliário, utilizava como arrecadação.
Sacrilégios...
Sempre sonhara viver ali, com o fantasma da dona Julieta a beber chá na sala, a dormir no quartinho da empregada, a dona Julieta que era a velhota de cabelos pintados com um plix violeta que tomava conta dela quando as aulas do colégio acabavam e não havia ninguém em casa para lhe abrir a porta, a dona Julieta, que, juntamente com uma task force de vizinhos improvisada, a dona Ilda e o senhor Victor, substituíra os seus avós, os seus avós que, em menos de um ano e meio, decidiram morrer, em cascata, não deixando sequer o luto repousar uma semana descansado no roupeiro.
A vítima do vampiro mirrou até aos quarenta quilos por causa do tal do luto que se sentou de pernas abertas a arrotar, na melhor poltrona de um segundo andar onde viviam. E o preto também não fica bem às loiras, quer ela ressalvar, é raríssimo, assim como loiras ficarem sensuais com os lábios pintados com baton encarnado - parecerem todas umas putas -, e os vestidos até eram bonitos, tinham a cintura descaída, eram de voile de lã, comprados na Truz, uma loja pseudo-fina da Praça de Londres, onde hoje é um antiquário que dá ares de lavagem de dinheiro.
Ela lembrava-se de a sua mãe vampirizada passar os cheques que compraram os tais vestidos pretos e também uns sapatos de camurça da mesma cor, com uns laçarotes. Lembrava-se de tudo, era um fenómeno, nesse dia decorou o bilhete de identidade da senhora loira que definhava de desgosto, 1260756, e ainda se lembra de uma saia com umas florzinhas brancas que mal de notavam, que, ao longe, mais pareciam bolinhas.

Já não havia oitavo andar. Nem jardim de Inverno. Passou a sua problemática, chorosa e semi-suidida adolescência ali, entre caixotes de recorações empoeiradas e húmidas. Gostava de fotografias de família. Revoltava-se por estarem ali desterradas, abandonadas. Talvez por isso, hoje em dia, resgatasse fotografias dos mortos dos outros em alfarrabistas e na Feira da Ladra.
Um dia encontrou numa caixa as cartas tontas de amor, da vítima de porcelana ao vampiro de emoções. Ainda hoje se questiona como é que isto pôde acontecer. Como é que a mulher loira, boticelliana, apaixonada, romântica, tola mesmo - isto reconfortava-a de certa forma, saber que era igualzinha à sua mãe, que apenas o tom de pele, do cabelo e dos olhos era o oposto - se deixou mumificar pelo vampiro.
Conhecia bem os da sua laia.
Temia ser uma deles.
Tinha teses muito bem montadas na cabeça. Dogmas que aceitava abnegada, sem discussão, e isto era raro, era do contra por natureza, só para chatear. Só aceitava porque eram suas, mas às vezes não tinha ninguém para contrariar porque era muito só e podia virar-se contra todas as suas premissas. Mas não. Acreditava mesmo nelas.
Gostava pouco de carneiradas, por isso é que não pertencia a nenhum clube, partido, nem mesmo à maçonaria, que até seria bem bom para conseguir um emprego onde trouxesse mais dinheiro para casa, para evitar viver no limiar da classe média (detestava gente pobre. De espírito). Por isso, desenvolvia teses surrealistas, que não lembravam ao menino Jesus, para que não surgisse uma cambada de fervorosos fiéis a segui-las, a apropriar-se da propriedade intelectual privada de outrem (isto lembrava-lhe as ocupações dos comunistas no pós 25 do 4 e só de pensar nisso ficava com pele de galinha e com aquela estranha urticária que lhe aparecia no rosto sempre que rebentava com os níveis altíssimos mas, ainda assim, toleráveis de stress).
Se não fosse uma preguiçosa, gostava, um dia, de conseguir desenvolver vários projectos científicos fulcrais para a humanidade. Entre os quais, a morfologia dos filmes pornográficos.
Era fixada pelo formalista russo Vladimir Propp, queria aplicar a sua teoria da Morfologia dos Contos à indústria porno. Defendia que, todo e qualquer filme pornográfico, obedecia a uma estrutura narrativa linear, cronológica, pré-definida. De que outra forma se explicava, então, que a narrativa dos filmes pornográficos terminasse sempre com a esporradela do elemento masculino nas mamas ou na cara do elemento feminino?
Mas havia mais teses. Acreditava na banalidade do mal. Que qualquer um pode ser um assassino profissional. Que matar só custa, vá, às primeiras cinco vezes. Estava a ser simpática, a exagerar. O homem é naturalmente mau - a mulher também, mas numa dose mais fraca, se o homem fosse uma grama de Xanax, a mulher era 0,125. Para ela, matar passava a ser um hábito chato à terceira vez. Era um número cheio de misticismo. As suas teses nao tinham quaisquer fundamentos científicos, não era com o propósito de as validar que as elaborava. Elaborava estas premissas apenas para manter ocupado o cérebro. E como via sinais e simbolismo em tudo, defendia este número, o três.
Desenvolvera esta equação quando a sua mãe matava ninhadas de gatos, adormecendo-os em camas de algodão encharcadas em éter. Pouparam-na de participar no genocídio. Sempre foi muito protegida. Lá sabiam porquê. Era frágil, parecia um rochedo mas era uma lágrima da Batávia (não está com paciência para explicar o que é uma lágrima da Batávia, essa era uma longa história da sua infância, que revisitou num best seller, salvo erro, Booker Prize, do Peter Carey).
Aparentemente, era um pedaço de vidro inquebrável, ao qual se podia dar enxertos de porrada sem fazer mossa ou riscos, mas bastava uma pancadinha ao de leve no ponto nevrálgico para se desfazer em mil pedaços. Mas era um lindo espectáculo quando estilhaçava e, no Natal, partia bolas de vidro no centro de bricolage Aki só porque o barulho lhe lembrava a desintegração das lágrimas da Batávia.
Nunca arriscaram, nunca usaram testar o efeito desse beliscão, e pouparam-na à matança felina. Havia de sofrer muito pela vida fora, não precisava de começar tão cedo. Mas ela ouvia os miados. E chorava muito. E escrevia cartas a Deus, perguntava onde é que ele andava, enfiava-as no meio dos livros da prateleira da sala - um dia, alguém as há-de encontrar.
Chorava muito até se banalizar. Deixou de chorar com a morte dos animais, sentia-se um péssimo ser humano, quisera chorar quando o seu gato favorito, um gatarrão laranja chamado Red, morreu e não conseguiu largar nem uma gota para amostra. Quando assim era, punha-se a cortar cebolas. Induzia o choro desta forma (estava a enlouquecer, ela estava sempre a avisar que estava a enlouquecer).
O vampiro de emoções devia funcionar da mesma forma, conjecturava. Uma ferroadela para matar uma vida de emoções. E ela achava isto muito estranho, não desenvolvera ainda nenhuma tese porque acreditava que ninguém podia viver sem uma bela dose de paixão. Tinha que ter cautela, não queria ficar seca, queria aproveitar um pouco mais.
Conhecia muito bem os da sua laia.
E conhecia-se muito bem também. Podia esforçar-se para escrever na terceira pessoa do singular, mas não enganava ninguém. Era sempre sobre ela. Era noventa por cento dela, o que escrevia.

Aguentem-se

Aguentem-se à bronca, dancem o fandango (era assim que a minha avó Tóia dizia quando eu estava aflitinha para fazer xixi), protestem, montem o aparato todo, com figurantes feios, aluguem os carros de som, façam estalar no ar chicotes e deixem voar bandeiras ao vento, façam birras e beicinhos, cantem serenatas à minha janela sobre a Viriato e a Andrade Corvo, façam trinta por uma linha, uma linha torta, por favor, é a única coisa que peço, mas, hoje, é quase impossível escrever posts.
Tenho um post que me paga o salário para escrever.

Contra todas as expectativas

O homem que esteve na minha cama telefonou.
"Bem fodido à foda torna", disse.
Faz-me rir. Faz-me rir muito.

Quinta-feira, Janeiro 26, 2006

Ainda posts gramaticais

Davam abraços de esborrachar mamas.
Tinham umas mãos muito bonitas. Uma usava as unhas quadradas, muito curtas; a outra, amendoadas, bem limadas e afiadas.
Gostavam de beijos no pescoço, derretiam com beijos no pescoço.
Ambas eram incapazes de escrever o verbo "apaixonar", também já não sabiam como é que ele se conjugava.
Sempre que tentavam, e tentavam todos os dias, saía sempre "apixonar".
E estava certo. Muito certo.
E começava tudo aí.

Amores perfeitos [no pretérito-mais-que-perfeito do Indicativo e na terceira pessoa do singular]


[Reeditado]

Levara a vida à espera daquele dia: sonhara com os olhos bem abertos, com um olho mais aberto que o outro, porque no dia em que nascera, o último dia do signo caranguejo, a simetria estava de férias, a banhos, no Algarve a dourar; sonhara estender amores perfeitos à janela, com a mesma naturalidade rotineira que a vizinha da frente, do terceiro andar esquerdo, estendia cuecas de gola alta, em cordas de nylon, pela manhã.
Nunca tivera jeito para os singelos e delicados viola tricolor e não vivia bem com essa incapacidade, lembrava-lhe sempre o dia em que entrou para o colégio e era a única da turma que não sabia fazer cambalhotas, nos tapetes verdes de pele do ginásio bafiento de uma moradia da avenida Almirante Gago Coutinho, uma moradia enorme, onde, à entrada, como não tinha amigos, falava baixinho com uma palmeira muito velha, acariciava o seu tronco e às vezes tentava-a abraçar, mas faltavam-lhe braços.
Mas isto era quando se certificava que ninguém estava a olhar - há quem diga que o seu amor pelas árvores começou aí -, isto era numa moradia na qual pintou as paredes do jardim de infância dos meninos um pouco mais pequeninos do que ela com os seus desenhos geniais, a pedido expresso da directora, que a dispensou das aulas para se dedicar à pintura das paredes brancas dos pequeninos, e nessa tarde saíram todas as imagens que tinha na sua cabeça. A directora soubera, desde que a admitiu a meio de um ano lectivo, soubera que aquela menina triste, de tranças enormes, que acabara de perder o colo macio das suas duas avós, soubera logo aí, que lhe esperava um futuro brilhante. Era mesmo assim.
Lembrava-se da humilhação, de dizer ao professor Geraldes, ex campeão de Judo, entre lágrimas, que não sabia fazer cambalhotas. Nem a roda. Muito menos o pino. Uma vez por semana, tinha pesadelos. Teimava com a sua mãe solteira, na altura secretária de direcção, que estava doente, que não podia ir à escola. Irremediavelmente, a mãe mandava-a para a carrinha com um fato de treino turqueza; apanhara-a a aquecer os termómetros na lâmpada da mesinha de cabeceira e, desde então, parara de se preocupar com os febrões com data marcada da sua filha mais nova.
Mas, durante muito tempo, acreditou nos poderes da espada dourada da boneca She-ra. Gostava mais da má da fita, da Catra, que se vestia à gótica, de preto e beringela, mas usava a espada da loira boa da fita, a irmã do He-man, para fazer magia. E durante três meses, não houve ginástica e ela acreditava piamente que era por causa daquele pedaço de plástico, não sabia o que era uma ruptura de ligamentos.
Mas um dia, a sua gata siamesa, que se chamava Íris, uma gata má como as cobras, roeu-lhe a espada da She-ra. E ela chorou, desesperada, não ousou, sequer, explicar qual a razão de tamanho pranto à sua mãe, que, na altura, não era uma fada do lar, que, às vezes, também tinha homens na sua cama comprada na Octógono, e que, ao jantar, fazia sopas instantâneas da Knorr (ela sempre gostara muito da sopa de rabo de boi, na altura, já era muito gráfica, tinha uma imaginação esquizofrénica e de nada valia a sua mãe loira, de pele de porcelana, lhe explicar que rabo de boi era uma forma de dizer. Sim, gostava da palavra tutano, mas não aceitava que a sopa fosse de tutano, era de rabo de boi, a imagem era grotesca, mas ela gostava muito da sopa avermelhada da multinacional do galo).
O professor Geraldes, claro, voltara depois do acidente felino. Tinha que ter sido assim. Nunca perdoou à sua gata pela quebra do feitiço. Mas aprendeu a dar cambalhotas com o seu primo Hugo, num jardim da Estados Unidos da América, por debaixo de um plátano que foi cortado há muitos anos. Foi a melhor da aula de ginástica. Fez o pleno. Era a melhor em tudo. Era mesmo assim. Foi sempre assim. Há-de morrer assim. Quando mete uma na cabeça, não descansa até ser a melhor. Até nas coisas mais improváveis, como as cambalhotas e os pinos.
Passava, então, a vida de cabeça para baixo, com as pernas apoiadas na parede, foram muitos anos assim, o sangue subiu-lhe ao cérebro e nunca mais foi a mesma. E houve uma altura em que era viciada em equações, e gostava muito de gramática também.
Foi insistindo com os amores perfeitos. Se havia sido a melhor a ginástica apesar das pernas roliças que herdara dos genes do seu pai quase incógnito, um dia iria ter jeito para amores-perfeitos.
Estava tão determinada que, quando salvou uma dúzia de vasinhos de plástico de uma morte certa num supermercado, lhe apeteceu conjugar todos os verbos no imperativo afirmativo. Mas depois lembrou-se - era sempre assim, um reservatório de inutilidades, mas isso era sindroma de família, corria-lhe nas veias, misturado com um sangue fluorescente - que o imperativo afirmativo não possui a primeira pessoa do singular e ela estava a enlouquecer, é certo, cada dia que passava nas folhas da agenda, era mais um passo para o abismo, ela sabia que já não era muito certa, mas ainda não falava de si na terceira pessoa do singular.
De noite, pensava muito, tentava não se analisar, tinha-se em muito má conta, dizia ser uma má pessoa, era o seu cartão de visita, acreditava piamente que se gostassem do seu lado negro, seria mais difícil resistir à pureza que não teimava não sair dentro de si, apesar das sucessivas ordens de despejo, remetidas por carta registada com aviso de recepção.
Mas temia ser uma maldição, e quando começara a atrair homens impotentes, ou mesmo imbecis (gostava mais dos impotentes do que os imbecis, ainda assim), vira um sinal na morte prematura dos amores perfeitos nas suas mãos.
Durante alguns anos, refugiara-se nas heras e nas orquídeas da sua sacada pombalina. Mas não esquecera os amores-perfeitos. Era romântica, gostava da poesia das coisas pequenas. Era mesmo assim. Foi sempre assim. Será sempre assim.

Esperava pouco da vida e a vida teimava eu não a largar. Sonhara estender amores perfeitos à janela. Sonhara conjugar um amor perfeito no pretérito mais que perfeito do indicativo.

E um dia a maldição acabou. As flores, pelo menos, estão na janela; e o amor andará à solta onde menos se espera.

Quarta-feira, Janeiro 25, 2006

Post no jornal

Este Domingo, sai um post meu no jornal. Vai parecer uma notícia, vai parecer uma reportagem, mas é um post. E está todo na minha cabeça, prestes a saltar. Vou ficar sem dedo pai de todos a escrevê-lo. Hoje vi coisas que tão cedo não vou esquecer. Estive no Bairro da Liberdade.

Mãos ao baixo


Não tarda, chega a Hermínia, chega o João, não tarda, a casa tem que estar arrumada, a roupa estendida, o jantar feito, a árvore de natal tem que estar desmembrada no seu caixote até Dezembro próximo, não tarda tenho que subir ao escadote para arrumar no alçapão o caixote com as bolas, as fitas e e os pais natal de tecido em tons de cobre. É já não tarda, e as fadas do lar estão de folga, preguiçaram, deixaram tudo para eu fazer, o Chopin já toca - gosto de fazer a faxina ao som de música clássica, dá algum estilo à coisa -, não tarda nada a campainha toca e eu ainda estou agarrada ao macintosh, com tudo por fazer, e pelo menos tenho que plantar os amores perfeitos à janela, os amores perfeitos que salvei de uma morte certa à sede de um hipermercado da Jerónimo Martins, e à minha janela está uma foto incrível à espera: há os pombos no telhado do prédio gémeo siamês do outro lado da rua, há a vizinha com feições duras e cabelo grisalho, há o canário ao sol, mas a foto não está aí, está dois andares abaixo, na janela do vizinho que, invariavelmente, apanho de ceroulas à janela da cozinha, as paredes são azuis, vejo o tecto de madeira, vejo muito pouco, é uma cozinha sombria, invadida por uma enorme solidão, mas hoje, à janela, estão estendidas duas luvas de borracha cor-de-rosa, não sei se consigo captar com a Leica aquilo que os meus olhos vêem, mas isso, é não tarda.

O remetente deste email que me perdoe a perda de exclusividade deste pedaçinho. Tem todos os outros só para ele e, aliás, as minhas coisas não têm dono. São de quem as apanhar, são de quem as trata bem, com carinho.

Terça-feira, Janeiro 24, 2006

Algo se passa. Tenho o pai de todos escavacado.

Algo se passa.
E não são as mil visitas que hoje pisaram os amores perfeitos das bordaduras dos jardins deste quintal - eu não disse que era o fim do mundo como o conhecíamos? Tinha acabado de chegar do Tóquio, de ler uma mensagem embriagada de um dos meus bloggers favoritos (um anónimo que vê a realidade ao lusco-fusco), não sei o que me deu para abrir esse mail às quatro e meia da manhã.

[esse mesmo, esse endereço de email que está aí do lado direito e que ninguém, salvo excepções honrosas, utiliza, nem sequer para me insultar, e se eu não tivesse criado essa caixa de email, se não a abrisse para não cheirar a mofo, às vezes é às quatro da manhã, outras, logo pela manhã cedinho, quando abro as pestanas e me preparo para mais um dia de trabalho, se não fosse por esta caixinha, não conheceria a minha esquizofrénica, que me bateu à porta do gmail empantanas a medo, dizendo que não pretendia corresponder-se, que não me sentisse obrigada a começar um caso de amizade cibernética, queria apenas dizer que me lia, pedir-me que não parasse nunca, mas eu não lhe dei hipótese, eu nunca dou hipótese, não te queres corresponder o tanas, eu conheci a minha amiga, a minha baby sitter Cinderela, que me levou ao cinema depois de eu não ter ido ao quarto escuro mais de dois anos, isso foi o nosso primeiro date, eu conheci-a na caixa dos comentários de um prestigiado blogue, ela dizia que lhe estavam a acontecer filmes de série Z e eu disse, não sei porque o escrevi, mas agradeço várias vezes ao dia ao anjo que comandou a mão, "estou solidária", e estava mesmo, filmes de série Z era comigo nessa semana, aliás, é todas as semanas, se formos a ver bem, mas tudo começou ali, dentro de uma jaula do canil, rebentámos uma vez com o cubículo, depositámos duas dezenas de comentários sem pedir licença e depois ganhámos fama de delicodoces, estou-me bem marimbando para a fama, agora quero é o proveito, mas esta noite não a tenho a fazer-me companhia no escuro da net e faz-me muita falta]

Foi um pressentimento talvez, eu vejo sinais em toda a parte, eu estou sempre muito atenta, sei que a câmara acende as luzes da minha cidade às 17h30 em ponto, eu presto atenção a coisas que ninguém presta, sei quem são os meus anónimos apenas pela escrita, sem lhes catar o IP no Statcounter, pior, cato os anónimos dos outros também, por acaso, sem querer, tenho ciúmes dos meus anónimos noutras paragens, e isto acontece apenas porque vejo demais e isso às vezes cega-me, eu sou uma mulher ciumenta, eu devia passar menos tempo nos blogues, eles às vezes fazem-nos mal, e estou farta de dizer que estou a enlouquecer, e hoje o meu editor disse que é bem capaz de ser verdade, mas disse, também, que me assenta muito bem, que se alguém tem que ser louco que seja eu, mas, eu abri um email, para o qual ninguém escreve, às quatro e meia da manhã e isso é perfeitamente normal para uma pessoa louca, e tenho saudades do Tiago, do Pif Paf, mandava uns emails deliciosos e parou, mas a verdade é que gosto muito de escrever a este meu outro anónimo, respondi-lhe qualquer coisa sem nexo e a Catarina ligou-me há pouquinho porque se comoveu com a forma carinhosa como trato os meus anónimos.
E não nos vemos faz uma eternidade, o mealheiro-busto do Mao Tse Tung que comprei para lhe dar no Natal ainda cá está, tenho saudades dela, hoje dei de caras com um tipo que tive na cama dela, na querida Rua da Rosa, uma casa tão velha como a minha, com paredes tão tortas como as minhas, tão linda como a minha, com a casa-de-banho ainda mais enfiada na cozinha do que a minha, e isso foi no tempo em que os animais falavam e escreviam milhares de caracteres sobre a nova legislação do trabalho, noites em que quase morríamos carbonizados na sala, por causa de uma mala de cartão que se queria imolar pelo fogo utilizando as velas que nos esquecemos de apagar a jogar ao "E se eu fosse?", a mala de cartão estava sempre à porta, para a Catarina se lembrar que estava naquela casa de empréstimo, essas noites eu não esqueço, mas esqueci este rapaz, de olhos azuis, mas a Catarina ligou para dizer que me lê, que me segue por aqui, e a primeira coisa que diz é este amor pelos meus anónimos, diz que eu sou muito "querida", que, na caixa dos comentários, sou outra pessoa, não sou aquela que não usa pontos finais e forra o blogue a papel de parede com padrão de vírgulas.

Mas algo se passa. E quando escrevi o refrão da musiquinha dos REM que dancei aos pulos com a esquizofrénica adolescente e com o meu Jão, junto às putas do Cais do Sodré, It's the end of the world as we know it, não imaginava isto: chegar ao jornal de referência onde escrevo notícias e passarem outros redactores, de outros pisos, a perguntar: Qual é o teu blogue, Ralha?
E o inominável a sair em minha defesa, a proteger-me como tem feito sempre desde que descobriu a tralha, divulgando-a pela elite da blogosfera, mas impondo votos de silêncio, palavra passe renovável ao fim do dia, e eu gostava mais assim, quando éramos poucos, agora tenho que me habituar, e ele a dizer qualquer coisa do género "hás-de ter muita merda a ver com isso", mas, neste momento, toda a gente sabe que tive um homem na minha cama, até se fazem apostas de quem é ele, e não, não é o que escreve bem (este fala bem, fala com uma voz ainda mais bonita do que a do Manuel Alegre, se querem que vos diga).
Algo se passa desde Domingo, desde o post "Deixa aproveitar" - que ninguém comentou e ele está de rastos. Já lhe expliquei que o problema não é ele, é um bom post, que fala de uma demanda inglória em busca de um amor literário, é precisamente o que ando à procura, cada vez escrevo melhor, cada vez defino mais o meu estilo e, por isso, topo à distância Claras Pinto Correia, cada vez mais olhos pairam por estas bandas, e é isso que eu procuro, mais do que jogar às escondidas com invólucros de preservativos e peças de roupa interior (falta-me encontrar ainda um soutien; a casa, para além de demónios que vêm tomar a ceia e trocar dez dedos de conversa - quantos mais dedos houvesse, mais obedeceriam cegamente aos demónios -, tem também bichos papões que se alimentam de peúgas desemparelhadas e isqueiros psicadélicos comprados no Lidl de Xabregas), mas, também já lhe disse para não lançar foguetes, mostrei ao homem da minha cama o meu quintal, ele mostrou-me o dele, cheio de ervas daninhas, prometeu ganhar calos a cavar com a enchada e que depois mo mostrava arranjadinho, mas duvido que tenha cá voltado, ele estava cá para aproveitar a ressaca eleitoral, não estava cá para bajular o meu ego literário.
Mas algo se passa. Comecei a escavacar o dedo pai de todos da mão direita nessa tarde. E eu só ponho o pai de todos na boca quando algo se passa.

Não é um recado

You have to understand: I'm jealous of everything that moves, I'm jealous of the rain. I am a jealous man.

Maurice Bendrix (Ralph Fiennes), The End of the Affair, Neil Jordan, 1999.

Um diálogo. A propósito de ciúmes. E não é um recado.

Estou muito assustada com as audiências do quintal - se estivesse listada, estava já no top 100, com 250 visitantes únicos, e 710 visitas. Isto não é um recado.

Estou muito preocupada com lágrimas que esborratam letras desenhadas em folhas brancas de papel. Não é um recado, mas declaro aqui ao mundo que passei a escrever para ela, dedico-lhe todos os posts desde que me passou a fazer companhia nas noites em que não há homens na minha cama (e para que não pensem que eu sou uma putéfia, não tinha um homem na minha cama há uma eternidade de tempo, é melhor nem especificar que parece mal).

Estou a trabalhar na renovação gráfica da (T)ralha. Se tudo correr bem, nos próximos dias hão-de cair para o lado de choque. Nós os conservadores, somos atreitos à mudança, gostamos de rotinas de prazer, passamos 27 anos sem saber o que é um mil folhas, mas quando é para mudar é para mudar a sério. Não é um recado.

Fora do armário (não compliques)

Eu não costumo ficar para dormir, disse o homem que desfez os lençóis da metade direita da minha cama, já os galos andavam a cantar nas quintas às portas da minha cidade e o sol faltava à chamada do amanhecer, só para encobrir os amantes da cama com vista para a Duque de Loulé. Sabes onde fica a porta, não sabes? Eu não espero nada, és um homem bonito que está na minha cama, és um homem tão bonito, como é que estás na minha cama, não compliques, caralho, não complicaste com a depilação que não estava perfeita, passaste a mão pela perna e disseste não está dramático, anda cá, e eu ri-me e não estava de facto dramática, mas eu não gosto de pelos, e eu achava que uma depilação imperfeita era o melhor cinto de castidade, mas não, tu estás na minha cama porque não complicaste. Não quero ir, mas não sei se consigo que me vejas acordar. Não vás então. Não sei se consigo que me vejas acordar, sabes, não gosto das minhas pernas, são iguais às do Zé Ralha, não olhas para as minhas pernas. E tu não olhas para o meu cabelo. Não olho não. Olho para a sarda que tens debaixo do olho esquerdo. Para o dente ligeiramente mais escuro da frente. Olho para o homem bonito a quem despudoradamente me insinuei. Com uma lata nunca vista. Mas não espero nada, se não tivermos nada a dizer um ao outro, abres a porta e não tenhas vergonha de ir embora sem dizer uma palavra, sem um beijo. Não compliques. E depois de mais beijos, e depois de mais um preservativo, habituados à vida de solteiros, adormecemos de costas voltadas, um para cada lado e eu não te deixei ficar com a almofada de sumaúma, ficaste com a de penas.
O homem que estava na minha cama acordou quando toda a gente já almoçava e teve medo de sair do quarto. Ligou-me para o telemóvel. Mas o telemóvel tinha ficado a dormir no carro. Chamou o meu nome e eu estava a escrever um post, sentada no sofá laranja, na TV passava os parabéns do canal Panda. Teve medo de me ver. Teve medo de ser visto. Mas eu acordei assim, bonita. E ele acordou despenteado, muito. E eu dei-lhe os óculos que tinham ficado a dormir no meu chão centenário de tábua corrida. E brincou com a minha filha na cozinha, hipnotizado pela máquina a lavar lençóis brancos, e comeu a sanduíche mista que preparei, e bebeu a UCAL de chocolate, e perguntou se podia voltar, e beijou-me em frente ao boteco da Dona Beatriz.
E não ligou. E não vai ligar. E não faz mal.

Copiei com carinho

Há uma Clara Pinto Correia em todas nós.

Luxúria II

Segunda-feira, Janeiro 23, 2006

Luxúria


Três horas de sono. Nenhuma maquilhagem em cima. Metade do país de luto. No primeiro dia do Cavaquistão, acordei com este aspecto. Com um homem na minha cama, atrás desta parede branca. Com o post todo na minha cabeça. Mas antes lavei a loiça, e arrumei a barafunda, catei invólucros de preservativos. Faz bem à pele.

Amanhã há mais. Bati todos os records de audiências. 611 pageloads. 211 visitantes únicos. À conquista do top ten. O céu é o limite.

33.333

Nada como escrever com parágrafos. Nada como não abusar das vírgulas. Nada como falar de sexo.
As audiências deste blogue estão esquizofrénicas. E eu não sei quem foi o visitante 33.333. Caralho!

Continua um homem na minha cama

Será que respira?
Ou terei que esconder o corpo no closet, onde guardo todos os meus fantasmas?

Tenho um homem na minha cama.

Tenho um homem na minha cama. Não sei o que lhe fazer. Mas é decorativo. Muito.

Acordei com um homem na minha cama. É uma estreia em Santa Marta.
Fechei a porta para ele dormir, para dormir o sono dos justos até às tantas, mas ainda não estou em mim, vou lá espreitar de quinze em quinze minutos e, efectivamente, é muito decorativo, tapado até ao nariz com os lençóis bordados pela minha progenitora há mais de quarenta anos (e não é graças à minha progenitora que eu tenho um homem na minha cama, se não fosse a minha adolescente esquizofrénica, babysitter cinderela, que aceitou à meia noite velar pelo sono da minha filha, eu não teria um homem na minha cama).
Tenho um homem na minha cama, raios, como é que isto me foi acontecer?
E o carro dele estacionado no passeio, em frente ao boteco da dona Beatriz, e eu sem nada em casa, sem um papo seco para lhe dar pequeno almoço, e há doze horas atrás, eu disse-lhe "vai lá tomar o pequeno almoço a casa", mas disse aquilo da boca para fora, estava longe de imaginar que iria ter um homem na minha cama, tenho leite e ice tea no frigorífico, e há meia dúzia de horas, ele: então quando é que nos comemos, caralho? E ele diz mais caralhos que eu, e isso é, também, uma estreia, eu acho que só tenho um homem na minha cama porque ele diz mais caralhos que eu.
E eu de camisa de pijama, com uma pele linda uma noite de ressaca eleitoral, ai porra, adoro o Cavaco, ai que adoro mesmo, e veste o sobretudo castanho, aperta-o até ao pescoço, desce à dona Beatriz e diz: querida, se o carro a estiver a estorvar, bata-me à porta, é do.... e vacilei e depois achei que a dona Beatriz não precisava de ficar baralhada.... é do meu namorado. Dona Beatriz, salve-me: dê-me fiambre, dê-me manteiga, dê-me uns pacotinhos de chá, e leite com chocolate também, já cá venho pagar-lhe, olhe dê-me um maço de Camel, que ele fuma Camel.
Tenho um homem na minha cama, fui lá espreitar, ainda tenho um homem na minha cama, não é liberdade poética, não é do LSD genético, está lá, não fugiu.
E já lavei a loiça, e já pus a máquina a lavar a roupa, e estou a ver o canal Panda, o urso Franklyn, mas continuo sem saber o que fazer. Mas é muito decorativo.

Domingo, Janeiro 22, 2006

Noite Eleitoral I (título plagiado de um blogue de referência)

Quem venceu as eleições....

... fui eu.

E mais não digo.

Deixa aproveitar

Deixa aproveitar as últimas duas horas e meia sem Cavaco Silva, e já o estou a imaginar, com a sua nova pose de quem caiu num caldeirão de Xanax à nascença, sentado nos jardins divinos do também bonito e ostensivo Palácio de Belém.
Deixa aproveitar que as ressacas, assim como as noites serenas de sono, também nunca me batem à porta, estou fresca como uma alface, apesar das três horas e meia de sono e de uma nódoa negra descomunal na coxa esquerda (desconheço como veio cá parar).
Deixa aproveitar, enquanto não tenho que ir para a sede de campanha do Garcia Pereira e, já que sabem a minha vida de trás para a frente, já conhecem a minha filha, os meus decotes, conhecem-me do avesso, conhecem-me triste, às vezes apaixonada, conhecem-me sempre semi-neurótica - vá lá que os que já me conheceram, que me viram com mais carne que osso, comprovaram que a neurose fica no blogue, a fazer sala aos demónios e a servir cházinho no serviço com folha de ouro da Vista Alegre -, vão ser, também, os primeiros a saber que não votei Garcia Pereira pela terceira vez na vida.
Maldita a hora em que vi os últimos tempos de antena de sexta-feira, que acabaram mesmo à meia noite, antes de se transformarem em dia de reflexão, e eu acho lindo, eu gosto mesmo da alta blogosfera, os meus blogues de eleição, devem ter um qualquer livro de estilo, um código de ética, e também cumpriram à risca os votos de silêncio, não se falou de nada a ver com as eleições, mas, maldita a hora em que fui desfolhar o Cão como Nós, e na sala de voto, da escolinha primária nas traseiras da Igreja de São João de Brito - ainda não me recenseei em Coração de Jesus, se nem o selo da EMEL eu trato e levo multas dia sim dia não, e mesmo assim não trato, a burocracia faz-me taquicárdias, acho que nunca votarei no Liceu Camões -, o senhor diz o meu nome alto, um senhor monhé como eu, mais escuro, e depois entrega o papel, e o senhor Pestana Garcia Pereira a encabeçar a lista (ao menos aqui foste o primeiro, Garcia), e depois, quando já vou com cólicas e tremuras a pensar onde vou colocar a cruz, atira: "Diana Ralha? Eu conheço este nome...". E eu, pernas a tremer, ai meu Deus, que é mais um leitor da tralha, um dos milhares de anónimos que não saem do armário, ai meu Jesus que vai dizer que eu sou a melhor escritora, mas não, é ex-comandante da TAP, falou comigo ao telefone várias vezes, e eu fiquei à vontade dois minutos a reflectir se votava no poeta, se no Pestana. Mas os Pestanas não querem nada comigo, a família toda, ainda hoje, tremendamente alcoolizada, com níveis de THC no meu sangue acima da média, naturalmente, com o LSD genético a borbulhar e as pestanas sem quererem abraçar-se umas nas outras, as pestanas querem é fechar-se no instante imediatamente anterior a um beijo, mas isto de beijos não anda fácil, logo agora que eu tenho os dentes perfeitinhos, quando tinha aparelho, era beijos a toda a hora como os piriquitos, não sei como não apanhei herpes, e com o coração a bater a mil, cheia de pena do meu candidato, fiz o xis no Alegre, quero uma crise no PS, quero um Parlamento dividido, quero, quero, quero... chatear branco. Convenci a Magui a votar, apeteceu-me mostrar-lhe o post do Francisco sobre a sua avó Isabella, mas eu dou-lhe sempre a volta e a Magui também esteve quase a votar no Alegre, mas depois, porque é rebelde, fez bigodes nos senhores e corninhos, como é que eu não hei-de ser a filha da mãe que sou, e escreveu PALHAÇOS!.

Deixa aproveitar, que já só temos uma hora e quarenta e cinco minutos sem Cavaco à primeira volta, e ontem, quando escrevia um mail a um rapaz a quem dou conversa, estava de roupão, de rolos na cabeça, a casa toda arrumadinha, a roupa estendida, a árvore de natal desmanchada (dói-me tanto desmanchá-la, em casa da Magui fica todo o ano, fazendo jus à máxima que Natal é quando o homem quiser), e eu a escrever ao rapaz a quem conto a minha vida toda, ou quase toda, e eu a dizer-lhe, caro, quero dizer-te que não te quero levar para a cama, que não te escrevo para te atrair ao meu covil, não é só isso, não é nada que não tenha passado pela cabeça, mas passa-me tanta coisa pela cabeça, às vezes são tão rápidos os pensamentos que nem picam o ponto, há pensamentos speedy gonzalez, mas não penso muito nisso, gosto do rapaz, gosto dele pelo que escreve, só por isso, e ele a mesma coisa, mas, de repente, as mãos ganham vida, e eu a implorar-lhes, não escrevam isso, e elas de ouvidos moucos, disparam uma imagem e eu a suspirar, já está tudo perdido, eu a erguer as sobrancelhas e a pensar, agora é que lhe dá um treco, as mãos, com os dedos enrugados do banho, escrevem uma imagem que eu até já escrevi neste blogue, mas esse post era só um sonho, era pura imaginação e eu estou a escrever ao rapaz e as mãos dançam a um ritmo louco, traem-me e dizem-lhe: o que é que acontece quando se juntam duas pessoas que escrevem coisas que arrepiam até os pintelhos? Como é? Inspiram-se mutuamente? Aumentam gigantescamente a sua produção diária de caracteres? Ou um apaga-se para dar espaço, glória e reconhecimento ao outro? Em vez de beijos na boca, fazem um post? Em vez de sexo escrevem um blogue? Em vez de se casarem, escrevem um livro? Em vez de discussões, escrevem a encarnado, nas paredes do quarto, em folhas de papel de cenário, estrategicamente pregadas com pionaises na cabeceira da cama?
Como será?
Deixa aproveitar para pensar mais um bocadinho sobre isso. Deixa aproveitar, porque sonhar não paga imposto e a imagem é absolutamente deliciosa.

A glória

O blogue Glória Fácil repete-se a gracinha que o Chico, do Mau Tempo no Canil, fez o ano passado: sou eleita a melhor escritora.
It's the end of the world as we know it.
E apesar de não poder linkar, estou vaidosa.
Estou tão vaidosa que, são quatro e meia da manhã, estou completamente descascada com os decotes do costume, acabada de chegar do Tóquio, com um copito a mais, admito, e tive que ligar o computador da "xaxã" (maçã, em carolinês) para vir agradecer à Ana. E reiterar que, sabe-se lá porquê, tenho saudades das suas botas de estilo militar.
E agora deitar, que se faz tarde e amanhã trabalha-se na cobertura da maravilhosa percentagem de 0,7 por cento que o Garcia Pereira terá nas urnas (é a minha nova aposta para o Garcia).

Sábado, Janeiro 21, 2006

Mais sinais

Estavam tão apaixonados que até faziam ginástica sincronizada: apesar da imensa distância, abriam o blogue um do outro em simultâneo, na mesma fracção de segundo.

É obra, rais'parta!

Créditos pidescos: statcounter.

Acordar

Hoje, acordei com um assessor do Provedor de Justiça colado à minha pele. Literalmente. Num post it o seu nome e o telemóvel. Que raio de sinal é este?

Que a casa está a precisar de ser arrumada, naturalmente, que nos meus lençóis já se faz arqueologia, magia e bizarrias, diz a filha da mãe da terra-a-terra Srª Dona Prudência. Hoje as fadas não andam por cá. Nem as do blog, nem as do lar. Deixaram tudo para mim, como se eu já não tivesse trabalho suficiente. E deviam saber que sem uma ajudinha eu não vou lá.

Sexta-feira, Janeiro 20, 2006

LSD. Outra vez.

A história interminável.
Outra vez. Foi sem convicção.
A história interminável ou a história da banda sonora do meu casório?
Mau... É a isso que chamas convicção?

Vou casar com rugas, com uma cicatriz enorme no ventre, com um anjo loiro de cabelo encaracolado atrás e franja perfeitamente lisa a levar as alianças, é certo, mas vou casar com um noivo incógnito, cujo paradeiro ainda se desconhece - se eu for como o avô Oliveira, o meu noivo acabou de nascer há muito pouco tempo, ainda diz pouca coisa, ainda tem rabo de fraldas, só o vou conhecer aos 50, com a menopausa enterrada junto com os afrontamentos, e ele terá acabado de fazer os 25, ainda a disfunção eréctil será apenas uma miragem -, e eu quero casar, eu até já fui ao Expo Noivos da FIL, arrastei o Pedro e o Leonardo, gostei do vestido mais caro, era da Dior, e na banca da dona Lena, no Pingo Doce da Conde Sabugosa, peço-lhe sempre para espreitar as revistas das noivas, papo tudo, hoje em dia, porém, evito ver montras das lojas da especialidade, é uma espécie de dor, o encalhamento, o apenas não ficar para tia porque tenho uma filha, depois vem a imagem da durona self made woman e fico menos nostálgica, quase que tenho orgulho da mulher que sou, a mulher criada pela mulher de pedra que é a magui, fico vaidosa do que conquistei em tão pouco tempo, 27 anos, mas tenho medo de continuar a viver depressa demais, geralmente não é bom sinal, é sinal que se morre antes do tempo, e outro dia, saiu aqui na tralha, três ou quatro posts abaixo, que estou adiantada para o meu destino, pois bem, concordo, bem observado, eu nunca quis, nunca gostei de me analisar, mas aqui simplesmente sai, não comando a mão, sou desbocada por natureza, e sai tudo. Sai tudo e a tendinite faz doer. Sai tudo, quase tudo, sai 70 por cento da alma e ela pasma-se com delicadeza com que expulso demónios - digo-lhes: Demónios, não querem mais nada? Um whiskyzinho? Um táxi para casa? E eles fumam sempre mais um cigarro, tomam sempre mais um Famous Grouse, mas acabam por aceitar a boleia, a Isilda da Retalis, que sabe o meu número de dez dígitos do crédito do pasquim de cor e salteado, sabe o meu e o do Dave também, manda sempre, para os demónios, que são demónios de categoria, um Mercedes com ar condicionado, estofos em pele e tabelier de nogueira, perfumado de baunilha, é o táxi 665+1 (quem leu o post sabe que eu não gosto de escrever o número da besta), e os Demónios foram educados em Oxford, sabem que não têm como dizer não, e entram no carro, dizem, em uníssono, todos sentadinhos lá atrás, a um motorista de enormes bigodes: é para a tralha, se faz favor. Chegam aqui, abrem a gabardina, e por baixo não têm nada, estão em pelota, e aqui sai tudo, sai quase tudo, e, por isso, à noite, eu durmo melhor, ainda assim, apesar do sono andar perdido pelas ruas da minha cidade, durmo melhor, ainda assim, acordo cansada, tão cansada, mas durmo melhor.
Mas quando eu me casar, já não vai ser a mesma coisa e, por isso, vou escrever sobre a história interminável. Está há muito prometida, está há muito na minha cabeça, aqui ao pé dos olhos, porque a vejo bem. Muito bem. Depois da amnésia, recordo-a como nunca. Sei os cheiros de cor, vejo tudo, os ganchos rosa do Hello Kitty das minhas tranças, sinto a mão da avó Tóia a segurar a minha com força, mãos ásperas, enormes, lembro-me de um stand que vendia alcatifas e móveis, uma barraca com artesanato de barro preto, panelas de três pernas de barro preto, sei, tenho a certeza, que havia outra baiúca onde se vendia pratos de barro naifs (não sei do trema, naif leva trema) com motivos campestres, e encontrámos uns amigos dos avós, lembro-me dos foguetes e das canas, do algodão doce, e da roda gigante, vejo tudo como se não tivesse sido há vinte anos.
Vou escrever sobre a história interminável, mas, como ela não tem fim, não sei onde hei-de parar.
Volta atrás com a palavra. Fica uma hora e meia no Altavista à procura de um ficheiro decente, apresentável, da Ária das Variações Goldberg, do JS Bach. Encontra-se. A versão original, para hapsicórdio.
Volta atrás, rebobina. Diz o dito pelo desdito.
A história interminável tem que sair bem, não sei se me entendem. Tem a Feira de São Mateus e o avô Oliveira de chapéu, de colete, tem os cinemas Alfa na Avenida Gago Coutinho, ou talvez seja o Nimas, não, o Nimas foi noutra ocasião, tem sonhos, tens pesadelos, tem cavalos que morrem do pântano dos medos, tem criaturas que se parecem com o meu primeiro gato, o Grieg, tem a Magui num quarto azul da Prússia, com posters nas paredes, comprados na Livraria Sinfonia da Avenida de Roma, tem-me a mim, muito pequenina numa cama de grades encarnada a tirar macacos do nariz e a espetá-los na parede azul, tem lençóis azuis escuros com flores berrantes, na cama do Leonardo, tem lençóis azuis turquesa com carrinhos na minha cama de bebé, tem medo do escuro, tem um candeeiro laranja camuflado com pó, tem, muitos anos mais tarde, conversas de messenger com o meu marido literário sobre a primeira vez que escreveu numa folha de papel, por fim, tem o blog do da..
Este tem que sair bem. Os textos andam perros, falta-lhes o óleo lubrificante dos dias mágicos. Falta-lhes o barroco, a folha de ouro, falta-lhes a arte da filigrana, voltas e voltas e mais voltas, que giram e giram, voltam a girar, que, no fim, dão que falar, voltas que são pesadas e são leves como os corações de Viana.
Um dia vou casar. Não pode ser de outra forma. Com rugas, com cabelos brancos, com filhos, com muitos, ou só com esta de olhos azuis, que dorme na assoalhada que fica do meu lado esquerdo, o do peito, com os meus filhos, talvez com os dele. Vou entrar na sala (eu queria uma igreja, mas não faz sentido, não sou católica), e o pianista vai tocar a ária, se eu continuar a viver no limiar da pobreza, se o noivo não for milionário, porque eu já sei que a Magui é anti-casamento, não me vai dar um tostãozinho, assim como assim, será para divorciar, se eu for uma tesa, o Hugo carrega no play da aparelhagem e o CD tocará, o Leonardo vai levar-me ao desgraçado que aceitar aturar-me por uns tempos e eu vejo sempre o avô Ralha lá à frente, mas não sei se ele ainda cá andará - e eu tenho pena, avô, de não o ver tantas vezes quantas eu desejaria, já lhe dei uma bisneta, sei que no fundo, também lê os meus artigos, sei também que lê com mais atenção os do Leonardo, foi sempre assim, não faz mal, eu sei que deve ter ficado feliz quando andei atrás do Carmona, deve pensar que agora ando no mau caminho outra vez, por estar a seguir o Garcia, e quando o avô morrer, eu vou chorar, eu vou chorar porque descobri mais sobre si numa entrevista da revista da Ordem dos Farmacêuticos, do que em 27 anos de idade -, imagino poucos amigos, a Magui feliz sem querer mostrar, os meus tios com os olhos brilhantes, a Mónica, minha madrinha, deslumbrante, já com o anel no dedo, o anel de noivado, não stresses, Mac, a thê e a malmequer como damas de honor com flores de laranjeira nos cabelos (ahahahahahhaha, sou mesmo tola), eu vejo assim o meu casamento, e quando o senhor do notário perguntar: é de sua livre vontade blá, blá, blá?, eu vou repetir o gague da minha tia Atilde, a dos cabelos pretos asa de corvo, a que está com Alzheimer, se é que já não se finou: "Oh sua besta, se não fosse de minha livre vontade, acha que eu estava aqui?". E o noivo vai corar de vergonha, mas vai adorar-me mesmo assim, como eu sou, bruta como um diamante por lapidar.
Eu sonhei assim. Mas a Magui não me devia ter comprado tantas Barbies. Não me devia ter dado a ler os contos da condessa de Ségur.

Goldberg

Eu sei que escrevi que não gosto de blogues que disparam música sem pedir licença.
Mas há excepções. A Aria das Variações Goldberg, do senhor João Sebastião, é a minha excepção.
Adoro a net, ela adora-me a mim, trouxe-me numa bandeja de prata a partitura original da Aria, que está guardada a sete chaves num museu não sei onde. Descobri este jpeg algures, bem aventurado seja o Altavista (o Google deixou-me ficar mal hoje), esta música e as suas três dezenas de variações foram escritas para um senhor que tinha insónias, a mim não me dá sono, dá-me pele de galinha, põe-me todo os cabelos e pelos iriçados, há quem diga que nem foi o Bach a escrevê-las, foi o seu discípulo Goldberg, pouco importa, é perfeita, a música, a pintura, a literatura e tudo o que há de belo são de quem as apanhar, são de quem se comove, de quem as sente grudadas na pele e esta é a versão original, tocada em hapsicórdio, se bem que eu gosto mais em piano, ou em cravo, mas gosto mesmo do piano, no site erudito de onde saquei a pauta, diz: siga a partitura à medida que a música toca, e apesar de eu não saber ler esta estranha linguagem de breves, colcheias, pausas, claves de sol e de fá, faz tudo sentido. Demasiado.
E mais logo, quando eu estiver mais uma noite sozinha, na Marta, sentadinha no sofá laranja, nascerá o post das Variações, que comecei aqui no jornal, mas que ficou coxo por falta de tempo e de notícias que falharam.
Por enquanto fica só a música. E o teasing. Gosto de tease. O meu nick do messenger nos últimos dias tem sido Miss Teaser.

Faço minhas as palavras do espelho

Cavaco, mesmo mais próximo da minha área política, não representa a pureza e o romantismo político que apenas Garcia Pereira ainda conserva. Porque Cavaco é o hipermercado e Pereira o comércio tradicional; porque Cavaco é o porta-aviões e Pereira o barco rebelo. Porque Cavaco não cola cartazes e Pereira fá-lo com a convicção que essa é tembém a sua missão numa luta que insistentemente tem travado ao longo da vida.Garcia Pereira é um lutador romântico. Tem evoluído, é certo, já não poria bombas ou defenderia a revolta do proletariado, mas continua fiel a um sonho que morrerá sem ver concretizado mas que nem por isso deixará de lutar por ele. Garcia Pereira foi esquecido e quase humilhado pela comunicação social, no entanto, segue o seu caminho, tendo feito a sua melhor e mais lúcida campanha de sempre, tendo sido o melhor candidato.Por isso, o meu voto vai para Garcia Pereira, não por aquilo que defende, não por querer que seja presidente, mas pelo homem que é, e para mim isso vale muito, vale quase tudo. E sem medalhas para oferecer, ofereço-lhe o meu voto.

Roubado descaradamente ao old-mirror.blogspot.com. Ia escrever qualquer coisa muito semelhante. Domingo, pela terceira vez na minha vida, voto PCTP-MRPP, voto Garcia Pereira.

Pesadelo. Reloaded.

Voltaram as insónias.
Este pesadelo é real. É recorrente. É um comentário neste blogue. Acordo sempre a chorar. "Leio-te. Ass: três iniciais de um nome profissional listado na comissão da carteira profissional de jornalista"
Quando eu acordar, ligar o Gmail e o pesadelo se concretizar, a tralha morre.
Não digam que eu não avisei.
Ninguém é viciado em estatísticas se não tiver listado o seu quintal no weblog. O meu não está nem nunca estará. E eu gosto de holofotes. Eu gostava de entrar nessa guerra e, de vez em quando, gostava de linkar os meus amigos bloggers de referência sem ter medo de ser descoberta por uma enorme multidão de leitores. Nunca se perguntaram porque é que eu sou viciada nas minhas estatísticas?
Hoje, o pesadelo andou muito perto. E eu, dificilmente, conseguirei dormir.

Quinta-feira, Janeiro 19, 2006

Pesadelo

Enquanto namoravam, na caixa dos comentários, debaixo de um ficheiro mp3 fora de lei, que não sabia o que era isso dos direitos de autor, apareceu um bicho mau, um fantasma de um passado não muito distante. E ela jurou que nunca mais voltaria a comentar. Aquele namoro acabou ali, no mesmo sítio onde nasceu. Foi um amor de Inverno.

A triste sina do vestido preto com rosas brancas

O vestido.
Mais um.
Este vestido foi comprado num sábado de penitência judicial (o tempo sara tudo, já não chamo mulher da vida à senhora).
Num sábado em que o cartão multibanco não teve descanso, lá para os lados do Chiado, e a pobrezinha da Astride, sempre fiel, sempre ao meu lado, a acompanhar-me de aparelho de titânio cravado nos dentes, numa dor branca, que não mata mas mói.
No Sábado em que encontrei o Zé Ralha na Praça da Figueira envergando um molho de papiros gigantes (algures semeado neste quintal, para aí em Março, às portas da Primavera: está tudo na minha cabeça, mas eu nunca fui boa nem para datas, nem para nomes).
No Sábado em que pus os pés pela primeira vez na Confeitaria Nacional e ontem, apenas para que fique em acta, saboreei o primeiro mil folhas dos 27 anos que carrego em cada perna, em cada ruga, em cada cabelo branco – nós, os conservadores, somos atreitos à mudança, eu gosto de palmiers simples e cobertos, e quando a Pastelaria São João, na Avenida de Paris, tinha pintado, no estuque das paredes, uma réplica naïf do quadro São João, do pintor espanhol Murillo, (deixa ir ao Google procurar o quadro), com uma placa a informar que dizia: “São João Baptista, de Murillo – Réplica, não fosse a velhota mais incauta pensar, a meio do seu chá e da sua torrada, que aquele era o verdadeiro e que o que está no Prado é que é réplica, e quando eu me sentava com a avó Zá (primeiro íamos à leitaria da UCAL), numa mesa junto à janela, sentavamo-nos sempre ali, quando o São João não era um café com as paredes forradas a azulejos brancos, indiferenciados, e havia para além do São João Baptista outro “fresco” com uma perspectiva impossível da Igreja da Praça de Londres, eu também gostava de palmiers recheados, com um creme branco, tipo chantilly, eu sonho com esses palmiers, mas nunca mais os vi, só há nas pastelarias uns exemplares recheados com creme amarelo de ovos, e eu não gosto de doces com ovos, pudins, iguarias da região de Aveiro, relíquias conventuais não me excitam e as ancas agradecem, ai se agradecem, e eu como sempre bolos de arroz, dos verdadeiros, dos feitos com farinha de arroz e não as falsificações, gordurosas como queques que se vêem por aí, os que têm papel na base, é o meu bolo favorito, depois vem o xadrês, depois, talvez, o vává, e agora mais recordações de verões passados, na pastelaria Doce Beira, a dois passos da nossa casa de Viseu, vávás – não como vavás há tantos anos – devorados em banquinhos volantes ao balcão, mas eu nunca tinha comido um mil folhas e nem é mau de todo (o mesmo se aplica ao presunto e à sapateira recheada, mas continuo a ter as minhas reservas ao salmão fumado, ao caviar, aos camarões e percebes, que teimei durante anos odiar sem nunca ter provado).
O vestido não merecia. É um bom vestido. Lindo. Que me favorece. Devia ficar como o vestido com o qual aterrei nos Emirados Árabes Unidos, depois de uma viagem de avião de oito horas. Ou de um jantar em que a Qui Qui confundiu erva com coentros (foi estreado nesse jantar, nesse jantar memorável, que estreou os posts fotográficos deste blogue). Mas não. É o vestido da pior sessão de intimidade da minha vida. Recordação feliz, porém, sentada num sofá, vestido já no corpo, descalça, soutien abandonado algures no chão (e por lá ficou algum tempo – eu não posso ser amante, deixo sempre provas, uns brincos, um anel, cabelos, até soutiens), cigarro na boca, estás perfeita, posso tirar-te uma fotografia?
Não tirou, não deixei. Parece-me que este tem registos, como no fabuloso post do Francisco que eu não posso linkar – coisas da vida, quem o manda ter um blogue famoso. E a seguir ao meu nome, e à minha foto, perfeita, com o vestido preto com rosas brancas, viria: “a que ressuscita os mortos”.

O que tu me fazes

Toda a gente tem os seus inomináveis, os seus incitáveis, os seus inlinkáveis (palavra nova, que acabo de inventar) fechados na gaveta, escondidos entre as cuecas e os soutiens.
Brincar às escondidas é muito giro, ao quarto escuro também, mas na penumbra todos os gatos são pardos e parvos.
Este poeta escreveu um naco de prosa que eu quero partilhar com a audiência silenciosa. E toda a gente devia enterrar os senhores que não se podem nomear, citar, ou linkar.
É que sabe mesmo bem poder linkar à vontade.
Aqui.

Fotos. Para variar.

De um dia em que a minha mana me apanhou a escrever um amor perfeito. Ainda no Toshiba. O meu saudoso Toshiba, que está muito bem entregue aos cuidados de um amigo que anda às voltas com o seu livro.






Espero que o Toshiba seja tão generoso como foi para mim.

Quarta-feira, Janeiro 18, 2006

Sonho

[e a História Interminável continua em draft, e há ainda um outro, a ser escrito no Word, apenas por falta de auto-estima e confiança a passear no piso menos cinco - ando a dar erros de quarta classe e o corrector ortográfico da aplicação da Microsoft sublinha a palavra sempre que eu enfio um prego a martelo na língua de Camões]

Conheceram-se por acaso na caixa dos comentários, era um T0 minúsculo, onde, às escondidas de todos os outros comentadores, trocaram o primeiro beijo, um beijo feito de palavras.
Começaram a namorar ainda eram "anónimos", num post florido de arrobas e ela soube, nesse preciso momento, que tinha encontrado o amor. De olhos fechados, não precisava deles para escrever mais beijos, fez uma promessa: iria até ao blogspot de joelhos, agradecer à Santa Google, por ele ser um blogue democrático, com caixa de comentários aberta a todos os anónimos da blogosfera. De vez em quando, porém, ele censurava comentários e ela zangava-se, zangas sérias em que passavam dias sem escrever um post.
Cimentaram aquele amor no Gmail, foi ali, nesse país cotado na bolsa, que ele lhe disse uma tarde que queria passar todos os dias a seu lado e ter muitos blogues que fossem tão bonitos como os da mãe.
Na noite de núpcias, fundiram os seus blogues num só.
E viveram felizes para todo o sempre.

[Eu sonhei isto. O pai do LSD fez cem anos há pouco tempo, mas, por mim, podia nem ter nascido, os alucinogéneos estão-me nos genes]

Ode à Ana

A Ana foi-se embora, não sei porque me faz falta, nunca fomos amigas, nunca trocámos mais do que cinco minutos seguidos de banalidades: a Ana dizia, no fumódromo do piso de cima, onde eu antigamente me deslocava amiúde para fumar cigarros com o senhor que se assemelha demasiado à imagem que faço de Deus, que o meu cabelo estava muito bonito, e eu retribuía como podia, gabando-lhe as botas de estilo militar, cobiçando-as mesmo, e eu devo ter sido das últimas a saber que a Ana se ia embora e, na altura, a única coisa que me ocorreu dizer foi que ia em grande estilo, com um corte de cabelo excepcional. Um dia, soube que a Ana lia a tralha, nesse mesmo dia, o desbroncado do inominável mais citado deste blogue, revelou-me que muita gente "importante" lê o meu quintal e eu levantei a sobrancelha direita e tive medo de voltar a escrever. Noutro dia, estávamos os três na varanda aqui do meu lado direito, com vista para os plátanos agora nús da Viriato, e a Ana disse, a despropósito, tu escreves muito bem. É de uma liberdade... E eu fugi, envergonhada, sem saber como gerir esse elogio.
A Ana foi-se embora e eu não sei porquê sinto muito a sua falta.

Festa, festa (eu não posso ir, mas se pudesse...)

Esta sexta-feira, festa da última sexta-feira sem Cavaco Silva em Belém, na discoteca Europa.

Terça-feira, Janeiro 17, 2006

De mansinho

Eram 22 horas e 17 minutos, o episódio do CSI tinha acabado, os assassinos presos, a mulher queimada e grávida do melhor amigo do seu marido abriu um olho, foi a última frame, são quantas frames por segundo?, 16?, 24?, não me lembro, a Magui preparava-se para mudar do AXN para o GNT, a Magui está viciada no canal brasileiro, a malga do caldo verde descansava no meu colo, a Carolina brincava com os gatinhos bébés - é o gatino bébé, dizia, entre os meus automáticos "cuidado Carolina" -, a minha mãe fumava um Português Suave Amarelo e eu ergui os olhos do azulejo do chão que está partido, partido pelo arremesso de um cinzeiro de pedra pela minha filha, e disse: "Foda-se, era tão simples".
E depois levei o polegar e o indicador da mão direita ao início da cana do meu nariz, a tocar no orifício de onde saem as lágrimas, ainda pensei que bom que foi chorar hoje, e no fumódromo, o chefe preocupado comigo e eu a explicar-lhe que no dia em que soube, no corredor, que se preparavam para me sodomizar (a ausência de calão neste parágrafo é para o meu leitor anónimo; já está um asneiredo lá em cima) novamente, depois de eu abdicar da minha filha tantos dias consecutivos, chorei de raiva, chorei sem lágrimas, e eu, chefe não te preocupes, eu agora rio-me, sou incapaz de verter uma lágrima, estou crescida, já chorei muito, mas quando eu estava com o polegar e o indicador como molas da roupa na cana do nariz ainda pensei, numa micro-fracção de segundos, se calhar está entupido, se calhar tenho que beber mais líquidos, mas fechei os olhos, franzi o sobrolho, imprimi mais umas rugas no canto dos olhos, baixei a cabeça, abanei-a para um lado e para o outro, em sinal de reprovação, tudo isto sob o olhar atento da Magui que não estava a perceber nada e que deve ter ficado preocupada porque não lhe expliquei de que se tratava - a Magui sabe que eu tenho um blogue, onde escrevo demais, onde escrevo as histórias sinistras da família que ela de quando em quando vai deixando transpirar pela sua pele muito seca e muito branca, mas não sabe o que é a Internet, já viu, já lhe tentei pegar o bichinho, mas ela não tem tempo, cuida dos gatos, dos cães, dos pombos, dos piriquitos, dos melros e ainda cuida da neta -, e também não vou escrever agora.
Mas acho que estou a dar em doida. Hoje, depois do apagão da memória, abri a conta do Gmail desta tralha, com o intuito de dizer a um leitor que o sigo com muita atenção, que gosto de ver o que os seus olhos vêem, de ouvir as cordas dos violinos que tocam no seu bonito blogue (acho que é o mais bonito que eu já vi) e quando me aparece a inbox à frente dos olhos, surpresa, magia, abracadabra, pim pam pum, e andava eu hoje a queixar-me que os dias andavam muito normais, que nada de extraordinário acontecia desde Sábado, desde o vestido voador que aparece na caixa do céu aos trambolhões para ser estreado numa noite quente, e aparece-me o leitor como que por transmissão de pensamentos, mas antes, antes de abrir o e-mail dei para desafiar o destino, pedi-lhe: dá-me dias menos iguais aos anteriores, por favor, faz isso porque senão eu definho, e faço o login e a inbox tem um e-mail que se chama "de mansinho", foi baptizado por mim, ele fez reply de um mail muito antigo que eu lhe enviei, e repete-me que eu escrevo de uma forma crua e nua, e eu não concordo com o crua, acho que a minha escrita é meia barroca, cheia de folhinhos, de bordados à mão, de rendas de filet, quanto ao nua, é, de facto, a minha imagem de marca, por isso é que há tantos olhos a pairarem por cá todos os dias, porque uma mulher despida é um espectáculo difícil de se resisitir, e eu não sei quem ele é, sei que ele gosta de me ler, que acha que eu sou neurótica, que, às vezes se diverte, e eu apenos o sinto muito próximo de mim, a pisar a mesma calçada que eu piso todos os dias, e o post da Feira de São Mateus e das farturas tem a ver com o seu último post, e eu escrevi-lhe sobre esse post, porque me impressionou logo pela manhã, e como é que eu não me lembrei que era sobre isso que eu queria ter escrito dois posts abaixo. Cansaço? Loucura? Não sei. Mas porque raio é que só me lembrei no final do episódio do CSI?
Estou perturbada. Não consigo escrever uma história interminável esta noite. O post, o próximo, chama-se assim mesmo: história interminável.

Frases soltas; frases que são tudo menos feitas, que vai na volta até são premonições

desejo[me] diz: contigo foi mais assim
desejo[me] diz: tu vê lá, Maria Teresa, se a menina da bébé não é lésbica
desejo[me] diz: e eu desato-me a rir
desejo[me] diz: e ela logo a seguir: não posso ver novelas malucas à noite que me fazem sonhar muito
Grande [G]ralha diz: Ai, as premonições da Dona Ester...

(...)

Grande [G]ralha diz: Eu podia casar com aquele homem
desejo[me] diz: Pois podias
desejo[me] diz: Se ele fosse fiel

(...)

Malmequer diz: GRANDE POST!
Malmequer diz: O texto é lindo
Malmequer diz: Não percebo é como um cão te põe a escrever tão bem...

Amnésia - post decepado na Feira de São Mateus

Na Feira de São Mateus – quem será este santo?, e lá estou eu com as minhas dúvidas biográficas acerca dos Santos, who cares?, porque é que eu me consumo tanto com o que não vale a pena, com o que é acessório e, depois, o essencial esfuma-se, todas as noites, nas beatas que se acumulam no cinzeiro, e o cinzeiro nem sequer é um cinzeiro, é um pedaço de vidro laranja que nasceu para ser a cama de uma vela, não nasceu para ser depósito de beatas, mas é mesmo assim, não é? Todos nascemos fadados para um determinado destino, mas às vezes chega-se tarde, o despertador não tocou, os lençóis estavam quentes, o dia estava cinzento, só mais cinco minutos, já vai, e havia trânsito, pára-arranca, buzinadelas, suspiros, ajeita o cabelo no espelho da pala do sol, suspira de novo, um cabelo despigmenta-se nesse preciso instante e fica branco, ou nasce dessa mesma cor de geração espontânea, é que nem todos andam na faixa do BUS despudoradamente como eu, nem todos pensam a 300 à hora, nem todos se preocupam com quem foi o São Mateus e, se calhar, eu não cheguei tarde, não estou atrasada, cheguei mas foi cedo demais e fico com um nervoso miudinho quando estou à espera –, uma vez comi tantas farturas com o avô Oliveira que, só 16 ou 17 anos mais tarde, numa madrugada alta do dia de Santo António, na Praça dos Restauradores, à procura de um táxi que me levasse a casa, desde a casa dos Bicos, com umas meninas aflitas dos pés uns metros atrás, é que voltei a enfiar um frito daqueles pela goela abaixo, com muito açúcar e, ou a fome era muita, ou então o recalcamento de uma noite passada em branco a vomitar há muitos, muitos anos atrás, se apagou com o passar dos dias.
E se eu vos disser que não me lembro a que propósito vêm as farturas e a Feira de São Mateus, acreditam? Fugiu. Desconhece-se o seu paradeiro. Foi apanhar sol, e eu queria agarrar nas duas adolescentes esquizofrénicas e na minha loira e plantá-las ao sol, ouvir os gritinhos histéricos da Carolina ao ver as conchinhas e o mar, o post foi para lá sozinho, gostou da imagem da minha cabeça, fez as malas e partiu sem se importar com quem ficou para trás com um texto decapitado.
Era prudente parar. Mas eu não posso parar, guardem as facas na gaveta, fechem as janelas, não se atirem, não posso parar, apesar de me começarem a irritar os erros ortográficos que nunca dei (se eu paro de escrever não tem acento como eu escrevi, raios, que merda é esta?) e que começam a poluir este blogue como tortulhos (tortulhos são cogumelos em dialecto beirão, esta é uma expressão que a Magui utiliza amiúde e eu sempre gostei da palavra amiúde, é mais um ensinamento perdido do Zé Ralha – e ontem, sem aviso, a descer a Rua do Século vinda do Garcia, descubro que a minha madrasta também lê a Tralha e fiquei em semi-transe, acho que disfarcei bem, mas fiquei em semi-transe –, há uma música dos Xutos, “de Lisboa a Bragança são nove horas de distância, queria ter um avião para lá ir mais amiúde”, e não a miúda, como toda a gente cantava, e o senhor até me ensinou muita coisa e ontem, na loja do Dirk, ainda sorri com a Manuela a lembrar quando ele teimava em armar os filhos, os enteados e todos os seus amigos cavaleiros com o cabo de uma vassoura, e garanto-vos que doía, e também me ensinou a ajoelhar, uma princesa ajoelha-se apenas com uma perna, as coisas úteis que aquele homem me ensinou…).
A culpa deste post manco é de um outro vizinho (outro dia escrevi vizinho com ésse) que não posso linkar, por razões de segurança. Turvou-me os olhos, já não chorava há muito tempo, a beleza continua a comover-me, ao menos isso, já que as aberrações me dão vontade de rir à gargalhada, é um post sobre avós, como o meu era, mas pelos vistos, a beleza também me dá amnésia.

Segunda-feira, Janeiro 16, 2006

E se eu paro de escrever?

Há muito tempo, escrevi um post com o mesmíssimo nome, e nesse naco de prosa, bem cozido, por sinal, estaladiço, ilustrado por uma fotografia da minha caligrafia impressa por uma Dupond de prata nas folhas amareladas de uma Moleskine, eu declarava ao mundo o início de uma relação perversa e deontia, que alimentei a pão de ló de Alfeizarão durante cinco meses - um amor por correspondência, cujo fermento era apenas palavras, frases que se grudavam na pele, frases que encantavam, frases que faziam doer como sal nas feridas, se assim fosse preciso.
E nessas linhas, que não preciso sequer de rever - a grande maioria dos meus posts estão em backup na minha cabeça, o Blogger pode ir ao ar, as cópias que guardo no Gmail com a label empantanas também - eu dizia, e isto foi a meio de Agosto, que, a custo, ia continuar a arranjar frases, num processo tão doloroso quanto prazenteiro. Porque não era pelos meus lindos olhos azuis, porque eu não tenho olhos azuis, tenho-os apenas nos meus genes (tenho a certeza que escrevi esta frase, sem tirar nem pôr). Era pelo que eu escrevia. Eu não me posso dar ao luxo de deixar de escrever, escrevi eu há muitos meses atrás.
Mantém-se. Só já não é para ele. "Tenho uma audiência esfomeada para alimentar", escrevi eu ao RR, em jeito de justificação da produção frenética desta tralha. E antes tinha escrito às minhas duas adolescentes esquizofrénicas, a dos malmequeres e a dos sapatos liláses: "Acho que vou desmaiar". Escrevi isto, fechei os olhos, e com eles bem fechados, vi bolinhas amarelas e ouvi um ultra-som insuportável.
Mas hoje, apesar de ter tomado café na Hagen Dazs com a Marta e de ela falar como os homens, de lhes ter lido a cartilha, a tal que injectam aos meninos mal eles acabam de inspirar o primeiro oxigénio das suas narinas, apesar de o meu coração ter estado em vias de rebentar pela primeira vez desde Dezembro, e de a médica de Medicina do Trabalho ter tido ganas de discar 112 e de eu a ter impedido, e depois de me ter mandado para casa imediatamente sem apelo nem agravo, e eu, nem pense, tenho um texto para escrever, aos 23 anos tive a minha primeira macacoa, 17 de mínima, 27 de máxima, 160 batidas por minuto, aí sim, tive que parar, doutora, fui para o Hospital porque não aguentei quatro serviços num dia e uma greve geral da função pública, e eu sem conseguir respirar numa conferência de imprensa, sem conseguir respirar na linha amarela do metro, e depois a máscara do oxigénio no nariz no centro de saúde e eu a pensar no desgosto que a minha mãe teria quando soubesse que eu tenho um coração fraco, mas antes, a senhora da farmácia muito aflita e eu: só preciso de uma embalagem de Nasex, não consigo respirar, estou um pouco aflita, tenho o nariz entupido, eu a suar em bica e ela sente-se, sente-se, a menina não está bem, e mede a tensão com os aparelhos automáticos e aquilo dá erro, mede com o manual e não acredita, chamem o INEM, grita, e eu, calma minha senhora, eu tenho que escrever três textos, ninguém chama o INEM coisa nenhuma, aliás, eu chamo o INEM, o meu ex-marido socorre-me, vem a voar, e assim foi, e ainda escrevi um texto, mas hoje estava só a 10 de mínima 18 de máxima, 110 batidas por minuto, isso nem é taquicárdia que se apresente e tenha calma, eu não estou nervosa, isto já passa, e eu devia, mas para que é que lhe ia contar, que trago um segredo no meu peito que às vezes me destrói, como é que lhe explicava que tenho o coração descompassado por uma história que é feia demais para ser contada, e nos registos da Unimed, de há quase três anos atrás, eu pesava menos dez quilos, eu tinha uma depressão enorme em cima dos cornos, mas a tensão era estável, normalíssima, 11/7, e eu estava grávida, foi esse médico quem me disse para ir comprar um teste à farmácia, eu estava grávida e já o sabia, disse-lhe que tinha medo de estar grávida, e nessa consulta eu fiz tudo, mas tudo, para ele me considerar inapta para o trabalho, disse que ouvia vozes, que não tomava os ansiolíticos, apenas os excitantes, que me drogava, que bebia muito, que misturava tudo no shaker e tomava de um trago só e quando me pediu para ler as letras eu inventei um novo alfabeto, mas, no fim de tudo, disse-me apenas para eu ir comprar um teste de gravidez e considerou-me apta para trabalhar. Apesar de tudo isto, dizia eu um parágrafo acima e muitas vírgulas depois, não consigo escrever as frases que estão na minha cabeça.
E se eu paro de escrever?

Domingo, Janeiro 15, 2006

O vestido e as fadas

Neste meu mundo de quartos andares sem elevador, de amores impressos com tinta permanente nas paredes do hall, de amigos improváveis nas esquinas da blogofera, há magos, feiticeiras, fadas e gnomos, há um Deus que usa blusão de cabedal e tem barba de três dias, tem tatuagens nos braços, tribais, do Tahiti (as sandálias, a túnica e barbas brancas, essas ficam num lugar onde raramente passo: o estereótipo). Há encontros de almas gémeas à 33.333ª visita deste blogue (também auguro bons ventos de mudança em relação ao visitante número 31.131 - não sei quem foi, hoje estive o dia inteiro a dormir, não xutei estatísticas na veia), a verdade é que eu vejo sinais em toda a parte: no estacionamento em frente à porta de casa pelo 8º dia consecutivo - moro no Marquês de Pombal e posso-me gabar disto, um lugar fora dos domínios macabros da EMEL, que o demónio em vias de ser anjo do estacionamento reserva só para mim, faça chuva ou faça sol, seja noite, ou seja dia -, e se apenas uma das três grafonolas de um blogue de referência teima em abrir, eu acho que isso também quer dizer qualquer coisa. Mas geralmente, não quer dizer nada. E eu sofro.
Este é o post do vestido, aquele que os gajos dificilmente entenderão, decerto nunca tiveram um frenesim quase orgásmico por encontrarem uma peça de roupa a preço de pechincha, nem tão pouco ficam felizes da vida, a rebentar de alegria é mais adequado, quando o pedaço de tecido parece que foi cortado e cosido à medida do seu corpo.
Eu sonhava com aquele vestido e nunca o tinha visto. Houve magia naquele provador. A Magui que nem é gaja nestas coisas, até disse, sentada no seu banquinho, de bengala, com calças de ganga tingidas de pingos de lixívia de ter estado a lavar o chão, com pouca pachorra para aturar a minha fúria consumista, mas deixando o seu cartão de crédito Mastercard à minha disposição: "É lindo!".
Corte perfeito, crepe de seda, decote até ao umbigo, cor beringela. O vestido foi feito para o meu corpo e isso quase nunca acontece. Mamas 34 (às vezes são 32, eu só estou a ser simpática comigo própria e sempre que escrevo estes números que me fazem desmamada, vem-me à memória um soutien de aleitamento tamanho 40 e sim, é mais forte que eu, suspiro), anca 42, é o cabo dos trabalhos, é uma tarefa titânica e que me dá cabo do ego, encontrar uma vestimenta dentro da qual não pareça uma baiana.
Nessa tarde de sábado, há uma semana, no dia do jantar da (T)ralha, as fadas costureiras daquela loja do centro comercial Vasco da Gama, labutaram sem parar a noite toda. E, à minha espera, estavam três vestidos maravilhosos: um verde (nunca tive um vestido verde, mas agrada-me, porque o meu marido literário tem uma personagem do seu livro que tem uma saia verde), um castanho e o tal, o beringela, o tal que até a minha mãe que não liga aos trapos que usa, disse: "ficas com o mundo aos teus pés com esse vestido".
E sempre que estou num provador e o trapo assenta bem, eu prevejo o futuro das vestimentas: "Aqui vou ser feliz", disse, plagiando o anúncio do banco que se chamava BCP e agora, porque é moderno, e não tinha mais do que fazer a uns bons milhares de euros, se chama Millennium (com dois éles e dois énes) e é cor-de-rosa fuchsia. E eu vaticinei noites quentes para aquele vestido, logo que o vi refectido nos três espelhos do provador.
Paguei, levei o saco para casa e quando vou a pendurar o ex-libris no closet, o drama, o horror: um pequeno defeito, um buraquito debaixo da mamoca direita. Enfia outra vez no saco, reza ter um bocadinho de tempo entre o Garcia Pereira para o ir trocar, lá para os lados do Parque das Nações.
Mas não houve tempo. Esteve no saco, no porta-bagagens do Idea durante sete dias. Passeou de um lado para o outro, o belo vestido defeituoso.
Sem grande esperança, rumei à loja no sábado seguinte. Expus o defeito, aceitaram de imediato a troca e a menina de cabelos volumosos disse-me: "Está com sorte, ainda há um". Mas não havia. Tinham acabado de o levar. "Vá ao provador ver se alguém o rejeitou" (como é que alguém o poderia rejeitar? Era perfeito!), nada, desolada, escolho outro, menos bonito, com mais tecido a sobrar nas mamas, levo também um par de sapatos que não gostava especialmente e quando chega a minha vez na caixa, quase vinte minutos de espera depois, a bufar, a poderar se ficava ou não com o vestido defeituoso, e a Magui a dizer que era caro demais para ter defeito, e quando estou neste dilema e aceito o inevitável, tenho que trocar o vestido beringela pelo preto e pelos sapatos que não são assim tão giros, a menina da outra caixa, que estava de costas para mim, tira um pedaço de tecido de seda beringela de um saco e deposita-o num monte de roupa rejeitada a menos de dez centímetros da minha mão que segurava o cartão de crédito da minha mãe, e eu: parem as rotativas já, mostre-me aquele vestido, veja se tem algum defeito, que tamanho é? Era a réplica do meu vestido. Sem defeito algum. Que aparecera sabe-se lá de onde, no último momento, para me fazer feliz.
Este vestido tem poderes, como as folhas da Ambar de cem gramas por metro quadrado. E quando eu o estrear, decerto, qualquer coisa extraordinária irá acontecer.
Se nada acontecer, tant pirre, como diriam as personagens dos filmes do Jeunet.

Sábado, Janeiro 14, 2006

Sábados

Já não são os dias mais odiados.

E eu tinha escrito um post sobre uma magia que aconteceu este sábado.
Pus em draft porque era meio aparvalhado, falava de vestidos - era um post para mulheres; os homens não entenderiam.
Mas os blogues às vezes fazem-nos mal. Abri o blogue errado. E o Sábado acabou mal, faltavam apenas dois minutos para acabar. Foi uma grande injustiça.

Sexta-feira, Janeiro 13, 2006

Sexta-feira treze

Sexta-feira 13 e vieram uns pinguinhos de chuva, se soubesse não tinha regado as floreiras hoje, pela manhã, e a estagiária mais doce que algum dia me passou pelas mãos (o mais doce foi o nosso menino, Carrie), ensinou-me uma das expressões mais bonitas que algum dia ouvi - eu fui buscá-la a Benfica para nos despedirmos no goês do Jesus, numa ruazinha esconsa por detrás do Martim Moniz e ela disse-me: desculpa o atraso, tive que tirar a roupa do estendal para não apanhar o sereno da noite, e as flores da minha janela apanharam o sereno da noite, tinham gelo nas folhas.

O aquecimento não está ligado: a chuva abraçou o frio, um abraço quente, e ele amansou, deixou-se ir, derreteu.

O azar não bateu à porta, mas a sorte continua perdida, algures na outra ponta da cidade, com o mapa virado de pernas para o ar.

No dia mais temido pelos supersticiosos, as meninas dos retratos a branco e preto sentaram-se num café ao Chiado, à janela, nem repararam na chuva que caía sobre a linha do eléctrico, e juntas demonstraram, a quem quer que tivesse prestado atenção - eu já disse que falo alto? -, que a série o Sexo e a Cidade podia passar-se, perfeitamente, em Lisboa, na Lisboa antiga, a que tem janelas de madeira, tectos trabalhados e chão de tábua corrida, e não apenas no papel de um guião, escrito para a cosmopolita Nova Iorque.

Cada vez gosto mais deste blogue. Que me trouxe amigas. Improváveis.

Mas estou cansada. Sim.

Sempre que acordo, a vizinha do prédio em frente, o prédio gémeo do que me escolheu como inquilina – é gémeo idêntico, diria que é siamês, está separado apenas por uma rua estreitinha – e o do outro lado da rua, onde vivem dezenas de imigrantes de leste numa mansarda que tem o tecto negro de bolor, a vizinha está sempre à janela a comer maçãs, dizem que as maçãs fazem bem aos dentes, que os lavam, e eu tenho que voltar a usar o aparelho à noite, a mandíbula inferior já está ligeiramente desalinhada, se calhar tenho que comer maçãs, quero bravo de esmolfe, ou aquelas outras verdes fluorescentes, muito ácidas. Eu acordo com o telefonema da Magui, durmo mais cinco minutos, tempo suficiente para sonhar um sonho inteiro com ficha técnica, abro os olhos ao primeiro “pi” do telemóvel, desligo-o, lanço os dois edredons para os pés da cama, sento-me, olho para a direita e lá está ela, sempre, entre um mar de calças de ganga, estendidos numa corda de nylon azul, já lhe aceno com os olhos inchados e de pernas ao léu, ela deve especular porque é que não tenho cortinas, e eu queria umas de crochet com passarinhos, ou com rosas, mas as artroses da Magui já não fazem milagres no mundo dos lavores, e a minha mãe loira de olhos azuis acinzentados nunca teve paciência de me ensinar, porque eu não aprendo rápido, eu não escrevo rápido, e eu até queria cortinas, não por pudor de a vizinha me ver as pernas, apenas porque não gosto das caixilharias de alumínio, e do outro lado da rua, as janelas são de madeira, pintadas de verde floresta, e eu invejo aquelas janelas, amaldiçoo o condomínio do meu prédio que não arranjou as escadas, mas que substituiu madeira pintada de verde por alumínio prateado, e a vizinha tem um filho, que tem uma mota de corrida cheia de autocolantes lá em baixo, e esse filho é baixinho e gordinho e as bochechas são rosadas como se tivesse bebido um copito a mais, esse filho é a cara chapada da vizinha e já me apanhou de cuecas e soutien encarnado – no primeiro dia da menstruação visto lingerie encarnada, hoje veio o período de surpresa, acho que anda a vir de 15 em 15 dias, mas não sei bem, deixei de tomar a pílula há mais de três anos e desde então é um totoloto, mas não tenho cuecas encarnadas, vá lá, estou vestida de demónio, até pensei comprar na lojas dos trezentos e quarenta escudos e oitenta e um cêntimos uma bandolete com corninhos de diaba, uma para mim e outra para a menina dos sapatos lilases, mas a vizinha tem outro filho, alto e espadaúdo, que rega os vasos das plantas que estão na janela e eu não posso jurar, mas acho que ele tem um vaso de cannabis ao sol, e ele é um homem lindo, deve sair ao pai, e já me apanhou de pernas ao léu a regar a buganvília e o jasmineiro e a cantar “Esquecida, a cada dia que passa”, e ele põe o canário amarelo sol à janela para ele cantar e eu a cantar do outro lado da rua, e ele a sorrir de esguelha e eu a pensar que, se calhar, plantou a cannabis com as sementes do bicho, as sementes dos canários são de cânhamo, por isso é que eles cantam desenfreadamente, com a moca, e eu não posso jurar, mas duvido da sua orientação sexual.
E a vizinha deve achar tudo muito estranho, a do lado sabe que às vezes vêm uns homens fora de horas até à Martinha – e vêm é só com um é, porque vêem é de ver porque tem dois olhinhos, diz-me a menina malmequer, minha copydesk de serviço –, porque esporadicamente, muito esporadicamente, vou à janela dar-lhes o mapa do tesouro pelo telemóvel e eu falo alto, a minha avó Zá estava sempre preocupada porque eu falo muito alto, devo ouvir mal, ela preocupava-se muito com a minha aparente surdez e com os meus joelhos tortos, qualquer dia, vó, com duas décadas de atraso, vou ao otorrino, e se calhar, depois vou à casa Sonotone, e quando os homens chegam às traseiras do Palácio Sottomayor eu aceno da minha janela que não está muito florida, que está mesmo desoladora, diria eu, ando descuidada, apenas as rego e toda a gente sabe que não basta regar, é preciso falar com as flores, dizer-lhes bom dia e tchau e um beijinho, e a vizinha do lado sabe que eu não tenho votos de castidade por causa dessas visitas. Mas a vizinha da frente vê-me sempre a acordar sozinha de pernas ao léu.
“Não mando uma há séculos”. Eu digo isto ao inominável, na varanda onde os fumadores desta redacção apanham pneumonias, e ele fica verde da cor da fachada que está cheia de rachas, calham-me sempre na rifa gajos de esquerda pudicos (e pudicos não leva acento no u, e caracteres – e já vou nos 4229 – devia levar, mas eu não me conformo com isso e, portanto, escrevo caracteres em vez de carácteres). E eu escrevo em resposta a um email perturbador de um outro inominável, que é tão narciso, tão narciso que põe como subject do email – uma bela surpresa, o email –, o seu próprio nome, eu digo-lhe, por favor, não me habitues bem, que eu ainda me apaixono por ti, mas depois do aviso, confesso: também só fodo quando me apaixono. E não fodo há muito tempo. Com este último, sobre o qual tanto escrevo, não estava certa que o amava, amava sim, a ideia de um amor por correspondência, de o ter atraído até mim, do nada, apenas por causa do blogue e, por isso, no fuck, (…) e deixa-me ressalvar uma coisa, já estou a falar demais, mas que se dane, perdido por cem, perdido por mil, eu geralmente não me gabo do meu conservadorismo sexual, mas eu ando puta da vida, porque tenho uma fama de fodilhona, que vou para a cama com este e com aquele e, se calhar devia, da última vez que o fiz acabei com uma loira linda nos braços, mas eu continuo a achar que não há nada pior do que uma gaja mal fodida, enfim, e eu prefiro não ser fodida de todo.Mas estou cansada, sim.

Quinta-feira, Janeiro 12, 2006

Mau sexo < Nenhum sexo

O Leonardo avisou-me logo ao final da manhã, eu vim buscar o telemóvel, lindo serviço, vai para o coração de Chelas sem meios de sobrevivência, e agora como é que chamas o Táxi? Procura um multibanco, procura uma cabine, procura o metro, procura um café, procura tudo isso e só encontrei o café e vim a casa buscar o telemóvel, depois de pagar 75 cêntimos por um impulso numa tasca onde a dona, muito loira, dizia à filha, muito morena: se te apanho no namorico depois das aulas levas uma tareia que nem te alevantas, assim mesmo, como acabaram de ler, alevantas, vim a casa e aproveitei, lavei o resto dos copos que jazem na bancada de mármore desde o fim de ano - o que é que isso diz de mim? ter seis copos por lavar há onze dias? que sou um péssimo partido? uma execrável fada do lar? -, não cheguei a lavá-los a todos porque, mais uma vez, fiquei sem gás, e desta vez até comprei a botija, carreguei-a às costas, como um estivador, 60 degraus a pique, mas o esquentador tem humores, maus humores, demora meia hora a acender, e eu a adiar o inadiável, amanhã de manhã, já sei, acordo meia hora mais cedo, fico de olhos fechados com o polegar a carregar fundo no botão, ainda a dormir troco de mão, troco de dedo, amanhã vai ser assim, mas ontem, aproveitei ter vindo buscar o telemóvel e porque não há que ter medo de o dizer: sou pobre, não compro sapatos desde Outubro, acabaram-se esses tempos, não há dinheiro não há vícios, só o tabaco, mas, qualquer dia, nem esse, vim buscar o telefone, tentei lavar os copos, deitei o lixo fora, e sim, almoçei em casa, aqueci um minuto, no microondas, um hamburguer com queijo do Lidl, e o Leonardo tinha-me dado a notícia: carta registada da minha vizinha divisão de trânsito da PSP. Mas eu esqueci-me, depois lembrei-me, ia já a sair de casa da Magui quando me lembrei da carta registada, abre a carta, vê a multa, eu sei que é populismo, eu sei que é demagogia, mas o PR só dá indultos a assassinos, perdoar multas de estacionamento, está quieto, por isso, amanhã, são trinta euros, dona Ralha, por ter estacionado com uma roda em cima de uma lista da zebra da passadeira na Tomás Ribeiro, e, por isso, hoje não ligo o aquecimento, não sei onde vou arranjar dinheiro para pagar as contas, poderei pedir o subsídio de férias para Fevereiro? Por isso, estou de cachecol e sobretudo de fazenda a escrever, com as mãos e o nariz gelado, por isso, queria expor a minha teoria, que tenho vindo a aplicar há largos meses, sou a inventora e a cobaia, queria fazer um post com bolinha encarnada no canto superior direito, queria falar de sexo, porque, nada a fazer, eu criei um blogue que é suposto ser secreto, mas não há forma de me lembrar do user name e password, não anotei e varreu-se-me para debaixo do tapete da memória, queria escrever um post para eriçar a pele, não sei se tinha jeito, se ficasse como um romance Arlequim não publicava, já me basta ter publicado um post cheio de gralhas, com verbos que chegaram atrasados, que faltaram ao encontro e ainda estou traumatizada de ter publicado um post de merda.
Não sei se consigo escrever sobre sexo. Ou melhor, sobre a falta dele. Ou ainda, sobre a premissa mau sexo é pior que nenhum sexo. Tenho a cabeça cheia de equações, de outro tipo de equações, ligadas a como esticar mil euros e conseguir ser feliz.

Deixo-vos excerto de conversa com uma mulher que me instiga pensamentos lilases:

Retrato a branco e preto diz:
sabes q eu tenho saudades disso, q me toquem
Retrato a branco e preto diz:
raios
Retrato a branco e preto diz:
q merda esta
Retrato a branco e preto diz:
tou carente

Não consigo escrever sobre sexo. Se calhar, amanhã, com o Your Ghost em repeat one.

Retratos. A branco e preto.

[A Carrie tem razão, sou uma vendida, sou uma gralha, não consigo estar em silêncio por muito tempo, e eu já vos contei que a voz do meu cérebro, a da consciência, acho que é a voz da consciência e não quero comentários foleiros sobre a minha sanidade e sobre esta história de ouvir vozes - só oiço uma, que fique isso bem claro -, tem uma voz diferente da minha, mais grave, mais doce, contei isto, não contei?]

No reino das janelas mágicas, na jursidição da aplicação da Microsoft que é a minha companhia de dia e de noite, é o telefone sem voz, três mulheres maravilhosas, do melhor que se fez no rescaldo da Revolução, têm hoje o seu retrato a branco e preto.

Estas três mulheres (eu sou a terceira, lamento a imodéstia, mas hoje estou cheia de soberba, esse pecado mortal pelo qual hei-de pagar caro, talvez esteja assim porque tive um banho de gente feia, em Chelas, logo pela calada da manhã, com o Garcia Pereira de cachecol encarnado de malha polar e fato de bom corte, com colete, impecável, só não gosto do risco demasiado ao lado do senhor) são a música que está aí do lado direito, não as definiria melhor.
Carreguem no play, eu não gosto de blogues que disparam logo a música quando a página está a carregar, mas carreguem no play, é como as três meninas do retrato a branco e preto, das melhores coisas que se fez na música popular brasileira, o casamento perfeito entre a letra do Chico, a melodia do Tom e a voz da Elis.

E agora escrever sobre Chelas e a sua zona I, agora baptizada, para efeitos de marketing, de Bairro das Amendoeiras (e as amendoeiras, nem vê-las, eu bem que andei à procura, eu nunca vi as amendoeiras em flor, eu nunca peguei no carro sem destino, eu nunca fui ao Jardim da Estrela, nem à Costa Vicentina, e, gajas, sim vocês, as do retrato P/B, uma mais linda que a anterior, vamos qualquer dia sem destino?...)

Alô?

[Peço desculpa pela quantidade enorme de gralhas da primeira versão deste texto. Até estou envergonhada, acho que vou deixar de escrever por uns tempos]

Para que é que eu fui telefonar, para quê?

Para que é que eu fui telefonar, para sofrer?
Ao nosso encontro não apareceu
E aí telefonei
E quase que chorei

O telefone às vezes nos faz mal
E sem querer acabou uma paixão
Eu me chamo Zé, pois é
Fiz a ligação
E ela disse "Alô João"
Ai, ai
E ela disse "Alô João"...

Autor: não faço ideia e Google não me ajuda. Está num CD da Elis Regina, no Fino da Bossa, vol 1.

Tenho uma relação esquizofrénica com o telefone.
É o meu mais importante instrumento de trabalho. É o revólver dos polícias. O bisturi dos cirurgiões. É a lima da manicura.
É mais importante do que a caneta. Que o papel. Se não trago comigo o bloco merdoso Caravela e a esferográfica, que me faz calos no dedo "pai de todos", tenho olhos, tenho ouvidos, tenho o que resta da memória, e se ela falha, ainda tenho o gravador, isto se ele tiver pilhas, o meu gravador azul, oferecido por uma empresa de telecomunicações protesta que eu nunca o uso e tem razão, encostei-o à prateleira, dispensei os seus préstimos.
Se não tivesse um telefone sempre ao pé de mim, um analógico, o outro GSM, eu não falava com o presidente da câmara, eu não apanhava ministros e banqueiros (velhos tempos) em coisa de dez minutos. Não sei se o telefone é mais importante que o Google. Talvez. São as minhas muletas, porque eu sou uma jornalista de secretária.
Infelizmente.
Durante muito tempo, achei que tinha nascido talhada para este jornalismo, não queria outro, contentava-me quando, aqui ou ali, um editor deixava passar qualquer coisa com graça - às vezes, bastava um parágrafo para eu ficar feliz, mas nada me dá mais gozo que um título bem esgalhado e uma vez escrevi no suplemento de economia "arrogante pedaço de merda" e soube-me muito bem, foi um dia bom, esse.
Tenho jeito para o telefone. Saio da redacção, ao final do dia, com o ouvido direito muito encarnado, a arder, semi-surdo. Ainda fico nervosa sempre que ligo para alguém importante, não são raras as vezes que escrevo as perguntas no caderno Caravela, para não me esquecer de nada, escrevo tudo, como uma cábula, com a minha letra de jornalista - eu tenho várias letras, seria o cabo dos trabalhos para os grafologistas, davam em doidos, porque eu também sou esquizofrénica com a caligrafia, quando estava na Faculdade tinha uns cadernos muito bonitos, em folhas da Ambar de cem gramas por metro quadrado (desde a primeira classe, que meti na cabeça que estas folhas me davam sorte, estas folhas, quatro furos para guardar no dossier do lado esquerdo são mais pesadas, parecem cartolina, são estupidamente mais caras, geralmente só se vendem nas papelarias, as de 70 gramas em qualquer supermercado se encontram, e eu já era maior de idade e, apesar de ter a vacina do tétano em atraso, se calhar foi por isso, acreditava que naquelas folhas aprendia melhor, que tinham um encantamento qualquer, e ainda acredito nisto e a Carolina há-de usar folhas de cem gramas por metro quadrado), eram uns cadernos mesmo bonitinhos com letras microscópicas escritas com a Art Pen da Rotring, cor sépia, não tinha toda a matéria, porque raramente ia às aulas, mas arriscaria dizer que eram os mais bonitos da turma, se os do Miguel não tivessem uns sublinhados e separadores perfeitos (e os teus, Mónica, também eram muito bonitos, não fiques com inveja, sempre gostei dos teus émes e da forma como agarras nas canetas, muito em baixo, quase junto ao bico, da mesma forma que amava os zês do Miguel e os cês cedilhados da thê foram separados à nascença dos meus, são gémeos). A minha letra de stressada é diferente desta miudinha, se estou perturbada, escrevo a itálico com a letra muito bem desenhada, como na primária, como me ensinou a senhora professora Gerturdes Maria. A minha letra de jornalista é, também, inclinada, garrafal, mas são gatafunhos que eu só entendo nas primeiras seis horas após ter escrito: o que escrevi hoje no Garcia Pereira já não vou entender amanhã, letra de jornalista é equivalente à de médico e a que propósito veio esta coisa das letras? Tenho que ir ver para cima o que escrevi...
Ah, fico nervosa quando ligo, mas depois sou uma charmosa do pior que há, uma das minhas "fontes" mais queridas, diz que é impossível resistir aos meus encantos telefónicos, de facto, tenho jeito mesmo, já me apaixonei, inclusive, por algumas vozes, já levei grandes baldes de água fria quando conheci os donos dessas vozes (registo apenas uma agradável surpresa de uma linda voz para uma linda cara), mas apesar do jeito para a coisa, do talento natural para a conversa, desde que o Miguel foi para o Dubai, o meu telefone, o privado, calou-se.
Até há coisa de um mês.
Eu ligava ao Miguel dezenas de vezes ao dia, pelos pretextos mais idiotas. Imagino que, se ele estivesse por cá, estaria sempre a discutir com ele o blogue, os posts, as estatísticas deste quintal e o diabo a sete. Mas não está. Está nas Arábias, onde Alá perdeu as sandálias e o pano da loiça que os senhores usam na cabeça.
Deixei de ligar aos meus amigos quando ele partiu. Não o quis substituir, ele é insubsituível, tudo me pareceria menos dedicação, menos paciência, menos sabedoria, menos sensatez, depois da amizade dele, tudo seria assim, insonso, nada a fazer, é injusto e eu não gosto de ser injusta.
Calei-me.
Sinto-me um fardo para os amigos que ficaram neste rectângulo e sei que sou inadaptada. Optei por uma carreira que nada tem a ver com o que andei a estudar durante quatro anos, as profissões dos meus amigos estão nos antípodas da minha, vivo num mundo que nada tem a ver com o deles. Não tenho, também, muitos amigos jornalistas, é um facto.
Todos têm as suas vidas, ninguém tem filhos, não têm que me aturar as paranóias, não lhes ligo para ir tomar café, para ir ao cinema, têm os seus problemas, as suas casinhas na suburbe, os seus GTI, muitos deles nem sabem o que é um blogue, não sabem que tem sido o meu melhor amigo, e quando estou com eles não lhes sei explicar porque não tenho namorado, porque é que estou sempre triste mas rio alto, com todo o fôlego dos meus pulmões enegrecidos pela renda que pago todos os dias à Philip Morris, e acho mesmo que, às vezes, se sentem incomodados, invejosos, já senti isto parece-me, mas se calhar estou a ser mesquinha, quando lhes falo do fabuloso destino Diana Ralha, que tropeça em histórias do além todos os dias, que repara em coisas que mais ninguém repara, ficam invejosos.
Se tenho amigos, poucos, foram os que não desistiram de mim, nesta fase bicho do mato, que insistiram, que vieram até mim quando eu os exotava, que gastaram rios de dinheiro em telecomunicações, que me tiraram de casa para ir jantar secretos de porco preto, que me passearam nos sábados em que a minha filha me era retirada por ordem judicial.
O telefone, o Nokia azulinho, que não tem toques polifónicos, que não tem bluetooth, não tem jogos Java, nem coisa parecida (nem agenda tem e sinto muito a sua falta), esteve mudo. Não quis incomodar ninguém. Deixei-me ficar. À espera do meu insubstituível, com quem sonho trocar banalidades como antigamente, ouvindo a sua voz encostada às minhas orelhas, enquanto escrevo textos, enquanto mudo fraldas, enquanto faço xixi. O único telefonema que recebia diariamente até há umas semanas era o da Magui a acordar-me na sua versão de galo pós-moderno.
Tudo mudou.
Voltou a tocar, a valsa da Amélie, para quem nunca tenha ouvido o meu telefone, toca desenfreadamente a valsinha do Tiersen, e comecei a contar a minha vida a perfeitos estranhos, comecei a ligar-lhes sem ter medo de estar a ser inconveniente, a ligar a torto e a direito como uma adolescente esquizofrénica que tem que contar o beijo que deu ao rapaz mais giro do liceu, até o telefone do jornal já tocou com um amigo improvável do outro lado.
Fiz as pazes com o telefone.
(não sei é se tenho é dinheiro para pagar a conta ao final do mês)

Quarta-feira, Janeiro 11, 2006

Trinta Mil

Aviso: o visitante trinta mil diga qualquer coisa na caixa de comentários do post de baixo, porque este não é post, vai saltar daqui assim que um leitor pisar a relva do meu quintal pela trigésima milésima vez - e se eu não escrevo estas efemérides, vocês não reparam qual é o número da vossa visita (shame on you...).
Bem haja, sim?

Terça-feira, Janeiro 10, 2006

Rugas

Duas e trinta e um da tarde. Almoço ou post? Post. Porque hoje tenho um dia infernal de campanha e só para variar, ainda vou ter que escrever uma qualquer inutilidade - o chefe assim a apelidou, esta não dá justa causa, lamento - para a secção que me paga o salário.

Já sei que, depois, vou chegar a casa às onze da noite, vou deitar a minha bébé, dar corda à caixinha de música, vou ligar as luzinhas com libelinhas a quem a Carolina chama de lulús, vou tirar a roupa da corda, vou ficar com os dedos dormentes do frio, vou aquecê-los em vão, entalando-os entre as pernas, vou espreitar a loira diabrete já a dormir de boca aberta o sono dos inocentes, vou ficar feliz com aquela imagem, vou guardá-la no meu chip, depois vou sentar-me no sofá laranja com frases soltas prestes a explodir como milho americano em lume forte, mas vou ligar o programa que me faz companhia todas as noites e depois vai aparecer, no messenger, o sargento, a adolescente esquizofrénica, a habitué Qui Qui, e já sei, vou ter pouca coragem para o escrever: o meu cansaço é como o desemprego em Portugal, é estrutural, não é meramente cirscunstancial, e já pareço o Garcia Pereira a falar, ontem, gostei sobretudo quando ele disse, no Centro de Estudos Judiciários, perante meia dúzia de gatos pingados que andam a estudar na antiga prisão do Limoeiro para ser juízes em causa própria, ele disse que tem um gabinete de pirotecnia no afamado escritório de advocacia que dirige e que solta um foguete por cada cada vez que a Justiça cumpre os prazos estipulados, mas soltou, também, que tem a sala cheia de foguetes, que estão prestes a passar de prazo, ele disse isto sem mudar o tom de voz, ácido, implacável e eu tive um ataque de riso histérico, que se transformou num ataque de tosse e que me trouxe as desaparecidas lágrimas aos olhos.

Começam-me a nascer as primeiras rugas.

Eu estava há pouco tempo no colégio, ainda não me tinha habituado à ideia de tratar a professora por Ana Paula e não por senhora Professora Gertrudes Maria, na escola 101 do Bairro das Estacas, a senhora professora tinha uma menina dos olhos de não sei o quê e uma régua que içava sempre que alguém abria o pio, e a sala cinco tinha dezenas de colegas indianos, lembro-me de um que tinha 14 anos, o António Odô, tinha a caligrafia mais bonita, e uma menina muito pequenina, que mal falava português, chamava-se Minashri. No colégio, a única pessoa com a cor de pele diferente da minha era a Ruzena, filha de um embaixador, era muito escura, tinha uma carapinha muito cerrada, tinha uns lábios enormes, rosados, tinha as palmas das mãos mais brancas que as minhas, tinha um perfil de estátua aborígene, havia o Aguinaldo também, mas esse tinha cor de meia de leite, e apesar de estarmos numa escola privada, eu e as minhas duas tranças fomos as únicas a brincar com a Ruzena no recreio, porque, diziam os outras crianças, más como eu nunca mais vi, os outros gozavam com ela e diziam que ela era das barracas que havia no morro da Estados Unidos da América, junto ao Parque da Belavista, e isto foi só porque um dia ela trouxe os collants com uma malha.
E, nesta altura, o avô Oliveira ainda estava vivo, a avó Tóia já não, lá em casa, a alcatifa do hall era verde bandeira e eu tinha uns sapatos de presilha azuis escuros, com sola de couro e passava a vida a escorregar naquele cobertor do soalho que lembrava o feltro das mesas de jogo, lembro-me de estar a ajudar a Dona Teresa, a minha ama e ama do meu avô, estávamos a dobrar lençóis no hall, com a cómoda dos puxadores de faraós dourados e tampo de mármore do meu lado esquerdo e, nesse dia, em que dobrámos um jogo de lençóis com padrões dos anos 70, e em que a Dona Teresa me ensinou um jogo que envolvia bolinhas em folhas quadriculadas, tínhamos ido a Vila Franca de Xira, em visita de estudo com o Colégio, à Xira Jovem e isso era uma espécie de feira, montada numa tenda de circo - é assim que eu me lembro dela -, davam-nos dinheiro de fingir à entrada, dinheiro de monopólio, e depois havia barraquinhas, com comes e bebes, com jogos, o chão era de terra batida e estava enlameada, eu lembro-me de andar com cuidado por causa dos sapatos que eram mesmo bonitos, comprados numa loja do centro comercial ACSantos da avenida da Igreja, lembro-me de andar atrelada com a Rosalinda, a contínua do colégio que me recebia todas as manhãs na carrinha, bata cor-de-rosa, permanente no cabelo que lhe tinha emprestado os caracóis de um carneiro, e parámos na barraquinha onde umas senhoras simpáticas faziam penteados e pinturas, e puseram-me uma peruca loira na cabeça e sombra verde nos olhos e lembro-me de sorrir ao espelho, um espelho de camarote com luzes, e de elas dizerem: "faz uma covinha tão linda na bochecha direita". E a Rosalinda: "É a menina mais bonita que eu vi". "Mas vai ficar rapidamente com rugas", disseram.

E na Quinta do Lambert, o tecto radioactivo, as bananeiras do jardim interior, o supermercado do patrão no piso de baixo, o meu cabelo cortado à escovinha, um top de seda verde seco, bordado com missangas, um fato preto, os olhos pintados de verde também, a fazer as bolsas em traje de cerimónia, porque dali seguia para a inauguração do Zé Ralha, a que teve a Amália a dizer que o meu pai e o meu avô e toda a minha famíllia eram pessoas muito puras, a Amália agarrada à minha mão direita sem largar, depois de ter emborcado uma garrafa de whiskey sozinha, a Amália que se esqueceu de colar a placa ao céu da boca, e a Sílvia, quando me viu a tirar os prints da Reuters do Euro Stoxx 50, "tens uma pele tão linda, não tens nenhuma ruga".

Começam-me a aparecer algumas rugas

Rugas de chorar


[Não me perguntem como é que tenho fotos de mim a chorar, porque senão eu tenho que vos dizer que tenho a mania psicopata de fotografar os momentos tristes, da mesma forma que toda a gente fotografa os sorrisos de felicidade Pepsodent, para mais tarde recordar]

Rugas de sorrir

Rugas de cantar [é o que eu mais gosto de fazer e não tenho nenhuma foto a cantar]

Começo a franzir

Rugas de sentir
Amanhã, vou comprar o meu primeiro anti-rugas.

Créditos fotográficos: entre outros, inomináveis, a Diana Quintela.

E não almoçei, mas também não escrevi o post. Fiz tudo como tinha descrito, tirei a roupa no estendal, liguei as luzes de libelinha, a caixa de música a tocar uma canção de embalar, o sofá, a Qui Qui e a outra esquizofrénica no messenger, foi tudo como eu escrevi.

Adolescentes esquizofrénicas - começou o tunning do (T)ralha

À uma e quarenta e dois da matina, depois de quase levar ao desespero o meu helpdesk via messenger, consegui pôr música no (T)ralha.
Esta é para a minha adolescente esquizofrénica.
Estou com saudades do meu cabelo (estou quase arrependida de o ter cortado, já sei que assim fica bem, mas sinto falta do peso dele em cima das mamocas). Estou triste porque já não há luzes de Natal (ontem não nos despedimos como deve de ser). Estou com as hormonas aos pulos (tenho um blogue criado para contar essas coisas de hormonas, mas já não sei qual é a password que escolhi para entrar no dashboard). Estou siderada porque o Garcia Pereira me manda sms à meia-noite e meia, depois de já se ter transformado em abóbora, de certeza. Estou desolada porque o anjo negro disse adeus e só vai voltar quando tiver colado as asas às costas. Estou cansada. Tenho que dormir. Amanhã há mais. Divirtam-se com o Goran.

Segunda-feira, Janeiro 09, 2006

Histórias

Eu sou uma mulher atormentada.
Por uma história que não posso, que não quero, que não devo escrever.
Porque sei, se eu a bato no teclado com força, com a força que me destrói as unhas do dedo indicador e pai de todos das minhas duas mãos (mais da direita que da esquerda, é verdade) - e a manicure, brasileira, tom de pele de galão de máquina clarinho, diz: "Nossa, Diana, suas unhas estão fraquinhas, fraquinhas, elas estão lascando, tem que comer gelatina", e eu explico à Rose que elas estão fraquinhas porque eu escrevo com raiva, escrevo quase possuída, ela não sabe que eu passo mais de oito horas da minha vida a escrever -, se eu atiço a tendinite num qualquer teclado, neste, branco, ou no outro, preto, ou seja, se ponho tudo preto no branco, e como esta história é psicadélica e feita de coincidências atrás de coincidências, ela é tudo menos monocromática em gradientes de cinzento, ela é fluorescente, conta amores imperfeitos, impossíveis, traições, ela conta surrealidades várias, ela é um misto de romance Arlequim semi-erótico, ela é um pouco de policial da Agatha Christie também, e se eu a escrevo no papel, ou numa qualquer aplicação de edição de texto, estou a aceitar que ela existiu mesmo, que não foi um delírio que começou no Snob e ninguém sabe onde acaba (há quem diga, isto vem nas revistas que se compram por debaixo dos balcões dos quiosques lisboetas, que o autor da história - não sou eu, certamente, nem nos meus sonhos mais loucos eu teria imaginação tão fértil e tão perversa para escrever esta novela - escreveu e gravou vários finais: "round and round it goes, where it stops no one knows", roubado da Carrie).
E eu não sei ainda escrever sobre coisas que não existiram. Um dos leitores que eu não posso linkar, perguntava-me há tempos, com a sua curiosidade científica, se era tudo verdade o que eu escrevia, e eu respondi-lhe que sim, que não sei escrever com letras que sabem o caminho de cor, que sabem quem é o seu par na roda, elas, as letras e as comadres palavras não se entendem nas frases, atropelam-se quando eu estou a escrever sobre coisas que não existiram. Às vezes, muitas das vezes, pronto, admito, junto uns pózinhos de perlimpimpim às histórias reais do meu quotidiano, para as tornar fabulosas, e todas as existências são fabulosas, até a senhora da limpeza já foi musa de um post, dos mais bonitos, aliás, dos que não têm tantos ou mais caracteres como um destaque de página dupla de um qualquer diário português, foi um post escrito à pressa na véspera da véspera de Natal, mas eu não escrevo a metro, não faço questão de escrever muito, não é premeditado, sai ou não sai, às vezes as letras vão dar grandes passeios ao bilhar grande, outras vezes vão só à esquina comprar cigarros (e este post está a ser escrito em carência absoluta de nicotina; estou em ressaca tabagística, ontem fumei dois maços). É assim.
E esta história não existiu. Qualquer semelhança com a ficção é pura realidade, passa este aviso grande velocidade e a letras miudinhas na tela. Eu não a escrevo, também, porque eu não consigo descrever o anti-herói deste conto. Eu não sei quem ele é, tem os olhos baços, opacos, sem brillho, são muito escuros e pestanudos. Mas não sei mais nada sobre ele. Eu pensava que sim, que o conhecia, que sabia que era um homem bom que estava numa encruzilhada. O herói desta tragédia, esse, acho que ainda não apereceu na trama. Há vítimas. Há três vítimas. Número perfeito de vítimas.
Um dia, saberei escrever sobre histórias que não vi, que não aconteceram comigo ou seja com quem for, histórias que vivem apenas na terceira minhoca do meu cérebro a contar de trás, numa terra verdejante com casas feitas de baralhos de cartas. Ando a estudar para isso. Vou no carro, estou parada nos semáforos, numa fila interminável dentro do túnel da avenida da República, estou a comer uma sopa no Picoas Plaza e a dar migalhas de pão aos pardais, com a Moleskine semi-desfeita como companhia, como única companhia, e invento histórias para lugares, para personagens da minha cidade, para as pessoas que passam ou estão sentadas na mesa que está à minha frente.
Estas personagens existem, porém, estes lugares também. Com treino, com dedicação, um dia próximo, não muito distante, estou confiante que sim, começo a inventar as minhas terras, as minhas gentes, os seus nomes, as suas roupas, os seus tiques e manias. Está tudo cá dentro, na tal minhoca do meu cérebro, que cada vez é maior, que cada vez tem mais castelos de cartas de naipes encarnado.

Domingo, Janeiro 08, 2006

Mãos

Foi um jantar de mãos.

As mãos que nos regaram a alma, e lá atrás, as do Bruno, que gostariam de acertar algumas contas por mim,





As minhas mãos, e a Magui viu esta fotografia e disse: "tira o nariz do teu pai e até pareces minha filha, às vezes pareces mesmo minha filha",




As mãos do João, no papel, nas minhas mãos,

As mãos lindíssimas, esguias, da Mary Mary, depois de assinar o livro de honra do (T)ralha,

As mãos do vogal da presidência do conselho de administração, responsável por toda a logística do jantar, o Potier

As mãos das meninas com quem eu quase não consegui falar, Isa e Astride


As mãos perturbadas do Mac, que noutra encarnação foram de um massagista profissional

As mãos da Thê, manchadas com o mesmo sangue que as minhas

As mãos da Qui Qui, que ontem não estava inspirada (ela é que diz e não quer que eu diga que as fotos são da sua autoria, de facto, algumas não são, não sei dizer quais, a Leiquinha andou de mão em mão como as pombinhas da catrina)

The day after

Foi uma festa de aniversário do camandro.

Com uma garrafa gigante na mesa, com livro de honra, com muitos disparos acidentais da Leica, com surrealidades várias, com escadinhas da Bicaense, com corpos juntinhos no Tóquio (e dois sobreviventes, entre os quais eu não me incluo, infelizmente, porque tenho uma urticária insuportável quando fico à porta à espera para entrar, ainda foram queimar os últimos cartuchos da madrugada no vizinho Jamaica).

Este blogue está com sono. Não de ressaca. Precisa de mais café e menos posts.

[E quando eu quiser ir dançar já sei a quem é que telefono.]

Muito bom.

Sábado, Janeiro 07, 2006

Butterflies instead

I lock the door and lock my head
And dream of butterflies instead
The beauty of their colored wings
The trees, the grass and pretty things
Imagination fills the void of my existence

Everything will be alright.

Um post escrito com unhas deliciosamente encarnadas sobre um teclado branco merecia qualquer coisinha melhor.
Mas eu estou numa de borboletas hoje.
Hoje vou inventar uma história para a velhota do primeiro andar do número dois da Praça José Fontana, que tem cortinas de crochet com rosinhas, que está sempre à janela a ver os carros passar.
Hoje vou dar um nome a uma outra velhinha corcunda que encontro sempre quando estou a cortar da Duque de Loulé para a Luciano Cordeiro, em direcção ao Largo das Palmeiras.
Hoje vou imaginar a vida toda do senhor Sequeira, o meu vizinho alfarrabista que anda de bicicleta com a cadela Carolina atrás e que passa os dias a divulgar cultura a um euro no jardim do Príncipe Real.
Hoje decidi que não sou fazedora de notícias. Acordei assim. Acordei assim ontem à noite, depois de ter saído de casa mais uma vez aos gritos com a Magui. Depois de ter adormecido num semáforo da Rodrigues Sampaio. Sou contadora de histórias, nove anos para descobrir que é isso que sou.
Hoje, vou ligar ao Ricardo. Vou pedir para ele me ensinar a escrever reportagens.
Decidi.

Sexta-feira, Janeiro 06, 2006

Jantarada

Caros amigos que aceitaram o repto da jantarada de aniversário da (T)ralha:
A mesa está marcada para as oito, no Caracol, Rua da Barroca 14 (a rua da Barroca é parelela à rua do Norte e à Rua da Atalaia, sugiro o metro Baixa Chiado). A especialidade da casa é Pataniscas de Bacalhau com arroz de feijão. Aconselho.
Aqui ficam as direcções, gentilmente cedidas pela Via Michelin.

Princípio

Se não tenho coragem de cortar o cabelo, como terei coragem de mudar de vida? Vá, sê meu guia espiritual, Brígida, corta-me o cabelo.

E assim fiquei com um défice de vinte centímetros.

É oficial

Ninguém sabe, ninguém desconfia, mas eu tenho um relacionamento sério, estável, um que jurou estar ao meu lado na alegria e na tristeza e que vai honrar esse compromisso, sem vacilar, todos os dias até que a morte nos separe.
Foi há um ano que nos conhecemos. Foi no segundo piso de um edifício da rua Viriato que nos apresentaram, num ecrã de muitas polegadas. Gostei logo dele porque se vestia de preto.
A tralha faz um ano hoje e o seu primeiro visitante foi o senhor de nacionalidade holandesa que inspirou este amor.
A tralha faz hoje um ano, e teve na véspera do seu aniversário, um recorde absoluto: 230 visitantes únicos e 612 pageloads. E se eu estivesse registada no blogómetro, ocuparia a 133ª posição dos blogues mais lidos em Portugal e isso agradava-me, não o facto de ser mais ou menos lida, de estar à frente ou atrás de um ou de outro blogue, isto não é uma corrida, não há vencedores nem vencidos. Isto é um diário, isto é o mais belo exercício de exibicionismo que eu algum dia farei (quem sabe, quando me passar de vez, não ando por aí de gabardine como os loucos da cidade onde vim nascer, mas essa imagem não é bela, porque eu não sou escultural, tenho celulite e estrias de uma gravidez que me engordou 30 quilos), mas é um belo número, o 133.
A todos os seguidores (só 12 é que responderam afirmativamente ao repto do jantar, mas não faz mal, há-de haver foto-reportagem para ficarem invejosos), viciados, psicopatas, tarados, amigos de longa data, bloggers de referência e tantos, tantos outros, um grande bem haja. Voltem sempre. Esta também é a vossa casa. Porque há noites em que eu não me apetecia escrever. E só escrevo porque há quem comece o dia com esta tralha. Há quem acorde para o que não lhes apetece e desanuvie por estas bandas. Há quem dê oito seguidas. Há quem releia os arquivos. Há quem venha às cinco da manhã. Há quem leia do outro lado do oceano todos os dias, sem falta (são dois os leitores transatlânticos).
E eu não me sentia assim tão desejada há muito tempo.
Alea Jacta Est. Acho que hoje muda a minha vida. Vamos ver.

Quinta-feira, Janeiro 05, 2006

Encruzilhada

De tempos a tempos, dá-me para pensar nisto.
E hoje ao almoço dizia ao ex-marido: “Abre um restaurante comigo”. E ontem, de manhã, dizia à Magui: “Abre uma empresa de reabilitação urbana comigo”. E transanteontem, segredava a um draft da (T)ralha, “Eu sei a vida não é só isto. Que os dados estão lançados, que é mesmo assim, se eu não passar por aqui não recebo os dois contos, não descarrilo para o caminho que os deuses reservaram no dia em que teimei agarrar-me com força ao ventre da Magui. Eu sei que vou honrar o nome dos meus avós. Eu levo os dias a pensar nisto. Que, neste momento, eles não teriam nada para falar com orgulho de mim, como o taxista que me levou à Lapa e contou com os olhos brilhantes que o filho único, 28 anos, engenheiro informático, ganha 3.496 euros numa multinacional de consultadoria, que pratica bio-dança (seja isso o que for) e que ainda canta num coro - ainda o mês passado esteve no Funchal. Eu levo uma vida fácil. Não faço nada grandioso ou altruísta. Não estudo, não leio tanto como devia. Nunca lhes chegarei aos calcanhares, nem com pacto com o demónio eu chegava onde eles chegaram, e eu parti em vantagem, não faz sentido. Mas eu quero honrar o nome dos meus avós”.
O que é que eu sei fazer na vida? Há quem faça casas, há quem limpe casas, há quem destrua casas, há quem não tenha casas (isso é coisa que não falta lá em casa).
Há quem prenda ladrões, há quem roube lojas chinesas, há quem durma tão cansado, nem um beijo os estremece (agora veio-me esta do Sérgio Godinho), há quem varra ruas, há quem lave escadas, há quem grelhe hambúrgueres, há quem masturbe homens de aspecto decente em vãos de escada (está-me a dar forte e feio para o plágio), há quem lute e ao lutar veja o mundo andar para a frente (mais uma vez o Sérgio).
Eu faço redacções. Composições. Sou a notícia de ontem que amanhã forra o caixote do gato ou do lixo, sou a cama da castanha assada.
Estou numa encruzilhada.

Dois enrabanços em dois anos

Se calhar, já é demais.
Se calhar, está na hora de mudar de vida.

Last call

A caixa do Gmail desta tralha até se queixa de tanta confirmação para o primeiro aniversário deste blogue (eheheheheheh you wish... mas já somos mais de dez, eu não estava à espera disso sequer, e há muita malta que eu não conheço que confirmou). Aos que já aceitaram o repto, posso dizer que já temos restaurante: o Caracol, no Bairro Alto. Para os que não confirmaram, o que é que estão à espera?

Espero que tenham gostado de voar a bordo da nossa companhia aérea.

Quarta-feira, Janeiro 04, 2006

Breaking the waves

Escuta-me. Tenho tantas histórias para te contar.
Pacote de açúcar 7/9 gramas da Delta Cafés, edição Natal 2005


O raio da bica, que sai da máquina barulhenta, que parece que se peida quando alguém carrega no botãozinho, a máquina que é minha vizinha no primeiro piso de um edifício de fachada verde pistáchio da rua Viriato, já se foram todos embora e ela é a minha única companhia, daqui a umas horas aparece a Alenis e traz-me o lanche num carrinho, depois, troco dois dedos de conversa com a Dona Maria e isso lembra-me que hoje ainda não peguei no 24 Horas para lho dar, e não há nada como ter uma editora ditadora que me obriga a entregar os textos às cinco da tarde, e como assim tem que ser, porque sou bem mandada, porque sou eficiente e gosto de corresponder às expectativas, primeiro o trabalho, só depois passo a alimentar a tendinite a pão-de-ló aqui na (t)ralha. Mas eu gosto mesmo é de escrever no sofá laranja, lá tudo é mais sentido, tudo faz mais sentido, mas agora estou aqui sozinha, também sabe bem escrever com os auscultadores gigantes na cabeça a passar o Blue Moon e a voz da Billie dengosa. Agora só há vida para lá do cubículo de vidro dos fumadores que é o meu vizinho de trás, que me separa da minha secção, e tudo bate certo, a música, o lusco-fusco, e o café, que me aquece as mãos, geladas - sempre que escrevo fico com as mãos geladas e mãos frias, coração quente, amor para sempre -, que não me desperta porque sou imune à cafeína, quando nasci caí num caldeirão de excitantes, se calhar enfiei os dedos na tomada quando era recém-nascida, se fiz um streap tease compelto no berçário, porque não uns dedos na tomada? E sou hiper-activa, às vezes até me chateia, queria fazer menos coisas, queria, sobretudo, pensar em muitas menos, mas o café, o que é de borla e que até nem sabe mal, passou a ter outro encanto com estes pacotinhos de açúcar com ditames encantadores, e por falar em ditames, eu sei que não tem nada a ver, ou se calhar tem, não sei bem, hoje recebi o mesmíssimo horóscopo de ontem, não sei se é bom sinal, ou se é mesmo a Optimus que já nem se dá ao trabalho de mudar as mensagens - provavelmente sou a única que subscreve este serviço, o meu signo é Caranguejo, para quem quiser saber. Diz-me assim, há dois dias consecutivos: "Poderá suscitar alguma inveja à sua volta. Um romance com uma pessoa mais velha ou mais rica está no ar". Venha o velho milionário, vá, eu não exijo anéis na Cartier, nem Vuittons verdadeiras, basta-me as lições de piano, em troca, prometo total dedicação, prometo escrever sem parar, e, neste preciso momento vem-me à cabeça a Bess McNeill, personagem do "Breaking the waves", do Lars Von Trier. Vou procurar uma imagem no Google.

Cá está ela. Vou dizer-vos que, tal como a Bess, eu pareço fraca e frágil, mas ganho força a lutar pela bondade em que acredito. Tal como ela, eu falo com Deus, e a minha própria voz responde por Ele. (E hoje descrevi-me como gravisca e grazina. E acho que melhor era impossível, utilizando a letra guê.)

E hoje vão levar-me ao cinema. Ao da minha infância. Ao do meu bairro. Este blogue pode ter sido responsável por um amor inventado. Pode ter culpas no cartório de eu ter perdido um grande amigo. Mas trouxe-me as amizades mais improváveis também. E todos se conhecem. Mas isso, é para outra posta, uma menos estranha, porque esta dava internamento compulsivo no Júlio de Matos (e desde que me deixassem andar de colete de forças pelos jardins, estava muito bem).

Piropo (?)

Dia - Sempre fotografaste o meu rabo?
Inominável que agora tem a mania que é fotógrafo - Achas, querida? Não tenho uma grande angular

Terça-feira, Janeiro 03, 2006

Porque

Porque cheguei a casa às nove e picos da noite e tive que levar com o chorrilho já costumeiro do que tipo de mãe quero ser, porque nunca chego a horas de dar o jantar à miúda, porque nunca, sequer, lhe fiz uma sopa, porque saí aos berros de casa, porque até me esqueci de ir ver o Natal com a Carolina à avenida de Roma e fui pelo túnel e ela ficou triste, porque trabalho como uma parva para levar 1000 euros para casa, porque depois de pagas as contas, comprado o tabaco e as fraldas sobram-me 300 euros para sobreviver, porque já deixei de almoçar, porque estou em défice estrutural, porque o fantasma disse-me "ele ainda gosta muito de ti", porque ela me disse que já sonhou que lhe dava um estalo apesar de não o conhecer, porque ele sorriu e foi simpático, porque se calhar ele lê, ainda cá vem, porque, um dia qualquer, ainda escrevo qualquer coisa bela e consigo-o comover, porque, quem sabe, ele se aperceberá que eu não fiz nada, porque tenho saudades, porque era um bom amigo, porque o coração parou por momentos ao chegar ao Campus do Politécnico de Setúbal, porque, na volta para Lisboa, olhei para o conta-quilómetros e marcava 190, porque tenho saudades de ter um carro potente, porque quero guiar um Twingo outra vez, porque a velocidade me deu sono, porque tive medo de adormecer na autoestrada, porque não durmo há muito tempo, porque ainda tenho que deitar a miúda, porque tenho que tirar a roupa da corda, porque há uma máquina inteira para estender e que está a ganhar mofo no tambor, porque tenho que ir secar o cabelo, porque vocês não têm que levar com isto, porque eu às vezes fico desesperada, desesperada a sério, não é como as giraças da série das donas de casa que vivem em casarões nos subúrbios, porque não vou ao cinema há um ano, porque não leio um livro inteiro há não sei quantos meses, porque, porque, porque, de repente, não mais do que de repente, como no Soneto da Separação do Vinicius (corta os pulsos com este, Carrie) não consigo escrever sobre casas e anúncios classificados.
Lamento.

Um pouco de sexo. Muita Poesia.

Com um pouco de sexo, ou muita poesia, ainda nos vamos casar.
Quinteto Tati

Açúcar

O pacote de açúcar da minha bica manhosa, gratuita, paga pelo patrão, diz assim:

"Acredito na força das coisas frágeis"

Eu também.

E mais logo, updates, porque isto foi um dia do além.

Viola Tricolor

Enquanto o meu candidato presidencial não sai de uma diligência (estará a defender um miserável operário despedido ilicitamente por um vil patrão?), enquanto não entra no seu BMW topo de gama, enquanto não dá um saltinho pela doca para olhar para o Tejo mal-cheiroso e para o seu iatezinho modesto, enquanto a secretária Francisca não lhe transmite o meu recado, enquanto tem o telemóvel desligado e eu não gosto de falar para gravadores, irrita-me a minha voz, os meus ésses muito sibilantes a lembrar cascavéis, e dêem-me tudo para fazer, venham os buracos nas estradas, os acidentes de viação e de trabalho, venham as cheias e os novos lisboetas de Domingo, não me ponham é a desgravar entrevistas, mas enquanto o candidato não está disponível, vamos a isto, a mais uma lição de botânica, com desvios para caminhos de cabras a cada três linhas.

Já vos contei. Guardo mágoas desta vida. Guardo-as numa caixa de madeira, fechada a sete chaves e três aloquetes, mas elas às vezes escapam, são arraçadas de Houdini. Não se deve guardar mágoas. Em que caixa-forte for. Com porta blindada, ou com fechadura das Chaves do Arreeiro. Não se deve. Debaixo do colchão ou emapredado na cave. Não se pode. Consomem, remoem nas entranhas, vincam-se na cara, mas eu não sou perfeita, levo muitas chapadas e depois esqueço-me, dou a outra face como o outro senhor das sandálias de couro que foi parar à cruz, tento dar a outra face, não gosto de odiar ninguém, estou cada vez mais banana, cada vez menos Ralha, mas isso até nem é mau de todo, eu rezo, eu voltei a rezar e rezo muitas vezes para não ser igual ao meu pai, que usa, suga e deita fora olhando apenas para o seu umbigo, eu sou boazinha, eu reciclo as minhas dores, transformo-as em textos, porque eu não sei escrever música, mas eu oiço música na minha cabeça a toda a hora, eu tenho tudo cá dentro, eu invento todos os dias uma melodia nova para a minha filha, mas depois esqueço-me, porque eu não sei escrever essa essa linguagem e a minha memória não é como a do meu avô Ralha, que declama os Lusíadas e a Eneida e a Odisseia que aprendeu há 70 anos atrás, eu nunca fui assim, de empinar, já não me lembro sequer da primeira declinação de Latim, mas tento exercitar a minha memória, tenho medo de acabar com uma doença neurológica degenerativa como a minha tia Lena ou a minha Tia avó Atilde, às vezes repito a melodia 300 vezes, vou no Idea, de manhã, levar a Carolina à Magui à Estados Unidos e desligo o auto-rádio para empinar a música do dia, inventada de manhã enquanto limpo um rabo, preparo um biberon, mas, invariavelmente, no final de mais um dia de trabalho, de orelha encarnada de estar colada a um telefone, de dedos cansados de tanto escrevinhar, depois disso, eu já me esqueci, porque não a escrevi, eu não sei essa língua, nunca ninguém ma ensinou eu só a entendo, mas se eu soubesse, as minhas mágoas eram canções, modinhas, fadunchos, mas tenho as minhas mágoas, as que não consigo digerir, as que não cicatrizam por dentro, apenas por fora, e que depois doem quando o tempo está a mudar como os meus joelhos, como, mais recentemente, a minha mão direita.
O senhor que mais mágoas tatuou no corpo (tatuagens definitivas, não são daquelas que saem em três anos e a Magui continua a achar que a que está desenhada nas minhas costas vai desaparecer, ou se calhar não, ela já não fala disso, conformou-se, como os pais que têm filhos gays, ignoram, não citam a orientação sexual da sua descendência na esperança de se não se fala não existe, mas não é assim, eu passo grande parte do meu dia - das minhas noites, sobretudo - calada e existo, continuo cá, às vezes olho de soslaio para ver se estou toda ou se já desapareceu qualquer coisinha, mas, no caso da tatuagem, para não ser deserdada, tive que garantir à minha mãe, que a libelinha arte nova que está gravada a preto no final das minhas costas é das que saem com o passar dos anos e já lá vão três e qualquer coisa, fui almoçar ao Independente e depois decidi fazer uma tatuagem), que me marcou com ferros em brasa, quer eu queira, quer não, para o resto dos dias, e fê-lo num curtíssimo espaço de tempo, ele tinha lençóis de flanela com amores-perfeitos roxos estampados, tinha amores-perfeitos numa cama de solteiro de contraplacado, que rangia sem ninguém lhe tocar.
Eu estava muito drogada, substâncias legais, prescritas pelo médico, aviadas na farmácia. Mas lembro-me dos amores-perfeitos no quarto poeirento que me fazia alergia. É a melhor recordação que guardo dele, numa caixinha pequenina de veludo azul escuro. Essa, e descer a correr, de braços dados, de saltos altos, muito altos, muito finos, uma ruazinha a pique ao pé do Largo do Caldas.


Viola Tricolor. Herbácea da família das violáceas. Conhecida vulgarmente, em Portugal, como amor-perfeito. Tem outro nome de baptismo, que poucos conhecem: "erva-da-trindade", denominação meia beata, porque as as suas flores podem ser de três cores, como as entidades da Santíssima Trindade.
Em França, é flor amada há séculos e séculos e chamam-lhe "pensée" (pensamento) - quando o que importava era a intenção, as pessoas ofereciam flores e não Playstations ou Ipod's (as flores parece que agora estão confinadas ao piroso dia dos namorados e aos funerais, a mim, não se atrevam a comprar-me coroas de flores quando eu morrer; dêem-mas em vida, camandro!). Se a intenção era o desejo de ser lembrado por alguém, enviavam-se ramalhetes de amores-perfeitos. Reza a lenda que, as mulheres dos marinheiros, da Bretanha, davam um pouco de terra dos amores-perfeitos dos seus canteiros ao maridos, para que não se esquecessem delas e da família durante as longas viagens. É símbolo da meditação, de recordações e reflexão.
É impossível não se associar esta singela flor, utilizada amiúde para as bordaduras de canteiros de jardins coloridos, com o amor. Tal como ele, é muito frágil e delicada, tal como ele, tem uma curta duração (que seja eterno enquanto dure).
Na Idade Média, os feiticeiros acreditavam que ela afastava todo o tipos de mal. Poucas pessoas o saberão - eu sei porque sou um reservatório de conhecimentos inúteis -, mas o amor-perfeito é uma flor comestível (saberá esta, a senhora Lucena?)
Por isto, por muito mais, porque desejo amores-perfeitos para todos os dias de 2006 (amores-perfeitos podem não ser esses que vocês estão a pensar, eu não estou desesperada, não ando à caça, apesar de ter nome de divindade associada a essa actividade, falo de amores-perfeitos associados a amores incondicionais, falo de amores perfeitos do tipo: "Dia, vai tirar as pilhas do vibrador e põe no porquinho da tua filha, para ele cantar e dançar", falo de amores-perfeitos que me ensinam palavras japonesas e bailados de karaté, falo de inconfidências trocadas no primeiro blind date, falo disso, não falo de quecas, não falo de instant pleasure, como na canção do Rufus que toca neste preciso momento), bebi a primeira bica do ano na Suprema, atravessei a rua para o outro lado, entrei na Romeira com a Magui, há 20 anos atrás, a Magui entrou na Romeira para comprar coroas de flores para o funeral da minha avó Tóia, e elas estavam a fazer coroas funerárias com rosas, orquídeas, coroas imperiais, com fitas de cetim roxas, com cruzes douradas, a chefe gritava ao telefone, "Onde está o carro funerário? Já devia estar cá a levantar a encomenda!", eu senti-me num episódio do Sete Palmos de Terra, mas comprei dois amores perfeitos, um euro cada, um para mim, um para a Thê e devia ter comprado mais dois: um para o Ganilho, outro para a Carrie. Eu sempre gostei de metáforas, eu sempre gostei de amores-perfeitos.
[isto é o que dá a quem está demasiado atento à realidade, a quem é fixado nela, como diria o inominável, um dia, no fumódromo do primeiro piso de uma fachada verde da Rua Viriato]

Segunda-feira, Janeiro 02, 2006

Teaser

A, de Amor-perfeito: esqueço-te de qualquer jeito!

[Lá para as tantas, há-de haver postas sobre as "Viola Tricolor" ]

Convite


[Eu não disse que o Manual fazia uns bonecos lindos? Têm que carregar na imagem para ver o elevador da Bica a andar para cima e para baixo, enquanto eu não descubro solução para este problema informático]

Jovem, tens mais de 18 anos, e passas todos os dias, várias vezes ao dia, por esta [T]ralha, satisfazendo um estranho ímpeto voyeurista? Retiras um prazer difícil de explicar racionalmente, ao ler os devaneios literários de uma pita da avenida de Roma, que tem mania que é exibicionista?
Se cumpres os requisitos supra-citados, chegou a hora de saíres do armário, de deixares de ser um IP, e se, volto a frisar, tens mais de 18 anos, junta-te à festa do primeiro aniversário da [T]ralha, no próximo Sábado, dia 7. A janta há-de ser para os lados do Bairro Alto (depende de quantos leitores aceitam o repto) e a ideia é passar pela Bicaense e acabar a noite no Lux e deixar tudo em pantanas.
Confirmações para a caixa de comentários, ou para o e-mail empantanas@gmail.com.

Seja eterno enquanto dure

Soneto da Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa (me) dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Hoje acordei com este. É do Vinicius.
Daqui a nada, depois de falar com a editora que me pôs a fazer o Garcia Pereira, já venho escrever umas postas.

2006

Começa muito bem.
Fiz, pela manhã, trançinhas como as que a avó Tóia tecia no meu cabelo, quando eu era pequenina (acho que vou começar a trazer trançinhas mais vezes), trançinhas à donzela Briolanja (seja lá isso o que for).
Fui tomar café à Suprema com a Magui.
Comprei dois amores perfeitos na Romeira (um para mim, outro para a Thê; adoro metáforas).
A Thê e o Ganilho resgataram-me. Fomos ver o mar revolto, no Guincho, trememos de frio, mas teimámos em fumar um cigarro inteirinho a olhar para o mar. Espreitámos, também, uma lua finíssima, em quarto crescente.
Jantámos na Marta, os quatro, já com a Carolina, Telepizza Bacana, com "lalas" (tomate cherry em carolinês) e queijo feta a acompanhar.
Amanhã, regresso ao trabalho e escrevo qualquer coisa menos telegráfica.
É que é quase uma da manhã e eu não posso continuar com esta vida de não dormir. Faz-me rugas, olheiras, papos, pés de galinha e um feitiozinho de merda.

Domingo, Janeiro 01, 2006

Onde é que se bebe uma bica no primeiro dia do ano?

Filha entregue no Largo de Andaluz. De volta ao dashboard, enquanto a Thê não me resgata, às 16H00.
Hoje vamos ver o mar. Lá para os lados dela, para a linha, e eu não sou assim tão inteligente, ainda bem que todos adormeceram na sala enquanto eu levantava a mesa para jogarmos Trivial, porque se tivessem ficado acordadinhos caía o mito, não sei nada de nada, mas geografia é mesmo a maior mancha, liguei à Thê a semana passada e disse-lhe, amor já estou perdida, vou na Parede, como é que eu volto atrás para Cascais? Eu não sabia que Cascais era o fim da linha, que depois só o Guincho - isto são palavras da Teresinha, que me fez este croqui -, para mim, o Estoril era o fim da linha, mas depois de ela se aperceber que o meu GPS era flipado, era à minha imagem e semelhança, a Thê disse-me para eu ficar quietinha em frente ao Casino, que me iam lá buscar, porque eu sei ir ter ao casino, fui lá ver uma monográfica de galgos com o Miguel há uns bons anos atrás, aliás, hoje o meu horóscopo diz para eu ir ao casino, mas estava a chover, e eu estava a conduzir, a mascar pastilha e a escrever um post na cabeça ao mesmo tempo e nem isso - parar em frente ao casino - consegui fazer.
Adiante.
Preciso de uma bica.
Preciso de companhia para tomar a primeira bica do ano.
Onde é que se bebe uma bica no primeiro dia do ano?
Ontem, almoçámos às cinco da tarde, no Galeto, e eu só bebi a bica a essa hora. O resultado foi uma gigante dor de cabeça a duas horas de receber os meus convidados chez Ralha, cefaleia essa que fulminei com um comprimidinho milagroso, de venda livre, que a minha mãe toma para as suas torturantes dores, eu queria só uma aspirina, um panadol, mas ela só tinha codeína e pronto, lá enfiei um opiáceo para a corrente sanguínea (só por graça, em 2006, vou fazer análises ao sangue e, para além das venéreas, que só pela divina graça do espírito santo é que dariam positivas, vou pedir ao médico para me passar a credencial do serviço nacional de saúde para medir os meus níveis de THC, para ver se ando a abusar, eu aposto que não e só para ficar em acta, eu sei que parece difícil, mas nunca escrevo posts sob o efeito de quaisquer outras substâncias que não a nicotina).
Uma bomba de gasolina é demasiado deprimente para o primeiro café do ano.
Vou outra vez ao Galeto beber uma bica?
Vou buscar a minha mãe, que já me informou que morreram esta madrugada quatro pessoas no cruzamento da EUA com a Gago Coutinho?

Fiz uma pausa para mais um cigarro, abri umas tabs e fiz a ronda pelos blogues, para ver se há mais alguém acordado, sem ressaca, e em frenética produção bloguística. E há. (Nas análises que vou fazer, devia pedir o nível de blogger no meu sangue, creio que eu e o FTA rebentaríamos a escala, estaríamos em fase terminal, sem reabilitação possível).
O meu amigo blogger escreve (coisa filha da puta, essa, de escrever as resoluções, a palavra escrita pode ser um fantasma, uma maldição mesmo) que a sua única resolução para 2006 é estar mais atento. É uma bela resolução. Não vá é ficar cego de tanto ver, como a sua amiga do ip 213.22.73.21.

É tão bom escrever sem propósito, sem objectivo, apenas aliviar o cérebro. E como diria um dos meus bloggers favoritos, no seu maravilhoso quintal, que eu não posso linkar, a bem da minha saúdinha:

"Não escrevo bem nem mal. Escrevo até à insanidade"

"A esquizofrenia faz o blogger. Antes de começarem a escrever um texto, escolham a doença mental"

Foi há 20 anos

Há 20 anos, a minha avó Tóia morreu.
Sonhei a noite toda com a minha avó. Chamou-me abelha mestra, fez-me trançinhas com laços de seda, encaracolou a pontinha do cabelo com o dedo e depois, quando eu estava quase a acordar com o despertador, para ir entregar a miúda ao pai, e no sonho ela conheceu a Carolina e disse que ela era igual à Magui, despediu-se de mim, com uma festinha nas minhas bochechas.
E aqui, ao nosso lado, na fotografia, a morte estava tão perto, mas eu era tão pequenita, não sabia disso, não a via.

As doze passas

Não gosto de passas e, por isso, nunca faço os doze desejos da praxe.
Em 2006, porém, comecei uma nova tradição: enquanto todos contavam as sultanas, eu peguei no meu cigarrinho de substâncias ilícitas.
A cada passa, um desejo. Se resultar, para o ano há mais.